STAR WARS EPISÓDIO I: A AMEAÇA FANTASMA (1999)

30 setembro, 2016

(Star Wars: Episode I – The Phantom Menace)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #232

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, voz de Ahmed Best, Ian McDiarmid, Oliver Ford Davies, Hugh Quarshie, Keira Knightley, Pernilla August, voz de Anthony Daniels, voz de Kenny Baker, voz de Frank Oz, Samuel L. Jackson, Ray Park, Silas Carson, Terence Stamp, voz de Andy Secombe, voz de Brian Blessed e voz de Lewis Macleod.

Roteiro: George Lucas.

Produção: Rick McCallum.

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o famoso letreiro começou a subir a tela escura dos cinemas 16 anos depois de “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” encerrar a primeira trilogia a empolgação foi inevitável para os milhões de fãs espalhados pelo mundo. Afinal de contas, a saga criada por George Lucas é um dos maiores símbolos do fascínio que a sétima arte pode provocar nas pessoas. No entanto, com o desenrolar do longa a alta expectativa se transforma e, nos casos mais graves, acaba revertendo-se em decepção, ainda que “A Ameaça Fantasma” cumpra seu papel principal e prepare o terreno para os longas seguintes, o que é pouco para transformá-lo num grande filme, mas o suficiente para salvá-lo.

Novamente escrito por George Lucas, que também retornava a direção, “Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma” adota a estrutura de prequel para nos levar ao início da história contada nos três filmes lançados anteriormente, quando a Federação Comercial bloqueia as rotas para o planeta Naboo e os Jedis Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) são enviados pela rainha Amidala (Natalie Portman) para fazer um acordo, mas o plano não sai como previsto e eles acabam se refugiando no distante planeta Tatooine, onde descobrem um garoto especial que parece ser o escolhido para trazer o equilíbrio para a Força. Seu nome é Anakin Skywalker (Jake Lloyd).

Analisando friamente, a missão de “A Ameaça Fantasma” não era nada fácil, já que, por mais inspirada que fosse a abordagem de George Lucas, resgatar uma saga adorada por milhões de pessoas obviamente poderia provocar grandes decepções, tamanha a expectativa criada tantos anos depois. No entanto, inspiração não é exatamente a palavra mais adequada para descrever o roteiro de Lucas, que constrói uma narrativa rasa e aposta todas as fichas na parte visual para ter sucesso. Ainda assim, o longa traz momentos bem interessantes ao nos permitir conhecer a origem de personagens tão queridos como C-3PO (voz de Anthony Daniels), R2D2 (voz de Kenny Baker) e o próprio Obi-Wan, além de pavimentar o caminho da construção do arco dramático de um dos personagens mais icônicos da história do cinema.

Outro aspecto interessante do roteiro (e de toda a saga, aliás) são as articulações políticas e seu impacto na sociedade, que escancaram a alegoria que “Star Wars” claramente representa e que muitos fãs parecem ignorar. Por outro lado, o desnecessário conceito dos midi-chlorians é bem questionável, soando como um recurso de última hora de Lucas para justificar certas escolhas, numa espécie de comprovação científica de algo intangível, como a indicação de que Anakin teria potencial para tornar-se um Jedi mais poderoso até do que Yoda, o que também justificaria a relutância dos Jedis em treiná-lo e desenvolver sua capacidade, percebendo que todo este poder poderia se transformar em algo trágico se canalizado de forma errada.

Para delírio dos fãs, aliás, os Jedis impõem respeito logo na abertura de “A Ameaça Fantasma”, desfilando golpes enquanto fogem do planeta Naboo. Sempre sereno e transmitindo a habitual virilidade, Liam Neeson encarna Qui-Gon com naturalidade e forte presença na tela, o que torna sua morte ainda mais surpreendente, especialmente por representar o fim da linha para um ator de seu calibre na saga, mas ao menos a cena serve para confirmar que Obi-Wan está pronto, o que teria enorme importância nos outros episódios, especialmente por que caberia a ele a missão de treinar o promissor Anakin. E por falar em Obi-Wan, Ewan McGregor também se sai bem como o jovem Jedi, assumindo um papel de grande responsabilidade sem sentir o enorme peso do personagem que vive e criando empatia tanto com Qui-Gon quanto com Anakin.

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Mesmo criança, Anakin já desponta como alguém confiante e destemido, muito também por conta da boa atuação de Jake Lloyd. À vontade no papel de um verdadeiro mito, Lloyd consegue transmitir características importantes na formação da personalidade de Anakin, com suas expressões marcantes e seu jeito questionador aliando-se à coragem e a sua curiosidade e sede de aprender. Obviamente, uma personalidade tão forte poderia ser trabalhada de forma positiva ou negativa e o restante da saga se encarregaria de demonstrar isso. No entanto, sua participação decisiva no confronto espacial no clímax da narrativa realça a importância do personagem e o status de lenda que ele alcançaria muito em breve, para o bem e para o mal. Neste sentido, é louvável que Lloyd consiga transmitir empatia mesmo vivendo uma espécie de embrião de um dos maiores vilões da história. E assim como ocorre em outros momentos da saga, Lucas insere pitadas de conceitos inspirados no cristianismo ao trazer a mãe de Anakin afirmando que ele não tem pai, numa clara alusão ao messias.

Entre os destaques do elenco, vale citar ainda a amável Natalie Portman que empresta doçura e carisma a Padmé, especialmente quando conversa com o menino Anakin, contrastando com suas rígidas expressões na pele da suposta rainha Amidala – e a revelação de que Padmé na realidade é a rainha não surpreende devido a maneira pouco cuidadosa que Lucas trabalha a questão e pela forma que ela se comporta diante de Anakin, indicando a reviravolta através de diálogos e gestos que demonstram sua autoridade e sabedoria. Ian McDiarmid também transmite autoridade em seu olhar e suas expressões faciais na pele de Palpatine, que articula sua indicação para determinado cargo importante e evidencia seu poder de persuasão que seria crucial nos outros episódios – repare também como quando os Jedis comentam que os Siths sempre surgem em dois e questionam se quem teria sido destruído seria o mestre ou o aprendiz a câmera imediatamente foca em Palpatine, sugerindo sua conexão com eles.

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Diante de tantos personagens interessantes é realmente uma pena que Lucas tenha apostado novamente no desnecessário alívio cômico. Assim, logo no início somos apresentados ao personagem que quase arruína toda a experiência de assistir “A Ameaça Fantasma”. Com sua voz irritante e seu comportamento extremamente infantil, Jar Jar Binks (voz de Ahmed Best) não agrega em momento algum do longa, incomodando constantemente o espectador pela quebra de ritmo e de clima que suas intervenções representam. Um exemplo claro ocorre na conversa durante um jantar na casa de Anakin sobre a situação dos escravos e o sonho do jovem garoto de libertar aquele povo, repentinamente interrompida pelo comportamento de Jar Jar Binks, o que supostamente era para ser engraçado, mas acaba soando totalmente deslocado e sem propósito.

No entanto, se a falta de criatividade do roteiro e a presença de Jar Jar Binks não conseguem arruinar a experiência, muito se deve obviamente à força dos personagens e do universo criado por Lucas nos longas anteriores, mas é inegável também que a qualidade visual de “A Ameaça Fantasma” contribui bastante para salvá-lo. Particularmente preocupado em apresentar ao mundo as maravilhas da ILM, Lucas aproveita todo o aparato tecnológico que tem a disposição para explorar os planetas imaginados pelo design de produção de Gavin Bocquet e que ganham vida com os excepcionais efeitos visuais, nos transportando para aqueles locais e criando sequências visualmente marcantes, que chamam a atenção também pelo contraste entre os tons azulados adotados pelo diretor de fotografia David Tattersall no espaço e os tons quentes no senado e no árido planeta Tatooine, que por sua vez destoam do festival de cores que dominam Naboo, graças também aos figurinos escolhidos por Trisha Biggar, que mantém o padrão mais sóbrio na capital, apostando em roupas mais exóticas em Naboo e em roupas mais velhas e desgastadas em Tatooine, demonstrando as diferenças entre eles. Este contraste também se manifesta nas casas simples que dominam o deserto de Tatooine e nos enormes prédios que formam o skyline da capital, refletindo bem as desiguais condições de vida impostas pelo Império e que dão margem para diversas análises sócio-econômicas e políticas da alegoria que “Star Wars” representa.

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Colaborando nesta ambientação, o igualmente competente design de som se destaca tanto nos momentos de forte impacto como explosões e tiroteios quanto pela criatividade e atenção aos detalhes que compõem os pequenos e sensíveis efeitos sonoros criados para equipamentos como os utilizados na corrida e personagens como a dupla Sebulba (voz de Lewis Macleod) e Watto (voz de Andy Secombe) – repare o som da batida das asas dele, por exemplo. Já a trilha sonora do mestre John Williams nos lembra dos longas anteriores ao marcar presença constante, sublinhando diversos momentos com precisão e conferindo uma aura épica a batalha final. Da mesma forma, a montagem da dupla Ben Burtt e Paul Martin Smith homenageia a primeira trilogia ao utilizar fades, sendo muito importante também em momentos chave como a batalha onde alterna entre o espaço, Naboo e o “truelo” de sabres de luz num ritmo sempre interessante ou a empolgante corrida na qual alterna entre os diversos competidores e a plateia, neste que certamente é um dos momentos mais inspirados da direção de Lucas.

Presenteando os fãs com alguns momentos marcantes como o citado “truelo” de sabres de luz entre dois Jedis e o lorde Sith Darth Maul vivido de maneira discreta por Ray Park, Lucas se destaca especialmente na batalha final, nem tanto pelo conflito ocorrido em terra firme, mas especialmente pela enérgica batalha espacial, repleta de movimentos de câmera interessantes que nos jogam pra dentro do confronto – e repare como nem mesmo no momento mais tenso da narrativa Jar Jar Binks dá sossego ao espectador, com suas gags nada inspiradas que só servem para desconcentrar a plateia. Novamente, Lucas encerra a narrativa com uma festa, evidenciando que a estrutura da nova trilogia traria similaridades com a anterior (já que o episódio IV também terminava com uma festa) e realçando sua preocupação em jogar o espectador pra fora da sala de projeção com a sensação de alegria, ainda que neste caso ela possa soar falsa e não resistir ao tempo – e felizmente este desfecho artificialmente alegre não se repetiria, cedendo espaço para um tom mais sombrio que lentamente dominaria a nova trilogia.

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Apesar de ter seus bons momentos, “A Ameaça Fantasma” é claramente prejudicado pelo erro de tom na abordagem de Lucas, especialmente quando Jar Jar Binks entra em cena com seu humor descabido e nada inspirado. A infantilização da série já anunciada em “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” através dos ewoks ainda persistia aqui. Por tudo isso, “A Ameaça Fantasma” até funciona como um filme de preparação para a construção da mitologia. O problema é que em 1999 ela já estava formada no imaginário de muita gente, o que não impediu muitos fãs de se deliciarem ao verem seus queridos personagens na telona – em muitos casos, pela primeira vez. 

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma-foto-2Texto publicado em 30 de Setembro de 2016 por Roberto Siqueira

O SEXTO SENTIDO (1999)

12 setembro, 2016

(The Sixth Sense)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #231

Dirigido por M. Night Shyamalan.

Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg, Peter Anthony Tambakis, Glenn Fitzgerald, M. Night Shyamalan e Bruce Norris.

Roteiro: M. Night Shyamalan.

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Barry Mendel.

o-sexto-sentido[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Elogiadíssimo e responsável por colocar o nome de M. Night Shyamalan no mapa, “O Sexto Sentido” surgiu como um sopro de criatividade num gênero desgastado e carente de bons filmes no final dos anos 90. Apesar do sucesso de longas como “A Bruxa de Blair” e “Pânico”, o fato é que faltava uma obra deste quilate, capaz de provocar calafrios e deixar a mente do espectador borbulhando ao final da sessão diante da surpreendente reviravolta que o fez tão famoso. Mas afinal toda esta repercussão era merecida ou, passados tantos anos, uma revisão poderia constatar que houve certo exagero?

Escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, “O Sexto Sentido” narra a delicada relação entre o Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis), um respeitado psicólogo que após um importante incidente passa a sentir-se mais distante da esposa Anna (Olivia Williams), e seu paciente, o jovem Cole (Haley Joel Osment) que, atormentado por supostas alucinações, representa a chance de redenção para o experiente psicólogo anos após ter falhado com outro paciente.

Obviamente o grande responsável pela fama de “O Sexto Sentido”, o roteiro de Shyamalan é hábil o suficiente para manter o espectador preso a narrativa e simultaneamente espalhar diversas dicas sobre seu segredo ao longo da projeção sem que corra o risco de entregar a reviravolta antes do momento certo ou transformá-las em distrações. Além disso, Shyamalan cria regras para a coexistência entre os dois mundos que dominam o longa e as respeita durante todo o tempo, o que é muito importante para que o espectador não se sinta enganado quando o truque for revelado. No entanto, o segredo do sucesso do filme não reside apenas no controle absoluto que Shyamalan demonstra sobre a trama, contando também com a excepcional atmosfera criada pelo diretor e sua equipe, capaz de sugar a plateia e mantê-la tensa na maior parte do tempo.

Esta atmosfera gélida e sombria é notável desde a aparição de Vicent (Donnie Wahlberg, em participação marcante) na casa do casal, que serve também para dar o tom da narrativa ainda nos primeiros instantes de projeção. A primeira criança que Cole encontra após compreender como poderia utilizar seu dom também surge de maneira assustadora, numa imagem forte dentro da cabana dele, realçada pelos tons em vermelho e pelo ângulo escolhido pelo diretor. Toda a sequência envolvendo Kyra (Mischa Barton), aliás, é muito bem construída e envolvente, culminando num desfecho surpreendentemente trágico e que ajudaria o rapaz a aprender a lidar melhor com os mortos e ajuda-los. Afinal de contas, “O Sexto Sentido” é também sobre redenção e tanto Cole como Crowe seguem trajetórias de superação e reconciliação com si mesmos durante a narrativa. Não são raros os momentos que assustam o espectador sem depender apenas de altos acordes na trilha sonora ou da aparição repentina de algo na tela, como quando Cole é trancado no calabouço numa festa e escuta uma voz realmente aterrorizante, provocando calafrios especialmente pela forma como a sequência é conduzida.

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O ótimo design de som, aliás, além de nos ambientar com precisão e ser essencial na criação do suspense, ainda traz interessantes raccord sonoros para fazer a transição entre cenas, como quando ouvimos o diálogo entre Crowe e Cole enquanto Anna paquera seu funcionário e é interrompida pela agressão do marido no vidro da loja. Estas transições, assim como as longas sequências em silêncio, causam um estranhamento que ajuda na criação da atmosfera pretendida pelo diretor. Em “O Sexto Sentido”, jamais sabemos bem o que esperar da cena seguinte, também por que o ritmo da narrativa segue sempre interessante, intercalando os diálogos entre Crowe e Cole com os momentos de suspense sem jamais baixar a tensão que paira no ar, o que é mérito também do montador Andrew Mondshein. Além disso, a trilha sonora de James Newton Howard reforça esta tensão com seus acordes fortes e repentinos surgindo apenas pontualmente, evitando o desgaste.

Além da construção da atmosfera ideal, o trabalho em conjunto entre o diretor, o diretor de fotografia Tak Fujimoto (que explora muito bem a arquitetura gótica da Filadélfia), o design de produção de Larry Fulton e a figurinista Joanna Johnston também serve para espalhar dicas por toda a narrativa sobre a situação de Crowe, por exemplo, através da cor de objetos e roupas. Repare, por exemplo, como os objetos vermelhos surgem sempre como uma alusão a tudo que tem interferência do outro mundo, como a maçaneta que Dr. Crowe tenta abrir ou o balão que estoura quando um fantasma grita. Da mesma forma, os figurinos são extremamente importantes para indicar este contato, com Cole usando vermelho quando sobe as escadas atrás do balão, Anna vestindo vermelho no jantar de aniversário de casamento, o santuário vermelho do garoto no quarto em que se esconde dos mortos, entre outros. Cor normalmente associada à morte, o roxo também tem forte presença na tela, como podemos notar no vestido que Anna utiliza na noite trágica. A própria esposa também é usada para dar dicas aos espectadores, como quando sente frio perto do marido ou ao não dialogar com ele no restaurante italiano.

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Por mais importante que seja, a atmosfera por si só também não garantiria o sucesso artístico de longa algum. Por isso, a construção da narrativa e a atuação do elenco também são primordiais em “O Sexto Sentido”. Sempre sereno e tranquilo, com o tom de voz baixo e transmitindo uma angústia que parece lhe sugar as forças, Bruce Willis surge bem diferente do que de costume e prova mais uma vez seu talento como ator, conseguindo ainda empatia ímpar com o jovem Haley Joel Osment, o que obviamente é crucial para que o longa funcione. Já Olivia Williams consegue transmitir a solidão e tristeza de Anna justamente através do silêncio, encontrando alguns raros momentos de alegria ao lado do funcionário que lhe ajuda a esquecer o marido.

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Ao contrário dela, Toni Collette surge como um poço de emoções na busca por compreender o universo do filho, demonstrando bem a preocupação e a pressão sofrida por Lynn. Mãe angustiada e que mal sabe o que fazer para auxiliá-lo, ela parece constantemente abalada, como fica evidente quando encontra Cole tremendo e sequer sabe o que perguntar, restando-lhe apenas o choro sofrido. A relação entre mãe e filho estabelece outra dinâmica importante da narrativa ao demonstrar que Cole não se sentia à vontade para falar abertamente sobre seus problemas, por maiores que fossem os esforços da mãe. Por isso, a cena em que finalmente encontra forças para falar sobre seu dom é um momento emblemático e emocionante, utilizando o contato com a avó materna para conectar mãe e filho, numa sequência conduzida com competência e sensibilidade por Shyamalan – a título de curiosidade, o diretor faz uma ponta como o médico de Cole, escancarando desde então sua obstinação em ser o “novo Hitchcock”.

Como podem perceber, os relacionamentos entre o psicólogo e o paciente e entre mãe e filho são essenciais para que “O Sexto Sentido” transmita a angústia do garoto com precisão e se a missão é cumprida com louvor é por que Osment tem uma atuação simplesmente impecável. Garoto misterioso e atormentado, Cole esconde sob sua timidez um conflito psicológico cruel provocado por sua capacidade de ter contato com o mundo sobrenatural, que o leva a ter uma instabilidade emocional notável, por exemplo, quando ele explode e confronta seu professor numa sala de aula, num dos momentos de destaque de Osment. Carismático e de aparência frágil, o garoto brilha em diversos instantes, como no momento icônico em que Cole conta seu segredo para Crowe, no qual Shyamalan realça a forte expressão dele, que carrega a emblemática cena com facilidade – e aqui vale notar como a câmera foca no Dr. Crowe após Cole dizer que as pessoas não sabem que estão mortas, em outra dica sutil e inteligente.

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É inegável, entretanto, que “O Sexto Sentido” consolide mesmo seu sucesso junto a boa parte do público na força de seu plot twist (algo que viria a tornar-se a marca do diretor, para o bem e para o mal). Assim, Shyamalan nos traz a sensacional reviravolta através de uma simples aliança que cai da mão da esposa, deixando o protagonista e o espectador atordoados com o que descobrem. O segredo muito bem guardado dificilmente é desvendado pelo público antes da hora, ainda que, como citado, diversas dicas sejam espalhadas pela narrativa. E justamente por respeitar rigorosamente todas as regras internas que criou e ainda assim conseguir guardar seu segredo até o fim, “O Sexto Sentido” torna-se ainda mais interessante e impactante na segunda vez que o assistimos.

O diálogo melancólico e revelador com a esposa adormecida fecha a narrativa de maneira impactante e deixa o espectador com os pensamentos fervilhando, tentando rever o filme na cabeça em busca de furos no roteiro. Felizmente, eles não existem. Há espaço ainda para a emoção no breve diálogo de despedida do casal, que ressalta a importância de aproveitarmos ao máximo nossa passagem por esta vida ao lado das pessoas que amamos.

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O primeiro grande sucesso de M. Night Shyamalan não poderia ter sido melhor. Pena que depois ele tornou-se refém da própria fórmula e a desgastou incessantemente até transformar as “reviravoltas” em algo esperado, o que, por definição, anula totalmente seu efeito. Não é o caso aqui. “O Sexto Sentido” continua impactante, criativo e merece toda a repercussão que causou, apesar de um ou outro exagero.

o-sexto-sentido-foto-2Texto publicado em 12 de Setembro de 2016 por Roberto Siqueira

Recado

18 agosto, 2016

Olá queridos leitores,

Sei que estou ausente, mas foi por uma boa razão. Primeiro, fiz uma linda viagem com minha família, que talvez inspire um ou dois posts por aqui. Depois, vieram as Olimpíadas e eu sou simplesmente apaixonado por esportes. Estou acompanhando tudo e, assim como a Copa de 2014, orgulhoso de ter este grande evento em nosso país.

Então peço que tenham calma. Em breve o Cinema & Debate retorna com o texto de “O Sexto Sentido”. Até lá, com o perdão do trocadilho, vamos manter o suspense.

Obrigado pela paciência e até breve.

Texto publicado em 18 de Agosto de 2016 por Roberto Siqueira

Crônicas do Meu Silêncio (2015)

6 junho, 2016

Vídeo publicado em 06 de Junho de 2016 por Roberto Siqueira

O INFORMANTE (1999)

22 maio, 2016

(The Insider)

5 Estrelas 

 

 

Videoteca do Beto #230

Dirigido por Michael Mann.

Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Michael Gambon, Rip Torn, Cliff Curtis, Breckin Meyer, Lynne Thigpen, Vyto Ruginis, Wanda De Jesus e Roger Bart.

Roteiro: Michael Mann e Eric Roth, com base em artigo de Marie Brenner.

Produção: Pieter Jan Brugge e Michael Mann.

O Informante[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Por incrível que pareça, ainda existem muitas pessoas que acreditam na imparcialidade da grande mídia e que verdadeiramente confiam que as informações que encontram em telejornais, sites, revistas e jornais impressos se baseiam no princípio básico do jornalismo, que é (ou deveria ser) a necessidade de transmitir informação. Assim, quando confrontadas por questionamentos que escancaram a ingenuidade de seu pensamento, estas pessoas tendem a ignorar ou a atribuir ao interlocutor a posse de teorias conspiratórias. No entanto, não precisa muito raciocínio lógico para entender os motivos que levam a mídia a agir como age – e os tristes fatos recentes ocorridos no Brasil atestam isso de maneira exemplar. O motivo é simples: interesse econômico – ou, sendo mais direto, o dinheiro. Contundente e eficiente, “O Informante” é um retrato perfeito de tudo que envolve este jogo nada ético, movido a interesses que nem sempre atendem às necessidades da sociedade.

Escrito pelo diretor Michael Mann em parceria com Eric Roth e com base em artigo de Marie Brenner, “O Informante” narra a trajetória do ex-diretor e biologista da Brown & Williamson, Jeffrey Wigand (Russell Crowe), que após ser demitido e coagido a assinar um acordo de confidencialidade, acaba sendo convencido pelo jornalista e produtor do programa “60 minutos”, Lowell Bergman (Al Pacino), a dar uma entrevista reveladora. A ideia é transmitir ao público os malefícios que as empresas de tabaco sabem causar às pessoas e os componentes que propositalmente levam ao vício, garantindo assim o lucro eterno ao segmento.

Baseado em história real ocorrida em 1994, o roteiro muito bem estruturado desenvolve seus dois personagens centrais, apostando na busca por semelhanças entre duas pessoas em posições teoricamente antagônicas (algo que ocorria de maneira mais gritante em “Fogo contra Fogo”, também de Mann). Assim, temos de um lado o jornalista que busca desesperadamente uma matéria bombástica e do outro o homem que busca tirar um enorme peso da consciência – e é justamente a maneira ética com que se comportam num cenário dominado por interesses que os une. Construindo um clima de tensão crescente, Mann conduz a narrativa sem pressa, explorando os dois excelentes personagens sem jamais nos permitir relaxar por um minuto sequer. A sensação constante é de que algo potencialmente perigoso pode ocorrer. Ainda que Jeffrey e Lowell conversem dentro de um quarto de hotel, o simples toque do telefone serve para injetar adrenalina em cena, o que é mérito do diretor.

Neste sentido, a montagem do trio William Goldenberg, David Rosenbloom e Paul Rubell é crucial, primeiro para nos manter interessados numa narrativa focada essencialmente em diálogos, segundo por alternar muito bem entre o drama de Jeffrey e o impacto causado em sua vida e a luta de Lowell na busca por conseguir a entrevista e sua posterior veiculação. Obviamente, a trilha sonora contundente de Pieter Bourke e Lisa Gerrard reforça o clima de mistério que gradualmente cerca Jeffrey, assim como a fotografia fria de Dante Spinotti, que prioriza tons em azul e cinza e explora o tempo sempre fechado, como quando os dois discutem debaixo de forte chuva em frente à casa de Jeffrey, refletindo a aflição que dominava a narrativa naquele instante.

Movendo a câmera lentamente e de forma elegante, Mann abusa de closes no rosto dos personagens, exaltando a tensão que domina “O Informante” e realçando as expressões de dois homens lentamente consumidos por todo aquele processo. De maneira inteligente, o diretor consegue transmitir muitas sensações apenas através dos movimentos de câmera, como na conversa deles num restaurante japonês em que a câmera se aproxima conforme a discussão fica intensa, ilustrando a tensão crescente. Já no fim do depoimento de Jeffrey no tribunal estadual do Mississippi, a câmera diminui o personagem e, reforçada pela trilha sonora melancólica, indica o futuro sombrio que ele teria dali pra frente. Repare ainda como em sua volta para casa, um carro em chamas à beira da estrada reforça a angústia do personagem e, de quebra, simboliza que ele havia incendiado a própria vida ao decidir enfrentar a indústria do tabaco.

Dois discutem debaixo de forte chuvaConversa deles num restaurante japonêsDepoimento de Jeffrey

Colocando a própria família em risco, o Jeffrey de Russell Crowe surge constantemente abatido, sendo consumido pelas ameaças veladas que tentam lhe intimidar e que levam a ruptura da harmonia em seu lar. Com o semblante pesado, o ator transmite muito bem a aflição de um personagem visivelmente conturbado, que não consegue lidar muito bem com aquela enorme pressão e que busca alguma saída para a situação complicada em que se meteu. Talentoso, Crowe demonstra de maneira sutil, por exemplo, que Jeffrey quer dizer mais do que realmente diz nas primeiras conversas com Lowell, somente através de suas expressões e pelas pausas em sua fala. Da mesma forma, é notável o alívio que toma conta do personagem conforme a entrevista se aproxima do fim, assim como ocorre com Christopher Plummer, que não esconde a satisfação do entrevistador Mike Wallace diante do que ouviu com seu leve sorriso no final da conversa.

Constantemente abatidoJeffrey quer dizer mais do que realmente dizNão esconde a satisfação do entrevistador

Infeliz deste o instante em que o marido perdeu o emprego, Diane Venora demonstra a preocupação de Liane Wigand com exatidão, num sentimento que pode parecer egoísta a princípio, mas que é justificável primeiro pela falta de segurança social dos EUA, um país onde inexistem políticas de proteção ao cidadão que perde o emprego, depois por razões ainda mais fortes como o apego sentimental à casa antiga (“Neste gramado nossa filha deu os primeiros passos”). Assim, por mais que possamos questionar a falta de suporte ao marido num momento tão difícil, podemos perfeitamente compreender as razões que levaram Liane a abandoná-lo – e o olhar da filha ao ver a entrevista do pai finalmente ser transmitida simboliza o alívio que toda a família sentiu ao perceber que ao menos tudo aquilo não foi em vão.

A responsabilidade pela divulgação da entrevista é quase que exclusiva de Lowell Bergman, que enfrentou não apenas a indústria do tabaco como a própria CBS para conseguir o que queria. Vivido pelo sempre talentoso e intenso Al Pacino, Lowell é um jornalista competente e respeitado que ainda enxerga sua profissão com o romantismo de outrora, sem se importar muito com os interesses econômicos que cercam seu ambiente de trabalho. Dono de uma personalidade forte, ele não hesita em enfrentar a frieza dos próprios colegas numa reunião na CBS, na qual Pacino explode e demonstra a ira do personagem ao perceber os interesses financeiros que moviam as opiniões dos demais em detrimento do ser humano envolvido em toda aquela questão. Para atestar a versatilidade de Pacino, compare este momento com aquele em que ele tenta criar empatia com Jeffrey num diálogo no carro dele no qual pergunta de maneira descontraída sobre coisas corriqueiras, conseguindo aproximar-se e tornando mais fácil a missão de obter as informações que precisava.

Preocupação de Liane WigandOlhar da filhaNão hesita em enfrentar a frieza dos próprios colegas

Esta dinâmica entre ambos é o motor de “O Informante”, que funciona tanto como thriller quanto como estudo de personagens. No entanto, o longa dirigido por Michael Mann não para por aí, abordando como tema central da narrativa o poder das grandes corporações num ambiente sócio econômico que as favorece. Observe, por exemplo, como diante da falta de um sistema de saúde que ao menos ofereça proteção a alguém em situação econômica desfavorável, a indústria do tabaco não hesita em ameaçar cortar o seguro saúde do ex-diretor, sabendo do impacto que esta decisão teria na vida de sua família. Da mesma forma, Jeffrey é atacado psicologicamente e financeiramente pela empresa, que diante de um sistema educacional que não oferece educação gratuita para todos como o norte-americano, sabe a importância de ter dinheiro para poder pagar boas escolas e não comprometer seriamente o futuro das filhas, colocando-o numa posição nada confortável diante da empresa. Em regimes neoliberais como o dos EUA, a meritocracia costuma funcionar somente para quem tem dinheiro – e tanto Jeffrey quanto a empresa que o demitiu sabiam disto.

Tratando o ex-diretor como um bandido após demiti-lo (algo infelizmente muito comum no impessoal mundo corporativo), a empresa expõe a podridão de um ambiente que não vê problema algum em ameaçar a integridade e a estabilidade de uma família para atender seus interesses econômicos, ignorando completamente os seres humanos envolvidos nesta equação. E num sistema sem regras e regulação de mercado como o norte-americano, até mesmo quem deveria investigar as grandes corporações como o FBI pode facilmente ser influenciado pelo poder financeiro delas, o que leva os investigadores a duvidarem das afirmações de Jeffrey durante a investigação das ameaças sofridas por ele.

Existe ainda uma variante importante neste contexto e que, como afirmei no primeiro parágrafo, deveria funcionar como o veículo responsável por apontar para a sociedade os absurdos mencionados acima. No entanto, não é exatamente o que ocorre na realidade. Impiedosa e igualmente orientada pelos interesses financeiros representados por seus patrocinadores, acionistas e os próprios donos das emissoras, a mídia raramente se opõe ao jogo proposto pelas grandes corporações, preferindo, por exemplo, esmiuçar o passado de Jeffrey e demonizá-lo diante da opinião pública, já que é muito mais fácil e rentável atacar um homem desempregado do que enfrentar uma indústria tão poderosa quanto a do tabaco. “Que vida sob uma lupa não tem defeitos?”, questiona ele irritado, quando descobre que a mídia investiga seu passado em busca de qualquer aspecto que possa comprometê-lo diante da sociedade. A resposta é óbvia, mas a massa manipulada e envenenada pela mídia não consegue raciocinar.

Atacado psicologicamente e financeiramenteTratado como um bandidoImpiedosa e igualmente orientada pelos interesses financeiros

Esta manipulação da mídia e do grande capital representado pelas megacorporações escancara a farsa do capitalismo neoliberal, onde a falta de regulação do mercado e, principalmente, de proteção social criam um ambiente feroz propício para que os donos do dinheiro façam o que quiserem da vida de todos, algo muito bem resumido na frase de Lowell: “Imprensa livre para seus donos”. Uma sociedade mais protegida também tem seus problemas, mas ao menos dificulta o processo e oferece um equilíbrio maior aos seus cidadãos. Não à toa, sociedades com maior proteção social e regulação lideram todas as listas de melhores lugares para viver.

Trazendo a luta de um jornalista de verdade para vencer o poder das grandes corporações que, infelizmente, infestaram e destruíram o jornalismo em boa parte do mundo (especialmente aqui no Brasil), “O Informante” retrata uma realidade que poucos querem falar e que, como ficou claro recentemente em nosso país, ainda permanece muito atual. Uma pena que não tenhamos tantos Lowell Bergman mais por aqui.

O Informante foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

Feliz dia das mães!

8 maio, 2016

Vídeo publicado em 08 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

MATRIX (1999)

4 maio, 2016

(The Matrix)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #229

Dirigido por Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Julian Arahanga, Matt Doran, Belinda McClory, Anthony Ray Parker, Gloria Foster, Paul Goddard, Robert Taylor, Marc Aden Gray, Ada Nicodemou, David Aston, Deni Gordon, Rowan Witt, Fiona Johnson e Bill Young.

Roteiro: Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Produção: Joel Silver.

Matrix[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não são raras as vezes em que um filme é ignorado na época de seu lançamento e, muitos anos depois, acaba sendo descoberto por uma nova geração que o transforma no chamado cult. Raros, porém, são os casos de filmes que já nascem com este conceito. Mais raros ainda são casos como o de “Matrix” que, em pouco tempo, tornou-se mais do que um filme cult, consolidando-se como um fenômeno cultural do final do século passado que arrastou milhões de fãs pelo mundo não apenas para a frente das telas, mas para um universo particular, repleto de ideias complexas, banhadas em conceitos trazidos das mais diversas fontes.

Escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski, “Matrix” nos leva ao futuro, num mundo já dominado pelas máquinas, que utilizam os seres humanos como fonte de energia para manterem suas baterias carregadas. Para isto, construíram um complexo sistema em que as pessoas hibernam e, através de um programa de computador, sonham viver no planeta exatamente como este era concebido no passado já distante. No entanto, alguns humanos dissidentes conseguem escapar e iniciam um movimento de resistência, que aguarda a chegada do líder que os guiará na luta pela liberdade de toda a raça humana. O mais importante deles é Morpheus (Laurence Fishburne), que conta com a ajuda de Trinity (Carrie-Anne Moss) para encontrar aquele que ele acredita ser o escolhido: um hacker chamado Neo (Keanu Reeves).

Neste breve resumo não é possível identificar o tamanho e a complexidade do universo criado pelos irmãos Wachowski, que como mencionado transformou-se ao longo dos anos num fenômeno cultural de extrema importância para toda uma geração, inspirando não apenas duas continuações, mas também versões em anime, um universo expandido e até mesmo um site dedicado a explorar a “Matrix”. Capaz de agradar aos mais diversos tipos de fã por conta da diversificada colagem cultural em que se apoia, da qualidade de sua narrativa e das ótimas cenas de ação, o longa representou ainda um marco em termos de efeitos visuais, tornando-se referência para inúmeros filmes que surgiriam nos anos seguintes.

Visualmente impactante, “Matrix” conta com a direção de fotografia sóbria de Bill Pope, que deixa claro já quando o logo da Warner surge em verde que a cor característica dos caracteres dos antigos computadores daria o tom, ao lado de ambientes tomados pelas sombras e por paletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentado. A ideia é justamente refletir o ambiente característico das máquinas, criando um contraponto bem interessante para os planos mais coloridos que por vezes surgem quando estamos no ambiente que simula a vida real criado para manter os humanos aprisionados – e a ironia entre o contraste do mundo virtual colorido e o verdadeiro mundo real dessaturado é muito interessante.

Logo da Warner em verdePaletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentadoPlanos mais coloridos

Da mesma forma, o ótimo design de produção de Owen Paterson suga o espectador para dentro daquele universo através dos aparatos tecnológicos improvisados utilizados pelos hackers, sendo responsável ainda pela criação de cenários impressionantes como a própria matrix, que se materializa quase que como uma espécie de colônia de escravos adormecidos, nos permitindo compreender bem o conceito apenas através do visual. Da mesma forma, os figurinos de Kym Barrett apostam em roupas sóbrias e de cores escuras para ampliar a sensação claustrofóbica, além de serem responsáveis por criar o icônico visual dos personagens que surgem em roupas de couro e estilosos óculos escuros (o que ainda remete ao acessório clássico necessário para visualizar algo em 3D).

Aparatos tecnológicos improvisadosEspécie de colônia de escravosIcônico visual dos personagens

E se a trilha sonora de Don Davis ajuda a construir a atmosfera de mistério envolvendo tudo que cerca a matrix, o excepcional design de som é crucial para conferir ainda mais realismo às ótimas cenas de ação, como quando nos permite ouvir o barulho da hélice do helicóptero que chama a atenção dos agentes segundos antes do resgate de Morpheus. No entanto, são mesmo os efeitos visuais que se destacam na parte técnica de “Matrix”. Famosos pelo efeito que ficou conhecido como “bullet time”, os inovadores efeitos visuais não apenas são responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes do filme, como ainda respeitam a lógica interna da narrativa, o que é importante para não tirar nossa atenção. E se diversos instantes saltam aos olhos pelo preciosismo do que vemos na tela, são mesmo os momentos em que a câmera gira lentamente em 180 ou 360 graus ao redor dos personagens que nos encantam, como fica claro logo na primeira vez em que isto ocorre, quando Trinity escapa do cerco dos policiais de maneira espetacular.

Obviamente, a direção dos Wachowski é crucial para que estas cenas sejam tão bem conduzidas e os irmãos demonstram grande competência nesta tarefa, criando lutas muito bem coreografadas e que jamais deixam o espectador confuso com o que vê na tela, graças ao ótimo controle dos diretores. Desde a citada fuga de Trinity, que funciona como a primeira sequência de ação capaz de fisgar o espectador ainda nos primeiros minutos de “Matrix”, os Wachowski nos presenteiam com várias sequências memoráveis, como a perseguição de Neo, o empolgante resgate de Morpheus e, claro, o duelo entre Neo e o agente Smith (Hugo Weaving) numa estação de metrô, que remete aos westerns com papéis voando e os homens se encarando com as mãos próximas das armas por alguns segundos antes do confronto.

Trinity escapa do cerco dos policiaisEmpolgante resgate de MorpheusDuelo entre Neo e o agente Smith

No entanto, “Matrix” está longe de ser apenas uma proeza técnica. Aliás, é justamente na complexidade de sua narrativa e nos inúmeros conceitos que a sustentam que reside boa parte de seu sucesso, na época soando como potencial candidato a criar uma nova mitologia no estilo de “Star Wars”. Rico tematicamente, o longa parte de uma premissa ousada e muito interessante, na qual tudo que os homens enxergam e vivem não passa de um universo criado virtualmente. Só que só teremos acesso a este conceito após algum tempo de projeção. Até lá, somos colocados na mesma posição de Neo, buscando desvendar as palavras misteriosas de Trinity enquanto somos guiados até Morpheus. Após uma espécie de pesadelo surreal do protagonista que depois se revelaria uma das primeiras transições entre os dois mundos, vamos aos poucos conhecendo conceitos importantes como os telefones que servem para transportar os personagens e os agentes sentinelas que servem como espiões inseridos pelas máquinas para eliminar todo e qualquer humano que queira se rebelar, até culminar na primeira aparição de Morpheus que, depois de apresentar a função das pílulas azul e vermelha, finalmente explica de forma didática e envolvente a origem e o funcionamento da matrix.

Agentes sentinelasPílulas azul e vermelhaPapel de messias

Passamos então a transitar junto com os personagens entre o ambiente real e o virtual num ritmo intenso, o que é mérito do montador Zach Staenberg, que jamais nos permite relaxar, abrindo caminho para que os Wachowski possam enfim apresentar sua profusão de ideias envolvendo conceitos científicos, religiosos e filosofia, misturando ainda cultura pop como animes, HQ´s e kung fu. Assim, enquanto Neo é claramente colocado no papel de messias, Trinity (a trindade) surge como uma figura feminina, causando o espanto do próprio escolhido (“Pensei que fosse homem”). Vivido por um surpreendentemente intenso Keanu Reeves, Neo representa a esperança para uma raça humana dominada e fadada ao fim, o que explica a clara ansiedade que ele demonstra enquanto é sugado por tudo que o cerca. Neo era um homem já descrente do mundo à sua volta e acaba encontrando do outro lado a chama perdida há tempos. Até por isso, a cena em que ele finalmente desperta no mundo real faz uma clara alusão ao nascimento, com ele rompendo a bolsa que o envolve e cortando o cordão umbilical que o prendia a matrix.

Determinada e dona de um olhar penetrante capaz de nos fazer acreditar que sua personagem pode mesmo vencer diversos oponentes num confronto, Carrie-Anne Moss faz de Trinity a parceira ideal para um ainda novato Neo, conduzindo-o com firmeza total em suas convicções. Por sua vez, Laurence Fishburne confere uma aura misteriosa e imponente a Morpheus, cujo nome é o mesmo do deus grego dos sonhos, da mesma forma que Gloria Foster faz com Oráculo, com sua fala segura e em tom de voz baixo e confiante. Fechando os destaques do elenco, vale citar o olhar gélido de Hugo Weaving na pele do agente Smith, impondo respeito e soando ameaçador sem precisar dizer muitas palavras.

A trindadeAlusão ao nascimentoAura misteriosa e imponente a Morpheus

Além dos diversos simbolismos religiosos espalhados pela narrativa, como a nave Nabucodonosor e a referência ao versículo Marcos 3:11 (“E quando os espíritos impuros o viam, se jogavam gritando: `Tu és o filho de Deus`”, numa óbvia referencia a Neo), temos ainda diversas menções a “Alice no país das maravilhas”, sejam literais ou até mesmo através dos coelhos que aparecem na televisão, passando por fundamentos do budismo e citações a diversos filósofos como Sócrates e Platão. Para fechar, a temática diversificada ainda trabalha o tema homem versus máquina de maneira bastante inventiva, mostrando também como maquiar a realidade é uma das formas mais eficientes de controle das massas, seja através de uma realidade virtual ou de qualquer outra forma que mantenha a falsa sensação de felicidade – algo que serve inclusive para motivar a traição de Cypher (Joe Pantoliano), outro com nome repleto de simbolismos. Na verdade, discursar sobre os inúmeros simbolismos e as teorias de “Matrix” é uma tarefa árdua, que pode gerar textos e mais textos.

São poucos os eventos culturais capazes de marcar toda uma geração e este é o caso do longa dirigido pelos Wachowski. Ousado tematicamente e com ótimas cenas de ação, “Matrix” foi um marco não apenas em termos de efeitos visuais, mas também pelo complexo universo que nos apresentou e os inúmeros debates que proporcionou.

Matrix foto 2Texto publicado em 04 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

MAGNÓLIA (1999)

25 abril, 2016

(Magnolia)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

Videoteca do Beto #228

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: John C. Reilly, Julianne Moore, William H. Macy, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman, Jason Robards, Alfred Molina, Melora Walters, Michael Bowen, Ricky Jay, Jeremy Blackman, Melinda Dillon, Luis Guzmán, Felicity Huffman, Henry Gibson, Michael Murphy, April Grace, Don McManus e Patton Oswalt.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson e JoAnne Sellar.

Magnólia[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alguns filmes precisam de um tempo para serem absorvidos em sua plenitude pelo espectador. Este tempo pode ser aqueles instantes em que você repassa o filme na cabeça tentando encontrar possíveis furos no roteiro, horas em que você reflete sobre as questões levantadas ou até mesmo dias ou meses em que tenta formar uma teoria que interprete sua mensagem. Pois a obra-prima “Magnólia” se encaixa em todas estas possibilidades e ainda oferece mais, permitindo ao espectador desfrutar novos e deliciosos detalhes em cada revisita. Motivo de grande polêmica e revolta de espectadores mais apressados por causa de uma única cena, o longa dirigido por Paul Thomas Anderson é um deleite para o verdadeiro fã de cinema, tamanha a sua complexidade temática e narrativa.

Escrito pelo próprio Paul Thomas Anderson (assim como todos os outros filmes de sua carreira), “Magnólia” acompanha um dia na vida de um grupo de pessoas em Los Angeles, que têm seus destinos interligados de alguma forma. Assim, temos o policial Jim (John C. Reilly) que conhece Claudia (Melora Walters) ao atender um chamado; Claudia que é filha de Jimmy (Philip Baker Hall), o apresentador de um programa de TV no qual Stanley (Jeremy Blackman) é o astro infantil, assim como Donnie Smith (William H. Macy) já fora um dia. O programa é produzido por Earl Partridge (Jason Robards), casado com Linda (Julianne Moore) e pai de uma espécie de guru do sexo, o misógino Frank T.J. Mackey (Tom Cruise). Doente em estado terminal, Earl tem a companhia do cuidador Phil (Philip Seymour Hoffman), que acaba descobrindo em conversas com seu paciente a razão da raiva que o filho sente do pai.

Como é fácil perceber neste breve resumo, “Magnólia” não é um filme simples de acompanhar. Ou ao menos não deveria ser. Com tantos personagens e, o que é mais admirável, com importância semelhante dramaticamente, a ousada narrativa intercala a vida de todos eles de maneira dinâmica, o que faz o trabalho do montador Dylan Tichenor (parceiro de Anderson no também multifacetado e ótimo “Boogie Nights”) essencial para o sucesso do filme. E é incrível perceber como a genialidade da montagem e a condução de Anderson nos mantém interessados por todas as histórias narradas quase que na mesma intensidade, através de sua câmera em constante movimento que jamais nos deixa confusos e do absoluto controle da misè-en-scene, o que não é nada fácil numa narrativa multifacetada e repleta de personagens importantes. Empregando movimentos de câmera elegantes que alternam entre o uso do zoom, travellings e belíssimos planos-sequência (aquele nos corredores da emissora de televisão é sensacional), o diretor não apenas mantém nosso interesse como ainda cria um visual gradualmente sufocante, ampliado pela brilhante fotografia de Robert Elswit, que explora os ambientes fechados, a noite predominante e a chuva que cai em boa parte do filme para criar esta sensação de sufocamento gradual no espectador e refletir os sentimentos dos personagens.

Absoluto controle da misè-en-sceneBelíssimos planos-sequênciaNoite predominante e a chuva que cai

As elegantes transições surgem também através de muitos raccord sonoros, que são transições entre cenas que iniciam primeiro através do som e somente depois através da imagem, ou seja, começamos a ouvir o som da cena posterior enquanto ainda acompanhamos imagens da cena antecessora, o que serve para aumentar a expectativa pela sequência que está por iniciar, como por exemplo quando o som do show de Frank surge enquanto ainda acompanhamos seu pai doente na cama. A trilha sonora de Jon Brion também colabora na criação do mencionado clima melancólico, além de muitas vezes ajudar a ditar o ritmo da narrativa, tanto nos momentos mais empolgantes em que a música acompanha as constantes mudanças de foco, transitando entre todas aquelas histórias, quanto nos momentos mais intimistas em que os personagens estão mais reflexivos.

Competente também na direção de atores, Anderson extrai atuações respeitáveis de um elenco qualificado e homogêneo. Personagem central da narrativa (ainda que em “Magnólia” não seja tão simples definir o protagonista), Jim talvez seja o personagem mais tranquilo depois de Phil, chegando a ser comovente em sua quase ingenuidade. Carismático, John C. Reilly assume o papel com facilidade e transforma Jim num dos pontos de equilíbrio de uma narrativa tão pesada dramaticamente, como atesta a personagem que mais contracena com ele. Logo em sua primeira aparição, Melora Walters já sugere o forte trauma de Claudia através da histeria dela ao ver o pai e segue na mesma intensidade durante quase todo o filme. Observe, por exemplo, como ela está inquieta na chegada do policial, demonstrando tanto o efeito das drogas quanto sua ansiedade provocada pela visita recente do pai. Claudia é uma personagem traumatizada e depressiva e Walters transmite isso com precisão.

Comovente em sua quase ingenuidadeForte trauma de ClaudiaHomem cansado, amargurado

Seu pai é interpretado por Philip Baker Hall, que vive Jimmy como um homem cansado, amargurado talvez, que ficou famoso por apresentar um quiz show envolvendo crianças, mas que não soube se aproximar da própria filha como deveria e, o que é muito pior, cometeu um crime horrendo contra ela. Vivendo outra linha narrativa crucial para entendermos os temas tratados em “Magnólia”, William H. Macy vive o ex-garoto prodígio Donnie Smith, externando com competência o ressentimento provocado pela exploração dos pais e a falta de confiança para aceitar-se como ele é. Apaixonado por um barman, mas sem coragem para assumir sua orientação sexual, ele encontra na platônica paixão a possibilidade de aceitação social que tanto lhe faz falta. Já Stanley, seu herdeiro na posição de menino prodígio, reage à pressão de ser o fio condutor da riqueza dos pais e não aceita ser explorado, levando o pai (Michael Bowen) ao desespero – e o garoto Jeremy Blackman segura bem o papel neste sentido, demonstrando firmeza sem perder o encanto da infância. As crianças que são exploradas pelo show business por puro interesse econômico (das emissoras e dos pais, diga-se) é um dos temas importantes abordados pelo longa.

Representando o espectador naquele mar de dor e angustia, Philip Seymour Hoffman encarna Phil com grande sensibilidade, demonstrando o quanto o cuidador absorve o sofrimento dos que estão à sua volta. Único personagem sem motivos aparentes para sentir a própria dor, seu rosto transmite a paz e a empatia pelo próximo tão necessárias em sua profissão – e as expressões de Hoffman realçam com exatidão a intensidade com que o personagem sente a dor alheia. Assim, Phil se transforma no ponto de equilíbrio principal do espectador naquela narrativa angustiante. O mesmo não podemos dizer de Linda. Inicialmente mais discreta, Julianne Moore lentamente ganha força na narrativa até transformá-la num poço de emoções à flor da pele, culminando numa tentativa de suicídio melancólica e tocante movida pelo remorso após revelar suas reais intenções naquele relacionamento. A confissão, aliás, é um dos bons momentos da atriz, no qual demonstra como o peso do passado corrói a personagem.

Ex-garoto prodígio Donnie SmithHerdeiro na posição de menino prodígioPonto de equilíbrio principal

O peso do passado é, portanto, outro tema central de “Magnólia”, escancarado na frase “Nós até podemos ter esquecido do passado, mas o passado ainda não se esqueceu de nós”, repetida algumas vezes. Quem melhor personifica este peso é Earl Partridge, interpretado de maneira estupenda por Jason Robards, que consegue o feito de humanizar um personagem tão cruel. Graças a intensidade de sua performance, sentimos a dor de Earl como se fosse nossa, com seus gemidos agudos, olhar desfocado e a voz cansada, que denotam o desgaste de um homem lentamente consumido pelo passado, como podemos notar no momento magistral em que Earl conta como conheceu a esposa Lilly e confessa o arrependimento pela forma como a tratou e especialmente por traí-la, reclamando cheio de amargura que “A vida não é curta, é longa!” após tantos anos convivendo com seu remorso, numa cena que ecoa na mente do espectador mesmo após a projeção.

Parte deste sofrimento vem também da certeza do trauma provocado em seu filho Frank que, como muitos personagens em “Magnólia”, também precisa acertar contas com o passado. Talvez no ano mais especial de sua carreira em termos de atuação, Tom Cruise está muito bem na pele do misógino protagonista de um show voltado para homens obviamente machistas, demonstrando grande segurança no palco e uma carcaça que esconde fortes traumas do passado fora dele, como fica evidente quando é confrontado pela entrevistadora e, inquieto, dá os primeiros sinais de que está mentindo (algo que tanto a repórter quanto o espectador já sabiam). Após a menção aos pais, ele muda completamente a feição e perde a estabilidade e a confiança que pareciam transbordar até então, escancarando sua conexão com a mãe e o trauma provocado pela morte dela, o que talvez explique, sem justificar, a persona machista que criou como uma autodefesa ou uma forma de esconder a fragilidade emocional e afetiva que tinha. Por isso, seu comportamento na entrevista passa da euforia para a introspecção, numa transição conduzida com perfeição por Cruise.

Poço de emoções à flor da peleHomem lentamente consumido pelo passadoMisógino protagonista de um show

O comportamento de Frank, aliás, serve para ilustrar aquele que talvez seja o principal tema de “Magnólia”, que é o desentendimento entre pais e filhos. Desta forma, temos o ressentimento de Donnie e a revolta de Stanley alimentados pelo mesmo motivo, assim como o ódio que Claudia sente pelo pai também é o sentimento de Frank por Earl, mas por razões diferentes. Orbitando em volta deles, temos personagens igualmente sugados pela culpa que Jimmy e Earl carregam, como Linda, ou aqueles que tentam amenizar a dor dos que estão em volta, como Jim e Phil. A intenção é clara: demonstrar a conexão entre aquelas pessoas. O primeiro momento em que isso acontece é durante o show de Jimmy, em que vários personagens, mesmo distantes uns dos outros, surgem conectados através da tela da televisão, numa das várias sequências conduzidas com maestria por Anderson e seu montador. Da mesma forma, o zoom que nos leva até Jimmy instantes antes dele cair no palco surge logo após uma sequência dinâmica que nos faz passar por vários personagens, na qual a trilha sonora indica que aquelas pessoas estavam muito próximas de chegarem aos seus limites.

Este limite chega no instante em que o peso das atitudes do passado toma conta de boa parte dos personagens e o sofrimento atinge níveis quase insuportáveis, levando-os a se isolarem de alguma forma, ainda que em alguns casos este isolamento surja apenas mentalmente e não de fato fisicamente. Então surge a emocionante sequência em que todos se conectam novamente, agora cantando a bela música “Wise up”, de Aimee Mann, num momento lindo, realçado pela chuva que cai, pela noite e pela melancolia coletiva que toma conta da tela, conduzido com maestria por Anderson – que é amigo pessoal de Mann e escolheu a cantora para desenvolver as músicas especialmente para o filme. Em seguida, a chuva finalmente cessa e o alívio temporário chega, dando início ao terceiro ato da narrativa.

Conectados através da tela da televisãoTodos se conectam novamenteDivertido segmento de abertura

O tragicamente divertido segmento de abertura passa então a fazer mais sentido quando um fato inusitado surge para interferir na vida de todas aquelas pessoas. Seria coincidência ou a ação do destino? Temos um ser superior que direciona nossas vidas ou estamos jogados ao acaso? Chegamos então ao grande mistério de “Magnólia”, desvendado brilhantemente pelo crítico Pablo Villaça em sua memorável crítica de 2000. Inicialmente, a interpretação mais plausível é a de que o acaso tem peso em nossas vidas e a chuva de sapos representaria metaforicamente este acaso. É uma visão coerente e que faz todo sentido. No entanto, Paul Thomas Anderson não queria apenas nos abrir a possibilidade de interpretação, ele queria brincar com nossa percepção e o faz durante toda a narrativa. Observe, por exemplo, como o garoto rapper faz uma espécie de profecia sobre a chuva que aliviaria a todos, assim como alguns personagens dizem que “está chovendo gatos e cachorros”, numa expressão típica do idioma inglês que serve para brincar com o fato estranho que ocorreria depois.

Da mesma forma, a previsão do tempo surge várias vezes na tela, indicando a importância do clima desde o início e sinalizando de forma sutil o evento que ocorreria no clímax. Observe também como a primeira previsão é de 82% de chance de chuva, numa brincadeira que faz uma das primeiras alusões ao versículo “Êxodo 8:2”, algo que se repetiria algumas vezes, como na abertura do programa comandado por Jimmy em que vemos rapidamente um cartaz escrito este versículo na plateia. Em outro momento, a menção ao livro de Êxodo, capítulo 20, versículo 5 (“Os pecados dos pais recaem sobre os filhos”), além de reforçar o tema central de “Magnólia”, ainda indica a importância deste livro para compreender a narrativa. E por fim, repare como Jim passa por uma placa de publicidade luminosa contendo a frase “Êxodo 8:2” segundos antes do primeiro sapo atingir seu carro.

Primeira previsão é de 82% de chuvaCartaz escrito Êxodo 8 2Placa de publicidade luminosa

Mas o que quer dizer este bendito versículo (sem trocadilho)? Uma rápida consulta a Bíblia traz as palavras de Deus para o faraó, reveladas na voz de Moisés: “Mas se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”. Em Magnólia, é justamente quando Frank implora para que seu pai não o deixe (“Don’t go away!”) que a chuva tem início, num momento em que todos pareciam estar sem saída ou encontrando soluções tragicamente definitivas para aliviar o sofrimento. Certamente a sequência mais polêmica de “Magnólia”, os sapos que surgem dos céus para salvá-los podem ser interpretados de várias formas, como o mencionado acaso que surge para alterar os seus destinos e mudar o rumo de suas vidas, mas esta pérola escondida por toda a projeção torna o longa ainda mais especial e brilhante.

Durante a chuva, o quadro com a frase “Mas realmente aconteceu” (“But it did happen”), já citada antes por Phil quando explicava a tentativa desesperada do pai em estado terminal de encontrar o filho no telefone (“Parece aqueles filmes…”), reforça a teoria da força do acaso em nossas vidas e serve para acalmar os mais céticos, ainda que a explicação bíblica esteja lá, espalhada de diversas formas por “Magnólia”. E vale dizer que, se tematicamente a cena tem um peso enorme, tecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita, visualmente impactante e com instantes plasticamente belíssimos como quando acompanhamos um sapo caindo lentamente num plano plongè.

Frank implora para que seu pai não o deixeMas realmente aconteceuTecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita

“O que podemos perdoar?”, questiona Jim instantes antes de encerrar esta obra-prima. A resposta é uma das mais difíceis que podemos encontrar. Assim, quando finalmente podemos ver o primeiro sorriso de Claudia, nos damos conta que já estamos no último plano do longa, mas nunca é tarde para encontrar alguma forma de redenção.

Narrativamente complexo, tematicamente rico e visualmente belo, “Magnólia” é uma obra-prima do cinema capaz de gerar grande polêmica, mas extremamente recompensadora para os amantes da sétima arte. Contando com um diretor talentoso e um elenco formidável, o longa tem o poder que somente os grandes filmes têm de tornar-se ainda mais especial em cada revisita. E isto, com o perdão do infame trocadilho, não é um mero resultado do acaso.

Magnólia foto 2Texto publicado em 25 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

FANTASIA 2000 (1999)

19 abril, 2016

(Fantasia/2000)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #227

Dirigido por James Algar, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Hendel Butoy, Francis Glebas, Eric Goldberg e Pixote Hunt.

Elenco: Leopold Stokowski, Ralph Grierson, Steve Martin, Itzhak Perlman, Quincy Jones, Bette Midler, James Earl Jones, Angela Lansbury. Vozes de Kathleen Battle, Wayne Allwine e Frank Welker.

Roteiro: Irene Mecchi e David Reynolds, baseado em histórias de Eric Goldberg, Joe Grant, Perce Pearce, Carl Fallberg, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Brenda Chapman e argumento de Elena Driskill.

Produção: Donald W. Ernst.

Fantasia 2000[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Prestes a completar 60 anos do lançamento de uma de suas obras mais ousadas, a Disney resolveu se auto homenagear e lançou uma nova versão do clássico “Fantasia”, de 1940, agora repaginado e com novas canções. Mais curto e menos inspirado que o original, o novo trabalho mantém características essenciais do primeiro filme, com animações interessantes e uma boa seleção de canções, mas perde por manter aspectos narrativos já desatualizados e que, tantos anos depois, soam totalmente desnecessários.

Novamente trabalhando na ideia corajosa de misturar música clássica com animação, “Fantasia 2000” infelizmente também mantém as irritantes participações de atores e atrizes entre os clipes, que nada agregam e ainda representam uma frustrante quebra no ritmo da narrativa. Se em 1940 estas interrupções eram necessárias para explicar o conceito do longa à uma plateia ainda desacostumada com aquilo, nos anos 90 essa explicação já não era mais necessária (ou não deveria ser). Assim, somos obrigados a acompanhar as piadas sem graça de Steve Martin, por exemplo, ou a participação de um claramente deslocado James Earl Jones – a eterna voz de Darth Vader. Curiosamente, a única intervenção que funciona é justamente aquela que não envolve seres humanos, cabendo a Mickey e Donald estrelarem a única sequência engraçadinha entre os clipes.

“Fantasia 2000” começa relembrando a obra de 1940 e seu primeiro clipe chamado “Sinfonia n.º 5” também faz alusão ao longa original, já que, assim como a primeira sequência de “Fantasia”, aqui temos um festival de imagens abstratas, desta vez acompanhadas pela bela música de Bethoween. A sequência dirigida por Pixote Hunt funciona exatamente como “Toccata and Fugue in D Minor” no primeiro filme, introduzindo o conceito sem grandes experimentos, sendo o segmento menos envolvente do filme.

Já o segundo clipe eleva substancialmente o nível de “Fantasia 2000” ao trazer um segmento envolvente narrativamente e impactante visualmente. Ao som da música de Ottorino Respighi, “Pinheiros de Roma” nos traz a triste história de uma baleia que se perde da mãe, contada através de uma animação impecável em 3D (aliás, o primeiro segmento da Disney feito todo em 3D). O visual deslumbrante da vida marinha surge em tons menos coloridos e sem vida, reforçando a frieza do gélido local através dos tons azulados e transformando até mesmo a aurora boreal em algo melancólico, transmitindo o sentimento da pobre jovem baleia que se perde da família até finalmente reencontrá-la. Momentos surreais com baleias voando e bailando diante do céu estrelado complementam o belo segmento dirigido por Hendel Butoy.

O terceiro segmento, dirigido por Eric Goldberg, representa um retrocesso não apenas visualmente, como também narrativamente. Com linhas mais simples em 2D, a ideia é representar a vida de trabalhadores na Nova York dos anos 30, com destaque para os operários de uma obra em construção. Apesar da interessante dinâmica entre as diferentes profissões e da abordagem até divertida, “Rapsódia em Azul” acaba resultando num segmento menos envolvente que o anterior e talvez funcionasse melhor se surgisse antes de “Pinheiros de Roma”.

Sinfonia n.º 5Rapsódia em AzulConcerto de Piano No 2

Mantendo a gangorra de “Fantasia 2000”, o quarto segmento é muito mais interessante. Também dirigido por Hendel Butoy (parece que ele deveria ter dirigido todo o longa, não?), “Concerto de Piano No 2” traz o clássico de Hans Christian Andersen “O Soldadinho de Chumbo” ao som da música de Dmitri Shostakovich que, obviamente, dá nome ao clipe. Mais moderno em termos narrativos, o clipe traz um soldado que se apaixona por uma bela boneca de porcelana dançarina e desperta o ciúme de um palhaço. Aqui vale notar como o visual representa muito bem os sentimentos dos personagens, com os tons vermelhos e a música acelerada representando a fúria do palhaço, enquanto o visual assustador e opressivo no esgoto demonstra a angústia do pobre soldado. O caso de amor entre o soldado de chumbo e a boneca de porcelana terá um final feliz, mas não sem passar por momentos de adrenalina que são muito bem representados na música de Shostakovich.

O próximo segmento representa o bem vindo alívio cômico após a passagem anterior. Inspirado na música de Camille Saint-Saëns, “O Carnaval dos Animais” diverte ao trazer um flamingo brincando com um ioiô e irritando os demais, mas assim como o outro segmento dirigido por Eric Goldberg, não figura entre os destaques do longa. Em seguida, “Fantasia 2000” resgata uma das melhores sequências do longa original, estrelada pelo personagem mais famoso da Disney. Dirigida por James Algar, “O Aprendiz de Feiticeiro” continua um segmento poderoso, embalado pela música clássica de Paul Dukas e repleto de momentos marcantes, como a assustadora multiplicação das vassouras e aquele que traz Mickey empolgado brincando com seus novos poderes.

O Carnaval dos AnimaisAprendiz de FeiticeiroPompa e circunstância

Dirigido por Francis Glebas, “Pompa e circunstância” traz a famosa música clássica embalando uma bela história envolvendo o pato Donald numa jornada na arca de Noé, onde se desencontra da amada Margarida e passa por diversos obstáculos até finalmente reencontrá-la. Visualmente muito interessante, o segmento nos prepara para o fechamento de “Fantasia 2000” de maneira convincente, equilibrando momentos de humor com outro de apelo emocional. No entanto, é o segmento “O Pássaro de Fogo” que concorre com “Pinheiros de Roma” pela posição de melhor sequência do filme. Inspirado em um conto russo e acompanhado pela composição homônima de Igor Stravinski, este número de encerramento impressiona pelo visual arrebatador, iniciando na melancólica sequência em que vemos o espírito da primavera percorrendo o campo tentando trazer vida até encontrar um vulcão adormecido, passando pelos tons vermelhos que trazem o vulcão acordando e destruindo tudo ao seu redor e finalizando na bela calmaria quando finalmente o espírito consegue devolver as cores ao local, numa bela sequência que vincula a passagem das estações à vida, a morte e a ressurreição.

E se o último segmento representa a renovação e a esperança que ela traz, “Fantasia 2000” também se sai bem como o novo representante de uma ideia muito interessante, num festival de cores e sensações ainda eficiente, mas sem a magia do original. Nem precisava tanto.

Fantasia 2000 foto 2Texto publicado em 19 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

Feliz aniversário meu amor!

15 abril, 2016

Algumas pessoas nasceram para brilhar.

Seja na carreira profissional, seja entre amigos ou como a mãe dos meus filhos, tudo que você faz na vida é carregado de um encanto que surge de sua alegria contagiante, de seu sorriso cativante, de sua sinceridade desconcertante.

Sua beleza se torna ainda mais bela pela forma como se expressa e, principalmente, por sua determinação em ser cada dia uma pessoa melhor. Eu adoraria ser como você, mas este brilho é para poucos.

Com você vivi a maioria dos momentos mais especiais da minha vida. A adrenalina dos primeiros encontros, o encanto em cada viagem, o amor que transbordou em nosso casamento e, obviamente, a emoção nos dois dias mais importantes de nossas vidas são instantes que carregarei comigo por toda a eternidade.

Você é linda, qualquer pessoa sabe disso, mas você se torna ainda mais linda pela maneira que ama e cuida da nossa família. Se eu tenho a sorte de ter a melhor esposa que Deus poderia me dar, nossos filhos têm a benção de ter a mamãe mais especial que poderiam ter.

Por isso, só posso te desejar que continue assim, alegre, feliz, linda e, principalmente, uma pessoa tão boa. Que Deus nos dê saúde e paz.

Obrigado por fazer nossa família tão feliz!

Nós te amamos. Feliz Aniversário amor da minha vida!

Feliz AniversárioTexto publicado em 15 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira