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O FRANCO-ATIRADOR (1978)

21 fevereiro, 2013

(The Deer Hunter)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #102

Vencedores do Oscar #1978

Dirigido por Michael Cimino.

Elenco: Robert De Niro, Christopher Walken, Meryl Streep, John Cazale, John Savage, Chuck Aspegren, Pierre Segui, George Dzundza, Shirley Stoler e Rutanya Alda.

Roteiro: Deric Washburn, baseado em argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker.

Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall e Barry Spikings.

O Franco-Atirador[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criar expectativas é algo sempre negativo quando falamos de cinema. Quanto maior a expectativa criada, maiores são as chances de nos decepcionarmos com um filme, ainda que este apresente um resultado agradável. Mas como não se empolgar quando os créditos iniciais anunciam nomes como os de Robert De Niro, Meryl Streep e John Cazale, além do menos badalado, mas também competente Christopher Walken? No entanto, ainda que seja tecnicamente bem realizado e tente apostar numa interessante abordagem intimista, “O Franco-Atirador” se perde completamente em seus aspectos políticos e éticos, chegando a soar ofensivo e racista pela maneira desprezível que o diretor Michael Cimino retrata os rivais norte-americanos na guerra do Vietnã.

Escrito por Deric Washburn a partir de argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker, “O Franco-Atirador” narra a trajetória dos amigos Michael (De Niro), Nick (Walken) e Steven (John Savage), que são convocados para a Guerra do Vietnã e se veem obrigados a deixarem a família e os amigos para trás. Após viverem experiências traumáticas no conflito, dois deles conseguem regressar ao país, mas a vida de todos os envolvidos nunca mais será a mesma após eles terem experimentado os horrores da guerra.

Partindo da interessante premissa de nos apresentar as graves consequências psicológicas provocadas pela guerra naquele grupo de trabalhadores de uma pequena cidade no interior dos EUA, “O Franco-Atirador” se apoia ainda em seu excepcional elenco, repleto de nomes capazes de carregar qualquer narrativa com facilidade. Portanto, é uma pena que Cimino utilize um elenco de primeira qualidade num filme tão maniqueísta, que beira o jingoísmo pela forma como retrata os vietnamitas (voltarei ao tema em instantes).

Ainda assim, o longa apresenta um resultado agradável quando observamos somente os aspectos técnicos da produção. Observe, por exemplo, como a fotografia de Vilmos Zsigmond realça o clima melancólico daquela cidade industrial, apostando em cores frias que casam bem com a sujeira das ruas e os galhos secos das árvores, assim como fazem os figurinos sem vida de Eric Seelig e os ambientes poucos iluminados concebidos pelo design de produção de Ron Hobbs e Kim Swados. Da mesma forma, os tristes acordes da canção tema reforçam esta atmosfera, assim como as boas músicas escolhidas para a trilha sonora de Stanley Myers, com exceção apenas da trilha erudita que confere um tom épico à caçada dos cervos nas montanhas.

Montanhas que são captadas com elegância pelos belos enquadramentos de Cimino, que ainda apresenta um bom repertório de planos e movimentos de câmera interessantes. Por isso, mais uma vez é lamentável que o diretor utilize este talento para enviar mensagens nada sutis, como quando faz questão de focar por um longo tempo a bandeira dos Estados Unidos e a faixa com os dizeres “Servimos a Deus e a pátria com orgulho”. Além disso, em certo momento um homem pergunta para Michael se “nós ganhamos a guerra” e fica sem resposta, escancarando a grande fantasia norte-americana de ter vencido no Vietnã, que ficaria ainda mais evidente nas produções vindouras do país durante a “era Reagan”.

Apostando numa abordagem mais intimista na primeira metade do filme, Cimino investe um longo tempo no desenvolvimento das relações entre os personagens, mostrando o grupo bebendo no bar e se divertindo, o que ajuda a criar empatia com a plateia. No entanto, o pretensioso diretor se empolga e estende demais a sequência do casamento e da festa, que claramente poderia ser enxugada pelo montador Peter Zinner para melhorar o ritmo da narrativa. Ainda assim, esta longa sequência serve para nos aproximar daquelas pessoas, especialmente de Michael e Nick, que evidenciam suas fortes personalidades durante a caçada que precede o embarque para o Vietnã. Assim, quando este momento se aproxima, já nos sentimos mais íntimos daqueles jovens, o que confere um tom ainda mais melancólico à cena da despedida no bar, com as expressões tristes dos personagens, a música tocada no piano e o próprio travelling lento de Cimino que é abruptamente cortado pelas explosões das bombas já no Vietnã.

Clima melancólicoServimos a Deus e a pátria com orgulhoPovo do VietnãDemonstrando um maniqueísmo nojento desde o primeiro minuto no Vietnã em que um soldado local surge explodindo mulheres e crianças, Cimino não se envergonha de retratar a guerra como um conflito claramente dividido entre os norte-americanos bonzinhos que vieram pregar a paz e os cruéis vietnamitas que se aglomeram e pagam para ver pessoas explodindo as próprias cabeças, esquecendo-se das motivações políticas desprezíveis que levaram os EUA a intervir naquela guerra. Aliás, o povo do Vietnã é retratado como um bando de idiotas, numa coleção de seres da pior estirpe, como assassinos, jogadores sedentos por sangue e prostitutas que vendem o corpo diante dos próprios filhos. Além disso, as manifestações em massa sempre buscam deteriorar a imagem daquelas pessoas, como no primeiro plano da volta de Michael ao Vietnã que mostra o povo tentando desesperadamente invadir a embaixada norte-americana.

Ciente de que suas cenas de combate não impressionam, Cimino rapidamente salta do momento da chegada ao Vietnã para a sequência em que Michael, Nick e Steven estão presos. Assim, se num instante acompanhamos o grupo sofrendo um bombardeio, na cena seguinte eles já surgem enjaulados, em outro corte abrupto que desta vez depõe contra o trabalho dele e de seu montador. Ao menos, aqui Cimino consegue criar momentos de alta tensão, extraindo ainda excelentes atuações de seu elenco. Observe, por exemplo, como John Savage demonstra com precisão o desespero e a angústia de Steven enquanto aguarda para ser chamado pelos cruéis vietnamitas, ao passo em que De Niro transmite tranquilidade ao parceiro e ao espectador com seu tom de voz baixo e controlado. Durante o jogo da roleta russa, De Niro novamente se destaca, demonstrando muito bem sua ira e, ao mesmo tempo, sua compaixão pelo sofrimento do amigo.

Aliás, Christopher Walken também apresenta um desempenho excepcional nesta sequência eletrizante, com seu riso tenso e o olhar assustado demonstrando que Nick não sabe o que esperar diante daquela angustiante situação, segundos antes de Michael atirar nos vietnamitas e conseguir escapar. E se repito por diversas vezes a expressão “vietnamitas”, é porque Cimino faz questão de sequer dar nome aos habitantes locais, na mais perfeita confirmação de sua visão ufanista do conflito. Deste ponto em diante, o solitário Nick começa a se desapegar do passado e a perder o sentido na vida, perambulando pelo Vietnã até se reencontrar nos perigosos jogos de roleta russa promovidos por um grupo clandestino local. Após as torturas sofridas na guerra, viver ou morrer era indiferente, apenas uma questão de sorte que ele estava disposto a encarar.

