CORINGA

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Esse é um filme que precisa ser visto e discutido. Entendo o medo e a paranoia ao seu redor. Sinceramente, eu tive medo de ir assistir no cinema. Medo de acontecer alguma tragédia na sala. Nunca tive essa sensação. Talvez seja a paternidade, mas não podemos negar que vivemos em um mundo louco.

Um mundo tão louco, que descontrói as pessoas, as quebra, e depois que elas cometem suas loucuras, a sociedade se isenta da culpa. Afinal, era só mais um louco. Acho que esse é o mote do Coringa, e é por isso que ressalto que precisa ser visto.

Vamos ao filme. Esqueçam a ideia de filme de herói, ou baseado em HQ’s. A própria Warner não quer isso. No começo do filme, num fato inédito, não aparece o logo da DC. Sim, é a história de um vilão icônico, mas poderia ser a história de qualquer um.

Talvez, Coringa seja para nossa década, o que Taxi Driver e Clube da Luta foram para as suas (guardadas as devidas proporções). O filme é um estudo sobre doenças mentais e a sociedade em que vivemos. A forma como os que não se enquadram são deixados de lado. Não só devido a doenças mentais, mas também a classe, cor, gênero etc. Se passa no final dos anos 70, mas é extremamente atual.

Não tenho a intenção de relativizar o personagem do filme, ou os personagens da vida real, e transformá-los em mártires. Mas é importante aprender com os erros para que estes não se repitam.

Joaquin Phoenix é a alma do filme. Que atuação monstruosa. A melhor que vi nesse ano sem dúvida. O filme é dele. É perturbador vê-lo em cena. Sua risada ainda ecoa na minha cabeça. E não é apenas um tipo de risada. Para cada ocasião, ele entrega uma risada diferente, quase que como um diálogo. É angustiante. É um Coringa caótico e imprevisível. E muito disso vem da atuação. É impossível ler seu rosto e tentar adivinhar o que ele vai fazer.

Essa imprevisibilidade atinge seu auge assim que as cortinas se abrem, no momento em que ele se apresenta ao mundo e todos passam a vê-lo.

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A cena no banheiro entra no rol das maiores improvisações do cinema. E é nessa cena que os três pilares do filme, atuação, trilha sonora e fotografia, pra mim, chegam ao ápice. Se Rami Malek ganhou o Oscar fazendo playback, é justo um Oscar coroar a interpretação de Joaquin Phoenix.

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A fotografia é sensacional. Uma Gotham suja, quase sem cores, como se fosse um purgatório para o personagem. E quando ele se descobre, quando somem as amarras que o prendiam à sanidade, o filme fica mais colorido, seja pelas roupas ou no palco em que faz sua apresentação ao mundo, ou na noite em chamas de Gotham. Até as escadas, que ele subia sempre de cabeça baixa, como se caminhasse em direção a um sacrifício, após sua “transformação”, fica mais viva.

A trilha sonora, que depois descobri ser do mesmo compositor de Chernobyl é angustiante. Ela te martela a todo o momento, refletindo a mente do personagem, quase que desafinando. Chega a ser claustrofóbica.

Apesar de deixar claro que não está inserida no mesmo universo, Coringa tem algumas rimas visuais com O Cavaleiro das Trevas. Principalmente em uma cena que considero icônica, com Heath Ledger dentro do carro da polícia. É possível enxergar no Coringa de Phoenix, referências aos outros Coringas do cinema. A anarquia do Coringa de Ledger. A violência e deboche do Coringa de Nicholson. A comédia do Coringa de Cesar Romero (Jared Leto eu desconsidero). E apesar de esse Coringa ter um nome, o filme não crava sua origem. Na realidade, brinca com ela, a ponto de não saber o que é certo ou o que é loucura (ou o que foi corrompido).

Não vou entrar em mais detalhes para não dar spoiler, mas o plot no meio do filme é totalmente inesperado, assim como o final que nos deixa com a pulga atrás da orelha. Será que era tudo uma piada?

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2 comentários sobre “CORINGA

  1. E. S. 8 outubro, 2019 / 12:19 pm

    Às vezes, eu temo em ler/ver coisas muito angustiantes, porque a angústia do outro acorda a minha. Lembro, quando li a história de Bane (vilão de Batman) e o vi, como um homem incompreendido, uma criança que não foi amada e se tornou um homem carente por amor e acabou sendo vítima do seu próprio desespero, do seu anseio, da sua vontade de ser amado. E eu me senti tão mal por ele, angustiada pela angústia dele.
    Eu ainda não assisti Coringa, e estou baseando minhas palavras e impressões através das impressões que você me passou.
    O sentimento de desespero capaz de ser passado pelo cinema é diferente do desespero passado por uma leitura, por exemplo, porque a capacidade da direção de arte em mexer com o cenário e dizer coisas sem usar palavras é excruciante, quando o objetivo é esse.
    Tenho medo de ler Virgínia Woolf, da mesma forma, que provavelmente não irei assistir Coringa.
    Sua análise foi ótima. Obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

    • Thyago Bertoni 8 outubro, 2019 / 5:57 pm

      Obrigado pelo elogio. Eu também tenho um excesso de empatia. Não sei se isso é algo bom ou ruim. Falando apenas de cinema, muitas vezes fico tão absorto com o que vejo nas telas, que quando o filme acaba demora um tempo para eu voltar a realidade. E Coringa é um filme bem tenso. Por muitas vezes é um soco no estômago. Uma experiência com gosto amargo. Mas apesar de tudo, é um grande filme.

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