Feliz dia das mães!

8 maio, 2016

Vídeo publicado em 08 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

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MATRIX (1999)

4 maio, 2016

(The Matrix)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #229

Dirigido por Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Julian Arahanga, Matt Doran, Belinda McClory, Anthony Ray Parker, Gloria Foster, Paul Goddard, Robert Taylor, Marc Aden Gray, Ada Nicodemou, David Aston, Deni Gordon, Rowan Witt, Fiona Johnson e Bill Young.

Roteiro: Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Produção: Joel Silver.

Matrix[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não são raras as vezes em que um filme é ignorado na época de seu lançamento e, muitos anos depois, acaba sendo descoberto por uma nova geração que o transforma no chamado cult. Raros, porém, são os casos de filmes que já nascem com este conceito. Mais raros ainda são casos como o de “Matrix” que, em pouco tempo, tornou-se mais do que um filme cult, consolidando-se como um fenômeno cultural do final do século passado que arrastou milhões de fãs pelo mundo não apenas para a frente das telas, mas para um universo particular, repleto de ideias complexas, banhadas em conceitos trazidos das mais diversas fontes.

Escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski, “Matrix” nos leva ao futuro, num mundo já dominado pelas máquinas, que utilizam os seres humanos como fonte de energia para manterem suas baterias carregadas. Para isto, construíram um complexo sistema em que as pessoas hibernam e, através de um programa de computador, sonham viver no planeta exatamente como este era concebido no passado já distante. No entanto, alguns humanos dissidentes conseguem escapar e iniciam um movimento de resistência, que aguarda a chegada do líder que os guiará na luta pela liberdade de toda a raça humana. O mais importante deles é Morpheus (Laurence Fishburne), que conta com a ajuda de Trinity (Carrie-Anne Moss) para encontrar aquele que ele acredita ser o escolhido: um hacker chamado Neo (Keanu Reeves).

Neste breve resumo não é possível identificar o tamanho e a complexidade do universo criado pelos irmãos Wachowski, que como mencionado transformou-se ao longo dos anos num fenômeno cultural de extrema importância para toda uma geração, inspirando não apenas duas continuações, mas também versões em anime, um universo expandido e até mesmo um site dedicado a explorar a “Matrix”. Capaz de agradar aos mais diversos tipos de fã por conta da diversificada colagem cultural em que se apoia, da qualidade de sua narrativa e das ótimas cenas de ação, o longa representou ainda um marco em termos de efeitos visuais, tornando-se referência para inúmeros filmes que surgiriam nos anos seguintes.

Visualmente impactante, “Matrix” conta com a direção de fotografia sóbria de Bill Pope, que deixa claro já quando o logo da Warner surge em verde que a cor característica dos caracteres dos antigos computadores daria o tom, ao lado de ambientes tomados pelas sombras e por paletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentado. A ideia é justamente refletir o ambiente característico das máquinas, criando um contraponto bem interessante para os planos mais coloridos que por vezes surgem quando estamos no ambiente que simula a vida real criado para manter os humanos aprisionados – e a ironia entre o contraste do mundo virtual colorido e o verdadeiro mundo real dessaturado é muito interessante.

Logo da Warner em verdePaletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentadoPlanos mais coloridos

Da mesma forma, o ótimo design de produção de Owen Paterson suga o espectador para dentro daquele universo através dos aparatos tecnológicos improvisados utilizados pelos hackers, sendo responsável ainda pela criação de cenários impressionantes como a própria matrix, que se materializa quase que como uma espécie de colônia de escravos adormecidos, nos permitindo compreender bem o conceito apenas através do visual. Da mesma forma, os figurinos de Kym Barrett apostam em roupas sóbrias e de cores escuras para ampliar a sensação claustrofóbica, além de serem responsáveis por criar o icônico visual dos personagens que surgem em roupas de couro e estilosos óculos escuros (o que ainda remete ao acessório clássico necessário para visualizar algo em 3D).

Aparatos tecnológicos improvisadosEspécie de colônia de escravosIcônico visual dos personagens

E se a trilha sonora de Don Davis ajuda a construir a atmosfera de mistério envolvendo tudo que cerca a matrix, o excepcional design de som é crucial para conferir ainda mais realismo às ótimas cenas de ação, como quando nos permite ouvir o barulho da hélice do helicóptero que chama a atenção dos agentes segundos antes do resgate de Morpheus. No entanto, são mesmo os efeitos visuais que se destacam na parte técnica de “Matrix”. Famosos pelo efeito que ficou conhecido como “bullet time”, os inovadores efeitos visuais não apenas são responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes do filme, como ainda respeitam a lógica interna da narrativa, o que é importante para não tirar nossa atenção. E se diversos instantes saltam aos olhos pelo preciosismo do que vemos na tela, são mesmo os momentos em que a câmera gira lentamente em 180 ou 360 graus ao redor dos personagens que nos encantam, como fica claro logo na primeira vez em que isto ocorre, quando Trinity escapa do cerco dos policiais de maneira espetacular.

Obviamente, a direção dos Wachowski é crucial para que estas cenas sejam tão bem conduzidas e os irmãos demonstram grande competência nesta tarefa, criando lutas muito bem coreografadas e que jamais deixam o espectador confuso com o que vê na tela, graças ao ótimo controle dos diretores. Desde a citada fuga de Trinity, que funciona como a primeira sequência de ação capaz de fisgar o espectador ainda nos primeiros minutos de “Matrix”, os Wachowski nos presenteiam com várias sequências memoráveis, como a perseguição de Neo, o empolgante resgate de Morpheus e, claro, o duelo entre Neo e o agente Smith (Hugo Weaving) numa estação de metrô, que remete aos westerns com papéis voando e os homens se encarando com as mãos próximas das armas por alguns segundos antes do confronto.

Trinity escapa do cerco dos policiaisEmpolgante resgate de MorpheusDuelo entre Neo e o agente Smith

No entanto, “Matrix” está longe de ser apenas uma proeza técnica. Aliás, é justamente na complexidade de sua narrativa e nos inúmeros conceitos que a sustentam que reside boa parte de seu sucesso, na época soando como potencial candidato a criar uma nova mitologia no estilo de “Star Wars”. Rico tematicamente, o longa parte de uma premissa ousada e muito interessante, na qual tudo que os homens enxergam e vivem não passa de um universo criado virtualmente. Só que só teremos acesso a este conceito após algum tempo de projeção. Até lá, somos colocados na mesma posição de Neo, buscando desvendar as palavras misteriosas de Trinity enquanto somos guiados até Morpheus. Após uma espécie de pesadelo surreal do protagonista que depois se revelaria uma das primeiras transições entre os dois mundos, vamos aos poucos conhecendo conceitos importantes como os telefones que servem para transportar os personagens e os agentes sentinelas que servem como espiões inseridos pelas máquinas para eliminar todo e qualquer humano que queira se rebelar, até culminar na primeira aparição de Morpheus que, depois de apresentar a função das pílulas azul e vermelha, finalmente explica de forma didática e envolvente a origem e o funcionamento da matrix.

Agentes sentinelasPílulas azul e vermelhaPapel de messias

Passamos então a transitar junto com os personagens entre o ambiente real e o virtual num ritmo intenso, o que é mérito do montador Zach Staenberg, que jamais nos permite relaxar, abrindo caminho para que os Wachowski possam enfim apresentar sua profusão de ideias envolvendo conceitos científicos, religiosos e filosofia, misturando ainda cultura pop como animes, HQ´s e kung fu. Assim, enquanto Neo é claramente colocado no papel de messias, Trinity (a trindade) surge como uma figura feminina, causando o espanto do próprio escolhido (“Pensei que fosse homem”). Vivido por um surpreendentemente intenso Keanu Reeves, Neo representa a esperança para uma raça humana dominada e fadada ao fim, o que explica a clara ansiedade que ele demonstra enquanto é sugado por tudo que o cerca. Neo era um homem já descrente do mundo à sua volta e acaba encontrando do outro lado a chama perdida há tempos. Até por isso, a cena em que ele finalmente desperta no mundo real faz uma clara alusão ao nascimento, com ele rompendo a bolsa que o envolve e cortando o cordão umbilical que o prendia a matrix.

Determinada e dona de um olhar penetrante capaz de nos fazer acreditar que sua personagem pode mesmo vencer diversos oponentes num confronto, Carrie-Anne Moss faz de Trinity a parceira ideal para um ainda novato Neo, conduzindo-o com firmeza total em suas convicções. Por sua vez, Laurence Fishburne confere uma aura misteriosa e imponente a Morpheus, cujo nome é o mesmo do deus grego dos sonhos, da mesma forma que Gloria Foster faz com Oráculo, com sua fala segura e em tom de voz baixo e confiante. Fechando os destaques do elenco, vale citar o olhar gélido de Hugo Weaving na pele do agente Smith, impondo respeito e soando ameaçador sem precisar dizer muitas palavras.

A trindadeAlusão ao nascimentoAura misteriosa e imponente a Morpheus

Além dos diversos simbolismos religiosos espalhados pela narrativa, como a nave Nabucodonosor e a referência ao versículo Marcos 3:11 (“E quando os espíritos impuros o viam, se jogavam gritando: `Tu és o filho de Deus`”, numa óbvia referencia a Neo), temos ainda diversas menções a “Alice no país das maravilhas”, sejam literais ou até mesmo através dos coelhos que aparecem na televisão, passando por fundamentos do budismo e citações a diversos filósofos como Sócrates e Platão. Para fechar, a temática diversificada ainda trabalha o tema homem versus máquina de maneira bastante inventiva, mostrando também como maquiar a realidade é uma das formas mais eficientes de controle das massas, seja através de uma realidade virtual ou de qualquer outra forma que mantenha a falsa sensação de felicidade – algo que serve inclusive para motivar a traição de Cypher (Joe Pantoliano), outro com nome repleto de simbolismos. Na verdade, discursar sobre os inúmeros simbolismos e as teorias de “Matrix” é uma tarefa árdua, que pode gerar textos e mais textos.

São poucos os eventos culturais capazes de marcar toda uma geração e este é o caso do longa dirigido pelos Wachowski. Ousado tematicamente e com ótimas cenas de ação, “Matrix” foi um marco não apenas em termos de efeitos visuais, mas também pelo complexo universo que nos apresentou e os inúmeros debates que proporcionou.

Matrix foto 2Texto publicado em 04 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

MAGNÓLIA (1999)

25 abril, 2016

(Magnolia)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

Videoteca do Beto #228

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: John C. Reilly, Julianne Moore, William H. Macy, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman, Jason Robards, Alfred Molina, Melora Walters, Michael Bowen, Ricky Jay, Jeremy Blackman, Melinda Dillon, Luis Guzmán, Felicity Huffman, Henry Gibson, Michael Murphy, April Grace, Don McManus e Patton Oswalt.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson e JoAnne Sellar.

Magnólia[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alguns filmes precisam de um tempo para serem absorvidos em sua plenitude pelo espectador. Este tempo pode ser aqueles instantes em que você repassa o filme na cabeça tentando encontrar possíveis furos no roteiro, horas em que você reflete sobre as questões levantadas ou até mesmo dias ou meses em que tenta formar uma teoria que interprete sua mensagem. Pois a obra-prima “Magnólia” se encaixa em todas estas possibilidades e ainda oferece mais, permitindo ao espectador desfrutar novos e deliciosos detalhes em cada revisita. Motivo de grande polêmica e revolta de espectadores mais apressados por causa de uma única cena, o longa dirigido por Paul Thomas Anderson é um deleite para o verdadeiro fã de cinema, tamanha a sua complexidade temática e narrativa.

Escrito pelo próprio Paul Thomas Anderson (assim como todos os outros filmes de sua carreira), “Magnólia” acompanha um dia na vida de um grupo de pessoas em Los Angeles, que têm seus destinos interligados de alguma forma. Assim, temos o policial Jim (John C. Reilly) que conhece Claudia (Melora Walters) ao atender um chamado; Claudia que é filha de Jimmy (Philip Baker Hall), o apresentador de um programa de TV no qual Stanley (Jeremy Blackman) é o astro infantil, assim como Donnie Smith (William H. Macy) já fora um dia. O programa é produzido por Earl Partridge (Jason Robards), casado com Linda (Julianne Moore) e pai de uma espécie de guru do sexo, o misógino Frank T.J. Mackey (Tom Cruise). Doente em estado terminal, Earl tem a companhia do cuidador Phil (Philip Seymour Hoffman), que acaba descobrindo em conversas com seu paciente a razão da raiva que o filho sente do pai.

Como é fácil perceber neste breve resumo, “Magnólia” não é um filme simples de acompanhar. Ou ao menos não deveria ser. Com tantos personagens e, o que é mais admirável, com importância semelhante dramaticamente, a ousada narrativa intercala a vida de todos eles de maneira dinâmica, o que faz o trabalho do montador Dylan Tichenor (parceiro de Anderson no também multifacetado e ótimo “Boogie Nights”) essencial para o sucesso do filme. E é incrível perceber como a genialidade da montagem e a condução de Anderson nos mantém interessados por todas as histórias narradas quase que na mesma intensidade, através de sua câmera em constante movimento que jamais nos deixa confusos e do absoluto controle da misè-en-scene, o que não é nada fácil numa narrativa multifacetada e repleta de personagens importantes. Empregando movimentos de câmera elegantes que alternam entre o uso do zoom, travellings e belíssimos planos-sequência (aquele nos corredores da emissora de televisão é sensacional), o diretor não apenas mantém nosso interesse como ainda cria um visual gradualmente sufocante, ampliado pela brilhante fotografia de Robert Elswit, que explora os ambientes fechados, a noite predominante e a chuva que cai em boa parte do filme para criar esta sensação de sufocamento gradual no espectador e refletir os sentimentos dos personagens.

Absoluto controle da misè-en-sceneBelíssimos planos-sequênciaNoite predominante e a chuva que cai

As elegantes transições surgem também através de muitos raccord sonoros, que são transições entre cenas que iniciam primeiro através do som e somente depois através da imagem, ou seja, começamos a ouvir o som da cena posterior enquanto ainda acompanhamos imagens da cena antecessora, o que serve para aumentar a expectativa pela sequência que está por iniciar, como por exemplo quando o som do show de Frank surge enquanto ainda acompanhamos seu pai doente na cama. A trilha sonora de Jon Brion também colabora na criação do mencionado clima melancólico, além de muitas vezes ajudar a ditar o ritmo da narrativa, tanto nos momentos mais empolgantes em que a música acompanha as constantes mudanças de foco, transitando entre todas aquelas histórias, quanto nos momentos mais intimistas em que os personagens estão mais reflexivos.

Competente também na direção de atores, Anderson extrai atuações respeitáveis de um elenco qualificado e homogêneo. Personagem central da narrativa (ainda que em “Magnólia” não seja tão simples definir o protagonista), Jim talvez seja o personagem mais tranquilo depois de Phil, chegando a ser comovente em sua quase ingenuidade. Carismático, John C. Reilly assume o papel com facilidade e transforma Jim num dos pontos de equilíbrio de uma narrativa tão pesada dramaticamente, como atesta a personagem que mais contracena com ele. Logo em sua primeira aparição, Melora Walters já sugere o forte trauma de Claudia através da histeria dela ao ver o pai e segue na mesma intensidade durante quase todo o filme. Observe, por exemplo, como ela está inquieta na chegada do policial, demonstrando tanto o efeito das drogas quanto sua ansiedade provocada pela visita recente do pai. Claudia é uma personagem traumatizada e depressiva e Walters transmite isso com precisão.

Comovente em sua quase ingenuidadeForte trauma de ClaudiaHomem cansado, amargurado

Seu pai é interpretado por Philip Baker Hall, que vive Jimmy como um homem cansado, amargurado talvez, que ficou famoso por apresentar um quiz show envolvendo crianças, mas que não soube se aproximar da própria filha como deveria e, o que é muito pior, cometeu um crime horrendo contra ela. Vivendo outra linha narrativa crucial para entendermos os temas tratados em “Magnólia”, William H. Macy vive o ex-garoto prodígio Donnie Smith, externando com competência o ressentimento provocado pela exploração dos pais e a falta de confiança para aceitar-se como ele é. Apaixonado por um barman, mas sem coragem para assumir sua orientação sexual, ele encontra na platônica paixão a possibilidade de aceitação social que tanto lhe faz falta. Já Stanley, seu herdeiro na posição de menino prodígio, reage à pressão de ser o fio condutor da riqueza dos pais e não aceita ser explorado, levando o pai (Michael Bowen) ao desespero – e o garoto Jeremy Blackman segura bem o papel neste sentido, demonstrando firmeza sem perder o encanto da infância. As crianças que são exploradas pelo show business por puro interesse econômico (das emissoras e dos pais, diga-se) é um dos temas importantes abordados pelo longa.

Representando o espectador naquele mar de dor e angustia, Philip Seymour Hoffman encarna Phil com grande sensibilidade, demonstrando o quanto o cuidador absorve o sofrimento dos que estão à sua volta. Único personagem sem motivos aparentes para sentir a própria dor, seu rosto transmite a paz e a empatia pelo próximo tão necessárias em sua profissão – e as expressões de Hoffman realçam com exatidão a intensidade com que o personagem sente a dor alheia. Assim, Phil se transforma no ponto de equilíbrio principal do espectador naquela narrativa angustiante. O mesmo não podemos dizer de Linda. Inicialmente mais discreta, Julianne Moore lentamente ganha força na narrativa até transformá-la num poço de emoções à flor da pele, culminando numa tentativa de suicídio melancólica e tocante movida pelo remorso após revelar suas reais intenções naquele relacionamento. A confissão, aliás, é um dos bons momentos da atriz, no qual demonstra como o peso do passado corrói a personagem.

Ex-garoto prodígio Donnie SmithHerdeiro na posição de menino prodígioPonto de equilíbrio principal

O peso do passado é, portanto, outro tema central de “Magnólia”, escancarado na frase “Nós até podemos ter esquecido do passado, mas o passado ainda não se esqueceu de nós”, repetida algumas vezes. Quem melhor personifica este peso é Earl Partridge, interpretado de maneira estupenda por Jason Robards, que consegue o feito de humanizar um personagem tão cruel. Graças a intensidade de sua performance, sentimos a dor de Earl como se fosse nossa, com seus gemidos agudos, olhar desfocado e a voz cansada, que denotam o desgaste de um homem lentamente consumido pelo passado, como podemos notar no momento magistral em que Earl conta como conheceu a esposa Lilly e confessa o arrependimento pela forma como a tratou e especialmente por traí-la, reclamando cheio de amargura que “A vida não é curta, é longa!” após tantos anos convivendo com seu remorso, numa cena que ecoa na mente do espectador mesmo após a projeção.

Parte deste sofrimento vem também da certeza do trauma provocado em seu filho Frank que, como muitos personagens em “Magnólia”, também precisa acertar contas com o passado. Talvez no ano mais especial de sua carreira em termos de atuação, Tom Cruise está muito bem na pele do misógino protagonista de um show voltado para homens obviamente machistas, demonstrando grande segurança no palco e uma carcaça que esconde fortes traumas do passado fora dele, como fica evidente quando é confrontado pela entrevistadora e, inquieto, dá os primeiros sinais de que está mentindo (algo que tanto a repórter quanto o espectador já sabiam). Após a menção aos pais, ele muda completamente a feição e perde a estabilidade e a confiança que pareciam transbordar até então, escancarando sua conexão com a mãe e o trauma provocado pela morte dela, o que talvez explique, sem justificar, a persona machista que criou como uma autodefesa ou uma forma de esconder a fragilidade emocional e afetiva que tinha. Por isso, seu comportamento na entrevista passa da euforia para a introspecção, numa transição conduzida com perfeição por Cruise.

Poço de emoções à flor da peleHomem lentamente consumido pelo passadoMisógino protagonista de um show

O comportamento de Frank, aliás, serve para ilustrar aquele que talvez seja o principal tema de “Magnólia”, que é o desentendimento entre pais e filhos. Desta forma, temos o ressentimento de Donnie e a revolta de Stanley alimentados pelo mesmo motivo, assim como o ódio que Claudia sente pelo pai também é o sentimento de Frank por Earl, mas por razões diferentes. Orbitando em volta deles, temos personagens igualmente sugados pela culpa que Jimmy e Earl carregam, como Linda, ou aqueles que tentam amenizar a dor dos que estão em volta, como Jim e Phil. A intenção é clara: demonstrar a conexão entre aquelas pessoas. O primeiro momento em que isso acontece é durante o show de Jimmy, em que vários personagens, mesmo distantes uns dos outros, surgem conectados através da tela da televisão, numa das várias sequências conduzidas com maestria por Anderson e seu montador. Da mesma forma, o zoom que nos leva até Jimmy instantes antes dele cair no palco surge logo após uma sequência dinâmica que nos faz passar por vários personagens, na qual a trilha sonora indica que aquelas pessoas estavam muito próximas de chegarem aos seus limites.

Este limite chega no instante em que o peso das atitudes do passado toma conta de boa parte dos personagens e o sofrimento atinge níveis quase insuportáveis, levando-os a se isolarem de alguma forma, ainda que em alguns casos este isolamento surja apenas mentalmente e não de fato fisicamente. Então surge a emocionante sequência em que todos se conectam novamente, agora cantando a bela música “Wise up”, de Aimee Mann, num momento lindo, realçado pela chuva que cai, pela noite e pela melancolia coletiva que toma conta da tela, conduzido com maestria por Anderson – que é amigo pessoal de Mann e escolheu a cantora para desenvolver as músicas especialmente para o filme. Em seguida, a chuva finalmente cessa e o alívio temporário chega, dando início ao terceiro ato da narrativa.

Conectados através da tela da televisãoTodos se conectam novamenteDivertido segmento de abertura

O tragicamente divertido segmento de abertura passa então a fazer mais sentido quando um fato inusitado surge para interferir na vida de todas aquelas pessoas. Seria coincidência ou a ação do destino? Temos um ser superior que direciona nossas vidas ou estamos jogados ao acaso? Chegamos então ao grande mistério de “Magnólia”, desvendado brilhantemente pelo crítico Pablo Villaça em sua memorável crítica de 2000. Inicialmente, a interpretação mais plausível é a de que o acaso tem peso em nossas vidas e a chuva de sapos representaria metaforicamente este acaso. É uma visão coerente e que faz todo sentido. No entanto, Paul Thomas Anderson não queria apenas nos abrir a possibilidade de interpretação, ele queria brincar com nossa percepção e o faz durante toda a narrativa. Observe, por exemplo, como o garoto rapper faz uma espécie de profecia sobre a chuva que aliviaria a todos, assim como alguns personagens dizem que “está chovendo gatos e cachorros”, numa expressão típica do idioma inglês que serve para brincar com o fato estranho que ocorreria depois.

Da mesma forma, a previsão do tempo surge várias vezes na tela, indicando a importância do clima desde o início e sinalizando de forma sutil o evento que ocorreria no clímax. Observe também como a primeira previsão é de 82% de chance de chuva, numa brincadeira que faz uma das primeiras alusões ao versículo “Êxodo 8:2”, algo que se repetiria algumas vezes, como na abertura do programa comandado por Jimmy em que vemos rapidamente um cartaz escrito este versículo na plateia. Em outro momento, a menção ao livro de Êxodo, capítulo 20, versículo 5 (“Os pecados dos pais recaem sobre os filhos”), além de reforçar o tema central de “Magnólia”, ainda indica a importância deste livro para compreender a narrativa. E por fim, repare como Jim passa por uma placa de publicidade luminosa contendo a frase “Êxodo 8:2” segundos antes do primeiro sapo atingir seu carro.

Primeira previsão é de 82% de chuvaCartaz escrito Êxodo 8 2Placa de publicidade luminosa

Mas o que quer dizer este bendito versículo (sem trocadilho)? Uma rápida consulta a Bíblia traz as palavras de Deus para o faraó, reveladas na voz de Moisés: “Mas se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”. Em Magnólia, é justamente quando Frank implora para que seu pai não o deixe (“Don’t go away!”) que a chuva tem início, num momento em que todos pareciam estar sem saída ou encontrando soluções tragicamente definitivas para aliviar o sofrimento. Certamente a sequência mais polêmica de “Magnólia”, os sapos que surgem dos céus para salvá-los podem ser interpretados de várias formas, como o mencionado acaso que surge para alterar os seus destinos e mudar o rumo de suas vidas, mas esta pérola escondida por toda a projeção torna o longa ainda mais especial e brilhante.

Durante a chuva, o quadro com a frase “Mas realmente aconteceu” (“But it did happen”), já citada antes por Phil quando explicava a tentativa desesperada do pai em estado terminal de encontrar o filho no telefone (“Parece aqueles filmes…”), reforça a teoria da força do acaso em nossas vidas e serve para acalmar os mais céticos, ainda que a explicação bíblica esteja lá, espalhada de diversas formas por “Magnólia”. E vale dizer que, se tematicamente a cena tem um peso enorme, tecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita, visualmente impactante e com instantes plasticamente belíssimos como quando acompanhamos um sapo caindo lentamente num plano plongè.

Frank implora para que seu pai não o deixeMas realmente aconteceuTecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita

“O que podemos perdoar?”, questiona Jim instantes antes de encerrar esta obra-prima. A resposta é uma das mais difíceis que podemos encontrar. Assim, quando finalmente podemos ver o primeiro sorriso de Claudia, nos damos conta que já estamos no último plano do longa, mas nunca é tarde para encontrar alguma forma de redenção.

Narrativamente complexo, tematicamente rico e visualmente belo, “Magnólia” é uma obra-prima do cinema capaz de gerar grande polêmica, mas extremamente recompensadora para os amantes da sétima arte. Contando com um diretor talentoso e um elenco formidável, o longa tem o poder que somente os grandes filmes têm de tornar-se ainda mais especial em cada revisita. E isto, com o perdão do infame trocadilho, não é um mero resultado do acaso.

Magnólia foto 2Texto publicado em 25 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

FANTASIA 2000 (1999)

19 abril, 2016

(Fantasia/2000)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #227

Dirigido por James Algar, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Hendel Butoy, Francis Glebas, Eric Goldberg e Pixote Hunt.

Elenco: Leopold Stokowski, Ralph Grierson, Steve Martin, Itzhak Perlman, Quincy Jones, Bette Midler, James Earl Jones, Angela Lansbury. Vozes de Kathleen Battle, Wayne Allwine e Frank Welker.

Roteiro: Irene Mecchi e David Reynolds, baseado em histórias de Eric Goldberg, Joe Grant, Perce Pearce, Carl Fallberg, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Brenda Chapman e argumento de Elena Driskill.

Produção: Donald W. Ernst.

Fantasia 2000[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Prestes a completar 60 anos do lançamento de uma de suas obras mais ousadas, a Disney resolveu se auto homenagear e lançou uma nova versão do clássico “Fantasia”, de 1940, agora repaginado e com novas canções. Mais curto e menos inspirado que o original, o novo trabalho mantém características essenciais do primeiro filme, com animações interessantes e uma boa seleção de canções, mas perde por manter aspectos narrativos já desatualizados e que, tantos anos depois, soam totalmente desnecessários.

Novamente trabalhando na ideia corajosa de misturar música clássica com animação, “Fantasia 2000” infelizmente também mantém as irritantes participações de atores e atrizes entre os clipes, que nada agregam e ainda representam uma frustrante quebra no ritmo da narrativa. Se em 1940 estas interrupções eram necessárias para explicar o conceito do longa à uma plateia ainda desacostumada com aquilo, nos anos 90 essa explicação já não era mais necessária (ou não deveria ser). Assim, somos obrigados a acompanhar as piadas sem graça de Steve Martin, por exemplo, ou a participação de um claramente deslocado James Earl Jones – a eterna voz de Darth Vader. Curiosamente, a única intervenção que funciona é justamente aquela que não envolve seres humanos, cabendo a Mickey e Donald estrelarem a única sequência engraçadinha entre os clipes.

“Fantasia 2000” começa relembrando a obra de 1940 e seu primeiro clipe chamado “Sinfonia n.º 5” também faz alusão ao longa original, já que, assim como a primeira sequência de “Fantasia”, aqui temos um festival de imagens abstratas, desta vez acompanhadas pela bela música de Bethoween. A sequência dirigida por Pixote Hunt funciona exatamente como “Toccata and Fugue in D Minor” no primeiro filme, introduzindo o conceito sem grandes experimentos, sendo o segmento menos envolvente do filme.

Já o segundo clipe eleva substancialmente o nível de “Fantasia 2000” ao trazer um segmento envolvente narrativamente e impactante visualmente. Ao som da música de Ottorino Respighi, “Pinheiros de Roma” nos traz a triste história de uma baleia que se perde da mãe, contada através de uma animação impecável em 3D (aliás, o primeiro segmento da Disney feito todo em 3D). O visual deslumbrante da vida marinha surge em tons menos coloridos e sem vida, reforçando a frieza do gélido local através dos tons azulados e transformando até mesmo a aurora boreal em algo melancólico, transmitindo o sentimento da pobre jovem baleia que se perde da família até finalmente reencontrá-la. Momentos surreais com baleias voando e bailando diante do céu estrelado complementam o belo segmento dirigido por Hendel Butoy.

O terceiro segmento, dirigido por Eric Goldberg, representa um retrocesso não apenas visualmente, como também narrativamente. Com linhas mais simples em 2D, a ideia é representar a vida de trabalhadores na Nova York dos anos 30, com destaque para os operários de uma obra em construção. Apesar da interessante dinâmica entre as diferentes profissões e da abordagem até divertida, “Rapsódia em Azul” acaba resultando num segmento menos envolvente que o anterior e talvez funcionasse melhor se surgisse antes de “Pinheiros de Roma”.

Sinfonia n.º 5Rapsódia em AzulConcerto de Piano No 2

Mantendo a gangorra de “Fantasia 2000”, o quarto segmento é muito mais interessante. Também dirigido por Hendel Butoy (parece que ele deveria ter dirigido todo o longa, não?), “Concerto de Piano No 2” traz o clássico de Hans Christian Andersen “O Soldadinho de Chumbo” ao som da música de Dmitri Shostakovich que, obviamente, dá nome ao clipe. Mais moderno em termos narrativos, o clipe traz um soldado que se apaixona por uma bela boneca de porcelana dançarina e desperta o ciúme de um palhaço. Aqui vale notar como o visual representa muito bem os sentimentos dos personagens, com os tons vermelhos e a música acelerada representando a fúria do palhaço, enquanto o visual assustador e opressivo no esgoto demonstra a angústia do pobre soldado. O caso de amor entre o soldado de chumbo e a boneca de porcelana terá um final feliz, mas não sem passar por momentos de adrenalina que são muito bem representados na música de Shostakovich.

O próximo segmento representa o bem vindo alívio cômico após a passagem anterior. Inspirado na música de Camille Saint-Saëns, “O Carnaval dos Animais” diverte ao trazer um flamingo brincando com um ioiô e irritando os demais, mas assim como o outro segmento dirigido por Eric Goldberg, não figura entre os destaques do longa. Em seguida, “Fantasia 2000” resgata uma das melhores sequências do longa original, estrelada pelo personagem mais famoso da Disney. Dirigida por James Algar, “O Aprendiz de Feiticeiro” continua um segmento poderoso, embalado pela música clássica de Paul Dukas e repleto de momentos marcantes, como a assustadora multiplicação das vassouras e aquele que traz Mickey empolgado brincando com seus novos poderes.

O Carnaval dos AnimaisAprendiz de FeiticeiroPompa e circunstância

Dirigido por Francis Glebas, “Pompa e circunstância” traz a famosa música clássica embalando uma bela história envolvendo o pato Donald numa jornada na arca de Noé, onde se desencontra da amada Margarida e passa por diversos obstáculos até finalmente reencontrá-la. Visualmente muito interessante, o segmento nos prepara para o fechamento de “Fantasia 2000” de maneira convincente, equilibrando momentos de humor com outro de apelo emocional. No entanto, é o segmento “O Pássaro de Fogo” que concorre com “Pinheiros de Roma” pela posição de melhor sequência do filme. Inspirado em um conto russo e acompanhado pela composição homônima de Igor Stravinski, este número de encerramento impressiona pelo visual arrebatador, iniciando na melancólica sequência em que vemos o espírito da primavera percorrendo o campo tentando trazer vida até encontrar um vulcão adormecido, passando pelos tons vermelhos que trazem o vulcão acordando e destruindo tudo ao seu redor e finalizando na bela calmaria quando finalmente o espírito consegue devolver as cores ao local, numa bela sequência que vincula a passagem das estações à vida, a morte e a ressurreição.

E se o último segmento representa a renovação e a esperança que ela traz, “Fantasia 2000” também se sai bem como o novo representante de uma ideia muito interessante, num festival de cores e sensações ainda eficiente, mas sem a magia do original. Nem precisava tanto.

Fantasia 2000 foto 2Texto publicado em 19 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

Feliz aniversário meu amor!

15 abril, 2016

Algumas pessoas nasceram para brilhar.

Seja na carreira profissional, seja entre amigos ou como a mãe dos meus filhos, tudo que você faz na vida é carregado de um encanto que surge de sua alegria contagiante, de seu sorriso cativante, de sua sinceridade desconcertante.

Sua beleza se torna ainda mais bela pela forma como se expressa e, principalmente, por sua determinação em ser cada dia uma pessoa melhor. Eu adoraria ser como você, mas este brilho é para poucos.

Com você vivi a maioria dos momentos mais especiais da minha vida. A adrenalina dos primeiros encontros, o encanto em cada viagem, o amor que transbordou em nosso casamento e, obviamente, a emoção nos dois dias mais importantes de nossas vidas são instantes que carregarei comigo por toda a eternidade.

Você é linda, qualquer pessoa sabe disso, mas você se torna ainda mais linda pela maneira que ama e cuida da nossa família. Se eu tenho a sorte de ter a melhor esposa que Deus poderia me dar, nossos filhos têm a benção de ter a mamãe mais especial que poderiam ter.

Por isso, só posso te desejar que continue assim, alegre, feliz, linda e, principalmente, uma pessoa tão boa. Que Deus nos dê saúde e paz.

Obrigado por fazer nossa família tão feliz!

Nós te amamos. Feliz Aniversário amor da minha vida!

Feliz AniversárioTexto publicado em 15 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

DE OLHOS BEM FECHADOS (1999)

11 abril, 2016

(Eyes Wide Shut)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #226

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Todd Field, Leelee Sobieski, Madison Eginton, Alan Cumming, Jackie Sawiris, Vinessa Shaw, Christiane Kubrick e Leon Vitali.

Roteiro: Stanley Kubrick e Frederic Raphael, com base em livro de Arthur Schnitzler.

Produção: Stanley Kubrick.

De olhos bem fechados[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Último filme do genial Stanley Kubrick, “De olhos bem fechados” dividiu público e crítica na época do seu lançamento. Com uma atmosfera perturbadora, narrativa lenta e, como de costume na filmografia do diretor, abrindo diversas possibilidades de interpretação, o longa parece um tanto difícil, especialmente por abordar temas polêmicos e, principalmente, por sugerir uma sensualidade e erotismo que jamais chegam a se concretizar. Por isso, a sensação provocada no espectador que cria expectativa é de frustração, mas o fato é que mais uma vez Kubrick entregou uma obra complexa, instigante e repleta de simbolismos, que permite debates acalorados sobre os temas levantados em suas duas horas e meia de projeção.

Baseado no livro de Arthur Schnitzler, Kubrick desenvolveu o roteiro ao lado de Frederic Raphael, acumulando ainda a produção e, obviamente, a direção do longa. Como de costume, ele aproveita o material de origem para levantar questões complexas através de decisões sutis que nem sempre são perceptíveis ao grande público. Assim, cabe ao espectador interpretar algumas cenas para desenvolver sua linha de raciocínio – o que é sempre ótimo. Basicamente, “De olhos bem fechados” nos apresenta ao casal formado pela curadora de arte Alice (Nicole Kidman) e pelo médico Bill Harford (Tom Cruise) momentos antes de uma festa de gala promovida pelo milionário Victor Ziegler (Sydney Pollack). Durante a festa, ambos flertam com pessoas desconhecidas, o que leva a uma discussão acalorada no dia seguinte, na qual ela confessa ter sentido atração por outro homem no passado. À partir daí, Bill parte numa jornada por um mundo desconhecido e simultaneamente fascinante e assustador.

Logo na primeira cena, vemos a bela Alice se despindo de costas para a câmera até que, logo após ela ficar completamente nua, a tela escureça completamente, num enquadramento que simula um olhar curioso e, justamente por isso, coloca o espectador na posição de voyeur – o que, além de indicar um dos temas do filme, ainda funciona como o primeiro momento em que o erotismo é interrompido. Somada a olhada rápida dela para o espelho na única cena em que troca carícias com o marido, esta sequência inicial é essencial para compreender uma das chaves da narrativa – ou ao menos explicar uma linha de raciocínio possível. Mais pra frente, a revelação do sonho envolvendo pessoas a observando numa orgia reforça a ideia do voyeurismo e de quebra levanta a probabilidade dela ao menos ter curiosidade pelo tema, ainda que possa ser apenas um desejo sexual e nada mais. Esta complexa relação entre sonho e realidade, entre desejo e rotina, será o ponto central de “De olhos bem fechados”.

O tema dos desejos frustrados surge já na festa inicial, regada a champanhe e frequentada pela alta sociedade, na qual Alice e Bill flertam com pretendentes, chegam ao limite, mas jamais concretizam a traição. Os tons dourados que dominam a festa e as roupas elegantes escolhidas pela figurinista Marit Allen criam um cenário repleto de pompa que surge como o contraponto ideal para a sequência vindoura que Bill viveria, numa espécie de transposição do desejo carnal não realizado para o local onde ele poderia se concretizar, também numa festa da alta sociedade, mas agora distante das formalidades daquela que abre o filme. Secretamente, a elite podia se despir (sem trocadilhos) das convenções sociais e mergulhar nos mais primitivos desejos. Enquanto na festa inicial as pessoas falam, falam e quase nunca concretizam seus desejos, no ritual secreto as palavras mal são pronunciadas, deixando espaço apenas para o corpo agir em busca de seu prazer.

Alice se despindoAlice e Bill flertam com pretendentesCenário repleto de pompa

Adotando uma estrutura narrativa quase investigativa, Kubrick mantem o espectador grudado na tela enquanto acompanha Bill sendo sugado por aquele mundo misterioso, nos deixando tão curiosos, fascinados e assustados quanto ele. Assim, se no primeiro dia temos a sensação de estarmos descobrindo um universo novo através dos olhos dele, no dia seguinte, quando ele passa pelos mesmos lugares, acompanhamos seu acerto de contas com a surreal noite anterior compartilhando os mesmos questionamentos do personagem. Empregando movimentos de câmera suaves e elegantes, Kubrick cria uma atmosfera de pesadelo, reforçada pelos diálogos lentos e pela montagem de Nigel Galt, que cria uma narrativa episódica, conduzida sem pressa alguma pelo diretor. Ainda assim, as principais características da carreira de Kubrick estão presentes. Os enquadramentos perfeitos, as imagens impactantes e até mesmo o uso do plano-sequência, que aqui surge rapidamente antes da entrada de Bill no apartamento de um paciente falecido no qual será beijado pela filha dele e, com maior duração, no passeio pela orgia secreta que abordaremos em mais detalhes em instantes.

Sempre exigente na direção de atores, Kubrick extrai mais uma vez atuações marcantes, com destaque entre o elenco secundário para a jovem Leelee Sobieski na surreal cena dentro de uma loja de fantasias, na qual sua presença quase hipnótica como a filha do dono rouba nossa atenção sem que ela precise dizer quase nenhuma palavra. Sydney Pollack também convence como o rico amigo de Bill que o convida para a festa e Todd Field tem importante participação como o pianista que introduz Bill aquele mundo secreto.

Demonstrando coragem para surgir nua muitas vezes, Nicole Kidman tem uma boa atuação como Alice, ganhando destaque especialmente nas discussões com o marido e até mesmo na cena em que eles dois surgem drogados (criticada por alguns) que, apesar de algum exagero, convence. No diálogo mais importante do filme, Kidman demonstra muito bem o ressentimento de Alice com a visão de mundo do marido, questionando tabus e convenções sociais extremamente machistas ao afirmar que a mulher tem tantos desejos quanto o homem, escancarando que às vezes elas são mais comedidas apenas em função das limitações impostas pela sociedade. E aqui, vale observar como o tom azulado atrás dela já indica a melancolia que tomará conta da personagem após a revelação, enquanto o vermelho que domina o cenário atrás de Bill indica o caminho da paixão carnal e do “pecado” que ele irá seguir a partir dali. Após fumar maconha e abordar um assunto delicado que traz à tona segredos bem guardados, a tensão toma conta da narrativa enquanto Alice revela seus pensamentos eróticos, especialmente pela boa performance dos atores e pelos closes de Kubrick que ampliam esta tensão.

Presença quase hipnóticaTom azulado atrás delaVermelho atrás de Bill

No entanto, a boa performance de Kidman é superada pela atuação memorável de Cruise. Com mais tempo de tela e a responsabilidade de carregar a narrativa, o ator demonstra bem os conflitos de Bill e a aflição dele ao caminhar por um terreno desconhecido e lidar com o misto de curiosidade e medo diante daquilo tudo. Atormentado sempre que pensa na esposa com outro, algo reforçado pelo uso do preto e branco que simboliza sua angústia, ele decide partir em busca dos próprios desejos sufocados pela rotina da vida conjugal, mas sempre hesitante diante da culpa que, talvez inconscientemente, não deixa ele concretizar a traição – ao menos não sexualmente, já que ele tem um beijo roubado em certo momento. Curioso também é notar como ele não hesita em usar o fato de ser médico para conseguir o que quer, numa falta de ética que, por outro lado, reforça a necessidade de lembrar sua verdadeira identidade diante daquele universo que estava descobrindo.

Após a revelação da esposa, o predomínio de tons escuros, a roupa preta de Bill e a noite conferem um clima mais pesado à narrativa, reforçado pelo uso da música clássica – outra marca da carreira de Kubrick, aliás. E então, após a conversa com seu amigo pianista num bar, somos levados a sequência mais misteriosa de “De olhos bem fechados”, repleta de simbolismos e cercada de mistério. Trabalhando em riqueza de detalhes como só um perfeccionista como Kubrick poderia fazer, o diretor cria uma atmosfera incrivelmente misteriosa nos instantes prévios à festa secreta, nos levando para dentro do ambiente com a mesma sensação de aflição e ansiedade do protagonista. A extraordinária trilha sonora de Jocelyn Pook começa a martelar em nossa cabeça (especialmente a música “Backwards Priest”, executada no sentido inverso como nos rituais de magia negra) enquanto vemos Bill descobrindo aqueles corpos cobertos de roupas pretas, as máscaras venezianas e o líder vestido de vermelho no centro daquele ritual ocultista ocorrido dentro do antigo palácio Mentmore Towers – que, não por acaso, ficou marcado justamente pelas orgias em festas mascaradas da elite na vida real. Enfeitado com adereços que criam o clima perfeito para o ritual (design de produção de Les Tomkins e Roy Walker), o ambiente se torna ainda mais impactante pela iluminação magistral do diretor de fotografia Larry Smith, que realça o círculo central onde as belas jovens serão despidas antes de seguirem com seus parceiros para os outros cômodos do local.

Pensa na esposa com outroPredomínio de tons escuros, a roupa preta de Bill e a noiteRitual

As palavras da música pronunciadas ao contrário confirmam a intenção de soar como algo profano e o som das batidas do cajado no chão, reforçado pelo silêncio das pessoas, aumentam a sensação de aflição no espectador, criando a atmosfera de pesadelo defendida por algumas linhas de interpretação do filme. Para completar, a trilha sonora exótica que acompanha os travellings pelo salão repleto de pessoas transando e o mistério reforçado pelo uso das máscaras provocam um estranhamento que se mistura a curiosidade tanto do protagonista quanto do espectador. Da mesma forma, seu julgamento após ser descoberto provoca a mesma agonia na plateia, numa cena em que a tensão palpável quase salta da tela, tamanha a competência da direção de Kubrick.

Mas se tecnicamente “De olhos bem fechados” é perfeito, tematicamente o longa é ainda mais complexo, especialmente pelos simbolismos espalhados por Kubrick por toda a narrativa. Enquanto os espelhos funcionam como uma válvula para Alice enxergar quem ela verdadeiramente é, o arco-íris, que surge primeiro nas palavras das belas jovens que cortejam Bill e depois na fachada da loja de fantasias, representa a passagem da terra para o céu, a caminhada de Bill do lado de cá para o lado de lá, onde, segundo as jovens, seus desejos se realizariam. Some a isso todos os símbolos ocultos que permeiam o ritual da elite e temos um prato cheio para diversas interpretações.

No entanto, o fato é que o prazer sempre é interrompido na narrativa, evidenciando um dos temas centrais de “De olhos bem fechados”, que é o citado conflito entre a realidade e o sonho, o desejo carnal e as fantasias eróticas em contraposição à rotina da vida conjugal. Seria possível viver uma relação sem dar vazão às próprias fantasias ou este sufocamento leva as pessoas a imaginarem e sentirem desejos incontroláveis fora dali? Tudo que ocorre naquela noite é envolto em um ar de mistério. Por isso, até o diálogo revelador com o amigo Victor que parece solucionar o enigma na realidade também permite diversas leituras. Apesar de fazer todo sentido, não necessariamente precisamos acreditar naquela versão. Kubrick não quer entregar uma solução fácil e nos permite diversas interpretações, dentre elas aquela que afirma que tudo não passa de um sonho do médico – e que não descarto, apesar de não concordar totalmente com ela.

Os espelhosO arco-írisDiálogo revelador com o amigo Victor

Apesar da crise provocada pela revelação de Alice e da noite nada comum de Bill, a verdade é que nenhum deles chega de fato a transar com outra pessoa, ainda que as marcas da intenção de ambos de trair fiquem. Por isso, a conclusão da narrativa é perfeita e, curiosamente, constata um dos fatores que levou muitos dos fãs a se decepcionarem – especialmente aqueles que esperavam cenas tórridas do casal do momento na época. Após conversarem muito sobre tudo que viveram naquelas lúdicas 48 horas, Alice diz para Bill que eles precisavam urgentemente transar. Depois de tantas tentativas sem sucesso de ter algum prazer carnal, estava na hora deles resolverem este problema.

Escolhendo um casal extremamente famoso para protagonizar uma narrativa que envolve mistério, temas polêmicos e ainda questiona a rotina das relações conjugais, Kubrick não seguiu pelo caminho mais fácil e, mais uma vez, entregou uma obra capaz de levantar inúmeros questionamentos e reflexões. Assim, “De olhos bem fechados” acaba sendo a conclusão perfeita de uma carreira genial, ainda que soe melancólico justamente por marcar o fim da linha para um diretor extremamente talentoso e corajoso. Uma pena que o cinema tenha perdido Kubrick tão cedo.

De olhos bem fechados foto 2Texto publicado em 11 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

4 abril, 2016

Olá pessoal,

Abaixo as últimas novidades em DVD:

Drive (2011)

Frozen – Uma Aventura Congelante (2013)

Garota Exemplar (2014)

Interestelar (2014)

Bob Esponja – Um herói fora d’água (2015)

Missão Impossível: Nação Secreta (2015)

Um abraço.

Videoteca do Beto Abr2016Texto publicado em 04 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

CLUBE DA LUTA (1999)

28 março, 2016

(Fight Club)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

 

Videoteca do Beto #225

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Jared Leto, Eion Bailey, Rachel Singer, David Andrews, Thom Gossom Jr., Pat McNamara, Tim DeZarn, Ezra Buzzington, Peter Iacangelo, Carl Ciarfalio, Holt McCallany, Matt Winston, Richmond Arquette, George Maguire e Bob Stephenson.

Roteiro: Jim Uhls, baseado em romance de Chuck Palahniuk.

Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin e Art Linson.

Clube da Luta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Solenemente ignorado pela Academia no Oscar com apenas uma indicação técnica, “Clube da Luta” rapidamente se tornou cult, sendo celebrado como um dos melhores filmes da década de 90. Intenso, inteligente e visceral, o longa dirigido por David Fincher provoca forte impacto no espectador, seja por sua narrativa criativa, seja pelas reflexões que provoca. No entanto, uma análise mais profunda revela que a obra-prima estrelada por Edward Norton e Brad Pitt tem muito mais a oferecer do que simplesmente uma ótima reviravolta e sangrentas cenas de luta.

Escrito por Jim Uhl, baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” acompanha o cotidiano de um investidor de seguros consumista (Edward Norton) que sofre de insônia e, para tentar se curar, passa a frequentar grupos de terapia coletiva até a chegada do subversivo Tyler Durden (Brad Pitt) transformar completamente sua vida. Juntos, eles formam um clube secreto onde homens trocam socos após seus estressantes dias de trabalho para relaxar. No entanto, o clube começa a ganhar grande proporção e passa a ter objetivos maiores.

Superficialmente, “Clube da Luta” é um excelente filme repleto de ação sobre homens que resolvem extravasar suas frustrações em clubes secretos de luta até ganhar outra dimensão após sua reviravolta narrativa, daquelas que pertencem ao seleto grupo de plot twits que nos dá vontade de rever o filme imediatamente. Entretanto, uma leitura mais profunda da mensagem nada subliminar do filme é que nos oferece seu verdadeiro tesouro – mas, ao contrário do ritmo alucinante do longa, vamos com calma.

Levando-nos através de uma curiosa viagem pelo cérebro do narrador logo em seus créditos de abertura, acompanhados pela moderna e inquietante trilha sonora dos Dust Brothers (John King e Michael Simpson), o diretor David Fincher imprime uma direção enérgica em boa parte da narrativa, ainda que inicialmente ele e seu montador James Haygood se esforcem para transmitir os efeitos angustiantes da insônia sofrida pelo protagonista. Assim, da mesma forma que o narrador, nós também nos sentimos cansados no primeiro ato e encontramos até certo alívio nos grupos de terapia coletiva, onde a câmera se torna mais estável e o ritmo menos acelerado. A montagem ágil, aliás, colabora na excitação provocada em boa parte do filme, deixando o espectador sempre ansioso pelo que verá a seguir sem jamais nos deixar confusos, contando ainda com transições ousadas como quando acompanhamos o narrador contando em detalhes o encontro de Tyler com Marla enquanto vemos as imagens do ocorrido.

Da mesma forma, a narrativa não linear jamais faz com que o espectador se perca, graças à segurança com que Fincher conduz cada sequência e à ótima estrutura do roteiro. No entanto, não é apenas na maneira como conduz o longa que Fincher se destaca. A atmosfera subversiva de “Clube da Luta” é construída meticulosamente através do excepcional trabalho de Fincher e sua equipe técnica. Assim, se o apartamento decorado com móveis de revistas de decoração representava o executivo “bem sucedido” do mundo atual, a casa praticamente abandonada e suja em que ele passa a viver após a explosão representa sua nova fase na vida, guiada pelo desapego material pregado por Durden, o que é mérito do design de produção de Alex McDowell, responsável também por criar ambientes maravilhosos como o próprio clube que dá nome ao filme.

Viagem pelo cérebro do narradorEfeitos angustiantes da insôniaApartamento decorado com móveis de revistas de decoração

Também colabora nesta transformação os figurinos de Michael Kaplan, que criam o contraste entre as roupas sóbrias que o narrador veste e as roupas coloridas e estridentes de Durden, além é claro, do visual mórbido de Marla, a amante de Durden vivida pela sempre sombria Helena Bonham Carter. Sombrio também é o visual de “Clube da Luta”, obtido através das escolhas de Fincher e seu diretor de fotografia Jeff Cronenweth, que apostam numa paleta dessaturada recheada de cores sóbrias e no uso de cenas noturnas durante quase todo o filme, criando o ambiente obscuro necessário para o surgimento de uma revolução que nasce do lado mais selvagem e degradante do ser humano – e neste sentido, a ideia de uma fábrica de sabonetes que usa a banha das próprias clientes para sobreviver é simplesmente genial. Assim, uma das raras vezes em que vemos a luz do dia fora de ambientes fechados surge justamente após o sumiço de Tyler, ilustrando o despertar inconsciente de um novo homem que não mais necessitava de seu alter ego, apesar de ainda não saber disso. O tom azulado que predomina o ato final confere uma inesperada melancolia que prepara o espectador para a forte reflexão que surgirá quando após os créditos finais. Apesar da excitação provocada ao longo da narrativa, Fincher não quer que o espectador saia feliz com o que viu.

Roupas coloridas e estridentes de DurdenVisual mórbido de MarlaCenas noturnas durante quase todo o filme

Representação simbólica e gráfica da volta ao estado primitivo, as lutas repletas de sangue e suor são captadas com precisão por Fincher, que, auxiliado pelo excelente design de som, nos permite sentir cada golpe como se estivéssemos lá dentro. Visualmente impactantes, os combates provocam excitação e asco em igual proporção, num efeito curioso que ocorre mesmo em pessoas pacifistas como este que vos escreve. Obviamente, a empolgação dos personagens em cena colabora intensamente para este efeito, já que jamais sentimos que eles sofrem ou correm risco nestas lutas, mesmo quando são literalmente massacrados pelos adversários, pois os combates normalmente se encerram com sorrisos e abraços entre homens que entendem aquilo como uma válvula de escape brutal diante da sociedade opressora em que vivem.

Este estilo de vida sufocante é muito bem refletido pelo narrador interpretado brilhantemente por Edward Norton. Desde o semblante abatido até a voz cansada, Norton compõe o personagem com competência, transmitindo sua falta de forças diante de tudo que o cerca e sua inabilidade para reagir ao que tanto lhe incomoda, sendo incapaz de demonstrar grandes emoções até mesmo quando seu apartamento explode (e compreenderemos isto melhor mais para frente na narrativa). Assim, a ideia da insônia também é interessante, representando muito bem o estado de espirito do personagem (“Quando se tem insônia, você nunca dorme de verdade e nunca acorda de verdade”).

Lutas repletas de sangue e suorSemblante abatido até a voz cansadaEnérgico e confiante

Diametralmente contrário a letargia do narrador, Tyler Durden representa exatamente o oposto em termos de personalidade. Enérgico, confiante e sempre pronto a desafiar o padrão estabelecido, ele representa tudo que o narrador quer ser e não consegue. Obviamente, a atuação monstruosa de Brad Pitt é vital para o sucesso da narrativa, já que ele esbanja carisma e vitalidade no papel e jamais nos faz ter dúvidas quanto às suas motivações, ainda que suas ações possam ser questionadas sob o ponto de vista ético. Dono dos discursos mais ácidos e interessantes do longa, Durden leva o narrador ao limite extremo durante os dois primeiros atos, até que simplesmente desaparece e abre espaço para a impactante revelação – muito bem conduzida por Fincher, aliás – que faz a cabeça do espectador borbulhar e dá início ao surreal terceiro ato.

“Se você acorda num tempo diferente, num lugar diferente, você pode acordar como uma pessoa diferente?”

Apesar do choque, a reviravolta de “Clube da Luta” é indicada diversas vezes na narrativa de maneira sutil, seja visualmente, seja através de frases ou momentos vividos pelo narrador (e o próprio fato dele não ter nome já é uma dica em si). Aliás, todo o primeiro ato é trabalhado cuidadosamente para criar o cenário para o surgimento de Durden. Sufocado pelo próprio estilo de vida, o narrador questiona não apenas o próprio consumismo, mas toda a sociedade que o cerca, buscando desesperadamente uma saída. Para simbolizar esta transformação gradual em seu pensamento, Fincher insere quatro flashes rápidos de Tyler até que ele finalmente entre em cena numa conversa trivial dentro de um avião – observe como as malas de ambos são idênticas. Instantes antes, a primeira aparição sem ser em flashes acontece justamente quando o narrador questiona se ao andar por tantos aeroportos e acordar em tantos lugares diferentes ele poderia acordar como uma pessoa diferente um dia – e ele acorda mesmo.

Flashes rápidos de TylerMalas de ambos são idênticasPrimeira aparição sem ser em flashes

Em outro instante, Tyler conversa com o narrador sobre seu pai e a resposta indica mais uma vez o segredo da narrativa: “Mesma história”. Além disso, outros personagens nunca dirigem a palavra aos dois ao mesmo tempo, o que revela o capricho da estrutura narrativa, nos levando a momentos como quando Marla ouve o narrador falando com Tyler e questiona: “Com quem você estava falando?”. Preste atenção ainda no instante em que o narrador fala como se fosse Tyler quando seu chefe encontra as regras do clube da luta impressas na copiadora da empresa. Durden representa o lado mais selvagem do narrador. Assim, quando a revelação vem à tona e a confusão mental se estabelece no personagem e no espectador, somos sugados por um conflito psicológico muito bem representado pelo último diálogo entre eles, no qual o protagonista simbolicamente assassina seu alter ego, numa cena surreal e muito rica em significados. Significados estes que ganham ainda mais força ao reler o filme em sua camada mais profunda.

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”

Apesar de sua visceralidade e da marcante reviravolta que nos leva ao ato final, é mesmo na ácida crítica ao capitalismo e à sociedade baseada no consumo exagerado e sem controle que reside o trunfo de “Clube da Luta”. Desde a excepcional sequência em que acompanhamos como o narrador decorou seu apartamento, somos apresentados a ideia revolucionária de uma narrativa que simplesmente despreza a vida voltada para o consumo, explícita em frases como: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Esta revolta contra o capitalismo ganha contornos trágicos em cenas como aquela em que Tyler ameaça matar Raymond (Joon B. Kim), o atendente de uma loja de conveniências que desistiu dos sonhos para se entregar a um trabalho que não gosta, poupando a vida dele em seguida em troca da promessa de que iria começar a estudar para ingressar na área que ama.

“Clube da Luta” não teme sequer recorrer a ideias extremistas para escancarar sua mensagem, como ao deixar claro que o próprio protagonista explodiu o apartamento em que vivia para se entregar a um novo estilo de vida (“Apenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos”). Questiona também a mentira de que todos chegarão ao topo através do esforço, constatando o fato de que só alguns terão esta oportunidade e, nem sempre, por mérito (“Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários”). Esta ideia subversiva é constantemente criticada por aqueles que defendem uma sociedade baseada simplesmente na ideia de consumir sempre o máximo que puder (base da econômica norte-americana, aliás), mas Fincher não poupa esta fatia sociedade e nem faz concessões, mantendo frases que podem soar agressivas aos ouvidos mais consumistas, como: “Você não é seu emprego”.

Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamosTyler ameaça matar RaymondApenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos

Assim, a metralhadora giratória impiedosa de “Clube da Luta” encerra sua mensagem em planos finais simplesmente perfeitos em seu simbolismo diante desta construção narrativa primorosa, com a implosão do sistema financeiro de uma grande metrópole, numa clara mensagem contrária ao capitalismo, ao capital especulativo, ao consumismo, à nossa sociedade supérflua e ao foco nos bens materiais. Goste você ou não da mensagem, não dá para negar que o filme é extremamente competente naquilo que se propõe a fazer.

Polêmico no Brasil devido ao assassinato em massa ocorrido em São Paulo, no qual injustamente tentaram imputar culpa ao longa, “Clube da Luta” é destes casos raros de filme em que podemos extrair muito mais do que superficialmente pode parecer. Ácida, enérgica e subversiva, a obra-prima de David Fincher cativa tanto quanto seu personagem mais famoso. E diferentemente da geração criticada por Tyler por não ter peso algum na história, este certamente é um trabalho que será lembrado pela eternidade.

Clube da Luta foto 2Texto publicado em 28 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

BELEZA AMERICANA (1999)

22 março, 2016

(American Beauty)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #224

Vencedores do Oscar #1999

Dirigido por Sam Mendes.

Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Chris Cooper, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards e Barry Del Sherman.

Roteiro: Alan Ball.

Produção: Bruce Cohen e Dan Jinks.

Beleza Americana[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Casas enormes e bonitas, carros modernos, verdadeiros lares de comercial de margarina. Quem não conhece algum local assim, seja nos subúrbios de classe média e alta dos EUA ou aqui mesmo no Brasil? Bom, se você imaginou que a resposta é “qualquer um”, provavelmente está distante da realidade de muitas pessoas do país. Só que, ao contrário do que os sorrisos tentam nos dizer nestes comerciais, estas famílias são compostas por seres humanos que, como qualquer outro, são repletos de problemas, com suas angústias, dúvidas e anseios e, o que é pior, muitas vezes sonhos reprimidos num estilo de vida maçante e padronizado pelo consumo exacerbado e a preocupação com as aparências. Desde o primeiro plano deste excepcional “Beleza Americana”, Sam Mendes nos faz mergulhar num destes bairros, nos convidando a olhar mais de perto tudo que ocorre ali.

Escrito por Alan Ball, “Beleza Americana” nos mostra o cotidiano da família tradicional de classe média norte-americana formada por Lester Burnham (Kevin Spacey), sua esposa Carolyn (Annette Bening) e sua filha Jane (Thora Birch), que vivem uma crise familiar oculta sob a aparência de família perfeita e que vem à tona quando o novo vizinho Ricky (Wes Bentley) e a jovem Angela (Mena Suvari) entram no convívio deles.

Quebrando uma regra narrativa logo de cara ao anunciar a morte do protagonista, “Beleza Americana” já deixa claro que veio para quebrar os padrões estabelecidos e questionar tudo que estiver ao seu alcance. No caso, seu alcance se resume a um típico bairro de classe média nos EUA, do qual nos aproximamos através de um lento zoom empregado pelo diretor Sam Mendes, numa estratégia que se repetirá ao longo da narrativa alternada com o uso do zoom out, reforçando sua intenção de nos colocar como meros observadores daquele cotidiano. Neste aspecto, Ricky assume um papel muito importante ao observar tudo através de sua câmera, numa representação interessante do nosso papel enquanto espectadores. Vivido de maneira centrada e coerente com o personagem por Wes Bentley, Ricky é o canal que o diretor utiliza para nos mostrar aquele mundo de aparências, tendo tanto no lar dos vizinhos como dentro de sua própria casa exemplos de como – com o perdão do clichê – estas aparências enganam.

Até por isso é compreensível que Ricky e Jane tenham empatia, já que ambos dividem as mesmas frustações por saberem as máscaras que escondem os problemas de suas famílias. Ainda assim, Jane resiste à sua aproximação até o momento em que ele diz, novamente escancarando a função de seu personagem: “Não estou obcecado, apenas curioso”. Interpretada como uma pessoa reclusa e até certo ponto revoltada com tudo aquilo, a Jane de Thora Birch faz uma parceria perfeita com o centrado Ricky, o que os torna o ponto de equilíbrio de um filme repleto de personagens emocionalmente instáveis.

Assumindo uma abordagem quase investigativa, Sam Mendes aproveita para criar uma atmosfera de suspense em diversos momentos, com a trilha sonora de Thomas Newman evocando este tom de mistério, alternando muito bem com a composição exótica que acompanha os pensamentos de Lester e complementando momentos muito interessantes como quando Ricky se emociona ao ver uma sacola plástica dançando no ar, demonstrando sua sensibilidade. E se os figurinos de Julie Weiss são importantes para demonstrar tanto o bom poder aquisitivo daquelas pessoas como as diferenças entre as personalidades delas (a mãe sempre com roupas de grife e a filha com seu visual dark, por exemplo), o design de produção de Naomi Shohan também é essencial para dar vida àquele ambiente, com casas muito bem decoradas e simetricamente organizadas, ilustrando a enorme preocupação com as aparências.

Típico bairro de classe média nos EUAObserva tudo através de sua câmeraRicky se emociona ao ver uma sacola plástica dançando no ar

Essencial numa narrativa que salta do cotidiano de uma família para a outra sem nos fazer perder a atenção, a montagem de Tariq Anwar e Christopher Greenbury ainda nos presenteia com momentos muito elegantes, como a sarcástica sequência de abertura em que Lester descreve seu cotidiano e a bela sequência de encerramento em que ele recorda passagens marcantes da vida. No entanto, o grande destaque da parte técnica vai para a direção de fotografia de Conrad L. Hall, que explora as cores e os dias ensolarados da vida naquele subúrbio norte-americano com precisão, mais parecendo em diversos momentos estar filmando casas de bonecas, tamanha a perfeição da simetria entre as casas e a bela iluminação do sol, numa representação da artificialidade daquilo tudo que reforça a abordagem ácida da narrativa quanto aquele estilo de vida muitas vezes vazio. Mas a fotografia não se resume a isso somente. Observe, por exemplo, como quase sempre que Lester está empolgado, temos a presença de algum objeto vermelho em cena (seu carro novo é vermelho, assim como seu carrinho de controle remoto, por exemplo), simbolizando sua excitação ao mesmo tempo que nos faz lembrar da flor que dá nome ao filme. Típica dos subúrbios norte-americanos, a American Beauty é uma flor muito bela quando vista de longe, mas ao chegarmos mais perto descobrimos que ela não tem cheiro e nem espinhos, o que explica o slogan “olhe mais de perto”, pois ao nos aproximarmos dela compreendemos sua artificialidade, assim como ocorre naqueles bairros.

Quando Lester e Angela finalmente se beijam, observe como o zoom (olha ele aí!) realça um vaso de flores vermelhas à frente do casal e, lentamente, exclui as flores do quadro e foca naquele beijo triste entre um homem marcado pela vida sufocante que levou até ali e uma moça que encontrou na superficialidade uma forma de se defender dos constantes assédios que sofria. A chuva ao fundo complementa o tom melancólico que antecede a surpreendente revelação de Angela, que tornará a personagem mais triste, sofrida e muito mais humana do que parecia até então. Aliás, repare como Conrad L. Hall e Sam Mendes abandonam os tons vivos e adotam as sombras no ato final, reforçadas pela chuva e o cair da noite, aumentando a tensão, como quando o coronel Frank (Chris Cooper) ataca o próprio filho após achar que ele era homossexual, nos deixando ainda mais oprimidos pela clausura e pela escuridão que dominam a cena.

Objeto vermelho em cenaLester e Angela finalmente se beijamCoronel ataca o próprio filho

Assim como Mena Suvari, que encarna Angela como a representação da mulher superficial que só pensa na imagem que as pessoas terão dela, o coronel Frank Fitts interpretado por Chris Cooper é o estereótipo do miliar durão que acredita na disciplina e nas regras, mas que esconde muitos segredos exatamente por não ter coragem de enfrentar o autoritarismo e se expor. Realizando exames periódicos para manter o filho “na linha”, Frank é uma figura triste, amargurada e presa a um estilo de vida imposto e no qual ele acredita ser o único meio correto de viver. E novamente como Angela, o coronel reserva uma grande revelação para o ato final, quando tenta beijar Lester e mostra que na verdade luta para sufocar seus desejos homossexuais, numa cena surpreendente, tocante e triste.

Por sua vez, Ricky aprendeu a lidar com o pai desde cedo, evitando o confronto e dizendo exatamente o que ele quer ouvir, o que talvez seja a única forma de sobreviver ao conviver com ignorantes. Já sua mãe Barbara (Allison Janney) escolheu outro caminho para conviver com um homem tão amargurado, apenas vegetando naquele ambiente, possivelmente esgotada após tantos anos tendo que se defender de um homem extremamente autoritário. Enquanto o filho prefere dizer o que o pai quer ouvir, ela simplesmente se calou e preferiu viver reclusa.

Mas não são somente os Fitts que tem problemas escondidos sob aquelas casas perfeitas. Evidenciando o distanciamento do casal nos planos que acompanham os luxuosos jantares e que colocam marido e mulher em lados opostos da mesa, Sam Mendes quer mesmo é nos mostrar a família Burnham. Verdadeiro símbolo do tipo de pessoa obcecada pelo “sucesso” (como se isso pudesse ser medido pela posição que ocupa numa empresa ou pelo dinheiro que se tem), Carolyn representa uma caricatura da mulher falsa e preocupada com as aparências e, apesar da personagem exigir uma atuação exagerada, Bening até faz um bom trabalho, ainda que soe um pouco over em alguns instantes. Irritante em sua busca pela perfeição no sentido mais pejorativo que esta palavra possa ter, ela sequer é capaz de demonstrar alegria ao ver a apresentação da filha (“Você não fez nada de errado”), tornando-se humana somente diante de seu concorrente num jantar, demonstrando a admiração que sente por ele e, mais do que isso, pelo estilo de vida dele que ela tanto deseja ter.

Figura tristeLuxuosos jantaresCaricatura da mulher falsa

Assim como sua posição na mesa de jantar, Lester se coloca no espectro oposto ao de sua esposa quando falamos de visão de mundo. Infeliz em seu escritório de trabalho cinza e sem vida, Lester – vivido com brilhantismo por Spacey – é o típico homem que se entregou às convenções da sociedade que o cerca, descartando seus sonhos em função das expectativas alheias. Assim, não é surpresa quando constatamos que ele não ouve as músicas que gosta há anos e que jamais cogitou a possibilidade de comprar o carro que amava, mesmo tendo capacidade financeira para tal. Só que a mesma mesa de jantar presenciará o instante em que tudo começa a mudar, após Lester despertar do sono profundo ao ver a amiga da filha dançando na quadra da escola. Na briga durante o jantar, Lester tira das costas todo o peso da vida letárgica que levava até então e decide revolucionar a própria história (“Sou só um cara comum sem nada a perder”), voltando a fazer tudo que sentia vontade sem culpa – observe seu sorriso de pura felicidade e alívio quando briga com a esposa na cama e diz o que estava engasgado há muito tempo, numa das inúmeras cenas que demonstram a qualidade da interpretação de Spacey.

Escritório de trabalho cinza e sem vidaAmiga da filha dançandoPrestes a derramar cerveja no sofá

O casal, aliás, vive cenas simultaneamente divertidas e tristes, daquelas que nos provocam sorrisos no canto da boca e reflexões profundas, algo típico do humor politicamente incorreto da mais pura qualidade, que toca em questões centrais sem ser ofensivo. Entre elas, podemos destacar o instante em que Carolyn descobre que Lester fuma maconha e ele e Ricky não conseguem conter o riso e aquela em que Lester finalmente volta a sentir atração por Carolyn e, mesmo excitada, ela encontra espaço para observar que ele está prestes a derramar cerveja no sofá, colocando os valores materiais acima do próprio relacionamento com o marido. Há espaço também para momentos singelos, como o sorriso genuíno dele ao ouvir que a filha está feliz e o choro desesperado da esposa ao saber que o marido foi assassinado, demonstrando que mesmo com tantos problemas, ainda existia amor ali. A sequência final é coerente, inquietante e elegante, conduzida com calma através dos belos movimentos de câmera de Mendes e com poder suficiente para deixar o espectador bastante reflexivo diante de tudo que viu.

“Beleza Americana” desmonta estereótipos e mitos do american way of life. A trilha melancólica que acompanha o zoom out que nos distancia daquele bairro nos leva a refletir: quantos casos semelhantes temos em nossa sociedade? Quantas vidas baseadas na aparência e preocupadas com o que os outros pensam de nós? Uma tragédia moderna.

Beleza Americana foto 2Texto publicado em 22 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

À ESPERA DE UM MILAGRE (1999)

14 março, 2016

(The Green Mile)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #223

Dirigido por Frank Darabont.

Elenco: Tom Hanks, David Morse, Michael Clarke Duncan, Bonnie Hunt, James Cromwell, Jeffrey DeMunn, Barry Pepper, Doug Hutchison, Michael Jeter, Graham Greene, Sam Rockwell, Patricia Clarkson, Harry Dean Stanton, Bill McKinney, Brent Briscoe, Gary Sinise, Rachel Singer, William Sadler, Dabbs Greer e Eve Brent.

Roteiro: Frank Darabont.

Produção: Frank Darabont e David Valdes.

À Espera de um Milagre[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Frank Darabont parece ter nascido para adaptar os livros de Stephen King para o cinema. Após realizar um dos filmes mais marcantes de sua geração (a obra-prima “Um Sonho de Liberdade”), o diretor resolveu retornar ao ambiente prisional e aos contos de King e, mais uma vez, nos presenteou com um filme tocante, capaz de prender nossa atenção mesmo com sua longa duração e, ao final dela, nos jogar para fora da sala (de projeção ou não) com a sensação de termos testemunhado algo realmente impactante.

Escrito, dirigido e produzido pelo próprio Darabont (a produção dividida com David Valdes), “À Espera de um Milagre” narra uma parte importante do passado do ex-chefe da guarda de um corredor da morte nos anos 30 chamado Paul (Tom Hanks/Dabbs Greer), que vê sua vida mudar completamente após a chegada do condenado John Coffey (Michael Clarke Duncan), acusado de estuprar e matar duas crianças. Tendo que lidar com o complicado cotidiano da “milha verde” (nome dado ao local pela cor de seu chão) ao lado dos colegas de profissão Brutus Howell (David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper), Harry Terwilliger (Jeffrey DeMunn) e Percy (Doug Hutchison), Paul vive uma experiência que refletirá no resto de sua vida nos poucos dias que convive com aquele homem diferenciado.

Apostando numa estrutura narrativa que utiliza um longo flashback após uma pequena introdução, Darabont nos leva aos anos 30 com competência através da precisa ambientação do design de produção de Terence Marsh e dos figurinos de Karyn Wagner, responsáveis pelos carros, uniformes, objetos de decoração das casas e da prisão, entre outros detalhes importantes para nos transportar para aquela época. No entanto, este nível de realismo contrasta diretamente com a abordagem fabulesca escolhida pelo diretor, evidente através dos tons em sépia utilizados pelo diretor de fotografia David Tattersall que, como de costume, remetem ao passado, mas ao mesmo tempo reforçam esta atmosfera de fábula pretendida por Darabont, o que se revela uma decisão inteligente e coerente com o material que inspira o longa, já que o roteiro traz elementos nada naturais como os misteriosos milagres de John e a presença de um rato nada comum.

A metáfora envolvendo o rato, aliás, é bem interessante. Enquanto alguns têm o impulso inicial de querer pisar no rato por considerá-lo impuro e nada digno de conviver conosco, outros preferem adotá-lo, dar carinho e proteção, compreendendo seu universo, exatamente como fazem a maioria daqueles guardas diante dos condenados à pena de morte. Assim, “À Espera de um Milagre” claramente questiona a nossa postura enquanto sociedade diante daqueles homens. Enquanto alguns tentam criar um clima ameno antes das execuções (“Você devia ver esse lugar como uma ala de tratamento intensivo”, diz Paul para Percy), representando a parcela da sociedade que tenta encontrar alguma humanidade naqueles condenados, outros são representados pelo agressivo Percy, que inferniza cada minuto de vida restante deles (já ouviu o jargão “Bandido bom é bandido morto”?).

Até por isso, a atmosfera fabulesca dá lugar a uma aura muito mais pesada na noite das execuções, especialmente na execução de Delacroix, na qual a chuva que cai e os raios que iluminam o local antecipam a sensação de que algo terrível iria acontecer – até mesmo a trilha sonora de Thomas Newman (parceiro de Darabont em “Um Sonho de Liberdade”) reflete isso em seus acordes mais pesados. E de fato sua execução é a que tem o maior impacto visual, servindo para escancarar a crueldade do processo de aplicação da pena de morte e arrancando expressões de dor e angústia até mesmo das pessoas que assistiam antes satisfeitas à tudo aquilo – e, provavelmente, do próprio espectador, que naquele instante já estava familiarizado com Delacroix e, por isso, sofre ainda mais.

Tons em sépiaMetáfora envolvendo o ratoExecução de Delacroix

Aliás, um dos segredos do sucesso de “À Espera de um Milagre” está no excelente desenvolvimento de seus personagens, conduzido com cuidado e sem pressa alguma, mesmo que para isso o ritmo empregado pelo montador Richard Francis-Bruce (outro que trabalhou em “Um Sonho de Liberdade”) torne o filme mais extenso. Ao longo da narrativa, nos tornamos tão próximos daquelas pessoas que praticamente somos confidentes de suas frustações, anseios e pensamentos mesmo dentro de um ambiente tão cruel. Ao fazer isso, o roteiro nos coloca do outro lado do corredor da morte, nos fazendo sentir o peso das horas que aproximam cada vez mais aquelas pessoas do fim. Por isso, quando vemos a forte imagem do rosto de Bitterbuck (Graham Greene) após sua execução, por exemplo, imediatamente lembramos seu tocante diálogo com Paul momentos antes e sentimos.

Assim como ocorre na parte técnica, alguns nomes do elenco também haviam trabalhado com Darabont em “Um Sonho de Liberdade”, como William Sadler que aqui tem rápida participação como o pai das garotas. Outra parceria que se repete rapidamente é entre Tom Hanks e o ótimo Gary Sinise, na cena em que o advogado de defesa Burt fala sobre John Coffey e o compara ao seu vira-lata, num discurso racista ofensivo e nojento que representa o pensamento de boa parte da sociedade daquela época. Já o arruaceiro Wild Bill é interpretado por Sam Rockwell de maneira estridente e com boas doses de humor, o que funciona para quebrar o ritmo pesado que a narrativa poderia ter ali. Assim, apesar do ambiente hostil, tanto esteticamente quanto pela maneira como conduz a narrativa, Darabont não transforma “À Espera de um Milagre” num filme pesado em boa parte do tempo, o que é essencial para que o espectador não sinta sua longa duração.

Ainda entre o elenco secundário, Brutus Howell é vivido por David Morse como alguém forte, determinado, mas dono de um grande coração, convencendo como um guarda competente em sua função e muito humano. Doug Hutchison, por sua vez, cria um Percy extremamente odiável e unidimensional, parecendo agir somente pelo prazer de ver aqueles condenados sofrerem. O contraste entre eles, aliás, reforça a tese de que Darabont deseja erguer um espelho diante do espectador e perguntar com quem ele se identifica. Ator ideal para um papel que exige a confiança e a credibilidade do espectador, Tom Hanks assume Paul com seu carisma inegável, mostrando firmeza quando necessário, mas conferindo imensa humanidade aquele homem que tem sua vida transformada após a chegada de John – e se acreditamos em tudo que vemos na tela é também por que sabemos que o narrador da história é ele.

No entanto, é inegável que o dono de “À Espera de um Milagre” é mesmo Michael Clarke Duncan. Ciente disso, Darabont segura ao máximo até revelar o rosto de John Coffey, brincando com nossa expectativa o quanto pode até revelar aquele homem imponente fisicamente e dono de uma voz tão marcante, mas que, ao contrário do que o preconceito pode nos fazer pensar, se destaca mesmo pela sensibilidade. O sucesso do personagem, obviamente, passa muito pela performance estupenda de Duncan, numa atuação hipnótica que conquista o espectador com seu carisma e a dor palpável do personagem diante de tanto sofrimento neste mundo. Transbordando amor e compaixão, ele transforma aquele condenado em nosso porto seguro no filme, encarnando o papel de uma espécie de anjo naquela fábula sobre a vida e a morte – e o plano final da linda cena em que ele assiste a um filme pela primeira vez escancara isso. Quando John finalmente diz que está cansado, compreendemos suas motivações e aceitamos sua decisão, mesmo contrariados por entender o que ela representa. Jamais sabemos desde quando John perambula pela Terra ajudando as pessoas, mas seu olhar pesado e sua expressão cansada nos dão a entender que já faz tempo suficiente para que ele decida deixar tudo isso para trás.

Talvez o único senão do roteiro seja a previsibilidade da revelação de que John é inocente, evidente desde o princípio. Uma confirmação de que ele era culpado teria um peso dramático infinitamente maior, mas destoaria da natureza bondosa do personagem, por isso, imaginamos desde o início que ele estava na realidade tentando salvar as meninas quando foi capturado. Por outro lado, o roteiro acerta em cheio ao não explicar a natureza do dom de John, deixando no campo da imaginação qualquer explicação e reforçando a característica fabulesca da narrativa.

Imensa humanidadeEspécie de anjoCura de Melinda

São tantos os belos momentos do filme que fica difícil destacar alguns, mas podemos citar a cura de Melinda (Patricia Clarkson), carregada de energia e que é um destes instantes em que podemos sentir a dor de John, além do diálogo entre Paul e Brutus sobre a imaginária Mouseville com Delacroix, que reforça o forte traço de humanidade presente naqueles personagens, numa cena interrompida de maneira brusca pela ação cruel de Percy, que pisa no rato e nos leva a outro milagre de John.

Conduzindo a narrativa com segurança e sem medo de investir um longo tempo na construção dos personagens e suas relações, Darabont chega ao ato final ciente do tamanho da carga emocional que a execução de John terá. Assim, conduz a cena com calma, nos colocando ao lado do prisioneiro sem jamais nos deixar esquecer a dor daqueles pais que perderam suas preciosas filhas, numa cena tocante e triste. A qualidade das interpretações de todo o elenco neste momento torna tudo ainda mais real, levando personagens e plateia às lágrimas.

Tocando mesmo que superficialmente no difícil tema da pena de morte, “À Espera de um Milagre” acaba se revelando como uma reflexão sobre a natureza da morte. Qual o papel dela em nossas vidas? Conseguiríamos lidar com o fardo do passar dos anos e da perda das pessoas amadas caso fossemos agraciados com a eternidade? São inúmeras questões levantadas em meio a uma narrativa repleta de amor, bondade e empatia. Tudo isso, no menos improvável dos ambientes. Darabont é mesmo um milagreiro.

À Espera de um Milagre foto 2Texto publicado em 14 de Março de 2016 por Roberto Siqueira