A PRAIA (2000)

(The Beach)

 

 

Videoteca do Beto #235

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Robert Carlyle, Tilda Swinton e Paterson Joseph.

Roteiro: John Hodge, baseado em romance de Alex Garland.

Produção: Andrew Macdonald.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um diretor em ascensão conhecido pela habilidade na abordagem de narrativas voltadas para o público jovem, um ator jovem, talentoso e igualmente em plena ascensão e um cenário paradisíaco num dos países mais exóticos do circuito turístico são os ingredientes que poderiam fazer de “A Praia” um grande sucesso de público e crítica. E se utilizo a palavra “poderiam” é por que o resultado, infelizmente, fica aquém do esperado, especialmente pelo roteiro pouco coeso que não sabe muito bem em que direção seguir, algo que nas mãos de um diretor nada enxuto como Boyle se torna um problema ainda maior.

Escrito por John Hodge, baseado em romance de Alex Garland, “A Praia” nos apresenta ao jovem Richard (Leonardo DiCaprio) que, numa viagem a Bangkok, encontra um sujeito estranho que lhe conta sobre uma misteriosa praia numa ilha antes de cometer suicídio e deixar o mapa do local. Após conversar com um casal de franceses, Françoise (Virginie Ledoyen) e Étienne (Guillaume Canet), os três decidem partir em busca da ilha e, ao chegarem lá, encontram uma sociedade alternativa que vive com suas próprias regras, sob a liderança de Sal (Tilda Swinton).

O início de “A Praia” não poderia ser mais promissor. Através de uma eficiente apresentação do personagem central e de suas motivações, que se torna ainda mais interessante na voz do próprio protagonista, Boyle logo de cara estabelece a linguagem jovial característica de sua filmografia e que tem tudo a ver com o clima da narrativa, conectando-se imediatamente com a fatia mais jovem e aventureira da plateia e mantendo esta conexão em boa parte do longa através do uso de músicas contemporâneas e até mesmo de recursos cinematograficamente pouco usuais como telas de videogame.

Esta direção histriônica transmite uma energia que faz bem ao filme, especialmente no início quando tanto o protagonista quanto o espectador estão excitados pela simples expectativa de chegar a mítica praia, tão famosa naquele universo diegético que até inspira mochileiros a pensarem nela como mais uma das muitas lendas urbanas comuns em tantos lugares do mundo. Este clima de aventura é importante para que o espectador se sinta como um dos viajantes que partem em busca do local misterioso, criando a empatia necessária para que ele sinta a praia como o próprio Richard, o que será vital quando os conflitos surgirem e o choque, inevitável, virar realidade.

O próprio Di Caprio exagera nas expressões em diversos instantes, o que é coerente com a intenção do diretor de criar esta atmosfera empolgante, repleta de adrenalina, como se a ilha e a própria praia fossem alucinógenos que abastecem a necessidade daquele jovem por aventuras. Por isso, quando cruza com turistas regulares que buscam apenas as praias comuns e as massagens tailandesas nas areias de Bangkok, Di Caprio lança um olhar de desprezo, como se aquilo fosse algo totalmente sem sentido para ele. O que Richard buscava era adrenalina e não relaxamento.

Aliás, a loucura provocada pelas drogas ou qualquer situação extrema é um tema recorrente na filmografia de Boyle, que muitas vezes ilustra as viagens mentais de seus personagens de maneira criativa, nos permitindo participar do processo ativamente, e aqui não é diferente. No entanto, é justamente quando se aprofunda demais nesta abordagem que o diretor perde a mão, no instante em que Richard enlouquece, já no segundo ato, quando a narrativa perde força enquanto ele se isola dos demais e vive sua loucura particular – ainda assim, existem acertos, como quando ele conversa sobre “O Perdedor” e seu rosto surge afundado nas sombras, realçando seu desequilíbrio momentâneo. Desnecessário também é o momento em que Richard alivia a dor do sueco ferido, numa ação incoerente com o personagem até então. Só que, apesar do roteiro irregular não cooperar, Di Caprio segura bem o papel e ajuda a salvar o longa do fracasso.

“A Praia” traz também uma gama de personagens periféricos interessantes, como o excêntrico Sr. Patolino, o “Perdedor”, que fala sobre a ilha e a praia misteriosa para Richard no início e os carismáticos franceses que cruzam o caminho dele. No entanto, o personagem mais interessante não é de carne e osso, mas tem vida própria e é o alvo de toda aquela jornada. Aumentando a expectativa por sua aparição através da trilha sonora empolgante que embala a viagem até ela e da aura mística que a cerca antes da primeira aparição, a praia não decepciona em nada quando surge aos olhos do espectador, sendo um verdadeiro deleite admirar aquele local extraordinário que não poderia fazer mais jus à fama que recebe. Captadas com perfeição pela fotografia de Darius Khondji, aquelas paisagens criam um visual arrebatador, que ganham contornos românticos nas muitas cenas noturnas em que fica evidente o uso da técnica conhecida como noite americana, notável por exemplo na linda cena do beijo entre Richard e Françoise.

O contraste entre a beleza daquele lugar e as grandes cidades fica evidente quando eles voltam a Bangkok, com a câmera agitada, o som dos carros e pessoas transitando e o alto volume da trilha sonora causando uma sensação incômoda que reflete o que os personagens sentiam distantes da praia. Até por isso, os premiados moradores daquele paraíso criaram um código rígido de regras que buscava preservar a natureza mítica do local, o que também acaba gerando problemas pela forma como este código é conduzido por sua líder – voltaremos a ela em instantes.

Mas nem só de beleza vive “A Praia” e descobrimos isso de maneira traumática através das fortes imagens que surgem repentinamente após um dos integrantes da comunidade ser atacado por um tubarão. O banho de sangue, exposto propositalmente por Boyle, demonstra que a natureza pode ser bela, mas igualmente cruel. Mais cruel ainda, no entanto, é a postura do restante do grupo que trata o companheiro ferido com desprezo, numa postura até mesmo pouco realista diante da gravidade da situação, que estereotipa pessoas que querem viver apenas da natureza como selvagens sem sentimento, o que é bem questionável. Por outro lado, quando eles decidem largar o ferido no meio das árvores para não sofrerem mais com seus gemidos, de certa forma estão agindo como boa parte da sociedade que prefere não ver os problemas do local onde vive, apoiando, por exemplo, a remoção de pessoas carentes, mendigos e moradores de rua de forma brutal pelo Estado (num processo cruelmente chamado de “higienização”), para que possa transitar livremente e pensar que tais problemas sociais não existem.

Esta postura impassível que muitos esperam do Estado nas grandes cidades aqui é representada pela figura de Sal, a líder da comunidade vivida corretamente de maneira fria e rígida por Tilda Swinton. Através do olhar gélido e da voz firme, ela impõe respeito como alguém extremamente controladora, que adota uma postura ditatorial para tentar preservar seu paraíso quase particular, provocando calafrios naqueles que quebram esta regra sagrada, como fica evidente no reencontro de Richard com os compatriotas para quem havia entregue o mapa da ilha, no qual ele surge com o rosto sob tons vermelhos, ilustrando seu inferno astral e o pecado que havia cometido. Só que, como saberemos na boa conclusão da narrativa, nenhum paraíso resiste a esta postura controladora e extremista. Assim, tanto Tilda quanto Di Caprio encerram muito bem este conflito de ideias no confronto final entre os personagens, que escancara o lado podre da líder do grupo e destrói de vez o sonho de viver na mítica praia. E é justamente na destruição deste sonho que “A Praia” escorrega.

Partindo de um ponto inicial repleto de boas ideias, o longa dirigido por Danny Boyle escorrega em diversos detalhes e acaba soando moralista demais, quase que julgando a intenção daquelas pessoas de viverem afastados do mundo moderno como algo errado e impossível de se praticar. Uma pena.

Texto publicado em 09 de Maio de 2017 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “A PRAIA (2000)”

  1. Antonio Manuel Says:

    Boa noite. Caro amigo, você poderia, por favor, aumentar a frequência de postagens ( pelo menos um filme por semana)? Além disso, um ciclo de filmes do ícone Gene Hackman ( sobretudo dos anos 80 e 90)? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

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