ROMEU E JULIETA (1968)

(Romeo and Juliet)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #157

Dirigido por Franco Zeffirelli.

Elenco: Leonard Whiting, Olivia Hussey, John McEnery, Milo O’Shea, Pat Heywood, Robert Stephens, Michael York, Bruce Robinson e Laurence Olivier (narrador).

Roteiro: Franco Zeffirelli, Masolino D’Amico e Franco Brusati, baseado em peça de William Shakespeare.

Produção: John Brabourne e Anthony Havelock-Allan.

Romeu e Julieta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A filmografia do diretor italiano Franco Zeffirelli está longe de ser uma das minhas favoritas. Não que eu não goste de melodramas, mas é a maneira desesperadamente forçada de tentar me levar às lágrimas que não me agrada na maioria de seus trabalhos. Por isso, filmes que funcionam muito bem para muitas pessoas como “O Campeão” e “Amor sem Fim” não conseguem me emocionar na mesma intensidade. Entretanto, isto não ocorre nesta versão de “Romeu e Julieta”, adaptada com grande sensibilidade por Zeffirelli e que, devido à sua natureza trágica, revela-se o material ideal para o melodramático diretor.

Roteirizada pelo próprio Zeffirelli ao lado de Masolino D’Amico e Franco Brusati, esta adaptação fiel da peça de William Shakespeare narra à grandiosa história de amor dos jovens Romeu (Leonard Whiting) e Julieta (Olivia Hussey), que se apaixonam ainda na adolescência e são impedidos de viver seu amor publicamente devido à rivalidade entre suas famílias. Abordando o tema universal da paixão proibida, “Romeu e Julieta” ainda se beneficia da mistura complexa criada pelo dramaturgo, envolvendo amor, desejo, violência e até valores familiares em doses consideráveis, que são captadas com precisão pelos diálogos bem construídos que, inspirados no texto do próprio Shakespeare, surgem constantemente em forma de elegantes rimas.

Ainda que utilize o inglês como idioma, Zeffirelli consegue sugar o espectador pra dentro da história, graças à escolha de locações na própria Itália, que colaboram em nossa imersão através das charmosas ruas de pedra de Verona, captadas com competência pela fotografia de Pasqualino De Santis, que alterna entre momentos que realçam a beleza local e outros em que as sombras tomam conta da tela, especialmente quando nos aproximamos do ato final. Este excelente trabalho de recriação de época apoia-se também nos figurinos de Reginald Mills, que utilizam longos vestidos e adornos variados para embelezar as mulheres, ao passo em que os homens surgem com calças apertadas e chapéus pequenos tipicamente italianos. Além disso, repare como Julieta surge vestida de vermelho na festa, o que, além de destacá-la, serve para ilustrar a paixão que nasceria ali, confirmada pelo olhar penetrante de Romeu e realçada pela trilha sonora melancólica de Nino Rota.

Charmosas ruas de pedraLongos vestidos e adornosJulieta surge vestida de vermelhoA trilha, aliás, é um dos pontos altos do filme, pontuando com seu belo tema os encontros apaixonados do casal. Aliás, já no primeiro contato entre eles temos um interessante jogo de palavras que resulta no primeiro beijo, também captado com sensibilidade pelo diretor. Por sua vez, o design de produção de Lorenzo Mongiardino capricha nos pequenos detalhes, como as espadas utilizadas nos duelos, as casas rústicas e até mesmo o cemitério sombrio em que a tragédia se consumará. Já o design de som infelizmente oscila bastante, especialmente nos duelos de rua em que o volume dos gritos do povo suplanta o som das espadas e os gemidos dos personagens.

Primeiro beijoEspadasCemitério sombrioAnunciando o destino trágico dos protagonistas desde o primeiro plano em que a cidade de Verona surge coberta por uma forte névoa, “Romeu e Julieta” também evidencia bem cedo a forte rivalidade entre as famílias Montecchio e Capuleto através das brigas tolas dos rapazes no centro de Verona, o que é essencial para compreender o drama do casal. Para transmitir a essência desta paixão tórrida, Zeffirelli apostou na escolha de atores extremamente jovens, o que também serviu para criar forte empatia com o publico adolescente da época. Dona de um rosto angelical que cai muito bem na personagem, Olivia Hussey vive Julieta com todo o ímpeto que o papel exige, se entregando as lágrimas e a histeria sempre que necessário. Já Leonard Whiting cria um Romeu empolgante, correndo pelas ruas da cidade e exibindo no brilho de seu olhar toda a esperança de viver um amor eterno ao lado da amada. A inocência que ambos evocam, aliás, torna a cena do casamento secreto ainda mais significativa, já que o espectador acredita naquele amor incondicional. E até mesmo quando sugere o sexo, Zeffirelli o faz com bastante cuidado para não quebrar esta aura de inocência, criando uma cena baseada muito mais na carga emocional do ato do que no aspecto físico.

Verona surge coberta pela névoaAtores extremamente jovensCasamento secretoNo restante do elenco, vale citar a simpática ama de Julieta interpretada por Pat Heywood e o sábio Frei Laurence, vivido com grande carisma por Milo O’Shea. Já John McEnery transforma seu Mercutio praticamente numa caricatura, mas consegue nos divertir até que o longo duelo com Tybalt (Michael York, que chega a surgir com pequenos chifres vermelhos em alguns planos) resulte na morte dele, num momento em que a câmera agitada de Zeffirelli praticamente nos permite sentir o calor do combate.

Simpática ama de JulietaSábio FreiLongo duelo com TybaltNa verdade, é impressionante como o diretor acerta a mão em praticamente todas as cenas cruciais de “Romeu e Julieta”, começando pelo encantador namoro na sacada em que os jovens demonstram através das expressões corporais toda a paixão que sentem. Observe como seus enquadramentos colocam Julieta quase sempre em posição dominante, indicando seu poder de persuasão, ao passo em que Romeu surge sempre em movimento, demonstrando sua ansiedade diante dela. Aliás, chega a ser doloroso acompanhar estes dois jovens sonhadores que, de tão apaixonados, soam quase como bobos (como a maioria dos casais apaixonados, vale lembrar). Simultaneamente forte e ingênuo, o amor de Romeu e Julieta é inconsequente, quase adolescente, e talvez por isso tenha tanta força junto ao público, normalmente ávido por um amor que consiga vencer todas as barreiras, incluindo a própria morte.

Morte que tem participação fundamental em “Romeu e Julieta”, já que é justamente após a morte de Mercutio que Romeu parte para a vingança e desencadeia a série de acontecimentos trágicos da narrativa. Então, a atmosfera sinistra ganha forma e outras mortes entram em cena, criando o cenário ideal para que Zeffirelli faça o que sabe melhor: tentar levar o espectador às lágrimas. A partir daí, temos uma sequência de cenas dramaticamente densas, com Romeu sendo julgado pelo Príncipe (Robert Stephens) e sendo condenado ao exílio, os choros e gritos do casal desesperado diante da separação eminente, a proposta de casamento entre Paris (Roberto Bisacco) e Julieta e a solução perigosa proposta pelo Frei Laurence.

Encantador namoroRomeu é julgado pelo PríncipeEnterro de JulietaTudo isso nos leva ao famoso desfecho desta grande história de amor, no qual a mão pesada de Zeffirelli funciona muito bem. Dominada pelas sombras, a cena do enterro de Julieta tem uma abordagem operística que permite aos atores todos os exageros na composição dos personagens, com reações grandiosas (e bem italianas) e muitas lágrimas. Igualmente, Whiting e Hussey conseguem transmitir a dor de Romeu e Julieta com precisão quando estes se deparam com o corpo do outro, em momentos tocantes que tornam esta versão numa das melhores adaptações cinematográficas da clássica história de Shakespeare.

Romeu e Julieta foto 2Texto publicado em 02 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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5 Respostas to “ROMEU E JULIETA (1968)”

  1. deiseferreira007 Says:

    Um dos filmes mais lindos que já assisti!

  2. Ger i Di Dante Says:

    Este foi o melhor filme de Romeu e Julieta. Não existiu outro igual!

  3. SHAKESPEARE APAIXONADO (1998) | Cinema & Debate Says:

    […] utilizando ainda vestimentas nos ensaios da peça que remetem diretamente ao citado clássico “Romeu e Julieta”, de […]

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