Entre os que ficaram nos Estados Unidos, John Cazale encarna Stoch como alguém que parece sempre irritado e desconfiado, ao ponto de andar com uma arma na cintura e transmitir a constante sensação de que está sempre pronto para uma briga, ao passo em que George Dzundza pouco pode fazer com o tempo que tem com seu John. E finalmente, a grande Meryl Streep já demonstrava seu talento neste que é apenas o seu segundo papel na carreira. Mesmo com uma participação relativamente pequena, ela consegue conferir humanidade a Linda, equilibrando-se entre a felicidade ao ver Michael de volta e a tristeza por não reencontrar Nick.

Angústia de StevenNick não sabe o que esperarHumanidade a LindaSentindo-se deslocado nesta volta ao país, Michael sequer consegue caçar e chega ao ponto de fazer a tal roleta russa com Stoch, num momento de pura insanidade que poderia tirar a vida do amigo. Demonstrando este incômodo com precisão, De Niro mais uma vez comprova sua enorme qualidade como ator, compondo outro personagem impactante através de suas expressões viscerais durante as torturas na guerra que se contrapõem diretamente aos olhares contidos em sua volta; que, por sua vez, refletem as graves consequências de tudo que ele sofreu.

Infelizmente, esta sequência da volta de Michael também é mais extensa do que deveria e quebra novamente o ritmo da narrativa, que só retoma o fôlego quando ele decide voltar ao Vietnã para resgatar o amigo perdido, nos levando a outra cena eletrizante envolvendo os jogos de roleta russa que culmina na impressionante morte de Nick – e aqui vale reparar como a fotografia se torna mais sombria, apostando na falta da luz para criar uma atmosfera sufocante. Após ver Steven ficar paralítico, Michael estava agora diante de um novo trauma, testemunhando a morte do amigo de maneira tão idiota.

Só que, aparentemente, nem mesmo os trágicos resultados da guerra fazem com que aquele grupo de pessoas questione as motivações de seu país, o que nos leva à deprimente cena que encerra “O Franco-Atirador”, com todos cantando “Deus abençoe a América” e confirmando a visão míope de Cimino. Assim, a longa extensão e o maniqueísmo exacerbado da narrativa acabam ofuscando a boa intenção de mostrar os trágicos resultados psicológicos e físicos da guerra.

O Franco-Atirador foto 2Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A CONVERSAÇÃO (1974)

19 novembro, 2010

(The Conversation)

 

Filmes em Geral #31

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Harrison Ford, Frederic Forrest, Cindy Williams, Michael Higgins, Elizabeth MacRae, Teri Garr, Mark Wheeler e Robert Duvall.

Roteiro: Francis Ford Coppola.

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Francis Ford Coppola já era um diretor renomado quando decidiu filmar este pequeno e ousado projeto pessoal, que é ao mesmo tempo um thriller eletrizante de investigação e um maravilhoso estudo de personagem. Em “A Conversação”, o diretor invade a mente paranóica de um homem insatisfeito com a profissão que tem e, principalmente, com o mal que suas ações causam nas pessoas, ao mesmo tempo em que nos leva numa investigação devastadora e instigante.

O espião Harry Caul (Gene Hackman) é contratado pelo diretor de uma grande empresa (Robert Duvall) para vigiar e gravar a conversa de sua esposa com um amigo do trabalho, que supostamente seria seu amante. Conhecido por sua competência e profissionalismo, Harry começa a entrar em pânico quando percebe os efeitos de seu trabalho na vida das pessoas, principalmente após imaginar que sua investigação será responsável pela provável morte do casal de amantes.

Escrito pelo próprio Coppola, “A Conversação” é um thriller intenso, repleto de reviravoltas e que prende constantemente a atenção do espectador. Segundo o espetacular livro “Como a geração sexo-drogas-e-rock n’ roll salvou Hollywood”, de Peter Biskand, o próprio Coppola admitia ter se inspirado no mestre Hitchcock quando pensou em realizar o longa, e as influências do mestre do suspense podem ser percebidas, por exemplo, através das interessantes reviravoltas na trama, como quando as fitas gravadas vão parar nas mãos do presidente através da mulher que dormiu com Harry. Empregando freqüentemente o zoom, como na espetacular cena de abertura que mostra um enorme pátio e lentamente nos leva até Harry, seguida pela seqüência da gravação da conversa em que a câmera destaca o casal, o diretor nos coloca na mesma posição daqueles que ouvem as gravações, inclusive com as interferências no som provocadas pela movimentação de ambos. Desta forma, logo no início quando vemos Harry observando aquelas duas pessoas enquanto sua equipe cuida dos microfones estrategicamente posicionados em janelas, inconscientemente passamos a ter enorme interesse naquela conversa, o que serve para prender o espectador durante boa parte do primeiro ato, enquanto Harry tenta desvendar o conteúdo da gravação em sua equipada sala de trabalho. A detalhada (e bagunçada) aparelhagem, aliás, reflete também o estado psicológico de Harry, completamente atormentado pela vida que leva, atestando o bom trabalho de direção de arte. Observe o contraste entre seu ambiente de trabalho (repleto de objetos) e seu apartamento (vazio), refletindo a enorme diferença entre sua bem sucedida vida profissional e sua solitária vida pessoal. E é exatamente quando estes mundos começam a se misturar que os problemas começam, quando o espião demonstra enorme irritação diante das perguntas de seu parceiro Stan (John Cazale) – algo que ele já havia demonstrado antes, quando sua vizinha lhe dá um presente. Coppola nos coloca propositalmente na posição do detetive enquanto este ouve repetidas vezes as gravações, ilustrando com imagens da conversa enquanto ouvimos as falas do casal, e por isso, quando ele começa a desconfiar que seu trabalho servirá para provocar um assassinato, o espectador também compartilha deste sentimento. Coppola demonstra habilidade ainda quando utiliza o close em Hackman quando Harry confessa ao padre os seus pecados, criando um momento intimista e belo, além de utilizar novamente o zoom quando ele escuta uma conversa no quarto do hotel, nos levando junto com o personagem pra dentro da situação. Situação que pode ser resumida em um único plano, quando Harry contempla um quadro com a imagem de uma ilha, num simbolismo claro para a sua própria condição de isolamento e impotência diante do que descobrira e da impossibilidade de evitar aquele assassinato.

O longa claramente sofre uma queda de ritmo no segundo ato, enquanto Coppola aproveita para inserir elementos que servem para aumentar a paranóia do personagem (e do espectador também), como quando o assistente do diretor (Harrison Ford) pede para ficar com as gravações e passa a perseguir o vigia. Esta queda colabora ainda mais para que o tenso terceiro ato tenha grande impacto no espectador, o que se revela uma inteligente estratégia do diretor e de seus montadores Richard Chew e Walter Murch. Felizmente, o ritmo lento é compensado pela qualidade dos diálogos e pela constante sensação de medo do personagem principal, como por exemplo, durante a festa após a feira, quando temos mais um indício do estado psicológico de Harry, que se revolta ao saber que suas falas foram gravadas por uma simples caneta – e Hackman demonstra bem a raiva do personagem neste momento. Este clima angustiante é ainda mais palpável graças à tensa trilha sonora de David Shire, toda tocada em piano.

Coppola conta também com a fotografia granulada e com poucas cores de Bill Butler, reforçada pelos figurinos sem vida de Aggie Guerard Rodgers, que ilustram a angústia de Harry. E conta principalmente com um inspirado Gene Hackman, que transmite muito bem o incomodo do personagem diante da vida que leva. Extremamente desconfiado, exatamente por saber das possibilidades que a espionagem possibilita, Harry demonstra até mesmo através da fala contida e do olhar inquieto sua enorme insegurança, algo que fica evidente quando deixa o prédio sem entregar as fitas para a pessoa que o contratou. Quando liga para Stett, o assistente do diretor, ele gagueja e sua perna treme, transmitindo com exatidão a aflição do personagem, que começa efetivamente a se transformar quando ouve uma frase da moça na gravação, sobre as pessoas que dormem na praça. A reflexão dela ecoa na cabeça de Harry em todo instante, pois assim como aquelas pessoas, as vítimas de suas gravações também já foram um dia os queridinhos de um pai e de uma mãe, o que faz Harry se sentir cada vez mais culpado pela profissão que tem – algo refletido também pela fotografia sombria quando ele se deita na cama após a festa e tem um pesadelo. Hackman é o elo entre o espectador e a trama e graças à sua boa atuação o espectador embarca junto com ele na narrativa. Personagem vital na cena que dá os primeiros indícios do estado mental de Harry, Stan, interpretado pelo ótimo John Cazale, é alguém extremamente curioso e falastrão, o que se revela um perigo real para o angustiado Harry e, conseqüentemente, provoca uma grande mágoa em Stan quando este descobre a desconfiança do parceiro de trabalho – algo que Cazale demonstra muito bem, especialmente quando encontra o parceiro numa feira. Vale citar ainda a pequena participação de Robert Duvall como o presidente da empresa, demonstrando em poucos minutos o quanto estava irritado com toda aquela situação. Ainda assim, naquele instante o espectador não sabe exatamente do que se trata, pensando apenas ser mais um caso de traição e de crime passional.

A trama é conduzida com segurança para um momento digno de gelar a espinha de qualquer um. Após resolver tentar evitar aquele final trágico, Harry parte para o local do encontro do casal citado nas gravações. A cena caminha lentamente até o momento em que o espião ouve gritos e vê sangue no vidro do quarto vizinho, provocando o desespero no personagem. Só que quando ele decide invadir o quarto, encontra tudo limpo e tranqüilo, o que gera dúvida sobre a realidade do que vimos até então. A dúvida se dissipa no aterrorizante momento em que Harry descobre sangue dentro da privada, capaz de provocar verdadeiro pânico no espectador, até por causa da excepcional condução de Coppola, que cria o suspense através do silêncio e da lenta descoberta do espião. Assim como o personagem, estamos chocados com o que vemos, mas também como Harry, ainda temos dúvidas sobre a veracidade de tudo aquilo. Seria realidade ou apenas fruto da imaginação do personagem? O final sensacional revela a última grande reviravolta da narrativa e, no melhor estilo Hitchcock, atira de volta na platéia tudo que estávamos pensando até aquele momento. O grande vilão na realidade era a vítima de toda aquela conspiração. Assim como Harry, terminamos o filme desolados, inquietos e até mesmo um pouco paranóicos.

Conduzindo a narrativa com extrema segurança e prendendo a atenção do espectador até o último plano, Coppola entrega um thriller intenso, que ainda tem o mérito de investigar a fundo a mente conturbada de um homem claramente afetado pelo trabalho que realiza. Com uma interpretação brilhante de Gene Hackman, “A Conversação” se estabelece como mais um trabalho memorável na carreira do genial Francis Ford Coppola.

Texto publicado em 19 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

UM DIA DE CÃO (1975)

2 novembro, 2009

(A Dog Day Afternoon)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #15

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Penelope Allen, James Broderick, Chris Sarandon, Sully Boyar, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Gary Springer, Carmine Foresta e Lance Henriksen.

Roteiro: Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore. 

Produção: Martin Bregman e Martin Elfand.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um assalto mal planejado, que deveria durar dez minutos e acabou durando mais de dez horas, tornando-se o principal evento da televisão norte-americana no dia, é contada com maestria pelo excelente Sidney Lumet, auxiliado por uma atuação magnífica de Al Pacino e um trabalho técnico muito competente que tornou o filme extremamente realista.

Precisando de dinheiro para pagar a cirurgia de mudança de sexo de seu namorado, Sonny (Al Pacino) resolve assaltar um banco acompanhado de seu amigo Sal (John Cazale). Dez horas depois, eles ainda estavam dentro do prédio com os reféns, cercados pela polícia, pela imprensa e por curiosos de plantão.

Lumet inicia o longa com diversos planos que contrastam as diferenças sociais, nos ambientando na cidade. Também mostra alguns cachorros na rua, fazendo uma alusão ao nome do filme. A introdução embalada pela ótima música nos leva até o carro onde estão Sonny, Sal e Stevie. Os minutos seguintes são responsáveis por captar a atenção do espectador, que ficará grudado na tela por duas horas, em um clima misto de tensão e humor negro.

O diretor é hábil ao conseguir, com a ajuda de sua equipe técnica, manter um constante clima de urgência, mantendo uma sensação de que sempre algo pode acontecer inesperadamente na tela. Ele mantém a câmera em movimento em muitos momentos, como se estivéssemos em um documentário. Também é muito eficiente na hora de captar e coordenar o exército de figurantes do filme. Quando Sonny começa a ligar para as pessoas importantes de sua vida, Lumet vai aproximando a câmera de seu rosto, transmitindo o desespero dele e realçando a ótima atuação de Pacino, que já está exausto. Seu rosto molhado e seus cabelos ainda mais desarrumados refletem isto. A agilidade das cenas é mérito também da excelente montagem de Dede Allen e Angelo Corrao, que consegue criar este clima de urgência sem soar confuso. Um exemplo do bom trabalho de montagem é a cena do tiro de Sonny na janela, onde podemos ver a reação em todo o ambiente praticamente de forma simultânea. Outro exemplo é a surpreendente cena final, onde em questão de segundos podemos acompanhar toda a ação paralela que culmina com o assassinato de Sal e a prisão de Sonny. A fotografia granulada (Direção de Victor J. Kemper) torna o filme mais realista e na parte final do filme se torna extremamente escura (“Cortaram as luzes!”) o que torna o ambiente mais tenso, além de aumentar a sensação de estar encurralado.

Além da boa direção de Lumet, a força do filme se concentra na enérgica e sensacional atuação de Al Pacino. Na época um grande astro, devido ao sucesso dos dois primeiros filmes da trilogia “O Poderoso Chefão”, o ator se mostrou extremamente corajoso ao aceitar este papel, que envolvia homossexualismo, e arriscar sua reputação. Porém sua excelente atuação e o ótimo filme provaram que ele estava certo em sua escolha. Logo que o assalto se inicia ele já está agitado, nervoso, gritando e falando palavrões. Seu Sonny é alguém que, por ter trabalhado em bancos, conhece todos os artifícios do local (alarmes nas notas, nas chaves, notas marcadas) e utilizou este conhecimento para tentar resolver sua situação. Extremamente pressionado por todos os lados de sua vida, como podemos notar na conversa de Sonny com Leon, com sua ex-esposa e depois com sua mãe, notamos que ele não é uma pessoa má, mas perdeu a cabeça com tantos problemas e não soube lidar com esta situação. Observe como Angie não deixa Sonny falar, mostrando a pessoa complicada que ele tinha que conviver diariamente. Ao final da conversa com ela, Sonny fica pensativo, refletindo sobre tudo que aconteceu. Por outro lado, Sonny também não é alguém fácil de entender. Casado e com filhos, ele piorou ainda mais sua já complicada vida quando se envolveu com Leon, com quem se casou em outro estado. Seus pais também não eram lá pessoas muito tranqüilas, como podemos perceber na conversa dele com sua mãe, quando ela fala pra ele correr, dando um claro sinal de desespero. “Seu pai disse que não tem mais filho”, diz ela, mostrando que sua família não era o melhor exemplo de estrutura. Por tudo isso, e também por ter perdido o emprego, Sonny resolveu acabar com seus problemas da forma mais rápida. Mas seu plano deu errado. E Pacino é extremamente hábil ao nos transmitir toda esta carga de tensão que Sonny carrega nos ombros. Quando o telefone toca e o gerente diz que é pra ele (uma das reféns pula e sorri aliviada ao saber que a policia chegou ao local), Pacino faz uma cara de espanto deixando claro que Sonny não era um ladrão de bancos acostumado com aquilo. Ele agiu errado, na hora errada. Lumet diminui Pacino neste momento. Ele está no chão, desolado, e o gerente fica em pé diante dele. O show particular do ator tem alguns momentos memoráveis, com na cena em que ele se refere às vitimas inocentes em “Attica” (Rebelião de Attica, 1971), dizendo para a polícia guardar as armas (“Put the f* guns down!”), a ótima cena da entrega da pizza em que Sonny joga dinheiro para o povo e se torna herói pra eles (“Sonny are we!” / “Nós somos Sonny!” gritam) e o sensacional diálogo entre Sonny e o apresentador de TV (“Quanto você ganha por semana?”), que é uma excelente crítica ao sensacionalismo da imprensa, tão comum nos dias de hoje, que ao invés de debater uma solução para os problemas sociais, como era o caso, tenta falar com propriedade de problemas tão distantes da realidade que os próprios apresentadores (como alguns da nossa televisão aberta) vivem.

