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GLADIADOR (2000)

25 maio, 2018

(Gladiator)

 

 

Videoteca do Beto #238

Vencedores do Oscar #2000

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Djimon Hounsou, Ralf Moeller, Tommy Flanagan, Spencer Treat Clark, Tomas Arana, Derek Jacobi, David Schofield, John Shrapnel, David Hemmings, Sven-Ole Thorsen, Giannina Facio, Giorgio Cantarini, Omid Djalili, David Bailie e Tony Curran.

Roteiro: David Franzoni, John Logan e William Nicholson.

Produção: David Franzoni, Branko Lustig e Douglas Wick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando foi lançado no início dos anos 2000, “Gladiador” rapidamente tornou-se sucesso de público e crítica, tornando-se um legítimo representante dos grandes épicos e coroando sua trajetória na noite do Oscar, quando venceu o prêmio de melhor filme. No entanto, nos anos seguintes o longa rapidamente entrou para o rol dos filmes vencedores do prêmio da Academia que passam de queridinhos a odiados, sendo tratado de forma pejorativa entre muitos cinéfilos. Felizmente, o distanciamento histórico permite constatar que o filme de Ridley Scott não é a obra-prima que se dizia em seu lançamento e muito menos a porcaria que outros afirmaram ser nos anos seguintes. Trata-se de um épico digno, com belíssimos momentos e uma boa dose de cenas impactantes, que merece o reconhecimento dentro daquilo que se propõe a fazer.

Escrito a seis mãos por David Franzoni, John Logan e William Nicholson, o roteiro de “Gladiador” é uma salada histórica repleta de acertos e erros desnecessários, que desenvolve seus personagens de maneira irregular, mas consegue achar um fio condutor no arco dramático de seu protagonista, o general romano Maximus (Russell Crowe) que, após anos sendo o homem de confiança do imperador Marcus Aurelius (Richard Harris), acaba sendo condenado à morte por Commodus (Joaquin Phoenix), o filho do imperador que assassina o pai para herdar o comando do império. Após sobreviver e fugir, Maximus é capturado, vendido como escravo e retorna a Roma para lutar como gladiador.

Se acerta ao mostrar como a política romana era movida por interesses pessoais, traições e o desejo pelo poder, o que nada difere do cenário político atual em muitas partes do planeta, “Gladiador” escorrega ao fazer desnecessárias alterações na história que não agregam a narrativa e nem reforçam o impacto emocional que o longa naturalmente carrega, como ao ocultar o fato de Marcus Aurelius ter preparado o filho para ser seu sucessor em seus últimos anos de vida e, o que é pior, transformar Commodus no assassino do pai, quando na verdade ele de fato exilou e mandou executar alguém de sua família, mas foi a irmã Lucilla (Connie Nielsen), algo que é ignorado pelo roteiro, que ainda traz a irmã discursando sobre o corpo do egocêntrico imperador morto no Coliseu (o que também não ocorreu, já que ele foi estrangulado enquanto tomava banho).

É verdade que Commodus adorava as lutas e chegou mesmo a entrar na arena como gladiador (ele se considerava o novo Hércules), assim como o Imperador sabia da força política do pão e circo como forma de controle da população – e seu pai jamais proibiu os jogos, ao contrário do que é dito no filme. Da mesma forma, o roteiro acerta ao retratar Lucilla articulando politicamente com o Senado para assassinar o irmão, o que motivou sua morte na história real. Nota-se, portanto, que as alterações no roteiro não precisavam existir, já que a história verdadeira é impactante e funcionaria muito bem, sendo perfeitamente possível inserir a trajetória fictícia de Maximus neste contexto.

Igualmente responsável pela versão nada fiel da história que retrata, já que é um diretor que quase sempre teve direito ao “final cut”, Ridley Scott ao menos compensa este deslize com uma direção vigorosa nos momentos mais importantes do longa. Focando muito mais na trajetória de Maximus do que na articulação política em volta dele, Scott e seu montador Pietro Scalia acertam em momentos importantes como as batalhas no Coliseu e imprimem um ritmo interessante que não deixa jamais a narrativa tornar-se cansativa. Além disso, o diretor consegue extrair boas atuações de praticamente todo seu elenco, mesmo diante de personagens desenvolvidos de maneira tão irregular.

Obviamente, o mais completo deles é o protagonista Maximus, interpretado pelo talentoso Russell Crowe, que se impõe compondo um homem sério e que transmite a virilidade exigida tanto de um general quanto de um gladiador, mas que encontra espaço para demonstrar valores caros ao personagem como a lealdade ao imperador que servia e o amor a família que deixou para trás, assim como o desejo de vingança que exala em momentos como quando ele anuncia seu verdadeiro nome para Commodus em pleno Coliseu. O raro momento em que as expressões rígidas de Maximus se quebram quando encontra a família assassinada é também aquele que comprova a capacidade de Crowe, que carrega “Gladiador” com enorme facilidade.

 

Já o Juba de Djimon Hounsou não conta com a mesma atenção do roteiro, surgindo de maneira arbitrária e rapidamente sendo transformado no grande amigo de Maximus, sendo descartado com a mesma facilidade com que aparece na trajetória do protagonista. Ainda assim, consegue criar empatia com ele, demonstrando força e lealdade até o momento final, ainda que, diferentemente da forma como é mostrado no longa, os gladiadores não faziam amizade justamente por saber que poderiam se enfrentar numa batalha em que apenas um sobreviveria.

Commodus, por sua vez, faz a completa transição do inicialmente cansado e até mesmo frágil Imperador sugado pela politicagem ao redor para o sociopata cruel e desprovido de traquejo político que não hesita em usar o sobrinho como ferramenta para ameaçar a irmã, pela qual era apaixonado. Dissimulado e exagerando nas lamentações que enfraquecem o Imperador, Joaquin Phoenix se recupera no ato final, transmitindo a insanidade de um homem que era tão egocêntrico que chegou a mudar o nome de Roma para Commodiana – algo que “Gladiador” também oculta.

Extremamente política, a Lucilla de Connie Nielsen sabe que a loucura do irmão jamais lhe permitiria conquistar o respeito do Senado e enxerga na morte dele a chance de assumir o comando do império, enquanto o Proximo de Oliver Reed é um personagem confuso, que hora parece motivado apenas pelo lucro que sua atividade lhe traz e, em outros momentos, assume um código moral incoerente com sua postura até então. Finalmente, Richard Harris completa o elenco principal vivendo um Marcus Aurelius complexo, que transmite sabedoria em seus poucos minutos em cena.

Ao contrário da irregularidade de seus personagens, a parte técnica de “Gladiador” é extremamente coesa em sua competência, a começar pela direção de fotografia de John Mathieson que realça os tons áridos da província, transmitindo a angústia do protagonista escravizado que nem mesmo na imponente Roma se dissipa, com seus tons dourados que reforçam o poderio econômico da capital do império, concluindo seu coerente trabalho no sombrio ato final que realça o sentimento de Commodus durante a tensa conversa com o sobrinho na qual ele descobre a traição da irmã. Da mesma forma, o design de produção de Arthur Max também merece destaque pela forma detalhista em que trabalha desde pequenos objetos até a decoração das imponentes construções, assim como os impecáveis figurinos de Janty Yates que complementam o ótimo trabalho de ambientação.

E enquanto a solene trilha sonora de Lisa Gerrard e Hans Zimmer cria composições que, além de belas e coerentes com a época em que se passa a narrativa, permanecem na memória do espectador por um longo período, o design de som transforma os gritos dos romanos ainda mais impactantes dentro da arena, assim como nos permite distinguir o barulho das armas, dos cavalos e o eco dos gritos na batalha que abre o longa. Por outro lado, a batalha em si não impressiona e empalidece diante de tantas outras marcantes, como a de Stirling no quase contemporâneo “Coração Valente”, lançado 5 anos antes de “Gladiador”, talvez por que Scott abuse dos planos fechados e crie uma confusão mental no espectador, que não compreende muito bem o espaço geográfico onde ocorre a cena, além da falta de planos gerais que impede que tenhamos noção da magnitude do conflito.

Planos gerais que quando surgem nos permitem contemplar a esplendorosa Roma recriada com efeitos visuais impressionantes, nos levando de volta aos anos de glória do império. Dentre as inúmeras construções grandiosas da imponente capital, é claro que o Coliseu é a grande estrela (ainda hoje, diga-se) e o trabalho de recriar a gigantesca arena é digno de aplausos. Ciente disso, na primeira vez que o adentramos, Ridley Scott nos coloca num plano baixo que acompanha os gladiadores e engrandece ainda mais o local, reforçando o impacto dele sobre os personagens e o espectador. Aliás, a primeira batalha no Coliseu é muito interessante, especialmente pelas escolhas do diretor, que desta vez acerta ao abusar de planos gerais que realçam a estratégia militar adotada por Maximus e seguida pelos companheiros. Além disso, mais uma vez o design de som colabora para nos jogar dentro da arena e tornar tudo aquilo ainda mais empolgante.

Trazendo ainda momentos emocionantes como o citado retorno de Maximus para encontrar a família cruelmente assassinada, a bela cena do beijo entre ele e Lucilla e a tocante sequência final em que deixa este mundo e reencontra sua família em outro plano qualquer, não há como negar a força deste épico grandioso, mesmo com erros históricos facilmente evitáveis. Talvez se você for frio ou cruel como Commodus. 

Texto publicado em 25 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

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