Vídeo: Como treinar o seu Dragão 3

Vídeo publicado em 06 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

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Cinema & Debate agora também no YouTube

Queridos leitores,

Chegou a hora de finalmente darmos passos maiores. Estreia hoje nosso canal no YouTube e logo no vídeo inicial anunciamos outra novidade.

Assistam, comentem e inscrevam-se no canal!

Um grande abraço a todos.

 Texto publicado em 31 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

Nova cara

Queridos leitores,

O Cinema & Debate está de cara nova e gostaria de saber se vocês aprovaram a novidade.

Em breve teremos mais novidades.

Grande abraço.

Texto publicado em 27 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

TRAFFIC (2000)

(Traffic)

 

 

Videoteca do Beto #241

Dirigido por Steven Soderbergh.

Elenco: Benicio Del Toro, Jacob Vargas, Tomas Milian, Clifton Collins Jr., Don Cheadle, Luis Guzmán, Miguel Ferrer, Catherine Zeta-Jones, Steven Bauer, Dennis Quaid, Michael Douglas, Amy Irving, Erika Christensen, Topher Grace, James Brolin, Albert Finney, Benjamin Bratt, Yul Vazquez, Salma Hayek e Peter Riegert.

Roteiro: Stephen Gaghan.

Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz e Edward Zwick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entrelaçar várias linhas narrativas não era exatamente uma novidade quando “Traffic” chegou aos cinemas na virada do milênio. Vários cineastas de peso já haviam feito algo parecido até então. Também não tinha nada de novo em abordar o tráfico de drogas e seus trágicos efeitos sociais. Diversos filmes tentaram, sob diferentes pontos de vista e com maior ou menor sucesso, fazer isso. No entanto, a razão do sucesso do longa dirigido com maestria por Steven Soderbergh reside exatamente na mistura das duas coisas. Dando vida a um roteiro ambicioso que trazia nada menos que 110 personagens, o diretor conseguiu traçar um complexo painel sobre o tema, fugindo de estereótipos e maniqueísmos e deixando claro que trata-se de uma questão muito mais ampla, profunda e difícil do que sugerem as soluções prontas e simplistas que ainda hoje ouvimos por aí.

Escrito por Stephen Gaghan, “Traffic” nos apresenta ao juiz Robert Wakefield (Michael Douglas) quando este se prepara para assumir o cargo de chefe da luta contra o tráfico de drogas em Washington enquanto sua filha Caroline (Erika Christensen) se aprofunda no vício, algo que sua esposa Barbara (Amy Irving) já sabia há algum tempo. Em San Diego, o figurão do tráfico Carlos Ayala (Steven Bauer) é preso, para surpresa de sua esposa Helena (Catherine Zeta-Jones) que se sente obrigada a inteirar-se dos negócios do marido e acaba envolvendo-se em busca da manutenção do padrão de vida que tinha, sem saber que está sendo monitorada pelos policiais Ray (Luis Guzmán) e Montel (Don Cheadle), que também têm a missão de manter o pequeno traficante Eduardo Ruiz (Miguel Ferrer) sob custódia, pois ele é parte chave da investigação contra Ayala. Enquanto isso, o policial mexicano Javier Rodriguez (Benicio Del Toro) acompanha o trabalho do general Salazar (Tomas Milian), que supostamente tenta desmontar o cartel de Tijuana.

Como fica evidente no parágrafo anterior, “Traffic” se propõe a analisar a questão das drogas em suas várias camadas de maneira contundente, abordando desde a dificuldade de controlar as fronteiras e de rastrear os poderosos que controlam o tráfico até a forma como as drogas estão disseminadas em todas as classes sociais. Neste sentido, é interessante como o longa jamais cai na tentação de colar rótulos, mostrando como um traficante de armas como Francisco Flores (Clifton Collins Jr.) pode perfeitamente morar em San Diego nos Estados Unidos e, ainda assim, ter influência no tráfico do outro lado da fronteira. Da mesma forma, podemos acompanhar jovens ricos que abusam das drogas enquanto discutem um tema qualquer, ao passo em que nas periferias muitas vezes a venda ilegal dos narcóticos representa uma oportunidade que muitos dali raramente teriam de obter lucros altíssimos, algo que boa parte da fatia rica da população certamente faria se estivesse naquela situação, como fica evidente no excelente diálogo entre Seth (Topher Grace) e Robert num carro sobre a realidade do tráfico de drogas que provoca esta reflexão.

Conduzindo esta intricada narrativa de maneira firme, Soderbergh nos brinda com momentos de alta tensão como a negociação entre Ray, Montel e Ruiz logo no início que desencadeia um tiroteio e uma perseguição pelas ruas de San Diego. Abusando da câmera de mão, o diretor confere um ar documental ao longa que se encaixa muito bem no tom proposto e aumenta a sensação de realismo e a imersão do espectador naquele universo. Também é muito interessante a forma como os personagens se cruzam fisicamente em vários instantes de maneira orgânica e natural, evidenciando com sutileza como todos estão de alguma forma interligados. Obviamente, a montagem de Stephen Mirrione é crucial neste processo, mantendo o espectador igualmente interessado nas três linhas narrativas através da forma que alterna entre elas, sem jamais parecer se estender demais em alguma delas.

Ainda mais impactante é a fotografia do próprio Steven Soderbergh (que usa o pseudônimo Peter Andrews), que além de ajudar o espectador a se situar através dos diferentes filtros, de quebra traz também funções narrativas. Assim, enquanto o visual amarelado reforça o calor e o clima seco do México, fazendo com que o espectador sinta-se sufocado naquele ambiente hostil, os tons azulados em Washington servem não apenas para realçar a frieza do universo político onde decisões que custarão milhares de vidas são tomadas, mas também para transmitir o desconforto crescente de Robert ali. Já em San Diego, as cores naturais simbolizam o ponto de equilíbrio entre os tons predominantes daqueles dois universos distantes, já que naquele ambiente os efeitos das ações de ambos se cruzam, como fica evidente quando dois agentes norte-americanos se encontram com Javier numa piscina, onde o brilho do sol mistura-se ao azul da piscina. Fechando a parte técnica, vale destacar também a trilha sonora de Cliff Martinez, que com suas notas longas e uso de sintetizadores, amplia a tensão em diversos momentos.

O outro grande mérito de Soderbergh reside nas excelentes atuações que ele consegue extrair de seu vasto elenco, a começar por Tomas Milian, que confere dualidade ao general Salazar em momentos como quando ele se aproxima de Flores, dando a entender que iria protegê-lo das desumanas torturas apenas para, em seguida, obter a informação que precisava. Ainda no México, Benicio Del Toro oferece uma atuação estupenda como Javier, um personagem complexo que precisa se adaptar e sobreviver num ambiente extremamente hostil, algo que faz com maestria graças a sua habilidade de ler o cenário em que está inserido e agir de acordo com o que cada situação exige.

Catherine Zeta-Jones também está muito bem como Helena, vivendo um arco dramático interessante na pele da esposa que não sabia (ou não queria saber) a natureza real dos negócios do marido e que acaba assumindo as rédeas, chegando a viajar para o México para negociar diretamente com os fornecedores. Esta mudança começa a ficar evidente, por exemplo, durante o julgamento de Carlos, quando a câmera que foca constantemente nela ao invés do marido realça a importância daquela ocasião para a personagem. Em certo momento, ela diz que seu filho não irá viver na pobreza que ela viveu, evidenciando que seria capaz de fazer qualquer coisa para manter o status que tinha atingido. Ciente desta característica de Helena, Arnie (Dennis Quaid) se aproveita da situação e se envolve com a esposa de seu sócio, reforçando como não existem inocentes neste verdadeiro jogo de interesses. Do lado de fora da mansão, Luis Guzmán e Don Cheadle nos divertem com os diálogos entre Ray e Montel, como aquele em que falam sobre o vício de um deles no cigarro e quando Ray afirma que sonhava com o momento em que pegaria figurões, ricos e brancos cometendo um crime.

Núcleo dramaticamente mais pesado da narrativa, a família Wakefield simboliza perfeitamente a hipocrisia da chamada guerra ao tráfico, como fica evidente quando a Barbara de Amy Irving menciona a própria juventude para contrapor os argumentos do marido e lembrá-lo que ela também já usou drogas ou quando joga na cara dele o seu vício em bebidas – e repare como ele reage negativamente afirmando que não pode ser considerado alcóolatra, como se o vício dele fosse diferente dos demais. Por sua vez, Erika Christensen rouba a cena com sua ótima atuação na pele da viciada Caroline, destacando-se em diversos momentos, como quando demonstra sua resignação no primeiro encontro com outros viciados, deixando evidente que não estava preparada para aquilo, mas principalmente nas crises provocadas pelas drogas, quando surge com olhar arregalado e a boca entreaberta, praticamente nos fazendo sentir o prazer e a dor da personagem com suas expressões. E finalmente, Michael Douglas compõe com sutileza e sensibilidade um homem que, entre um copo e outro de uísque, tenta conciliar a árdua tarefa profissional que lhe foi atribuída com a ainda mais difícil missão de compreender o universo da filha viciada, completando seu arco dramático em dois momentos comoventes, primeiro num quarto de hotel e depois quando interrompe um discurso pré-fabricado para dizer o que realmente pensa, abandonar o cargo e escancarar a posição antiguerra às drogas do filme.

Instantes antes de seu personagem ser envenenado, Miguel Ferrer tem seu grande momento na pele de Ruiz ao oferecer uma visão muito interessante sobre a inutilidade do trabalho daqueles policiais que, digamos, estão apenas enxugando gelo, num dos inúmeros instantes em que “Traffic” critica abertamente a falida guerra às drogas – e a cena do envenenamento, aliás, também é muito bem conduzida pelo diretor, fazendo com que o previsível desfecho soe verossímil. A belíssima sequência final em que crianças mexicanas jogam basebol sob as luzes que iluminam o campo exatamente como sonhado por Javier, que contempla tudo aquilo embalado pela bela trilha sonora, evoca uma certa esperança sem soar como uma solução fácil para um problema extremamente complexo. Afinal, não custa sonhar com um futuro onde jovens de periferia possam passar suas noites divertindo-se e praticando esportes ao invés de lutarem para sobreviver diante do medo provocado por políticas míopes criadas por pessoas distantes daquela realidade.

Ambicioso e extremamente bem conduzido, “Traffic” é um libelo contra a inútil guerra ao tráfico, traçando um amplo painel político e social sobre um tema tantas vezes tratado de maneira simplista. Ao contrário do que pregam pessoas com pensamento binário e, pior ainda, poderosos que vivem de frases de efeito para ganhar projeção, a questão das drogas não tem solução fácil e, como fica evidente no longa, atinge todas as camadas da sociedade em maior ou menor grau, com resultados trágicos para muitas delas – sejam os que sofrem os efeitos do vício, sejam aqueles que são diretamente afetados não pelas drogas em si, mas pela imbecil guerra que traz o conflito para dentro das periferias, enquanto os que realmente faturam com aquilo dormem tranquilos em seus bairros de elite em países como os Estados Unidos ou o Brasil.

Texto publicado em 22 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

Games x Armas, o surreal debate brasileiro

Eu bem que gostaria de utilizar meu tempo para escrever textos unicamente relacionados ao cinema (e farei isso, já tenho críticas quentinhas saindo do forno em breve), ainda mais agora que a triste realidade brasileira está, ao menos fisicamente, mais distante. Seria até mais inteligente da minha parte não me manifestar politicamente neste momento de um Brasil tão polarizado. No entanto, não consigo ignorar o surreal debate que andei acompanhando em parte da mídia e, especialmente, nas redes sociais nos últimos dias. Senti-me como se estivesse novamente em 1999, ano em que a Columbine High School e o cinema do shopping Morumbi foram alvos de massacres que levantaram a questão: poderiam os filmes ou jogos de videogame influenciar estes malucos?

Após tantas pesquisas que apontam, dentre outros dados, que 80% dos atiradores em massa não mostraram interesse em games violentos ou que não há relação alguma entre o ato de jogar videogame e a agressividade de adolescentes, torna-se surreal que existam tantas pessoas que simplesmente ignorem os estudos e afirmem categoricamente tamanhos absurdos. Não vou dizer que é surpreendente, diante dos líderes retrógrados que elegemos, mas certamente é decepcionante que tanta gente embarque nessa nos dias de hoje, com tanta informação disponível.

Pior ainda é o nosso desgoverno, ao invés de agir com a decência esperada de um país sério, como fez a Nova Zelândia ao anunciar que irá banir as armas semiautomáticas – em reação similar a Austrália e Reino Unido após massacres, diga-se -, aproveitar o momento para dizer que a solução passa por armar os professores (!) e facilitar o acesso as armas. Eu sequer acredito no que acabei de escrever, tamanha a imbecilidade.

O Japão talvez seja o melhor exemplo do tamanho da ignorância desta gente. Um dos países onde mais se joga games violentos, o Japão é também referência em segurança, graças, entre outros fatores, ao rígido controle de armas existente por lá. Portanto, nem é preciso um estudo mais profundo para desmontar a falácia de gente como o general Mourão. Mas se preferir, compare o número de assassinatos em massa em países onde há rígido controle de armas (a maioria dos países europeus, Austrália, Japão, etc.) com aqueles onde a compra de armas de alto poder de destruição é livre, como nos Estados Unidos, onde há uma frequência assustadora de assassinatos em massa todos os anos. Fica claro que eventos trágicos como estes podem ocorrer em qualquer lugar, mas as chances aumentam exponencialmente quando o acesso as armas é facilitado.

É realmente muito triste ver o Brasil entregue nas mãos de gente tão incompetente e, o que é pior, capaz de fazer malabarismos para implementar políticas que visam única e exclusivamente defender os interesses da indústria armamentista. É muito triste que, ao invés de propor melhores condições de trabalho aos professores, essa gente lunática queira transformá-los em agentes secretos prontos para conter o mal, atribuindo uma responsabilidade que é do Estado para eles. Em resumo, é muito triste ver um país retroceder tanto em tão pouco tempo.

Enfim, eu quero e irei escrever muito sobre cinema novamente, mas não podia deixar passar batido este tema, até por que é questão de tempo para começarem a culpar os filmes também, exatamente como fizeram em 1999 com “Clube da Luta”.

Texto publicado em 17 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

SABOR DA PAIXÃO (2000)

(Woman on Top)

 

 

Videoteca do Beto #240

Dirigido por Fina Torres.

Elenco: Penélope Cruz, Murilo Benício, Harold Perrineau, Mark Feuerstein, John de Lancie, Anne Ramsay, Ana Gasteyer, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Carlos Gregório, Daniele Suzuki, Cléa Simões e Otávio Martins.

Roteiro: Vera Blasi.

Produção: Alan Poul e Nancy Paloian-Breznikar.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Uma das coisas que sempre evito fazer ao assistir um filme é criar expectativas, pois, como sabemos, a expectativa é a mãe da decepção. Sendo assim, o fato de “Sabor da Paixão” ter Penélope Cruz, Murilo Benício, Lázaro Ramos e Wagner Moura em seu elenco não interferiu na avaliação que fiz do longa – se assim fosse, teríamos o primeiro caso de nota negativa da história do Cinema & Debate. Pois o fato é que o filme dirigido pela venezuelana Fina Torres é tão fraco, mas tão fraco, que para ser ruim teria que melhorar bastante.

Escrito pela brasileira Vera Blasi, “Sabor da Paixão” conta a trajetória de Isabella (Penélope Cruz), a dona de um restaurante em Salvador que, após descobrir a traição de seu marido Toninho (Murilo Benício), decide abandonar o país e tentar uma nova vida em San Francisco. Já nos Estados Unidos, ela é convidada a assumir o comando de um programa televisivo sobre culinária, apoiada pelo amigo travesti Monica Jones (Harold Perrineau), enquanto no Brasil Toninho busca encontrar formas de reconquistar sua esposa, com a ajuda dos amigos Rafi (Wagner Moura) e Max (Lázaro Ramos).

Não chega a surpreender que uma produção norte-americana sobre o Brasil seja repleta de clichês e estereótipos, ainda que a direção de uma venezuelana e o roteiro escrito por uma paulistana pudessem trazer pontos de vista diferentes e tornar a narrativa mais rica, o que infelizmente não é o caso. Dentre o festival de estereótipos sobre o Brasil que desfilam ininterruptamente durante os quase insuportáveis 92 minutos de projeção, ao menos a trilha sonora de Luis Bacalov traz alguns bons momentos recheados de bossa nova antes de tornar-se enjoativa pela falta de variação e excessiva repetição. E não é exagero dizer que os pontos positivos do longa param por aí. Com muito boa vontade, podemos dizer que a fotografia de Thierry Arbogast consegue estabelecer alguma diferença entre os tons coloridos da nova vida da protagonista nos EUA e o tom pasteurizado na Bahia, que remetem ao estado de espírito dela, assim como a montadora Leslie Jones (que incrivelmente trabalhou em ótimos filmes como “Além da Linha Vermelha” e “Embriagado de Amor”) demonstra alguma inspiração através de elipses que utilizam o céu e um outdoor de Isabella. Os efeitos visuais ruins, notáveis nas sequências exotéricas, completam a parte técnica do longa.

Errando em praticamente todas as decisões, a diretora Fina Torres jamais consegue manter o espectador interessado na narrativa, o que é ainda mais grave se levarmos em conta o talentoso elenco que ela tinha em mãos. Para começar, a decisão de trazer atores brasileiros falando em inglês mesmo no Brasil, obviamente visando agradar ao público norte-americano, nos tira completamente do ambiente e torna tudo muito artificial e pasteurizado. Esta intenção é reforçada pela transmissão da ideia de um Brasil que vive de sol, sexo e água de coco, imagem esta que muitos estrangeiros ainda tem do país. No entanto, para o papel principal, Torres aposta na espanhola Penélope Cruz, na época uma estrela em ascensão, mas inegavelmente uma escolha bastante duvidosa que tenta se passar por brasileira sem pronunciar uma palavra em português, o que poderia ser amenizado se ao menos sua personagem fosse interessante.

Apostando em sua inegável sensualidade, Cruz não consegue contornar os graves problemas do roteiro, vivendo uma Isabella sem personalidade, que abandona sua cidade, sua profissão e seu restaurante e, mesmo assim, ainda corta o dedo durante uma aula pensando no marido que a traiu. Chega a ser vergonhosa, por exemplo, a sequência em que ela o aceita em seu programa com enorme facilidade, como se nada tivesse ocorrido até então. Da mesma forma, soa completamente artificial a maneira como ela rapidamente se transforma de talentosa cozinheira em âncora de um programa de TV, surgindo de repente com plena desenvoltura na frente da tela, como se fizesse isso há décadas. Por sua vez, Murilo Benício não fica atrás, criando um Toninho histérico e sem carisma, que representa o verdadeiro mala e jamais justifica a atração que a protagonista sente por ele, protagonizando ainda cenas pavorosas como aquela em que canta na cadeia acompanhado de um som não diegético que torna tudo ainda mais artificial. Ao menos, Harold Perrineau nos diverte com sua simpática atuação na pele do travesti Monica, enquanto Mark Feuerstein quase salva o tímido produtor Cliff, mas acaba sendo demonizado pelo roteiro.

Chega a ser curioso como um longa com tantas mulheres no processo produtivo pode ser tão machista. Vejamos: Toninho trai a mulher por que, acredite se quiser, ele não consegue dominar a relação sexual – o que explica o título original do filme. Poderia ser mais ridículo? Calma que tem mais. Frases carregadas de machismo como “Homem que ama sua mulher não se deixa ser pego com outra” e o famoso “Mas eles são homens” que tenta justificar o injustificável surgem a todo momento, o que já seria imperdoável num roteiro escrito por um homem, mas torna-se ainda mais embaraçoso vindo de uma mulher. Para piorar, o roteiro estereotipa completamente a mulher brasileira e o Brasil em geral, vendendo uma imagem feita sob medida para agradar estrangeiros que nunca tiveram o trabalho de buscar se informar sobre o país – e, justiça seja feita, até mesmo brasileiros costumeiramente criam imagens totalmente desconexas da realidade de outras regiões que, normalmente, nunca conheceram. Praticamente todos os clichês brasileiros estão presentes no péssimo roteiro de Blasi, que traz ainda um final exotérico, previsível e nada original.

Nem mesmo como comédia romântica “Sabor da Paixão” funciona, trazendo momentos embaraçosos como quando o produtor de TV é convencido pelo aroma de um alimento a mudar de ideia, quando obviamente o aroma não consegue ultrapassar a tela. Em resumo, o longa não tem momentos engraçados – nem mesmo Wagner Moura e Lázaro Ramos salvam -, os personagens não são carismáticos e o casal não tem química.

Ironicamente, uma cena de “Sabor da Paixão” exemplifica perfeitamente muitos de seus graves problemas. Em certo momento, os produtores estragam o programa de culinária de Isabella ao retirar a liberdade criativa de sua âncora e pasteurizá-lo para a grande massa, retirando sua espontaneidade da mesma forma como ocorre no próprio longa, que vende um Brasil totalmente pasteurizado e repleto de clichês, feito sob medida para agradar a parcela do público norte-americano que enxerga o país como um paraíso exótico e fonte de turismo sexual.

Texto publicado em 13 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

Balanço de 2018

Como expliquei em detalhes no texto anterior, o ano passado marcou uma mudança radical em minha vida, que afetou diretamente a rotina do blog, já desgastada nos últimos anos. Para ser mais direto: o Cinema & Debate flertou com o fim em 2018. Não que eu tenha de fato considerado a hipótese de encerrar este espaço que tanto amo, mas a falta de tempo para mantê-lo, aliada aos enormes desafios da minha vida profissional, ao planejamento e execução da mudança de país e as responsabilidades familiares resultantes desta mudança fizeram com que o tempo para assistir filmes e escrever fosse mais escasso do que nunca. Minha esposa dirá que eu também ocupei muito tempo em discussões políticas – o que é verdade, afinal era um ano eleitoral. O fato é que o ano foi turbulento sob diversos aspectos, ainda que no final tenha marcado a realização de um sonho de longa data para toda nossa família.

Se no “Balanço de 2017” eu sonhava com um ano melhor não apenas para o blog, como também para o nosso país, o resultado não poderia ter sido pior para ambos. Abraçamos a onda conservadora falso-moralista e mergulhamos fundo no retrocesso como sociedade. Ao mesmo tempo, o Cinema & Debate sobreviveu dos cliques e comentários de leitores fieis, já que foram raros os textos que consegui produzir por aqui. Felizmente, a turbulência parece ter passado – ao menos para o blog.

Ainda estamos no processo de adaptação, passei um mês estudando alemão intensivo e continuo focado na evolução do idioma, mas aos poucos vou encontrando espaço para reestruturar o blog e novas ideias vão surgindo. Independente do que minha vida profissional me reserve, quero aproveitar os momentos vagos para devolver a força que o C&D já teve, com textos mais frequentes e até mesmo novas abordagens que estou estudando.

Que 2019 marque de fato o recomeço sonhado para o C&D e que eu consiga oferecer o que vocês leitores merecem. Agradeço o carinho de todos que seguem buscando textos e comentando neste espaço e espero que gostem do que está por vir. E que o blog viva dias felizes como eu e minha família estamos vivendo nesta nova caminhada.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2018:

– 2 críticas divulgadas na Videoteca do Beto (espero nunca mais ter que divulgar um resultado desastroso assim).

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2018 foram:

5° lugar = “Perfume de Mulher

4° lugar = “2001 – Uma Odisséia no Espaço

3° lugar = “Um Dia de Fúria

2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

1° lugar = “A Missão

Temos duas novidades no ranking, “Perfume de Mulher” e “Um Dia de Fúria” – curiosamente, dois filmes do início dos anos 90.

E agora, a lista dos 106 filmes assistidos em 2018 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2019 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 10 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

Recomeço

Nem eu e nem minha esposa sabíamos, mas nossas vidas – e de todos que nos cercam – começaram a mudar no dia 06 de Agosto de 2012, no instante em que pousamos pela primeira vez na vida na capital alemã. Nós já éramos apaixonados pelo estilo de vida europeu desde a deliciosa viagem de lua-de-mel realizada ainda em 2007 e falávamos abertamente que adoraríamos viver nesta região do mundo, mas nossa admiração nunca se concretizou em ações que pudessem de fato nos levar a uma mudança. Foram os dias maravilhosos que passamos em Berlim e, posteriormente, em Munique que nos levaram a conclusão de que era preciso agir.

Curiosamente, foi somente na terceira viagem ao velho continente que incluímos a Alemanha no roteiro, talvez por conta do estereótipo mentiroso que temos no Brasil sobre o país, que já desmenti neste post. Nós já tínhamos nos encantado com cidades como Paris, Amsterdam, Roma e Barcelona, mas somente quando conhecemos o país de Goethe que a ficha verdadeiramente caiu. Nós tínhamos que morar ali. Não propriamente ali, em Berlim ou Munique, mas a admiração pela Alemanha – que ganhou mais força ainda ao longo dos anos e das novas visitas – foi o motor para concretizar o que era apenas um sonho e dar início ao nosso projeto de mudança para a Europa.

Na volta daquela viagem, iniciamos o processo de cidadania italiana por parte da família da minha esposa e, já em 2013, eu iniciei o estudo do idioma alemão, ainda que o primeiro ano tenha sido praticamente perdido pelo método caseiro que escolhi, o que me motivou a buscar uma escola especializada em 2014. Pela primeira vez, nós tínhamos um plano concreto e agíamos em direção ao sonho.

Passaram-se os anos, nós quase mudamos em 2015, mas uma proposta de trabalho me segurou no Brasil – e que decisão acertada ela se revelou. Vivi anos maravilhosos numa experiência profissional marcante que deixou saudades e que me fez crescer como profissional e como pessoa. Até por isso, não foi nada fácil decidir partir. Obviamente que ficar longe de familiares e amigos era o que mais dificultava a decisão de mudar de país, mas deixar um emprego que eu de fato amava também não era algo simples.03

Por outro lado, a onda conservadora que nasceu nas manifestações de 2013 e que nos levou a eleição de você-sabe-quem facilitou bastante a decisão de mudar. A cada ano que passava e a cada debate que eu tinha sobre ideias políticas e visão de mundo com amigos, familiares e em redes sociais (sim, cometi este erro), eu percebia que estava me desconectando do Brasil e que, se o modelo de sociedade que eu defendo é visto de maneira totalmente distorcida em nosso país, era mais fácil abandonar o inútil debate que já estava me trazendo problemas de saúde e viver logo de uma vez onde ele já é aplicado, afinal, como diz o brilhante texto de Ivana Ebel, o brasileiro de classe média acha chique a Europa, mas critica toda e qualquer política progressista do velho continente quando alguém tenta aplicá-la no Brasil, como por exemplo as ciclovias em São Paulo e programas que visem o bem-estar social, igualdade de gênero, etc.

O sombrio cenário eleitoral somado aos anos de planejamento e ao timing para que nossos filhos não fossem prejudicados em sua formação escolar fizeram com que Dezembro de 2018 fosse a data ideal para nossa sonhada mudança. E assim aconteceu. Desde então, vivemos em Lisboa, numa fase de adaptação ao velho continente que pode tornar-se definitiva, já que estamos adorando viver aqui. Eu ainda passei o mês de Janeiro em Berlim fazendo um curso intensivo de alemão que, além da experiência de imersão que obviamente me ajudou bastante, ainda me rendeu boas amizades, e agora estou novamente com a família em terras lusitanas.

O fato é que não sabemos onde iremos viver em definitivo até que eu encontre um novo emprego – o que pode me levar a algum outro país europeu. Até lá, quem sabe consigo voltar a focar no blog e talvez dar um passo adiante, tratando-o de maneira mais profissional e não apenas como um hobby. Ideias para isso eu tenho aos montes, o que faltava realmente era tempo.

E como o Cinema & Debate sofreu nestes últimos anos. Eu praticamente não conseguia escrever mais, ainda que conseguisse assistir filmes num ritmo razoavelmente bom para quem viajava tanto a trabalho, estudava alemão e, claro, tinha uma família e uma vida social. O blog praticamente sobreviveu respirando por aparelhos, com textos esporádicos, idas e vindas, sumiços e retornos, ainda que o número de acessos jamais tenha caído.

A minha paixão pelo cinema, no entanto, nunca morreu, assim como minha vontade de manter o blog vivo, que era renovada a cada comentário que recebia mesmo com a longa ausência. Talvez esteja na hora de retribuir o carinho de todos vocês que, com comentários e cliques, mantiveram acesa a chama da esperança neste espaço criado para debater a sétima arte de uma maneira mais profunda.

A chama ganhou força. É chegada a hora do recomeço.

Texto publicado em 03 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

3…2…1…

Novos caminhos

Boa noite amigos leitores,

Estamos chegando ao fim da corrida eleitoral e meu sentimento é apenas de cansaço.

Ao longo dos últimos meses (quem sabe anos?) eu tentei defender minhas posições com base em argumentos, dados oficiais, matérias de jornais nacionais e estrangeiros, estatísticas, experiências nacionais e de outros países, informações históricas, dicas de livros, filmes, documentários e músicas. Ganhei até o apelido de Linkman por isso.

Busquei o diálogo não apenas com os que concordam comigo, mas especialmente com quem discorda. Vi pessoas que sempre foram críticas ao PT passarem por cima da rejeição em nome da democracia. Perdi amizades por conta de valores inegociáveis pra mim como o respeito e amor ao próximo, mas vi outros tantos amigos se agigantarem em meu coração em sua luta diária por uma sociedade democrática e que prefira o amor ao ódio e os livros as armas.

Dei a cara a tapa, especialmente no segundo turno em que me vi obrigado a defender um projeto que teve diversos problemas e também várias virtudes, mas que não era meu favorito no 1o turno.

Agora só nos resta aguardar. Se Haddad vencer, vou gritar, chorar, sorrir e comemorar, para já na segunda feira começar a cobrar do PT à autocrítica que até agora somente ele próprio Haddad fez, ao lado de defensores da democracia como Mano Brown e Cid Gomes.

Se o outro ganhar, irei parabenizar e desejar sorte ao lado vencedor e me recolher em meu lamento e tristeza pelo Brasil abraçar o discurso autoritário e de ódio. Mas também já na segunda feira irei levantar a voz de oposição e honrar o sangue nordestino misturado ao sangue negro e índio que corre em minhas veias, em defesa dos meus amigos gays, das mulheres que cercam minha vida, da luta que travo há anos pela diminuição da desigualdade e pela igualdade de oportunidades, por mais Estado e não menos, provendo saúde, educação, segurança, transporte, infraestrutura, energia e tudo mais que é estratégico ao país.

Seguirei defendendo o progresso, a educação sexual nas escolas, o Estado Laico e a liberdade religiosa, as escolhas individuais, as diferentes orientações sexuais, a descriminalização do aborto e da maconha, a desmilitarização da polícia e o melhor treinamento e remuneração para esta profissão tão difícil, o direito de ser ativista e de protestar, o direito de discordar e fazer oposição, a luta por moradia, por saneamento e acesso a água, o fim da guerra falida ao tráfico e o início de ações planejadas e inteligentes contra o crime, a defesa dos direitos humanos, o respeito ao imigrante e a defesa da miscigenação, os incentivos a cultura e a arte, o investimento nos esportes, entre tantas outras bandeiras.

Enfim, seguirei lutando por uma sociedade mais justa e próxima do que temos de melhor no mundo hoje.

Agradeço aos que trocaram ideia e me ajudaram a evoluir mais um pouco nesta etapa da vida.

E mesmo distante, sei que muitos dos meus amigos que despertaram agora ou bem antes para a importância da política em nossas vidas serão os primeiros a levantar a voz ao menor sinal de que o autoritarismo prometido irá mesmo se concretizar. E estarei a distância torcendo e lutando como for possível para que possamos impedir a barbárie de se consolidar no nosso amado país.

Bom voto amanhã para todos e aos indecisos envio abaixo algumas dicas de filmes que podem ajudar na decisão entre hoje e o momento em que você estará sozinho, de frente pra urna, sem os amigos, o chefe ou qualquer pessoa para lhe recriminar por sua escolha.

Lembre-se sempre. Muitas pessoas foram torturadas e outras morreram para que você tivesse esse direito. E mais do que nunca, amanhã o seu voto vale o sangue de muitos.

Grande abraço.

Roberto Siqueira

Dicas de filme:

Batismo de Sangue
O ano em que meus pais saíram de férias
Condor
A lista de Schindler
A vida é bela
O pianista
O menino do pijama listrado
O dia que durou 21 anos
A onda
Lamarca 
Cabra-cega
O grande ditador
Ele está de volta
Manhã cinzenta
Pra frente, Brasil!
Cabra marcado para morrer

Texto publicado em 27 de Outubro de 2018 por Roberto Siqueira