NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (1977)

(Annie Hall)

 

 

Videoteca do Beto #114

Vencedores do Oscar #1977

Dirigido por Woody Allen.

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Christopher Walken, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelley Duvall, Janet Margolin, Donald Symington, Mordecai Lawner, Jonathan Munk, Colleen Dewhurst, Helen Ludlam, Joan Newman, Beverly D’Angelo, Jeff Goldblum e Sigourney Weaver.

Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman.

Produção: Charles H. Joffe e Jack Rollins.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Woody Allen escreveu definitivamente o seu nome na história do cinema com este sensacional “Annie Hall” – me recuso a repetir a ridícula tradução do título para o português. Apresentando diálogos magníficos e afiados, um senso de humor cínico e sarcástico e uma montagem que só contribui na criação de cenas antológicas, o longa é uma comédia tão divertida quanto reflexiva, que expõe as complexidades dos relacionamentos humanos ao mesmo tempo em que funciona como um espelho da persona cinematográfica de Allen (o intelectual inseguro, apaixonado por Nova York, mulheres e jazz), apresentando as características marcantes dos melhores momentos do diretor/ator/roteirista no cinema.

Duas vezes divorciado, o humorista Alvy Singer (Woody Allen) se apaixona novamente, desta vez pela excêntrica cantora de boate Annie Hall (Diane Keaton). Rapidamente, eles decidem morar juntos, mas as crises conjugais aparecem e começam a desestabilizar a relação. Alvy, que faz análise há quinze anos, convence Annie a fazer o mesmo e a estudar, mas nada parece salvá-lo de mais uma separação.

Só mesmo Woody Allen para contar a história de um homem depressivo, cheio de complexos (seja por sua nacionalidade, seja por qualquer outra característica dele) e duas vezes divorciado de maneira tão divertida e encantadora. E só mesmo Allen para nos fazer sorrir o tempo todo ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre algumas das mais frustrantes constatações de nossa existência, como a de que o amor, para ser perfeito, deve permanecer em seu estado inicial de “idealização”. Ou seja, quando passamos a conviver com a pessoa amada, passamos também a descobrir os seus defeitos que, muitas vezes, podem provocar o fim do sentimento avassalador no/a parceiro/a. Não por acaso, Alvy, em certo momento, implora para que Annie não venda o apartamento dela, alegando que este funciona como um “porto seguro”, fazendo o casal lembrar que não é oficialmente casado.

Escrito pelo próprio Woody Allen, “Annie Hall” demonstra também sua enorme capacidade de construir diálogos primorosos, recheados com um humor ácido e auto-depreciativo, que expõe algumas verdades sobre nossas angústias. Da mesma maneira, a direção de Allen também é dinâmica e esbanja criatividade, criando momentos que não apenas fogem do realismo, como deixam claro que o diretor deseja mesmo brincar com a linguagem cinematográfica, como quando um homem cita as teorias do filósofo canadense Marshall McLuhan na fila do cinema e Alvy puxa o autor detrás de um pôster para rebater os comentários do tagarela (“Você não sabe nada da minha obra”, diz McLuhan). Estas brincadeiras ficam ainda mais evidentes quando ele quebra a quarta parede em diversos momentos, olhando para a câmera e falando diretamente com o espectador. Além disso, o diretor cria alternativas narrativas curiosas, como as legendas que expressam pensamentos dos personagens e a tela dividida. Conduzindo com vigor a narrativa, Woody Allen utiliza ainda sua cidade favorita como pano de fundo, algo que se repetiria muitas vezes em sua filmografia, onde Nova York normalmente é o palco das ações.

Utilizando uma narrativa não linear para abordar diversas fases da vida do protagonista, Allen e seus montadores Wendy Greene Bricmont e Ralph Rosenblum tentam refletir a mente agitada de Alvy Singer e do próprio diretor, além de constantemente brincarem com novas possibilidades, como, por exemplo, quando dividem a tela em dois planos para ilustrar as diferenças entre as famílias de Annie e Alvy. Além disso, em diversos momentos, quando alguém cita alguma passagem da vida dele, somos levados em seguida para aquele exato momento, como na engraçada cena do período escolar, onde o Alvy adulto reencontra o Alvy criança (Jonathan Munk) e dialoga com seus colegas. Desta forma, somos envolvidos por suas complexidades e compartilhamos de muitos dos seus dilemas. Utilizando cores fortes em muitas lembranças, a fotografia do excepcional Gordon Willis alterna entre uma atmosfera naturalista e momentos hiper-realistas, como quando vemos desenhos animados ou quando os personagens passeiam pelas lembranças de Annie, nos colocando dentro de sua mente enquanto ela apresenta seus ex-namorados.

Entre os vários dilemas que assolam o pobre Alvy, o sexo tem destaque especial (“Masturbação é sexo com alguém que amo”, diz ele). Como explica, “ele não gostaria de fazer parte de um clube que o aceitaria como sócio”. Por isso, qualquer mulher que demonstre interesse por ele passa, imediatamente, a perder o encanto. Ainda assim, Alvy consegue se apaixonar por Annie, o que não o impede de ter problemas com a garota, seja por que ela tem hábitos estranhos pra ele, como fumar maconha antes de transar, seja por outra razão qualquer. O sexo, aliás, explica muito sobre as diferenças do casal. Enquanto Annie diz ao analista que faz sexo sempre, “pelo menos três vezes por semana”, Alvy afirma que quase nunca faz sexo, “no máximo três vezes por semana”. Interpretando uma versão de si mesmo, Woody Allen está muito a vontade no papel, vivendo um personagem ansioso (algo refletido em sua fala rápida) e depressivo. Diane Keaton, por sua vez, está leve e encantadora como Annie Hall, protagonizando muitos momentos divertidos, como o diálogo após um jogo de tênis com Alvy, que resulta no primeiro encontro deles, e o brilhante monólogo em que ela apresenta sua família e conta como seu tio George morreu. Atrapalhada, ela nos faz rir e também se diverte com os trejeitos de seu pretendente. Auxiliada pelos figurinos de Ralph Lauren e Ruth Morley, a atriz cria uma personagem marcante, que nos encanta da mesma maneira como encanta Alvy, o que é essencial para que o espectador compartilhe ainda mais das aflições do protagonista, preso entre suas dúvidas e seu sentimento por esta mulher.

Vale destacar ainda a pequena participação de futuros astros, como Christopher Walken, na pele do irmão de Annie, Duane Hall, Shelley Duvall como Pam, uma das namoradas de Alvy, e Jeff Goldblum e Sigourney Weaver, que surgem rapidamente como figurantes. Walken, aliás, protagoniza uma das muitas cenas engraçadas ao falar que gostaria de bater o carro na estrada, momentos antes de dar carona para Alvy e Annie – e a feição aflita de Allen nesta cena é impagável.

Tentando ser adulto, Alvy age naturalmente quando Annie propõe uma separação. Mal sabia ele (ou talvez soubesse) que estava dando o primeiro passo para perder de vez o amor de sua vida. Sua reflexão final é marcante: nós sempre estamos à procura do amor, ainda que seja doloroso e proporcione experiências ruins. Divertido, bem atuado e bastante original, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (que tradução hein?!) consegue ser ao mesmo tempo leve e crítico, revelando as angústias e inseguranças de seu protagonista de maneira inapelável. De quebra, o longa ainda brinca deliberadamente com muitas regras da linguagem cinematográfica. E o melhor, o faz com incrível competência.

Apostando no humor afiado e na identificação do espectador com muitas das situações narradas, “Annie Hall” é a obra-prima de um dos maiores autores que Hollywood já produziu. Contando ainda com uma atuação inspirada da ótima Diane Keaton, o filme faz o espectador deixar a projeção com sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que saímos alegres por termos gargalhado em muitos momentos, saímos preocupados por saber que estas risadas surgiram ao reconhecermos vários aspectos falhos de nossa natureza humana.

Texto publicado em 14 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

Anúncios

Tags: , , , , , , , ,

3 Respostas to “NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (1977)”

  1. Cross98 Says:

    sempre pénsei que esse filme é ruim , mas depois de assistir ele , e cinema paradiso , aprendi a nunca julgar um filme antes de assistir e pensar sobre ele

  2. CASSINO (1995) « Cinema & Debate Says:

    […] Logo de cara, temos uma revelação literalmente bombástica e vemos a suposta morte do protagonista, deixando claro em poucos minutos que estamos num filme de Scorsese, através da câmera lenta, da música erudita, da explosão, do personagem misturando-se ao vermelho infernal e da narração que nos leva ao longo flashback. Este recurso, aliás, é utilizado com exaustão em “Cassino”, normalmente na voz de Ace, mas também com Nicky e até mesmo Frank (Frank Vincent), que ganha um “voice-over” num momento de puro exercício estilístico, em que a imagem é congelada enquanto acompanhamos seu raciocínio antes dele responder a pergunta de um dos chefões da máfia. E o estilismo continua, por exemplo, através das legendas superiores que decifram o código na conversa telefônica entre Ace e Nicky (recurso já utilizado, por exemplo, por Woody Allen em “Annie Hall”). […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: