Balanço de 2019

O primeiro ano da nova vida em Lisboa ficou marcado pelo processo de adaptação de toda nossa família e pela definição de novos rumos em todos os sentidos da minha vida. Emagreci 8 quilos (sim, estava precisando), consegui evoluir no estudo do alemão e comecei a aprender italiano, consegui aproveitar mais o tempo em família e abracei de corpo e alma um gigante desafio profissional que começa a render excelentes frutos. O sonho de viver na Europa revelou-se ainda mais acertado, infelizmente, pelo previsível caminho do retrocesso social adotado pelo governo eleito no Brasil – mas isso é tema para outro texto e em outro canal, não aqui.

Já no Cinema & Debate, 2019 marcou o renascimento desejado no texto “Balanço de 2018”, com novidades como as críticas sobre lançamentos e o canal no YouTube e, mais importante, os primeiros colaboradores além deste que vos escreve, o que trouxe uma bem-vinda oxigenação e novas abordagens e idéias que, tenho certeza, serão ainda mais desenvolvidas em 2020. Há tempos eu queria que meu grande amigo Thyago Bertoni colaborasse com o C&D e finalmente em 2019 tive o prazer de ver isso acontecer, o que só enriquece este espaço com sua visão a respeito do cinema que tanto respeito e admiro. Também importante foi a participação do meu amigo Adriano Cardoso, que fez uma excelente cobertura da 43ª Mostra de São Paulo, escrevendo sobre na mais nada menos que 42 filmes. Já fica aqui o convite para outras participações sempre que ele quiser.

Não quero fazer promessas, pois anda difícil cumprir com tantas atividades ao mesmo tempo, mas adoraria poder escrever mais textos, divulgar mais vídeos (tenho algumas críticas ilustradas em mente e quero muito conseguir divulgá-las) e também entrar na onda dos Podcasts em 2020. O tempo irá dizer se tudo isso será possível. De momento, só desejo que 2020 seja um ano melhor para o Brasil, o que anda difícil de acreditar quando em pouco tempo já tivemos a confirmação de erro no ENEM, governo torcendo contra filme brasileiro no Oscar e integrante do governo emulando o mais nefasto dos regimes – o que não é surpresa, vindo de pessoas escolhidas por alguém que abertamente defende ditadores.

Em termos de filmes assistidos, até que meu desempenho não foi tão ruim, considerando que 2019 foi provavelmente o ano em que mais assisti séries (o que sempre me incomoda, pois toma muito tempo e não entra em minha contagem de filmes, obviamente). Foi também o ano em que apresentei mais alguns clássicos do cinema para meus meninos, incluindo o sempre empolgante “Curtindo a vida adoidado”, o hilário “Debi & Lóide” e a apresentação de universos cinematográficos que gosto muito como a trilogia “O Senhor dos Anéis” e “O Exterminador do Futuro”, além dos filmes que inauguram as longas séries estreladas por Stallone, “Rocky – Um Lutador” e “Rambo” – no caso de Rocky, eles gostaram tanto que quiseram assistir mais filmes logo em seguida.

Agradeço como de costume a cada leitor que dedica parte de seu tempo para ler e comentar neste espaço. Cada clique é como uma injeção de adrenalina que mantém este blog vivo. Só posso agradecer por isso. Agradeço também à minha família pelo apoio neste ano tão agitado e aos amigos que, mesmo distantes, continuam tão próximos graças ao lado bom da tecnologia.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2019:

               – 9 críticas divulgadas, sendo 6 na Videoteca do Beto e 3 na recém lançada categoria Lançamentos.

             – 5 vídeos divulgados no recém inaugurado canal no YouTube, incluindo a primeira crítica ilustrada.

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2019 foram:

               5° lugar = “À Espera de um Milagre

               4° lugar = “Um Dia de Fúria

               3° lugar = “Dança com Lobos

               2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

               1° lugar = “A Missão

Pela primeira vez desde 2012, o texto de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” fica de fora do top5. Já “A Missão” e “Um Sonho de Liberdade” mantém a presença entre os três primeiros desde 2013 e revezam-se nas duas primeiras colocações desde 2015, sendo que esta é a quarta vez que “A Missão” é a crítica mais lida do ano no C&D. Temos ainda duas novidades na lista, “À Espera de um Milagre” e “Dança com Lobos”, mais dois filmes da década de 90 que conseguem emplacar no top5, assim como tinha ocorrido no ano anterior com “Perfume de Mulher” e “Um Dia de Fúria”.

E agora, a lista dos 118 filmes assistidos em 2019 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2020 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2020 por Roberto Siqueira

TOY STORY 4 (2019)

(Toy Story 4)

 

Lançamentos #3

Dirigido por Josh Cooley.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Bonnie Hunt, Laurie Metcalf, Joan Cusack, Tim Allen, Annie Potts, Jeff Garlin, Jodi Benson, Don Rickles, Estelle Harris, Blake Clark, Bud Luckey, Jeff Pidgeon, Lori Alan, Keanu Reeves, Christina Hendricks, Jordan Peele, Timothy Dalton, Wallace Shawn, Mel Brooks, Tony Hale, Madeleine McGraw, Patricia Arquette, Lila Sage Bromley, June Squibb, Kristen Schaal, Ally Maki e Jay Hernandez.

Roteiro: Andrew Stanton e Stephany Folsom.

Produção: Mark Nielsen e Jonas Rivera.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a Pixar anunciou que lançaria “Toy Story 4”, confesso que fiquei preocupado. Não que eu duvide da capacidade do estúdio que hoje pertence a Disney de produzir filmes memoráveis, mas o fato é que “Toy Story 3” parecia uma conclusão perfeita para a trajetória dos brinquedos liderados por Woody, Buzz e Cia. Só que um olhar mais profundo revela que, na realidade, o longa anterior concluía a história do crescimento de Andy e não dos brinquedos em si, o que de fato abre espaço para novos filmes. Obviamente, existe também uma motivação comercial nisso tudo, mas o bom resultado alcançado demonstra que a Pixar tomou os devidos cuidados para não entregar apenas um caça-níquel.

Escrito por Andrew Stanton (diretor de “WALL·E”, um dos meus favoritos da Pixar) e Stephany Folsom, “Toy Story 4” tem início quando Bonnie (voz de Madeleine McGraw), abatida e deslocada no primeiro dia de aula, resolve criar um brinquedo a partir de materiais encontrados no lixo e o leva para casa. Só que “Garfinho” (voz de Tony Hale) demora a perceber sua natureza de brinquedo, o que cria grandes problemas para Woody (voz de Tom Hanks), especialmente quando a família de Bonnie decide viajar e o novo brinquedo acaba se perdendo pelo caminho, entristecendo a garota e dando origem a uma verdadeira missão de busca que envolverá Buzz (voz de Tim Allen), Jessie (voz de Joan Cusack) e ainda trará de volta a boneca Beth (voz de Annie Potts).

Auxiliado por seu montador Axel Geddes, o diretor Josh Cooley abre “Toy Story 4” com um prólogo que retorna nove anos no tempo e traz a separação de Woody e Beth, o que inicialmente soa deslocado e sem propósito, como algo forçado apenas para permitir a existência do quarto filme após “Toy Story 3” dar a sensação de que uma continuação era desnecessária. Felizmente, esta sensação lentamente é dissipada, apesar de alguns flertes com o perigo como ao sugerir que Beth sairia de cena ao recusar ajudar Woody, por exemplo, até que faça todo sentido e se justifique no encerramento tocante e coerente com o momento dos personagens.

Aliás, é curioso notar como a narrativa é conduzida de maneira a preparar o espectador para o desfecho sem que a plateia perceba muito o que está acontecendo. Assim, desta vez temos menos momentos engraçados que o de costume, ainda que haja espaço para o humor criativo tão marcante em todos os filmes da franquia, que explora as possibilidades criadas pelo universo dos brinquedos. Neste aspecto, o destaque claramente fica para os novatos bichos de pelúcia, que protagonizam algumas das cenas mais divertidas do filme, como a briga com Buzz, a solução simples e eficiente para a obtenção de uma chave e os hilários planos elaborados por eles.

O que não muda nada em relação ao passado é o carisma dos personagens. Demonstrando o entrosamento esperado após tantos anos, Woody, Buzz, Jessie e companhia continuam adoráveis. A devoção de Woody à sua vocação como brinquedo continua evidente, por exemplo, na conversa com Garfinho à beira da estrada, quando fala sobre Andy em tom nostálgico e resume perfeitamente como ele vê sua função no mundo. Enquanto isso, Buzz demonstra o mesmo misto de lealdade, autoconfiança exacerbada e heroísmo que fazem dele um personagem tão marcante, enquanto Jessie, com menos espaço desta vez, continua sendo a destemida heroína da turma – e são estes três personagens que agem em momentos cruciais do filme para tentar resolver o problema, confirmando sua condição de líderes. Já o novato Garfinho conquista o público com seu temor diante de tantas novidades e, principalmente, por sua justificada obsessão inicial pelo lixo, trazendo ainda um misto de inocência e curiosidade que remete a uma criança e cria empatia com o espectador de maneiras distintas.

É inegável, porém, que a mudança mais clara em “Toy Story 4” em relação aos personagens é o destaque que as figuras femininas ganham na narrativa. Contrariando a persona criada em filmes anteriores da mocinha apaixonada pelo caubói, Beth retorna como uma mulher forte, independente e líder de um grupo de nômades, sendo ainda a responsável por decisões importantes do grupo e, de quebra, a motivação da surpreendente decisão final de Woody. Jessie, por sua vez, assume o papel de liderar a turma que fica no veículo com Bonnie, enquanto Gabby Gabby (voz de Christina Hendricks) assume o papel da vilã e ainda protagoniza um emocionante desfecho em sua trajetória.

Apostando em muitas cenas noturnas e chuvosas, a fotografia de Patrick Lin realça a tensão em momentos como a sequência de abertura ou o ato final, enquanto o design de produção de Bob Pauley capricha em cenários como a loja de antiguidades, criando uma atmosfera que remete ao terror desde os primeiros instantes através das teias de aranha, dos móveis e da pouca iluminação do local. Filme mais melancólico dos quatro até então, “Toy Story 4” trabalha desde o início na construção desta atmosfera que sustentará a dolorosa despedida do ato final, com seu visual dominado pelas citadas cenas sombrias e a trilha sonora mais contida e triste de Randy Newman, na qual vale destacar também a preocupação com pequenos detalhes, como quando um acordeom embala a lembrança de Duke Caboom (voz de Keanu Reeves) e seu dono canadense, remetendo a influência francesa naquele país.

Esta abordagem mais melancólica não impede, no entanto, que Josh Cooley acelere o ritmo nos momentos necessários, como quando sua câmera fluída viaja pelos ambientes acompanhando Buzz e Woody indo do parque para a loja de antiguidades e, especialmente, quando acompanhamos quatro linhas narrativas distintas simultaneamente, com Woody na loja, Buzz indo atrás dele, Garfinho sob a custódia de Gabby Gabby e os brinquedos que ficaram no motor home – novamente, ponto para o montador Axel Geddes. Esta sequência mais frenética de ações nos leva a interessante reviravolta em que Woody, após escapar de Gabby Gabby, resolve voltar e tentar encontrar uma dona para ela, após o sofrido abandono que humaniza a personagem e torna mais aceitáveis suas motivações. No entanto, a grande surpresa ainda estava por vir.

Construído cuidadosamente durante toda a narrativa sem jamais escancarar esta intenção, o devastador momento em que Woody decide abandonar o grupo deixa personagens e espectadores em frangalhos, também pela carga emocional que naturalmente evoca após tantos anos. Ciente do impacto desta decisão, Cooley prepara o espectador para este momento tocante através das citadas trilha sonora e fotografia, que criam o clima ideal, e da condução da relação já distante entre Woody e Bonnie desde o início, revelando como ele já não era mais o protagonista daquele universo, o que torna sua decisão compreensível e coerente com sua essência. Certamente um dos mais queridos personagens não apenas da Pixar, mas do universo das animações em geral, Woody merecidamente angariou milhões de fãs de todas as idades ao redor do mundo e certamente levou muitos deles as lágrimas neste instante.

Além da catarse emocional, “Toy Story 4” volta a abordar a importância das crianças na vida dos brinquedos como um dos temas centrais da narrativa, trazendo ainda as tradicionais reflexões filosóficas sobre a natureza dos brinquedos e seu lugar no universo e, de quebra, promovendo outra interessante discussão através do novo personagem feito de lixo. O que é um brinquedo de fato? Uma bola de meia é um brinquedo? Sua função é divertir uma criança até inevitavelmente ser abandonado como Beth e tantos outros ou divertir crianças aleatórias sem jamais criar vínculo com nenhuma delas como fazem os brinquedos nos parques? Somente por isso o longa dirigido por Josh Cooley já vale a pena.

Ainda que o considere inferior ao primeiro e ao terceiro filme, “Toy Story 4” justifica sua existência através da introdução de novos personagens e novas reflexões sem perder características marcantes dos longas anteriores e nos reservando ainda um surpreendente e emocionante desfecho que pode significar o encerramento do ciclo de um dos mais emblemáticos personagens da curta e gloriosa trajetória da Pixar.

Ou seria o início de uma nova trajetória solo? Só o tempo dirá.

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2019 por Roberto Siqueira

43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Queridos leitores,

É com grande orgulho que anuncio que o Cinema & Debate irá cobrir a 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo graças a uma parceria com meu amigo Adriano Cardoso, que irá colaborar conosco durante o festival.

Conheci o Adriano no curso de Teoria, Linguagem e Crítica cinematográfica do Pablo Villaça que inspirou a criação do Cinema & Debate e, desde então, trocamos ideias sobre cinema, política e diversos outros temas cotidianos.

Agradeço ao Adriano pela parceria e deixo abaixo o texto que ele nos enviou sobre o evento:

 

“Mesmo com cortes em seu investimento, fruto da política ignorante e nefasta que nos permeia, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo terá sua 43ª edição este ano. Tendo início na próxima quinta-feira, dia 17, trará até seu encerramento em 30 de outubro, cerca de 300 títulos produzidos nas mais diversas regiões do mundo. Os filmes poderão ser conferidos numa grande gama de salas, espalhadas por toda cidade, e haverá programação especial no canal online da SP Cine, onde alguns exemplares poderão ser assistidos gratuitamente.

O diretor Olivier Assayas será o grande homenageado desta edição, ganhando uma retrospectiva com seus trabalhos mais emblemáticos. Além do cineasta francês, também receberão homenagens Amos Gitai e Elia Suleiman, este último pelo foco de sua filmografia ao colocar o povo palestino em evidência.

Escreverei textos diários sobre muitas das obras em exibição para o Cinema & Debate.

Adriano Cardoso”

 

Site oficial da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: http://43.mostra.org/br/home/

Locais de exibição do circuito: http://43.mostra.org/br/encontre-as-salas/

Site da Spcine: http://spcine.com.br/

Texto publicado em 16 de Outubro de 2019 por Roberto Siqueira

Bem-vindo Thyago!

O ano de 2019 marca uma série de transformações positivas na história do Cinema & Debate. Além de comemorar sua primeira década de existência, o blog ganhou uma nova cara, passou a ter críticas de lançamentos e também um canal no YouTube.

O lançamento do canal me proporcionou uma experiência nova e fantástica, que ainda está na fase inicial e que precisa de muitos ajustes para ficar como eu imagino que deva ser. Ainda assim, consegui divulgar alguns vídeos e de quebra me divertir batendo papo com meus filhos a respeito dos filmes que eles curtem, além de iniciar a série “Crítica Ilustrada”, que eu espero dar sequência logo por gostar demais do seu formato.

No embalo do canal, realizei também um antigo sonho, que era o de escrever sobre lançamentos. Após 10 anos escrevendo sobre filmes que já não estavam mais nos cinemas, julguei ter alguma bagagem e me senti mais a vontade para poder escrever sobre lançamentos e tenho curtido a experiência até aqui, ainda que a falta de tempo não permita que eu escreva na frequência que gostaria.

No entanto, nem tudo saiu como eu queria. Eu adoraria, por exemplo, ter feito algo grandioso para comemorar os 10 anos do Cinema & Debate, mas não pude ir muito além de um texto comemorativo, pois estou envolvido num projeto profissional enorme que tem tomado boa parte dos meus dias.

Felizmente, um outro desejo antigo poderá me ajudar a sanar este problema da falta de tempo e ainda proporcionar a vocês mais conteúdo qualificado e com uma frequência maior. Sempre tive a intenção de encontrar alguém disposto a dedicar parte do seu tempo para produzir conteúdo para o Cinema & Debate, mas nunca tinha levado a ideia adiante por motivos diversos. Chegou a hora de mudar isso.

Após algumas conversas com meu amigo e grande apaixonado por filmes Thyago Bertoni, finalmente consegui convencê-lo a participar do blog e compartilhar com vocês sua visão sobre filmes. Eu e o Thy somos amigos há um bom tempo e, entre tantos temas que adoramos conversar, o cinema certamente é o principal deles. Passamos dias e dias debatendo sobre filmes com nosso amigo Hector e, quando eu ainda morava no Brasil, organizávamos encontros para poder falar pessoalmente também. Conheci ambos graças ao meu primo Thiago e sua esposa Amanda, que já tiveram um blog comigo no passado chamado “Ilha de Lost” e que me apresentaram tanto o Thy quanto o Hector, duas amizades que prezo muito na vida. Nossas famílias tornaram-se amigas, apesar da distância que nos separava já no Brasil e que agora ficou ainda maior. E o cinema segue sendo um dos pontos de conexão entre todos nós.

Ao longo do tempo, fui notando o talento e a sensibilidade do Thyago para escrever sobre filmes e a ideia de convidá-lo para o blog passou a ganhar força. Cada vez que ele compartilhava comentários sobre os filmes que tinha assistido recentemente, a vontade de trazê-lo para o C&D crescia mais. Até que finalmente decidi levar a ideia adiante e, felizmente, ele aceitou.

Espero que curtam a novidade. Desejo todo sucesso do mundo ao Thy e espero que ele seja muito bem-vindo por aqui.

Agora nos resta colocar a mão na massa, assistir muitos filmes e produzir mais e mais conteúdo para vocês.

Um grande abraço e um fim de semana cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 13 de Setembro de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Toy Story 4

Vídeo publicado em 29 de Julho de 2019 por Roberto Siqueira

O restante da Videoteca chegou

Finalmente a Videoteca está completa :).

Chegaram os últimos filmes que ainda estavam no Brasil.

Agora só falta encontrar o móvel ideal para acomodá-la.

Texto publicado em 13 de Julho de 2019 por Roberto Siqueira

Cinema & Debate: 10 anos

Maio de 2009. Enquanto a Dri se dedicava a um projeto profissional em Medellín que fez com que ela vivesse praticamente um semestre na Colômbia com raras vindas ao Brasil, eu buscava me adaptar a uma nova rotina após concluir o MBA e, pela primeira vez em muitos anos, finalmente ter tempo livre. Inquieto como sempre fui, não sabia muito bem como lidar com o tédio pós-horário do trabalho e passei a investir meu tempo em jogos de futebol, happy hours com amigos e, claro, filmes. Era bom, mas faltava algo.

Até que surgiu a oportunidade de fazer o curso Teoria Linguagem e Crítica cinematográfica do Pablo Villaça em São Paulo. Sempre fui fã do Pablo e do Cinema em Cena, adorava ler críticas cinematográficas e sou apaixonado pela escrita. Podia, enfim, unir todas estas paixões. Só que eu não esperava que aquela semana tivesse tamanho impacto em minha vida. Além de uma turma maravilhosa e divertida que me apresentou queridos amigos com quem tenho contato até hoje, pude perceber a diferença que faz estudar algo que realmente amamos. O tempo voava, eu saía das aulas com a mente fervilhando e eu simplesmente tinha que compilar aquilo de alguma forma e em algum lugar. Surgia ali a ideia de criar o Cinema & Debate.

No dia 20 de Junho de 2009 nascia o blog com o primeiro texto “A Sétima Arte”. A intenção inicial era assistir todos os filmes da minha coleção de DVD´s (e posteriormente Blu-rays) em ordem cronológica e escrever sobre eles no blog na categoria “Videoteca do Beto”, num processo que permitira minha evolução como cinéfilo e, por que não dizer, crítico de cinema. Na época eu pensava ser possível evoluir ao ponto de viver da crítica cinematográfica, mas minha falta de visão sobre os caminhos que a crítica seguiria (só criei o canal do Cinema & Debate no YouTube este ano, por exemplo) somada a minha evolução na carreira profissional, que nada tem a ver com cinema, não permitiram que eu conseguisse alcançar este objetivo. Inicialmente, isto me angustiava. Hoje, consigo conviver bem com a ideia de que o blog é um espaço onde compartilho minha visão sobre os filmes e interajo com leitores queridos, sem ter qualquer pretensão de transformá-lo em minha fonte de renda. Em resumo, aprendi a desfrutar a jornada e não me preocupar com o destino final.

Ao longo de 10 anos, escrevi esporadicamente sobre acontecimentos do cotidiano, sobre a família, me emocionei escrevendo sobre o nascimento dos meus filhos, escrevi sobre esportes e eventos importantes como a Copa do Mundo, sobre música, sobre viagens e sobre temas pessoais, mas obviamente a maioria absoluta dos textos gira em torno do cinema. Evolui consideravelmente nas críticas da Videoteca, que atualmente está nos filmes lançados em 2001, divulguei algumas semanas especiais como Nouvelle Vague e Nova Hollywood e escrevi também sobre filmes aleatórios na categoria “Filmes em Geral”. Após um início tímido, o blog atingiu um considerável número de acessos e comentários, especialmente nos anos em que consegui produzir semanalmente, mas nos últimos anos, com a vida profissional em fase pulsante, vi o número de posts cair bastante, sem perder a média de acessos diários que me motiva a seguir em frente e jamais pensar em desistir deste projeto que tanto amo.

Neste sentido, 2019 está sendo um ano bem melhor que os anteriores. Retomei o ânimo, voltei a produzir textos com mais frequência e lancei o citado canal no YouTube, além de finalmente realizar um desejo antigo e começar a escrever sobre lançamentos. Ainda não consegui cumprir desejos antigos, como a semana especial Neo-realismo Italiano, mas esta e outras que tenho em mente irão surgir, assim como a continuidade da Videoteca do Beto, novos vídeos sobre lançamentos e a continuidade da série recém-criada no canal, chamada Crítica Ilustrada. Particularmente, adorei produzir o vídeo sobre a crítica de “Um Sonho de Liberdade” e pretendo produzir muitos outros similares.

E daqui, para onde vamos?

Sinceramente, não consigo visualizar o que será o Cinema & Debate nos próximos 10 anos. Só sei que espero curtir a jornada e me divertir tanto quanto até aqui. Quando deixei o prédio na Avenida Paulista em Maio de 2009 com a mente fervilhando após aquelas aulas maravilhas do Pablo, não podia imaginar que estaria hoje escrevendo este texto, mas a viagem valeu muito a pena.

Espero que tenha sido tão excitante, divertido e interessante para vocês como foi para mim.

Um grande abraço e obrigado a todos que dedicaram algum tempo de suas vidas para ler algum texto no Cinema & Debate.

Até breve!

Texto publicado em 20 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

DIA DE TREINAMENTO (2001)

(Training Day)

 

Videoteca do Beto #245

Dirigido por Antoine Fuqua.

Elenco: Ethan Hawke, Denzel Washington, Eva Mendes, Scott Glenn, Harris Yulin, Tom Berenger, Raymond J. Barry, Snoop Dogg, Dr. Dre, Nick Chinlund, Peter Greene, Jaime Gomez, Cliff Curtis, Noel Gugliemi, Raymond Cruz, Samantha Esteban, Charlotte Ayanna, Macy Gray, Denzel Whitaker e Terry Crews.

Roteiro: David Ayer.

Produção: Robert F. Newmyer e Jeffrey Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A profissão de policial certamente figura entre as mais difíceis e admiráveis do mundo. Responsáveis por manter a ordem e proteger os cidadãos, estes profissionais são preparados (ou deveriam ser) para enfrentar todo tipo de adversidade, seja em funções de menor risco como no controle do trânsito, seja nas divisões mais complicadas como as que tentam enfrentar o crime organizado. No entanto, a proximidade com o mundo do crime, a falta de treinamentos adequados, os complexos problemas sociais a sua volta e diversos outros fatores podem levar alguns destes profissionais a cruzar uma linha tênue e transformá-los naquilo que eles juraram combater. É precisamente neste dilema que “Dia de Treinamento” baseia boa parte de sua narrativa, apresentando dois personagens complexos, distintos e igualmente interessantes, ainda que aqui não reste dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho quando os créditos preenchem a tela no final.

Escrito por David Ayer, “Dia de Treinamento” acompanha Jake Hoyt (Ethan Hawke), um policial recém promovido a divisão de narcóticos que tem 24 horas para decidir se deseja ficar na equipe liderada por Alonzo Harris (Denzel Washington), um veterano que conhece todos os caminhos do crime organizado em Los Angeles e que tem um impressionante currículo de apreensões. No entanto, na medida em que o dia avança, ele descobre que a diferença entre o crime organizado e a polícia pode muitas vezes ser bem menor do que imaginava.

Partindo de uma premissa promissora, o diretor Antoine Fuqua consegue criar uma narrativa instigante e, auxiliado pela montagem de Conrad Buff, intercala entre travellings, muitos close-ups, câmera lenta e câmera agitada para manter um ritmo dinâmico que nos dá a constante sensação de que algo importante irá acontecer a qualquer momento, mantendo a tensão sem permitir que o espectador relaxe. Além disso, o diretor é hábil em criar um ambiente realista e coerente com o universo em que se passa a narrativa, algo reforçado, por exemplo, pela trilha sonora de Mark Mancina, que oscila entre o rap, a música latina e acordes mais pesados, jogando o espectador pra dentro daquela realidade de maneira competente. Da mesma forma, os figurinos de Michele Michel indicam desde o início a dualidade de Alonzo, que surge vestindo o preto típico dos vilões mesmo sendo vendido inicialmente como o tutor experiente e admirado que guiaria Jake.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Mauro Fiore acompanha a evolução natural do dia com o sol surgindo no horizonte no início, preenchendo boa parte do segundo ato e desaparecendo no fim, o que gradualmente torna o longa mais sufocante e nos prepara para o ato final. Vale citar ainda como o jogo de luzes e sombras cobre parcialmente o rosto de Alonzo quando ele pede para Jake executar um traficante, demonstrando visualmente sua faceta criminosa que naquela altura já estava evidente. Tensa, esta cena é crucial para entender o funcionamento daquele submundo e o diálogo que surge a seguir tem igual importância para compreender o questionável código moral de Alonzo.

Abordando diversos problemas sociais dos Estados Unidos, “Dia de Treinamento” falha pela forma caricata que retrata as comunidades e os latinos que cruzam o caminho de Jake, por exemplo, quando ele é abandonado por Alonzo para ser assassinado, numa cena, aliás, que é conduzida de forma muito realista por Fuqua, mas na qual infelizmente a solução para o conflito soa bastante artificial pela maneira simplista como a garota é convencida pelo tio a contar a verdade sobre a tentativa de estupro. Igualmente, quando o enfurecido Jake parte em busca de Alonzo na “Selva”, a comunidade que havia sido retratada como um dos locais mais perigosos da cidade anteriormente, impressiona negativamente como mesmo com os dois brigando, quebrando diversos objetos e atirando para todo lado, os moradores locais demoram uma eternidade para sair de suas casas. Para piorar, o comportamento destes diante do confronto não soa convincente, confirmando como o terceiro ato é de longe o mais fraco segmento do filme.

Felizmente, o realismo de diversas outras cenas compensa estes deslizes, como quando Alonzo utiliza um mandato falso para fazer uma busca numa casa e é obrigado a fugir dali sob os tiros dos moradores locais ou quando Jake sai em disparada para salvar a garota de um estupro e luta sozinho contra seus agressores. Vale citar ainda os diversos diálogos entre os dois policiais que contrapõem visões muito diferentes de mundo e que provocam boas reflexões.

No entanto, é mesmo nas atuações que “Dia de Treinamento” garante seu sucesso. Demonstrando o desconforto de Jake desde o início em sua casa e na primeira conversa com Alonzo num café, Ethan Hawke consegue a difícil tarefa de encarar de frente a excepcional atuação de Denzel Washington sem jamais soar inferior por estar vivendo um novato e, o que é ainda melhor, ampliar o impacto dela ao expor os reflexos das atitudes do veterano em seu personagem com destreza. Com suas expressões minimalistas, Hawke humaniza o personagem, transmitindo seus medos e dúvidas com precisão e, de quebra, saindo-se muito bem em momentos que exigem mais expressividade, como quando surge chapado após consumir as drogas roubadas pelo parceiro. Aliás, a forma como Hawke nos convence de que Jake será capaz de suportar as provações às quais é submetido é crucial para o sucesso da narrativa.

Ameaçador, descolado e já muito à vontade naquele universo, o Alonzo de Washington é o típico policial corrupto que já sabe todos os caminhos que pode percorrer e, mais do que isso, imagina que sabe até mesmo como lidar com jovens idealistas como Jake, apostando na dureza de seu comportamento e no choque como forma de convencer o jovem a aceitar seus métodos controversos, uma vez que, na visão dele, somente assim é possível vencer o crime organizado – e seus números impressionantes reforçam sua visão, já que por mais questionáveis que sejam, estes métodos levaram-no a prender muitos criminosos poderosos ao longo dos anos. Por outro lado, ele parece não dar a mínima para eventos cotidianos que não possam impulsionar sua carreira, o que o leva a pacientemente acender um cigarro e fumar enquanto Jake se engalfinha com dois criminosos numa rua defendendo uma jovem que estava prestes a ser estuprada. O que mais impressiona, no entanto, é como Alonzo acredita de fato no que diz e na forma que age, como fica explícito na conversa em que explica o conceito dos lobos e ovelhas para Jake ou quando, de forma irônica, pede ao jovem que recolha as provas recolhidas ilegalmente do traficante Blue, vivido pelo icônico Snoop Dogg. Para ele, os fins justificam os meios e aquela era a única forma de sobreviver naquele ambiente. A energia de Washington no papel é contagiante, conquistando o espectador mesmo diante de diversas atitudes reprováveis – e seu sorriso quando Jake utiliza um de seus bordões contra ele chega a ser comovente, evidenciando o quanto acreditava em seus próprios métodos.

Insinuando a corrupção policial logo de cara quando Jake diz para a esposa que ela deveria ver as casas que eles têm, referindo-se aos chefes de divisão da Polícia, “Dia de Treinamento” não hesita em questionar os riscos intrínsecos ao poder concedido a estes profissionais nos Estados Unidos, onde, por exemplo, existe o malfadado excludente de ilicitude proposto recentemente em nosso Brasil, que permite um policial matar em serviço, algo escancarado na citada cena do assassinato de um traficante, minuciosamente planejado por Alonzo. “Só por que temos distintivos é diferente?”, questiona Jake após o crime. A conversa a seguir dentro do carro expõe as visões opostas dos personagens, com Jake transtornado pelo que viu enquanto Alonzo demonstra compreensão pela reação dele e, estrategicamente, elogia o parceiro, numa tentativa de elevar a autoestima do rapaz para ganhar sua empatia e atraí-lo para aquele mundo. Só que Fuqua não deixa margem para interpretações e evidencia que reprova o comportamento de Alonzo, punindo o personagem na conclusão da narrativa e ratificando Jake como herói, o que não deixa de ser decepcionante pela forma ambígua que ambos foram desenvolvidos até ali.

De toda forma, os questionamentos levantados em “Dia de Treinamento” são muito válidos e ainda atuais, sendo aplicáveis não somente nos Estados Unidos, mas em outros países como o Brasil. Como deve agir um policial para sobreviver num ambiente em que está sob constante ameaça e no qual criminosos não hesitarão um segundo sequer antes de tirar-lhe a vida? Por outro lado, até onde este mesmo policial pode ir? Certamente não é aceitável roubar suspeitos e utilizar estes objetos roubados em negociações com informantes, atuar como juiz e não apenas condenar suspeitos como assassiná-los por interesses próprios ou consumir as mesmas drogas que busca retirar das ruas – e é relevante refletir sobre isso numa sociedade que muitas vezes confunde a busca por segurança com sede por vingança. Ao mesmo tempo em que é preciso oferecer proteção aos cidadãos e aos próprios policiais, também é preciso refletir sobre os riscos inerentes ao excesso de poder que por vezes é conferido a eles. Esta é a melhor discussão que o filme de Fuqua pode fomentar e é por isso que o terceiro ato decepciona ao transformar Alonzo num monstro unidimensional e afastá-lo do espectador.

Mesmo com estes deslizes, “Dia de Treinamento” funciona bem como um retrato da corrupção policial e da complexa situação vivida por quem é jogado na guerra ao tráfico, sejam policiais, sejam cidadãos comuns. Sedimentado em duas atuações brilhantes, funciona como bom entretenimento sem que por isso deixe de provocar reflexão, ainda que um terceiro ato melhor trabalhado pudesse elevar sua complexidade temática e narrativa. Imperfeito como Alonzo, num primeiro momento o longa de Antoine Fuqua conquista o espectador da mesma forma magnética com que o veterano policial faz com todos ao seu redor e, posteriormente, nos afasta da mesma maneira como Jake se afasta dele.

“Você quer ir para a cadeia ou ir para casa?”. Jake preferiu ir para casa. Sorte dele.

Texto publicado em 09 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

CIDADE DOS SONHOS (2001)

(Mulholland Dr.)

 

 

Videoteca do Beto #244

Dirigido por David Lynch.

Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Ann Miller, Lee Grant, Melissa George, Robert Forster, Brent Briscoe, Dan Hedaya, Monty Montgomery, Katharine Towne, Lori Heuring, Billy Ray Cyrus, James Karen, Chad Everett, Geno Silva, Jeanne Bates, Mark Pellegrino, Patrick Fischler e Michael Cooke.

Roteiro: David Lynch.

Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde e Mary Sweeney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Famoso por construir narrativas surrealistas povoadas por personagens bizarros envoltos numa atmosfera sufocante, David Lynch já tinha pavimentado uma carreira de sucesso através de filmes como “O Homem Elefante”, “Veludo Azul” e “Coração Selvagem” quando a obra-prima “Cidade dos Sonhos” chegou aos cinemas. Aclamado pela crítica, o longa ganhou status de cult ao longo dos anos, chegando a liderar a lista dos melhores filmes do século da BBC de Londres e sendo alvo durante anos de minuciosos debates entre cinéfilos na internet em busca de desvendar as pistas deixadas na narrativa para embasar suas interpretações. Ciente disso, Lynch jamais caiu na tentação de explicar maiores detalhes sobre seu filme, deixando aos fãs a deliciosa missão de interpretar tudo aquilo segundo suas próprias visões e experiências.

Como de costume escrito pelo próprio Lynch, “Cidade dos Sonhos” acompanha a trajetória de Betty (Naomi Watts), que deixa o Canadá e parte para Los Angeles em busca de realizar o sonho de ser atriz. Ao chegar na casa de sua tia, ela depara-se com outra jovem garota (Laura Harring) que acaba de sobreviver a um acidente de carro e está totalmente desorientada, incapaz de lembrar o próprio nome. Comovida com a situação, Betty tenta ajudá-la a recordar sua própria história enquanto tenta emplacar na concorrida indústria cinematográfica de Hollywood. Enquanto isso, o diretor de cinema Adam Kesher (Justin Theroux) é coagido pela máfia a contratar a atriz Camilla Rhodes (Melissa George) para estrelar seu próximo filme.

Logo após a pequena introdução que antecede o letreiro da rua Mulholland Drive que inspira o nome original do filme, Lynch mergulha sua câmera em um travesseiro, num movimento chave para que, mais cedo ou mais tarde, o espectador compreenda um pouco melhor o universo onírico para o qual será sugado durante quase toda a projeção. Apoiado em um roteiro bastante complexo que bebe diretamente na fonte noir, “Cidade dos Sonhos” nos transporta pelo pesadelo de uma jovem angustiada pelo que fez e que parece condenada a não mais acordar (aliás, existe alguma “tradução” mais spoiler que essa?). Assim, em diversos instantes nos deparamos com personagens que parecem impotentes, paralisados diante de algo sem saber como reagir, exatamente como nos sentimos nos sonhos. Repare também como logo após o cowboy ordenar que a protagonista acorde, diversos personagens surgem em papéis diferentes do que tínhamos até então, evidenciando uma confusão também comum quando sonhamos. Da mesma forma, as cenas noturnas trazem constantemente os faróis dos carros e as luzes da cidade com intensidade maior que o normal, num uso do flare que reforça a atmosfera onírica pretendida pelo diretor, ampliada pelas misteriosas composições da trilha sonora de Angelo Badalamenti (que faz uma ponta no filme) e pelos momentos surreais como o assassinato de três pessoas num escritório envolvendo um aspirador de pó.

Repleto de diálogos estranhos, como aquele entre Adam e o cowboy (Monty Montgomery) sobre a escolha de uma atriz, o longa é repleto de momentos desconfortáveis para o espectador, tornando a experiência mais inquietante e confirmando que “Cidade dos Sonhos” é muito mais um filme para sentir do que propriamente para entender, ainda que uma coisa não exclua a outra. Apostando em movimentos de câmera cheios de estilo como o travelling pelo letreiro famoso de Hollywood que nos leva a mansão onde Betty encontraria Rita e que nos permite contemplar o local onde se passaria a narrativa, além de realçar a importância da cidade na interpretação daquilo tudo – afinal, estamos falando de uma terra onde as pessoas vão em busca de sonhos –, Lynch utiliza muitas vezes o close-up para realçar as reações dos personagens diante do universo perturbador que cria, repleto de imagens assustadoras como aquelas que acompanham a visita a casa número 17 onde a jovem Diane surge imóvel numa cama ou na sequência fantasmagórica que se passa no clube “Silêncio”, passando ainda pela pesada cena em que Betty se masturba com muito mais dor que prazer, já próximo à conclusão do filme.

Apostando num visual dominado pela noite no primeiro ato, a fotografia de Peter Deming realça o vermelho em diversos instantes (a toalha que cobre Rita e a cor de seu batom, diversas roupas de Rita e de outros personagens como Coco, etc.), o que não apenas simboliza a paixão que motivaria o crime cometido pela protagonista como também reflete o intenso sentimento de culpa dela. E se as cores sem vida do apartamento de Diane refletem seu estado de espírito após descobrirmos a razão de seu sofrimento, os figurinos de Amy Stofsky também ilustram a evolução da personagem durante a narrativa, refletindo a falta de brilho de sua vida no ato final, quando ela abandona de vez a blusa rosa e passa a usar cores opacas. Além disso, repare como Rita surge vestida de preto na cena em que abre a caixa azul e é sugada por ela, num claro simbolismo de sua morte.

Inicialmente imprimindo um ritmo mais lento e contemplativo, Lynch acelera a narrativa progressivamente até que, com o auxílio de sua montadora Mary Sweeney, construa uma sequência final que nos transporta por lugares aparentemente desconexos, mas já conhecidos pelo espectador e que ganham significados completamente diferentes na segunda ou terceira aparição, assim como ocorre com vários diálogos que ganham novos significados quando repetidos em outro contexto, como o teste de Betty para um papel, que começa numa brincadeira da montagem que simula uma discussão entre ela e Rita somente para, segundos depois, revelar que era apenas um ensaio e que torna-se infinitamente mais dramático e pesado quando ela contracena com outro ator em busca de conseguir o papel. Finalmente, vale destacar as diversas transições interessantes como o raccord sonoro que nos leva de um jantar para uma negociação numa mesa de um restaurante através de pratos que quebram.

Aliás, vale destacar como o design de som é vital para o funcionamento da narrativa justamente pela ausência do som, por exemplo, quando acompanhamos Betty andando pela casa da tia e mal conseguimos ouvir seus passos ou quando o diretor traído briga com a esposa e, enquanto ela grita e esbraveja, ele apenas age sem pronunciar palavra alguma. O silêncio, que surge no nome do clube e que é a palavra que encerra a narrativa, preenche boa parte do longa de maneira proposital, o que também remete aos mais terríveis pesadelos, quando por vezes somos incapazes de gritar ou chamar alguém próximo para nos socorrer.

Por tudo isso, “Cidade dos Sonhos” é um filme em que a sensação de estranhamento tem presença constante, fazendo com que o espectador não se sinta como alguém que pertence aquele universo (e como poderia?), o que é amplificado pelas atuações propositalmente exageradas em muitas cenas, especialmente na primeira metade do filme, quando temos reações quase caricatas de personagens como a sinistra senhora Louise (Lee Grant). No entanto, Lynch é sábio o suficiente para não permitir que seus atores passem do ponto e estraguem a experiência que ele pretende nos proporcionar, balanceando estes instantes de maneira eficiente com outros em que o realismo das atuações impressiona, especialmente nos minutos finais da projeção.

Em atuação impactante, Naomi Watts conclui a brutal transição da alegre e entusiasmada Betty para a transtornada e agressiva Diane com muita competência, convencendo em ambos os casos. A atriz transmite com precisão, por exemplo, o deslumbramento de Betty ao chegar em Los Angeles (“Agora estou neste local de sonhos”, diz ela), mostrando-se feliz por estar ali e empolgada com as portas que poderiam se abrir naquela cidade, agindo quase que de maneira infantil em boa parte do tempo, mas crescendo bastante quando necessário, como no citado teste para um desejado papel. Assim, o contraste entre a ingênua Betty e a devastada Diane do ato final chama bastante a atenção, quando Watts encarna a angústia de uma personagem atormentada pelo que fez de maneira visceral.

Com menor intensidade, Laura Harring convence tanto como a mulher que escapa de um acidente e parte em busca da identidade perdida quanto como a atriz bem sucedida que curte a fama e parece ter certo prazer em desprezar a amiga e ex-amante que faz questão de manter próxima, alternando do olhar perdido e distante de Rita para o olhar penetrante e levemente arrogante de Camilla, assim como transita de uma postura corporal assustada e defensiva para uma atitude muito mais confiante e desenvolta, que faz jus a alguém que chegou ao sucesso profissional. Obviamente, não podemos deixar de citar o bom desempenho das duas atrizes ao exalar a tensão sexual latente desde o início entre as personagens até finalmente se concretizar num ato físico quando Betty convida Rita para dormir com ela.

Espalhando pistas por toda o longa, como o close-up no nome dos funcionários do restaurante Winkle’s, Lynch constrói uma narrativa envolvente e totalmente aberta a interpretações, que estimula o espectador a formular suas próprias teorias e alimenta uma vontade quase imediata de rever o filme logo após sua conclusão, o que é sempre um bom sinal. Teria o pesadelo que inicia no travesseiro de fato se encerrado nas palavras do cowboy ou estaríamos diante de um pesadelo sem fim, viajando pela mente perturbada de uma alma condenada? Diane realmente se suicidou ou seria apenas mais um devaneio da mente perturbada da garota? A reviravolta abre diversas possibilidades e permite que cada espectador construa sua própria visão daquele universo, o que geralmente está muito mais relacionado a sua experiência de vida, as suas memorias afetivas e aos estímulos sensoriais que sentiu durante o longa do que a alguma lógica inquestionável que amarre todas as pontas do roteiro. Não é exatamente o que acontece quando tentamos compreender um sonho ao despertar? A minha visão segue a leitura mais comum entre cinéfilos, de que Diane, corroída pelo ciúme, encomenda o assassinato da ex-namorada Camilla após esta anunciar seu casamento com o diretor Adam Kesher numa festa, dorme, tem um pesadelo (que no caso domina boa parte da narrativa e embaralha diversas pessoas e acontecimentos da vida real de Diane), acorda atormentada pela culpa e comete suicídio, mas é claro que esta é apenas uma entre as inúmeras possibilidades de leitura desta obra-prima.

Sendo assim, o espectador não precisa se martirizar caso não consiga encaixar todas as peças do complexo quebra-cabeças e compreender totalmente aquele universo onírico. Nem era isso que Lynch pretendia, aliás. O diretor não é destes que gostam de entregar explicações fáceis e mastigadas, preferindo deixar o espectador livre para permitir-se levar pelas sensações e criar suas próprias interpretações. Nada daquilo precisa obrigatoriamente fazer sentido. O importante é que a experiência vivida represente alguma forma de absorção e aprendizado, ainda que deixe nossas mentes fervilhando, confusas e envolvidas num longo processo de assimilação que geralmente vem acompanhado dele…

O silêncio.

Texto publicado em 03 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Um Sonho de Liberdade (Crítica ilustrada)

Vídeo publicado em 23 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira