VELOCIDADE MÁXIMA (1994)

(Speed)

 

Videoteca do Beto #108

Dirigido por Jan de Bont.

Elenco: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Dennis Hopper, Jeff Daniels, Joe Morton, Alan Ruck, Glenn Plummer, Richard Lineback, Beth Grant e Hawthorne James.

Roteiro: Graham Yost.

Produção: Mark Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é fácil fazer um bom filme de ação. Não que seja difícil – especialmente com a evolução dos efeitos visuais – criar momentos empolgantes envolvendo veículos em alta velocidade. O problema é conseguir inserir estas seqüências num roteiro que prenda à atenção da platéia mais exigente, com uma história crível ou, pelo menos, que saiba utilizar os clichês do gênero. Felizmente, “Velocidade Máxima” tem êxito nesta tarefa, partindo de uma idéia simples e criativa, que cria uma situação potencialmente tensa. E por envolver um meio de transporte público, toda a ação se torna ainda mais assustadora, pois sabemos que o que vemos na tela poderia acontecer com qualquer um de nós.

Ex-policial de Los Angeles, Howard Payne (Dennis Hopper) instala uma bomba num ônibus, que será acionada quando o veículo alcançar 80 km/h e explodirá caso a velocidade do veículo seja reduzida a menos dos mesmos 80 quilômetros por hora. O policial Jack Traven (Keanu Reeves) é escolhido para entrar no veiculo em movimento e tentar controlar a situação, mas um dos passageiros, sentindo-se ameaçado, saca uma arma e, acidentalmente, acerta o motorista. É então que a passageira Annie (Sandra Bullock) assume a direção enquanto a policia trabalha para tentar desarmar a bomba.

A premissa de “Velocidade Máxima” é excelente e bem aproveitada pelo roteiro de Graham Yost, que cria uma escala crescente de tensão muito eficiente e, o que é melhor, bem conduzida pelo diretor Jan de Bont. Para isto, Yost utiliza artifícios inteligentes, como a presença de um suposto criminoso no ônibus, que se assusta com a presença da polícia e saca uma arma, atingindo o motorista e forçando uma passageira a assumir a direção. Seguindo este raciocínio de pequenos infortúnios que só pioram a situação, “Velocidade Máxima” prende o espectador na cadeira em cada minuto que o ônibus “passeia” pela tela, o que é louvável. Claramente dividida em três atos (elevador, ônibus e metrô), a narrativa consegue ser envolvente em quase todo o tempo. Beneficiado pela montagem dinâmica de John Wright, de Bont consegue criar uma atmosfera tensa sem deixar as cenas confusas, evitando que o espectador se sinta perdido. Sua câmera agitada funciona bem, criando um visual realista que aproxima a platéia da trama, além de, em muitos momentos, ilustrar bem a sensação de alta velocidade pretendida pelo filme.

Também de maneira correta, o diretor de fotografia Andrzej Bartkowiak cria um visual claro, com cenas quase sempre diurnas, o que facilita a compreensão do que se passa na tela, assim como a figurinista Ellen Mirojnick acerta na escolha de roupas simples, do dia-a-dia, que torna a trama mais real. Ainda na ambientação, o excelente design de som colabora bastante, permitindo que o espectador se sinta completamente envolvido, especialmente nas cenas que envolvem o ônibus. Finalmente, seguindo a receita básica dos filmes de ação, a trilha sonora de Mark Mancina é bastante agitada e tenta aumentar a adrenalina. Em muitos casos, soa desnecessária, mas em outros, sublinha bem a cena, como na tensa seqüência de abertura no elevador.

Presente nas melhores cenas do filme, o ônibus só entra em cena aos 30 minutos de projeção, logo após a surpreendente explosão de outro ônibus na rua, que assusta a platéia. A partir deste momento, a narrativa cresce bastante e o melhor de “Velocidade Máxima” entra em cena. Apesar de algumas situações pouco verossímeis, a ação empolga e o longa decola. Ciente disto, Jan de Bont alterna entre planos aéreos e planos subjetivos, nos jogando pra dentro das cenas, por exemplo, quando Traven persegue o ônibus num automóvel em alta velocidade. Aliás, o dono do Jaguar, interpretado por Glenn Plummer, tem uma pequena e hilária participação, que, neste caso, é bem vinda, intercalado bom humor com momentos de alta tensão, uma mistura sempre eficaz no gênero. O diretor acerta ainda ao permitir a morte de uma passageira em determinado momento, o que, além de carregar o clima, tem um efeito surpresa que deixa a platéia ainda mais tensa, pois passamos a acreditar na possibilidade de que novas mortes aconteçam. Neste momento, vale observar como Bullock consegue demonstrar emoção, com um choro convincente que, por contraste, expõe a inexpressividade de Reeves. Por outro lado, Keanu Reeves se sai bem nas cenas que exigem esforço físico, convencendo no papel de “herói”, assim como expõe bem a revolta de Traven com a morte do parceiro Temple (Jeff Daniels).

Reeves e Bullock conseguem ainda criar uma incrível empatia, o que é importante para conquistar a platéia. Carismática, Sandra Bullock está leve no papel e conquista o espectador com seu jeito simultaneamente corajoso e indefeso. Capaz de assumir o volante de um ônibus (o que, numa sociedade machista, é elogiável), Annie é também sensível ao ponto de largar tudo desesperada quando pensa que atropelou um bebê (numa cena, aliás, bem conduzida pelo diretor, que emprega uma câmera lenta para aumentar o suspense). Introduzido de maneira eficiente na narrativa, o vilão Howard Payne surge ameaçador, ao matar um homem a sangue frio e colocar uma bomba num elevador, deixando o espectador ciente desde o início do perigo que ele representa. E apesar de soar caricato em alguns momentos, Dennis Hopper cria um vilão interessante e temível, que se torna ainda mais ameaçador na medida em que o ônibus avança pela cidade.

Ainda que tenha muita tensão, existem pequenos momentos típicos dos filmes de ação que soam falsos em “Velocidade Máxima”. Por exemplo: porque Payne não mata o detetive Temple no elevador quando tem a chance, preferindo atirar em Jack Traven? Seria mais fácil eliminar o primeiro, naquele momento sem chance de defesa, e depois tentar acertar o segundo, não é mesmo? Pra piorar, quando Traven atira em Temple e o amigo cai, o vilão fica a sua mercê, a poucos metros de distancia, mas o policial também hesita em atirar, permitindo a fuga do vilão. E nem mesmo a explosão que encerra a cena é efetiva, pois o espectador imagina que o personagem de Hopper não morreria tão cedo. Por isso, o suspense criado é artificial demais e, felizmente, se encerra na cena seguinte, quando Payne surge olhando para a televisão. E apesar de acertar ao evitar o excesso de diálogos e priorizar a ação, o roteiro apresenta pequenos diálogos superficiais, como aquele entre Traven e Temple, quando eles salvam as pessoas no elevador. “Foi bom pra você?” é a típica pergunta recheada de humor negro que não soa bem naquele momento. Apesar disto, existem raras frases interessantes que criticam a política norte-americana, por exemplo, como quando Annie pergunta se “bombardeamos o país dele” ao falar sobre o vilão – o que é compreensível, já que o que mais interessa aqui é a ação e não os diálogos.

É incrível notar ainda que a polícia de uma cidade como Los Angeles não saiba que uma estrada desativada tem uma falha enorme – aliás, que jeito estranho de construir estrada, mas, tudo bem, não sou especialista no assunto. E apesar do absurdo da situação criada, a falha na estrada gera um momento muito tenso, paralisando o espectador que embarca na aventura, assim como é tensa a seqüência em que Traven tenta desarmar a bomba embaixo do ônibus em movimento. Yost também não consegue evitar clichês, por exemplo, quando um pneu estoura logo após o penúltimo civil sair do ônibus, deixando apenas Annie e Traven para trás. Por outro lado, o roteirista mostra criatividade na solução criada antes, com a gravação de uma fita que engana o vilão e permite a retirada das pessoas do ônibus. Claramente o melhor trecho do filme, o segundo ato se encerra de maneira satisfatória com a saída de Annie e Traven do veículo e o espectador finalmente pode respirar. Ou pelo menos pensa que pode.

Já no terceiro ato, as situações artificiais voltam com força total quando, por exemplo, tudo para de funcionar no metrô, menos a alavanca de aceleração, e, principalmente, quando novamente um trecho inacabado, agora nos trilhos, surge para tentar criar tensão (desta vez, sem resultado, pois o espectador já está anestesiado). Além disso, porque Payne, com uma refém sob controle, iria se arriscar a subir no trem e enfrentar Traven? Um momento de fúria, talvez, por descobrir que o dinheiro que recebeu era falso, mas ainda assim me parece que outras soluções soariam mais eficientes. Sua morte, ao menos, serve para destacar o bom trabalho de efeitos visuais, que torna a cena bem real.

Apesar do terceiro ato irregular e do primeiro apenas correto, toda a trama que envolve o ônibus em alta velocidade serve para transformar “Velocidade Máxima” num ótimo filme de ação, tenso o suficiente para agradar ao espectador. Além disso, a excelente química do casal principal, confirmada no último e divertido diálogo entre eles, cria uma inevitável empatia com a platéia, garantindo uma sensação de bem estar ao final da projeção. Bem estar que não aparece durante quase todo o filme, dando lugar à tensão, o que comprova que o longa cumpre muito bem seu propósito.

Texto publicado em 25 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

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8 Respostas to “VELOCIDADE MÁXIMA (1994)”

  1. cross98 Says:

    Sessão da Tarde 4ever

  2. marcsobruno Says:

    sm

  3. DURO DE MATAR (1988) « Cinema & Debate Says:

    […] som, que torna tudo mais real, além da fotografia sombria de Jan De Bont (que viria a dirigir “Velocidade Máxima”), que aproveita o ambiente fechado e a trama noturna para criar um visual sufocante, refletindo […]

  4. Achilles de Leo Says:

    Uau! Que saudade desse filme! Eu acho que não tinha nem 10 anos quando me viciei. Uma vez gravei em VHS quando passava na TV e assistia, inacreditavelmente, TODOS OS DIAS.

    Sabe aquele sobrinho ou filho que TODO DIA pede pra assistir Ratatouile? Eu fazia isso com VM.

    Valeu, Beto. Você reacendeu o meu tesão por assisti-lo de novo.

    • Roberto Siqueira Says:

      Que legal Achilles, fico feliz!
      Um filme que marcou a minha geração, sem dúvidas.
      Abraço.

  5. Brasil Inteligente Says:

    Lembro que adorei quando assisti pela primeira vez, devia ter 12/13 anos… Meu pai deve ter assistido todas as vezes que ele passou nos Domingos na Globo, e por isso, lembro bem do filme. E por lembrar bem, não consigo gostar dele em nada… O filme é recheado desses momentos absurdos, nos quais questionamos as decisões tomadas pelos personagens e as cenas exageradas (o ônibus praticamente alça vôo na cena da estrada inacabada). Um filme pra quem gosta de ação… Confesso que me surpreendi com a nota que você deu ao filme!

    • Roberto Siqueira Says:

      Pois é Thi, está vendo só? Eu gosto de filmes de ação também. rs
      Eu também me incomodo com os exageros de “Velocidade Máxima”, mas o clima de tensão de toda a trama envolvendo o ônibus me conquista, além da química entre a Sandra Bullock e o Keanu Reeves. E é minha obrigação ser verdadeiro, por isso, admito que gosto de “Speed”, apesar dos problemas apresentados no texto.
      Abraço.

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