MINHAS MÃES E MEU PAI (2010)

(The Kids Are All Right)

 

Filmes em Geral #84

Dirigido por Lisa Cholodenko.

Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Zosia Mamet, Lisa Eisner, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Joaquin Garrido, Rebecca Lawrence e Eric Eisner.

Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg.

Produção: Gary Gilbert, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg e Jeffrey Levy-Hinte.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostando no interesse do público por famílias que fogem de padrão estabelecido pela sociedade, “Minhas mães e meu pai” tem todos os ingredientes do chamado “cinema alternativo”, apresentando os dilemas e conflitos de uma família formada por duas mulheres homossexuais e seus filhos gerados a partir de inseminação artificial. O problema é que o roteiro falho e repleto de personagens que mais parecem caricaturas raramente consegue criar piadas interessantes e tampouco funciona como drama, ficando num perigoso meio termo que evidencia seus problemas não solucionados pela diretora Lisa Cholodenko. Ainda assim, é possível extrair pontos positivos da experiência.

Escrito pela própria Cholodenko em conjunto com Stuart Blumberg, “Minhas mães e meu pai” apresenta os irmãos Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), filhos do casal homossexual Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening), quando estes resolvem conhecer seu pai biológico sem o conhecimento das mães. Entretanto, o relacionamento da família começa a se deteriorar quando Paul (Mark Ruffalo), o pai biológico, passa a fazer parte do cotidiano deles.

Logo no primeiro encontro entre Paul e seus filhos, podemos notar uma das marcas de “Minhas mães e meu pai”, que é a estranheza dos diálogos, o que neste caso funciona bem se levarmos em consideração o desconforto de todos naquele instante. O problema é que estes diálogos, digamos, desconexos continuam a aparecer mesmo quando Paul passa a fazer parte do cotidiano da família e, o que é pior, também nas conversas entre as mães e seus filhos, como quando Laser revela que conheceu o pai biológico, onde as mães parecem sequer fazer idéia do que o rapaz está tentando dizer. Além disso, a suposta dúvida das mães sobre a vida sexual do rapaz jamais convence e tampouco funciona como piada, tornando a cena ainda mais artificial por causa das reações agressivas de Nic.

Demonstrando inabilidade na construção de piadas, Cholodenko tenta compensar a falha logo no primeiro ato criando uma atmosfera juvenil através de músicas agitadas e do sexo, numa tentativa de conquistar o público jovem que falha terrivelmente nas duas primeiras oportunidades, em cenas que envolvem um vídeo pornô. Mantendo as ações banhadas pela luz do dia na maior parte do tempo e apostando num visual colorido (reforçado pelos figurinos de Mary Claire Hannan), o diretor de fotografia Igor Jadue-Lillo reforça esta atmosfera leve, coerente com o propósito cômico da narrativa. Mas se falha na condução dos momentos cômicos, pelo menos Cholodenko acerta na seqüência em que Nic descobre a traição de Jules, contando com o apoio do design de som para simular o choque da personagem, que sequer consegue ouvir as conversas na mesa. Também é interessante a forma natural que a narrativa aborda o casamento e seus problemas normais depois de tantos anos de convivência – e neste aspecto, o fato de serem duas mulheres em nada impede casais heterossexuais de compartilharem a sensação de desgaste das personagens, o que é ótimo.

Felizmente, nem mesmo o fraco roteiro impede que o elenco de “Minhas mães e meu pai” entregue boas atuações. Vivendo a jovem Joni com surpreendente desenvoltura e segurança, Mia Wasikowska demonstra carisma e cria empatia com Mark Ruffalo, demonstrando ainda de maneira consistente a paixão que nutre pelo amigo, que jamais percebe os sentimentos da garota. Por isso, é uma pena que o montador Jeffrey M. Werner priorize as sequências que envolvem o relacionamento dos adultos ao invés de focar no impacto que a chegada do pai biológico provoca nos filhos, que certamente renderia um filme bem mais interessante e complexo. Pelo menos, Werner acerta ao criar piadas através de elipses, como quando Paul e Jules afirmam que não devem seguir transando e, na cena seguinte, surgem juntos na cama novamente.

Da mesma forma, não dá pra entender a importância dada aos patéticos amigos de Joni e Laser, os unidimensionais Sasha (Zosia Mamet) e Clay (Eddie Hassell), que em nada contribuem para a narrativa, sendo descartados repentinamente como se fossem MacGuffins, assim como Paul subitamente se torna um inimigo da família e deixa à narrativa, como um adolescente que é largado pela namorada e nunca mais volta a ter contato com ela. Aliás, o título em inglês poderia muito bem se referir não só aos jovens Joni e Laser, mas também às mães e ao pai do título em português, que não passam de crianças “crescidas” que ainda não encontraram a melhor forma de enfrentar os dilemas da vida.

Fazendo de Jules a personagem mais interessante do “triangulo amoroso”, Julianne Moore expõe de maneira interessante os conflitos e as dúvidas da personagem, por mais absurdos que pareçam (o que é culpa do roteiro, e não dela), conseguindo protagonizar um belo momento, quando afirma ver expressões dos filhos em Paul, num raro instante de sutileza de uma narrativa predominada por histrionismos. Desprezada pela parceira e constantemente criticada por suas escolhas profissionais, Jules começa a se interessar por Paul (sério? ela não é homossexual?!), e confirma a atração num beijo acidental. E apesar da implausibilidade da situação, Moore e Ruffalo conseguem o milagre de estabelecer uma química entre os personagens, o que salva cenas que deveriam soar patéticas por motivos óbvios, que a própria personagem ressalta no final. Além disso, uma das poucas piadas que realmente funciona acontece durante uma cena de sexo entre eles e envolve o também divertido empregado dela.

Se Ruffalo e Moore se mostram soltos no papel, Bening surge inicialmente caricata, tentando soar como uma verdadeira “mulher macho”, sempre durona e dando sinais de seu ciúme doentio. Chegando a ser irritante em diversos momentos – como quando briga com Joni por andar de moto ou quando briga com Jules num restaurante -, Bening transita com facilidade para o outro lado e faz Nic parecer adorável no jantar na casa de Paul, confirmando seu talento como atriz, desperdiçado numa personagem tão estereotipada. Apesar de tudo, ela tem bons momentos, como na discussão seguinte à descoberta da traição, que confirma o talento das duas atrizes ao transmitir a dor das personagens de maneira convincente. Entretanto, a traição provoca um conflito bastante artificial e insere o dramalhão que faz a narrativa despencar no terceiro ato – o jantar de despedida de Joni chega a ser chato, graças à mão pesada da diretora que carrega no melodrama, especialmente após a chegada de Paul.

Apresentando alguns aspectos interessantes e tentando de maneira corajosa abordar um tema que ainda é tabu na sociedade contemporânea, “Minhas mães e meu pai” falha terrivelmente na tentativa de criar conflitos e conferir peso dramático à narrativa, apelando para situações que beiram o absurdo para tentar mexer com o espectador. Sem funcionar também como comédia, o longa se salva apenas pelo bom desempenho de seu talentoso elenco, mas está longe de alcançar um resultado satisfatório.

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

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