ROMEU E JULIETA (1968)

(Romeo and Juliet)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #157

Dirigido por Franco Zeffirelli.

Elenco: Leonard Whiting, Olivia Hussey, John McEnery, Milo O’Shea, Pat Heywood, Robert Stephens, Michael York, Bruce Robinson e Laurence Olivier (narrador).

Roteiro: Franco Zeffirelli, Masolino D’Amico e Franco Brusati, baseado em peça de William Shakespeare.

Produção: John Brabourne e Anthony Havelock-Allan.

Romeu e Julieta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A filmografia do diretor italiano Franco Zeffirelli está longe de ser uma das minhas favoritas. Não que eu não goste de melodramas, mas é a maneira desesperadamente forçada de tentar me levar às lágrimas que não me agrada na maioria de seus trabalhos. Por isso, filmes que funcionam muito bem para muitas pessoas como “O Campeão” e “Amor sem Fim” não conseguem me emocionar na mesma intensidade. Entretanto, isto não ocorre nesta versão de “Romeu e Julieta”, adaptada com grande sensibilidade por Zeffirelli e que, devido à sua natureza trágica, revela-se o material ideal para o melodramático diretor.

Roteirizada pelo próprio Zeffirelli ao lado de Masolino D’Amico e Franco Brusati, esta adaptação fiel da peça de William Shakespeare narra à grandiosa história de amor dos jovens Romeu (Leonard Whiting) e Julieta (Olivia Hussey), que se apaixonam ainda na adolescência e são impedidos de viver seu amor publicamente devido à rivalidade entre suas famílias. Abordando o tema universal da paixão proibida, “Romeu e Julieta” ainda se beneficia da mistura complexa criada pelo dramaturgo, envolvendo amor, desejo, violência e até valores familiares em doses consideráveis, que são captadas com precisão pelos diálogos bem construídos que, inspirados no texto do próprio Shakespeare, surgem constantemente em forma de elegantes rimas.

Ainda que utilize o inglês como idioma, Zeffirelli consegue sugar o espectador pra dentro da história, graças à escolha de locações na própria Itália, que colaboram em nossa imersão através das charmosas ruas de pedra de Verona, captadas com competência pela fotografia de Pasqualino De Santis, que alterna entre momentos que realçam a beleza local e outros em que as sombras tomam conta da tela, especialmente quando nos aproximamos do ato final. Este excelente trabalho de recriação de época apoia-se também nos figurinos de Reginald Mills, que utilizam longos vestidos e adornos variados para embelezar as mulheres, ao passo em que os homens surgem com calças apertadas e chapéus pequenos tipicamente italianos. Além disso, repare como Julieta surge vestida de vermelho na festa, o que, além de destacá-la, serve para ilustrar a paixão que nasceria ali, confirmada pelo olhar penetrante de Romeu e realçada pela trilha sonora melancólica de Nino Rota.

Charmosas ruas de pedraLongos vestidos e adornosJulieta surge vestida de vermelhoA trilha, aliás, é um dos pontos altos do filme, pontuando com seu belo tema os encontros apaixonados do casal. Aliás, já no primeiro contato entre eles temos um interessante jogo de palavras que resulta no primeiro beijo, também captado com sensibilidade pelo diretor. Por sua vez, o design de produção de Lorenzo Mongiardino capricha nos pequenos detalhes, como as espadas utilizadas nos duelos, as casas rústicas e até mesmo o cemitério sombrio em que a tragédia se consumará. Já o design de som infelizmente oscila bastante, especialmente nos duelos de rua em que o volume dos gritos do povo suplanta o som das espadas e os gemidos dos personagens.

Primeiro beijoEspadasCemitério sombrioAnunciando o destino trágico dos protagonistas desde o primeiro plano em que a cidade de Verona surge coberta por uma forte névoa, “Romeu e Julieta” também evidencia bem cedo a forte rivalidade entre as famílias Montecchio e Capuleto através das brigas tolas dos rapazes no centro de Verona, o que é essencial para compreender o drama do casal. Para transmitir a essência desta paixão tórrida, Zeffirelli apostou na escolha de atores extremamente jovens, o que também serviu para criar forte empatia com o publico adolescente da época. Dona de um rosto angelical que cai muito bem na personagem, Olivia Hussey vive Julieta com todo o ímpeto que o papel exige, se entregando as lágrimas e a histeria sempre que necessário. Já Leonard Whiting cria um Romeu empolgante, correndo pelas ruas da cidade e exibindo no brilho de seu olhar toda a esperança de viver um amor eterno ao lado da amada. A inocência que ambos evocam, aliás, torna a cena do casamento secreto ainda mais significativa, já que o espectador acredita naquele amor incondicional. E até mesmo quando sugere o sexo, Zeffirelli o faz com bastante cuidado para não quebrar esta aura de inocência, criando uma cena baseada muito mais na carga emocional do ato do que no aspecto físico.

Verona surge coberta pela névoaAtores extremamente jovensCasamento secretoNo restante do elenco, vale citar a simpática ama de Julieta interpretada por Pat Heywood e o sábio Frei Laurence, vivido com grande carisma por Milo O’Shea. Já John McEnery transforma seu Mercutio praticamente numa caricatura, mas consegue nos divertir até que o longo duelo com Tybalt (Michael York, que chega a surgir com pequenos chifres vermelhos em alguns planos) resulte na morte dele, num momento em que a câmera agitada de Zeffirelli praticamente nos permite sentir o calor do combate.

Simpática ama de JulietaSábio FreiLongo duelo com TybaltNa verdade, é impressionante como o diretor acerta a mão em praticamente todas as cenas cruciais de “Romeu e Julieta”, começando pelo encantador namoro na sacada em que os jovens demonstram através das expressões corporais toda a paixão que sentem. Observe como seus enquadramentos colocam Julieta quase sempre em posição dominante, indicando seu poder de persuasão, ao passo em que Romeu surge sempre em movimento, demonstrando sua ansiedade diante dela. Aliás, chega a ser doloroso acompanhar estes dois jovens sonhadores que, de tão apaixonados, soam quase como bobos (como a maioria dos casais apaixonados, vale lembrar). Simultaneamente forte e ingênuo, o amor de Romeu e Julieta é inconsequente, quase adolescente, e talvez por isso tenha tanta força junto ao público, normalmente ávido por um amor que consiga vencer todas as barreiras, incluindo a própria morte.

Morte que tem participação fundamental em “Romeu e Julieta”, já que é justamente após a morte de Mercutio que Romeu parte para a vingança e desencadeia a série de acontecimentos trágicos da narrativa. Então, a atmosfera sinistra ganha forma e outras mortes entram em cena, criando o cenário ideal para que Zeffirelli faça o que sabe melhor: tentar levar o espectador às lágrimas. A partir daí, temos uma sequência de cenas dramaticamente densas, com Romeu sendo julgado pelo Príncipe (Robert Stephens) e sendo condenado ao exílio, os choros e gritos do casal desesperado diante da separação eminente, a proposta de casamento entre Paris (Roberto Bisacco) e Julieta e a solução perigosa proposta pelo Frei Laurence.

Encantador namoroRomeu é julgado pelo PríncipeEnterro de JulietaTudo isso nos leva ao famoso desfecho desta grande história de amor, no qual a mão pesada de Zeffirelli funciona muito bem. Dominada pelas sombras, a cena do enterro de Julieta tem uma abordagem operística que permite aos atores todos os exageros na composição dos personagens, com reações grandiosas (e bem italianas) e muitas lágrimas. Igualmente, Whiting e Hussey conseguem transmitir a dor de Romeu e Julieta com precisão quando estes se deparam com o corpo do outro, em momentos tocantes que tornam esta versão numa das melhores adaptações cinematográficas da clássica história de Shakespeare.

Romeu e Julieta foto 2Texto publicado em 02 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

SPARTACUS (1960)

(Spartacus)

 

Videoteca do Beto #40

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Peter Ustinov, Jean Simmons, Charles Laughton, Tony Curtis, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Charles McGraw, Joanna Barnes, Harold Stone, Woody Strode e Peter Brocco.

Roteiro: Dalton Trumbo, baseado em livro de Howard Fast.

Produção: Edward Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente atraente visualmente, o épico de Stanley Kubrick “Spartacus” é também um drama bastante humano sobre a luta de um escravo contra a opressão do imponente império Romano. Mesmo sem a costumeira liberdade artística que conseguiria alguns anos depois, Kubrick consegue realizar um excelente trabalho, construindo seqüências maravilhosas e narrando uma história extremamente cativante com a habitual competência.

Um escravo chamado Spartacus (Kirk Douglas), condenado à morte por morder um guarda, é comprado por um agente de gladiadores e levado para ser treinado como tal. Ao ser colocado na arena para servir de espetáculo para dois casais romanos e ser poupado por seu oponente, Spartacus vê crescer dentro de si a fúria contra o império romano, que explode de vez quando sua amada Varinia (Jean Simmons) é vendida e levada para Roma. Sua revolta rapidamente se transforma numa verdadeira rebelião contra Roma, que tomará proporções épicas e terminará de forma trágica para a maioria dos envolvidos.

Os gladiadores em “Spartacus” eram homens treinados somente para matar. Seus corpos esculpidos eram capazes de impressionar as mulheres romanas, arrancando sorrisos e olhares nada discretos por parte delas. Por outro lado, estes homens intuitivamente não estabeleciam relações de amizade entre si, pois sabiam que um dia poderiam ter que se enfrentar na arena. Exatamente quando descobre esta particularidade, Spartacus acaba mudando o conceito, e o gladiador que o contestou numa conversa sobre o assunto é justamente aquele que não consegue matá-lo na arena, mesmo com o oponente completamente dominado, justamente por causa da pequena conexão criada entre eles. Esta conexão se transforma então num sentimento muito maior, existente entre todos os gladiadores e escravos, quando Spartacus, ao ver sua amada ser vendida e levada para Roma, inicia sua rebelião.

Como podemos perceber, o bom roteiro de Dalton Trumbo (baseado em livro de Howard Fast) é repleto de momentos extremamente marcantes, como a emocionante frase repetida por todos os prisioneiros (“Eu sou Spartacus!”), após a sangrenta batalha entre romanos e escravos. Além disso, é dono de uma coragem ímpar para sua época, como podemos notar no diálogo entre Crassus (Laurence Olivier) e Antoninus (Tony Curtis) sobre ostras e caracóis, claramente contendo um subtexto homossexual (lembre-se, o filme é de 1960). O jogo de interesses pelo poder também é muito bem retratado no longa, reforçando a qualidade do roteiro de Trumbo. Notável também é o resultado alcançado pela direção de fotografia de Russell Metty (supervisionada tão de perto por Kubrick que Metty pediu para não ser creditado), que destaca cores áridas na primeira parte do filme (marrom, amarelo e bege) refletindo o clima quente e seco em que os escravos viviam, e posteriormente, alterna de cores fortes nas belas planícies para o mergulho nas sombras dentro dos ambientes pouco iluminados da época. O bom trabalho de montagem de Robert Lawrence alterna com consistência entre as seqüências de ação (treinamento, guerra), romance (Spartacus e Varinia) e até mesmo as sutilezas políticas nos bastidores do senado romano. Além disso, a montagem cria um grande momento quando os dois líderes (Spartacus e Crassus) estão discursando para os seus seguidores. A perfeita ambientação à época do império romano se consolida através da boa direção de arte de Eric Orbom e dos belos figurinos da dupla Valles e Bill Thomas, tornando aquele universo bastante crível. A bela trilha sonora de Alex North completa o ótimo trabalho técnico, alternando entre momentos leves e sentimentalistas (quando a cena envolve Varinia) e acordes rápidos e fortes (durante o treinamento), alcançando seu ápice durante a batalha final, em tom triunfal.

Mas Spartacus não é apenas um esplendor técnico. As atuações mantém o bom nível do longa, a começar por Kirk Douglas, que encarna Spartacus, o escravo que virou líder da rebelião, com grande vigor. Sua firmeza na condução de milhares de pessoas demonstra seu extinto nato de liderança, e Douglas é competente ao transmitir a firmeza necessária ao personagem. O ator também se mostra competente nos momentos sutis, como quando diz que Antoninus tem grande valor e que ele tem sede de saber (“Um animal aprende a lutar, mas recitar coisas bonitas… Sou livre e não sei ler, quero aprender tudo. Quero saber de onde vem o vento…”). Nas palavras de Varinia, Spartacus era forte o suficiente para ser fraco, demonstrando sentimentos e se mostrando alguém bastante humano, como fica claro quando tem a oportunidade de salvar sua pele e da sua família, mas ao invés disso, manda embora quem fez a oferta, extremamente ofendido pela idéia de deixar os outros escravos para trás. Além disso, o romance entre Spartacus e Varinia só é verossímil devido à excelente química do casal. O interesse de Spartacus por Varinia era verdadeiro (“Eles a machucaram?”), e ela sente isto. A paixão nasce quando ele a trata como uma pessoa, uma mulher de verdade, e não uma escrava sexual que está ali para servi-lo. Esta paixão será o estopim da revolta de Spartacus, que iniciará sua luta contra Roma no momento em que ver Varinia deixar os portões da cidade. Jean Simmons é a parceira ideal para Douglas, vivendo Varinia com sensualidade e sensibilidade. Seus grandes momentos acontecem justamente quando contracena com o escravo, criando empatia com o espectador, como em seu reencontro com Spartacus após ser levada para Roma, o momento em que conta que está grávida e a triste despedida do casal.

Completando o elenco, Charles McGraw é bem firme como Marcellus, o ex-gladiador que agora é treinador (“Teria o visual de Maximus, de Gladiador, sido inspirado nele?”). Peter Ustinov também está muito bem como o esperto agente de escravos Lentulus Batiatus. Repare como ao pressentir que o local estava em ebulição, ele foge sem pestanejar, largando tudo para trás, momentos antes da rebelião se consumar. Charles Laughton tem uma grande atuação como o senador Gracchus, que faz questão de deixar bem claro qual é o único meio de se manter vivo no sujo universo do senado romano (“Em Roma, a dignidade encurta a vida mais que a doença”). E finalmente, Laurence Olivier cria um Marcus Crassus absolutamente temível, alternando repentinamente seu senso de humor, por exemplo, quando está com Varinia. Sua crueldade fica evidente quando finalmente chega ao poder. Sua sede não era apenas por capturar Spartacus, ele queria “matar a lenda”. Mas suas atitudes tiveram um efeito contrário. Interessante notar como o cruel Crassus se rende ao poder de sedução da mulher quando vê Varinia, levando-a para viver com ele. Por mais cruel que seja, um homem jamais resiste aos encantos femininos.

E finalmente, não podemos deixar de destacar o homem responsável por este grande épico. Stanley Kubrick dirige “Spartacus” com a firmeza costumeira, trabalhando nos pequenos detalhes para criar cenas absolutamente inesquecíveis. Repare, por exemplo, o plano deslumbrante da caminhada dos escravos, já livres, filmado de cima de um monte, ou o curioso ponto de vista de Spartacus enquanto aguarda ansioso para lutar na arena, olhando pela fresta da madeira. Kubrick ainda comanda duas seqüências absolutamente sensacionais. A primeira delas é a rebelião dos gladiadores e a conseqüente fuga do local onde eram treinados, filmada com muito vigor e realismo. Ainda mais impressionante é a espetacular seqüência da batalha final, com movimentos orquestrados de mais de oito mil figurantes, movimentos de câmera extremamente ágeis e um ritmo alucinante completamente coerente com o momento, tornando a cena bastante realista. Um exemplo de grande direção. Destaca-se nesta seqüência o excelente trabalho de som que trabalha em pequenos detalhes, como o barulho das espadas, e em grande escala, através dos gritos da multidão.

A bela e triste cena final emociona, quando Spartacus, à beira da morte, conhece seu filho, que viverá livre como ele sonhou. O triste desfecho resume bem o fio condutor da trama. A luta de um homem para conseguir ser livre, viver normalmente e ter uma família. E exatamente por retratar esta batalha focando o drama de um homem só que “Spartacus” se torna bastante humano. O espectador se identifica com o drama que vê na tela, o que não aconteceria se apenas acompanhasse milhares de homens lutando em campo aberto, sem saber as motivações de cada um. As razões do conflito ficam claras e o espectador sabe o que está em jogo.

“Spartacus” não é o grande trabalho da vida de Stanley Kubrick, que faria depois pelo menos duas obras-primas da história do cinema. Mas nem por isso deixa de ser um grande filme, lindamente fotografado, com uma estória apaixonante e envolvente e, pra variar, extremamente bem dirigido. Contando ainda com excelentes atuações, o longa garante a diversão e prova que as grandes produções podem sim oferecer bom entretenimento, sem ofender a inteligência do espectador.

Texto publicado em 29 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira