Raul: 5 anos

8 julho, 2018

“Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe pra perto de mim”.

Há 5 anos a vida nos trouxe nosso menino lindo, vibrante, determinado e desconcertantemente sincero, ao ponto de nos obrigar a esconder o riso com suas falas diretas. Inteligente e destemido, meu pequeno herói esconde sob a capa de sinceridade poderes mais que especiais, como um coração doce e um jeito de ser apaixonante, que desarma qualquer um.

Obrigado por completar nossa família com seu jeito único, seu sorriso tímido, suas tiradas hilárias e o amor maior que a galáxia.

Parabéns meu pequeno goleiro! O papai te ama muito!

Que Deus abençoe cada passo seu e te ilumine como você ilumina a nossa vida.

Texto publicado em 08 de Julho de 2018 por Roberto Siqueira

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MISSÃO: IMPOSSÍVEL 2 (2000)

30 maio, 2018

(Mission: Impossible II)

 

 

Videoteca do Beto #239

Dirigido por John Woo.

Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Rade Serbedzija, William Mapother, Dominic Purcell, Anthony Hopkins, Daniel Roberts e Patrick Marber.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos após o enorme sucesso de “Missão: Impossível”, a franquia de Tom Cruise inspirada na série de TV criada por Bruce Geller estava de volta aos cinemas. Após iniciar a trajetória do agente Ethan Hunt sob a direção do autoral Brian de Palma, desta vez o astro resolveu apostar no chinês John Woo, já estabelecido em Hollywood como um bem sucedido diretor de filmes de ação. Ainda que a característica peculiar e o talento de Woo na direção das sequências de ação sejam notáveis, o resultado é claramente inferior ao seu antecessor, mas eficiente o bastante para garantir a continuidade da franquia e a alegria dos fãs.

Mais uma vez escrito por Robert Towne, desta vez sem a colaboração de David Koepp, “Missão: Impossível 2” nos traz o agente secreto Ethan Hunt (Tom Cruise) sendo resgatado durante suas férias com a missão de recuperar e destruir um vírus letal desenvolvido para impulsionar as vendas do remédio capaz de curá-lo fabricado pela empresa de John C. McCloy (Brendan Gleeson), chamando a atenção do ex-agente Sean Ambrose (Dougray Scott), que enxerga no vírus uma grande oportunidade de fazer fortuna. Hunt é então convocado a montar sua equipe com uma única condição: encontrar e recrutar a ladra profissional Nyah (Thandie Newton), que é também ex-namorada de Sean.

Apostando num relacionamento amoroso que visa complicar o sempre interessante trabalho de investigação dos agentes secretos, o roteiro do experiente Towne ao menos sabe que o que o espectador busca de fato ao assistir “Missão: Impossível 2” são as mirabolantes estratégias da equipe da IMF, os aparatos tecnológicos envolvidos no processo e as coreografadas cenas de ação, investindo pouco tempo no citado caso de Ethan e em conflitos sentimentais. Por outro lado, talvez preocupado com as críticas sobre os furos do primeiro filme, o roteirista insere diversos diálogos expositivos que visam explicar as absurdas tecnologias utilizadas e as estratégias dos espiões, como se quisesse certificar-se de que o espectador está compreendendo a trama.

Ainda assim, sobra espaço suficiente para Woo se preocupar em fazer o que sabe melhor, comandando sequências de tirar o fôlego desde a eficiente abertura que já prende o espectador enquanto narra o roubo do vírus Quimera durante um voo de Sidney a Atlanta. Em seguida, reencontramos Ethan em outra pequena sequência simples e eficiente na qual acompanhamos o agente escalando uma montanha, recheada com uma dose de tensão que é minimizada pelo fato de sabermos que Ethan sobreviverá (mas admirável por sabermos que Tom Cruise dispensou o uso de dublês). Auxiliado pelos montadores Steven Kemper e Christian Wagner, o diretor mantém a narrativa sempre dinâmica, permitindo poucos momentos de relaxamento, como no primeiro encontro amoroso de Ethan e Nyah em Sevilha – e aqui vale notar como a trilha sonora de Hans Zimmer encontra espaço para composições inspiradas na música espanhola, que contrastam com as enérgicas variações baseadas na música-tema criada por Lalo Schifrin.

Abusando do uso da câmera lenta e dos movimentos circulares característicos de sua direção, Woo nos brinda com cenas eletrizantes como a perseguição de carros na montanha na qual Ethan convence Nyah a entrar para o grupo, nos colocando dentro dos carros em alta velocidade em planos que se alternam sem jamais soarem confusos, assim como ocorre na longa perseguição de motos que culmina num coreografado embate braçal entre Ethan e Sean que remete as lutas marciais. Outra sequência carregada de tensão é a que se passa no jóquei, onde o jogo de câmeras e a narração diegética da equipe de Ethan criam uma escala de suspense crescente quase palpável, assim como vale destacar a absurda e divertida entrada no prédio da Biocyte, que encontra espaço até mesmo para homenagear o primeiro filme com a clássica parada de Ethan pendurado pelo cabo há centímetros do chão.

Repare ainda como a bela fotografia de Jeffrey L. Kimball alterna entre as cores quentes na Espanha e na Austrália e as cores frias dentro da empresa farmacêutica, quebrando a regra apenas nos tons de vermelho que dominam a tela instantes antes da chegada de Sean ao local, sinalizando o perigo que Ethan corre antes do tiroteio dentro da Biocyte que termina no ato heroico e inteligente de Nyah. E se normalmente o design de som chama a atenção pelo volume dos tiros e o ronco dos motores nas cenas de ação, aqui sua importância é realçada por contraste na sequência em que Ethan invade o local da negociação entre Sean e McCloy, na qual o agente utiliza as pombas (também características do cinema de Woo) para abafar seus próprios movimentos.

Outra vez criando empatia com o espectador ao nos colocar dentro da equipe de Ethan, nos fazendo sentir-se parte do grupo durante todo o processo de investigação, “Missão: Impossível 2” acerta também ao trazer uma nova gama de aparatos tecnológicos curiosos e as instalações modernas concebidas pelo design de produção de Tom Sanders tanto na casa de Sean quanto na sede da Biocyte. No entanto, o maior destaque vai mesmo para a introdução do absurdamente divertido conceito das máscaras que transformam os espiões em outra pessoa, abrindo um enorme leque de possibilidades, mas infelizmente perdendo a força ao longo da narrativa pelo uso excessivo do recurso, o que quase estraga o melhor momento do filme, num plot twist inteligente conduzido com calma por Woo, que revela a artimanha através de um simples dedo ferido – e que espectadores mais atentos podem antecipar justamente pelo uso abusivo das máscaras até ali.

Os personagens continuam rasos, ainda que a boa química entre Ethan e Nyah, a convincente discussão em Sevilha que de certa forma humaniza ambos e a inédita vulnerabilidade do agente que coloca em risco sua missão consigam ao menos conferir um pouco mais de densidade aos dois, por mais que a forma em que ele a convence a aceitar a missão seja pouco crível. Mais uma vez encarnando Ethan com uma intensidade alucinante, Tom Cruise carrega com facilidade a narrativa, apesar do excesso de sorrisos que chega a motivar uma piada do interessante vilão composto por Dougray Scott, que torna-se ainda mais perigoso justamente por ser um ex-agente e conhecer muito sobre a IMF. Thandie Newton também consegue sucesso ao balancear a sensualidade latente de sua Nyah com a faceta humana já citada e Brendan Gleeson completa os destaques do elenco vivendo o inescrupuloso dono da Biocyte.

Divertido e recheado de ótimas cenas de ação, “Missão: Impossível 2” curiosamente escorrega ao tentar conferir mais humanidade e tridimensionalidade ao seu protagonista, quebrando levemente o ritmo da narrativa e enfraquecendo-o como agente secreto ao inserir uma história de amor que o torna mais vulnerável. Nada que atrapalhe a diversão.

Texto publicado em 30 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

GLADIADOR (2000)

25 maio, 2018

(Gladiator)

 

 

Videoteca do Beto #238

Vencedores do Oscar #2000

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Djimon Hounsou, Ralf Moeller, Tommy Flanagan, Spencer Treat Clark, Tomas Arana, Derek Jacobi, David Schofield, John Shrapnel, David Hemmings, Sven-Ole Thorsen, Giannina Facio, Giorgio Cantarini, Omid Djalili, David Bailie e Tony Curran.

Roteiro: David Franzoni, John Logan e William Nicholson.

Produção: David Franzoni, Branko Lustig e Douglas Wick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando foi lançado no início dos anos 2000, “Gladiador” rapidamente tornou-se sucesso de público e crítica, tornando-se um legítimo representante dos grandes épicos e coroando sua trajetória na noite do Oscar, quando venceu o prêmio de melhor filme. No entanto, nos anos seguintes o longa rapidamente entrou para o rol dos filmes vencedores do prêmio da Academia que passam de queridinhos a odiados, sendo tratado de forma pejorativa entre muitos cinéfilos. Felizmente, o distanciamento histórico permite constatar que o filme de Ridley Scott não é a obra-prima que se dizia em seu lançamento e muito menos a porcaria que outros afirmaram ser nos anos seguintes. Trata-se de um épico digno, com belíssimos momentos e uma boa dose de cenas impactantes, que merece o reconhecimento dentro daquilo que se propõe a fazer.

Escrito a seis mãos por David Franzoni, John Logan e William Nicholson, o roteiro de “Gladiador” é uma salada histórica repleta de acertos e erros desnecessários, que desenvolve seus personagens de maneira irregular, mas consegue achar um fio condutor no arco dramático de seu protagonista, o general romano Maximus (Russell Crowe) que, após anos sendo o homem de confiança do imperador Marcus Aurelius (Richard Harris), acaba sendo condenado à morte por Commodus (Joaquin Phoenix), o filho do imperador que assassina o pai para herdar o comando do império. Após sobreviver e fugir, Maximus é capturado, vendido como escravo e retorna a Roma para lutar como gladiador.

Se acerta ao mostrar como a política romana era movida por interesses pessoais, traições e o desejo pelo poder, o que nada difere do cenário político atual em muitas partes do planeta, “Gladiador” escorrega ao fazer desnecessárias alterações na história que não agregam a narrativa e nem reforçam o impacto emocional que o longa naturalmente carrega, como ao ocultar o fato de Marcus Aurelius ter preparado o filho para ser seu sucessor em seus últimos anos de vida e, o que é pior, transformar Commodus no assassino do pai, quando na verdade ele de fato exilou e mandou executar alguém de sua família, mas foi a irmã Lucilla (Connie Nielsen), algo que é ignorado pelo roteiro, que ainda traz a irmã discursando sobre o corpo do egocêntrico imperador morto no Coliseu (o que também não ocorreu, já que ele foi estrangulado enquanto tomava banho).

É verdade que Commodus adorava as lutas e chegou mesmo a entrar na arena como gladiador (ele se considerava o novo Hércules), assim como o Imperador sabia da força política do pão e circo como forma de controle da população – e seu pai jamais proibiu os jogos, ao contrário do que é dito no filme. Da mesma forma, o roteiro acerta ao retratar Lucilla articulando politicamente com o Senado para assassinar o irmão, o que motivou sua morte na história real. Nota-se, portanto, que as alterações no roteiro não precisavam existir, já que a história verdadeira é impactante e funcionaria muito bem, sendo perfeitamente possível inserir a trajetória fictícia de Maximus neste contexto.

Igualmente responsável pela versão nada fiel da história que retrata, já que é um diretor que quase sempre teve direito ao “final cut”, Ridley Scott ao menos compensa este deslize com uma direção vigorosa nos momentos mais importantes do longa. Focando muito mais na trajetória de Maximus do que na articulação política em volta dele, Scott e seu montador Pietro Scalia acertam em momentos importantes como as batalhas no Coliseu e imprimem um ritmo interessante que não deixa jamais a narrativa tornar-se cansativa. Além disso, o diretor consegue extrair boas atuações de praticamente todo seu elenco, mesmo diante de personagens desenvolvidos de maneira tão irregular.

Obviamente, o mais completo deles é o protagonista Maximus, interpretado pelo talentoso Russell Crowe, que se impõe compondo um homem sério e que transmite a virilidade exigida tanto de um general quanto de um gladiador, mas que encontra espaço para demonstrar valores caros ao personagem como a lealdade ao imperador que servia e o amor a família que deixou para trás, assim como o desejo de vingança que exala em momentos como quando ele anuncia seu verdadeiro nome para Commodus em pleno Coliseu. O raro momento em que as expressões rígidas de Maximus se quebram quando encontra a família assassinada é também aquele que comprova a capacidade de Crowe, que carrega “Gladiador” com enorme facilidade.

 

Já o Juba de Djimon Hounsou não conta com a mesma atenção do roteiro, surgindo de maneira arbitrária e rapidamente sendo transformado no grande amigo de Maximus, sendo descartado com a mesma facilidade com que aparece na trajetória do protagonista. Ainda assim, consegue criar empatia com ele, demonstrando força e lealdade até o momento final, ainda que, diferentemente da forma como é mostrado no longa, os gladiadores não faziam amizade justamente por saber que poderiam se enfrentar numa batalha em que apenas um sobreviveria.

Commodus, por sua vez, faz a completa transição do inicialmente cansado e até mesmo frágil Imperador sugado pela politicagem ao redor para o sociopata cruel e desprovido de traquejo político que não hesita em usar o sobrinho como ferramenta para ameaçar a irmã, pela qual era apaixonado. Dissimulado e exagerando nas lamentações que enfraquecem o Imperador, Joaquin Phoenix se recupera no ato final, transmitindo a insanidade de um homem que era tão egocêntrico que chegou a mudar o nome de Roma para Commodiana – algo que “Gladiador” também oculta.

Extremamente política, a Lucilla de Connie Nielsen sabe que a loucura do irmão jamais lhe permitiria conquistar o respeito do Senado e enxerga na morte dele a chance de assumir o comando do império, enquanto o Proximo de Oliver Reed é um personagem confuso, que hora parece motivado apenas pelo lucro que sua atividade lhe traz e, em outros momentos, assume um código moral incoerente com sua postura até então. Finalmente, Richard Harris completa o elenco principal vivendo um Marcus Aurelius complexo, que transmite sabedoria em seus poucos minutos em cena.

Ao contrário da irregularidade de seus personagens, a parte técnica de “Gladiador” é extremamente coesa em sua competência, a começar pela direção de fotografia de John Mathieson que realça os tons áridos da província, transmitindo a angústia do protagonista escravizado que nem mesmo na imponente Roma se dissipa, com seus tons dourados que reforçam o poderio econômico da capital do império, concluindo seu coerente trabalho no sombrio ato final que realça o sentimento de Commodus durante a tensa conversa com o sobrinho na qual ele descobre a traição da irmã. Da mesma forma, o design de produção de Arthur Max também merece destaque pela forma detalhista em que trabalha desde pequenos objetos até a decoração das imponentes construções, assim como os impecáveis figurinos de Janty Yates que complementam o ótimo trabalho de ambientação.

E enquanto a solene trilha sonora de Lisa Gerrard e Hans Zimmer cria composições que, além de belas e coerentes com a época em que se passa a narrativa, permanecem na memória do espectador por um longo período, o design de som transforma os gritos dos romanos ainda mais impactantes dentro da arena, assim como nos permite distinguir o barulho das armas, dos cavalos e o eco dos gritos na batalha que abre o longa. Por outro lado, a batalha em si não impressiona e empalidece diante de tantas outras marcantes, como a de Stirling no quase contemporâneo “Coração Valente”, lançado 5 anos antes de “Gladiador”, talvez por que Scott abuse dos planos fechados e crie uma confusão mental no espectador, que não compreende muito bem o espaço geográfico onde ocorre a cena, além da falta de planos gerais que impede que tenhamos noção da magnitude do conflito.

Planos gerais que quando surgem nos permitem contemplar a esplendorosa Roma recriada com efeitos visuais impressionantes, nos levando de volta aos anos de glória do império. Dentre as inúmeras construções grandiosas da imponente capital, é claro que o Coliseu é a grande estrela (ainda hoje, diga-se) e o trabalho de recriar a gigantesca arena é digno de aplausos. Ciente disso, na primeira vez que o adentramos, Ridley Scott nos coloca num plano baixo que acompanha os gladiadores e engrandece ainda mais o local, reforçando o impacto dele sobre os personagens e o espectador. Aliás, a primeira batalha no Coliseu é muito interessante, especialmente pelas escolhas do diretor, que desta vez acerta ao abusar de planos gerais que realçam a estratégia militar adotada por Maximus e seguida pelos companheiros. Além disso, mais uma vez o design de som colabora para nos jogar dentro da arena e tornar tudo aquilo ainda mais empolgante.

Trazendo ainda momentos emocionantes como o citado retorno de Maximus para encontrar a família cruelmente assassinada, a bela cena do beijo entre ele e Lucilla e a tocante sequência final em que deixa este mundo e reencontra sua família em outro plano qualquer, não há como negar a força deste épico grandioso, mesmo com erros históricos facilmente evitáveis. Talvez se você for frio ou cruel como Commodus. 

Texto publicado em 25 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

19 maio, 2018

Olá pessoal,

Abaixo as últimas novidades em DVD:

O Máskara (1994)

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

Creed: Nascido para Lutar (2015)

Hotel Transilvânia 2 (2015)

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015)

 

E em Blu-ray:

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014)

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

 

Um abraço.

Texto publicado em 19 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Ausência e retorno

14 maio, 2018

Olá pessoal,

Como todos devem ter notado, estou ausente do blog desde Janeiro, mas ao contrário de outros momentos em que não consegui encontrar tempo para escrever, desta vez a razão foi uma grave lesão que sofri e que me afastou de diversas atividades por um longo período.

Voltei a assistir filmes para escrever no último domingo e espero conseguir divulgar a próxima crítica em breve.

Agradeço a compreensão.

Um abraço.

Texto publicado em 14 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Balanço de 2017

3 janeiro, 2018

Em termos de cinema, o ano de 2017 praticamente inexistiu até meados de Agosto para mim. Não apenas praticamente não divulguei críticas, como também assisti bem poucos filmes. Os motivos são diversos. Muitas viagens a trabalho, diversas preocupações que me tiraram o foco no cinema e a falta de motivação que me assombrou por boa parte do ano para escrever por aqui.

No entanto, logo após a maravilhosa viagem que fiz com a família e amigos nas férias, recarreguei as baterias e voltei motivado a retomar minha paixão pela sétima arte. Consegui assistir mais filmes, especialmente nos finais de semana, e voltei a frequentar o cinema. Aliás, 2017 marcou a realização de um sonho, graças aos clássicos Cinemark.

Em 31 de Outubro, tive o imenso prazer de assistir pela primeira vez na telona ao filme mais importante da minha vida, ao lado da minha amada esposa. E que experiência inesquecível foi assistir “Coração Valente”, com qualidade de som e imagem impecáveis e toda a imersão que somente o escuro do cinema é capaz de proporcionar. Pude uma vez mais me envolver, emocionar e viver junto com William Wallace cada etapa de sua épica trajetória. Confesso que não pude conter as lágrimas em diversos instantes, não mais pelo impacto dramático, já que assisti ao longa inúmeras vezes na vida, mas justamente por poder assistir tudo aquilo onde sempre sonhei e pelas lembranças que em muitos momentos vinham em minha memória. A fase difícil da vida que superei graças aquela emocionante narrativa, tudo de bom que vivi desde então, a família que construí após vencer a depressão, etc. Em resumo, um dia mágico que jamais esquecerei.

O ano ainda reservou momentos marcantes como a primeira vez que meus filhos assistiram clássicos como “King Kong” e o divertido “O Máskara”, além de marcar a volta de um hábito que adoro, que é assistir séries com minha esposa.

Novamente, anseio por um ano melhor não apenas no C&D, mas principalmente no Brasil e no mundo, onde a onda de retrocesso parece não ter fim. Ao menos, aparentemente o velho continente segue sendo o foco de resistência ao avanço de conservadores extremistas, como atestaram eleições na França e na Holanda, o que é um bom sinal. Tomara que o Brasil também volte a trilhar o caminho da evolução e deixe de lado o falso moralismo e o extremismo que vêm ganhando força por aqui – e este ano será crucial neste processo.

Se 2017 foi desastroso para o Cinema & Debate, só me resta torcer que mais uma vez o amor da minha família, o apoio dos amigos e o carinho de vocês leitores me motivem a retomar o ritmo que este blog que tanto amo merece. Aliás, continuo surpreso com o bom número de acessos e comentários mesmo com minha ausência. Espero poder voltar a escrever com frequência e justificar o carinho dos leitores.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2017:

– 5 críticas divulgadas na Videoteca do Beto (pffff).

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2017 foram:

            5° lugar = “As duas faces de um crime

            4° lugar = “2001 – Uma Odisséia no Espaço

            3° lugar = “Um Estranho no Ninho

            2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

            1° lugar = “A Missão

Ou seja, nenhuma novidade no ranking – e nem deveria esperar outra coisa dada a inatividade do blog.

E agora, a lista dos 104 filmes assistidos em 2017 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2018 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 03 de Janeiro de 2018 por Roberto Siqueira

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (2000)

1 novembro, 2017

(Quills)

 

 

Videoteca do Beto #237

Dirigido por Philip Kaufman.

Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Amelia Warner, Billie Whitelaw, Patrick Malahide, Jane Menelaus, Stephen Moyer, Tony Pritchard, Michael Jenn, Danny Babington, George Antoni, Stephen Marcus, Elizabeth Berrington, Bridget McConnell, Pauline McLynn, Ron Cook, Rebecca R. Palmer e Diana Morrison.

Roteiro: Doug Wright.

Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman e Nick Wechsler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “Contos proibidos do Marquês de Sade”, o personagem título diz a seguinte frase após comandar a encenação de uma peça teatral que reconstituía, em tom bem humorado, um fato recente ocorrido na vida de um importante personagem presente na plateia: “Só erguemos um espelho, aparentemente ele não gostou do que viu”. Esta frase escancara não apenas a base da obra literária incendiária do polêmico autor francês que inspira o longa, mas também permite discussões ainda mais profundas sobre o papel da arte – o que, confesso, se torna um debate ainda mais irresistível no contexto atual que infelizmente nosso país está lentamente sendo inserido.

Escrito com habilidade por Doug Wright com base em sua própria peça teatral, o longa baseia-se em alguns fatos reais ocorridos na vida de Sade (Geoffrey Rush), acompanhando seus últimos dias de vida num sanatório comandado pelo padre Coulmier (Joaquin Phoenix), de onde ele segue escrevendo seus livros e, com a ajuda da lavadeira local Madeleine (Kate Winslet), consegue publicá-los, chamando a atenção até mesmo do imperador Napoleão Bonaparte (Ron Cook), que envia o Dr. Royer-Collard (Michael Caine) para curá-lo de sua suposta insanidade.

Conseguindo a proeza de humanizar um dos personagens mais controversos da história, o roteiro de Wright destaca-se pela qualidade de seus diálogos, intercalando momentos de acidez, leveza e refinamento e trazendo ainda diversos questionamentos interessantes, seja nas palavras cortantes do Marquês ou nas reflexões dos demais personagens. Obviamente, o foco principal está no questionamento da hipocrisia e do falso moralismo predominante em boa parte da sociedade, que finge ter aversão às histórias narradas por ele quando estão diante de outras pessoas, mas esgotam o estoque de seus livros minutos após o lançamento destes ou, quando escutam alguém relatando alguma passagem, se dizem horrorizados somente para, quando questionados se o interlocutor deve parar a leitura, responderem: “continue!”. E não se trata aqui de defender a pessoa de Sade, extremamente controversa e repugnante até, mas de defender a liberdade artística e escancarar o duplo padrão moral que reina em nossa civilização há séculos.

Associando prazer e dor, os conceitos básicos da obra de Sade, logo no plano inicial que terá um desfecho distinto do que imaginamos, Philip Kaufman conduz a narrativa com destreza, sem jamais permitir que Sade ou os demais personagens virem caricaturas. Limitando o espaço físico da narrativa ao sanatório onde ele está internado e a pequenos momentos fora dali, o diretor nos transmite a sensação de clausura do protagonista e, de quebra, nos faz mergulhar em sua mente criativa progressivamente, sem jamais romantizar demais o personagem ou ocultar seu lado sombrio. Este mergulho conta com o excelente design de produção de Martin Childs que, além de ajudar na reconstrução de época, ainda ressalta a obsessão de Sade pelo sexo através dos objetos que enfeitam seus aposentos, demonstrando também sua inquietação através da caótica disposição de seus pertences.

Da mesma forma, os figurinos de Jacqueline West são importantes não apenas para a ambientação à época, mas por dizer muito sobre cada personagem. Enquanto o Marquês adota roupas extravagantes, Coulmier e o Dr. Royer-Collard estão sempre em roupas comportadas e Madeleine usa um vestido simples, mas que não deixa de exalar sensualidade, especialmente quando está na presença do Marquês, ilustrando a dualidade natural de uma mulher que se comporta de uma maneira diante da sociedade e de outra quando está sozinha com seus pensamentos eróticos.

Enquanto isso, o diretor de fotografia Rogier Stoffers investe num visual mais vivo inicialmente, que lentamente se transforma numa paleta mais sombria e sufocante, até chegar ao inquietante momento em que Sade sussurra seu último conto, sob uma forte tempestade que acentua seu caráter transgressor e ainda antecipa o trágico final que se aproxima, tudo isso pontuado pela tensa trilha sonora de Stephen Warbeck, que até então apostava num tom mais alegre que ameniza o eventual peso que uma narrativa sobre Sade poderia ter.

Outro mérito de Kaufman, Wright e do montador Peter Boyle está na maneira bem sucedida em que a narrativa desenvolve seus quatro personagens centrais sem a necessidade de recorrer a recursos pouco elegantes como diálogos expositivos ou flashbacks, permitindo que conheçamos suas motivações de maneira clara e orgânica – e até personagens periféricos como Simone (Amelia Warner) são bem desenvolvidos mesmo com poucas cenas. É claro que a qualidade das atuações também é crucial neste processo e, felizmente, o elenco é recheado de talentos. A começar por Michael Caine que encarna muito bem o papel de falso moralista, destes que usam o nome de Deus para empregar métodos violentos de “tratamento” para as supostas aberrações da natureza, numa marca do obscurantismo que infelizmente não ficou apenas nos livros de história. Como ainda ocorre nos dias de hoje, estes supostos tratamentos escondem grandes interesses econômicos por trás, como fica evidente em sua conversa com a angustiada esposa de Sade (Jane Menelaus) e no terceiro ato, quando o Dr. Royer-Collard lucra com livros do autor que criticava e, pior, através do trabalho escravo dos pacientes do sanatório. E não deixa de ser curioso notar como para frear o impulso de um escritor que, entre outras coisas, escrevia sobre a tortura como maneira de obter prazer sexual, o médico utilize como método para a suposta cura justamente…a tortura!

Assim, ele é capaz de criticar Sade pelo conteúdo explícito de sua obra e, ao mesmo tempo, buscar a jovem Simone aos 16 anos num convento para casar-se e forçá-la a fazer sexo com ele por ser o “dever” noturno da esposa. Não à toa, ela se interessa pela obra obscena de Sade ao ponto de memorizar o livro que lia secretamente e o abandona, fugindo com outro rapaz que compreende muito melhor a alma feminina. Igualmente moralista, mas por uma razão mais genuína, o padre Coulmier é inteligente ao ponto de conseguir a amizade de Sade mesmo com uma visão de mundo completamente oposta, atraindo ainda o interesse de Madeleine por sua delicadeza e sensibilidade, numa composição muito interessante de Joaquin Phoenix. Seu padre realmente acredita que pode mudar o Marquês através do diálogo e da compreensão, sendo muito mais fiel a fé que propaga que boa parte dos puritanos da sociedade que o cerca. Observe, por exemplo, sua apreensão durante a exibição da peça citada anteriormente, segurando o crucifixo como um último refúgio de quem antevê o que irá acontecer ali. Sua fé, não apenas na religião, mas também no ser humano chega a ser tocante.

No entanto, a convivência com o Marquês serve para abalar alguns pilares de suas convicções, levando-o a ceder ao desejo por Madeleine, questionar alguns de seus dogmas e a acordar angustiado após um cruel pesadelo em que ressuscita a amada num ato de necrofilia. A morte dela e do próprio Sade levam o padre a perder a fé e abraçar de vez a insanidade. A razão para isso vai além da convivência com Sade. Obrigado a viver sob o questionável celibato que o impede de desfrutar o mais lindo sentimento que o ser humano pode sentir, o padre vê sua fé ser abalada ao descobrir a atração que Madeleine sentia por ele, numa revelação que soa natural também pela competente atuação de Kate Winslet, que cria uma personagem inocentemente sensual, o que explica a forte atração e inspiração que o próprio Marquês sentia na presença dela. Mesmo devorando cada texto de Sade, Madeleine jamais soa vulgar e ilustra muito bem a natureza humana, tão preocupada com as aparências que não se permite viver seus desejos mais secretos longe das páginas de um livro.

Já o Marquês não tinha problema algum com isso. Escancarando em palavras (e na vida real em atos, alguns deles criminosos) seus desejos e pensamentos mais obscenos, Sade chacoalhou a sociedade de sua época com histórias que exploram as mais diversas formas de sexualidade sem concessões, de tal forma que seu nome é usado em psicanálises até hoje. Mas o Marquês de Geoffrey Rush apenas sugere a crueldade do original, encarnando o personagem de uma maneira mais humana, ao ponto de soar bem humorado e sedutor em diversos instantes, o que é crucial para compreender a atração de Madeleine por suas histórias e a amizade dele com o padre. E é justamente nesta humanização que reside o grande mérito do ator, que consegue fazer com que o espectador torça pelo personagem mesmo quando este não concorda com o que ele diz, também por que o roteiro acerta em cheio ao separar o autor de sua obra, focando mais em seu direito à liberdade de expressão do que no julgamento da qualidade de sua literatura. Gostando ou não do teor de seus livros ou de sua personalidade polêmica, não iremos concordar com a censura que ele sofre e o roteirista sabe disso.

Assim, quando os métodos rígidos impostos pelo Dr. Royer-Collard entram em cena, Sade torna-se ainda mais carismático, já que o espectador tende a torcer por quem está inferiorizado na maioria das vezes. Espalhando alfinetadas no autoritarismo, nos códigos morais e até mesmo na religião através de frases cortantes como “Em condições adversas o artista floresce” ou “Este seu Deus retalhou seu filho como uma vitela, tenho medo do que faria comigo”, Sade vai sendo levado a loucura completa quando lhe privam de sua pena (daí o título em inglês Quills), usando de formas cada vez mais criativas para seguir escrevendo. Rush demonstra bem esta transformação em momentos hilários como a dança em cima da mesa com os pacientes em volta, mas também demonstra uma faceta humana, por exemplo, ao saber que Madeleine morreu virgem, sofrendo por talvez imaginar o quanto de vida ela poderia desfrutar e não pôde devido as travas impostas socialmente. Na última conversa entre eles, aliás, a pequena abertura na porta que os separa ilustra que ambos estavam aprisionados, mas de maneiras distintas. Ao menos ela desfrutou de alguma liberdade através das fantasias despertadas pela obra dele.

E aí residem outros questionamentos interessantes de “Contos proibidos do Marquês de Sade”. Teria a arte o poder de provocar reações tão fortes nas pessoas ao ponto de levá-las a cometer um crime, por exemplo, como muito tentou-se imputar aos filmes ou aos jogos de videogame nos massacres ao longo dos anos? Ou a arte serve justamente para permitir que as pessoas vivam fantasias que jamais viveriam de fato, num escapismo que influenciaria de forma positiva a sociedade? O próprio Sade questiona o padre se caso um paciente resolva andar sobre a água e morra afogado, ele culparia a Bíblia? E, diante das polêmicas recentes no Brasil, não posso deixar de questionar. Seria a controversa obra de Sade considerada arte? Eu não tenho dúvida alguma que sim. Goste ou não do conteúdo dela, é inegável que provoca reações nas pessoas e abala os pilares morais regidos por dogmas religiosos – e o ótimo longa de Philip Kaufman deixa isso bem claro.

Simultaneamente contestador e divertido, “Contos proibidos do Marquês de Sade” aborda um tema polêmico e levanta o espelho citado por Sade diante de toda a sociedade. As reações de cada um podem indicar em qual personagem da trama cada espectador se encaixa. E o mais importante é que, mesmo perseguida, polêmica e contrariando todos os questionáveis padrões morais da época (e até atuais), a obra de Sade continua viva. Esta é a beleza da arte. Não importa quanto os conservadores e falso moralistas tentem sufocá-la, ela sempre irá resistir ao tempo. Ainda bem.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2017 por Roberto Siqueira

AMORES BRUTOS (2000)

17 outubro, 2017

(Amores perros)

 

 

Videoteca do Beto #236

Dirigido por Alejandro González Iñárritu.

Elenco: Gael García Bernal, Emilio Echevarría, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Jorge Salinas, Adriana Barraza, Marco Pérez, Rodrigo Murray, Humberto Busto, Gerardo Campbell, Rosa María Bianchi, Dunia Saldívar, José Sefami, Lourdes Echevarría, Laura Almela, Ricardo Dalmacci, Gustavo Sánchez Parra e Patricio Castillo.

Roteiro: Guillermo Arriaga.

Produção: Alejandro González Iñárritu.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Estreia do mexicano Alejandro González Iñárritu na direção, “Amores Brutos” ganhou status de cult com o passar dos anos, ainda que não seja tão conhecido quanto sucessos do diretor como “Babel” ou “O Regresso”. No entanto, todo seu talento e de seu parceiro roteirista Guillermo Arriaga são escancarados ao longo das mais de duas horas de projeção, sugando o espectador pra dentro de uma narrativa pesada, é verdade, mas sempre muito interessante.

Apostando numa estrutura dividida em capítulos, “Amores Brutos” narra um trecho da vida de diversos personagens interligados por um evento trágico central, um acidente de carro que modifica a vida de todos os envolvidos. Quem provoca o acidente é Octavio (Gael García Bernal), que foge com seu parceiro Jorge (Humberto Busto) após esfaquear um rival numa rinha de cachorros como vingança ao tiro disparado contra o seu rottweiler Cofi – e que pretendia fugir com Susana (Vanessa Bauche), a esposa de seu irmão Ramiro (Marco Pérez) com quem tinha sérios problemas de relacionamento. No carro atingido por ele encontra-se Valeria (Goya Toledo), uma modelo em ascensão na carreira que acabara de ganhar um apartamento do namorado Daniel (Álvaro Guerrero), um homem casado que havia largado a esposa para viver com ela. Observando o acidente de perto, o mendigo Chivu (Emilio Echevarría), um ex-comunista que abandonou esposa e filha no passado para aderir a luta armada e que agora vive solitário como um matador de aluguel, na companhia apenas de seus cachorros.

Intercalar diversas linhas narrativas de forma não linear não é uma tarefa fácil, mas também não chega a ser uma grande novidade. Diversos diretores importantes já utilizaram muito bem este recurso ao longo da história. Entretanto, o que chama a atenção em “Amores Brutos” é como a escolha de Iñárritu enriquece a narrativa, criando um painel nem tão complexo, mas que explora com destreza o tema central da narrativa, que são os tortuosos conflitos familiares entre os personagens e a ambígua dualidade entre amor e violência. Voltaremos aos aspectos temáticos em instantes, mas antes vale destacar que esta destreza na condução da narrativa conta também com uma parte técnica impactante, através da escolha de câmeras de mão e de uma paleta crua que cria uma atmosfera realista coerente com o ambiente onde se passa a narrativa.

Observe, por exemplo, a sequência que abre o longa, uma perseguição alucinante nas ruas da caótica Cidade do México em que a câmera ágil de Iñárritu nos coloca dentro do carro sem jamais soar confusa, encerrada pelo surpreendente acidente que cria o ponto de conexão entre os personagens centrais da narrativa. A partir de então ganha destaque a montagem inteligente de Luis Carballar, Fernando Pérez Unda e o próprio Iñárritu, que transita entre os núcleos da narrativa de maneira bem definida, vez por outra cruzando os personagens de núcleos distintos. Ainda assim, é uma montagem mais convencional do que veríamos posteriormente em “Babel” e principalmente em “21 gramas”, os dois longas que fecham a trilogia da morte, como ficou conhecida.

Por sua vez, a trilha sonora de Gustavo Santaolalla surge em momentos pontuais, apostando tanto em músicas latinas quanto numa bela trilha instrumental que depois se tornaria marca de Iñárritu em seus filmes, ao passo que o design de som se destaca em momentos especiais, como quando capta a angústia dos envolvidos no acidente e, especialmente, ao transmitir a aflição de Valeria enquanto ouve os grunhidos de sofrimento de seu cachorro preso no assoalho.

Apostando em planos fechados que ampliam a sensação de angústia no espectador, especialmente quando realça o sangue jorrado por personagens e cachorros em vários momentos, Iñárritu sabe criar tensão também com técnicas mais elaboradas, como o plano-sequência que acompanha Octavio deixando seu cão baleado no chão e voltando para esfaquear o agressor, retornando ao carro para fugir largando a faca ensanguentada para trás. A própria cena do acidente é reconstituída em cada capítulo sob ângulos diferentes, destacando-se no último onde fica evidente o estrago feito pela colisão, numa sequência angustiante captada em detalhes pela câmera do diretor.

Aliás, neste terceiro ato a fotografia de Rodrigo Prieto torna-se ainda mais sombria, ilustrando o desfecho nada agradável dos personagens que permeiam a narrativa. Colabora também o design de produção de Brigitte Broch, que torna o capítulo final mais sufocante através do caótico local onde vive Chivu. Não que a casa de Octavio fosse muito melhor ou que o belo apartamento de Valeria não tenha se tornado claustrofóbico devido a condição dela, mas certamente os aposentos de Chivu ilustram muito bem a personalidade conturbada de seu dono. Na verdade, é curioso notar como Iñárritu consegue extrair humanidade de personagens tão egoístas, mas o fato é que praticamente todos eles conseguem fugir da unidimensionalidade, muito também pelo talento dos atores.

Claramente o tema central de “Amores Brutos”, os conflitos familiares norteiam todos os personagens. Enquanto o embate entre irmãos permeia o primeiro e o último capítulo, o desgaste do relacionamento de um casal domina o segundo e o próprio Chivu, personagem principal do longa, vive um drama familiar provocado por uma decisão idealista tomada no passado. E é justamente por humanizar personagens que tomam decisões pouco palatáveis ao público como tentar seduzir a cunhada ou abandonar esposa e filha que o filme merece aplausos. Nas mãos de um diretor menos competente, poderíamos ter um resultado desastroso e maniqueísta. Da mesma forma, o nada sutil paralelo entre os personagens e seus cachorros merece destaque por realçar que, assim como seus animais de estimação, o ser humano nada mais é do que uma combinação entre personalidade e o ambiente que o cerca, podendo se transformar num animal dócil criado sob uma vida luxuosa ou num mero lutador de rinhas treinado para sobreviver mais um dia.

Tomemos como exemplo o delicado cachorro de Valeria, a famosa modelo vivida por Goya Toledo. Surgindo inicialmente bela e adorável enquanto carrega o status de jovem estrela, ela lentamente vai se transformando numa pessoa amargurada e derrotada pelo grave acidente que destruiu sua carreira, chegando a perder o controle emocional e a atacar Daniel, que havia deixado a esposa para viver com ela. Da mesma forma, seu cachorro inicialmente dócil vai definhando ao ver-se preso naquele assoalho escuro e repleto de ratos, completamente a mercê do destino. De certa forma, Daniel também está preso a ela, pois não consegue encontrar uma forma de reconstruir o relacionamento. Mesmo assim, os três conseguem superar o sofrimento físico e psicológico daquela situação e sobrevivem. A boa química entre Goya Toledo e Álvaro Guerrero é importante para o sucesso deste capítulo, tão pesado dramaticamente. Por isso, mesmo tensos pelo absurdo da situação, conseguimos torcer pelo sucesso do casal. Observe, por exemplo, como momentos antes dele arrombar a porta e encontrá-la desacordada, o plano baixo nos coloca quase que na posição do cachorro caso ele ali estivesse, como que torcendo para que o pior não tivesse acontecido. O plano final com o outdoor vazio em frente ao apartamento dela escancara a crueldade do mundo da moda e encerra o segmento sem fazer concessões.

Antes disso, somos apresentados a Octavio, personagem que abre a narrativa na citada perseguição. Interessado na cunhada e irritado pelas agressões físicas sofridas por ela, ele passa a bater de frente com o irmão Ramiro, que além de péssimo marido é também um péssimo pai. Engana-se, porém, quem acha que não existe algum traço de humanidade naquela família, pois ainda que o faça de forma questionável, é Octavio quem se preocupa em oferecer o básico para a criança, sob o julgamento de sua mãe (Adriana Barraza), que claramente privilegia Ramiro. O relacionamento conturbado com a mãe é inclusive um ponto em comum entre Octavio e Susana, já que a esposa de Ramiro não tem apoio algum da mãe alcoólatra (Dunia Saldívar). Despojado e nada contido, Bernal dá vida a Octavio e consegue evitar que o espectador tenha raiva dele, mesmo quando segue tentando conquistar a cunhada no velório do irmão, sem sucesso. Na realidade ela raramente corresponde aos flertes dele, ainda que tenha se relacionado sexualmente, como na sequência que realça as fotografias da família feliz em primeiro plano enquanto eles estão ao fundo deitados no chão. Este plano é importante por mostrar que até mesmo Octavio e Ramiro tiveram seus momentos felizes, assim como Susana e seu marido, o que explica a escolha do nome do filho após a morte do pai.

Octavio e seu cachorro sobrevivem ao acidente, mas se separam. E é então que entra o capítulo derradeiro e mais importante para compreender o misterioso e ambíguo personagem central de “Amores Brutos”, que alterna entre momentos de crueldade e frieza e outros de emoção e humanidade. Quando finalmente somos apresentados a história de Chivu, logo na abertura do terceiro capítulo, começamos a entender como aquele homem era capaz de assassinar alguém a sangue frio e, instantes depois, derramar lágrimas ao ler a notícia da morte da esposa abandonada num jornal. Ou então, como ele conseguia abrir a porta de um carro acidentado e se preocupar apenas com o dinheiro da vítima e em salvar seu cachorro, somente para em outro momento não conseguir conter o choro ao rever o álbum da família, realçando a face humana daquele homem julgado por seu passado guerrilheiro e pelo presente nas ruas. Certamente, o mérito desta composição tão complexa e tocante é de Emilio Echevarría, que exala sensibilidade em todos os momentos citados.

E se o ambiente e a forma como somos criados se refletem na construção de nossa personalidade, como esperar que o cachorro de Octavio fizesse algo diferente do que fez? Como julgar um animal criado pura e simplesmente para brigar até exterminar seu oponente? Quando ele naturalmente assassina todos os outros cachorros de Chivu, o mendigo se recusa a matá-lo, talvez por se identificar com Cofi e saber que ele é apenas o resultado da criação que teve, do ambiente que o cercava e dos treinamentos que recebeu. Sob este ponto de vista, reforça-se o belo paralelo entre os cachorros e os seres humanos, já que, como citado, os animais que cruzam a narrativa vivem vidas espelhadas com as de seus donos – e assim como Chivu, Cofi também tem seus momentos de carinho quando está ao lado deles. Como fez com o cachorro, Chivu também deixa de matar Luis (Jorge Salinas) e resolve dar uma lição nos irmãos antes de abandonar aquela vida e rumar para outros horizontes. Sua mudança de visual obviamente reflete esta intenção, deixando barba e cabelo para trás junto com o passado criminoso. O show de Chivu termina no tocante recado que deixa para a filha por telefone, onde escancara seu humanismo, suas falhas, qualidades e sentimentos. Ele e o cachorro encerram a narrativa solitários, num plano obscuro que realça como ambos destruíram todos ao seu redor.

Traçando um paralelo com os cachorros do título original para abordar conflitos familiares e a natureza ambígua do ser humano, Iñárritu cria um interessante painel que oscila entre a amargura e a esperança, demonstrando que podemos encontrar traços de humanidade mesmo onde só enxergamos raiva e rancor. Aquela esquina mudou a vida de todos os personagens e também o destino da carreira de Iñárritu. A diferença é que, no caso do talentoso diretor mexicano, a mudança não foi acidental.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2017 por Roberto Siqueira

A PRAIA (2000)

9 maio, 2017

(The Beach)

 

 

Videoteca do Beto #235

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Robert Carlyle, Tilda Swinton e Paterson Joseph.

Roteiro: John Hodge, baseado em romance de Alex Garland.

Produção: Andrew Macdonald.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um diretor em ascensão conhecido pela habilidade na abordagem de narrativas voltadas para o público jovem, um ator jovem, talentoso e igualmente em plena ascensão e um cenário paradisíaco num dos países mais exóticos do circuito turístico são os ingredientes que poderiam fazer de “A Praia” um grande sucesso de público e crítica. E se utilizo a palavra “poderiam” é por que o resultado, infelizmente, fica aquém do esperado, especialmente pelo roteiro pouco coeso que não sabe muito bem em que direção seguir, algo que nas mãos de um diretor nada enxuto como Boyle se torna um problema ainda maior.

Escrito por John Hodge, baseado em romance de Alex Garland, “A Praia” nos apresenta ao jovem Richard (Leonardo DiCaprio) que, numa viagem a Bangkok, encontra um sujeito estranho que lhe conta sobre uma misteriosa praia numa ilha antes de cometer suicídio e deixar o mapa do local. Após conversar com um casal de franceses, Françoise (Virginie Ledoyen) e Étienne (Guillaume Canet), os três decidem partir em busca da ilha e, ao chegarem lá, encontram uma sociedade alternativa que vive com suas próprias regras, sob a liderança de Sal (Tilda Swinton).

O início de “A Praia” não poderia ser mais promissor. Através de uma eficiente apresentação do personagem central e de suas motivações, que se torna ainda mais interessante na voz do próprio protagonista, Boyle logo de cara estabelece a linguagem jovial característica de sua filmografia e que tem tudo a ver com o clima da narrativa, conectando-se imediatamente com a fatia mais jovem e aventureira da plateia e mantendo esta conexão em boa parte do longa através do uso de músicas contemporâneas e até mesmo de recursos cinematograficamente pouco usuais como telas de videogame.

Esta direção histriônica transmite uma energia que faz bem ao filme, especialmente no início quando tanto o protagonista quanto o espectador estão excitados pela simples expectativa de chegar a mítica praia, tão famosa naquele universo diegético que até inspira mochileiros a pensarem nela como mais uma das muitas lendas urbanas comuns em tantos lugares do mundo. Este clima de aventura é importante para que o espectador se sinta como um dos viajantes que partem em busca do local misterioso, criando a empatia necessária para que ele sinta a praia como o próprio Richard, o que será vital quando os conflitos surgirem e o choque, inevitável, virar realidade.

O próprio Di Caprio exagera nas expressões em diversos instantes, o que é coerente com a intenção do diretor de criar esta atmosfera empolgante, repleta de adrenalina, como se a ilha e a própria praia fossem alucinógenos que abastecem a necessidade daquele jovem por aventuras. Por isso, quando cruza com turistas regulares que buscam apenas as praias comuns e as massagens tailandesas nas areias de Bangkok, Di Caprio lança um olhar de desprezo, como se aquilo fosse algo totalmente sem sentido para ele. O que Richard buscava era adrenalina e não relaxamento.

Aliás, a loucura provocada pelas drogas ou qualquer situação extrema é um tema recorrente na filmografia de Boyle, que muitas vezes ilustra as viagens mentais de seus personagens de maneira criativa, nos permitindo participar do processo ativamente, e aqui não é diferente. No entanto, é justamente quando se aprofunda demais nesta abordagem que o diretor perde a mão, no instante em que Richard enlouquece, já no segundo ato, quando a narrativa perde força enquanto ele se isola dos demais e vive sua loucura particular – ainda assim, existem acertos, como quando ele conversa sobre “O Perdedor” e seu rosto surge afundado nas sombras, realçando seu desequilíbrio momentâneo. Desnecessário também é o momento em que Richard alivia a dor do sueco ferido, numa ação incoerente com o personagem até então. Só que, apesar do roteiro irregular não cooperar, Di Caprio segura bem o papel e ajuda a salvar o longa do fracasso.

“A Praia” traz também uma gama de personagens periféricos interessantes, como o excêntrico Sr. Patolino, o “Perdedor”, que fala sobre a ilha e a praia misteriosa para Richard no início e os carismáticos franceses que cruzam o caminho dele. No entanto, o personagem mais interessante não é de carne e osso, mas tem vida própria e é o alvo de toda aquela jornada. Aumentando a expectativa por sua aparição através da trilha sonora empolgante que embala a viagem até ela e da aura mística que a cerca antes da primeira aparição, a praia não decepciona em nada quando surge aos olhos do espectador, sendo um verdadeiro deleite admirar aquele local extraordinário que não poderia fazer mais jus à fama que recebe. Captadas com perfeição pela fotografia de Darius Khondji, aquelas paisagens criam um visual arrebatador, que ganham contornos românticos nas muitas cenas noturnas em que fica evidente o uso da técnica conhecida como noite americana, notável por exemplo na linda cena do beijo entre Richard e Françoise.

O contraste entre a beleza daquele lugar e as grandes cidades fica evidente quando eles voltam a Bangkok, com a câmera agitada, o som dos carros e pessoas transitando e o alto volume da trilha sonora causando uma sensação incômoda que reflete o que os personagens sentiam distantes da praia. Até por isso, os premiados moradores daquele paraíso criaram um código rígido de regras que buscava preservar a natureza mítica do local, o que também acaba gerando problemas pela forma como este código é conduzido por sua líder – voltaremos a ela em instantes.

Mas nem só de beleza vive “A Praia” e descobrimos isso de maneira traumática através das fortes imagens que surgem repentinamente após um dos integrantes da comunidade ser atacado por um tubarão. O banho de sangue, exposto propositalmente por Boyle, demonstra que a natureza pode ser bela, mas igualmente cruel. Mais cruel ainda, no entanto, é a postura do restante do grupo que trata o companheiro ferido com desprezo, numa postura até mesmo pouco realista diante da gravidade da situação, que estereotipa pessoas que querem viver apenas da natureza como selvagens sem sentimento, o que é bem questionável. Por outro lado, quando eles decidem largar o ferido no meio das árvores para não sofrerem mais com seus gemidos, de certa forma estão agindo como boa parte da sociedade que prefere não ver os problemas do local onde vive, apoiando, por exemplo, a remoção de pessoas carentes, mendigos e moradores de rua de forma brutal pelo Estado (num processo cruelmente chamado de “higienização”), para que possa transitar livremente e pensar que tais problemas sociais não existem.

Esta postura impassível que muitos esperam do Estado nas grandes cidades aqui é representada pela figura de Sal, a líder da comunidade vivida corretamente de maneira fria e rígida por Tilda Swinton. Através do olhar gélido e da voz firme, ela impõe respeito como alguém extremamente controladora, que adota uma postura ditatorial para tentar preservar seu paraíso quase particular, provocando calafrios naqueles que quebram esta regra sagrada, como fica evidente no reencontro de Richard com os compatriotas para quem havia entregue o mapa da ilha, no qual ele surge com o rosto sob tons vermelhos, ilustrando seu inferno astral e o pecado que havia cometido. Só que, como saberemos na boa conclusão da narrativa, nenhum paraíso resiste a esta postura controladora e extremista. Assim, tanto Tilda quanto Di Caprio encerram muito bem este conflito de ideias no confronto final entre os personagens, que escancara o lado podre da líder do grupo e destrói de vez o sonho de viver na mítica praia. E é justamente na destruição deste sonho que “A Praia” escorrega.

Partindo de um ponto inicial repleto de boas ideias, o longa dirigido por Danny Boyle escorrega em diversos detalhes e acaba soando moralista demais, quase que julgando a intenção daquelas pessoas de viverem afastados do mundo moderno como algo errado e impossível de se praticar. Uma pena.

Texto publicado em 09 de Maio de 2017 por Roberto Siqueira

A FUGA DAS GALINHAS (2000)

7 março, 2017

(Chicken Run)

 

 

Videoteca do Beto #234

Dirigido por Peter Lord e Nick Park.

Elenco: Vozes de Mel Gibson, Julia Sawalha, Miranda Richardson, Tony Haygarth, Jane Horrocks, Imelda Staunton, Benjamin Whitrow, Lynn Ferguson, Timothy Spall, Phil Daniels e John Sharian.

Roteiro: Karey Kirkpatrick.

Produção: David Sproxton, Peter Lord e Nick Park.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Verdadeira lenda da animação, o inglês Nick Park (detentor de 3 prêmios Oscar por curtas) resistiu por alguns anos às ofertas dos grandes estúdios para dirigir um longa-metragem, até que finalmente aceitou levar para as telonas o ótimo roteiro de “A Fuga das Galinhas”. Ao lado do norte-americano Peter Lord, ele deu vida com sua criatividade peculiar e técnica ousada a uma história envolvente, interessante e que agrada crianças e adultos na mesma proporção.

Escrito por Karey Kirkpatrick, “A Fuga das Galinhas” nos leva ao cotidiano de Ginger (voz de Julia Sawalha), uma galinha que tenta encontrar alguma forma de fugir do galinheiro onde vive aprisionada ao lado de diversas outras companheiras de espécie. Após inúmeras tentativas frustradas, ela conhece o galo Rocky (voz de Mel Gibson), que chega voando ao local e reaquece as esperanças de todos, ainda que o machucado provocado em seu pouso lhe impeça de ensinar as demais a voar. Os planos ganham ares dramáticos quando a Sra. Tweedy (voz de Miranda Richardson), a dona do galinheiro, decide mudar os rumos da administração local, afetando diretamente a vida de todas galinhas.

Antes de mais nada é muito importante contextualizar o lançamento de “A Fuga das Galinhas”. Numa época já dominada por produções inspiradas na revolução provocada por “O Rei Leão” e, principalmente, “Toy Story”, apostar numa técnica antiga, trabalhosa e que parecia fadada a extinção como o stop motion era algo extremamente corajoso e arriscado. No entanto, a Dreamworks sabia que seus riscos diminuiriam consideravelmente se pudesse contar com o talento de Park, o que fica comprovado já nos primeiros instantes do longa, nos quais a qualidade da animação chama a atenção pela riqueza de detalhes e revela que esta técnica ainda poderia ser eficiente e divertida.

Muito por conta do tema abordado, que remete a filmes clássicos de prisão como “Fuga de Alcatraz”, “Fugindo do Inferno” e até mesmo “A Lista de Schindler”, o longa tem boa parte de suas cenas à noite e aposta no uso das sombras empregado pelos diretores de fotografia Tristan Oliver e Frank Passingham para criar a atmosfera pretendida. Cientes disso, os diretores não hesitam em recriar o clima dos campos de concentração nazistas, evidente no plano geral do galinheiro que revela sua estrutura, nos apertados poleiros em que elas dormem, no som da bota da dona da granja que intimida as galinhas e, claro, quando uma delas é sacrificada simplesmente por não produzir mais ovos, numa cena em que o visual e a trilha sonora triste de Harry Gregson-Williams e John Powell realçam o peso do que vemos. Aliás, é cruel pensar que muitas vezes é desta forma mesmo que produtores agem para manter a rentabilidade de seus negócios, mas divago.

A riqueza de detalhes do design de produção de Phil Lewis não surge apenas na concepção do galinheiro, sendo notável também na decoração da casa onde a Sra. Tweedy mora, um local cinza e sem vida que realça sua alma vazia, assim como as roupas que ela utiliza imaginadas pela figurinista Sally Taylor. E se o visual é encantador, o ritmo empregado pelos montadores Robert Francis, Tamsin Parrye e Mark Solomon mantém a narrativa sempre envolvente, oscilando entre as tentativas de fuga, os bons diálogos entre Ginger e Rocky e o cotidiano dos donos do galinheiro, retratados como cruéis opressores justamente por estarmos acompanhando tudo sob o ponto de vista das galinhas. A crítica ao progresso encontra eco também na máquina que permitirá a proprietária maximizar seus lucros ao passo em que acelerará a matança das galinhas, assim como no dilema que acomete quase todas elas e que pode se aplicar a inúmeros seres humanos: obedecer o sistema e caminhar lentamente para a morte ou tentar subvertê-lo e ser feliz fazendo o que realmente gosta?

Há também espaço para o humor, é claro, como na divertida sequência de treinamento das galinhas, novamente sublinhada pela excelente trilha sonora, nas tentativas frustradas de fuga durante o ato inicial e nos instantes em que a montagem é crucial para que a piada funcione, como quando o Sr. Tweedy (voz de Tony Haygarth) diz que “elas não são organizadas” e, no plano seguinte, observamos a reunião das galinhas. St. Tweedy, aliás, que por si só já é um personagem engraçado por conta de sua passividade diante da esposa e sua incompetência ao cuidar das galinhas.

Ganhando vida na voz de Julia Sawalha, Ginger transmite seu idealismo através do brilho no olhar criado pelos animadores e também pela forma como a atriz dubla a personagem, demonstrando empolgação quando fala de seus planos e frustração ao descobrir a verdade sobre Rocky e evidenciar o conflito provocado pelas diferentes personalidades deles. Surgindo em cena já com o famoso grito de seu dublador, o galo Rocky encarna alguns traços da persona de Mel Gibson a época, realçando o lado galã ao mesmo tempo que soa debochado em diversos instantes, criando a aura de bon vivant, sem por isso deixar de novamente surgir como o libertador de um povo – ainda que aqui isto não seja exatamente uma verdade. Outro aspecto interessante que surge após sua aparição é a diferença cultural entre norte-americanos e britânicos, evidente nos diálogos entre Rocky e o veterano de guerra Fowler (voz de Benjamin Whitrow) e que vai muito além da diferença entre o charmoso sotaque britânico e a despojada forma de falar da terra do Tio Sam.

Após focar no relacionamento entre ambos, a narrativa nos leva ao inevitável conflito quando Rocky revela sua mentira. Observe então como, após descobrir que ele não voa, as galinhas surgem tristes, banhadas pela chuva e enquadradas num plano contra-plongè que as diminui em cena, o que, somado a trilha melancólica, transmite perfeitamente a decepção de todos naquele instante. Assim, o clímax começa a ser construído quando as galinhas percebem que não precisam dele para arquitetar a fuga e salvar as próprias vidas, ao contrário do que ocorrera instantes antes quando Ginger é levada para a nova máquina de fazer tortas e consegue escapar com a ajuda de Rocky.

Nesta sequência muito bem dirigida, os diretores nos levam através da máquina num ritmo alucinante, nos permitindo conhecer o funcionamento dela ao mesmo tempo em que nos faz torcer pelo sucesso do casal. Depois, tanto a criativa sequência de produção quanto a de apresentação do avião construído pelas galinhas são visualmente belas e conduzidas com dinamismo, empolgando o expectador e preparando-o para a esperada fuga, que é igualmente interessante e entrega exatamente o que prometeu.

A piada final abordando a velha questão do ovo e da galinha é a pitada final de bom humor que fecha este filme divertido, inteligente e ousado por apostar numa técnica diferenciada numa época em que muitos poderiam torcer o nariz por acha-la ultrapassada. Felizmente, o cinema sempre pode resgatar o passado com competência.

Texto publicado em 07 de Março de 2017 por Roberto Siqueira