LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA (1997)

(L.A. Confidential)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #176

Dirigido por Curtis Hanson.

Elenco: Guy Pearce, Kevin Spacey, Russell Crowe, James Cromwell, Kim Basinger, David Strathairn, Danny DeVito, Graham Beckel, Ron Rifkin, Paul Guilfoyle, Matt McCoy, Simon Baker, Brenda Bakke, Jeremiah Birkett, Karreem Washington e Salim Grant.

Roteiro: Brian Helgeland e Curtis Hanson, baseado em romance de James Ellroy.

Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan e Michael Nathanson.

Los Angeles - Cidade Proibida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Impecável em praticamente todos os aspectos, o neo-noir “Los Angeles – Cidade Proibida” não conseguiu superar o colossal sucesso de “Titanic” e nem mesmo ressuscitou este que é um dos gêneros mais interessantes do cinema norte-americano. Nada disso, porém, diminui o fato de que o longa dirigido por Curtis Hanson e estrelado por um elenco tão talentoso é, sem dúvida alguma, uma das obras mais marcantes de sua época, funcionando como um thriller moderno e intrigante ao mesmo tempo em que homenageia o noir de maneira brilhante.

Escrito pelo próprio Hanson ao lado de Brian Helgeland e baseado em livro de James Ellroy, “Los Angeles – Cidade Proibida” se passa nos anos 50 e acompanha o cotidiano da polícia após a prisão do chefe do crime organizado local. Numa noite conhecida como “Natal Sangrento”, diversos policiais agridem alguns prisioneiros mexicanos e acabam flagrados pela imprensa, gerando uma investigação que leva o policial Ed Exley (Guy Pearce) a ser promovido, justamente por delatar seus companheiros de profissão. Assim, o policial Bud White (Russell Crowe) e o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam afastados de suas funções, mas todos eles terão seus caminhos cruzados numa investigação que envolverá o alto escalão policial – entre eles, o capitão Dudley (James Cromwell) – e pessoas importantes ligadas a um esquema de prostituição no qual as mulheres se parecem com estrelas de cinema – entre elas, a bela Lynn (Kim Basinger).

Surgindo como um verdadeiro noir moderno logo em seus primeiros minutos, “Los Angeles – Cidade Proibida” traz praticamente todas as principais características do gênero. Assim, temos o crime movendo a narrativa, as cenas predominantemente noturnas, os personagens ambíguos e a loira fatal. E ainda que a fotografia de Dante Spinotti tenha cores quentes e cenas diurnas especialmente em seu segundo ato, esta paleta de cores surge sempre dessaturada, criando um visual que não apenas homenageia o gênero como também remete à época em que se passa a narrativa com precisão. Esta sensação é reforçada também pelo ótimo design de produção de Jeannine Oppewall, que reconstitui a Los Angeles dos anos 50 com precisão através dos carros que circulam pelas ruas, da decoração dos ambientes e das armas utilizadas pelos policiais, além é claro da ótima trilha sonora de Jerry Goldsmith, repleta de Jazz e músicas típicas da Califórnia, mas também com composições instrumentais sombrias que pontuam bem certas cenas, como quando Ed chega ao Nite Owl e anda pelo lugar após o massacre – e aqui vale observar como a câmera subjetiva de Hanson amplia o suspense consideravelmente.

Paleta de cores dessaturadaLos Angeles dos anos 50Ed chega ao Nite OwlMas o fato é que grande parte da narrativa se passa predominantemente à noite, o que permite ao diretor criar um visual sombrio que remete diretamente ao universo obscuro daqueles personagens. Vestidos normalmente com ternos sóbrios (figurinos de Ruth Myers), os policiais tentam manter a boa imagem perante a população, mas, como em todo bom noir, nem tudo em “Los Angeles – Cidade Proibida” é exatamente o que parece ser. O mérito, neste caso, é também do excelente roteiro que funciona perfeitamente tanto em sua estrutura como no desenvolvimento dos personagens, que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho geral do elenco.

Fisgando a atenção do espectador desde sua eficiente introdução, “Los Angeles” escancara sua eficiência narrativa logo na cena seguinte, quando rapidamente somos apresentados aos personagens Bud, Jack e Ed e, de maneira clara, conhecemos algumas de suas principais características. Obviamente, a fluidez da narrativa se deve também a montagem ágil de Peter Honess, que confere um ritmo empolgante aquela investigação intrigante e imprevisível. No entanto, esta agilidade não impede que Hanson tenha o cuidado de criar um pequeno suspense na apresentação de Lynn, demorando alguns segundos para revelar a excelente maquiagem que transforma Kim Basinger numa sósia de Veronica Lake. As prostitutas que se parecem com atrizes famosas de Hollywood, aliás, garantem um dos raros momentos de alívio cômico através da excelente piada envolvendo Lara Turner (Brenda Bakke).

Universo obscuroTernos sóbriosApresentação de LynnDa mesma forma, Hanson trabalha muito bem alguns temas abordados pelo longa, apoiando-se na ambiguidade dos personagens e de suas atitudes para levantar interessantes questões. Observe, por exemplo, como a corrupção na polícia se torna um problema bem mais denso e complexo quando observamos que os policiais podem agir de maneiras semelhantes em situações diferentes e nos induzir a concordar ou não com seus atos. Se num instante um policial planta provas para justificar a prisão de alguém que é notoriamente culpado, este senso de justiça perde totalmente o sentido quando vemos outros policiais usando o mesmo artifício em benefício próprio. No entanto, a burocracia da justiça pode levar a sensação de impunidade e nos induzir ao erro de achar que algumas atitudes são justificáveis e outras não. No fim das contas, a pergunta é: É possível ser sempre correto?

A princípio, Ed Exley parece pensar que sim. Guiando-se por um senso de justiça que o leva até mesmo a passar por cima do sentimento de camaradagem tão valorizado entre os policiais, Guy Pearce compõe Ed como um personagem determinado a limpar a sujeira do departamento de polícia, o que o leva a subir na carreira na mesma proporção em que ganha inimigos dentro do ambiente de trabalho. As razões para este comportamento encontram base ainda em sua infância, mas Ed se vê obrigado a reavaliar conceitos na medida em que a narrativa avança – e um close em seu rosto após ele finalmente atirar em uns criminosos indica o momento em que ele começa a mudar de comportamento.

Já calejado e distante do sentimento que o levou a ser policial, o cínico Jack Vincennes se aproveita da situação para ganhar projeção, mas lentamente ele também apresenta seu outro lado, numa transição que o ótimo Kevin Spacey demonstra muito bem quando, arrependido, deixa os 50 dólares que recebeu num bar e tenta evitar que um jovem ator saia com um promotor local, mas chega tarde demais e encontra o garoto já assassinado – a expressão de decepção em seu rosto é marcante neste momento.

Momento em que Ed começa a mudarCínico Jack VincennesBud o policial durãoTraumatizado pela morte violenta da mãe, Bud é o policial durão que resolve tudo na base da pancada, mas assim como os outros personagens, ele também não se resume a esta avaliação superficial, demonstrando descontentamento diante desta situação e uma vontade enorme de provar que também é inteligente. Explorando seu porte físico sem se esquecer de seu talento dramático, Russel Crowe chama a atenção pela maneira como equilibra sua atuação entre as reações explosivas e momentos sensíveis como quando, envergonhado, evita o olhar de Ed após um policial informar que alguém tinha batido em Lynn. Curiosamente, é justamente ele quem vive a relação mais sensível de “Los Angeles”, demonstrando interesse pela bela Lynn desde o primeiro momento, o que não o impede de agir irracionalmente quando descobre que ela tinha dormido com Ed. Lynn e Bud tornam-se confidentes e a empatia entre Crowe e Basinger é essencial neste processo.

Fechando os destaques do elenco, James Cromwell vive o inteligente e experiente Capitão Dudley, um profundo conhecedor do ambiente em que está inserido que revela sua outra faceta na surpreendente e impactante morte de Jack, enquanto a voz de Danny DeVito cai muito bem no repórter Sid Hudgens, que funciona também como uma espécie de narrador que, por pertencer ao ambiente diegético, surge de maneira orgânica e evita a artificialidade comum neste tipo de artifício narrativo.

Inteligente e experiente Capitão DudleyRepórter Sid HudgensTensa sequência do interrogatórioOrgânicas também são as reviravoltas eletrizantes de “Los Angeles”, a começar pela tensa sequência do interrogatório dos suspeitos Sugar Ray (Jeremiah Birkett), Ty Jones (Karreem Washington) e Louis (Salim Grant), na qual acompanhamos Bud lentamente perdendo o controle através de suas mãos que pressionam uma cadeira até que ele finalmente exploda e arranque a informação à força dos interrogados. Na medida em que a narrativa avança, os mistérios do coeso roteiro vão se resolvendo e as camadas ocultas dos personagens são reveladas, levando a parcerias aparentemente improváveis entre Ed e Jack e, posteriormente, entre Ed e Bud.

Mas é mesmo a sacada genial envolvendo “Rollo Tomasi” que confirma o excelente trabalho de Hanson e Helgeland, informando muito de maneira econômica e de quebra explicando também a origem da obstinação de Ed pela justiça. Observe atentamente a condução da cena e repare que somente Ed e Jack estão na sala quando ele conta a história da morte do pai. Assim, quando Dudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”, tanto o personagem quanto o espectador sofrem o impacto da revelação (num artifício do roteiro conhecido como pista e recompensa que funciona muito bem aqui), já que estas foram exatamente as últimas palavras de Jack Vincennes. Genial.

Rollo TomasiHistória da morte do paiDudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”Mergulhado nas sombras, o clímax no Victory Motel é sensacional, não apenas por confrontar os personagens com seus demônios mais íntimos como também por entregar ao espectador um tiroteio de tirar o fôlego, no qual podemos notar também o excepcional design de som que nos permite ouvir cada passo, tiro e movimento brusco com clareza. Após ser considerado o herói da noite, Ed afirma ter ciência de sua situação (“Eles me usam e eu os uso”), numa conclusão perfeita e coerente com o personagem. Saber como se comportar naquele meio é essencial para sua sobrevivência. Sem a mesma sagacidade (ou o mesmo estômago), Bud prefere seguir outro caminho. Nas palavras de Lynn: “Alguns homens nasceram para ganhar o mundo, outros para fugirem para o Arizona com uma prostituta”.

E é nesta complexidade dos personagens que reside o maior trunfo de “Los Angeles – Cidade Proibida”, uma obra-prima excepcional que só comprova como nenhum gênero sairá de moda enquanto houver pessoas competentes e inteligentes o bastante para explorá-lo. Afinal, independente do gênero, o que o verdadeiro cinéfilo quer mesmo é assistir um bom filme.

Los Angeles - Cidade Proibida foto 2Texto publicado em 14 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

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3 Respostas to “LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA (1997)”

  1. Ricardo Tenório Rodrigues Says:

    Curtis Hanson até 1997 era considerado um diretor mediano. Tinha uma filmografia bastante irregular, contendo alguns bons filmes como (A Mão que Balança o Berço e Rio Selvagem).
    Mas foi em 1997 com Los Angeles – Cidade Proibida que ele se tornaria um diretor promissor (embora que depois do neo-noir, ele não fez mais nenhum filme notável). E é uma pena que Curtis Hanson nunca mais voltaria a fazer um filme do mesmo quilate.
    Lançado no mesmo ano do megassucesso Titanic, o longa de Hanson perdeu em muitas categorias do Oscar, inclusive de melhor filme e melhor diretor. ganhando apenas em duas categorias melhor roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante, muito pouco para um filme dessa magnitude, e merecia mais prêmios. Infelizmente, O transatlântico mais famoso do mundo retirou várias estatuetas daquele ano. No entanto, Los Angeles – Cidade proibida é superior a Titanic em se tratando de cinema, e não de Marketing. A qualidade é visível em vários aspectos: roteiro, elenco, direção e atuações. Nestes quesitos o filme de Hanson ganha de goleada de Titanic.
    O elenco e as atuações masculinas, citando os três atores principais (Russell Crowe, kevin Speace e Guy Perace) estão soberbos. Lembrando que nenhum até aquele momento tinha feito um grande filme, eram quase rostos desconhecidos do grande público.
    Os Coadjuvates também brilharam: Danny de Vitto, James Cromwell, David Strathairn, destacavam-se em toda vez que apareciam e o elenco secundário desse filme é ótimo.
    Kim Basinger ganhou o Oscar de atriz secundária, gerando muitas controvérsias entre os críticos e públicos. Particularmente, gostei da premiação. Kim Basinger interpretou uma prostituta de luxo, sósia de uma atriz muita famosa de hollywood com muita competência, dosando sensualidade e fragilidade na medida certa. Basinger compôs uma Femme Fatalle maravilhosa e diferente, optando mais pela doçura.
    E vale lembrar da incrível maquiagem que a fez parecer com a atriz Verônica Lake dos anos 40 e ela ficou ainda mais bonita do que já é.
    O Roteiro do filme é outro aspecto de deve ser ressaltado. Uma trama intricada e rocambolesca que nos deixa atordoado no decorrer do filme. Depois da metade da projeção é que as peças vão se encaixando, numa desfecho impressionante que nos deixa boquiabertos.
    O bacana do filme é que em nenhum momento do filme ele é clichê e previsível, como em muitos filmes de cunho policial. O roteiro de Brian Helgeland e Curtis Hanson é extremamente inteligente, fazendo com que o público junte peças do quebra-cabeças, caia em suspeitas, seja investigador, monte as peças do jogo politico que há por trás dos bastidores da policia e dos políticos locais da ensolarada Los Angeles. Tudo culminará num jogo de poder, interesse, corrupção, manobra política… ainda hoje é comum essas práticas na nossa sociedade. Isso mostra o quanto é atual esse clássico policial Neo-Noir.

    Grande Filme que infelizmente não soubemos dar o devido valor na época de seu lançamento, mas que agora teve seu devido reconhecimento.

  2. Cesar Duarte Says:

    Olá Roberto. Esse é um dos filmes que aguardei com ansiedade sua crítica. Parabéns, um grande filme merece uma grande crítica. Esse filme teve o azar de concorrer com o mega-sucesso Titanic. Por isso ele e os demais nesse ano foram ofuscados por Titanic. Porém o tempo foi capaz de corrigir essa tremenda injustiça(mais uma do Oscar). LA Cidade Proibida é infinitamente melhor queTitanic, não há como compará-los. Titanic é um água com açúcar que foi alçado à glória devido a um marketing poderoso, nada além disso. LA é cinema de primeira. Pra mim é um Chinatown melhorado. É a primeira vez que deparo com o termo neo-noir. Durante a projeção do filme ficava me perguntando se estava assistindo a filme noir, sem ter certeza, afinal os elementos desse gênero estavam ali presentes, porém tinha minhas dúvidas. Portanto se não era um noir clássico é, como você muito bem colocou, um noir moderno. Rollo Tomasi foi realmente uma grande sacada, simples e genial. Mais uma vez parabéns pela crítica precisa e elegante. Um abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Obrigado Cesar, fico muito feliz com seu elogio.
      Eu pessoalmente gosto de Titanic, acho até que na época votaria nele (como já escrevi no blog).
      Mas reconheço que LA Cidade Proibida é um filme superior, tanto que minhas notas escancaram isto.
      Um abraço e obrigado pelo comentário.

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