No restante do elenco, podemos destacar Charles Durning como o inteligente policial Moretti. Suas discussões com Sonny são sempre realistas. Observe os tiques no rosto de Pacino, mexendo os olhos e o canto da boca freqüentemente, enquanto Moretti fala ofegante tentando controlar a tensa situação. Os dois mostram o nervosismo que seus personagens sentem com muita habilidade. John Cazale tem boa atuação como o calado Sal. Repare sua tensão refletida na voz e no olhar quando ele fala com Sonny sobre arremessar corpos. Ele é o mais perigoso da dupla, pois irá até a última conseqüência para evitar voltar à prisão. Sal é simples, nem sabe que Wyoming não é um país. Observe como ele fica irritado quando a TV fala que são dois assaltantes homossexuais. Sonny responde que “eles podem dizer o que querem, somos apenas um show de horror”, numa boa crítica à má utilização da liberdade de imprensa. Finalmente, temos Chris Sarandon, muito bem como o amante homossexual de Sonny. Observe a posição de suas mãos quando fala, muitas vezes pressionando o próprio peito, num movimento bem feminino. Sua enorme sensibilidade nos diálogos e o desmaio ao ver Sonny também reforçam a qualidade da atuação. Observe também seu riso ao ouvir Sonny dizer “Dinamarca, Suécia?”, típico de quem está ironizando o que ouve. Interessante notar também como até os figurantes participam muito bem do filme, como na já citada cena da pizza, ou quando Leon fala que é “uma mulher presa no corpo de um homem” e um policial ri ao fundo. Moretti olha bravo e ele disfarça olhando para o alto.

O ótimo roteiro de Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore, consegue balancear com competência os momentos tensos com muitos alívios cômicos, recheados de humor negro. Entre eles, podemos citar a cena em que o marido de uma das reféns liga e ela pergunta o que pode responder pra ele (“Ele quer saber que horas vai acabar.”) ou na cena em que outra refém reclama da linguagem utilizada por Sonny. Em certo momento, alguém sugere que a viagem do grupo seja para a Europa, dizendo que “A Holanda é bem legal, abrigou pessoas na guerra”, e Sonny responde: “Onde fica a Holanda?”. “Ele é calmo”, “São minhas garotas!” e “Meninas, eu fui entrevistada!” são outros trechos bem humorados do roteiro, que demonstra ainda muita coragem ao abordar o tema homossexualismo em 1975. Também é interessante notar o conflito entre a polícia e a imprensa, tanto no chão, com os repórteres furando o bloqueio, como no alto, com os helicópteros tentando filmar o “show”.

Lumet mostrou coragem ao narrar esta história real acontecida poucos anos antes e com extremo realismo, abordando o homossexualismo e também o racismo, na cena em que o primeiro refém é solto e confundido com um assaltante pelo fato dele ser negro, mas também pela péssima comunicação entre Sonny e Moretti (“Você falou que só tinha mulheres aí!”). A condução da cena final é perfeita. Enquanto vemos os carros se dirigindo ao Aeroporto, a tensão vai aumentando e a expectativa pelo que vai acontecer é enorme. A cena tem grande impacto, e o fato do filme ser baseado em uma história real, aumenta ainda mais o efeito dela no espectador. Sonny não era uma pessoa ruim, só não soube lidar com seus problemas da maneira mais adequada, e pagou caro por isso.

Extremamente ágil e tenso, porém balanceado com muitos momentos de bom humor, Um Dia de Cão mostra como uma pessoa normal pode se tornar um perigo para a sociedade se não souber lidar com seus problemas da forma correta. Com mais uma ótima direção de Lumet e uma atuação fabulosa de Al Pacino, garante duas horas de bom entretenimento e ainda traz boas reflexões para o espectador a respeito de temas polêmicos como o sensacionalismo exagerado da imprensa, o homossexualismo e o método controverso da policia norte-americana na época.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II (1974)

2 setembro, 2009

(The Godfather: Part II) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #10

Vencedores do Oscar #1974

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Diane Keaton, Robert Duvall, John Cazale, Talia Shire, Lee Strasberg, Michael V. Gazzo, Morgana King, Gianni Russo, Abe Vigoda, G. D. Spradlin, Richard Bright, Gastone Moschin, Tom Rosqui, Bruno Kirby, Frank Sivero, Francesca De Sapio, Marianna Hill, Dominic Chianese, John Aprea, Giuseppe Silato, Mario Cotone, Harry Dean Stanton, Danny Aiello e James Caan. 

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo. 

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se a primeira parte da trilogia O Poderoso Chefão destaca-se pelo roteiro incrivelmente coeso, que abrange uma gama enorme de personagens complexos e extremamente bem desenvolvidos, além da absoluta perfeição alcançada em todos os setores da obra, esta primorosa seqüência dirigida com muita competência por Francis Ford Coppola não fica nem um pouco atrás. Além de dar continuidade à maravilhosa trama do primeiro longa, o habilidoso trabalho de toda equipe ainda divide a narrativa em duas estórias paralelas e igualmente atraentes, sugando o espectador de forma inigualável para dentro do filme. O roteiro complexo e cheio de ramificações explora ainda mais o drama psicológico dos personagens e converge mais uma vez para um final perfeitamente bem realizado.

Após a morte de Don Vito Corleone, Michael (Al Pacino) resolveu eliminar de seu caminho todos os problemas pendentes, assassinando todos aqueles que poderiam gerar algum conflito com seus interesses. Decidido a entrar no ramo do entretenimento, ele instala seus negócios em Las Vegas e Havana, através da compra de luxuosos Hotéis e Cassinos. Só que na medida em que seus negócios evoluem e seu sucesso aumenta, ele vai perdendo lentamente o que mais tem valor em sua vida. Paralelamente, acompanhamos a trajetória de Vito Corleone (Robert De Niro), desde sua fuga da Sicília para Nova York até o nascimento de seu filho Michael e sua afirmação como o homem mais poderoso da máfia.

A estrutura narrativa é propositalmente semelhante nos dois filmes. Ambas começam com uma festa em que o líder da família se divide entre dar atenção aos convidados para manter as aparências e resolver os problemas de seu obscuro negócio em sua sala particular. Em seguida, um atentado ao chefe da família é o ponto de partida para uma enorme quantidade de conflitos que serão resolvidos simultaneamente em um terceiro ato maravilhoso e genial. O encontro acontecido em Cuba entre Hyman Roth (Lee Strasberg), Michael e as pessoas mais importantes da região também remete ao primeiro filme, lembrando o encontro dos líderes das famílias mafiosas em Nova York. A diferença aqui é que além da trajetória de domínio de Michael, podemos acompanhar também a chegada de Vito Corleone ainda jovem à Nova York. Desta forma, Coppola cria a oportunidade de mostrar paralelamente e de forma brilhante a vida de pai e filho na mesma época de suas vidas, porém em épocas distintas da sociedade. E é interessante observar que apesar de estarem na mesma idade, eles enfrentam problemas diferentes para manter a sua família. Vito tem sucesso, Michael não. A diferença de épocas fica clara no belo diálogo que Michael tem com sua mãe. Sua frase final (“Os tempos estão mudando”) demonstra sua preocupação com uma possível revolta de Kay (Diane Keaton), que efetivamente acontece depois. Outra novidade nesta segunda parte da trilogia é a ligação entre a trajetória dos Corleone e fatos históricos, como a revolução cubana. Pra finalizar, o excelente roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola mantém uma característica muito importante do primeiro filme: as frases marcantes. Para citar apenas duas, temos a frase emocionada de Michael para Fredo (John Cazale): “Eu sei que foi você, Fredo!” e a atordoante revelação de Kay para Michael: “Foi um aborto Michael!”.

A direção de Coppola mantém o nível de excelência do primeiro filme, conduzindo a complexa narrativa com extrema segurança e criando planos absolutamente geniais. Observe como ele cria lentamente a sensacional cena do ataque contra Michael. Após ver o desenho de seu filho, Michael conversa tranquilamente com Kay até que ela pergunta por que as cortinas estão abertas. É a chave para que o espectador pressinta o ataque iminente, sem muito tempo de reação para os personagens que se jogam no chão imediatamente, enquanto os tiros estraçalham o quarto. A habilidade do diretor para criar cenas marcantes é incrível. Se o primeiro filme tem um enorme festival de cenas inesquecíveis, a segunda parte mantém a tradição com louvor. Para citar algumas cenas maravilhosas, temos o ataque de Vito ao “Mão Negra” (Gastone Moschin), a festa inicial para o filho de Michael, o impressionante ataque contra Michael em sua casa seguido pela caça noturna aos atiradores, a chegada à Cuba e a explosão da revolução cubana, a impagável vingança de Vito em plena casa de Don Ciccio (Giuseppe Sillato), a realista e reveladora discussão entre Michael e Kay e a emblemática cena da morte de Fredo no barco, com Michael olhando pela janela.

Coppola também repete o excelente trabalho do primeiro filme na condução de atores, extraindo atuações magníficas do espetacular elenco. Robert De Niro e Al Pacino disputam acirradamente o respeitável posto de melhor atuação do filme. De Niro consegue tornar verossímil o seu jovem Vito Corleone, utilizando inclusive a voz rouca criada por Marlon Brando no primeiro filme. Observe sua reação na engraçada cena em que Don Roberto vem lhe dizer que além de não tirar um inquilino irá reduzir o preço do aluguel. Vito olha para o seu amigo duas vezes como forma de intimidar o cidadão e quando consegue o que queria ele diz “Grazie!” com uma cara cínica de quem já esperava por aquilo. Na cena em que Clemenza (Bruno Kirby) invade uma casa para roubar um tapete, ele pergunta “Essa casa é do seu amigo?” e ao ouvir a resposta, faz um movimento com os lábios típico de quem está impressionado e ao mesmo tempo duvidando da informação. Esta cena, aliás, é o ponto inicial para o envolvimento de Vito com o crime, já que ele quase presencia um assassinato. Na memorável cena da vingança na Itália, ele fica observando de longe, com a blusa no braço e um olhar sério de quem aguarda aquele momento há muitos anos. Quando Don Ciccio brinca com o nome dele, De Niro dá um sorrisinho cínico. Em seguida o homem pergunta o nome do pai dele e De Niro se aproxima e sussurra com a voz rouca “Antonio Andollini, e isto é pra você!” e esfaqueia o homem, saindo correndo em seguida. E finalmente, na maravilhosa cena do assassinato de Don Fanucci, ele é frio o suficiente para matar o homem e se livrar dos vestígios do crime, e De Niro é muito competente quando demonstra essa frieza de Vito, olhando para os lados antes de se jogar a arma fora e saindo naturalmente do local do crime para encontrar sua família. Al Pacino mais uma vez está perfeito como Michael Corleone. Sua transformação em relação ao primeiro filme é evidente. Firme, ele conduz com segurança os negócios da família, que em contrapartida vai se afastando cada vez mais dele, como fica evidente em seu retorno pra casa, quando vê o carrinho de seu filho atolado na neve e a casa vazia. Observe como na cena em que responde para o senador Pat Geary (G.D. Spradlin, brilhante neste embate com Pacino) “minha oferta é esta… nada!”, sua cadeira se move pra trás e pra frente demonstrando sutilmente sua inquietação e raiva. Quando Tom Hagen lhe conta sobre a perda de seu filho, ele respira fundo, muda de uma feição tranqüila para um rosto prestes a explodir, olha pra baixo, mexe com as mãos e finalmente pergunta “Era um menino?”. A resposta vaga de Tom é o estopim para a explosão de Michael que Pacino demonstra com maestria. Quando percebe que foi traído pelo irmão numa apresentação de dançarinas, seu olhar e respiração deixam claro para o espectador sua frustração. E finalmente, no enterro de Mama Corleone, ao abraçar seu irmão, ele olha para uma pessoa presente, e somente este olhar é o suficiente para mostrar que ele não perdoou Fredo. John Cazale é extremamente competente como Fredo, num papel que ganhou muita importância dentro da trama. Sua melhor cena é a discussão final com Michael, quando ele revela toda sua angústia e os motivos de sua traição. Cazale retrata com muita veracidade o sofrimento de Fredo, o irmão mais velho (e preterido) de Michael. Observe como ele altera a voz, olha para o alto, movimenta as mãos e se joga na cadeira ao discutir com o irmão, que se mantém imponente e firme na conversa. A composição visual dos dois no plano demonstra a diferença entre eles, já que Michael se mantém olhando por cima, enquanto Fredo está diminuído na cena.

