DETETIVE PIKACHU (2019)

 

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Antes de começar a falar deste filme, tenho que contar algo sobre a minha ligação com Pokémon. Assistia Eliana só pra ver o desenho. Deixava gravando enquanto estava na escola. Acho que parei na segunda geração de Pokémon. E eu jogava o card game de Pokémon. Eu, com meus 17 anos, indo disputar todo sábado a Liga Pokémon. Até que um dia tomei um pau de um molequinho que devia ter uns seis anos, e caiu a ficha: o que eu estou fazendo aqui?

Mas vamos ao filme. Acho que todo fã e não fã, assim que foi anunciado o filme, ficou ressabiado. O histórico de adaptações de games ou animes não era muito animador. E pra piorar, o filme se baseia numa versão que não tem nada a ver com o jogo ou série original. Aí veio o trailer. E mais do que isso. Veio o anúncio de que Ryan Reynolds faria a voz do Pikachu. E todo o receio ficou pra trás. O design nos Pokémon ficou ótimo, um trailer cheio de referências (assim como o pôster que veio depois) e a voz do Deadpool, ops, Ryan Reynolds caiu como uma luva no personagem principal.

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Já vou tirar o elefante da sala. Pra mim, é a melhor adaptação de um jogo ou anime para o cinema (sarrafo não estava lá muito alto). Eu me senti representado. É um filme para crianças, e para crianças que cresceram, e consegue atingir os dois públicos. É bom para aqueles que querem nostalgia e para aqueles que estão sendo apresentados ao universo agora. Que outros aprendam que é possível (esse recado é pra você, Cavaleiros do Zodíaco).

Não esperem atuações soberbas. Os humanos são o ponto fraco do filme. Roteiro é simplista, com plot que quando você para pra pensar nele, não faz sentido. E o vilão é só pra cumprir a cota de clichês com vilão inglês. Basicamente é o Space Jam da década.

Num primeiro momento causa estranheza a decisão de adaptar para o cinema um jogo que não tem nada a ver com o que Pokémon sempre propôs. Mas quando paramos pra pensar, a decisão faz todo sentindo. Não ia ser legal ver humanos batendo nos animais de seu mundo até eles ficarem fracos, os capturarem numa gaiola minúscula e colocá-los para brigar em arenas. Um duelo aparece rapidamente no filme, numa liga clandestina. É errado, mas ia ser legal. Os roteiristas que se virem para fazer dar certo numa possível sequência.

O mundo criado é o destaque do filme, com Pokémon e humanos vivendo em harmonia. Isso fica exemplificado na cidade modelo de Ryme, que quer provar que humanos e Pokémon podem coexistir além das batalhas. Um mundo colorido, onde os Pokémon vivem livres, ou com humanos (como pets), e ajudam no dia a dia da cidade. Cada take é pelo menos uma referência a ser capturada. Os Pokémon ficaram realistas, mas continuaram caricatos e foram mantidas as expressões faciais. Alguns se destacam mais do que outros, principalmente os da primeira e segunda geração. Da terceira em diante, senti uma estranheza, mas ai não é culpa do filme, e sim dos criadores da série, que, quando acabou a inspiração nos animais de nosso mundo para os Pokémon, passaram a viajar cada vez mais no design.

Escrevi bastante, mas percebi que não falei muito sobre a história. Acho que é por que não tem muito que se falar. Em resumo, o filme conta a história de Tim, um garoto que não sabe seu lugar no mundo. Tem dificuldade em se relacionar com humanos e desistiu de seu sonho de ser um treinador Pokémon. Recebe a notícia da morte de seu pai, um renomado detetive da cidade Ryme, em um acidente de carro, após ser atacado enquanto investigava um laboratório secreto. Por esse motivo, Tim decide ir até a cidade para obter mais detalhes. No apartamento de seu pai, Tim encontra um Pikachu desmemoriado, que se acha detetive e viciado em cafeína. Para sua surpresa, ambos conseguem se comunicar. Depois da desconfiança, e da dificuldade de Tim em se relacionar, e de algumas pistas de que talvez seu pai não esteja morto, eles partem em busca de solucionar o mistério do desaparecimento do pai de Tim, com a ajuda de uma repórter novata e de um Psyduck problemático, num clima bem noir.

Acho que acabei dando o plot nesse resumo. Mas sinceramente, esse não é um filme pra se apegar à história. É pra assistir, sem pensar muito, e deixar a nostalgia de dias mais fáceis te levar.  Um fato legal para os fãs, é que em um vídeo do laboratório, onde um Mewtwo sofre experimentos (a revelação do Mewtwo ocorre no começo do filme, não é spoiler), há uma informação de que ele é o mesmo Mewtwo que fugiu do continente de Kanto há 20 anos. Uma referência à primeira animação de Pokémon nos cinemas. Ou seja, está tudo conectado, Ash existe…

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Ah, e não posso deixar de dizer qual o meu Pokémon favorito. É esse aqui.

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KOKO-DI KOKO-DA (2019)

(Koko-Di Koko-Da)

Dirigido por Johannes Nyholm.

Elenco: Ylva Gallon, Leif Edlund Johansson, Peter Belli e Katarina Jacobson.

Roteiro: Johannes Nyholm.

Produção: Johannes Nyholm e Maria Møller Christoffersen.

Um casal resolve acampar numa floresta como forma de fugir da sua rotina e tentar superar a perda de sua filha pequena, que morreu três anos atrás. Talvez o melhor filme que vi na mostra, com certeza a melhor experiência. Não é um filme simples, ele demanda inteligência e criatividade do espectador para fazer as devidas associações.

O roteiro possui uma mecânica que se repete sempre em duas partes, e ele vai avançando desta forma: o casal está dentro da barraca e a mulher diz que precisa ir ao banheiro, acordando o marido. Aparecem três pessoas, um senhor vestido com chapéu mais antigo, um sujeito que parece estereótipo de um caipira forte, e uma mulher. Eles trazem um animal morto nos braços e um cão, e matam primeiro a mulher depois o homem. Então vemos o casal dirigindo para o lugar do acampamento e novamente dentro da barraca, mas o marido acorda tendo sonhado o que ocorreu antes, e por vezes a mulher.

O filme é muito impactante. A cena da morte da filha do casal é surpreendente e chocante. A edição de som desse filme é primorosa, e reforça a tensão constante na qual o casal sempre se encontra. A câmera, embora sempre solta, na maioria das cenas restringe nossa visão, sendo que muita coisa acontece extracampo e acompanhamos a narrativa pelo som. Na maioria dos projetos, todo diálogo do filme fica concentrado na caixa de som principal na frente, e uma maneira de garantir que por pior que seja a estrutura do sistema de som, os diálogos serão ouvidos. Aqui, a mixagem trabalhou de tal forma que o diálogo quando vem dos lados ou de trás, fica nestas caixas e não na caixa principal. Desta forma, muitas vezes temos mais de um diálogo acontecendo simultaneamente e sem que um fique sobre o outro, o que cria alguns momentos assustadores, especialmente quando o espectador já entendeu a dinâmica do filme.

Um trabalho magnífico que faz os espectadores saírem da sala e ficarem por algumas horas juntando os pedaços desse enigmático quebra-cabeças.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

MÁFIA S/A (2019)

(Mafia INC.)

 

Dirigido por Daniel Grou.

Elenco: Marc-André Grondin, Sergio Castellitto, Gilbert Sicotte e Mylène Mackay.

Roteiro: Sylvain Guy.

Produção: Antonello Cozzolino, André Rouleau e Valérie D’auteuil.

Baseado no livro de mesmo nome, chefes da máfia italiana e canadense planejam lavar dinheiro investindo na construção de uma ponte entre a Sicília e a Calábria, enquanto precisam se preocupar com a polícia e gangues rivais. Com um início promissor, ao telefone o “Godfather” do Canadá acerta com membros da Itália o investimento na ponte. A medida que a trama avança conhecemos alguns personagens complexos como o alfaiate, que tenta proteger sua família, mas vê seu filho cada vez mais envolvido em negócios escusos.

Pena que esse universo também seja habitado por muitas caricaturas, e personagens que sofrem bruscas alterações comportamentais conforme necessidade do roteiro. Além disso, o projeto se mostra precário na execução de cenas chaves, como o acidente com ônibus na Venezuela. Algumas cenas de ação funcionam, outras como a eliminação de um membro por emboscada com moto e carros são antecipadas pelo espectador e mal executadas. O filme nos faz rememorar diversos títulos de gênero do Scorsese, e também do próprio “O Poderoso Chefão”, o que o empobrece mais.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ECOS (2019)

(Bergmál)

Dirigido por Rúnar Rúnarsson.

Roteiro: Rúnar Rúnarsson.

Produção: Lilja Ósk Snorradóttir.

Histórias do cotidiano da Islândia, começando próximo ao Natal e terminando no dia do novo ano. Cada cena contempla uma história, composta por um plano estático. Algumas filmagens são testemunhos de acontecimentos, como um coral de Natal e um parto. O roteiro é simples e aborda diversos assuntos, como violência policial, exploração dos empregados por patrões, discussões familiares, renovação.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

SIBYL (2019)

(Sibyl)

Dirigido por Justine Triet.

Elenco: Virginie Efira, Adèle Exarchopoulos, Gaspard Ulliel e Sandra Hüller.

Roteiro: Justine Triet.

Produção: David Thion e Philippe Martin.

Sibyl é uma psicóloga que quer escrever um romance, e pra isso diminui drasticamente o número de pacientes que atende. Um hospital indica ela a Margot, uma atriz que pede uma consulta de emergência e Sibyl passa a atendê-la, pois verifica que os relatos da jovem podem ser úteis no seu romance.

Há uma história incrível aqui, mas não é a que vemos na tela. O roteiro se beneficiaria muito mais se o foco fosse em Margot. Atriz iniciante que começa um romance com o protagonista do filme, que namora a diretora. A atriz fica grávida e sua vida implode no meio das filmagens que estão acontecendo numa ilha onde há um vulcão em erupção. Mas o que vemos é uma psicóloga que se ressente de um antigo amor, enquanto executa a profissão de qualquer jeito e tenta escrever um romance que nunca ficamos sabendo exatamente qual é. Além disso, a trama abraça diversos clichês e podemos prever muito do que virá.

Além disso, o filme tem um grande problema com elipses temporais. A legenda diz que se passaram dez anos, mas pra nós a impressão é de 10 segundos, e em diversos momentos a montagem intercala passado e presente da protagonista, de forma cansativa, quebrando o ritmo da narrativa.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

JOANA D’ARC (2019)

(Jeanne)

 

Dirigido por Bruno Dumont.

Elenco: Lise Leplat Prudhomme, Jean-François Causeret, Daniel Dienne, Fabien Fenet, Robert Hanicotte e Yves Habert.

Roteiro: Bruno Dumont.

Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat e Muriel Merlin.

Sequência da peça de mesmo nome, acompanhamos Joana da sua primeira derrota até o julgamento pelos ingleses. Se apresentando como musical e com um ritmo muito lento, é um filme lindíssimo e de muitas sutilezas em seus diálogos. O filme tem poucas e longuíssimas cenas, todas focam em diálogos. Um dos cernes é a crítica a religião com muitos momentos que mostram o quão é patética, como na cena em que os sacerdotes pedem a Deus que os ajudem a torturar bem a menina Joana. Aliás, em diversos momentos somos Deus, e Joana olha direto para a câmera, esperando nossa manifestação. É onde entram as músicas, na forma de apelos da menina à divindade. Bastante atual, demonstra também que entre tantos homens, de diversos lados e objetivos, o único ser sábio é uma menina, que se recusa a matar e trair seus ideais.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

OS OLHOS DE CABUL (2019)

(Les Hirondelles de Kaboul)

Dirigido por Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec.

Elenco: Vozes de Simon Abkarian, Hiam Abbass, Zita Hanrot e Swann Arlaud.

Roteiro: Zabou Breitman, Patricia Mortagne e Sébastien Tavel.

Produção: Reginald de Guillebon e Michel Merkt.

Duas famílias vivem em Cabul, Afeganistão, sob o domínio do talibã. Nesta animação acompanhamos a opressão e o medo que cidadãos não doutrinados pela religião sofrem num regime opressor. As mais atingidas são as mulheres, claro, que são obrigadas a saírem de casa de burca e não podem usar calçados brancos.

O roteiro é muito inteligente e consegue sempre nos surpreender. Os traços simples e a escolha das cores reforçam um ambiente oprimido, onde a vida resiste. Uma das cenas finais é maravilhosa: começa num plano geral com vista de cima, e conforme a câmera se afasta, mulheres de burca vão se transformando em pássaros que voam para longe, contrastando com uma cena muito pesada e bem executada que testemunhamos anteriormente.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

DINAMARCA (2019)

(Denmark)

Dirigido por Adrian Shergold.

Elenco: Rafe Spall, Simone Lykke, Thomas Gabrielsson, Benedikte Hansen e Joel Fry.

Roteiro: Jeffy Murphy.

Produção: Ed Talfan e David Aukin.

Um homem desempregado e sem esperança assiste um programa que mostra o sistema prisional da Dinamarca ser um paraíso, no qual detentos trabalham, ganham dinheiro e tem acomodações luxuosas. Sem nada a perder, ele resolve ir para o país escandinavo cometer algum crime e poder viver nessa prisão.

Os primeiros 15 minutos do longa são cativantes e geram grande expectativa. Somos apresentados ao protagonista num plano-sequência, com a câmera sempre baixa, reforçando o quanto aquele indivíduo se sente diminuto perante seu mundo. Toda a trama até ele chegar à Dinamarca é muito bem construída, com momentos engraçados e criativos. Pena que logo após o primeiro ato o filme vá ladeira abaixo, e se transforme quase numa comédia romântica boba. Mesmo alguns bons momentos, como um longo plano-sequência durante um monólogo do protagonista, onde partindo de um plano aberto a câmera vagarosamente se aproxima do personagem, terminando num close, não conseguem recuperar o rumo do filme.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ADAM (2019)

(Adam)

Dirigido por Rhys Ernst.

Elenco: Nicholas Alexander, Bobbi Salvör Menuez, Leo Sheng e Chloë Levine.

Roteiro: Ariel Schrag.

Produção: Howard Gertler e James Schamus.

Garoto que dá nome ao filme vai passar férias em Nova York com sua irmã lésbica e conhece uma garota que, ao conhecê-lo, acha que ele é um homem trans. Gera um misto de frustração, pena e raiva, quando vemos um tema como este, transexualidade, ser retratado de forma tão leviana como ocorre aqui. O roteiro além de previsível, é recheado de clichês, e ainda assim, força o espectador a acreditar em algo que não acontece. A cena em que Adam conhece a garota que “muda” a vida dele, e o fato dela se sentir atraída, não fazem qualquer sentido.

As atuações são ruins, e o diretor nos força a rir de situações que não tem a mínima graça, como as inúmeras cenas que incluem o protagonista se passando por uma garota trans, para conquistar uma menina lésbica. Outra cena tenta tornar exagerados discursos de alguns personagens que defendem seus interesses específicos, como uma dupla queer distribuindo panfletos contra o casamento. Tendo no ápice de sua imbecilidade uma conversa entre o casal (que finge não serem héteros), na qual obrigam o espectador a ignorar tudo que foi visto em tela, substituindo por outra coisa.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ISTO NÃO É BERLIM (2019)

(Esto no es Berlín)

 

Dirigido por Hari Sama.

Elenco: Xabiani Ponce de León, José Antonio Toledano, Ximena Romo, Mauro Sánchez Navarro e Klaudia García.

Roteiro: Rodrigo Ordóñez, Hari Sama e Max Zunino.

Produção: Catatonia Cine.

Carlos, um garoto morador da Cidade do México, após ser apresentado a uma boate gay tem sua vida transformada, sendo apresentado às drogas, ao sexo e a arte. O filme faz um belíssimo trabalho ao retratar com detalhes a década de 80. A história se passa em 1986, durante a copa do mundo de futebol no México. A câmera solta e sempre tremida reforça o universo dos jovens personagens, agitados, curiosos, em busca de descobertas. O roteiro recorre a alguns clichês, mas desenvolve muito bem os personagens, e a trilha sonora é um atrativo à parte, com alguns clássicos do rock e punk.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso