Vídeo: O Poço

Nestes dias difíceis de isolamento para boa parte da população mundial as plataformas de streaming cresceram ainda mais em importância no mundo do entretenimento, funcionando não apenas como uma alternativa para suprir a falta dos cinemas (e que falta faz ir ao cinema!), mas também como uma excelente válvula de escape para as tensões que já enfrentamos no cotidiano.

São várias as boas opções de serviço de streaming disponíveis hoje no mercado com excelentes catálogos para todos os gostos, que trazem desde lançamentos até filmes clássicos, passando por bons filmes em praticamente todos os gêneros e para todas as idades.

Sendo assim, eu e o Thyago Bertoni resolvemos entrar também na onda e comentar sobre filmes que estão fazendo algum tipo de sucesso via streaming. A ideia é escolher um filme por semana para assistir e divulgar o vídeo com nossos comentários em nosso canal.

Esperamos que curtam a novidade e caso tenham alguma sugestão de filme disponível via streaming, fiquem à vontade para indicar nos comentários abaixo.

Um abraço e uma semana cinematográfica para todos nós!

Vídeo publicado em 03 de Maio de 2020 por Roberto Siqueira e Thyago Bertoni

Balanço de 2019

O primeiro ano da nova vida em Lisboa ficou marcado pelo processo de adaptação de toda nossa família e pela definição de novos rumos em todos os sentidos da minha vida. Emagreci 8 quilos (sim, estava precisando), consegui evoluir no estudo do alemão e comecei a aprender italiano, consegui aproveitar mais o tempo em família e abracei de corpo e alma um gigante desafio profissional que começa a render excelentes frutos. O sonho de viver na Europa revelou-se ainda mais acertado, infelizmente, pelo previsível caminho do retrocesso social adotado pelo governo eleito no Brasil – mas isso é tema para outro texto e em outro canal, não aqui.

Já no Cinema & Debate, 2019 marcou o renascimento desejado no texto “Balanço de 2018”, com novidades como as críticas sobre lançamentos e o canal no YouTube e, mais importante, os primeiros colaboradores além deste que vos escreve, o que trouxe uma bem-vinda oxigenação e novas abordagens e idéias que, tenho certeza, serão ainda mais desenvolvidas em 2020. Há tempos eu queria que meu grande amigo Thyago Bertoni colaborasse com o C&D e finalmente em 2019 tive o prazer de ver isso acontecer, o que só enriquece este espaço com sua visão a respeito do cinema que tanto respeito e admiro. Também importante foi a participação do meu amigo Adriano Cardoso, que fez uma excelente cobertura da 43ª Mostra de São Paulo, escrevendo sobre na mais nada menos que 42 filmes. Já fica aqui o convite para outras participações sempre que ele quiser.

Não quero fazer promessas, pois anda difícil cumprir com tantas atividades ao mesmo tempo, mas adoraria poder escrever mais textos, divulgar mais vídeos (tenho algumas críticas ilustradas em mente e quero muito conseguir divulgá-las) e também entrar na onda dos Podcasts em 2020. O tempo irá dizer se tudo isso será possível. De momento, só desejo que 2020 seja um ano melhor para o Brasil, o que anda difícil de acreditar quando em pouco tempo já tivemos a confirmação de erro no ENEM, governo torcendo contra filme brasileiro no Oscar e integrante do governo emulando o mais nefasto dos regimes – o que não é surpresa, vindo de pessoas escolhidas por alguém que abertamente defende ditadores.

Em termos de filmes assistidos, até que meu desempenho não foi tão ruim, considerando que 2019 foi provavelmente o ano em que mais assisti séries (o que sempre me incomoda, pois toma muito tempo e não entra em minha contagem de filmes, obviamente). Foi também o ano em que apresentei mais alguns clássicos do cinema para meus meninos, incluindo o sempre empolgante “Curtindo a vida adoidado”, o hilário “Debi & Lóide” e a apresentação de universos cinematográficos que gosto muito como a trilogia “O Senhor dos Anéis” e “O Exterminador do Futuro”, além dos filmes que inauguram as longas séries estreladas por Stallone, “Rocky – Um Lutador” e “Rambo” – no caso de Rocky, eles gostaram tanto que quiseram assistir mais filmes logo em seguida.

Agradeço como de costume a cada leitor que dedica parte de seu tempo para ler e comentar neste espaço. Cada clique é como uma injeção de adrenalina que mantém este blog vivo. Só posso agradecer por isso. Agradeço também à minha família pelo apoio neste ano tão agitado e aos amigos que, mesmo distantes, continuam tão próximos graças ao lado bom da tecnologia.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2019:

               – 9 críticas divulgadas, sendo 6 na Videoteca do Beto e 3 na recém lançada categoria Lançamentos.

             – 5 vídeos divulgados no recém inaugurado canal no YouTube, incluindo a primeira crítica ilustrada.

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2019 foram:

               5° lugar = “À Espera de um Milagre

               4° lugar = “Um Dia de Fúria

               3° lugar = “Dança com Lobos

               2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

               1° lugar = “A Missão

Pela primeira vez desde 2012, o texto de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” fica de fora do top5. Já “A Missão” e “Um Sonho de Liberdade” mantém a presença entre os três primeiros desde 2013 e revezam-se nas duas primeiras colocações desde 2015, sendo que esta é a quarta vez que “A Missão” é a crítica mais lida do ano no C&D. Temos ainda duas novidades na lista, “À Espera de um Milagre” e “Dança com Lobos”, mais dois filmes da década de 90 que conseguem emplacar no top5, assim como tinha ocorrido no ano anterior com “Perfume de Mulher” e “Um Dia de Fúria”.

E agora, a lista dos 118 filmes assistidos em 2019 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2020 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2020 por Roberto Siqueira

TOY STORY 4 (2019)

(Toy Story 4)

 

Lançamentos #3

Dirigido por Josh Cooley.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Bonnie Hunt, Laurie Metcalf, Joan Cusack, Tim Allen, Annie Potts, Jeff Garlin, Jodi Benson, Don Rickles, Estelle Harris, Blake Clark, Bud Luckey, Jeff Pidgeon, Lori Alan, Keanu Reeves, Christina Hendricks, Jordan Peele, Timothy Dalton, Wallace Shawn, Mel Brooks, Tony Hale, Madeleine McGraw, Patricia Arquette, Lila Sage Bromley, June Squibb, Kristen Schaal, Ally Maki e Jay Hernandez.

Roteiro: Andrew Stanton e Stephany Folsom.

Produção: Mark Nielsen e Jonas Rivera.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a Pixar anunciou que lançaria “Toy Story 4”, confesso que fiquei preocupado. Não que eu duvide da capacidade do estúdio que hoje pertence a Disney de produzir filmes memoráveis, mas o fato é que “Toy Story 3” parecia uma conclusão perfeita para a trajetória dos brinquedos liderados por Woody, Buzz e Cia. Só que um olhar mais profundo revela que, na realidade, o longa anterior concluía a história do crescimento de Andy e não dos brinquedos em si, o que de fato abre espaço para novos filmes. Obviamente, existe também uma motivação comercial nisso tudo, mas o bom resultado alcançado demonstra que a Pixar tomou os devidos cuidados para não entregar apenas um caça-níquel.

Escrito por Andrew Stanton (diretor de “WALL·E”, um dos meus favoritos da Pixar) e Stephany Folsom, “Toy Story 4” tem início quando Bonnie (voz de Madeleine McGraw), abatida e deslocada no primeiro dia de aula, resolve criar um brinquedo a partir de materiais encontrados no lixo e o leva para casa. Só que “Garfinho” (voz de Tony Hale) demora a perceber sua natureza de brinquedo, o que cria grandes problemas para Woody (voz de Tom Hanks), especialmente quando a família de Bonnie decide viajar e o novo brinquedo acaba se perdendo pelo caminho, entristecendo a garota e dando origem a uma verdadeira missão de busca que envolverá Buzz (voz de Tim Allen), Jessie (voz de Joan Cusack) e ainda trará de volta a boneca Beth (voz de Annie Potts).