Diane Keaton está ainda melhor como a amargurada Kay Adams, esposa do mafioso. Lentamente ela se afasta do violento marido e Keaton retrata esta gradual transformação com perfeição. Junto com Pacino, ela cria uma cena maravilhosa que evolui gradualmente para um final trágico na realista discussão dentro do Hotel. Primeiro Kay pede educadamente para que Rocco se retire. Repare que a feição de Keaton vai lentamente se alterando conforme ela vai contando seu plano de ir embora para Michael. Enquanto conversam, Pacino solta o colarinho e depois pega uma bebida. Quando ele grita que não vai permitir que ela vá embora e leve seus filhos, Keaton fixa o olhar no chão e diz “neste momento não sinto amor por você”. Pacino acende um cigarro e diz que eles vão juntos no outro dia. A explosão dela em cena é iminente. Ela range os dentes e Michael diz que sabe que ela o culpa por ter perdido o bebê e que eles vão ter outro filho. Ela olha para o alto, respira fundo e diz: “Michael, oh Michael, você está cego!”. Pacino, que estava tranqüilo e até demonstrando certa pena de sua esposa, começa a mudar seu comportamento. Então, com os olhos cheios de lágrimas, ela revela que não perdeu o bebê, e sim fez um aborto porque não quer continuar com esta relação. Pacino se transforma. Seus olhos arregalam, sua boca treme e sua respiração praticamente para. Ela continua falando e o tapa violentíssimo vem em seguida. Um show de interpretação da dupla, que marca o fim do relacionamento, como comprova a emblemática cena em que Michael fecha a porta na cara de Kay. O homem tranqüilo havia se transformado em um criminoso amargurado e frio. Talia Shire tem um desempenho muito bom como a renovada Connie. Ela se mostra uma mulher liberal, fumando e querendo viajar com o namorado. Superficialmente, ela demonstra ter superado a perda de seu marido, mas em seu coração ela nunca perdoou Michael pelo que ele fez, como fica evidente na conversa que eles têm no inicio do filme. Robert Duvall tem outra boa atuação como Tom Hagen, o paciente conselheiro da família, afastado por Michael em um momento estratégico da trama, mas de suma importância nos negócios da família. Podemos destacar ainda muitos atores do elenco de apoio, como Lee Strasberg fazendo o inteligente Hyman Roth, Michael V. Gazzo como o italianíssimo Frankie Pentangeli, G.D. Spradlin como o cínico senador Pat Geary e Bruno Kirby como o esperto jovem Clemenza.

O ritmo das duas narrativas paralelas é muito bem coordenado pela excelente montagem de Barry Malkin, Richard Marks e Peter Zinner, que cria grandes blocos narrativos em cada período, o que evita tirar o espectador da história constantemente. As transições entre os dois períodos distintos são sempre muito interessantes, como a seqüência que salta da imagem de Vito ainda criança para seu neto Antonio Corleone e a transição de Michael para Vito logo após o diálogo com Mama Corleone, num dos dois planos que Pacino e De Niro dividem no longa. Outra transição interessante corta de Vito e Michael na janela do trem para Mama Corleone morta, com Fredo e Connie aparecendo em seguida, lembrando o espectador que a única coisa que mantinha Fredo vivo era sua mãe. Agora Michael não tinha mais motivos para não matá-lo. A excelente fotografia de Gordon Willis volta com um tom ainda mais escuro e denso. Observe como ele mergulha metade do rosto de Michael e Connie por inteiro nas sombras na cena em que eles conversam sobre uma suposta viagem dela, deixando somente um ponto da tela (o ponto cego) com alguma luz. Outro exemplo é o olho de Vito completamente escondido nas sombras enquanto aguarda Fanucci no prédio. As inúmeras cenas noturnas colaboram com esta sensação de escuridão, como o ataque contra Michael ou o início da revolução cubana. Willis também é extremamente competente na divisão clara entre as duas narrativas, utilizando uma paleta grossa e cores opacas quando narra a vida de Vito, desde sua fuga da Itália até os seus primeiros anos em Nova York, retratando o ambiente hostil e a vida dura que ele tinha. Além disso, a imagem desgastada dá um ar mais antigo às cenas. Repare que a maravilhosa rua da feira livre destaca as cores verde, vermelho e amarelo, porém em um tom sem vida. Willis alterna para uma paleta mais limpa quando narra a vida de Michael, sem deixar de utilizar os ambientes escuros e sombrios nas duas situações. A trilha sonora cria simpáticas variações para a excelente música tema do primeiro filme, como na cena que Michael conversa com seu filho no quarto (onde as notas lembram canções de ninar para bebês) e quando Vito segura Michael no colo e diz que lhe ama muito, ao som da música tema tocada em um violão atrás dele. A maravilhosa Direção de Arte de Angelo P. Graham cria uma Nova York absolutamente incrível. Observe como a citada feira livre é extremamente detalhada, com barracas de frutas cobertas por toldos coloridos, comércio de animais, roupas penduradas nas janelas, sujeira nas ruas e carros da época. Os detalhes também estão presentes nas cidades de Havana, Miami e Las Vegas, dentro dos luxuosos hotéis perfeitamente decorados e nas agitadas ruas da capital cubana, recheadas de crianças pobres. Os figurinos desta vez ficaram sob a responsabilidade de Theadora Van Runkle, que mantém o estilo marcante do primeiro filme no visual dos gângsteres e capricha também no visual da trama paralela, com a típica roupa italiana de Vito Corleone completada pelo tradicional chapéu que Michael também utilizou no primeiro filme.

Assim como no maravilhoso “O Poderoso Chefão”, o terceiro ato de “O Poderoso Chefão – Parte II” também finaliza com perfeição a narrativa. A morte de Fredo acontece simultaneamente ao assassinato de Roth e a descoberta do suicídio de Pentangeli, eliminando mais uma vez os problemas pendentes de Michael. Só que desta vez ele vai refletir amargamente sobre o resultado de suas ações. Observe em particular a composição visual na cena da morte de Fredo. Primeiro Coppola mostra Fredo rezando enquanto Michael olha pela janela. Ao som do tiro, a câmera volta para o barco, agora só com o assassino sentado e os pássaros voando ao fundo. Michael, solitário na janela, chegara ao fundo do poço, sem sua mulher, sem seus filhos e assassinando o próprio irmão. Ao mostrar Michael pensativo e solitário na sala, Coppola salta para o passado, criando uma emblemática e bela cena final. Ao ver Carlo sendo apresentado à Connie, Michael revelando que iria para a marinha e Fredo, Sonny e Tom conversando na mesa, a reflexão que fazemos é como aquele homem tranqüilo se transformou naquele monstro ao final do segundo filme. Pensamos também como aquela família conseguiu cair em tamanha decadência. Com a chegada de Don Vito, Michael fica sozinho na cozinha, assim como está no presente. Só que agora ele está solitário e desolado, pois venceu todos os inimigos, mas perdeu tudo que ele amava, ou seja, a família.

Trabalhando de forma ainda mais intensa o drama psicológico de seus personagens, “O Poderoso Chefão – Parte II” consegue a proeza de ser ainda mais complexo narrativamente que o primeiro filme. A incrível decadência de um homem poderoso e o resultado desastroso de seus atos torna esta segunda parte da saga ainda mais pesada e sombria. Contando novamente com competência na direção, roteiro, atuações e toda a parte técnica, reafirma a excelência do trabalho de Coppola, Puzo, Willis e companhia e garante um lugar eterno no coração daqueles que realmente gostam de cinema. Obra-prima.

 

Texto publicado em 02 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

O PODEROSO CHEFÃO (1972)

10 agosto, 2009

(The Godfather) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #9

Vencedores do Oscar #1972

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, Diane Keaton, Robert Duvall, Richard S. Castellano, James Caan, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Richard Conte, Al Lettieri, Gianni Russo, John Cazale, Morgana King, Lenny Montana, Abe Vigoda, Tony Giorgio, Victor Rendina, Alex Rocco, Salvatore Corsitto, John Martino, Simonetta Stefanelli e Al Martino. 

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo. 

Produção: Albert S. Ruddy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a tela escura anunciar “Mario Puzo’s The Godfather” ao som da eterna e maravilhosa trilha sonora de Nino Rota e o personagem Bonasera (Salvatore Corsitto) aparecer na tela dizendo: “Eu acredito na América”, tenha certeza que você está prestes a assistir uma das melhores e mais importantes obras que o cinema já produziu em toda a sua existência. Afirmar algo deste tipo é muito perigoso, já que dificilmente alguém conseguirá ver todos os filmes produzidos desde o inicio da sétima arte. Mas a obra-prima de Francis Ford Coppola é uma proeza técnica e narrativa tão perfeita, além de brilhantemente interpretada, que dificilmente algum filme conseguiu ou conseguirá alcançar o seu nível de excelência ao longo dos anos.

Vito Corleone (Marlon Brando) é o líder da imigrante família italiana que manda e desmanda na cidade de Nova York, através de sua influencia no mundo dos jogos, prostituição entre outras coisas. Através da troca de favores (e de outros métodos mais intimidadores quando necessário), os Corleone conseguem ter ao seu lado todas as pessoas influentes da cidade e, consequentemente, dão as cartas na região. A vida segue tranqüila pra eles até que o gangster Sollozzo (Al Lettieri) oferece aos Corleone uma participação no negócio dos narcóticos em troca de proteção política. Com a recusa de Don Vito, iniciam-se os conflitos entre as famílias e, como conseqüência, inicia-se também a ascensão de Michael Corleone (Al Pacino) de filho protegido e pouco envolvido nos negócios a novo chefe da família mafiosa.

“O Poderoso Chefão” é, acima de tudo, uma proeza narrativa. Criar um roteiro tão complexo, que envolva um número tão grande de personagens importantes e profundamente bem desenvolvidos (basta ver o número de atores que citei no cabeçalho da crítica), amarrando todas as pontas da narrativa ao longo de todo o filme (e muito mais que isso, ao longo de toda trilogia!), é motivo suficiente para considerá-lo uma obra singular na história do cinema. Além destas qualidades, o roteiro conta ainda com inúmeras frases simplesmente geniais e inesquecíveis. Para citar apenas duas delas, temos a famosa fala de Vito Corleone “Vou fazer uma oferta que ele não pode recusar”, repetida depois por Michael ao longo da trilogia, e a fala de Peter Clemenza (Richard S. Castellano, em grande atuação) logo após o assassinato de Paulie (John Martino) no carro: “Leave the gun. Take the cannoli” (no original em inglês), que em português seria “Deixe a arma. Pegue o cannoli”. Esta frase resume perfeitamente a alma dos mafiosos, ou seja, pessoas que não hesitam na hora de matar alguém que atrapalhe o seu caminho, mas que em contrapartida, têm valores familiares muito bem definidos. A comida preparada por sua esposa é tão importante pra ele quanto cumprir a ordem de seu chefe da máfia. Só que, além do maravilhoso roteiro escrito por Mario Puzo e Francis Ford Coppola, o filme ainda conta com um trabalho técnico absolutamente impecável e atuações do mais alto nível, o que faz dele uma obra-prima magnífica e inigualável.

Logo na primeira conversa entre Don Corleone e Bonasera somos introduzidos ao sombrio ambiente da trama. Percebemos que se trata de uma família composta por muitas pessoas que são lideradas por um respeitado senhor conhecido como “Padrinho” e que ouve pacientemente os pedidos de ajuda dos amigos presentes na festa de casamento de sua filha. Sua reação ao pedido do cantor Johnny Fontane (Al Martino, em papel inspirado em Frank Sinatra), gritando e depois beijando o amigo, deixa claro o jeito paternal que ele tem de comandar o grupo. Fica claro também o código de ética do mafioso quando este se irrita com um amigo que só lembra dele para pedir favores. Em outro determinado momento, ele se recusa a tirar uma foto da família sem a presença de seu filho Michael, o que evidencia a importância que aquele filho em especial tem pra ele. Todo este bem trabalhado primeiro ato apresenta cuidadosamente os personagens e servirá de base para o complexo desenrolar da trama, que é extremamente bem conduzida por Coppola. A direção de Copolla, aliás, é perfeita. Observe como suas escolhas de enquadramentos e movimentos de câmera sempre podem significar algo a mais do que simplesmente o que vemos na tela. Um exemplo disso é o momento em que Michael decide se envolver nos negócios da família e cita o plano que tem em mente para se vingar de Sollozzo e do capitão McCluskey (Sterling Hayden). A câmera lentamente se aproxima dele, agigantando-o na tela e demonstrando visualmente o nascimento simbólico do sucessor de Vito Corleone. Neste momento crucial da narrativa, Michael está deixando de ser um personagem secundário para ser o personagem principal da saga e o movimento de câmera traduz isso perfeitamente. O diretor é preciso na criação de planos criativos, como por exemplo na cena da morte de Carlo, captada pela frente do carro e que transmite uma sensação de agonia ainda maior ao espectador que vê os pés da vítima se debatendo no vidro. Coppola também é absolutamente competente na criação de cenas fortes e inesquecíveis. O filme tem uma coleção inigualável de grandes cenas, como o chocante recado dado ao produtor de cinema, a tensa seqüência na porta do hospital e o tocante momento de carinho que Vito e Michael tem dentro dele, o diálogo reflexivo entre os mesmos Vito e Michael na casa deles, a impressionante armadilha contra Sonny (James Caan), a surra de Sonny em Carlo (Gianni Russo) no meio da rua, o bem orquestrado e maravilhoso final da trama ocorrido durante o batizado e que resolve todos os problemas de Michael de uma vez só, e aquela que pra mim talvez seja a melhor cena do longa, o jantar entre Michael, Sollozzo e o Capitão McCluskey em um restaurante.

Coppola também foi extremamente feliz na escolha do elenco perfeito para o filme (e olha que ele teve que enfrentar a resistência dos chefões da Paramount a nomes como Brando e Pacino). As atuações são um show à parte. A começar pela lendária performance de Marlon Brando como o icônico Don Vito Corleone. A perfeição de seu trabalho é tão grande que dispensa qualquer comentário a respeito. Brando consegue criar, antes dos 50 anos de idade e no mesmo ano em que viveu um viril amante em “O Último Tango em Paris”, um perfeito e realista senhor de idade já no fim da vida, através das bochechas inchadas com algodão, do olhar cansado, da sobrancelha cerrada e da voz rouca. Praticamente todas as suas participações em cena são perfeitas e fica até difícil destacar alguma. Em todo caso, repare como sua demonstração de insatisfação é sutil e precisa na cena em que seus filhos contam que Michael assassinou uma pessoa. Vito sabia que aquela notícia alteraria todo o futuro de seu filho. Ele fecha os olhos, acena negativamente com a cabeça, vira o rosto e faz um gesto com a mão para que eles se retirem, sendo prontamente atendido, o que também ilustra o respeito que Don Vito conquistou. Quando Tom Hagen (Robert Duvall, muito bem como o fiel conselheiro e filho adotivo de Vito) lhe dá uma trágica notícia, seu choro contido e seu pedido com a voz embargada pelo fim da guerra transmitem uma emoção inigualável, de uma forma que só um ator do seu gabarito conseguiria fazer. Comovente também é o momento em que ele diz a tocante frase: “Veja como massacraram meu garoto” com a sobrancelha e o semblante refletindo toda sua imensa tristeza. Toda cena em que Brando participa é perfeita, criando um personagem absolutamente inesquecível e inigualável. O outro grande destaque da obra é Al Pacino. Seu Michael, inicialmente alguém que não quer envolver-se nos negócios da família (até por vontade do pai), é um personagem que passa por uma incrível e maravilhosa mudança gradual durante toda a narrativa, e o ator retrata muito bem todo este arco dramático. O diálogo inicial entre Michael e Kay (Diane Keaton, em outra excelente atuação, que aqui, por exemplo, demonstra com sutileza seu espanto com os métodos da família Corleone, ficando boquiaberta e sem palavras, com os olhos arregalados) é o contraponto ideal para a emblemática cena final do longa, mostrando o quão irônica aquela conversa entre os dois se tornou. O tímido e quieto Michael do diálogo inicial com Kay, com cabelo pro lado e tom de voz baixo, se torna uma pessoa extremamente autoconfiante e respeitada ao longo do filme, passando a utilizar um cabelo mais engomado e uma voz muito mais firme. A postura de Michael quando faz a oferta de compra do cassino de Moe (Alex Rocco) é um claro sinal de seu novo estilo, muito mais agressivo. Nesta mesma cena, seu irmão Fredo (John Cazale) defende Moe e Michael fala para Fredo nunca mais se posicionar contra a família (o que refletirá na trama do segundo filme, reforçando a genialidade do roteiro). Pacino demonstra toda a energia de Michael, por exemplo, na brilhante cena do jantar no restaurante. Observe como ele, ao voltar do banheiro com a arma, fixa os olhos em um ponto demonstrando que não está mais preocupado em escutar o que dizem os outros dois personagens presentes. Sua preocupação agora é agir na hora certa, e sua ação eminente se torna palpável, o que torna a cena extremamente verossímil. Ao partir para o ataque sem pestanejar, sua transformação está consumada. Ele é competente também nos momentos de sutileza, como na magnífica conversa que tem com Vito na casa deles. Este diálogo, aliás, mostra de forma muito clara o enorme talento dos dois atores. Observe como Vito pergunta do neto, dá um sorriso de satisfação com a resposta, pede algo que já havia pedido antes e depois percebe que esqueceu, chegando à conclusão de que está ficando velho. Michael escuta atentamente os conselhos do pai, sorri e olha pra baixo quando fala de seu filho e toca carinhosamente seu velho quando pergunta o que está lhe incomodando. Pacino é extremamente competente na árdua tarefa de contracenar com um monstro sagrado como Marlon Brando, o que torna ainda melhor esta bela cena. James Caan interpreta muito bem o explosivo Santino Corleone (apelidado de Sonny), dando claros sinais de que não tem o equilíbrio psicológico e o jogo político necessários para ser o sucessor de Don Vito, através de suas reações extremas e seus impulsos vingativos e violentos. Porém, apesar de toda esta agressividade, o gangster tem um código de ética peculiar, assim como toda sua família, como podemos testemunhar na cena em que ele quebra a máquina fotográfica de um paparazzi e joga dinheiro no chão, como quem diz: “Compre outra pra você, mas pare de encher o meu saco”. Destacar cada integrante do elenco é até desnecessário. Basta dizer que nenhuma atuação pode ser considerada de baixo nível. Durante um simples jantar em família, por exemplo, Coppola e seu fantástico elenco evidenciam uma série de problemas de relacionamentos. Connie, interpretada com competência (e um exagero perfeitamente aceitável devido ao enorme sofrimento da personagem) por Talia Shire, mostra que não se dá bem com seu violento marido Carlo (Gianni Russo, muito bem na cena da briga com Connie e no diálogo final com Michael). Sonny deixa claro que odeia o modo como Carlo trata sua irmã e Mama Corleone (Morgana King) mostra sutilmente que não gosta da interferência dos irmãos no casamento de sua filha. Tudo isso em poucos segundos e sem diálogos expositivos, genial.

Como se a excepcional direção de Coppola e o elenco maravilhoso não fossem suficientes, “O Poderoso Chefão” conta ainda com um trabalho técnico espetacular. A começar pela famosa direção de fotografia de Gordon Willis (apelidado por causa deste filme de “O Príncipe das Sombras”). Seu estilo se tornou padrão para os filmes do gênero, que passaram a utilizar o forte contraste luz e sombra como regra desde então. Desde a primeira cena, podemos notar constantemente os personagens, e até mesmo os ambientes, mergulhados nas sombras criadas brilhantemente por Willis. Observe como parte do rosto deles está encoberto na cena inicial dentro da sala de Vito, na conversa entre Michael e Carlo a respeito do assassinato de Sonny ou quando Tom Hagen conta para Vito que seu filho está morto. E estes são apenas alguns exemplos dentre vários que podemos citar. Willis também consegue alternar dos momentos sombrios para os momentos alegres com perfeição. Observe atentamente como a fotografia é mais colorida na cena do casamento, demonstrando toda a alegria daquela festa. Só que mesmo este colorido é opaco, já que ele nunca utiliza cores extravagantes demais, o que dá um ar documental a esta cena. Nesta mesma cena, a fotografia, em conjunto com os figurinos, destaca visualmente o personagem Michael, o único homem presente que não está vestido com o tradicional terno e gravata. Ele é diferente e o visual ilustra isso. Os figurinos criados por Anna Johnstone, aliás, são absolutamente marcantes. Vestidos com ternos, gravatas, chapeis e sobretudos, os gângsteres de “O Poderoso Chefão” influenciaram o visual da grande maioria dos filmes do gênero que vieram depois. Marcante também é o incrível trabalho de Direção de Arte de Warren Clymer, que cria uma Nova York dos anos 40 rica em detalhes, como a fachada das casas e bares e os modelos dos automóveis da época. O trabalho de maquiagem também merece destaque, principalmente pelo já citado envelhecimento de Marlon Brando. A engenhosa montagem (resultado do trabalho de Marc Laub, Barbara Marks, William Reynolds, Murray Solomon e Peter Zinner) consegue manter igualmente atraentes todas as tramas da narrativa e ainda nos brinda com um final extraordinário, resolvendo todos os conflitos através de ações paralelas e simultâneas, previamente planejadas por Michael. A perfeita montagem é crucial para o excelente resultado desta seqüência final. Além disso, apesar da narrativa cobrir vários anos da família Corleone, a passagem do tempo jamais soa episódica. Perceba como em determinado momento Kay pergunta para Michael há quanto tempo ele está de volta e ele responde: “Há um ano”. Minutos antes, Vito alertava para o possível retorno de seu filho na reunião dos chefes de família. Para finalizar, merece destaque o incrível realismo alcançado nas cenas violentas, como os tiros disparados contra Solozzo e McCluskey e o assassinato de Sonny.

“O Poderoso Chefão” conta ainda com um turbilhão de emoções, sempre utilizadas na dose certa. Temos momentos comoventes, como a tocante cena em que Vito sorri ao receber o carinho de Michael no hospital. Um romance entre Michael e a belíssima italiana Apollonia (vivida com muito charme por Simonetta Stefanelli) que, mesmo terminando de forma trágica, serve como um pequeno alívio para a trama carregada. A ação fica por conta das cenas extremamente violentas e realistas. E finalmente, o filme apresenta até uma dose de humor negro, como a cena em que Michael está prestes a ligar para Luca Brasi (Lenny Montana). No momento em que ele pega o telefone chegam dois peixes mortos numa caixa, simbolizando que Luca está morto. Michael coloca o telefone no ganho em seguida.

Extremamente competente em todos os setores, “O Poderoso Chefão” é talvez o filme que mais tenha se aproximado da perfeição. Mostrando da maneira mais realista possível o submundo de Nova York dominado pela máfia italiana, o filme acompanha brilhantemente a ascensão de Michael Corleone e o efeito que ela provocou em sua família. Reforçado ainda por atuações brilhantes, uma direção impecável, um trabalho técnico magnífico e um roteiro incrivelmente complexo e coerente, o primeiro filme da maravilhosa trilogia não pode ser reconhecido de outra forma que não uma perfeita e completa obra-prima da história do cinema. Espero que o cinema ainda seja capaz de produzir obras desta magnitude, mas isto é reconhecidamente algo difícil de voltar a acontecer. De qualquer forma, somente o fato de saber que um dia ele já foi capaz de produzi-lo é motivo suficiente para nos apaixonarmos por esta maravilhosa arte eternamente.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira