CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (2000)

1 novembro, 2017

(Quills)

 

 

Videoteca do Beto #237

Dirigido por Philip Kaufman.

Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Amelia Warner, Billie Whitelaw, Patrick Malahide, Jane Menelaus, Stephen Moyer, Tony Pritchard, Michael Jenn, Danny Babington, George Antoni, Stephen Marcus, Elizabeth Berrington, Bridget McConnell, Pauline McLynn, Ron Cook, Rebecca R. Palmer e Diana Morrison.

Roteiro: Doug Wright.

Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman e Nick Wechsler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “Contos proibidos do Marquês de Sade”, o personagem título diz a seguinte frase após comandar a encenação de uma peça teatral que reconstituía, em tom bem humorado, um fato recente ocorrido na vida de um importante personagem presente na plateia: “Só erguemos um espelho, aparentemente ele não gostou do que viu”. Esta frase escancara não apenas a base da obra literária incendiária do polêmico autor francês que inspira o longa, mas também permite discussões ainda mais profundas sobre o papel da arte – o que, confesso, se torna um debate ainda mais irresistível no contexto atual que infelizmente nosso país está lentamente sendo inserido.

Escrito com habilidade por Doug Wright com base em sua própria peça teatral, o longa baseia-se em alguns fatos reais ocorridos na vida de Sade (Geoffrey Rush), acompanhando seus últimos dias de vida num sanatório comandado pelo padre Coulmier (Joaquin Phoenix), de onde ele segue escrevendo seus livros e, com a ajuda da lavadeira local Madeleine (Kate Winslet), consegue publicá-los, chamando a atenção até mesmo do imperador Napoleão Bonaparte (Ron Cook), que envia o Dr. Royer-Collard (Michael Caine) para curá-lo de sua suposta insanidade.

Conseguindo a proeza de humanizar um dos personagens mais controversos da história, o roteiro de Wright destaca-se pela qualidade de seus diálogos, intercalando momentos de acidez, leveza e refinamento e trazendo ainda diversos questionamentos interessantes, seja nas palavras cortantes do Marquês ou nas reflexões dos demais personagens. Obviamente, o foco principal está no questionamento da hipocrisia e do falso moralismo predominante em boa parte da sociedade, que finge ter aversão às histórias narradas por ele quando estão diante de outras pessoas, mas esgotam o estoque de seus livros minutos após o lançamento destes ou, quando escutam alguém relatando alguma passagem, se dizem horrorizados somente para, quando questionados se o interlocutor deve parar a leitura, responderem: “continue!”. E não se trata aqui de defender a pessoa de Sade, extremamente controversa e repugnante até, mas de defender a liberdade artística e escancarar o duplo padrão moral que reina em nossa civilização há séculos.

Associando prazer e dor, os conceitos básicos da obra de Sade, logo no plano inicial que terá um desfecho distinto do que imaginamos, Philip Kaufman conduz a narrativa com destreza, sem jamais permitir que Sade ou os demais personagens virem caricaturas. Limitando o espaço físico da narrativa ao sanatório onde ele está internado e a pequenos momentos fora dali, o diretor nos transmite a sensação de clausura do protagonista e, de quebra, nos faz mergulhar em sua mente criativa progressivamente, sem jamais romantizar demais o personagem ou ocultar seu lado sombrio. Este mergulho conta com o excelente design de produção de Martin Childs que, além de ajudar na reconstrução de época, ainda ressalta a obsessão de Sade pelo sexo através dos objetos que enfeitam seus aposentos, demonstrando também sua inquietação através da caótica disposição de seus pertences.

Da mesma forma, os figurinos de Jacqueline West são importantes não apenas para a ambientação à época, mas por dizer muito sobre cada personagem. Enquanto o Marquês adota roupas extravagantes, Coulmier e o Dr. Royer-Collard estão sempre em roupas comportadas e Madeleine usa um vestido simples, mas que não deixa de exalar sensualidade, especialmente quando está na presença do Marquês, ilustrando a dualidade natural de uma mulher que se comporta de uma maneira diante da sociedade e de outra quando está sozinha com seus pensamentos eróticos.

Enquanto isso, o diretor de fotografia Rogier Stoffers investe num visual mais vivo inicialmente, que lentamente se transforma numa paleta mais sombria e sufocante, até chegar ao inquietante momento em que Sade sussurra seu último conto, sob uma forte tempestade que acentua seu caráter transgressor e ainda antecipa o trágico final que se aproxima, tudo isso pontuado pela tensa trilha sonora de Stephen Warbeck, que até então apostava num tom mais alegre que ameniza o eventual peso que uma narrativa sobre Sade poderia ter.

Outro mérito de Kaufman, Wright e do montador Peter Boyle está na maneira bem sucedida em que a narrativa desenvolve seus quatro personagens centrais sem a necessidade de recorrer a recursos pouco elegantes como diálogos expositivos ou flashbacks, permitindo que conheçamos suas motivações de maneira clara e orgânica – e até personagens periféricos como Simone (Amelia Warner) são bem desenvolvidos mesmo com poucas cenas. É claro que a qualidade das atuações também é crucial neste processo e, felizmente, o elenco é recheado de talentos. A começar por Michael Caine que encarna muito bem o papel de falso moralista, destes que usam o nome de Deus para empregar métodos violentos de “tratamento” para as supostas aberrações da natureza, numa marca do obscurantismo que infelizmente não ficou apenas nos livros de história. Como ainda ocorre nos dias de hoje, estes supostos tratamentos escondem grandes interesses econômicos por trás, como fica evidente em sua conversa com a angustiada esposa de Sade (Jane Menelaus) e no terceiro ato, quando o Dr. Royer-Collard lucra com livros do autor que criticava e, pior, através do trabalho escravo dos pacientes do sanatório. E não deixa de ser curioso notar como para frear o impulso de um escritor que, entre outras coisas, escrevia sobre a tortura como maneira de obter prazer sexual, o médico utilize como método para a suposta cura justamente…a tortura!

Assim, ele é capaz de criticar Sade pelo conteúdo explícito de sua obra e, ao mesmo tempo, buscar a jovem Simone aos 16 anos num convento para casar-se e forçá-la a fazer sexo com ele por ser o “dever” noturno da esposa. Não à toa, ela se interessa pela obra obscena de Sade ao ponto de memorizar o livro que lia secretamente e o abandona, fugindo com outro rapaz que compreende muito melhor a alma feminina. Igualmente moralista, mas por uma razão mais genuína, o padre Coulmier é inteligente ao ponto de conseguir a amizade de Sade mesmo com uma visão de mundo completamente oposta, atraindo ainda o interesse de Madeleine por sua delicadeza e sensibilidade, numa composição muito interessante de Joaquin Phoenix. Seu padre realmente acredita que pode mudar o Marquês através do diálogo e da compreensão, sendo muito mais fiel a fé que propaga que boa parte dos puritanos da sociedade que o cerca. Observe, por exemplo, sua apreensão durante a exibição da peça citada anteriormente, segurando o crucifixo como um último refúgio de quem antevê o que irá acontecer ali. Sua fé, não apenas na religião, mas também no ser humano chega a ser tocante.

No entanto, a convivência com o Marquês serve para abalar alguns pilares de suas convicções, levando-o a ceder ao desejo por Madeleine, questionar alguns de seus dogmas e a acordar angustiado após um cruel pesadelo em que ressuscita a amada num ato de necrofilia. A morte dela e do próprio Sade levam o padre a perder a fé e abraçar de vez a insanidade. A razão para isso vai além da convivência com Sade. Obrigado a viver sob o questionável celibato que o impede de desfrutar o mais lindo sentimento que o ser humano pode sentir, o padre vê sua fé ser abalada ao descobrir a atração que Madeleine sentia por ele, numa revelação que soa natural também pela competente atuação de Kate Winslet, que cria uma personagem inocentemente sensual, o que explica a forte atração e inspiração que o próprio Marquês sentia na presença dela. Mesmo devorando cada texto de Sade, Madeleine jamais soa vulgar e ilustra muito bem a natureza humana, tão preocupada com as aparências que não se permite viver seus desejos mais secretos longe das páginas de um livro.

Já o Marquês não tinha problema algum com isso. Escancarando em palavras (e na vida real em atos, alguns deles criminosos) seus desejos e pensamentos mais obscenos, Sade chacoalhou a sociedade de sua época com histórias que exploram as mais diversas formas de sexualidade sem concessões, de tal forma que seu nome é usado em psicanálises até hoje. Mas o Marquês de Geoffrey Rush apenas sugere a crueldade do original, encarnando o personagem de uma maneira mais humana, ao ponto de soar bem humorado e sedutor em diversos instantes, o que é crucial para compreender a atração de Madeleine por suas histórias e a amizade dele com o padre. E é justamente nesta humanização que reside o grande mérito do ator, que consegue fazer com que o espectador torça pelo personagem mesmo quando este não concorda com o que ele diz, também por que o roteiro acerta em cheio ao separar o autor de sua obra, focando mais em seu direito à liberdade de expressão do que no julgamento da qualidade de sua literatura. Gostando ou não do teor de seus livros ou de sua personalidade polêmica, não iremos concordar com a censura que ele sofre e o roteirista sabe disso.

Assim, quando os métodos rígidos impostos pelo Dr. Royer-Collard entram em cena, Sade torna-se ainda mais carismático, já que o espectador tende a torcer por quem está inferiorizado na maioria das vezes. Espalhando alfinetadas no autoritarismo, nos códigos morais e até mesmo na religião através de frases cortantes como “Em condições adversas o artista floresce” ou “Este seu Deus retalhou seu filho como uma vitela, tenho medo do que faria comigo”, Sade vai sendo levado a loucura completa quando lhe privam de sua pena (daí o título em inglês Quills), usando de formas cada vez mais criativas para seguir escrevendo. Rush demonstra bem esta transformação em momentos hilários como a dança em cima da mesa com os pacientes em volta, mas também demonstra uma faceta humana, por exemplo, ao saber que Madeleine morreu virgem, sofrendo por talvez imaginar o quanto de vida ela poderia desfrutar e não pôde devido as travas impostas socialmente. Na última conversa entre eles, aliás, a pequena abertura na porta que os separa ilustra que ambos estavam aprisionados, mas de maneiras distintas. Ao menos ela desfrutou de alguma liberdade através das fantasias despertadas pela obra dele.

E aí residem outros questionamentos interessantes de “Contos proibidos do Marquês de Sade”. Teria a arte o poder de provocar reações tão fortes nas pessoas ao ponto de levá-las a cometer um crime, por exemplo, como muito tentou-se imputar aos filmes ou aos jogos de videogame nos massacres ao longo dos anos? Ou a arte serve justamente para permitir que as pessoas vivam fantasias que jamais viveriam de fato, num escapismo que influenciaria de forma positiva a sociedade? O próprio Sade questiona o padre se caso um paciente resolva andar sobre a água e morra afogado, ele culparia a Bíblia? E, diante das polêmicas recentes no Brasil, não posso deixar de questionar. Seria a controversa obra de Sade considerada arte? Eu não tenho dúvida alguma que sim. Goste ou não do conteúdo dela, é inegável que provoca reações nas pessoas e abala os pilares morais regidos por dogmas religiosos – e o ótimo longa de Philip Kaufman deixa isso bem claro.

Simultaneamente contestador e divertido, “Contos proibidos do Marquês de Sade” aborda um tema polêmico e levanta o espelho citado por Sade diante de toda a sociedade. As reações de cada um podem indicar em qual personagem da trama cada espectador se encaixa. E o mais importante é que, mesmo perseguida, polêmica e contrariando todos os questionáveis padrões morais da época (e até atuais), a obra de Sade continua viva. Esta é a beleza da arte. Não importa quanto os conservadores e falso moralistas tentem sufocá-la, ela sempre irá resistir ao tempo. Ainda bem.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2017 por Roberto Siqueira

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AMORES BRUTOS (2000)

17 outubro, 2017

(Amores perros)

 

 

Videoteca do Beto #236

Dirigido por Alejandro González Iñárritu.

Elenco: Gael García Bernal, Emilio Echevarría, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Jorge Salinas, Adriana Barraza, Marco Pérez, Rodrigo Murray, Humberto Busto, Gerardo Campbell, Rosa María Bianchi, Dunia Saldívar, José Sefami, Lourdes Echevarría, Laura Almela, Ricardo Dalmacci, Gustavo Sánchez Parra e Patricio Castillo.

Roteiro: Guillermo Arriaga.

Produção: Alejandro González Iñárritu.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Estreia do mexicano Alejandro González Iñárritu na direção, “Amores Brutos” ganhou status de cult com o passar dos anos, ainda que não seja tão conhecido quanto sucessos do diretor como “Babel” ou “O Regresso”. No entanto, todo seu talento e de seu parceiro roteirista Guillermo Arriaga são escancarados ao longo das mais de duas horas de projeção, sugando o espectador pra dentro de uma narrativa pesada, é verdade, mas sempre muito interessante.

Apostando numa estrutura dividida em capítulos, “Amores Brutos” narra um trecho da vida de diversos personagens interligados por um evento trágico central, um acidente de carro que modifica a vida de todos os envolvidos. Quem provoca o acidente é Octavio (Gael García Bernal), que foge com seu parceiro Jorge (Humberto Busto) após esfaquear um rival numa rinha de cachorros como vingança ao tiro disparado contra o seu rottweiler Cofi – e que pretendia fugir com Susana (Vanessa Bauche), a esposa de seu irmão Ramiro (Marco Pérez) com quem tinha sérios problemas de relacionamento. No carro atingido por ele encontra-se Valeria (Goya Toledo), uma modelo em ascensão na carreira que acabara de ganhar um apartamento do namorado Daniel (Álvaro Guerrero), um homem casado que havia largado a esposa para viver com ela. Observando o acidente de perto, o mendigo Chivu (Emilio Echevarría), um ex-comunista que abandonou esposa e filha no passado para aderir a luta armada e que agora vive solitário como um matador de aluguel, na companhia apenas de seus cachorros.

Intercalar diversas linhas narrativas de forma não linear não é uma tarefa fácil, mas também não chega a ser uma grande novidade. Diversos diretores importantes já utilizaram muito bem este recurso ao longo da história. Entretanto, o que chama a atenção em “Amores Brutos” é como a escolha de Iñárritu enriquece a narrativa, criando um painel nem tão complexo, mas que explora com destreza o tema central da narrativa, que são os tortuosos conflitos familiares entre os personagens e a ambígua dualidade entre amor e violência. Voltaremos aos aspectos temáticos em instantes, mas antes vale destacar que esta destreza na condução da narrativa conta também com uma parte técnica impactante, através da escolha de câmeras de mão e de uma paleta crua que cria uma atmosfera realista coerente com o ambiente onde se passa a narrativa.

Observe, por exemplo, a sequência que abre o longa, uma perseguição alucinante nas ruas da caótica Cidade do México em que a câmera ágil de Iñárritu nos coloca dentro do carro sem jamais soar confusa, encerrada pelo surpreendente acidente que cria o ponto de conexão entre os personagens centrais da narrativa. A partir de então ganha destaque a montagem inteligente de Luis Carballar, Fernando Pérez Unda e o próprio Iñárritu, que transita entre os núcleos da narrativa de maneira bem definida, vez por outra cruzando os personagens de núcleos distintos. Ainda assim, é uma montagem mais convencional do que veríamos posteriormente em “Babel” e principalmente em “21 gramas”, os dois longas que fecham a trilogia da morte, como ficou conhecida.

Por sua vez, a trilha sonora de Gustavo Santaolalla surge em momentos pontuais, apostando tanto em músicas latinas quanto numa bela trilha instrumental que depois se tornaria marca de Iñárritu em seus filmes, ao passo que o design de som se destaca em momentos especiais, como quando capta a angústia dos envolvidos no acidente e, especialmente, ao transmitir a aflição de Valeria enquanto ouve os grunhidos de sofrimento de seu cachorro preso no assoalho.

Apostando em planos fechados que ampliam a sensação de angústia no espectador, especialmente quando realça o sangue jorrado por personagens e cachorros em vários momentos, Iñárritu sabe criar tensão também com técnicas mais elaboradas, como o plano-sequência que acompanha Octavio deixando seu cão baleado no chão e voltando para esfaquear o agressor, retornando ao carro para fugir largando a faca ensanguentada para trás. A própria cena do acidente é reconstituída em cada capítulo sob ângulos diferentes, destacando-se no último onde fica evidente o estrago feito pela colisão, numa sequência angustiante captada em detalhes pela câmera do diretor.

Aliás, neste terceiro ato a fotografia de Rodrigo Prieto torna-se ainda mais sombria, ilustrando o desfecho nada agradável dos personagens que permeiam a narrativa. Colabora também o design de produção de Brigitte Broch, que torna o capítulo final mais sufocante através do caótico local onde vive Chivu. Não que a casa de Octavio fosse muito melhor ou que o belo apartamento de Valeria não tenha se tornado claustrofóbico devido a condição dela, mas certamente os aposentos de Chivu ilustram muito bem a personalidade conturbada de seu dono. Na verdade, é curioso notar como Iñárritu consegue extrair humanidade de personagens tão egoístas, mas o fato é que praticamente todos eles conseguem fugir da unidimensionalidade, muito também pelo talento dos atores.

Claramente o tema central de “Amores Brutos”, os conflitos familiares norteiam todos os personagens. Enquanto o embate entre irmãos permeia o primeiro e o último capítulo, o desgaste do relacionamento de um casal domina o segundo e o próprio Chivu, personagem principal do longa, vive um drama familiar provocado por uma decisão idealista tomada no passado. E é justamente por humanizar personagens que tomam decisões pouco palatáveis ao público como tentar seduzir a cunhada ou abandonar esposa e filha que o filme merece aplausos. Nas mãos de um diretor menos competente, poderíamos ter um resultado desastroso e maniqueísta. Da mesma forma, o nada sutil paralelo entre os personagens e seus cachorros merece destaque por realçar que, assim como seus animais de estimação, o ser humano nada mais é do que uma combinação entre personalidade e o ambiente que o cerca, podendo se transformar num animal dócil criado sob uma vida luxuosa ou num mero lutador de rinhas treinado para sobreviver mais um dia.

Tomemos como exemplo o delicado cachorro de Valeria, a famosa modelo vivida por Goya Toledo. Surgindo inicialmente bela e adorável enquanto carrega o status de jovem estrela, ela lentamente vai se transformando numa pessoa amargurada e derrotada pelo grave acidente que destruiu sua carreira, chegando a perder o controle emocional e a atacar Daniel, que havia deixado a esposa para viver com ela. Da mesma forma, seu cachorro inicialmente dócil vai definhando ao ver-se preso naquele assoalho escuro e repleto de ratos, completamente a mercê do destino. De certa forma, Daniel também está preso a ela, pois não consegue encontrar uma forma de reconstruir o relacionamento. Mesmo assim, os três conseguem superar o sofrimento físico e psicológico daquela situação e sobrevivem. A boa química entre Goya Toledo e Álvaro Guerrero é importante para o sucesso deste capítulo, tão pesado dramaticamente. Por isso, mesmo tensos pelo absurdo da situação, conseguimos torcer pelo sucesso do casal. Observe, por exemplo, como momentos antes dele arrombar a porta e encontrá-la desacordada, o plano baixo nos coloca quase que na posição do cachorro caso ele ali estivesse, como que torcendo para que o pior não tivesse acontecido. O plano final com o outdoor vazio em frente ao apartamento dela escancara a crueldade do mundo da moda e encerra o segmento sem fazer concessões.

Antes disso, somos apresentados a Octavio, personagem que abre a narrativa na citada perseguição. Interessado na cunhada e irritado pelas agressões físicas sofridas por ela, ele passa a bater de frente com o irmão Ramiro, que além de péssimo marido é também um péssimo pai. Engana-se, porém, quem acha que não existe algum traço de humanidade naquela família, pois ainda que o faça de forma questionável, é Octavio quem se preocupa em oferecer o básico para a criança, sob o julgamento de sua mãe (Adriana Barraza), que claramente privilegia Ramiro. O relacionamento conturbado com a mãe é inclusive um ponto em comum entre Octavio e Susana, já que a esposa de Ramiro não tem apoio algum da mãe alcoólatra (Dunia Saldívar). Despojado e nada contido, Bernal dá vida a Octavio e consegue evitar que o espectador tenha raiva dele, mesmo quando segue tentando conquistar a cunhada no velório do irmão, sem sucesso. Na realidade ela raramente corresponde aos flertes dele, ainda que tenha se relacionado sexualmente, como na sequência que realça as fotografias da família feliz em primeiro plano enquanto eles estão ao fundo deitados no chão. Este plano é importante por mostrar que até mesmo Octavio e Ramiro tiveram seus momentos felizes, assim como Susana e seu marido, o que explica a escolha do nome do filho após a morte do pai.

Octavio e seu cachorro sobrevivem ao acidente, mas se separam. E é então que entra o capítulo derradeiro e mais importante para compreender o misterioso e ambíguo personagem central de “Amores Brutos”, que alterna entre momentos de crueldade e frieza e outros de emoção e humanidade. Quando finalmente somos apresentados a história de Chivu, logo na abertura do terceiro capítulo, começamos a entender como aquele homem era capaz de assassinar alguém a sangue frio e, instantes depois, derramar lágrimas ao ler a notícia da morte da esposa abandonada num jornal. Ou então, como ele conseguia abrir a porta de um carro acidentado e se preocupar apenas com o dinheiro da vítima e em salvar seu cachorro, somente para em outro momento não conseguir conter o choro ao rever o álbum da família, realçando a face humana daquele homem julgado por seu passado guerrilheiro e pelo presente nas ruas. Certamente, o mérito desta composição tão complexa e tocante é de Emilio Echevarría, que exala sensibilidade em todos os momentos citados.

E se o ambiente e a forma como somos criados se refletem na construção de nossa personalidade, como esperar que o cachorro de Octavio fizesse algo diferente do que fez? Como julgar um animal criado pura e simplesmente para brigar até exterminar seu oponente? Quando ele naturalmente assassina todos os outros cachorros de Chivu, o mendigo se recusa a matá-lo, talvez por se identificar com Cofi e saber que ele é apenas o resultado da criação que teve, do ambiente que o cercava e dos treinamentos que recebeu. Sob este ponto de vista, reforça-se o belo paralelo entre os cachorros e os seres humanos, já que, como citado, os animais que cruzam a narrativa vivem vidas espelhadas com as de seus donos – e assim como Chivu, Cofi também tem seus momentos de carinho quando está ao lado deles. Como fez com o cachorro, Chivu também deixa de matar Luis (Jorge Salinas) e resolve dar uma lição nos irmãos antes de abandonar aquela vida e rumar para outros horizontes. Sua mudança de visual obviamente reflete esta intenção, deixando barba e cabelo para trás junto com o passado criminoso. O show de Chivu termina no tocante recado que deixa para a filha por telefone, onde escancara seu humanismo, suas falhas, qualidades e sentimentos. Ele e o cachorro encerram a narrativa solitários, num plano obscuro que realça como ambos destruíram todos ao seu redor.

Traçando um paralelo com os cachorros do título original para abordar conflitos familiares e a natureza ambígua do ser humano, Iñárritu cria um interessante painel que oscila entre a amargura e a esperança, demonstrando que podemos encontrar traços de humanidade mesmo onde só enxergamos raiva e rancor. Aquela esquina mudou a vida de todos os personagens e também o destino da carreira de Iñárritu. A diferença é que, no caso do talentoso diretor mexicano, a mudança não foi acidental.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2017 por Roberto Siqueira

A PRAIA (2000)

9 maio, 2017

(The Beach)

 

 

Videoteca do Beto #235

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Robert Carlyle, Tilda Swinton e Paterson Joseph.

Roteiro: John Hodge, baseado em romance de Alex Garland.

Produção: Andrew Macdonald.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um diretor em ascensão conhecido pela habilidade na abordagem de narrativas voltadas para o público jovem, um ator jovem, talentoso e igualmente em plena ascensão e um cenário paradisíaco num dos países mais exóticos do circuito turístico são os ingredientes que poderiam fazer de “A Praia” um grande sucesso de público e crítica. E se utilizo a palavra “poderiam” é por que o resultado, infelizmente, fica aquém do esperado, especialmente pelo roteiro pouco coeso que não sabe muito bem em que direção seguir, algo que nas mãos de um diretor nada enxuto como Boyle se torna um problema ainda maior.

Escrito por John Hodge, baseado em romance de Alex Garland, “A Praia” nos apresenta ao jovem Richard (Leonardo DiCaprio) que, numa viagem a Bangkok, encontra um sujeito estranho que lhe conta sobre uma misteriosa praia numa ilha antes de cometer suicídio e deixar o mapa do local. Após conversar com um casal de franceses, Françoise (Virginie Ledoyen) e Étienne (Guillaume Canet), os três decidem partir em busca da ilha e, ao chegarem lá, encontram uma sociedade alternativa que vive com suas próprias regras, sob a liderança de Sal (Tilda Swinton).

O início de “A Praia” não poderia ser mais promissor. Através de uma eficiente apresentação do personagem central e de suas motivações, que se torna ainda mais interessante na voz do próprio protagonista, Boyle logo de cara estabelece a linguagem jovial característica de sua filmografia e que tem tudo a ver com o clima da narrativa, conectando-se imediatamente com a fatia mais jovem e aventureira da plateia e mantendo esta conexão em boa parte do longa através do uso de músicas contemporâneas e até mesmo de recursos cinematograficamente pouco usuais como telas de videogame.

Esta direção histriônica transmite uma energia que faz bem ao filme, especialmente no início quando tanto o protagonista quanto o espectador estão excitados pela simples expectativa de chegar a mítica praia, tão famosa naquele universo diegético que até inspira mochileiros a pensarem nela como mais uma das muitas lendas urbanas comuns em tantos lugares do mundo. Este clima de aventura é importante para que o espectador se sinta como um dos viajantes que partem em busca do local misterioso, criando a empatia necessária para que ele sinta a praia como o próprio Richard, o que será vital quando os conflitos surgirem e o choque, inevitável, virar realidade.

O próprio Di Caprio exagera nas expressões em diversos instantes, o que é coerente com a intenção do diretor de criar esta atmosfera empolgante, repleta de adrenalina, como se a ilha e a própria praia fossem alucinógenos que abastecem a necessidade daquele jovem por aventuras. Por isso, quando cruza com turistas regulares que buscam apenas as praias comuns e as massagens tailandesas nas areias de Bangkok, Di Caprio lança um olhar de desprezo, como se aquilo fosse algo totalmente sem sentido para ele. O que Richard buscava era adrenalina e não relaxamento.

Aliás, a loucura provocada pelas drogas ou qualquer situação extrema é um tema recorrente na filmografia de Boyle, que muitas vezes ilustra as viagens mentais de seus personagens de maneira criativa, nos permitindo participar do processo ativamente, e aqui não é diferente. No entanto, é justamente quando se aprofunda demais nesta abordagem que o diretor perde a mão, no instante em que Richard enlouquece, já no segundo ato, quando a narrativa perde força enquanto ele se isola dos demais e vive sua loucura particular – ainda assim, existem acertos, como quando ele conversa sobre “O Perdedor” e seu rosto surge afundado nas sombras, realçando seu desequilíbrio momentâneo. Desnecessário também é o momento em que Richard alivia a dor do sueco ferido, numa ação incoerente com o personagem até então. Só que, apesar do roteiro irregular não cooperar, Di Caprio segura bem o papel e ajuda a salvar o longa do fracasso.

“A Praia” traz também uma gama de personagens periféricos interessantes, como o excêntrico Sr. Patolino, o “Perdedor”, que fala sobre a ilha e a praia misteriosa para Richard no início e os carismáticos franceses que cruzam o caminho dele. No entanto, o personagem mais interessante não é de carne e osso, mas tem vida própria e é o alvo de toda aquela jornada. Aumentando a expectativa por sua aparição através da trilha sonora empolgante que embala a viagem até ela e da aura mística que a cerca antes da primeira aparição, a praia não decepciona em nada quando surge aos olhos do espectador, sendo um verdadeiro deleite admirar aquele local extraordinário que não poderia fazer mais jus à fama que recebe. Captadas com perfeição pela fotografia de Darius Khondji, aquelas paisagens criam um visual arrebatador, que ganham contornos românticos nas muitas cenas noturnas em que fica evidente o uso da técnica conhecida como noite americana, notável por exemplo na linda cena do beijo entre Richard e Françoise.

O contraste entre a beleza daquele lugar e as grandes cidades fica evidente quando eles voltam a Bangkok, com a câmera agitada, o som dos carros e pessoas transitando e o alto volume da trilha sonora causando uma sensação incômoda que reflete o que os personagens sentiam distantes da praia. Até por isso, os premiados moradores daquele paraíso criaram um código rígido de regras que buscava preservar a natureza mítica do local, o que também acaba gerando problemas pela forma como este código é conduzido por sua líder – voltaremos a ela em instantes.

Mas nem só de beleza vive “A Praia” e descobrimos isso de maneira traumática através das fortes imagens que surgem repentinamente após um dos integrantes da comunidade ser atacado por um tubarão. O banho de sangue, exposto propositalmente por Boyle, demonstra que a natureza pode ser bela, mas igualmente cruel. Mais cruel ainda, no entanto, é a postura do restante do grupo que trata o companheiro ferido com desprezo, numa postura até mesmo pouco realista diante da gravidade da situação, que estereotipa pessoas que querem viver apenas da natureza como selvagens sem sentimento, o que é bem questionável. Por outro lado, quando eles decidem largar o ferido no meio das árvores para não sofrerem mais com seus gemidos, de certa forma estão agindo como boa parte da sociedade que prefere não ver os problemas do local onde vive, apoiando, por exemplo, a remoção de pessoas carentes, mendigos e moradores de rua de forma brutal pelo Estado (num processo cruelmente chamado de “higienização”), para que possa transitar livremente e pensar que tais problemas sociais não existem.

Esta postura impassível que muitos esperam do Estado nas grandes cidades aqui é representada pela figura de Sal, a líder da comunidade vivida corretamente de maneira fria e rígida por Tilda Swinton. Através do olhar gélido e da voz firme, ela impõe respeito como alguém extremamente controladora, que adota uma postura ditatorial para tentar preservar seu paraíso quase particular, provocando calafrios naqueles que quebram esta regra sagrada, como fica evidente no reencontro de Richard com os compatriotas para quem havia entregue o mapa da ilha, no qual ele surge com o rosto sob tons vermelhos, ilustrando seu inferno astral e o pecado que havia cometido. Só que, como saberemos na boa conclusão da narrativa, nenhum paraíso resiste a esta postura controladora e extremista. Assim, tanto Tilda quanto Di Caprio encerram muito bem este conflito de ideias no confronto final entre os personagens, que escancara o lado podre da líder do grupo e destrói de vez o sonho de viver na mítica praia. E é justamente na destruição deste sonho que “A Praia” escorrega.

Partindo de um ponto inicial repleto de boas ideias, o longa dirigido por Danny Boyle escorrega em diversos detalhes e acaba soando moralista demais, quase que julgando a intenção daquelas pessoas de viverem afastados do mundo moderno como algo errado e impossível de se praticar. Uma pena.

Texto publicado em 09 de Maio de 2017 por Roberto Siqueira

A FUGA DAS GALINHAS (2000)

7 março, 2017

(Chicken Run)

 

 

Videoteca do Beto #234

Dirigido por Peter Lord e Nick Park.

Elenco: Vozes de Mel Gibson, Julia Sawalha, Miranda Richardson, Tony Haygarth, Jane Horrocks, Imelda Staunton, Benjamin Whitrow, Lynn Ferguson, Timothy Spall, Phil Daniels e John Sharian.

Roteiro: Karey Kirkpatrick.

Produção: David Sproxton, Peter Lord e Nick Park.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Verdadeira lenda da animação, o inglês Nick Park (detentor de 3 prêmios Oscar por curtas) resistiu por alguns anos às ofertas dos grandes estúdios para dirigir um longa-metragem, até que finalmente aceitou levar para as telonas o ótimo roteiro de “A Fuga das Galinhas”. Ao lado do norte-americano Peter Lord, ele deu vida com sua criatividade peculiar e técnica ousada a uma história envolvente, interessante e que agrada crianças e adultos na mesma proporção.

Escrito por Karey Kirkpatrick, “A Fuga das Galinhas” nos leva ao cotidiano de Ginger (voz de Julia Sawalha), uma galinha que tenta encontrar alguma forma de fugir do galinheiro onde vive aprisionada ao lado de diversas outras companheiras de espécie. Após inúmeras tentativas frustradas, ela conhece o galo Rocky (voz de Mel Gibson), que chega voando ao local e reaquece as esperanças de todos, ainda que o machucado provocado em seu pouso lhe impeça de ensinar as demais a voar. Os planos ganham ares dramáticos quando a Sra. Tweedy (voz de Miranda Richardson), a dona do galinheiro, decide mudar os rumos da administração local, afetando diretamente a vida de todas galinhas.

Antes de mais nada é muito importante contextualizar o lançamento de “A Fuga das Galinhas”. Numa época já dominada por produções inspiradas na revolução provocada por “O Rei Leão” e, principalmente, “Toy Story”, apostar numa técnica antiga, trabalhosa e que parecia fadada a extinção como o stop motion era algo extremamente corajoso e arriscado. No entanto, a Dreamworks sabia que seus riscos diminuiriam consideravelmente se pudesse contar com o talento de Park, o que fica comprovado já nos primeiros instantes do longa, nos quais a qualidade da animação chama a atenção pela riqueza de detalhes e revela que esta técnica ainda poderia ser eficiente e divertida.

Muito por conta do tema abordado, que remete a filmes clássicos de prisão como “Fuga de Alcatraz”, “Fugindo do Inferno” e até mesmo “A Lista de Schindler”, o longa tem boa parte de suas cenas à noite e aposta no uso das sombras empregado pelos diretores de fotografia Tristan Oliver e Frank Passingham para criar a atmosfera pretendida. Cientes disso, os diretores não hesitam em recriar o clima dos campos de concentração nazistas, evidente no plano geral do galinheiro que revela sua estrutura, nos apertados poleiros em que elas dormem, no som da bota da dona da granja que intimida as galinhas e, claro, quando uma delas é sacrificada simplesmente por não produzir mais ovos, numa cena em que o visual e a trilha sonora triste de Harry Gregson-Williams e John Powell realçam o peso do que vemos. Aliás, é cruel pensar que muitas vezes é desta forma mesmo que produtores agem para manter a rentabilidade de seus negócios, mas divago.

A riqueza de detalhes do design de produção de Phil Lewis não surge apenas na concepção do galinheiro, sendo notável também na decoração da casa onde a Sra. Tweedy mora, um local cinza e sem vida que realça sua alma vazia, assim como as roupas que ela utiliza imaginadas pela figurinista Sally Taylor. E se o visual é encantador, o ritmo empregado pelos montadores Robert Francis, Tamsin Parrye e Mark Solomon mantém a narrativa sempre envolvente, oscilando entre as tentativas de fuga, os bons diálogos entre Ginger e Rocky e o cotidiano dos donos do galinheiro, retratados como cruéis opressores justamente por estarmos acompanhando tudo sob o ponto de vista das galinhas. A crítica ao progresso encontra eco também na máquina que permitirá a proprietária maximizar seus lucros ao passo em que acelerará a matança das galinhas, assim como no dilema que acomete quase todas elas e que pode se aplicar a inúmeros seres humanos: obedecer o sistema e caminhar lentamente para a morte ou tentar subvertê-lo e ser feliz fazendo o que realmente gosta?

Há também espaço para o humor, é claro, como na divertida sequência de treinamento das galinhas, novamente sublinhada pela excelente trilha sonora, nas tentativas frustradas de fuga durante o ato inicial e nos instantes em que a montagem é crucial para que a piada funcione, como quando o Sr. Tweedy (voz de Tony Haygarth) diz que “elas não são organizadas” e, no plano seguinte, observamos a reunião das galinhas. St. Tweedy, aliás, que por si só já é um personagem engraçado por conta de sua passividade diante da esposa e sua incompetência ao cuidar das galinhas.

Ganhando vida na voz de Julia Sawalha, Ginger transmite seu idealismo através do brilho no olhar criado pelos animadores e também pela forma como a atriz dubla a personagem, demonstrando empolgação quando fala de seus planos e frustração ao descobrir a verdade sobre Rocky e evidenciar o conflito provocado pelas diferentes personalidades deles. Surgindo em cena já com o famoso grito de seu dublador, o galo Rocky encarna alguns traços da persona de Mel Gibson a época, realçando o lado galã ao mesmo tempo que soa debochado em diversos instantes, criando a aura de bon vivant, sem por isso deixar de novamente surgir como o libertador de um povo – ainda que aqui isto não seja exatamente uma verdade. Outro aspecto interessante que surge após sua aparição é a diferença cultural entre norte-americanos e britânicos, evidente nos diálogos entre Rocky e o veterano de guerra Fowler (voz de Benjamin Whitrow) e que vai muito além da diferença entre o charmoso sotaque britânico e a despojada forma de falar da terra do Tio Sam.

Após focar no relacionamento entre ambos, a narrativa nos leva ao inevitável conflito quando Rocky revela sua mentira. Observe então como, após descobrir que ele não voa, as galinhas surgem tristes, banhadas pela chuva e enquadradas num plano contra-plongè que as diminui em cena, o que, somado a trilha melancólica, transmite perfeitamente a decepção de todos naquele instante. Assim, o clímax começa a ser construído quando as galinhas percebem que não precisam dele para arquitetar a fuga e salvar as próprias vidas, ao contrário do que ocorrera instantes antes quando Ginger é levada para a nova máquina de fazer tortas e consegue escapar com a ajuda de Rocky.

Nesta sequência muito bem dirigida, os diretores nos levam através da máquina num ritmo alucinante, nos permitindo conhecer o funcionamento dela ao mesmo tempo em que nos faz torcer pelo sucesso do casal. Depois, tanto a criativa sequência de produção quanto a de apresentação do avião construído pelas galinhas são visualmente belas e conduzidas com dinamismo, empolgando o expectador e preparando-o para a esperada fuga, que é igualmente interessante e entrega exatamente o que prometeu.

A piada final abordando a velha questão do ovo e da galinha é a pitada final de bom humor que fecha este filme divertido, inteligente e ousado por apostar numa técnica diferenciada numa época em que muitos poderiam torcer o nariz por acha-la ultrapassada. Felizmente, o cinema sempre pode resgatar o passado com competência.

Texto publicado em 07 de Março de 2017 por Roberto Siqueira

OSCAR 2000: BELEZA AMERICANA X MAGNÓLIA

24 fevereiro, 2017

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1999 (Premiação em 2000), certamente uma das safras mais interessantes e de alto nível das últimas décadas.

Inquestionavelmente, “Beleza Americana” é um filme acima da média. Além de muito bem dirigido por Sam Mendes, o longa conta ainda com a excepcional atuação do talentoso Kevin Spacey e merece, sem dúvida nenhuma, todo o reconhecimento deste mundo. É também um filme com o qual me identifico bastante, pois assim como Lester Burnham, também não suporto a vida de aparências do mundo moderno. Mas existe um problema na vida de “Beleza Americana” quando falamos de prêmios – no caso, o OSCAR. O ano de 1999 presenteou os cinéfilos não apenas com uma, mas com várias obras destas que ficam marcadas e serão lembradas eternamente, como “Matrix”, “O Sexto Sentido” ou “De olhos bem fechados”, o último trabalho do gênio Kubrick.

Dentre elas, temos ainda duas obras-primas que marcaram uma geração: “Clube da Luta”, de David Fincher, e especialmente “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, dois longas melhores que o longa estrelado por Spacey e com os quais também tenho grande identificação com o tema central, respectivamente, o desapego material e o acaso como agente do nosso destino. Qualquer um deles mereceria meu voto naquele ano, mas infelizmente não posso votar nos dois filmes e, como tenho que fazer uma opção, fico com o filme de Paul Thomas Anderson.

Porque “Magnólia” é melhor?

Apesar da qualidade inegável de “Beleza Americana” (e de outros filmes do ano) e da minha empatia com o tema abordado, não posso deixar de reconhecer e admirar o trabalho perfeito realizado em “Magnólia”, desde a competente direção, passando por toda a parte técnica e pelo talentoso e inspirado elenco. Além disso, “Magnólia” ainda é destes filmes polêmicos, que levantam múltiplas interpretações e abrem margem para discussões, o que particularmente é algo que adoro. Por tudo isso, apesar de reconhecer a excelente safra de 1999, que além dos filmes citados, contava ainda com obras como “O Informante”, “À Espera de um Milagre” e “Toy Story 2”, o meu filme favorito do ano é mesmo “Magnólia”.

E pra você, qual o melhor filme de 1999 e por quê?

Um abraço e bom debate.

beleza-americanamagnoliaTexto publicado em 24 de Fevereiro de 2017 por Roberto Siqueira

TOY STORY 2 (1999)

31 janeiro, 2017

(Toy Story 2)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #233

Dirigido por John Lasseter, Ash Brannon e Lee Unkrich.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Don Rickles, Jim Varney, Kelsey Grammer, John Ratzenberger, Wallace Shawn, Annie Potts, John Morris, Laurie Metcalf, Estelle Harris, R. Lee Ermey, Andrew Stanton, Joe Ranft, Rodger Bumpass, Frank Welker e Robert Goulet.

Roteiro: Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin e Chris Webb, baseado em argumento de John Lasseter, Pete Docter, Ash Brannon e Andrew Stanton.

Produção: Karen Robert Jackson e Helene Plotkin.

toy-story-2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos após revolucionar a animação no cinema e inaugurar a quase impecável filmografia da Pixar, era inevitável que o mega sucesso de público e crítica “Toy Story” ganhasse uma continuação. O grande temor, no entanto, era que esta continuação fosse simplesmente uma mera desculpa para ganhar dinheiro, desperdiçando o enorme potencial dramático que o material original continha. Felizmente, a Pixar deixou claro desde então que, por mais que erre aqui ou ali, sua capacidade de acertar é infinitamente maior, entregando uma continuação admirável, superior tecnicamente e nivelada em termos narrativos ao seu antecessor.

Escrito a oito mãos por Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin e Chris Webb, “Toy Story 2” nos leva novamente ao quarto de Andy (voz de John Morris), onde seus divertidos brinquedos se preparam para o acampamento de verão em que Woody (voz de Tom Hanks) mais uma vez acompanharia seu dono. No entanto, após sofrer um acidente e ter seu braço direito rasgado, Woody é deixado para trás e acaba sendo sequestrado por um colecionador de brinquedos, levando Buzz (voz de Tim Allen), Rex (voz de Wallace Shawn) e companhia a partirem em busca de seu resgate.

Impecável tecnicamente, o trabalho dos animadores da Pixar se destaca logo nos primeiros instantes, numa sequência de abertura inspirada que nos leva pela pequena aventura de Buzz no espaço e culmina num final muito criativo, já prendendo a atenção da plateia desde o início e resgatando a relação de cumplicidade entre aqueles queridos personagens e o espectador. Claramente trazendo uma evolução gráfica em relação ao filme anterior, a qualidade da animação impressiona pela riqueza de detalhes, como quando os olhos de Rex se movem quando a mãe de Andy (voz de Laurie Metcalf) recolhe os brinquedos para colocar na venda de usados, refletindo sua aflição ao sentir a aproximação dela.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Sharon Calahan traz uma abordagem mais sombria em alguns momentos ao adotar cores escuras, como no clímax no aeroporto ou no duelo entre Buzz e o Imperador Zurg (voz de Andrew Stanton, que viria a dirigir filmes da Pixar depois). Além disso, acerta em cheio na escolha do sépia para realçar a aura nostálgica do passado de Woody (e do western de maneira geral), contrastando com o colorido do quarto de Andy e o dourado que embala a sequência mais emocionante do filme (voltaremos a ela em instantes). Já a montagem de Edie Bleiman, David Ian Salter e Lee Unkrich, além de imprimir um ritmo empolgante à narrativa, acerta ainda em momentos delicados e elegantes, como a transição do desenho do “homem-galinha” da tela de um brinquedo para o homem real.

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Transitando muito bem entre a comédia e a melancolia, os diretores John Lasseter, Ash Brannon e Lee Unkrich adotam a mencionada abordagem mais sombria nesta continuação, trazendo novos personagens e elementos narrativos que fortalecem a trajetória de Woody, Buzz e os demais carismáticos brinquedos, tornando-os ainda mais próximos de todos nós. Apostando no infalível sentimento nostálgico que os brinquedos evocam nos adultos e em inspiradas gags que divertem as crianças, o longa não erra em praticamente nada nos aspectos narrativos e temáticos, graças a condução dos diretores e a qualidade do roteiro.

Entre os inúmeros momentos engraçados, gosto particularmente daquele em que o porquinho (voz de John Ratzenberger) troca de canais rapidamente para achar o “homem-galinha” com o Rex desesperado ao seu lado. A sequência na loja de brinquedos também é muito inspirada e aproveita praticamente todas as oportunidades que a situação oferece para nos fazer rir, passando pelo corredor do Buzz Lightyear, o imperador Zurg e principalmente na hilária passagem pelas Barbies. Aqui, aliás, acontece uma das diversas referências aos grandes clássicos do passado no plano que realça o T-Rex no retrovisor do carro exatamente como ocorria em “Jurassic Park”. Entre outras referências, temos ainda os arremessos com o pai em “Campo dos Sonhos”, as notas musicais da trilha de “2001” e a óbvia referência à “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca”. Vale destacar também as sequências de ação muito bem conduzidas pela câmera ágil dos diretores, como no empolgante ato final no aeroporto, desde quando passarmos junto com os personagens pelo check-in e iniciarmos a viagem pelas esteiras ao lado das malas até o dinâmico trecho que se passa na pista e no avião.

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Só que, curiosamente, as cenas mais marcantes de “Toy Story 2” não são recheadas de energia. Um verdadeiro capitulo a parte dentro do filme, a aparição do velhinho que conserta Woody é fabulosa, trazendo à tona um personagem carismático dos famosos curtas da Pixar de maneira peculiar e apaixonante, assim como a cena mais tocante do longa, que sequer envolve diretamente o protagonista. Exalando sensibilidade e delicadeza, o pequeno clipe que narra a história de Jessie (voz de Joan Cusack) é comovente e já anunciava ainda em 1999 a enorme capacidade da Pixar de tocar o espectador em poucos minutos (algo que voltaria a ocorrer, por exemplo, em “Up – Altas Aventuras”), além de ser visualmente belíssimo com seus tons dourados que remetem a melhor época da vida da boneca contrastando com o tom melódico e triste da linda canção que embala a sequência.

E já que mencionei a cowgirl, vale dizer que a introdução de Jessie, Bala no Alvo (voz de Frank Welker) e Pete (voz de Kelsey Grammer) é extremamente eficiente e acrescenta muito a narrativa, trazendo elementos importantes para compreendermos o passado e a história de Woody e engrandecendo-o ainda mais como personagem. Remetendo aos tempos áureos do western e novamente abordando o conflito de gerações e a transição da época dos caubóis para a época dos astronautas no imaginário infantil após a corrida espacial, o conflito entre o velho e o novo também ganha mais força pela forma nostálgica que somos apresentados a história de Woody, através de fitas de videocassete, toca discos e brinquedos já anacrônicos, que soam como doces lembranças na memória dos espectadores mais velhos. Além disso, o roteiro encontra ainda um pequeno espaço para enviar uma mensagem de respeito as diversidades ao mostrar como Woody é simplesmente deixado de lado após ter seu braço rasgado e perder sua “perfeição”, reencontrando brinquedos abandonados que viveram seus dias de glória num passado não muito distante e sentindo na pele o quanto a rejeição é dolorosa.

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A música cantada por Wheezy (voz de Robert Goulet) encerra “Toy Story 2” no mesmo clima alegre que o primeiro filme encerrava, mas desta vez temos ainda os divertidos erros de gravação que, além de revelar a já latente criatividade da Pixar, também nos aproxima mais daqueles personagens ao torna-los críveis dentro do que é possível numa animação – e de quebra, revela bastidores das produções hollywoodianas de maneira bem humorada, como ao mostrar Pete paquerando as Barbies gêmeas e as brincadeiras de Woody com Buzz. Aliás, o próprio conceito de erros de gravação numa animação não deixa de ser uma situação hilária.

Resgatando a aura nostálgica que tornou “Toy Story” uma animação tão especial, “Toy Story 2” acerta ao trazer novidades para a trajetória do caubói e do astronauta mais queridos dos anos 90, preparando o terreno para seu terceiro e derradeiro capítulo que, como sabemos, seria responsável por uma verdadeira comoção em toda uma geração.

toy-story-2-foto-2Texto publicado em 31 de Janeiro de 2017 por Roberto Siqueira

Balanço de 2016

9 janeiro, 2017

Se 2015 foi até agora o pior ano da história do blog em termos de produção, 2016 marcou o início da recuperação. Em termos de críticas divulgadas, a recuperação foi bem lenta, especialmente por que tive pouco tempo para a escrita, até por que viajei demais, tanto a trabalho quanto a lazer (o que é muito bom). Além disso, o ano marcou minha consolidação em meu novo desafio profissional e minha reaproximação de amigos e familiares que andava tendo pouco contato, além da ressurreição definitiva do meu time de coração que “roubou” tempo nas quartas e domingos da caminhada para o eneacampeonato nacional. O blog pagou o preço, infelizmente, e de cara a missão de 2017 é equilibrar melhor tudo isso.

Por outro lado, consegui reduzir consideravelmente os inúteis debates via redes sociais sobre aspectos políticos e sociais e passei a focar este tipo de discussão mais entre pessoas próximas, o que é bem mais interessante e produtivo. Estas mudanças (e a santa Netflix!) me permitiram aumentar consideravelmente o número de filmes assistidos durante o ano, estabelecendo meu novo recorde pessoal e quebrando uma marca que já durava 5 anos, o que é motivo de grande satisfação e orgulho diante de tantos desafios.

Assim como em quase todos os anos, os números do site não espelham a minha ausência, mantendo um bom ritmo de crescimento no número de acessos e comentários e trazendo novos e queridos leitores a todo instante. Aparentemente, o Cinema & Debate está cada vez mais consolidado, dependendo apenas de mim mesmo para decolar.

Agora registrando meu novo recorde, 2016 me permitiu assistir 169 filmes (contra 167 em 2011), alguns no cinema e muitos graças a citada Netflix. Como de costume, conto cada filme uma vez só, mesmo que tenha repetido alguns deles durante o ano. Desta vez, tive a felicidade de apresentar clássicos para o Arthur e também para o Raul, com destaque para a trilogia “De Volta para o Futuro”, que obviamente encantou ambos por razões diferentes, além de “Fantasia”, “Fantasia 2000” e dos divertidos “Jumanji”, “O Grinch” e “Labirinto – A magia do tempo” (com o eterno David Bowie, que infelizmente nos deixou). No cinema não tivemos tanta sorte como em 2015, assistindo filmes como “O Bom Dinossauro” e “Pets – A vida secreta dos bichos” (não conseguimos assistir “Rogue One”). Entre os bons filmes que assisti na Netflix, destaco “7 años”, “Amanda Knox”, “A ponta de um crime”, “ARQ”, “Hardcore: Missão extrema”, “Blue Jay”, “Ilegal” e “Cartel Land” (e já deixo uma dica que assisti em 2017, “O invasor americano”).

Em termos de críticas meu desempenho evoluiu bem pouco, mas ao menos consegui divulgar 17 críticas e praticamente concluir os filmes do ano de 1999 da Videoteca, faltando apenas uma crítica que escrevi e não divulguei por conta de uma fratura na mão que me impediu de captar as imagens como gostaria (na realidade fraturei 4 ossos da mão direita e sigo em recuperação).

Mais uma vez, espero que o novo ano seja melhor para o Cinema & Debate e principalmente para o mundo, tendo em vista que 2016 marcou um retrocesso poucas vezes visto em tempos recentes até mesmo no continente que é referência para mim em termos de sociedade e qualidade de vida (claro que me refiro a Europa social democrática). Para continuar a retomada do Cinema & Debate, a compreensão e o amor da minha família, o apoio dos amigos e o carinho de vocês leitores continuarão sendo meus pilares.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2016:

– 17 críticas divulgadas na Videoteca do Beto.

– 1 Filme Comentado transformado em crítica (“Rocky Balboa”).

– Uma Semana Especial (“Especial Rocky Balboa”).

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2016 foram:

5° lugar = “Um Estranho no Ninho

4° lugar = “2001 – Uma Odisséia no Espaço

3° lugar = “As duas faces de um crime

2° lugar = “A Missão

1° lugar = “Um Sonho de Liberdade

Desta vez temos apenas uma novidade no ranking e já em terceiro lugar. Os dois primeiros se mantém.

E agora, a lista dos 169 filmes assistidos em 2016 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2017 seja um ano cinematográfico para todos nós!

 

balanco-de-2016

Texto publicado em 09 de Janeiro de 2017 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO I: A AMEAÇA FANTASMA (1999)

30 setembro, 2016

(Star Wars: Episode I – The Phantom Menace)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #232

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, voz de Ahmed Best, Ian McDiarmid, Oliver Ford Davies, Hugh Quarshie, Keira Knightley, Pernilla August, voz de Anthony Daniels, voz de Kenny Baker, voz de Frank Oz, Samuel L. Jackson, Ray Park, Silas Carson, Terence Stamp, voz de Andy Secombe, voz de Brian Blessed e voz de Lewis Macleod.

Roteiro: George Lucas.

Produção: Rick McCallum.

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o famoso letreiro começou a subir a tela escura dos cinemas 16 anos depois de “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” encerrar a primeira trilogia a empolgação foi inevitável para os milhões de fãs espalhados pelo mundo. Afinal de contas, a saga criada por George Lucas é um dos maiores símbolos do fascínio que a sétima arte pode provocar nas pessoas. No entanto, com o desenrolar do longa a alta expectativa se transforma e, nos casos mais graves, acaba revertendo-se em decepção, ainda que “A Ameaça Fantasma” cumpra seu papel principal e prepare o terreno para os longas seguintes, o que é pouco para transformá-lo num grande filme, mas o suficiente para salvá-lo.

Novamente escrito por George Lucas, que também retornava a direção, “Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma” adota a estrutura de prequel para nos levar ao início da história contada nos três filmes lançados anteriormente, quando a Federação Comercial bloqueia as rotas para o planeta Naboo e os Jedis Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) são enviados pela rainha Amidala (Natalie Portman) para fazer um acordo, mas o plano não sai como previsto e eles acabam se refugiando no distante planeta Tatooine, onde descobrem um garoto especial que parece ser o escolhido para trazer o equilíbrio para a Força. Seu nome é Anakin Skywalker (Jake Lloyd).

Analisando friamente, a missão de “A Ameaça Fantasma” não era nada fácil, já que, por mais inspirada que fosse a abordagem de George Lucas, resgatar uma saga adorada por milhões de pessoas obviamente poderia provocar grandes decepções, tamanha a expectativa criada tantos anos depois. No entanto, inspiração não é exatamente a palavra mais adequada para descrever o roteiro de Lucas, que constrói uma narrativa rasa e aposta todas as fichas na parte visual para ter sucesso. Ainda assim, o longa traz momentos bem interessantes ao nos permitir conhecer a origem de personagens tão queridos como C-3PO (voz de Anthony Daniels), R2D2 (voz de Kenny Baker) e o próprio Obi-Wan, além de pavimentar o caminho da construção do arco dramático de um dos personagens mais icônicos da história do cinema.

Outro aspecto interessante do roteiro (e de toda a saga, aliás) são as articulações políticas e seu impacto na sociedade, que escancaram a alegoria que “Star Wars” claramente representa e que muitos fãs parecem ignorar. Por outro lado, o desnecessário conceito dos midi-chlorians é bem questionável, soando como um recurso de última hora de Lucas para justificar certas escolhas, numa espécie de comprovação científica de algo intangível, como a indicação de que Anakin teria potencial para tornar-se um Jedi mais poderoso até do que Yoda, o que também justificaria a relutância dos Jedis em treiná-lo e desenvolver sua capacidade, percebendo que todo este poder poderia se transformar em algo trágico se canalizado de forma errada.

Para delírio dos fãs, aliás, os Jedis impõem respeito logo na abertura de “A Ameaça Fantasma”, desfilando golpes enquanto fogem do planeta Naboo. Sempre sereno e transmitindo a habitual virilidade, Liam Neeson encarna Qui-Gon com naturalidade e forte presença na tela, o que torna sua morte ainda mais surpreendente, especialmente por representar o fim da linha para um ator de seu calibre na saga, mas ao menos a cena serve para confirmar que Obi-Wan está pronto, o que teria enorme importância nos outros episódios, especialmente por que caberia a ele a missão de treinar o promissor Anakin. E por falar em Obi-Wan, Ewan McGregor também se sai bem como o jovem Jedi, assumindo um papel de grande responsabilidade sem sentir o enorme peso do personagem que vive e criando empatia tanto com Qui-Gon quanto com Anakin.

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Mesmo criança, Anakin já desponta como alguém confiante e destemido, muito também por conta da boa atuação de Jake Lloyd. À vontade no papel de um verdadeiro mito, Lloyd consegue transmitir características importantes na formação da personalidade de Anakin, com suas expressões marcantes e seu jeito questionador aliando-se à coragem e a sua curiosidade e sede de aprender. Obviamente, uma personalidade tão forte poderia ser trabalhada de forma positiva ou negativa e o restante da saga se encarregaria de demonstrar isso. No entanto, sua participação decisiva no confronto espacial no clímax da narrativa realça a importância do personagem e o status de lenda que ele alcançaria muito em breve, para o bem e para o mal. Neste sentido, é louvável que Lloyd consiga transmitir empatia mesmo vivendo uma espécie de embrião de um dos maiores vilões da história. E assim como ocorre em outros momentos da saga, Lucas insere pitadas de conceitos inspirados no cristianismo ao trazer a mãe de Anakin afirmando que ele não tem pai, numa clara alusão ao messias.

Entre os destaques do elenco, vale citar ainda a amável Natalie Portman que empresta doçura e carisma a Padmé, especialmente quando conversa com o menino Anakin, contrastando com suas rígidas expressões na pele da suposta rainha Amidala – e a revelação de que Padmé na realidade é a rainha não surpreende devido a maneira pouco cuidadosa que Lucas trabalha a questão e pela forma que ela se comporta diante de Anakin, indicando a reviravolta através de diálogos e gestos que demonstram sua autoridade e sabedoria. Ian McDiarmid também transmite autoridade em seu olhar e suas expressões faciais na pele de Palpatine, que articula sua indicação para determinado cargo importante e evidencia seu poder de persuasão que seria crucial nos outros episódios – repare também como quando os Jedis comentam que os Siths sempre surgem em dois e questionam se quem teria sido destruído seria o mestre ou o aprendiz a câmera imediatamente foca em Palpatine, sugerindo sua conexão com eles.

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Diante de tantos personagens interessantes é realmente uma pena que Lucas tenha apostado novamente no desnecessário alívio cômico. Assim, logo no início somos apresentados ao personagem que quase arruína toda a experiência de assistir “A Ameaça Fantasma”. Com sua voz irritante e seu comportamento extremamente infantil, Jar Jar Binks (voz de Ahmed Best) não agrega em momento algum do longa, incomodando constantemente o espectador pela quebra de ritmo e de clima que suas intervenções representam. Um exemplo claro ocorre na conversa durante um jantar na casa de Anakin sobre a situação dos escravos e o sonho do jovem garoto de libertar aquele povo, repentinamente interrompida pelo comportamento de Jar Jar Binks, o que supostamente era para ser engraçado, mas acaba soando totalmente deslocado e sem propósito.

No entanto, se a falta de criatividade do roteiro e a presença de Jar Jar Binks não conseguem arruinar a experiência, muito se deve obviamente à força dos personagens e do universo criado por Lucas nos longas anteriores, mas é inegável também que a qualidade visual de “A Ameaça Fantasma” contribui bastante para salvá-lo. Particularmente preocupado em apresentar ao mundo as maravilhas da ILM, Lucas aproveita todo o aparato tecnológico que tem a disposição para explorar os planetas imaginados pelo design de produção de Gavin Bocquet e que ganham vida com os excepcionais efeitos visuais, nos transportando para aqueles locais e criando sequências visualmente marcantes, que chamam a atenção também pelo contraste entre os tons azulados adotados pelo diretor de fotografia David Tattersall no espaço e os tons quentes no senado e no árido planeta Tatooine, que por sua vez destoam do festival de cores que dominam Naboo, graças também aos figurinos escolhidos por Trisha Biggar, que mantém o padrão mais sóbrio na capital, apostando em roupas mais exóticas em Naboo e em roupas mais velhas e desgastadas em Tatooine, demonstrando as diferenças entre eles. Este contraste também se manifesta nas casas simples que dominam o deserto de Tatooine e nos enormes prédios que formam o skyline da capital, refletindo bem as desiguais condições de vida impostas pelo Império e que dão margem para diversas análises sócio-econômicas e políticas da alegoria que “Star Wars” representa.

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Colaborando nesta ambientação, o igualmente competente design de som se destaca tanto nos momentos de forte impacto como explosões e tiroteios quanto pela criatividade e atenção aos detalhes que compõem os pequenos e sensíveis efeitos sonoros criados para equipamentos como os utilizados na corrida e personagens como a dupla Sebulba (voz de Lewis Macleod) e Watto (voz de Andy Secombe) – repare o som da batida das asas dele, por exemplo. Já a trilha sonora do mestre John Williams nos lembra dos longas anteriores ao marcar presença constante, sublinhando diversos momentos com precisão e conferindo uma aura épica a batalha final. Da mesma forma, a montagem da dupla Ben Burtt e Paul Martin Smith homenageia a primeira trilogia ao utilizar fades, sendo muito importante também em momentos chave como a batalha onde alterna entre o espaço, Naboo e o “truelo” de sabres de luz num ritmo sempre interessante ou a empolgante corrida na qual alterna entre os diversos competidores e a plateia, neste que certamente é um dos momentos mais inspirados da direção de Lucas.

Presenteando os fãs com alguns momentos marcantes como o citado “truelo” de sabres de luz entre dois Jedis e o lorde Sith Darth Maul vivido de maneira discreta por Ray Park, Lucas se destaca especialmente na batalha final, nem tanto pelo conflito ocorrido em terra firme, mas especialmente pela enérgica batalha espacial, repleta de movimentos de câmera interessantes que nos jogam pra dentro do confronto – e repare como nem mesmo no momento mais tenso da narrativa Jar Jar Binks dá sossego ao espectador, com suas gags nada inspiradas que só servem para desconcentrar a plateia. Novamente, Lucas encerra a narrativa com uma festa, evidenciando que a estrutura da nova trilogia traria similaridades com a anterior (já que o episódio IV também terminava com uma festa) e realçando sua preocupação em jogar o espectador pra fora da sala de projeção com a sensação de alegria, ainda que neste caso ela possa soar falsa e não resistir ao tempo – e felizmente este desfecho artificialmente alegre não se repetiria, cedendo espaço para um tom mais sombrio que lentamente dominaria a nova trilogia.

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Apesar de ter seus bons momentos, “A Ameaça Fantasma” é claramente prejudicado pelo erro de tom na abordagem de Lucas, especialmente quando Jar Jar Binks entra em cena com seu humor descabido e nada inspirado. A infantilização da série já anunciada em “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” através dos ewoks ainda persistia aqui. Por tudo isso, “A Ameaça Fantasma” até funciona como um filme de preparação para a construção da mitologia. O problema é que em 1999 ela já estava formada no imaginário de muita gente, o que não impediu muitos fãs de se deliciarem ao verem seus queridos personagens na telona – em muitos casos, pela primeira vez. 

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma-foto-2Texto publicado em 30 de Setembro de 2016 por Roberto Siqueira

O SEXTO SENTIDO (1999)

12 setembro, 2016

(The Sixth Sense)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #231

Dirigido por M. Night Shyamalan.

Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg, Peter Anthony Tambakis, Glenn Fitzgerald, M. Night Shyamalan e Bruce Norris.

Roteiro: M. Night Shyamalan.

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Barry Mendel.

o-sexto-sentido[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Elogiadíssimo e responsável por colocar o nome de M. Night Shyamalan no mapa, “O Sexto Sentido” surgiu como um sopro de criatividade num gênero desgastado e carente de bons filmes no final dos anos 90. Apesar do sucesso de longas como “A Bruxa de Blair” e “Pânico”, o fato é que faltava uma obra deste quilate, capaz de provocar calafrios e deixar a mente do espectador borbulhando ao final da sessão diante da surpreendente reviravolta que o fez tão famoso. Mas afinal toda esta repercussão era merecida ou, passados tantos anos, uma revisão poderia constatar que houve certo exagero?

Escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, “O Sexto Sentido” narra a delicada relação entre o Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis), um respeitado psicólogo que após um importante incidente passa a sentir-se mais distante da esposa Anna (Olivia Williams), e seu paciente, o jovem Cole (Haley Joel Osment) que, atormentado por supostas alucinações, representa a chance de redenção para o experiente psicólogo anos após ter falhado com outro paciente.

Obviamente o grande responsável pela fama de “O Sexto Sentido”, o roteiro de Shyamalan é hábil o suficiente para manter o espectador preso a narrativa e simultaneamente espalhar diversas dicas sobre seu segredo ao longo da projeção sem que corra o risco de entregar a reviravolta antes do momento certo ou transformá-las em distrações. Além disso, Shyamalan cria regras para a coexistência entre os dois mundos que dominam o longa e as respeita durante todo o tempo, o que é muito importante para que o espectador não se sinta enganado quando o truque for revelado. No entanto, o segredo do sucesso do filme não reside apenas no controle absoluto que Shyamalan demonstra sobre a trama, contando também com a excepcional atmosfera criada pelo diretor e sua equipe, capaz de sugar a plateia e mantê-la tensa na maior parte do tempo.

Esta atmosfera gélida e sombria é notável desde a aparição de Vicent (Donnie Wahlberg, em participação marcante) na casa do casal, que serve também para dar o tom da narrativa ainda nos primeiros instantes de projeção. A primeira criança que Cole encontra após compreender como poderia utilizar seu dom também surge de maneira assustadora, numa imagem forte dentro da cabana dele, realçada pelos tons em vermelho e pelo ângulo escolhido pelo diretor. Toda a sequência envolvendo Kyra (Mischa Barton), aliás, é muito bem construída e envolvente, culminando num desfecho surpreendentemente trágico e que ajudaria o rapaz a aprender a lidar melhor com os mortos e ajuda-los. Afinal de contas, “O Sexto Sentido” é também sobre redenção e tanto Cole como Crowe seguem trajetórias de superação e reconciliação com si mesmos durante a narrativa. Não são raros os momentos que assustam o espectador sem depender apenas de altos acordes na trilha sonora ou da aparição repentina de algo na tela, como quando Cole é trancado no calabouço numa festa e escuta uma voz realmente aterrorizante, provocando calafrios especialmente pela forma como a sequência é conduzida.

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O ótimo design de som, aliás, além de nos ambientar com precisão e ser essencial na criação do suspense, ainda traz interessantes raccord sonoros para fazer a transição entre cenas, como quando ouvimos o diálogo entre Crowe e Cole enquanto Anna paquera seu funcionário e é interrompida pela agressão do marido no vidro da loja. Estas transições, assim como as longas sequências em silêncio, causam um estranhamento que ajuda na criação da atmosfera pretendida pelo diretor. Em “O Sexto Sentido”, jamais sabemos bem o que esperar da cena seguinte, também por que o ritmo da narrativa segue sempre interessante, intercalando os diálogos entre Crowe e Cole com os momentos de suspense sem jamais baixar a tensão que paira no ar, o que é mérito também do montador Andrew Mondshein. Além disso, a trilha sonora de James Newton Howard reforça esta tensão com seus acordes fortes e repentinos surgindo apenas pontualmente, evitando o desgaste.

Além da construção da atmosfera ideal, o trabalho em conjunto entre o diretor, o diretor de fotografia Tak Fujimoto (que explora muito bem a arquitetura gótica da Filadélfia), o design de produção de Larry Fulton e a figurinista Joanna Johnston também serve para espalhar dicas por toda a narrativa sobre a situação de Crowe, por exemplo, através da cor de objetos e roupas. Repare, por exemplo, como os objetos vermelhos surgem sempre como uma alusão a tudo que tem interferência do outro mundo, como a maçaneta que Dr. Crowe tenta abrir ou o balão que estoura quando um fantasma grita. Da mesma forma, os figurinos são extremamente importantes para indicar este contato, com Cole usando vermelho quando sobe as escadas atrás do balão, Anna vestindo vermelho no jantar de aniversário de casamento, o santuário vermelho do garoto no quarto em que se esconde dos mortos, entre outros. Cor normalmente associada à morte, o roxo também tem forte presença na tela, como podemos notar no vestido que Anna utiliza na noite trágica. A própria esposa também é usada para dar dicas aos espectadores, como quando sente frio perto do marido ou ao não dialogar com ele no restaurante italiano.

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Por mais importante que seja, a atmosfera por si só também não garantiria o sucesso artístico de longa algum. Por isso, a construção da narrativa e a atuação do elenco também são primordiais em “O Sexto Sentido”. Sempre sereno e tranquilo, com o tom de voz baixo e transmitindo uma angústia que parece lhe sugar as forças, Bruce Willis surge bem diferente do que de costume e prova mais uma vez seu talento como ator, conseguindo ainda empatia ímpar com o jovem Haley Joel Osment, o que obviamente é crucial para que o longa funcione. Já Olivia Williams consegue transmitir a solidão e tristeza de Anna justamente através do silêncio, encontrando alguns raros momentos de alegria ao lado do funcionário que lhe ajuda a esquecer o marido.

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Ao contrário dela, Toni Collette surge como um poço de emoções na busca por compreender o universo do filho, demonstrando bem a preocupação e a pressão sofrida por Lynn. Mãe angustiada e que mal sabe o que fazer para auxiliá-lo, ela parece constantemente abalada, como fica evidente quando encontra Cole tremendo e sequer sabe o que perguntar, restando-lhe apenas o choro sofrido. A relação entre mãe e filho estabelece outra dinâmica importante da narrativa ao demonstrar que Cole não se sentia à vontade para falar abertamente sobre seus problemas, por maiores que fossem os esforços da mãe. Por isso, a cena em que finalmente encontra forças para falar sobre seu dom é um momento emblemático e emocionante, utilizando o contato com a avó materna para conectar mãe e filho, numa sequência conduzida com competência e sensibilidade por Shyamalan – a título de curiosidade, o diretor faz uma ponta como o médico de Cole, escancarando desde então sua obstinação em ser o “novo Hitchcock”.

Como podem perceber, os relacionamentos entre o psicólogo e o paciente e entre mãe e filho são essenciais para que “O Sexto Sentido” transmita a angústia do garoto com precisão e se a missão é cumprida com louvor é por que Osment tem uma atuação simplesmente impecável. Garoto misterioso e atormentado, Cole esconde sob sua timidez um conflito psicológico cruel provocado por sua capacidade de ter contato com o mundo sobrenatural, que o leva a ter uma instabilidade emocional notável, por exemplo, quando ele explode e confronta seu professor numa sala de aula, num dos momentos de destaque de Osment. Carismático e de aparência frágil, o garoto brilha em diversos instantes, como no momento icônico em que Cole conta seu segredo para Crowe, no qual Shyamalan realça a forte expressão dele, que carrega a emblemática cena com facilidade – e aqui vale notar como a câmera foca no Dr. Crowe após Cole dizer que as pessoas não sabem que estão mortas, em outra dica sutil e inteligente.

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É inegável, entretanto, que “O Sexto Sentido” consolide mesmo seu sucesso junto a boa parte do público na força de seu plot twist (algo que viria a tornar-se a marca do diretor, para o bem e para o mal). Assim, Shyamalan nos traz a sensacional reviravolta através de uma simples aliança que cai da mão da esposa, deixando o protagonista e o espectador atordoados com o que descobrem. O segredo muito bem guardado dificilmente é desvendado pelo público antes da hora, ainda que, como citado, diversas dicas sejam espalhadas pela narrativa. E justamente por respeitar rigorosamente todas as regras internas que criou e ainda assim conseguir guardar seu segredo até o fim, “O Sexto Sentido” torna-se ainda mais interessante e impactante na segunda vez que o assistimos.

O diálogo melancólico e revelador com a esposa adormecida fecha a narrativa de maneira impactante e deixa o espectador com os pensamentos fervilhando, tentando rever o filme na cabeça em busca de furos no roteiro. Felizmente, eles não existem. Há espaço ainda para a emoção no breve diálogo de despedida do casal, que ressalta a importância de aproveitarmos ao máximo nossa passagem por esta vida ao lado das pessoas que amamos.

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O primeiro grande sucesso de M. Night Shyamalan não poderia ter sido melhor. Pena que depois ele tornou-se refém da própria fórmula e a desgastou incessantemente até transformar as “reviravoltas” em algo esperado, o que, por definição, anula totalmente seu efeito. Não é o caso aqui. “O Sexto Sentido” continua impactante, criativo e merece toda a repercussão que causou, apesar de um ou outro exagero.

o-sexto-sentido-foto-2Texto publicado em 12 de Setembro de 2016 por Roberto Siqueira

Recado

18 agosto, 2016

Olá queridos leitores,

Sei que estou ausente, mas foi por uma boa razão. Primeiro, fiz uma linda viagem com minha família, que talvez inspire um ou dois posts por aqui. Depois, vieram as Olimpíadas e eu sou simplesmente apaixonado por esportes. Estou acompanhando tudo e, assim como a Copa de 2014, orgulhoso de ter este grande evento em nosso país.

Então peço que tenham calma. Em breve o Cinema & Debate retorna com o texto de “O Sexto Sentido”. Até lá, com o perdão do trocadilho, vamos manter o suspense.

Obrigado pela paciência e até breve.

Texto publicado em 18 de Agosto de 2016 por Roberto Siqueira