M*A*S*H (1970)

(M*A*S*H)

 

Filmes em Geral #26

Dirigido por Robert Altman.

Elenco: Donald Sutherland, Elliott Gould, Tom Skerritt, Sally Kellerman, Robert Duvall, Roger Bowen, Rene Auberjonois, David Arkin, Jo Ann Pflug, John Schuck, Gary Burghoff, Fred Williamson, Michael Murphy, Indus Arthur, Kim Atwood, Carl Gottlieb e G. Wood.

Roteiro: Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker.

Produção: Ingo Preminger.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “M*A*S*H”, um homem se aproxima de seus companheiros de exército e anuncia sua intenção cometer suicídio. Só que ao invés de provocar o choque naqueles que ouvem seu plano, ele ouve instruções sobre os métodos mais seguros e higiênicos para cometer tal ato, e em seguida, se vê num verdadeiro ritual, com direito à presença de um padre, criado para permitir que ele coloque em prática aquilo que planejou. Este tipo de humor negro refinado é o fio condutor deste excelente filme dirigido por Robert Altman, que critica o horror da guerra através de situações extremas, nos alertando para a proximidade entre aqueles absurdos e a insanidade dos conflitos armados.

Dois jovens e competentes cirurgiões conhecidos como Hawkeye (Donald Sutherland) e Trapper John (Elliott Gould) transformam a horrorosa rotina de sangue e pânico de uma unidade médica do exército americano durante a guerra da Coréia em algo extremamente divertido. Com seu jeito descontraído, eles conseguem evitar os traumas provocados pela chocante rotina de cirurgias e mortes, mas encontrarão a resistência de pessoas ainda presas aos rígidos métodos tradicionais do exército.

A leveza da narrativa contrasta diretamente com o visual cru e realista de “M*A*S*H”, chamando a atenção do espectador através do exagero e do choque para os absurdos da guerra. Escrito por Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker, o roteiro é repleto de piadas que fogem do politicamente correto, seja através do racismo, seja através do sexo ou até mesmo da ridicularização da fé, como quando um jovem troca a bíblia por uma revista masculina ou quando o Major Burns (Robert Duvall) tenta fazer sua oração enquanto os outros médicos zombam dele. Apostando em diálogos ágeis e sarcásticos, que provocam o riso no espectador através do exagero das situações, Hooker aproveita ainda para criticar duramente as tradições do exército e o autoritarismo, como quando Burns é retirado numa camisa de força e um soldado pergunta se para voltar pra casa tudo que ele precisava fazer era transar com Hot Lips (Sally Kellerman) e bater em Hawkeye. Finalmente, até mesmo as drogas são abordadas pelo bom roteiro de Hooker quando o alto-falante anuncia que a maconha passou a ser considerada perigosa pelo governo, “ainda que os médicos afirmem que ela não é mais perigosa que o álcool”.

Com um bom roteiro nas mãos e liberdade para conduzir a narrativa à sua maneira (a Fox estava mais preocupada na época com outras duas produções sobre guerra, “Patton – Rebelde ou Herói?” e “Tora! Tora! Tora!”), Robert Altman não perdeu a oportunidade e colocou em prática a sua maneira de ver cinema, apresentando uma narrativa fragmentada, recheada de diversos personagens que se cruzam em histórias paralelas. Fã do zoom, Altman utilizou o recurso diversas vezes em “M*A*S*H” (como durante algumas cirurgias, por exemplo), sem jamais informar aos atores quando faria isto, o que obrigava todo o elenco a estar o tempo todo ligado, pois a qualquer momento a câmera poderia destacar alguém no plano. Além disso, o diretor conduz perfeitamente algumas das cenas mais engraçadas do filme, como a divertida seqüência em que os soldados descobrem se Hot Lips (algo como “Lábios Quentes”) é loira falsa ou não. A câmera acompanha a moça até o chuveiro, volta para nos mostrar a platéia que se forma e, após o sinal de um dos soldados, nos revela subitamente a imagem da mulher se jogando ao chão, desesperada. Outro momento que merece destaque é a citada seqüência do suicídio de Painless (John Schuck), iniciando no hilário diálogo entre o ele e Hawkeye, seguido pela discussão sobre os melhores métodos de suicídio e finalizando no debate com o padre sobre a absolvição de Painless. Nesta cena, aliás, o simbólico plano dos médicos sentados à mesa remete ao quadro “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci – e repare como Painless está na posição de Cristo no plano e como a frase “ninguém pediu para que ele fizesse isso” pode ser interpretada como uma referencia ao sacrifício de Cristo. Altman aproveita também para inovar no uso do som, através da grande quantidade de cenas em que os diálogos se cruzam, com diversos personagens falando ao mesmo tempo, e diálogos que são até mesmo interrompidos, algo completamente diferente do padrão estético de Hollywood até então. Repare ainda como em algumas cenas o som que ouvimos já não tem mais ligação com a imagem que aparece na tela, como quando continuamos escutando uma conversa entre Hawkeye e Hot Lips enquanto vemos as imagens do pré-operatório (sem a presença deles) na tela. E por falar em pré-operatório, as cenas de cirurgia são extremamente realistas, ilustrando bem o resultado nada agradável dos conflitos naqueles jovens soldados. Finalmente, Altman também fez questão de não ter atores muito conhecidos, com exceção de Elliott Gould, que havia acabado de ser indicado ao Oscar por “Bob & Carol & Ted & Alice”.

O elenco desconhecido, no entanto, não prejudica em nada o resultado final de “M*A*S*H”. Na realidade, Altman se sentiu mais à vontade para extrair do elenco atuações coerentes com a leveza da narrativa, começando por Donald Sutherland, que encarna bem o típico malandro, reagindo com naturalidade aos absurdos que vê. É como se toda aquela gente ferida já não mais causasse impacto nele. Seu Hawkeye é também o estereótipo do cara-de-pau, como podemos notar na cena em que pergunta cinicamente ao Major Burns sobre a performance sexual de Hot Lips. Já Sally Kellerman está caricata na pele da enfermeira-chefe Margaret O’Houlihan, a famosa Hot Lips, o que acaba funcionando bem graças ao aspecto propositalmente caricato do longa. A pequena participação de Robert Duvall é mais que suficiente para que ele demonstre seu talento, ao compor um fanático religioso com exatidão. Repare seu desespero quando sua transa com Hot Lips é anunciada nos alto-falantes, gritando e colocando a roupa desesperadamente. Esta divertida cena, aliás, serve também para criticar o falso puritanismo típico dos religiosos extremistas. Após se sentir ofendida diante das insinuações de Trapper, Hot Lips se retira e, acompanhada do Major Burns, prepara uma carta denunciando os abusos daquela unidade em “defesa da moral do exército”. Em seguida, Hot Lips e Burns, atraídos um pelo outro, dizem que só vão transar porque “Deus os uniu” e que estavam “fazendo a vontade Dele”. Começa então uma barulhenta sessão de amassos e beijos que, com a ajuda de alguns soldados, seria captada pelos microfones e espalhada por todo o local através dos alto-falantes. É comum ver pessoas criticando o comportamento sexual dos outros diante da sociedade e entre quatro paredes agindo da mesma forma que criticam. Voltando ao elenco, G. Wood está muito divertido como o general Hammond, principalmente quando assume o posto de treinador do time do exército, e Tom Skerritt se sai bem na pele do capitão Bedford, o “Duke”. Mas o grande destaque mesmo é Elliot Gould (o pai de Monica e Ross no seriado “Friends”), que está excepcional como o sarcástico Trapper, arrancando o riso do espectador em praticamente todas as suas aparições.

Tecnicamente, merece destaque a bela trilha sonora de Mike Altman e Johnny Mandel, liderada pela melódica “Suicide is painless”. Quando uma enfermeira é convencida a “salvar” Painless, a trilha evocativa reforça a “ressurreição sexual” do rapaz, ilustrada também no óbvio plano em que o lençol se levanta. A montagem de Danford B. Greene ajuda a conduzir a narrativa com leveza, jamais estendendo demasiadamente um esquete, além de colaborar nas citadas seqüências em que o som e a imagem não têm sincronia. Vale destacar ainda a direção de fotografia de Harold E. Stine, que destaca o verde nas cenas exteriores e o o vermelho nas cirurgias, criando um contraste interessante e colaborando com o choque que estas imagens sangrentas provocam no espectador, auxiliado também pela direção de arte de Arthur Lonergan e Jack Martin Smith que capricha nos pequenos detalhes, como os instrumentos utilizados nas cirurgias. A fotografia participa decisivamente ainda em outra cena, quando os tons escuros, atenuados pela névoa, criam uma atmosfera triste na cena em que os médicos levam Painless no caixão.

O sensacional final metalingüístico de “M*A*S*H” é totalmente coerente com a linguagem despojada do longa dirigido por Altman, que trata o horror da guerra com muito bom humor, mas não deixa de criticar duramente a insanidade dos conflitos. Apesar da narrativa se passar na Coréia, Robert Altman fez questão de evitar qualquer referencia ao local, mostrando claramente sua intenção de criticar a participação norte-americana na guerra do Vietnã. Com humor refinado e um elenco afiado ele conseguiu mais do que isto, realizando um filme leve, delicioso e memorável.

Texto publicado em 12 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

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2 Respostas to “M*A*S*H (1970)”

  1. Janerson Says:

    Olá Roberto. Novamente parabéns. Acho que uma das características de Altman é a direção de vários atores em cena. Isso também se vê no excepcional Nashville. Quanto ao filme, os primeiros minutos parecem mais um dos tantos filmes de guerra que retratam as agruras do Vietnã. Porém logo começa a leveza da trama. O filme é realmente muito bem conduzido. A trilha sonora saída de altos falantes incorporada à rotina diária da tropa achei uma ideia genial. Boas atuações especialmente a dupla Sutherland e Gould. Uma rápida e correta participação de Robert Duvall e também G. Wood muito bem na pele do general derrotado no jogo de futebol. Um filme que vai na contramão de tudo o que já foi apresentado por Hollywood em matéria de guerra e com algumas mensagens; entre elas o nome do local onde eles estavam acampados: swamp (pântano), demonstrando em resumo o significado de tudo aquilo. M.A.S.H. se apresenta como um oásis de vida e risadas num cenário de dor que é uma guerra.
    Abraço

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