INTERLÚDIO (1946)

(Notorious)

 

Filmes em Geral #54

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Reinhold Schünzel, Moroni Olsen, Ivan Triesault, Alex Minotis e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Ben Hecht.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa impecável e excelentes atuações, “Interlúdio” comprova a capacidade de Alfred Hitchcock de criar suspense com eficiência, neste caso, misturando thriller de espionagem e romance com perfeição. Ao mesmo tempo em que torcemos pelo casal principal, queremos saber o resultado de uma investigação, que, por outro lado, compromete esta mesma relação amorosa. Está criado o cenário perfeito para que o diretor crie momentos marcantes, do mais puro suspense.

A jovem Alicia (Ingrid Bergman) passa a se afundar na bebida após seu pai alemão ser condenado como espião nos Estados Unidos. Numa das festas, ela sai bêbada com o misterioso Devlin (Cary Grant), que se revela um agente do governo e a convida para uma missão especial no Brasil. Relutante, ela aceita viajar para se infiltrar num grupo de nazistas, amigos de seu pai, na tentativa de descobrir como eles estão operando. No caminho, Alicia se apaixona pelo agente Devlin, mas é obrigada a se casar com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), como parte do plano norte-americano para capturar os alemães.

O roteiro de “Interlúdio”, escrito por Ben Hecht, mistura com eficiência a trama que envolve a espionagem no Brasil e o dramático romance vivido por Devlin e Alicia, que, como parte do plano em que se envolveram, são obrigados a permanecer separados e evitar colocar em risco a missão. De maneira inteligente, a narrativa investe boa parte de seu primeiro ato no estabelecimento da relação do casal, criando empatia com a platéia e, desta forma, aumentando o drama quando eles são obrigados a ficarem distantes, enquanto tentam descobrir o que fazem os nazistas no país. A situação só piora quando Alicia anuncia a proposta de casamento de Alexander, criando uma situação inusitada para ela (literalmente, dormindo com o inimigo) e para ele, que passa a dividir-se entre a razão, sendo obrigado a concordar que Alicia é a melhor escolha para infiltrar-se no grupo alemão, e a emoção, tentando desesperadamente retirá-la da missão para poder viver sua paixão. Mas, orgulhoso e desconfiado do passado promíscuo da garota, ele jamais deixa claro pra ela sua intenção. Ela, por sua vez, não fala nada, esperando que ele demonstre que a deseja.

Com este bom roteiro nas mãos, Alfred Hitchcock mostra o costumeiro domínio sobre a narrativa, construindo lentamente momentos de alta tensão, numa escala crescente de suspense que atingirá seu auge em duas grandes cenas e amarrará as duas vertentes da narrativa num final emblemático. Além disso, o diretor cria planos curiosos e eficientes, como aquele que mostra a visão de Alicia dirigindo, deixando claro o seu estado deplorável, reforçado pelo momento em que ela acorda, já no dia seguinte, e vê Devlin se aproximando, quando a câmera simula seu olhar, girando completamente. E até mesmo técnicas hoje ultrapassadas, como a “back projection” (tradicional cena em que o carro está parado e as imagens se movem ao fundo), não soam datadas, talvez porque estamos mais interessados no diálogo do casal, relegando o visual para o segundo plano naquele momento. Felizmente, isto não ocorre em todo tempo, pois Hitchcock se preocupa em criar um visual elegante, com os belíssimos planos aéreos do Rio de Janeiro, por exemplo, além de planos sombrios e marcantes, especialmente na casa de Alexander, que muitas vezes são embalados pela trilha sonora de Roy Webb.

A preocupação com a parte visual é reforçada ainda pelos belos lustres e pela decoração da imponente sala na casa de Alexander, ilustrando o bom trabalho de direção de arte de Carroll Clark e Albert S. D’Agostino, que ainda inclui a enorme escadaria que leva ao quarto em que Alicia ficará escondida e que será essencial na cena final (repare como a quantidade de passos de Devlin é maior na descida, prolongando a angústia na platéia). Também merecem destaque os ternos elegantes dos homens e os belos vestidos das mulheres na festa, que confirmam o bom trabalho da figurinista Edith Head, além da direção de fotografia de Ted Tetzlaff, essencial na criação dos citados planos sombrios na casa dos Sebastian, e que se torna ainda mais obscura na medida em que Alicia adoece, refletindo a tristeza da personagem, já na parte final da narrativa.

Filha de um oficial alemão condenado pela justiça norte-americana após a segunda guerra mundial, Alicia é interpretada pela grande Ingrid Bergman, que confirma seu talento logo nas primeiras cenas, ao compor uma bêbada com precisão, demonstrando dificuldade em abrir os olhos enquanto fala na festa. Observe, por exemplo, com a atriz demonstra bem o misto de sentimentos de Alicia ao saber que o pai morreu, não sabendo se chora ou se fica aliviada, e note ainda como ela convence quando Alicia fica doente, mostrando grande dificuldade para falar e se movimentar. Já o personagem interpretado por Cary Grant se mostra misterioso desde sua primeira aparição, quando está de costas e demora pra mostrar o rosto, mas deixa claro sua importância quando apresenta a carteira para um guarda de trânsito, que o libera imediatamente. Apesar de durar pouco tempo, os momentos românticos do casal conquistam a platéia e são vitais no clímax da narrativa. Aliás, fica claro num diálogo no hotel que Alicia está apaixonada e não esconde isto, ao passo em que Devlin ainda tem desconfianças, tanto dela quanto do risco que a missão no Brasil representa e, conseqüentemente, que aquela paixão corria. Ainda assim, ele escancara seu sentimento quando fica nervoso com a proposta de casamento de Alexander, num momento em que Grant se sai muito bem. Este componente amoroso só serve para aumentar a tensão quando a situação de Alicia se complica de vez na casa de Alexander Sebastian. Alexander, aliás, que é bem interpretado por Claude Rains, que muda gradativamente seu comportamento após descobrir que Alicia é uma espiã de maneira convincente, conseguindo ainda conferir humanidade ao vilão quando se mostra completamente apaixonado. E como acontece em muitos filmes de Hitchcock, o papel da mãe tem grande importância em “Interlúdio”, desta vez na pele de Madame Sebastian, interpretada por Leopoldine Konstantin, que aconselha o filho desde o momento em que coloca os olhos em Alicia. Repare como Konstantin muda a feição no momento em que a mãe de Alex ouve que o filho foi traído, colocando um sorriso cínico no rosto antes de dizer que “já sabia”.

Evidentemente, não estamos interessados apenas na relação amorosa de Devlin e Alicia, mas também na espionagem aos alemães, especialmente depois que a jovem se infiltra na casa de Alexander. Ciente disto, Hitchcock trabalha minuciosamente na construção de duas grandes cenas, capazes de grudar os olhos do espectador na tela. Observe, por exemplo, como durante um jantar na casa de Alexander, Hitchcock emprega um zoom nas garrafas de vinho, já indicando a importância delas na trama. As garrafas chamam a atenção de Alicia, que organiza um plano para invadir a adega numa festa em que Devlin estará presente. Já na festa, o diretor destaca a chave da adega nas mãos de Alicia após passear por todo o salão, começando a preparar um clima tenso, especialmente porque, durante a festa, Alexander observa atentamente as conversas entre Devlin e Alicia, que disfarçam, sorrindo enquanto decidem como entrarão na adega. O diretor então passa a incluir planos da bandeja de champanhes e do estoque que diminui, mostrando a preocupação de Alicia com a quantidade de bebidas, pois, obviamente, Alexander vai precisar da chave. Em seguida, o casal desce na adega, mas Devlin derruba e quebra uma garrafa, revelando o conteúdo suspeito da mesma, ao mesmo tempo em que Alexander decide buscar mais bebidas para a festa. Auxiliado pela excelente montagem de Theron Warth, Hitchcock alterna entre a chegada de Alexander e as ações do casal na adega, tornando a cena ainda mais tensa. Rapidamente, enquanto Alexander se aproxima, Devlin limpa o local e decide beijar Alicia, despistando, ao menos por um tempo, o que a dupla de fato fazia ali. Mas Alexander sentirá falta da chave, criando uma suspeita que se confirmaria no dia seguinte, quando ela reaparece no quarto deles – acertadamente, Hitchcock destaca a chave com a palavra “UNICA”. Sentindo-se traído, ele entra na adega, descobre a garrafa quebrada e confirma sua expectativa. A narrativa sofre uma reviravolta. Nós sabemos que Alexander está ciente da função de Alicia, mas ela não sabe. Seguindo os conselhos da mãe para evitar ser acusado de assassinato, o marido passa a envenenar lentamente a esposa através do café – e Hitchcock faz questão de destacar as xícaras de café, fazendo com que o espectador, novamente, saiba mais que a personagem, que toma o café envenenado dia após dia. Aliás, a primeira vez que o diretor faz isso é num travelling genial, que se inicia na xícara de café, passa pela mãe de Alexander e termina na sonolenta Alicia, deixando claro para o espectador o que está acontecendo.

Mesmo doente, Alicia evita tocar no assunto quando encontra Devlin numa praça, num diálogo interessante que confirma o quanto ambos estão ressentidos pela relação que não deu certo. O orgulho impede que eles se aproximem e se abram, impedindo também que Devlin descubra o que acontece com Alicia. Mas ela mesma descobrirá porque está doente quando, em outra cena marcante, a câmera viaja pela xícara e vai até ela, segundos antes do médico ameaçar tomar o café de Alicia, provocando a reação imediata e impulsiva de Alexander e sua mãe. Alicia percebe na hora o que está acontecendo – algo destacado através de um zoom no rosto impaciente da mãe de Alex – e a câmera subjetiva distorce as imagens indicando que ela está passando mal. Desconfiado e sentindo falta da amada, Devlin decide visitar a casa dos Sebastian, nos levando ao tenso final em que ele foge com Alicia nos braços, inteligentemente usando os colegas alemães de Alexander para ameaçá-lo, descendo as longas escadarias da casa lentamente até sair pela porta. A frase final “Alex, não vai entrar?” é cruel e sela o destino do nazista.

Hitchcock usa uma história de espionagem como pano de fundo para nos contar outra história ainda mais interessante, sobre o amor de dois homens pela mesma mulher e sobre a paixão de duas pessoas orgulhosas e incapazes de se abrir. Alicia esperava que Devlin intercedesse por ela, mas nunca disse isto pra ele. Devlin esperava que Alicia desistisse da idéia do casamento, mas também nunca falou nada pra ela. E este silêncio poderia custar caro… Para ambos. Ainda que tenha muito suspense, “Interlúdio” revela-se uma grata surpresa na filmografia de Hitchcock, justamente por trazer no pacote do tradicional thriller, uma bela e clássica história de amor proibido.

Texto publicado em 31 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

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4 Respostas to “INTERLÚDIO (1946)”

  1. Anônimo Says:

    Assisti esse filme hoje e achei muito bom, melhor do que o North by Northwest. Eu achei que A atriz Ingrid Bergman interpreta um personagem muito parecido com aquela de Casablanca. Vale a pena conferir.

    Vinicius Fernandes

    • Roberto Siqueira Says:

      Um grande filme mesmo Vinicius.
      Também gosto mais dele do que de “Intriga Internacional”.
      Abraço.

  2. INTRIGA INTERNACIONAL (1959) « Cinema & Debate Says:

    […] o principal perseguidor dele – e aí reside a ousadia temática do longa, que, assim como em “Interlúdio”, obriga a personagem a dormir com o […]

  3. DISQUE M PARA MATAR (1954) « Cinema & Debate Says:

    […] habilidade de criar momentos tensos através de objetos do cotidiano, como a xícara de café em “Interlúdio” e, no caso deste ótimo “Disque M para Matar”, um aparelho telefônico. Com a costumeira […]

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