CAMINHANDO NAS NUVENS (1995)

(A Walk in the Clouds)

 

Videoteca do Beto #123

Dirigido por Alfonso Arau.

Elenco: Keanu Reeves, Anthony Quinn, Aitana Sánchez-Gijón, Giancarlo Giannini, Angélica Aragón, Evangelina Elizondo, Freddy Rodríguez, Debra Messing, Febronio Covarrubias, Roberto Huerta, Juan Jiménez, Alejandra Flores e Gema Sandoval.

Roteiro: Mark Miller, Robert Mark Kamen e Harvey Weitzman, baseado em roteiro de Piero Tellini, Cesare Zavattini e Vittorio de Benedetti.

Produção: Gil Netter, David Zucker e Jerry Zucker.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para curtir “Caminhando nas Nuvens” em sua plenitude é imprescindível que o espectador se desarme e embarque no espírito romântico do filme. Apresentando alguns clichês típicos do gênero, atuações irregulares e uma narrativa até certo ponto previsível, o longa dirigido por Alfonso Arau se salva por sua beleza estonteante e por sua atmosfera pura e ingênua. Mas, apesar de seus momentos agradáveis, está longe de ser um grande filme.

Após voltar da 2ª guerra mundial, o jovem Paul Sutton (Keanu Reeves) descobre que não tem afinidade com a esposa e decide viajar até a empresa onde trabalha como vendedor de chocolates, numa tentativa de mudar de vida. No caminho, ele conhece Victoria Aragón (Aitana Sánchez-Gijón), uma bela jovem que está voltando pra casa grávida após estudar em outra cidade. Temendo a reação de seu pai (Giancarlo Giannini), ela convence Paul a fingir ser seu marido e passar uma noite nos vinhedos da família.

Escrito por Mark Miller, Robert Mark Kamen e Harvey Weitzman, baseado em roteiro de Piero Tellini, Cesare Zavattini e Vittorio de Benedetti para o filme “O Coração Manda” (Quatro Passi fra le Nuvole, 1942), o roteiro de “Caminhando nas Nuvens” não foge de alguns clichês básicos dos romances, como a dificuldade imposta ao casal antes do final feliz, o pai ignorante e opressor e a mãe (Angélica Aragón) que compreende o drama da filha. Incomoda também o fato de uma família tradicional mexicana falar tanto em inglês, ainda que em alguns momentos o espanhol surja. Além disso, algumas discussões soam bastante artificiais, como no primeiro jantar em que Paul se retira da mesa. Pra piorar, confesso que imaginei com certa facilidade o que aconteceria quando ele deixa o vinhedo e volta pra casa, anulando o efeito dramático da cena. Ainda assim, a história consegue agradar, especialmente pela forma como Paul e Victoria desenvolvem sua relação, mas também pelos belos momentos vividos por Paul e o avô dela, Don Pedro Aragón (Anthony Quinn).

Ainda no início, uma elegante transição do preto e branco para o colorido (montagem de Don Zimmerman) nos leva aos tempos da segunda guerra mundial, onde um diálogo expositivo explica que Paul está retornando da guerra para reencontrar a esposa Betty (Debra Messing), que mal conhecia (ele se casou num dia e viajou no outro), e o plano plongèe dele perdido no porto já indica que aquele não era exatamente seu lugar. Em casa, sua consumista esposa parece apenas preocupada em encontrar novas maneiras de ganhar mais dinheiro e o convence a continuar vendendo chocolates. Por isso, ele decide partir. E será nesta viagem que Paul mudará sua vida para sempre. Num encontro casual no trem, ele troca olhares com Victoria, mas o momento romântico é interrompido de maneira nada higiênica. Neste mesmo dia, seus caminhos voltariam a se cruzar, desta vez de maneira definitiva.

Um ator que funciona melhor em filmes de ação, Keanu Reeves vive Paul com a costumeira inexpressividade, mal reagindo às agressões verbais de Alberto, o relutante pai da garota (repare, por exemplo, sua apatia na discussão nos tonéis, que se torna ainda mais evidente graças aos exageros de Giannini). Ainda assim, o ator consegue criar empatia com Aitana Sánchez-Gijón, o que salva parte de sua atuação. Por outro lado, Aitana está simpática e sensual como Victoria Aragón, deixando claro desde o início que deseja ficar com Paul através do olhar insinuante e falhando apenas em alguns momentos dramáticos, onde não transmite emoção de maneira convincente, como quando se revolta com uma proposta dele. Já Giancarlo Giannini tem uma atuação exagerada e caricata na pele do unidimensional Alberto Aragón, que, de maneira irritante, parece sempre disposto a brigar com Paul, mesmo depois que descobre as boas intenções do rapaz. Por sua vez, Angélica Aragón se sai bem com a mãe de Victoria, demonstrando paciência para lidar com os conflitos entre pai e filha.

Certamente a melhor atuação do longa, Anthony Quinn está ótimo como Don Pedro Aragón, sempre convencendo Paul a ficar com eles de maneira carismática. Don Pedro é o alicerce de uma família tradicional, agora comandada pelo filho, mas ainda sob seu olhar atento. Logo em sua primeira aparição, fica claro o respeito que todos têm por ele, quando é convocado para dar a palavra final sobre a permanência de Paul. Órfão e ex-combatente, Paul é uma pessoa carente, e Don Pedro logo se encarrega de acolher o rapaz da melhor maneira possível. Esta relação quase paternal é uma das melhores coisas de “Caminhando nas Nuvens”, muito por causa de Quinn.

Mas se erra na direção de atores e não consegue extrair o melhor de todo o elenco, Alfonso Arau acerta na criação de lindos planos e na condução de cenas de grande impacto visual. Auxiliado pela belíssima fotografia de Emmanuel Lubezki, que abusa de cores quentes e realça a beleza dos vinhedos, o diretor nos brinda com planos que mais parecem quadros, com a vinícola surgindo banhada pelos raios solares, conferindo à “Las Nubes” um ar celestial, reforçado pelo próprio nome do local. Outro momento que remete a natureza paradisíaca do lugar acontece quando a geada atinge as uvas e as pessoas se vestem com asas para espalhar o calor pela plantação, tornando-se parecidas com anjos. Finalmente, na volta de Paul ao vinhedo, o esperado reencontro com Victoria é interrompido pela revolta de Alberto, que acidentalmente provoca um incêndio de enormes proporções, permitindo ao diretor criar uma interessante rima visual e temática, com a vinícola, agora em chamas, remetendo ao inferno.

“Caminhando nas Nuvens” homenageia ainda a cultura das vinícolas e a tradição familiar, na bela seqüência da colheita e na divertida dança das mulheres, que pisam nas uvas. Após este momento eufórico, surge o primeiro beijo de Paul e Victoria, mas a reação “racional” dele tira toda a magia da cena. Magia que volta no momento mais romântico da narrativa, quando ele faz uma serenata pra ela. Desta vez, nem a inexpressividade de Reeves estraga a beleza da cena, com Victoria espiando da janela, a noite iluminada e a tradicional canção. Aliás, a bela trilha sonora de Maurice Jarre merece destaque justamente por misturar acordes clássicos com sons que remetem às músicas mexicanas.

Apesar de todos os escorregões, “Caminhando nas Nuvens” termina com um final feliz e uma mensagem que glorifica a família e o amor, o que, compreensivelmente, agrada ao espectador. Ainda assim, não podemos fechar os olhos para as falhas de uma narrativa que, com pequenos ajustes, poderia ser bem melhor. Por outro lado, sua beleza e a inocência de sua mensagem conferem uma aura singular ao filme. É raro falar de amor com tanta pureza hoje em dia.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

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