COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (2019)

(How to Train Your Dragon: The Hidden World)

 

Lançamentos #1

Dirigido por Dean DeBlois.

Elenco: Vozes de Cate Blanchett, T.J. Miller, Kristen Wiig, Kit Harington, Jonah Hill, Jay Baruchel, America Ferrera, Djimon Hounsou, Christopher Mintz-Plasse, F. Murray Abraham, Craig Ferguson e AJ Kane.

Roteiro: Dean DeBlois.

Produção: Bonnie Arnold e Brad Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quase uma década após o lançamento de “Como treinar o seu Dragão”, longa responsável por elevar a Dreamworks a outro patamar em termos de ambição narrativa, finalmente chegamos a conclusão da trilogia que acompanha a amizade entre um garoto e seu dragão de estimação. E se não atinge o nível de excelência do primeiro filme, “Como treinar o seu Dragão 3” cumpre bem seu papel e encerra dignamente a trajetória dos personagens, colocando um ponto final naquele ciclo sem impedir que novos filmes surjam futuramente e garantam mais alguns milhões de dólares para o estúdio.

Mais uma vez escrito pelo próprio Dean DeBlois, o roteiro nos leva de volta ao vilarejo onde dragões e humanos convivem em harmonia, conforme sonhado por Soluço (voz de Jay Baruchel). No entanto, o agora líder de Berk decide ir em busca do mundo secreto citado por seu pai, enquanto Banguela conhece uma companheira de espécie que recebe o nome de Fúria da Luz. Só que o caçador de dragões Grimmel (voz de F. Murray Abraham) surge para estragar os planos da dupla e obriga ambos a tomares decisões complexas em busca da salvação de suas espécies.

Seguindo o padrão estético dos outros filmes e, o que é melhor, demonstrando evolução, “Como treinar o seu Dragão 3” é um deleite visual, a começar pela direção de fotografia de Gil Zimmerman que além de dar vida aos cenários imaginados pelo excelente design de produção de Pierre-Olivier Vincent, ainda tem função narrativa ao, por exemplo, contrastar as cores sombrias que predominam as cenas envolvendo os vilões com o visual colorido e agradável das cenas que envolvem os vikings, o que reforça a sensação de bem estar e a empatia do espectador com os personagens. Além disso, o capricho da animação nos presenteia com momentos visualmente belíssimos como quando somos apresentados a ilha que serve de abrigo para a nova Berk ou a arrebatadora caverna abaixo de uma cascata que nos leva ao deslumbrante mundo secreto do subtítulo onde vivem os dragões.

Este capricho é perceptível também nos pequenos detalhes como a barba por fazer do Soluço e os movimentos naturais dos personagens e do próprio Fúria da Noite, que em diversos momentos remetem a gestos de cães e gatos, ganhando a simpatia do público infantil ao fazê-lo parecer um animal domesticado. Observe também como durante o encontro dos dragões apaixonados, DeBlois destaca os olhos de ambos, reforçando a empatia do público e demonstrando que aprendeu a lição que Spielberg já tinha ensinado em “E.T.”. A sequência do namoro, aliás, diverte com gags engraçadinhas que colocam o poderoso Fúria da Noite na posição de bobo apaixonado que não sabe o que fazer para conquistar a amada que domina completamente as ações, o que torna o personagem vulnerável e ainda mais interessante, em especial se considerarmos que momentos depois ele seria reverenciado como o rei dos dragões, em outra bela cena.

Reforçando a aura épica pretendida pelos realizadores desde o primeiro filme, a trilha sonora de John Powell sublinha os momentos grandiosos do longa, como quando Soluço fala sobre o sonho de encontrar o mundo secreto, enquanto o design de som se destaca em cenas como o namoro dos dragões, quando estes cruzam nuvens carregadas e mergulham nas águas para finalmente consolidar a relação, algo indicado pelos trovões que transmitem a tensão natural pré-conquista. O relacionamento dos casais, aliás, é outro ponto positivo de “Como treinar o seu Dragão 3”. Tanto Soluço e Astrid (voz de America Ferrera) quanto o casal de dragões demonstram entrosamento e agradam, assim como boa parte dos personagens coadjuvantes que continuam interessantes e cumprem bem seu papel, funcionando ainda como alívio cômico com piadas que funcionam razoavelmente bem na maior parte do tempo, como a rima narrativa com o primeiro filme (“Tem mesmo um plano?”) ou a minha favorita em que um personagem afirma que o mundo é redondo, provocando risos de seus colegas – e cutucando a bobagem contemporânea dos terraplanistas.

Letal diante dos dragões, como fica evidente na cena em que vislumbramos pela primeira vez com clareza a Fúria da Luz, Grimmel é mencionado como uma ameaça e já na cena seguinte aparece em Berk e ataca os vikings, o que prejudica um pouco a construção do personagem e reduz o impacto que sua aparição no vilarejo poderia causar. Vivendo uma história distinta de Soluço ao tomar uma decisão contrária a dele no passado diante de um Fúria da Noite, o vilão inicialmente parece mais ameaçador do que é de fato, ainda que tenha bons momentos como quando liberta uma prisioneira, apenas para segui-la e encontrar Berk – infelizmente, sua real intenção é revelada de maneira nada sutil.

Sutis, no entanto, são os flashbacks que, se por um lado exploram o velho clichê da conversa entre pai e filho diante do horizonte, por outro funcionam ao reforçar a nostalgia que domina o capítulo derradeiro da trilogia e trazem ainda momentos elegantes como a transição da conversa entre eles para o momento em que Soluço admira a cidade de Berk repleta de dragões. A propósito, a montagem de John K. Carr merece destaque por saltar bem entre as diferentes linhas narrativas que envolvem o namoro dos dragões, a busca pelo mundo secreto, a jornada de Soluço rumo a liderança de Berk e a perseguição de Grimmel sem jamais tornar o longa confuso.

Reafirmando o amadurecimento da própria Dreamworks, a temática mais adulta completa a jornada de Soluço rumo a maturidade lidando com questões importantes como a liderança de seu povo, o casamento e o futuro de sua amizade com Banguela e é precisamente neste aspecto que reside boa parte do sucesso da trilogia, pois muitos fãs se identificam com os dilemas do protagonista justamente por estarem em fase similar na vida, assim como ocorria no primeiro filme lançado há nove anos. A evolução de Soluço é também a evolução deles como seres humanos, o que torna a identificação com o personagem inevitável.

O ato final tem início logo após a solução do conflito sentimental dos personagens e a decisão de separarem-se, mas a batalha, apesar de muito bem coreografada, tem solução fácil demais, jamais levando o espectador a temer de fato pelos personagens, trazendo momentos até mesmo embaraçosos como quando Banguela se solta sozinho do nada e ataca Grimmel. Ainda assim, por alguns instantes “Como treinar o seu Dragão 3” ensaia um final trágico que teria um peso dramático infinitamente maior e bem acima do tom adotado pela trilogia até então – e que parecia ser construído durante a narrativa através de frases como “Um dia você irá entrar numa luta que não poderá vencer”. Seria, no entanto, um drama excessivo.

Chegamos então ao tocante momento da emancipação do Fúria da Noite e a inevitável separação dos amigos, que traz reflexões muito interessantes sobre o conceito de amizade e até mesmo sobre o sentimento de posse, ensinando como o desapego e a preocupação genuína com a felicidade do outro podem ser recompensadores. Pena que, assim como o casamento de Soluço e Astrid, a cena do reencontro dele com o Fúria da Noite soe desnecessária e feita apenas para aliviar o tom dramático da separação ocorrida instantes antes, mas nada que prejudique demais o belo trabalho feito até ali.

Flertando com um final bem mais pesado dramaticamente, “Como treinar o seu Dragão 3” encerra bem uma trilogia coesa, visualmente belíssima e que traz uma convincente jornada de amadurecimento de seu herói. Pois o fato é que a amizade verdadeira seguirá viva em nossas memórias e em nossos corações independente dos caminhos que a vida nos leve. Afinal de contas, a separação física não pode apagar os momentos que compartilhamos com seres que por um curto ou longo período tanto amamos e tão importantes foram em nossas vidas.

Texto publicado em 27 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

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