Auxiliado por seu montador Axel Geddes, o diretor Josh Cooley abre “Toy Story 4” com um prólogo que retorna nove anos no tempo e traz a separação de Woody e Beth, o que inicialmente soa deslocado e sem propósito, como algo forçado apenas para permitir a existência do quarto filme após “Toy Story 3” dar a sensação de que uma continuação era desnecessária. Felizmente, esta sensação lentamente é dissipada, apesar de alguns flertes com o perigo como ao sugerir que Beth sairia de cena ao recusar ajudar Woody, por exemplo, até que faça todo sentido e se justifique no encerramento tocante e coerente com o momento dos personagens.

Aliás, é curioso notar como a narrativa é conduzida de maneira a preparar o espectador para o desfecho sem que a plateia perceba muito o que está acontecendo. Assim, desta vez temos menos momentos engraçados que o de costume, ainda que haja espaço para o humor criativo tão marcante em todos os filmes da franquia, que explora as possibilidades criadas pelo universo dos brinquedos. Neste aspecto, o destaque claramente fica para os novatos bichos de pelúcia, que protagonizam algumas das cenas mais divertidas do filme, como a briga com Buzz, a solução simples e eficiente para a obtenção de uma chave e os hilários planos elaborados por eles.

O que não muda nada em relação ao passado é o carisma dos personagens. Demonstrando o entrosamento esperado após tantos anos, Woody, Buzz, Jessie e companhia continuam adoráveis. A devoção de Woody à sua vocação como brinquedo continua evidente, por exemplo, na conversa com Garfinho à beira da estrada, quando fala sobre Andy em tom nostálgico e resume perfeitamente como ele vê sua função no mundo. Enquanto isso, Buzz demonstra o mesmo misto de lealdade, autoconfiança exacerbada e heroísmo que fazem dele um personagem tão marcante, enquanto Jessie, com menos espaço desta vez, continua sendo a destemida heroína da turma – e são estes três personagens que agem em momentos cruciais do filme para tentar resolver o problema, confirmando sua condição de líderes. Já o novato Garfinho conquista o público com seu temor diante de tantas novidades e, principalmente, por sua justificada obsessão inicial pelo lixo, trazendo ainda um misto de inocência e curiosidade que remete a uma criança e cria empatia com o espectador de maneiras distintas.

É inegável, porém, que a mudança mais clara em “Toy Story 4” em relação aos personagens é o destaque que as figuras femininas ganham na narrativa. Contrariando a persona criada em filmes anteriores da mocinha apaixonada pelo caubói, Beth retorna como uma mulher forte, independente e líder de um grupo de nômades, sendo ainda a responsável por decisões importantes do grupo e, de quebra, a motivação da surpreendente decisão final de Woody. Jessie, por sua vez, assume o papel de liderar a turma que fica no veículo com Bonnie, enquanto Gabby Gabby (voz de Christina Hendricks) assume o papel da vilã e ainda protagoniza um emocionante desfecho em sua trajetória.

Apostando em muitas cenas noturnas e chuvosas, a fotografia de Patrick Lin realça a tensão em momentos como a sequência de abertura ou o ato final, enquanto o design de produção de Bob Pauley capricha em cenários como a loja de antiguidades, criando uma atmosfera que remete ao terror desde os primeiros instantes através das teias de aranha, dos móveis e da pouca iluminação do local. Filme mais melancólico dos quatro até então, “Toy Story 4” trabalha desde o início na construção desta atmosfera que sustentará a dolorosa despedida do ato final, com seu visual dominado pelas citadas cenas sombrias e a trilha sonora mais contida e triste de Randy Newman, na qual vale destacar também a preocupação com pequenos detalhes, como quando um acordeom embala a lembrança de Duke Caboom (voz de Keanu Reeves) e seu dono canadense, remetendo a influência francesa naquele país.

Esta abordagem mais melancólica não impede, no entanto, que Josh Cooley acelere o ritmo nos momentos necessários, como quando sua câmera fluída viaja pelos ambientes acompanhando Buzz e Woody indo do parque para a loja de antiguidades e, especialmente, quando acompanhamos quatro linhas narrativas distintas simultaneamente, com Woody na loja, Buzz indo atrás dele, Garfinho sob a custódia de Gabby Gabby e os brinquedos que ficaram no motor home – novamente, ponto para o montador Axel Geddes. Esta sequência mais frenética de ações nos leva a interessante reviravolta em que Woody, após escapar de Gabby Gabby, resolve voltar e tentar encontrar uma dona para ela, após o sofrido abandono que humaniza a personagem e torna mais aceitáveis suas motivações. No entanto, a grande surpresa ainda estava por vir.

Construído cuidadosamente durante toda a narrativa sem jamais escancarar esta intenção, o devastador momento em que Woody decide abandonar o grupo deixa personagens e espectadores em frangalhos, também pela carga emocional que naturalmente evoca após tantos anos. Ciente do impacto desta decisão, Cooley prepara o espectador para este momento tocante através das citadas trilha sonora e fotografia, que criam o clima ideal, e da condução da relação já distante entre Woody e Bonnie desde o início, revelando como ele já não era mais o protagonista daquele universo, o que torna sua decisão compreensível e coerente com sua essência. Certamente um dos mais queridos personagens não apenas da Pixar, mas do universo das animações em geral, Woody merecidamente angariou milhões de fãs de todas as idades ao redor do mundo e certamente levou muitos deles as lágrimas neste instante.

Além da catarse emocional, “Toy Story 4” volta a abordar a importância das crianças na vida dos brinquedos como um dos temas centrais da narrativa, trazendo ainda as tradicionais reflexões filosóficas sobre a natureza dos brinquedos e seu lugar no universo e, de quebra, promovendo outra interessante discussão através do novo personagem feito de lixo. O que é um brinquedo de fato? Uma bola de meia é um brinquedo? Sua função é divertir uma criança até inevitavelmente ser abandonado como Beth e tantos outros ou divertir crianças aleatórias sem jamais criar vínculo com nenhuma delas como fazem os brinquedos nos parques? Somente por isso o longa dirigido por Josh Cooley já vale a pena.

Ainda que o considere inferior ao primeiro e ao terceiro filme, “Toy Story 4” justifica sua existência através da introdução de novos personagens e novas reflexões sem perder características marcantes dos longas anteriores e nos reservando ainda um surpreendente e emocionante desfecho que pode significar o encerramento do ciclo de um dos mais emblemáticos personagens da curta e gloriosa trajetória da Pixar.

Ou seria o início de uma nova trajetória solo? Só o tempo dirá.

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2019 por Roberto Siqueira

DETETIVE PIKACHU (2019)

 

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Antes de começar a falar deste filme, tenho que contar algo sobre a minha ligação com Pokémon. Assistia Eliana só pra ver o desenho. Deixava gravando enquanto estava na escola. Acho que parei na segunda geração de Pokémon. E eu jogava o card game de Pokémon. Eu, com meus 17 anos, indo disputar todo sábado a Liga Pokémon. Até que um dia tomei um pau de um molequinho que devia ter uns seis anos, e caiu a ficha: o que eu estou fazendo aqui?

Mas vamos ao filme. Acho que todo fã e não fã, assim que foi anunciado o filme, ficou ressabiado. O histórico de adaptações de games ou animes não era muito animador. E pra piorar, o filme se baseia numa versão que não tem nada a ver com o jogo ou série original. Aí veio o trailer. E mais do que isso. Veio o anúncio de que Ryan Reynolds faria a voz do Pikachu. E todo o receio ficou pra trás. O design nos Pokémon ficou ótimo, um trailer cheio de referências (assim como o pôster que veio depois) e a voz do Deadpool, ops, Ryan Reynolds caiu como uma luva no personagem principal.

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Já vou tirar o elefante da sala. Pra mim, é a melhor adaptação de um jogo ou anime para o cinema (sarrafo não estava lá muito alto). Eu me senti representado. É um filme para crianças, e para crianças que cresceram, e consegue atingir os dois públicos. É bom para aqueles que querem nostalgia e para aqueles que estão sendo apresentados ao universo agora. Que outros aprendam que é possível (esse recado é pra você, Cavaleiros do Zodíaco).

Não esperem atuações soberbas. Os humanos são o ponto fraco do filme. Roteiro é simplista, com plot que quando você para pra pensar nele, não faz sentido. E o vilão é só pra cumprir a cota de clichês com vilão inglês. Basicamente é o Space Jam da década.

Num primeiro momento causa estranheza a decisão de adaptar para o cinema um jogo que não tem nada a ver com o que Pokémon sempre propôs. Mas quando paramos pra pensar, a decisão faz todo sentindo. Não ia ser legal ver humanos batendo nos animais de seu mundo até eles ficarem fracos, os capturarem numa gaiola minúscula e colocá-los para brigar em arenas. Um duelo aparece rapidamente no filme, numa liga clandestina. É errado, mas ia ser legal. Os roteiristas que se virem para fazer dar certo numa possível sequência.

O mundo criado é o destaque do filme, com Pokémon e humanos vivendo em harmonia. Isso fica exemplificado na cidade modelo de Ryme, que quer provar que humanos e Pokémon podem coexistir além das batalhas. Um mundo colorido, onde os Pokémon vivem livres, ou com humanos (como pets), e ajudam no dia a dia da cidade. Cada take é pelo menos uma referência a ser capturada. Os Pokémon ficaram realistas, mas continuaram caricatos e foram mantidas as expressões faciais. Alguns se destacam mais do que outros, principalmente os da primeira e segunda geração. Da terceira em diante, senti uma estranheza, mas ai não é culpa do filme, e sim dos criadores da série, que, quando acabou a inspiração nos animais de nosso mundo para os Pokémon, passaram a viajar cada vez mais no design.

Escrevi bastante, mas percebi que não falei muito sobre a história. Acho que é por que não tem muito que se falar. Em resumo, o filme conta a história de Tim, um garoto que não sabe seu lugar no mundo. Tem dificuldade em se relacionar com humanos e desistiu de seu sonho de ser um treinador Pokémon. Recebe a notícia da morte de seu pai, um renomado detetive da cidade Ryme, em um acidente de carro, após ser atacado enquanto investigava um laboratório secreto. Por esse motivo, Tim decide ir até a cidade para obter mais detalhes. No apartamento de seu pai, Tim encontra um Pikachu desmemoriado, que se acha detetive e viciado em cafeína. Para sua surpresa, ambos conseguem se comunicar. Depois da desconfiança, e da dificuldade de Tim em se relacionar, e de algumas pistas de que talvez seu pai não esteja morto, eles partem em busca de solucionar o mistério do desaparecimento do pai de Tim, com a ajuda de uma repórter novata e de um Psyduck problemático, num clima bem noir.

Acho que acabei dando o plot nesse resumo. Mas sinceramente, esse não é um filme pra se apegar à história. É pra assistir, sem pensar muito, e deixar a nostalgia de dias mais fáceis te levar.  Um fato legal para os fãs, é que em um vídeo do laboratório, onde um Mewtwo sofre experimentos (a revelação do Mewtwo ocorre no começo do filme, não é spoiler), há uma informação de que ele é o mesmo Mewtwo que fugiu do continente de Kanto há 20 anos. Uma referência à primeira animação de Pokémon nos cinemas. Ou seja, está tudo conectado, Ash existe…

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Ah, e não posso deixar de dizer qual o meu Pokémon favorito. É esse aqui.

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KOKO-DI KOKO-DA (2019)

(Koko-Di Koko-Da)

Dirigido por Johannes Nyholm.

Elenco: Ylva Gallon, Leif Edlund Johansson, Peter Belli e Katarina Jacobson.

Roteiro: Johannes Nyholm.

Produção: Johannes Nyholm e Maria Møller Christoffersen.

Um casal resolve acampar numa floresta como forma de fugir da sua rotina e tentar superar a perda de sua filha pequena, que morreu três anos atrás. Talvez o melhor filme que vi na mostra, com certeza a melhor experiência. Não é um filme simples, ele demanda inteligência e criatividade do espectador para fazer as devidas associações.

O roteiro possui uma mecânica que se repete sempre em duas partes, e ele vai avançando desta forma: o casal está dentro da barraca e a mulher diz que precisa ir ao banheiro, acordando o marido. Aparecem três pessoas, um senhor vestido com chapéu mais antigo, um sujeito que parece estereótipo de um caipira forte, e uma mulher. Eles trazem um animal morto nos braços e um cão, e matam primeiro a mulher depois o homem. Então vemos o casal dirigindo para o lugar do acampamento e novamente dentro da barraca, mas o marido acorda tendo sonhado o que ocorreu antes, e por vezes a mulher.

O filme é muito impactante. A cena da morte da filha do casal é surpreendente e chocante. A edição de som desse filme é primorosa, e reforça a tensão constante na qual o casal sempre se encontra. A câmera, embora sempre solta, na maioria das cenas restringe nossa visão, sendo que muita coisa acontece extracampo e acompanhamos a narrativa pelo som. Na maioria dos projetos, todo diálogo do filme fica concentrado na caixa de som principal na frente, e uma maneira de garantir que por pior que seja a estrutura do sistema de som, os diálogos serão ouvidos. Aqui, a mixagem trabalhou de tal forma que o diálogo quando vem dos lados ou de trás, fica nestas caixas e não na caixa principal. Desta forma, muitas vezes temos mais de um diálogo acontecendo simultaneamente e sem que um fique sobre o outro, o que cria alguns momentos assustadores, especialmente quando o espectador já entendeu a dinâmica do filme.

Um trabalho magnífico que faz os espectadores saírem da sala e ficarem por algumas horas juntando os pedaços desse enigmático quebra-cabeças.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

MÁFIA S/A (2019)

(Mafia INC.)

 

Dirigido por Daniel Grou.

Elenco: Marc-André Grondin, Sergio Castellitto, Gilbert Sicotte e Mylène Mackay.

Roteiro: Sylvain Guy.

Produção: Antonello Cozzolino, André Rouleau e Valérie D’auteuil.

Baseado no livro de mesmo nome, chefes da máfia italiana e canadense planejam lavar dinheiro investindo na construção de uma ponte entre a Sicília e a Calábria, enquanto precisam se preocupar com a polícia e gangues rivais. Com um início promissor, ao telefone o “Godfather” do Canadá acerta com membros da Itália o investimento na ponte. A medida que a trama avança conhecemos alguns personagens complexos como o alfaiate, que tenta proteger sua família, mas vê seu filho cada vez mais envolvido em negócios escusos.

Pena que esse universo também seja habitado por muitas caricaturas, e personagens que sofrem bruscas alterações comportamentais conforme necessidade do roteiro. Além disso, o projeto se mostra precário na execução de cenas chaves, como o acidente com ônibus na Venezuela. Algumas cenas de ação funcionam, outras como a eliminação de um membro por emboscada com moto e carros são antecipadas pelo espectador e mal executadas. O filme nos faz rememorar diversos títulos de gênero do Scorsese, e também do próprio “O Poderoso Chefão”, o que o empobrece mais.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ECOS (2019)

(Bergmál)

Dirigido por Rúnar Rúnarsson.

Roteiro: Rúnar Rúnarsson.

Produção: Lilja Ósk Snorradóttir.

Histórias do cotidiano da Islândia, começando próximo ao Natal e terminando no dia do novo ano. Cada cena contempla uma história, composta por um plano estático. Algumas filmagens são testemunhos de acontecimentos, como um coral de Natal e um parto. O roteiro é simples e aborda diversos assuntos, como violência policial, exploração dos empregados por patrões, discussões familiares, renovação.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

SIBYL (2019)

(Sibyl)

Dirigido por Justine Triet.

Elenco: Virginie Efira, Adèle Exarchopoulos, Gaspard Ulliel e Sandra Hüller.

Roteiro: Justine Triet.

Produção: David Thion e Philippe Martin.

Sibyl é uma psicóloga que quer escrever um romance, e pra isso diminui drasticamente o número de pacientes que atende. Um hospital indica ela a Margot, uma atriz que pede uma consulta de emergência e Sibyl passa a atendê-la, pois verifica que os relatos da jovem podem ser úteis no seu romance.

Há uma história incrível aqui, mas não é a que vemos na tela. O roteiro se beneficiaria muito mais se o foco fosse em Margot. Atriz iniciante que começa um romance com o protagonista do filme, que namora a diretora. A atriz fica grávida e sua vida implode no meio das filmagens que estão acontecendo numa ilha onde há um vulcão em erupção. Mas o que vemos é uma psicóloga que se ressente de um antigo amor, enquanto executa a profissão de qualquer jeito e tenta escrever um romance que nunca ficamos sabendo exatamente qual é. Além disso, a trama abraça diversos clichês e podemos prever muito do que virá.

Além disso, o filme tem um grande problema com elipses temporais. A legenda diz que se passaram dez anos, mas pra nós a impressão é de 10 segundos, e em diversos momentos a montagem intercala passado e presente da protagonista, de forma cansativa, quebrando o ritmo da narrativa.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

JOANA D’ARC (2019)

(Jeanne)

 

Dirigido por Bruno Dumont.

Elenco: Lise Leplat Prudhomme, Jean-François Causeret, Daniel Dienne, Fabien Fenet, Robert Hanicotte e Yves Habert.

Roteiro: Bruno Dumont.

Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat e Muriel Merlin.

Sequência da peça de mesmo nome, acompanhamos Joana da sua primeira derrota até o julgamento pelos ingleses. Se apresentando como musical e com um ritmo muito lento, é um filme lindíssimo e de muitas sutilezas em seus diálogos. O filme tem poucas e longuíssimas cenas, todas focam em diálogos. Um dos cernes é a crítica a religião com muitos momentos que mostram o quão é patética, como na cena em que os sacerdotes pedem a Deus que os ajudem a torturar bem a menina Joana. Aliás, em diversos momentos somos Deus, e Joana olha direto para a câmera, esperando nossa manifestação. É onde entram as músicas, na forma de apelos da menina à divindade. Bastante atual, demonstra também que entre tantos homens, de diversos lados e objetivos, o único ser sábio é uma menina, que se recusa a matar e trair seus ideais.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

OS OLHOS DE CABUL (2019)

(Les Hirondelles de Kaboul)

Dirigido por Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec.

Elenco: Vozes de Simon Abkarian, Hiam Abbass, Zita Hanrot e Swann Arlaud.

Roteiro: Zabou Breitman, Patricia Mortagne e Sébastien Tavel.

Produção: Reginald de Guillebon e Michel Merkt.

Duas famílias vivem em Cabul, Afeganistão, sob o domínio do talibã. Nesta animação acompanhamos a opressão e o medo que cidadãos não doutrinados pela religião sofrem num regime opressor. As mais atingidas são as mulheres, claro, que são obrigadas a saírem de casa de burca e não podem usar calçados brancos.

O roteiro é muito inteligente e consegue sempre nos surpreender. Os traços simples e a escolha das cores reforçam um ambiente oprimido, onde a vida resiste. Uma das cenas finais é maravilhosa: começa num plano geral com vista de cima, e conforme a câmera se afasta, mulheres de burca vão se transformando em pássaros que voam para longe, contrastando com uma cena muito pesada e bem executada que testemunhamos anteriormente.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso