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007 NA MIRA DOS ASSASSINOS (1985)

29 maio, 2014

(A View to a Kill)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #204

Dirigido por John Glen.

Elenco: Roger Moore, Christopher Walken, Grace Jones, Tanya Roberts, Patrick Macnee, Willoughby Gray, Patrick Bauchau, Robert Brown, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Dolph Lundgren, David Yip, Fiona Fullerton, Maud Adams, Alison Doody e Walter Gotell.

Roteiro: Richard Maibaum e Michael G. Wilson, baseado em história de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Michael G. Wilson.

007 Na Mira dos Assassinos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Já contestado pelo peso da idade (na época, o ator estava com 57 anos), Roger Moore faria neste “007 Na Mira dos Assassinos” sua última aparição na pele de James Bond. Mesmo sem jamais alcançar o carisma de Sean Connery, o ator deixou sua contribuição para a franquia, criando um 007 mais cômico que seu antecessor e que, mesmo distante em tom e sem o mesmo charme, funcionava em muitos momentos. É uma pena, portanto, que os últimos trabalhos de Moore não estejam à altura de suas melhores aparições, nas quais ao menos o ator compensava as falhas da narrativa com atuações mais interessadas.

Escrito por Richard Maibaum e Michael G. Wilson novamente com base em história de Ian Fleming, “007 Na Mira dos Assassinos” narra à tentativa de James Bond (Roger Moore) de impedir que o milionário Max Zorin (Christopher Walken) controle o mercado de produção de chips através da execução de um plano que envolve a destruição de todas as indústrias do Vale do Silício, na Califórnia.

Em sua despedida da série, Roger Moore mais parece se divertir e relaxar na pele do personagem do que se preocupar em oferecer novas nuances a James Bond, saindo-se bem em alguns diálogos que denunciam seu tom quase sempre irônico, mas escancarando a flagrante falta de vigor nas lutas corporais. Claramente fora de forma e atuando quase no piloto automático, Moore oferece aqui sua pior atuação na pele de 007, numa despedida melancólica que dificulta a tarefa de apontar algum momento de destaque, com exceção dos comentários marcados por seu humor peculiar e pelo cavalheirismo na primeira noite com Sutton (Tanya Roberts), na qual Bond respeita o momento da moça e não dorme com ela – e a expressão de Moore evidencia esta abordagem respeitosa.

Entre gritos e expressões características da mocinha indefesa, Tanya Roberts oferece uma performance patética na pele de Stacey Sutton, não convencendo como uma moça rica e poderosa que decide bater de frente com Zorin e sequer conseguindo criar empatia com Moore, o que talvez explique a falta de cenas românticas entre os personagens. Já Grace Jones compõe May Day de maneira bastante caricata, mas a personagem ao menos funciona por representar alguma ameaça a Bond. Fechando os destaques femininos do elenco, “007 Na Mira dos Assassinos” marca também a última aparição de Lois Maxwell como a simpática Moneypenny – o que, com o perdão do infame trocadilho, é uma pena.

Roger Moore se diverte e relaxaMocinha indefesaMay DayVoltando ao elenco masculino, Patrick Macnee vive o simpático Tibbett, o amigo enviado para auxiliar Bond e que, passando-se por seu criado, vive alguns dos raros momentos bem humorados que realmente funcionam na narrativa. Repare, por exemplo, como Tibbett acaricia os cavalos após se esconder junto a eles no estábulo, num pequeno detalhe que demonstra o cuidado do ator na composição do personagem, já que para esconder-se ali por tanto tempo era necessário no mínimo que ele criasse alguma empatia com os animais.

Sorridente na frente de Bond e sério longe dele, Christopher Walken compõe um vilão interessante na pele de Max Zorin, demonstrando classe nas conversas em eventos públicos como a festa em seu palácio e evidenciando seu lado psicótico ao explicar seu plano para os parceiros. Aliás, a conversa com empresários para explanar o plano Main Strike remete diretamente a “007 Contra Goldfinger”, especialmente quando um deles se recusa a aceitar a proposta e é sumariamente assassinado.

Sublinhando a trama, a trilha sonora também convencional de John Barry surpreende apenas na sequência inicial em que o compositor ousa e insere um trecho de uma versão cover de “California Girls”, dos Beach Boys, fazendo uma brincadeira com as manobras radicais de James Bond sobre a neve e a água. Além disso, a dançante música tema do Duran Duran tem a cara dos anos 80 e traz uma boa energia para a série.

Tentando recuperar o tom mais sério após a piada “007 Contra Octopussy”, John Glen e seu diretor de fotografia Alan Hume ignoram o sol característico da Califórnia e apostam num visual mais obscuro que confere uma aura sombria a narrativa. Ainda assim, o diretor encontra espaço para criar belos planos, especialmente ao enquadrar toda a imponência da ponte Golden Gate em San Francisco e o charme de Paris, que finalmente é explorada na série. Além disso, o ótimo Peter Lamont capricha novamente no design de produção de ambientes como o luxuoso palácio de Zorin, a espaçosa e bem decorada casa de Sutton, a detalhada clínica que esconde o segredo do cavalo Pegasus e a impressionante mina que surge já no ato final.

Para balancear a falta de agilidade de Moore nos confrontos físicos, Glen tenta criar cenas de ação ainda mais mirabolantes, como a perseguição que inicia na Torre Eiffel e segue pelas ruas de Paris. Só que o convencional segmento de abertura envolvendo uma perseguição de esqui na neve já deixa claro que “007 Na Mira dos Assassinos” não trará grandes novidades neste aspecto também. O diretor tenta ainda utilizar a câmera para ampliar a tensão, como quando uma arma surge em primeiro plano enquanto Bond entra na casa de Sutton ao fundo, sinalizando a presença dos capangas de Zorin para o espectador, que passa a saber mais do que o personagem – o que é sempre eficiente na criação de uma atmosfera tensa. E finalmente, a morte de Tibbett no lava rápido é conduzida de maneira interessante pelo diretor.

Zorin, vilão interessanteImpressionante minaArma em primeiro planoMas o destaque das cenas de ação fica mesmo para o incêndio na prefeitura seguido pela perseguição envolvendo um carro de bombeiros e, principalmente, para a impactante destruição da mina, na qual o diretor utiliza planos subjetivos que nos colocam na posição dos personagens em diversos instantes enquanto a água domina o local sob os tiros alucinados do impiedoso Zorin. Além delas, a luta no alto da ponte Golden Gate também é tensa e diverte, mas a gritante lentidão de Moore e os efeitos visuais datados prejudicam a cena, ainda que no segundo caso a evolução em relação aos filmes anteriores seja perceptível.

Perceptível também é a tentativa de melhorar a imagem da franquia depois de seguidas derrapadas, mas infelizmente “007 Na Mira dos Assassinos” não conseguiu este feito. Roger Moore perdia aqui a sua licença para matar (ainda que, em certos momentos, tenha nos matado de vergonha), mas, para a alegria dos inúmeros fãs, James Bond ainda teria vida longa nas telonas.

007 Na Mira dos Assassinos foto 2Texto publicado em 29 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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007 CONTRA OCTOPUSSY (1983)

28 maio, 2014

(Octopussy)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #203

Dirigido por John Glen.

Elenco: Roger Moore, Maud Adams, Louis Jourdan, Kristina Wayborn, Kabir Bedi, Steven Berkoff, David Meyer, Tony Meyer, Desmond Llewelyn, Robert Brown, Lois Maxwell, Walter Gotell, Vijay Amritraj e Albert Moses.

Roteiro: George MacDonald Fraser, Richard Maibaum e Michael G. Wilson, baseado em histórias de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli.

007 Contra Octopussy[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma sequência de abertura de tirar o fôlego e um ato final que poderia ser empolgante, “007 Contra Octopussy” tinha tudo para se tornar um dos bons filmes da franquia 007, não fossem os problemas narrativos apresentados entre estes dois momentos de impacto. Com boas cenas de ação e alguns personagens carismáticos, o segundo filme dirigido por John Glen apresenta uma pequena evolução em relação ao trabalho anterior do diretor, mas ainda peca em detalhes cruciais que tornam o longa bastante irregular, especialmente ao perder o senso do ridículo em momentos embaraçosos até mesmo para o mais fervoroso fã do agente secreto britânico.

Escrito a seis mãos por George MacDonald Fraser, Richard Maibaum e Michael G. Wilson com base em duas histórias de Ian Fleming (“Octopussy” and “The Property of a Lady“), “007 Contra Octopussy” inicia com o assassinato do agente 009 (Andy Bradford) após este roubar a réplica de uma relíquia soviética. Convocado para investigar o caso, James Bond (Roger Moore) acaba descobrindo um plano que poderia resultar na explosão de uma bomba atômica e numa provável guerra mundial.

Apesar da menção inicial a Cuba, o inimigo principal do governo britânico continua sendo a União Soviética em “007 Contra Octopussy”, com a diferença que, desta vez, outro histórico adversário finalmente entra em cena: a Alemanha. Outra vez envolvendo uma bomba atômica que irá dizimar milhões de inocentes, a trama tenta seguir elementos básicos da fórmula de sucesso da série, apostando em espetaculares cenas de ação, mulheres sensuais, pitadas de bom humor (que aqui raramente funcionam) e um inimigo comum ao espectador britânico e norte-americano. No entanto, a falta de inspiração de algumas gags (como o ridículo jacaré mecânico utilizado por Bond) e a latente ausência de um vilão prejudicam bastante a narrativa.

Partindo de uma Berlim inicialmente obscura e opressora, a fotografia de Alan Hume estabelece um forte contraste com o visual colorido e vivo de Nova Déli, na Índia, especialmente no plano inicial que enquadra toda a beleza do Taj Mahal. Da mesma forma, o excelente design de produção de Peter Lamont se destaca na criação de ambientes realmente impactantes como a sala de reuniões dos generais soviéticos e o aconchegante quarto de Octopussy, o que também estabelece corretamente a atmosfera de cada local. Reforçando a imagem que pretende passar em cada ambiente, John Glen retrata cada povo de maneira bastante estereotipada (o que também é uma marca da série), trazendo os sorridentes indianos aglomerados em volta do rio, os efusivos russos discutindo estratégias de guerra e os alemães, quando não são sisudos, surgem comendo salsichas e tomando cerveja num carro de família – o que certamente deve deliciar grande parte do público norte-americano, ainda que esteja bem longe da realidade.

Berlim inicialmente obscuraColorido de Nova DéliSala de reuniões dos generais soviéticosMas, convenhamos, realismo é algo que os filmes de James Bond jamais tentaram retratar. Neste aspecto, “007 Contra Octopussy” ganha pontos ao trazer na abertura uma estilosa fuga de 007 num jato sendo perseguido por um míssil, que se torna ainda mais interessante pela maneira como é montada por Peter Davies e Henry Richardson. Vale destacar ainda a ótima partida de gamão entre Bond e Kamal, que realça toda a esperteza do protagonista, além é claro da perseguição repleta de ação e humor nas ruas de Nova Déli. Já a perseguição com elefantes simplesmente não funciona, primeiro pela falta de dinamismo e depois pelas piadas sem graça, como quando Bond, acredite ou não, surge imitando Tarzan. Outro momento que falha nos dois sentidos ocorre quando Bond surge disfarçado de gorila e, segundos depois, já aparece sem o disfarce e saindo do trem. Além de não ser nada engraçada, a cena ainda tira o espectador da narrativa. Uma coisa é ter cenas de ação mirabolantes, outra são coisas impossíveis de acontecer.

Aliás, desta vez Roger Moore descamba de vez para o pastelão na pele de James Bond, intercalando momentos glamourosos como na citada partida de gamão com outros em que ridiculariza o personagem ao surgir vestido de palhaço ou disfarçado de gorila. Ao menos, Moore mantém a postura confiante e até desleixada diante do perigo e o senso de humor peculiar, superando ainda as limitações impostas pela idade na divertida sequência em que anda em cima de um trem em movimento, num momento que funciona quando se apoia nas trucagens e em efeitos mecânicos, falhando apenas quando recorre aos datados efeitos visuais.

Numa sacada inteligente, o tema de 007 tocado na flauta de Vijay (Vijay Amritraj) anuncia a chegada do agente em Nova Déli, num dos bons momentos da trilha sonora de John Barry, que se destaca ainda na composição romântica inspirada na música tema “All Time High” (uma das raras da franquia que não tem o mesmo nome do filme) que embala os momentos íntimos de Bond com as duas mulheres que cruzam o seu caminho – e é claro que ele dorme com ambas.

Apresentada durante o leilão que coloca Bond no caminho de Kamal, a sensual Magda vivida por Kristina Wayborn vive até melhores momentos ao lado do agente do que a personagem título, dentre os quais se destaca a primeira noite que eles passam juntos e, especialmente, a despedida pela manhã em que ela desce da sacada pendurada no próprio vestido. Por sua vez, Octopussy é cercada de mistérios. Evitando revelar seu rosto na primeira aparição dela no Palácio, o diretor mantém o suspense até o instante em que Maud Adams surge com seus olhos penetrantes para participar pela segunda vez da série. Classuda, com tom de voz controlado e bastante educada, Octopussy se torna uma personagem intrigante, impondo respeito e chamando a atenção sempre que entra em cena. É uma pena, portanto, que tenha tão pouco espaço na narrativa, aparecendo menos até mesmo que sua colaboradora Magda – e a personagem também é prejudicada pelo roteiro, que a enfraquece consideravelmente no decorrer da narrativa.

Estilosa fuga de 007 num jatoBond imitando TarzanOctopussy cercada de mistériosOctopussy, aliás, é a primeira vilã feminina da série. No entanto, ela não chega a ser de fato uma vilã, acolhendo Bond desde o primeiro instante e tornando-se sua parceira ao longo da narrativa, especialmente após descobrir que foi enganada por Kamal, o intermediador interpretado por Louis Jourdan. E é exatamente na falta de um grande vilão que reside um dos grandes problemas do fraco roteiro de “007 Contra Octopussy”. Teoricamente, a vilã seria a personagem título, mas na prática o homem a ser perseguido é mesmo o caricato e unidimensional General Orlov de Steven Berkoff, já que Kamal tem apenas a função de negociador. Só que Orlov raramente é confrontado por Bond, a não ser num embate que dura poucos segundos dentro de um trailer já no ato final. Assim, o mistério envolvendo os vilões acaba soando como um artifício raso utilizado para encobrir o vazio da narrativa neste aspecto.

Ainda que no íntimo o espectador sempre espere que Bond salve o dia, a sequência final no circo tem certa carga de tensão, mesmo com a escancarada tentativa de destruir a imagem do personagem ao trazê-lo em disfarces tão risíveis, assim como funciona a absurda cena final em que Bond luta do lado de fora de um avião, numa sequência exagerada, mas bem conduzida pelo diretor.

Infelizmente, estas boas cenas de ação não são suficientes para compensar os tropeços da narrativa e a falta de senso do ridículo de muitos momentos dela. Talvez por isso, Ian Fleming resolveu não misturar as duas histórias que inspiraram “007 Contra Octopussy”. Ao contrário dos alemães na época separados pelo muro, elas não foram criadas para coexistir.

007 Contra Octopussy foto 2Texto publicado em 28 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 SOMENTE PARA SEUS OLHOS (1981)

27 maio, 2014

(For Your Eyes Only)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #202

Dirigido por John Glen.

Elenco: Roger Moore, Carole Bouquet, Topol, Lynn-Holly Johnson, Julian Glover, Cassandra Harris, Jill Bennett, Michael Gothard, John Wyman, Jack Hedley, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Geoffrey Keen, Walter Gotell e Charles Dance.

Roteiro: Richard Maibaum e Michael G. Wilson, baseado em história de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli.

007 Somente para seus olhos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável pela montagem de três filmes da série entre 1969 e 1979, John Glen assumiria a direção em “007 Somente para seus olhos”, o primeiro dos cinco trabalhos que realizaria na franquia. No entanto, o resultado ficou bem abaixo do esperado. Ainda que algumas sequências sejam bem interessantes, a sensação que temos é a de que tanto Glen quanto seus roteiristas apenas seguiram a fórmula básica da franquia, esquecendo-se de que o segredo do sucesso de James Bond não está na estrutura narrativa e sim na maneira – normalmente estilosa – como ela é contada.

Escrito por Richard Maibaum e Michael G. Wilson com base em história de Ian Fleming, “007 Somente para seus olhos” tem início quando um navio britânico que carregava uma poderosa arma secreta é atacado e naufraga próximo à Albânia, gerando enorme preocupação no governo de seu país. Enviado para investigar o caso, James Bond (Roger Moore) acaba descobrindo o envolvimento de um grande contrabandista local conhecido como Milos Columbo (Topol), graças ao auxilio do agente grego Aris Kristatos (Julian Glover). Determinada a vingar a morte dos pais ocorrida logo após o naufrágio, a jovem Melina Havelock (Carole Bouquet) também acaba se envolvendo nas investigações, contrariando a vontade de Bond.

O primeiro deslize de “007 Somente para seus olhos” ocorre logo no tradicional segmento de abertura em que a presença de um gato indica a volta de Blofeld, icônico vilão da série derrotado anteriormente por Bond e responsável pela morte de sua esposa, mas esta expectativa não é confirmada durante a narrativa, o que torna este segmento de abertura envolvendo um helicóptero controlado à distância totalmente deslocado, pouco inspirado e sem graça – na realidade, os produtores quiseram apenas provocar Kevin McClory, que travava uma batalha judicial pelos direitos sobre o personagem.

Levando-nos desta vez para a Espanha, os Alpes italianos e o litoral grego, “007 Somente para seus olhos” mantém a característica de explorar bem a beleza dos locais por onde passa o agente secreto através da fotografia gélida de Alan Hume nos Alpes, que contrasta com o visual ensolarado da pequena cidade próxima à Madri e, especialmente, com o visual romântico da bela Corfu, na Grécia, principalmente nas cenas noturnas ou próximas do anoitecer. Estes lugares pitorescos servem como cenários para sequências repletas de ação como a absurda perseguição de carros nas ruelas espanholas e a fuga de Bond num esqui seguido de perto por duas motos na neve, ambas conduzidas com dinamismo por John Glen e seu montador John Grover, alternando entre planos gerais e interessantes planos subjetivos que nos colocam dentro da ação.

No entanto, estas sequências são prejudicadas pela péssima e deslocada trilha sonora de Bill Conti, o mesmo compositor consagrado alguns anos antes em “Rocky, Um Lutador”, mas que aqui faz um trabalho bastante irregular, criando melodias que parecem tiradas de jogos de videogame nas cenas de ação, salvando-se apenas nas variações da bela música tema “For Your Eyes Only”, de Sheena Easton, e na composição romântica que embala o envolvimento entre a Condessa Lisl (Cassandra Harris) e Bond.

Visual romântico da bela CorfuFuga de Bond num esquiCarismático Milos ColumboQuem também não colabora são os atores Michael Gothard e John Wyman que, em atuações extremamente caricatas, fazem de Locque e Kriegler dois vilões quase risíveis, sendo parcialmente salvos apenas pelo roteiro que, ao evitar dar muitas informações sobre eles, consegue manter uma aura de mistério sobre os personagens. Revelando pouco a pouco as intenções de cada integrante do grupo, a narrativa nos leva até o carismático Milos Columbo interpretado por Topol que, com sua postura extremamente confiante, reverte à imagem pré-concebida do personagem logo nos primeiros minutos da conversa direta que tem com James Bond. Este mesmo diálogo traz ainda uma boa reviravolta na trama ao revelar que Kristatos é o verdadeiro vilão. Inicialmente amigável, o Kristatos de Julian Glover muda drasticamente seu comportamento após a revelação, assumindo uma postura mais agressiva e coerente com o papel de principal vilão.

Determinada a vingar o assassinato dos pais, a inteligente e elegante Melina de Carole Bouquet assume o posto de parceira de 007 da vez, demonstrando força quando necessário e, obviamente, transformando-se na nova bondgirl ao não resistir aos encantos do agente secreto. Novamente interpretado por Roger Moore (que desta vez esforça-se para soar menos debochado), James Bond mantém-se sempre alerta aos perigos que cercam sua profissão sem jamais desesperar-se diante deles, assumindo também uma faceta interessante e distante da postura politicamente correta normalmente associada aos heróis convencionais ao empurrar um carro ladeira abaixo com o indefeso Locque preso dentro dele.

Kristatos o verdadeiro vilãoInteligente e elegante MelinaJames Bond alertaMontador de origem, John Glen consegue criar sequências narrativamente envolventes, como quando Bond sobe correndo uma longa escadaria na Albânia para tentar impedir a fuga do carro de Locque, num momento tenso que se torna mais interessante pela forma como é montado, intercalando entre os planos de Bond e do carro num ritmo dinâmico. Outro momento tenso acontece quando Bond e Melina tentam destruir o ATAC no fundo do mar, culminando numa luta quase em câmera lenta que, mesmo criativa, perde força justamente pelo ritmo arrastado.

Mas é no ato final que reside o momento de destaque de “007 Somente para seus olhos”, começando pela angustiante escalada de James Bond pela montanha, conduzida com precisão pelo diretor. Prendendo nossa atenção a cada movimento do protagonista, Glen cria uma cena realmente impactante, mas o desfecho repentino da narrativa após a chegada ao topo acaba minando um pouco o efeito da subida. Encerrando o longa com outra piada sem graça, desta vez envolvendo Margaret Thatcher (Janet Brown), Glen ao menos demonstra coerência ao amarrar os dois extremos da narrativa com segmentos deslocados e sem nenhuma inspiração.

Seguindo a risca o padrão estabelecido na série, “007 Somente para seus olhos” tem todos os ingredientes de um filme de James Bond. O problema é que estes ingredientes são misturados numa narrativa sem grande inspiração, sem apelo visual e recheada com poucos personagens marcantes. No fim das contas, talvez o segmento de abertura tenha sim algum significado, indicando que toda a narrativa seria conduzida no modo “piloto automático”.

007 Somente para seus olhos foto 2Texto publicado em 27 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE (1979)

26 maio, 2014

(Moonraker)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #201

Dirigido por Lewis Gilbert.

Elenco: Roger Moore, Lois Chiles, Michael Lonsdale, Richard Kiel, Corinne Clery, Bernard Lee, Geoffrey Keen, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Toshirô Suga e Emily Bolton.

Roteiro: Christopher Wood, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli.

007 Contra o Foguete da Morte[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da franquia 007 a passar pelo Brasil, “007 Contra o Foguete da Morte” diverte não apenas pela famosa cena no bonde do Rio de Janeiro, mas também pela presença de bons personagens e, principalmente, pela qualidade de algumas de suas cenas de ação. No entanto, o longa dá a sensação de durar mais do que realmente dura, o que nunca é um bom sinal. Ainda assim, a interessante sequência final no espaço compensa muitos de seus deslizes e salva o filme dirigido por Lewis Gilbert.

Adaptado do romance de Ian Fleming por Christopher Wood, “007 Contra o Foguete da Morte” tem início quando uma nave espacial some durante um voo sobre a Inglaterra, levando o agente secreto James Bond (Roger Moore) a investigar o caso e descobrir o envolvimento de um milionário conhecido como Hugo Drax (Michael Lonsdale), responsável pela fabricação das naves espaciais Moonraker na Califórnia. Auxiliado pela inicialmente arredia agente da CIA Dra. Goodhead (Lois Chiles), Bond acaba descobrindo que na realidade os planos de Drax eram muitos mais ambiciosos do que pareciam, envolvendo uma cidade espacial e o extermínio de toda a raça humana na Terra.

Apesar de partir de uma premissa baseada num dos capítulos mais negros da história da humanidade, o roteiro de Christopher Wood tende a misturar com frequência as cenas de ação com momentos bem humorados, acertando em diversos instantes, mas também errando em piadas sem graça como aquela em que um homem se choca contra uma placa da British Airways e na péssima referência ao western que surge em seguida, totalmente deslocada e sem propósito – e os chapéus utilizados pelos personagens dá a sensação de estarmos no México e não mais no Brasil. Ao menos, o diretor Lewis Gilbert acerta na condução de grande parte das cenas de ação, o que é crucial para o sucesso de um filme da série 007.

Mantendo a tradição de passar por diversos lugares do mundo, James Bond desta vez volta a sempre bela Veneza, passando também pela Califórnia e finalmente vindo ao Brasil. Aliás, a linda sede da Drax na Califórnia onde são fabricadas as espaçonaves Moonraker, toda construída em estilo francês e detalhadamente bem decorada no interior do palácio realça o habitual bom design de produção de Ken Adam, notável também no imponente centro de lançamentos das naves construído em plena floresta amazônica e, principalmente, na cidade espacial que surge já no ato final.

Outro costumeiro colaborador da franquia, John Barry retorna em “007 Contra o Foguete da Morte” para compor uma trilha sonora muito interessante através de melodias inspiradas e variações da bela música tema “Moonraker” (terceira canção de James Bond interpretada por Shirley Bassey), trazendo ainda uma brincadeira com o tema principal de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” através do toque do interfone que abre um laboratório em Veneza.

Estreante na série, o diretor de fotografia Jean Tournier faz um trabalho fabuloso, explorando inicialmente todo o charme de Veneza, com seus canais cortando a cidade e criando um visual singular, assim como ocorre no ensolarado Rio de Janeiro, enquadrado em belos planos gerais de Lewis Gilbert, que capricha também na composição dos planos e até mesmo de alguns travellings que passeiam pela linda Amazônia, com suas cachoeiras e a floresta criando um visual que é um deleite para os olhos.

Linda sede da DraxCharme de VenezaEnsolarado Rio de JaneiroNo entanto, a beleza do Brasil se limita mesmo aos aspectos naturais, já que “007 Contra o Foguete da Morte” segue quase todos os estereótipos possíveis, passando pelo Carnaval repleto de pessoas seminuas na rua e terminando, é claro, numa viagem para a perigosa Amazônia onde, obviamente, uma serpente gigante tentaria acabar com o protagonista. Por outro lado, o Rio de Janeiro ganha um visual bastante obscuro na noite de Carnaval em que Bond invade a sede da Drax, refletindo não apenas a aflição dos personagens como também o risco que eles corriam ali. Já quando Bond rouba os arquivos da Drax na Califórnia, não apenas a fotografia como também a trilha sonora indicam o risco da operação, com a diferença de que a trilha mistura seus tons sombrios com notas românticas por causa da presença de Corinne (Corinne Clery), a funcionária de Drax que se apaixona por Bond e, por isso, é assassinada de maneira cruel, numa cena simultaneamente linda e triste em que as luzes que vazam as árvores conferem um visual poético, conduzida em câmera lenta pelo diretor e seu montador John Glen, alternando entre a corrida desesperada da moça e a aproximação dos cães ferozes que a perseguem.

Sempre sério, mas com o semblante tranquilo e a voz calma, Michael Lonsdale compõe Drax como um vilão extremamente autoconfiante, o que é ótimo na construção da imagem de um antagonista que ofereça alguma ameaça ao protagonista, ainda que episódios como o da caça aos faisões o enfraqueçam diante da esperteza de 007. Mas o maior peso que o personagem poderia ter vem mesmo de seu plano audacioso e minuciosamente elaborado para que uma nova era tenha início sob seu comando no planeta. Fazendo clara alusão ao nazismo, a raça pura imaginada por Drax encontra em Mandíbula – o personagem caricato e icônico interpretado por Richard Kiel – e sua estranha namorada o seu ponto de ruptura, dando início à queda do império antes mesmo que ele se consolide.

Aliás, Drax não deve ser mesmo um chefe agradável, já que além de Corinne e Mandíbula, ele também é traído pela Dra. Goodhead, só que ao menos neste último caso a traição é justificada pelo fato da moça ser, na verdade, uma agente da CIA. Bela e muito esperta, a agente interpretada com carisma por Lois Chiles compartilha algumas das características marcantes de James Bond, demonstrando um faro aguçado para o perigo e total desconfiança de todos ao seu redor. Dona ainda de uma notável habilidade para a luta, Goodhead se constitui na melhor parceira de James Bond até então na franquia.

Cena simultaneamente linda e tristeVilão extremamente autoconfianteBela e muito espertaSurpreso com o fato de Goodhead ser mulher, Bond continua machista, é claro, mas mantém o charme e a elegância característicos do personagem, além do humor irônico notável, por exemplo, quando sorri imitando Mandíbula ao encontrar o velho rival. Cada vez mais a vontade no papel (até demais!), Roger Moore demonstra alguma evolução naquela que era sua deficiência mais chamativa, esforçando-se, por exemplo, na vibrante luta contra Chang (Toshirô Suga) na sala de um importante museu de Veneza. Além disso, o ator mostra boa empatia com Lois Chiles, o que torna a relação entre os personagens mais agradável.

Mas o ponto alto dos filmes de 007 são sempre as cenas de ação e elas surgem em quantidade e qualidade razoáveis neste “007 Contra o Foguete da Morte”, começando pela absurda e estilosa abertura em que Bond é jogado sem paraquedas de um avião, luta no ar com um inimigo e rouba o paraquedas dele, passando pela divertida perseguição de barco em que Bond foge numa gôndola motorizada e também pela perseguição das lanchas no rio Amazonas que, apesar de empolgante, dá a sensação de que os vilões brotam das árvores. No entanto, o grande destaque fica mesmo para a famosa sequência no bonde do Rio de Janeiro. Um pouco datada, especialmente pelos efeitos visuais e pelos golpes extremamente lentos e mal coreografados, a ousada sequência carrega grande tensão e ainda funciona.

E quando digo que os efeitos visuais estão datados, me refiro especialmente aos momentos que colocam os personagens em primeiro plano e imagens das locações no segundo, permitindo notar claramente a montagem. Este problema ocorre com frequência em “007 Contra o Foguete da Morte”, mas é compensado pelos excelentes efeitos visuais nas belíssimas cenas no espaço, que nos permitem acompanhar o balé das naves e dos próprios personagens enquanto se deslocam até a cidade construída por Drax – e apesar da ideologia condenável por trás daquela ideia, gosto muito do beijo romântico de um casal enquadrado com extrema sensibilidade pelo diretor durante a viagem.

Ambientando-nos perfeitamente ao local através da citada cidade espacial concebida por Ken Adam e das roupas espaciais escolhidas pela figurinista Jacques Fonteray, Lewis Gilbert conduz o confronto final com energia, ainda que alguns momentos pareçam inspirados nos antigos jogos de videogame, com tiros laser cortando a tela a todo instante – e o fraco design de som realça esta semelhança. Mas o importante é que a sequência final funciona bem, reservando ainda um pequeno momento de tensão quando Bond tenta destruir as bolas letais enviadas por Drax para a Terra. A costumeira piada final envolvendo Bond e sua parceira desta vez também é bem divertida.

Escorregando especialmente em seu irregular segundo ato, “007 Contra o Foguete da Morte” compensa seu deslize ao oferecer uma conclusão não apenas atraente visualmente como também envolvente narrativamente. Não é o caso de dizer que a ausência de Sean Connery não era mais sentida, mas Roger Moore ao menos demonstrava alguma evolução como James Bond.

007 Contra o Foguete da Morte foto 2Texto publicado em 26 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 O ESPIÃO QUE ME AMAVA (1977)

23 maio, 2014

(The Spy Who Loved Me)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #200

Dirigido por Lewis Gilbert.

Elenco: Roger Moore, Barbara Bach, Vernon Dobtcheff, Caroline Munro, Richard Kiel, Curd Jürgens, Robert Brown, Walter Gotell, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Bernard Lee, Edward de Souza, Michael Billington e George Baker.

Roteiro: Richard Maibaum e Christopher Wood, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli.

007 O Espião que me Amava[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” encerrar com dignidade a fase Guy Hamilton, Lewis Gilbert foi o escolhido para retomar a série 007 neste “007 O Espião que me Amava”, longa bastante irregular que, mesmo trazendo novos elementos para a tradicional fórmula da franquia, não consegue se equiparar ao bom trabalho de Gilbert em “Com 007 só se vive duas vezes”.

Escrito por Richard Maibaum e Christopher Wood com base em romance de Ian Fleming, “007 O Espião que me Amava” marca a primeira investigação de James Bond (Roger Moore) oficialmente acompanhado de outro agente, no caso, a agente secreta soviética Anya Amasova (Barbara Bach). Juntos, eles devem investigar o desaparecimento de um submarino carregado com 16 ogivas nucleares.

Outra vez utilizando a guerra fria como pano de fundo, o roteiro de Maibaum e Wood segue a fórmula de sucesso já estabelecida na série ao trazer James Bond diante de um temível vilão prestes a destruir o planeta, passando é claro pela conquista de belas mulheres, pela tradicional conversa com a charmosa Moneypenny (Lois Maxwell) e pelas inúmeras situações mirabolantes pelas quais o agente deve passar antes de atingir seu objetivo. Mas se todos os filmes de 007 seguem a mesma estrutura narrativa, onde está o diferencial entre eles? A resposta está na forma como cada aventura é conduzida – e, infelizmente, neste caso a condução não é das melhores.

É importante ressaltar que, além do diretor Lewis Gilbert, somente o montador John Glen e o designer de produção Ken Adam já tinham participado da série antes, enquanto todos os outros integrantes da equipe técnica de “007 O Espião que me Amava” eram estreantes. Não que a experiência seja tão crucial, mas certamente a inclusão de uma equipe técnica praticamente toda nova interferiu, ainda que este aspecto também tenha o seu lado positivo, injetando novas ideias que beneficiaram o longa. Caminhando entre a inexperiência e a novidade, o trabalho técnico em geral acaba soando irregular.

Entre as novidades bem sucedidas, podemos destacar a linda música tema “Nobody does it better”, que traz uma carga romântica interessante e, de quebra, inspira o bom trabalho de Marvin Hamlisch na composição da trilha sonora instrumental que, por outro lado, é pouco inspirada e totalmente datada quando embala as cenas de ação, como numa perseguição no fundo do mar. Já a escolha da música clássica nas cenas dentro do complexo onde vive o vilão Stromberg (Curd Jürgens) é muito eficiente, casando bem o som com o balé dos peixes dentro da água.

A própria estrutura interna do complexo submarino de Stromberg concebida pelo design de produção realça outro aspecto técnico que chama a atenção, notável também no inventivo carro-submarino Lotus Esprit desenvolvido por Q (Desmond Llewelyn), que deixa metade das pessoas presentes numa praia da Sardenha boquiabertas. A linda Sardenha, aliás, é captada de maneira sempre exuberante pelo diretor de fotografia Claude Renoir, criando um forte contraste com o árido visual das sequências que se passam no Egito. O visual de tirar o fôlego também se destaca na excelente fuga de Bond nos Alpes austríacos, conduzida com energia pelo diretor e seu montador. E finalmente, Renoir adota tons avermelhados no interior dos submarinos quando estes sofrem ataques, reforçando a sensação de perigo dos personagens.

Complexo submarino de StrombergInventivo Lotus EspritLinda SardenhaA fotografia também é marcante na sombria apresentação de Mandíbula, o homem quase indestrutível interpretado de maneira bem caricata por Richard Kiel que surge pela primeira vez durante um evento noturno no deserto egípcio. Caminhando quase como uma múmia, Mandíbula soa como um personagem cartunesco, chegando a nos divertir pela maneira como escapa dos diversos ataques que sofre – a cena em que ele sai ileso após a queda de um carro sobre uma casa é hilária. Já o vilão Karl Stromberg interpretado por Curd Jürgens está longe de ser divertido, demonstrando sua ganância e crueldade logo no início quando assassina a própria secretária e, em seguida, os dois cientistas que lhe entregaram um precioso projeto. No entanto, assim como ocorre com muitos dos vilões da franquia, Stromberg perde força ao longo da narrativa.

Responsável por dividir a investigação com James Bond, a sexy agente Anya Amasova vivida por Barbara Bach é apresentada através de uma interessante subversão de expectativa durante uma cena amorosa envolvendo outro agente secreto. Ao ouvirmos a menção ao nome do agente “XXX”, inicialmente podemos pensar que quem dividirá as ações com Bond é o homem que está com ela (e ele é mesmo um agente), mas quando Anya pega o telefone, descobrimos que ela é escolhida para a missão. Sedutora e perigosa, Anya foge um pouco do estereótipo de mulher frágil predominante na série, demonstrando até mesmo conhecimento de mecânica após uma piada machista de Bond envolvendo mulheres na direção, em outra subversão do clichê bastante interessante.

Mandíbula, o homem quase indestrutívelKarl Stromberg está longe de ser divertidoSedutora e perigosa AnyaA importância da participação de Anya é realçada até mesmo na mencionada trilha sonora de Marvin Hamlisch, claramente mais romântica que de costume – e o sorriso deles após receberem a noticia de que viajarão juntos pra Sardenha indica a atração mútua que resultará no romance. Claramente mais a vontade no papel, Roger Moore encarna Bond novamente como um homem inteligente e elegante, conferindo algum peso dramático ao personagem, por exemplo, ao demonstrar tristeza após Anya mencionar sua falecida esposa, sem jamais perder o ar irônico tão marcante em sua composição.

Responsável pelas atuações minimamente homogêneas, Lewis Gilbert acerta ainda na condução de cenas vitais como a perseguição na ilha envolvendo alguns carros, uma moto e até um helicóptero, que certamente é a melhor cena de ação do filme, culminando na apresentação do criativo carro-submarino já citado. Além dela, o extenso confronto final dentro do navio, repleto de explosões que realçam o bom design de som, e a tensa cena em que Bond desmonta um míssil também são eficientes, mas a sensação que temos ao final de “007 O Espião que me Amava” é a de que faltou algo.

E esta nunca é uma sensação boa, ainda mais num filme de James Bond.

007 O Espião que me Amava foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO (1974)

22 maio, 2014

(The Man with the Golden Gun)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #199

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Roger Moore, Christopher Lee, Maud Adams, Britt Ekland, Richard Loo, Yiu Lam Chan, Hervé Villechaize, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Clifton James, Bernard Lee, Marne Maitland  e Marc Lawrence.

Roteiro: Richard Maibaum e Tom Mankiewicz, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após tropeçar em “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, Guy Hamilton volta a boa forma neste interessante “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” que, mesmo com falhas, consegue resgatar a essência dos bons filmes da série graças a mescla mais equilibrada entre as boas cenas de ação e os momentos de humor, passando também pela narrativa coesa e por personagens mais carismáticos – entre eles, o ótimo vilão interpretado por Christopher Lee.

O roteiro escrito pelos experientes Richard Maibaum e Tom Mankiewicz inspirado em romance de Ian Fleming parte de uma premissa muito interessante ao trazer o icônico James Bond (Roger Moore) recebendo uma curiosa ameaça de morte através da inscrição “007” numa bala de ouro enviada ao Serviço Secreto Britânico. Após M (Bernard Lee) sugerir que ele peça demissão ou tire férias, Bonde decide investigar o caso e acaba descobrindo a ligação entre o sequestro de um cientista que descobriu como captar energia solar e o assassino profissional que o ameaçou conhecido como Francisco Scaramanga (Christopher Lee).

Ao colocar Bond sob a mira de um perigoso assassino, “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” faz uma interessante inversão de papeis que torna sua narrativa mais envolvente, num verdadeiro jogo de gato e rato repleto de momentos inspirados, como quando Bond utiliza uma estranha anomalia para se passar por Scaramanga e, assim, conseguir conversar com o poderoso Hai Fat (Richard Loo). Desta forma, passamos a temer constantemente pelo destino do agente secreto, especialmente quando percebemos que Scaramanga é um vilão bem mais ameaçador do que os que estamos acostumados na série.

Explorando desta vez o lado exótico das locações em Macau e Hong Kong, Guy Hamilton e seus diretores de fotografia Ted Moore e Oswald Morris criam um primeiro ato bastante sombrio, repleto de cenas noturnas e ambientes fechados que ajudam a criar uma atmosfera mais séria, ilustrando bem a ameaça ao protagonista. Além disso, Hamilton utiliza a câmera de maneira inteligente para dar dicas essenciais ao espectador, seja na maneira quase idêntica que filma o segmento de abertura e o ato final, chamando nossa atenção para qualquer detalhe que não seja similar, seja ao realçar o navio Queen Elizabeth encalhado no porto de Hong Kong através de planos gerais e de uma narração diegética, indicando um local que seria importante para a narrativa no futuro, no qual um diálogo expositivo entre Bond e seus companheiros de Serviço Secreto basicamente explica a trama e as motivações dos personagens para a plateia.

Intercalando entre as ações de James Bond e Scaramanga, os montadores Raymond Poulton e John Shirley são responsáveis também por imprimir um ritmo dinâmico nas cenas de ação (que abordarei em instantes), assim como é importante também o design de som, ainda que este só se destaque mesmo no ato final, ao demonstrar a potencia das explosões que destroem o esconderijo de Scaramanga e o impacto delas na ilha. Compondo uma trilha sonora repleta de toques orientais, John Barry volta à franquia sem grande destaque, economizando também na utilização do tema clássico de 007, que, como de costume, surge somente em momentos pontuais.

Adotando um tom mais cômico que o de costume, Guy Hamilton consegue um balanço eficiente que mantém o espectador atento sem jamais permitir que ele relaxe, ainda que a divertida participação do xerife J. W. Pepper (Clifton James) de “Com 007 Viva e Deixe Morrer” renda boas gargalhadas. Mas estes momentos não tiram o foco principal da narrativa nem quebram a tensão gerada sempre que Scaramanga entra em cena. Mas e quanto a James Bond?

Estranha anomaliaNavio Queen ElizabethBond mais virilLogo na primeira luta em Istambul, Roger Moore já demonstra evolução no que tange aos aspectos físicos e parece muito mais convincente do que no longa anterior, o que confere uma nova dimensão para o personagem. Só que na busca por soar mais viril, o ator parece passar da conta em certos instantes, como quando ameaça o fabricante de armas Lazar (Marne Maitland) para obter informações, assim como faz com a Srta. Anders (Maud Adams, que voltaria em “007 Contra Octopussy”), chegando a agir violentamente no segundo caso, numa abordagem que foge do estereótipo de herói tradicional, mas que por outro lado nos faz questionar onde foi parar o 007 que utilizava seu charme a favor nestes momentos. Por outro lado, esta agressividade também rende bons momentos, como quando Bond acerta um chute num adversário ainda nos cumprimentos pré-luta de um torneio, quebrando a regra de maneira surpreendente e divertida.

Quem também quebra regras é o próprio longa ao trazer uma moça completamente nua numa piscina enquanto fala com Bond. Ainda que a água dificulte a visão, é a primeira vez que vemos uma mulher completamente nua na série. Aliás, é difícil dizer qual é a mais bela entre as bondgirls de “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro”. Enquanto a Srta. Anders de Maud Adams revela uma vulnerabilidade tocante sendo facilmente descartada pelo vilão, a agente secreta Goodnight interpretada por Britt Ekland nos diverte com suas trapalhadas que, por outro lado, enfraquecem profissionalmente a personagem.

Quem nunca perde força é o vilão, um homem inteligente e cruel, capaz de matar o poderoso Hai Fat a sangue frio e, no segundo seguinte, assumir o comando de seu império. Discreto e realmente perigoso, Christopher Lee compõe Scaramanga como um homem fino que esconde suas cruéis ambições sob aquela carcaça de elegância, chegando a soar carismático em diversos momentos, especialmente nos diálogos com Bond em que demonstra sua inteligência. Observe, por exemplo, sua clareza e fluência enquanto apresenta o inventivo sistema de captação de energia solar – que, aliás, também impressiona pela criatividade das instalações concebidas pelo design de produção de Peter Murton. Na pele de um ator talentoso como Lee, James Bond encontra um antagonista à altura.

Vulnerabilidade tocanteAtrapalhada GoodnightScaramanga inteligente e cruelCom um vilão respeitável e Roger Moore claramente mais a vontade no papel de 007, Hamilton concentra esforços no desenvolvimento de cenas de ação empolgantes, como a excelente perseguição de carros que culmina na espetacular travessia de Bond de um lado para o outro do rio antes de chegar ao local onde Scaramanga fugiria em seu criativo carro voador. No entanto, o destaque fica mesmo para o duelo final que remete a cena de abertura dentro dos ambientes preparados por Scaramanga, numa rima narrativa elegante que funciona também dramaticamente justamente porque o espectador sabe exatamente os perigos que aguardam James Bond, enquanto o próprio personagem ainda terá que descobri-los. Após uma tensa perseguição, chegamos ao momento crucial em que Hamilton enquadra o suposto boneco de 007 por trás, realçando os dedos inteiros em sua mão e anunciando que aquele é o verdadeiro James Bond, numa solução eficiente que conclui muito bem o duelo ao som do tiro fatal do agente secreto que finalmente vence Scaramanga.

O ato final ainda nos traz um último instante de alta tensão enquanto Bond tenta retirar o Solex, com a montagem intercalando entre sua ação, as trapalhadas de Goodnight e a nuvem que encobre o sol momentaneamente. Já o ataque final do anão Nick Nack (Hervé Villechaize) poderia tranquilamente ser descartado, pois não agrega em nada à narrativa.

Ao contrário de Nick Nack, “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” agrega bastante à filmografia de James Bond, com sua narrativa envolvente e seu marcante vilão. A música tema pouco inspirada e recheada com uma deselegante conotação sexual a gente até perdoa.

007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

COM 007 VIVA E DEIXE MORRER (1973)

21 maio, 2014

(Live and Let Die)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #198

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Roger Moore, Yaphet Kotto, Jane Seymour, Clifton James, Julius Harris, Geoffrey Holder, David Hedison, Gloria Hendry, Bernard Lee e Lois Maxwell.

Roteiro: Tom Mankiewicz, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Com 007 Viva e deixe morrer[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro trabalho de Roger Moore na pele de 007, “Com 007 Viva e deixe morrer” representa uma nova queda de qualidade na série, confirmando-se também como o primeiro escorregão de Guy Hamilton na direção de um filme de James Bond após realizar o excelente “007 Contra Goldfinger” e o mediano “007 Os Diamantes são eternos”. Ressentindo-se de bons momentos de ação e da falta de carisma de alguns personagens, o longa até diverte em alguns momentos, mas está longe de corresponder a expectativa que cerca um filme de James Bond.

Escrito pelo desta vez solitário Tom Mankiewicz com base em romance de Ian Fleming, “Com 007 Viva e deixe morrer” tem início quando três agentes do governo britânico são mortos durante uma investigação, deixando o caso sob a responsabilidade de James Bond (Roger Moore). Após rastrear o tráfico de drogas da África até a Europa, Bond chega aos EUA e acaba descobrindo o envolvimento de um diplomata internacional (Yaphet Kotto).

O primeiro problema de “Com 007 Viva e deixe morrer” está na falta de inspiração do roteiro, ainda que seja criativa a maneira como os agentes são assassinados, especialmente aquela que envolve um funeral. Não que o roteiro seja o ponto forte dos filmes da franquia, mas aqui a narrativa parece atirar para todos os lados, passando por tráfico de drogas, política internacional e envolvendo até mesmo esoterismo. Além disso, é bastante incômoda a maneira como a maioria dos negros é retratada. Ainda que alguns deles ajudem Bond, como o agente da CIA e o piloto do barco, na maior parte do tempo os negros são mostrados como selvagens e criminosos, numa abordagem pateticamente racista.

Continuando o giro pelo mundo, Nova York e a ilha de San Monique são as locações da vez. Enquanto a primeira é fotografada de maneira naturalista por Ted Moore, a segunda ganha um visual extravagante que, reforçado pelas vestimentas nativas desenvolvidas pela figurinista Julie Harris, torna as sessões ocultistas ocorridas ali ainda mais impactantes, especialmente no quase todo noturno terceiro ato em que túmulos e caveiras ganham destaque. Da mesma forma, os tons em vermelho e o fogo que compõe a sala de Kananga em Nova York concebida pelo design de produção de Syd Cain criam uma atmosfera negativa que reflete bem a ameaça aos protagonistas.

Negros são mostrados como selvagens e criminososSessões ocultistasSala de KanangaComposta pela primeira vez sem a presença de John Barry desde “007 Contra o Satânico Dr. No”, a trilha sonora de George Martin segue a mesma linha ao utilizar somente pontualmente o tema clássico composto por Monty Norman, compondo ainda boas variações da música tema “Live and Let Die”, que se tornou um clássico de Paul McCartney e uma das mais famosas já utilizadas na franquia.

Mas se tecnicamente o longa segue razoavelmente o padrão da série, a grande expectativa ficava mesmo por conta do substituto de Sean Connery após sua saída definitiva. Mais debochado e menos carismático, Roger Moore demonstrava neste que seria o primeiro de seus sete trabalhos como James Bond que tinha porte para encarnar o personagem, ainda que lhe faltasse o charme natural de Connery e, principalmente, a leveza nas sequências que exigem esforço físico, o que faz as lutas corporais soarem pouco convincentes. Por outro lado, Moore se sai bem nos momentos em que Bond é irônico, mantendo uma característica tipicamente britânica e marcante do personagem com precisão, como na previsível e ainda assim eficiente brincadeira que faz com as cartas “Lovers”.

Já Yaphet Kotto divide sua atuação em dois segmentos bastante distintos. Enquanto encarna Mr. Ben, o ator surge bastante caricato, numa atuação exagerada que fica ainda pior graças à maquiagem inverossímil que, de quebra, ainda entrega de bandeja uma revelação que teoricamente deveria ser bombástica. Já na pele de Kananga o ator se sai bem melhor, compondo um personagem ameaçador somente através da forma como fala com Solitaire, a garota esotérica vivida por Jane Seymour.

Mais debochado e menos carismáticoPersonagem ameaçadorSolitaire, a garota esotéricaSorrindo de maneira sutil ao ser cortejada por Bond já na ilha, Solitaire não esconde sua atração pelo agente e se torna mais uma bondgirl, acompanhando 007 em sua aventura pela ilha. Já Rosie Carver, a primeira bondgirl negra da história que ganha vida na pele de Gloria Hendry, utiliza a famosa queda do agente por mulheres para atraí-lo à ilha, mas infelizmente a personagem é praticamente arruinada pela atuação bastante exagerada da atriz.

Não bastassem as atuações comprometedoras, “Com 007 Viva e deixe morrer” falha num ponto crucial em qualquer filme do gênero, que é a falta de inspiração e inventividade de suas cenas de ação. Repare, por exemplo, a sequência em que Bond é perseguido na ilha dirigindo um ônibus, conduzida de maneira burocrática e sem nenhum momento de grande emoção. Esta falta de cenas que prendam a atenção do espectador é determinante para o fracasso da narrativa.

Ao menos, a cena em que Kananga interroga Bond e Solitaire é tensa, assim como a sequência em que Bond consegue escapar dos enormes crocodilos (e que provavelmente inspirou o game “Pitfall”). Além delas, merece destaque a engraçada aparição do xerife valentão interpretado por Clifton James, que tenta insistentemente prender Bond e os criminosos sem ter a menor noção do que está acontecendo ali. Trata-se de um personagem estereotipado e exagerado como os outros, mas este ao menos diverte. E finalmente, a perseguição com lanchas é a melhor sequência do filme, empolgando através da montagem dinâmica de Bert Bates, Raymond Poulton e John Shirley, que alterna entre os belos planos aéreos de Guy Hamilton que nos permitem compreender a geografia local e os planos fechados que realçam a tensão dos personagens, mas sua longa duração acaba minando um pouco o impacto sobre o espectador.

Estes bons momentos, no entanto, são raros e não conseguem salvar “Com 007 Viva e deixe morrer”. E se nem mesmo o agente secreto mais famoso do mundo consegue tal feito, é melhor ouvir o conselho da música de Paul McCartney e seguir a vida, deixando o longa de estreia de Roger Moore na franquia pra lá.

Com 007 Viva e deixe morrer foto 2Texto publicado em 21 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971)

20 maio, 2014

(Diamonds Are Forever)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #197

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray, Bruce Cabot, Putter Smith, Norman Burton, Lana Wood, Desmond Llewelyn, Bernard Lee, Bruce Glover, Lois Maxwell e Leonard Barr.

Roteiro: Tom Mankiewicz e Richard Maibaum, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Os Diamantes são eternos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Conhecido por marcar a despedida de Sean Connery da série 007 (na verdade, ele ainda voltaria em “007 – Nunca mais outra vez”, mas esta é uma refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica” e não é considerado um filme oficial da série), “007 Os Diamantes são eternos” marca também a volta de Guy Hamilton, diretor de “007 Contra Goldfinger”, o melhor filme da franquia até então. Partindo de uma premissa interessante e contando com um primeiro ato promissor, o longa caminha bem até próximo de seu ato final, quando infelizmente não consegue sustentar o ótimo ritmo imprimido até ali.

Adaptado para o cinema por Tom Mankiewicz e Richard Maibaum com base em romance de Ian Fleming, “007 Os Diamantes são eternos” tem início quando o governo britânico decide enviar James Bond (Sean Connery) atrás de um suspeito de contrabandear diamantes da África do Sul para a Europa e os EUA. Com a ajuda da intermediadora Tiffany Case (Jill St. John), ele viaja para Los Angeles e acaba descobrindo que os diamantes na verdade iriam parar nas mãos de seu grande inimigo Blofeld (Charles Gray) como parte de um plano que poderia destruir grandes cidades em todo o mundo.

Para tentar repetir o sucesso de “007 Contra Goldfinger”, Guy Hamilton resolveu convocar boa parte da equipe técnica responsável por aquele e alguns outros filmes da série. Assim, além da volta de Sean Connery e do ator Charles Gray, que havia chamado a atenção em sua rápida participação como Henderson em “Com 007 só se vive duas vezes”, voltaram também o diretor de fotografia Ted Moore, o designer de produção Ken Adam e o roteirista Richard Maibaum, agora auxiliado por Tom Mankiewicz, estreante que viria a escrever o roteiro de outros filmes da franquia.

Continuando o tour da série pelo mundo, Amsterdam e Las Vegas foram as locações escolhidas desta vez, com a primeira se destacando pelos charmosos canais captados com eficiência pela câmera de Hamilton e de seu diretor de fotografia, enquanto a segunda ganha um visual colorido reforçado pelos fortes raios solares da Califórnia, que criam um contraste com as sequências que se passam em ambientes fechados e, especialmente, com o visual sombrio do deserto californiano no assassinato do dentista que introduz os assassinos comandados por Blofeld.

Quem também voltou foi o vozeirão de Shirley Bassey, responsável pela bela música tema “Diamonds are forever”, que inspirou as variações da trilha sonora de John Barry. Utilizando o tema clássico pontualmente como de costume, Barry erra apenas na composição pouco inspirada nas cenas de ação, como na terrível trilha que embala a fuga de Bond da Willard White a bordo de um carro lunar, que por sua vez é uma cena tão absurda que chega a ser divertida, assim como ocorre na perseguição de carros à noite em que Bond despista os inimigos. Esta diversão, no entanto, deve-se muito mais à forma como Hamilton conduz a cena e, principalmente, à maneira debochada que Connery as encara do que propriamente ao roteiro.

O trabalho da dupla de roteiristas até que começa bem, construindo uma trama envolvente que aborda questões interessantes como o tráfico internacional de diamantes, mas se perde ao longo da narrativa, especialmente naquilo que é o principal num filme de 007, ou seja, a construção de cenas de ação realmente empolgantes. Por sua vez, Guy Hamilton e seus montadores Bert Bates e John W. Holmes imprimem um ritmo muito interessante nesta primeira parte do longa, que acompanha a inventiva forma de contrabando dos diamantes, mas falham por também não conseguirem melhorar o ato final, carente de momentos de maior impacto.

Assassinato do dentistaCarro lunarCharme e autoconfiançaJá na direção de atores, Hamilton se sai novamente bem, extraindo atuações carismáticas de boa parte do elenco. Em sua despedida da série, Sean Connery volta para trazer o charme e a autoconfiança que tanto caracterizam seu James Bond, pronunciando logo em sua primeira aparição a famosa frase “Bond. James Bond”, assim como acontece no primeiro filme da série – e é interessante observar a rápida menção as férias do personagem na conversa com “M” (Bernard Lee), numa elegante referência ao longa anterior que demonstra respeito pelo trabalho realizado. Novamente demonstrando indiferença diante do perigo e muita astúcia para enfrentar os problemas, Bond protagoniza ótimos momentos como a sufocante luta num elevador em Amsterdam e a tensa sequência em que é colocado num caixão que será cremado – e em ambas, acreditamos no esforço e na dor do personagem graças ao bom desempenho de Connery.

Escolhidas para viverem as bondgirls da vez, Lana Wood tem uma rápida participação como a sexy Plenty (e Bond faz uma piada impagável com o nome da moça), enquanto Jill St. John inicialmente compõe Tiffany como uma mulher sensual e esperta que não será facilmente enganada por James Bond, mas acaba perdendo força ao longo da narrativa, muito mais por culpa do roteiro do que por demérito da atriz, que encerra sua participação de maneira melancólica ao apoiar-se apenas no forte apelo sexual das roupas que é obrigada a usar no ato final (figurinos de Don Feld).

Sexy PlentyForte apelo sexualDivertido vilãoJá Charles Gray percorre o caminho inverso na pele de Blofeld. Inicialmente parecendo frágil ao ser derrotado com facilidade por Bond, o divertido vilão surpreendentemente retorna com força total durante a narrativa, protagonizando ótimos momentos até que seja novamente derrotado pelo agente secreto. E é justamente na visível queda de ritmo da segunda metade da narrativa que reside o maior escorregão de “007 Os Diamantes são eternos”, confirmada no fraco desfecho que, além de enfraquecer seu ótimo vilão, ainda está muito aquém da empolgante primeira metade do longa, dando a sensação de que tudo é resolvido de qualquer jeito e sem o mesmo cuidado demonstrando na engenhosa construção inicial da trama. Em questão de minutos, Bond descobre o paradeiro de Blofeld, invade o local e consegue impedir a destruição imaginada por ele, que pouco consegue fazer mesmo com tamanho poderio a seu favor.

Claramente dividido em duas partes distintas, “007 Os Diamantes são eternos” define muito bem a fase da franquia 007 estrelada por Sean Connery. É irregular, porém divertido.

007 Os Diamantes são eternos foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

19 maio, 2014

(On Her Majesty’s Secret Service)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #196

Dirigido por Peter Hunt.

Elenco: George Lazenby, Diana Rigg, Gabriele Ferzetti, George Baker, Ilse Steppat, Telly Savalas, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Bernard Lee e Irvin Allen.

Roteiro: Richard Maibaum e Simon Raven, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após interpretar James Bond nos cinco primeiros filmes da franquia, Sean Connery decidiu deixar a série, criando um enorme problema para os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman. Coube então ao australiano George Lazenby a dura missão de substituir o agora famoso ator escocês, que já tinha sua imagem totalmente ligada ao agente secreto britânico. Felizmente, Lazenby se saiu muito bem e “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” não deve nada aos seus antecessores, merecendo inclusive um lugar de destaque na filmografia de James Bond.

Escrito por Richard Maibaum e Simon Raven com base em romance homônimo de Ian Fleming, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” coloca James Bond (George Lazenby) numa situação inusitada: em troca de informações privilegiadas sobre o paradeiro de Blofeld (Telly Savalas), o líder da SPECTRE que planeja esterilizar todos os seres vivos do planeta, Bond deverá se casar com Tracy (Diana Rigg), uma jovem que ele impediu de suicidar-se e cujo pai, Sir Hilary Bray (George Baker), é quem detém as informações por ele desejadas.

Responsável pela montagem de quatro dos cinco filmes anteriores (a exceção foi “007 Contra a Chantagem Atômica”, o pior entre eles) e tendo atuado ainda como diretor de segunda unidade em “Com 007 só se vive duas vezes”, Peter Hunt já tinha experiência na franquia quando se ofereceu para dirigir “007 A Serviço Secreto de sua Majestade”. Talvez por isso, o longa não se distancie tanto do padrão já estabelecido tanto visualmente quanto em sua estrutura narrativa, ainda que em certos momentos ouse quebrar regras e surpreenda positivamente, como quando Bond finalmente dá um beijo em  Moneypenny (Lois Maxwell, sempre simpática). Por outro lado, a evolução do romance entre Bond e Tracy destoa bastante do restante da série, permitindo um melhor desenvolvimento dos personagens que só agrega mais a franquia justamente por trazer um raro arco dramático para o protagonista.

Seja através do luxuoso hotel extremamente bem decorado na França, do escritório em Londres ou da intrigante clínica nos Alpes suíços, o caprichado design de produção de Syd Cain também mantém o padrão da série, transportando o espectador pra dentro daqueles ambientes. Enquanto isto, a fotografia de Michael Reed realça a beleza dos ambientes externos, seja na viva sequência do namoro de Bond e Tracy, seja na empolgante fuga do casal esquiando. A belíssima fotografia é realçada também pelos belos movimentos de câmera de Hunt, especialmente nos lindos Alpes captados em tomadas aéreas impressionantes.

Já a misteriosa clínica ganha cores chamativas que reforçam o tom esotérico do processo de cura aplicado, ilustrando também a empolgação de Bond ao descobrir que o local tinha somente pacientes mulheres. Obviamente, ele ficaria com algumas delas, mas para isto teria que driblar a durona Fräulin Bunt vivida com rispidez por Ilse Steppat. No entanto, o grande alvo de 007 era mesmo Blofeld, que desta vez ganha vida na pele de Telly Savalas. Compondo o vilão como um homem culto que usa sua inteligência para manter-se afastado dos holofotes, Savalas trava ótimos duelos verbais com 007 enquanto este finge ser um importante advogado, mantendo outra tradição da série.

Namoro de Bond e TracyMisteriosa clínicaDurona Fräulin BuntMas a grande expectativa em “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” era mesmo pela aparição do substituto de Sean Connery na pele de James Bond. Ciente disto, Peter Hunt leva um tempo até finalmente revelar o rosto de George Lazenby na divertida sequência de abertura, que além de prender a atenção do espectador, ainda faz uma excelente piada com a saída de Connery ao trazer o novo 007 dizendo que “isto nunca aconteceu com o outro cara” após Tracy fugir dele. Mantendo a postura elegante nos refinados ternos usados pelo personagem (figurinos de Marjory Cornelius), Lazenby demonstra também agilidade, saindo-se muito bem nas sequências que exigem esforço físico, como nos confrontos com os vilões e na fuga cheia de estilo em que ele esquia na neve. Além disso, o ator consegue manter o sarcasmo e a ironia que tanto marcam o personagem, demonstrando uma autoconfiança inabalável diante de qualquer situação perigosa.

No entanto, existe uma diferença clara entre o James Bond de Connery e o de Lazenby, evidenciada logo na mencionada piada que abre o longa. Enquanto o primeiro exala charme, conquistando praticamente toda mulher que cruza seu caminho, o segundo, mesmo com boa capacidade de conquista, demonstra maior vulnerabilidade diante do sexo oposto, o que facilita sua aproximação e consequente paixão por Tracy. O que? James Bond apaixonado? Você leu certo meu amigo. E esta mudança no personagem é um dos pontos mais interessantes de “007 A Serviço Secreto de sua Majestade”.

A razão para esta mudança atende pelo nome de Tracy e é vivida com muito carisma por Diana Rigg, que inicialmente adota uma postura agressiva que na verdade serve como couraça, escondendo a fragilidade emocional daquela jovem com tendências suicidas. Após conquistar Bond, a garota claramente demonstra mais confiança, surgindo sorridente e encantadora sempre que entra em cena, criando forte empatia com o protagonista. Até por isso, sentimos sua falta quando Tracy se ausenta durante o segundo ato, voltando somente no momento mais crítico para salvar 007 – mais tristes ainda ficaremos no desfecho da narrativa, mas voltaremos a este assunto em instantes.

Fechando os destaques do elenco, temos George Baker vivendo o simpático Sir Hilary Bray, demonstrando total compreensão sobre o que se passa com sua filha desde o início, quando conta a sofrida historia de vida dela para James Bond embalado pela trilha sonora melancólica de John Barry. Barry, aliás, que desta vez acerta também nas composições que embalam as ótimas cenas de ação que, por sua vez, ajudam a fazer de “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” um dos grandes filmes da franquia.

Abusando dos cortes rápidos, a montagem de John Glen busca tornar estas cenas ainda mais empolgantes, mas a câmera agitada e o uso frequente do close acabam tornando alguns momentos um pouco confusos, o que não tira o mérito de cenas espetaculares como a fuga do casal esquiando na neve e a perseguição noturna de carro. Além deles, vale mencionar ainda o engenhoso roubo de arquivos num escritório de advocacia na Suíça ainda no início e o empolgante ato final com a explosão da clínica e a perseguição nos trenós.

Postura eleganteEncantadora TracyFuga do casal esquiandoApós baixar a adrenalina, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” nos presenteia com uma cena impensável nos filmes anteriores, trazendo a cerimônia de casamento de James Bond e Tracy – e mesmo gostando do que vemos, é inevitável sentirmos pena de Moneypenny ao vê-la chorando. Só que o final feliz se transforma em pura melancolia quando Bond para na estrada e o carro de Blofeld passa atirando, atingindo sua esposa e levando-a a morte, numa cena que, longe de ser desnecessária ou gratuita, soa totalmente fora de tom por seu enorme peso dramático, levando o espectador da euforia à tristeza em questão de segundos. Mas é justamente na decisão corajosa dos roteiristas de manterem-se fieis ao livro que reside à força desta conclusão, que poderia inclusive preparar o terreno para a continuidade da série com um James Bond mais complexo e tridimensional caso assim os produtores desejassem – e sabemos que não foi o que aconteceu, ainda que a morte da esposa seja mencionada algumas vezes nos filmes seguintes.

Superando a troca de seu ator principal com louvor, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” deu sequência à franquia 007 com dignidade, trazendo novos e interessantes elementos e agregando componentes emocionais ao personagem até então ausentes. Além disso, serviu para provar que, por melhor que Sean Connery seja (e ele é mesmo um grande ator), existia vida após ele.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade foto 2Texto publicado em 19 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (1967)

16 maio, 2014

(You Only Live Twice)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #195

Dirigido por Lewis Gilbert.

Elenco: Sean Connery, Teru Shimada, Tetsuro Tamba, Mie Hama, Akiko Wakabayashi, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Donald Pleasence, Karin Dor, Bernard Lee, Charles Gray e Tsai Chin.

Roteiro: Roald Dahl, baseado em material de Harold Jack Bloom inspirado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Com 007 só se vive duas vezes[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após derrubar consideravelmente o nível de qualidade da franquia com o fraco “007 Contra a Chantagem Atômica”, o lendário agente secreto James Bond estava de volta ao cinema neste “Com 007 só se vive duas vezes”, longa dirigido por Lewis Gilbert que, com personagens mais interessantes e uma narrativa envolvente, felizmente recuperou o fôlego perdido.

Desta vez, coube a Roald Dahl a tarefa de adaptar o material de Harold Jack Bloom inspirado em romance de Ian Fleming, no qual acompanhamos James Bond (Sean Connery) sendo enviado para Tóquio a fim de descobrir a razão do desaparecimento de uma espaçonave norte-americana, que supostamente teria sido atacada pelos russos. Após a esperada retaliação russa, Bond e seu novo parceiro Tanaka (Tetsuro Tamba) percebem que tem pouco tempo para desvendar o caso e evitar a Terceira Guerra Mundial.

Criando uma narrativa envolvente deste o intrigante início no espaço, “Com 007 só se vive duas vezes” rapidamente fisga a atenção do espectador através da armação envolvendo a morte de James Bond e o misterioso sumiço da espaçonave que cria um clima político instável entre as duas potências mundiais da época. Além de utilizar muito bem a guerra fria como pano de fundo para construir um ótimo filme de ação, o diretor Lewis Gilbert acerta ainda ao equilibrar com precisão momentos de tensão, como a tensa sequência em que Bond rouba informações do cofre da Osato, e instantes bem humorados, como a divertida apresentação dos ninjas modernos, que numa sacada interessante do roteiro de Dahl surgem praticando com armas de fogo.

Transportando a ação para oriente, a fotografia de Freddie Young apresenta Hong Kong e especialmente Tóquio como metrópoles grandiosas, criando um visual inicialmente obscuro que reflete o processo de compreensão de Bond sobre o que estava acontecendo ali. Na medida em que o agente vai se interando dos fatos, o visual progressivamente se torna mais claro, abrindo espaço para cenas coloridas banhadas pela luz do dia, como no belo plano geral que acompanha Bond enfrentando diversos japoneses no porto de Kobe. Já no terceiro ato, o visual volta a ser tomado pelas sombras, o que serve para ampliar a escala de tensão que acompanha toda a sequência ocorrida dentro da imponente caverna concebida pelo design de produção de Ken Adam, que impressiona pela engenhosa estrutura construída sob a superfície de um vulcão.

Metrópoles grandiosasBond enfrenta diversos japoneses no porto de KobeImponente cavernaEnquanto isto, a trilha sonora de John Barry também é claramente mais inspirada que a anterior, especialmente na composição angustiante que acompanha os ataques da misteriosa nave no espaço e na utilização pontual e certeira do tema clássico de 007, como ocorre na empolgante perseguição de helicópteros, criando ainda variações da bela “You only live twice”, de Nancy Sinatra, que surgem ao longo da narrativa.

E já que mencionei os helicópteros, vale citar o criativo Nellie construído por “Q” (Desmond Llewelyn), que protagoniza uma das grandes cenas de “Com 007 só se vive duas vezes”. Indicando a aproximação dos inimigos através das sombras na superfície de um vulcão, Lewis Gilbert conduz a ótima sequência de maneira empolgante, auxiliado pela montagem dinâmica de Peter Hunt e pela clássica trilha sonora. Com a rápida transição entre planos subjetivos e outros que mostram a posição dos helicópteros, o diretor nos coloca no meio da ação sem jamais tornar a cena confusa, fazendo com que o espectador se sinta como o próprio 007 por alguns instantes.

Vivido por Sean Connery com mais seriedade do que no longa anterior, James Bond volta a apresentar características marcantes como o gosto refinado (ele não resiste a um bom champanhe Dom Perignon mesmo em território inimigo, por exemplo) e a incapacidade de resistir às mulheres, ainda que isto não tenha faltado em “007 Contra a Chantagem Atômica”. Mantendo o charme nos sempre interessantes diálogos com a simpática Moneypenny (Lois Maxwell), o agente continua perspicaz e sempre pronto para um bom confronto físico, como na feroz luta entre ele e um segurança da Osato, dotada de um realismo inédito na franquia até então. Mais difícil ainda é conter o impulso diante do sexo oposto, o que faz com que Bond revele até mais do que poderia no sensual “encontro” com Helga Brandt, a secretária de Osato vivida por Karin Dor que desiste de torturar o agente secreto para beijá-lo, mas em seguida tenta assassiná-lo ao abandonar o avião que pilotava.

Numa rápida participação, Charles Gray transforma Henderson num personagem intrigante através da fala mansa e da postura confiante, mas acaba friamente assassinado dentro da sua própria casa totalmente decorada no estilo oriental. Também carismática é a atuação de Tetsuro Tamba como Tanaka, o parceiro da vez que ajuda Bond a desvendar o caso e derrotar o grande vilão. Já Akiko Wakabayashi compõe Aki como uma jovem simultaneamente independente e delicada, criando boa empatia com o protagonista até morrer de forma melancólica na tensa e triste sequência em que é envenenada, conduzida lentamente pelo diretor.E finalmente, Mie Hama interpreta Kissy, a esposa de fachada de Bond que ajudará o agente no momento chave da narrativa. No entanto, infelizmente a longa cena do casamento deles parece fora de contexto e quebra momentaneamente o bom ritmo da narrativa, numa falha que poderia ser corrigida na sala de montagem, mas que ao menos é amenizada logo em seguida quando o longa retoma seu ritmo normal.

Surgindo novamente sem mostrar o rosto, o líder da SPECTRE mantém a aura de mistério enquanto acaricia o gato em seu colo, demonstrando firmeza através do tom de voz que transmite ordens com autoridade para seus comandados. Impiedoso, ele continua intolerante a falhas e não hesita antes de eliminar Helga após descobrir que Bond continua vivo. Só que “Com 007 só se vive duas vezes” nos reserva uma boa surpresa quando, já no ato final, finalmente revela o rosto de Blofeld, o misterioso vilão interpretado por Donald Pleasence.

NellieSensual encontro com Helga BrandtBlofeld finalmente revela o rostoNovamente apostando numa extensa batalha entre Bond e seus inimigos no encerramento da narrativa, ao menos desta vez podemos acompanhar uma sequência extremamente dinâmica e envolvente dentro da engenhosa cratera onde trabalham os integrantes da SPECTRE, repleta de confrontos empolgantes captados com destreza pela câmera ágil de Lewis Gilbert e reforçada pelos ótimos efeitos visuais e pelo excelente design de som que nos permite captar gritos, explosões e diálogos com clareza até que 007 novamente salve o mundo e termine a missão ao lado de outra bela garota.

Envolvente e recheado de bons personagens, “Com 007 só se vive duas vezes” representa a volta à boa forma da franquia 007, apostando numa narrativa mais dinâmica e repleta de boas cenas de ação para alcançar o sucesso. Considerando a quantidade de mulheres que ainda cruzariam o caminho de James Bond, era mesmo aconselhável que ele voltasse à boa forma.

Com 007 só se vive duas vezes foto 2Texto publicado em 16 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira