ACROSS THE UNIVERSE (2007)

(Across the Universe)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #115

Dirigido por Julie Taymor.

Elenco: Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther, T.V. Carpio, Spencer Liff, Lisa Hogg, Bono, Eddie Izzard, Salma Hayek, Dylan Baker e Logan Marshall-Green.

Roteiro: Dick Clement e Ian La Frenais.

Produção: Matthew Gross, Jennifer Todd e Suzanne Todd.

Across the Universe[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O principal argumento dos detratores dos musicais é afirmar que jamais alguém começaria a cantar no meio da rua de uma hora para outra, como se isto fosse mais irreal do que Gandalf lutar contra o Balrog ou Ethan Hunt descer correndo pela lateral do prédio mais alto do mundo – e se uso dois exemplos de filmes que adoro, é porque entendo que o realismo não pode ser “o critério” para determinar se um filme é bom ou não e que cada obra deve ser fiel ao seu próprio universo. Assim, se num musical convencional já é difícil inserir canções que deem andamento à narrativa de maneira orgânica, pior ainda é criar uma história a partir de músicas já existentes, já que neste caso não são as canções que devem se adaptar à narrativa, e sim o contrário. Por isso, é surpreendentemente agradável como “Across the Universe” consegue nos envolver praticamente o tempo inteiro.

Escrito por Dick Clement e Ian La Frenais, “Across the Universe” utiliza a Guerra do Vietnã (a grande ferida norte-americana) como pano de fundo de sua história de amor convencional, é verdade, mas que nem por isso deixa de ser envolvente. Ainda que exista um pequeno espaço para reflexões sobre a dor causada pela guerra e criticas aos ativistas cada vez mais radicais, o foco da narrativa está mesmo no relacionamento entre o inglês Jude (Jim Sturgess) e a norte-americana Lucy (Evan Rachel Wood), passando também pelo drama do irmão dela Max (Joe Anderson) e o convívio deles com os amigos Prudence (T.V. Carpio), Sadie (Dana Fuchs) e Jo-Jo (Martin Luther).

Conseguindo criar uma história interessante a partir de dezenas de músicas dos Beatles (o que, mesmo considerando o vasto material do lendário grupo britânico, não é algo simples), o roteiro tem ainda o mérito de desenvolver consideravelmente bem seus personagens, criando arcos dramáticos que, mesmo repletos de clichês, conseguem prender a atenção da plateia. Assim, sabemos que Jude viaja para a América em busca do pai e que sua ausência acaba deixando o garoto sem referencia (“Eu não tenho um ideal”, diz), enquanto o trauma provocado pela morte do primeiro namorado e a chamada inesperada do irmão para lutar no Vietnã acabam acendendo a chama ativista dentro de Lucy.

Demonstrando sensibilidade em cenas como aquela em que Lucy se apaixona por Jude, Julie Taymor conduz a narrativa com segurança, pecando ocasionalmente por, ao lado de sua montadora Françoise Bonnot, estender demais algumas sequências, como na participação de Bono Vox como Dr. Robert e na aparição de Mr. Kite (Eddie Izzard), repletas de efeitos visuais competentes, mas que servem pouco à narrativa – o que não ocorre, por exemplo, na visualmente inventiva cena em que o exército convoca os soldados, embalada por “I want you (She’s so heavy)”. Por outro lado, a montadora tem seus méritos por manter as diferentes linhas narrativas sempre interessantes, priorizando o romance entre Jude e Lucy sem deixar cair o nosso interesse pelo caso entre Sadie e Jo-Jo, por exemplo. Além disso, seu trabalho é essencial para que as sequências musicais funcionem, acertando ainda ao criar interessantes transições, como quando o som do helicóptero anuncia que Max chegou ao Vietnã (um bom exemplo de raccord sonoro, aliás).

Inserindo pequenos alívios cômicos que não empolgam, como quando os amigos de Jude e Max se divertem e dormem bêbados no sofá, a diretora também cria soluções visuais interessantes, como quando o jornal com a notícia da explosão de uma bomba ganha vida e se espalha em centenas de pedaços pela nublada praia britânica. A estratégia da fotografia de Bruno Delbonnel, aliás, é justamente criar uma Inglaterra ainda mais cinza, ilustrando visualmente a melancolia do personagem e contrastando diretamente com a iluminada terra do tio Sam, captada com cores mais vibrantes que realçam os dias ensolarados que ele vive por lá, reforçadas também pelos cenários extravagantes concebidos pelo design de produção de Mark Friedberg e pelos figurinos coloridos típicos dos anos 60 de Albert Wolsky.

I want you (She's so heavy)Inglaterra ainda mais cinzaIluminada terra do tio SamSomos apresentados aos personagens centrais através da mesma canção que, executada simultaneamente em dois países diferentes, já estabelece algumas diferenças básicas de comportamento entre eles que serão os pilares do conflito no futuro. Assim, enquanto Lucy dança empolgada uma versão mais lenta de “Hold me tight”, Jude apenas balança o corpo numa versão mais agitada, evidenciando sua apatia que tanto irritaria a futura namorada e, ao mesmo tempo, estabelecendo a clara diferença social entre eles através dos ambientes em que estão inseridos. Da mesma forma, a ótima “Come Together” sublinha o momento em que todas as linhas narrativas se cruzam e reúnem os principais personagens pela primeira vez, numa escolha inteligente que infelizmente se transforma num videoclipe pela maneira como é conduzida pela diretora.

Compondo Lucy de maneira encantadora, Evan Rachel Wood se destaca mais quando não está cantando, ainda que tenha um bom desempenho em algumas canções, assim como Jim Sturgess, que vive Jude com intensidade e carisma na maior parte do tempo – e a empatia entre eles é essencial para o sucesso do romance. Por sua vez, T.V. Carpio pouco aparece como Prudence, a moça que não consegue externar sua atração por garotas, ao passo em que Joe Anderson tem uma atuação apenas regular como Max. Finalmente, Martin Luther confere humanidade ao guitarrista Jo-Jo, enquanto Dana Fuchs chega a soar antipática como a egocêntrica Sadie, mas ainda assim eles conseguem criar empatia na pele do casal que claramente homenageia Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Ainda que algumas delas soem deslocadas e desnecessárias, a maioria das músicas da trilha sonora de Elliot Goldenthal é inserida de maneira criativa na narrativa, surgindo orgânicas em alguns poucos casos como quando Jude canta no alto de um prédio ou durante os shows da banda de Sadie e Jo-Jo. E mesmo em sequências artificiais algumas canções funcionam bem, como quando Jude canta “All my Loving” para a namorada inglesa (Lisa Hogg) ou na tocante sequência dos funerais acompanhados pela linda “Let it be”. Em outros casos, o arranjo no ritmo da canção não é tão bem sucedido musicalmente, como acontece durante a apresentação de Prudence com “I want to hold your hand”, numa sequência em câmera lenta que também lembra um videoclipe – e que, curiosamente, confere um peso dramático interessante à canção ao abordá-la de maneira tão triste.

Mas se por um lado as canções agradam aos nossos ouvidos, por outro fica claro que os atores dublam as próprias vozes em muitas delas, o que é estranho e artificial. Nem por isso, o design de som deixa de ser competente, nos permitindo ouvir as músicas, os diálogos e os sons diegéticos com clareza (como nos tiros e helicópteros que acompanham “Strawberry fields forever”), jamais permitindo que o som das canções se sobreponha aos demais.

Com personagens chamados Lucy, Jude e Prudence, era de se esperar que as músicas contendo seus respectivos nomes fizessem parte da narrativa. E ainda que a sequência de Prudence seja bastante irregular e a esperada “Lucy in the Sky with Diamonds” surja apenas nos créditos finais, a imortal “Hey Jude” é conduzida com tanta sensibilidade por Taymor que, mesmo não sendo orgânica (um personagem começa a cantar nos EUA e os outros continuam na Inglaterra), funciona maravilhosamente bem, graças ao tom melancólico dos momentos que precedem a música que praticamente nos faz implorar por ela e à criatividade apresentada durante sua execução (as crianças cantando “nananana” emocionam).

Casal que homenageia Jimi Hendrix e Janis JoplinImortal Hey JudeDiscussões entre o casalSeguindo uma estrutura narrativa padrão nos romances, “Across the Universe” utiliza o ativismo de Lucy para inserir o conflito que nos levará ao clímax, provocando discussões entre o casal (numa delas, Lucy surge no alto de uma escada e Jude embaixo dela, demonstrando visualmente quem domina psicologicamente aquela relação) e criando uma escala trágica de ações dramáticas que levará Jude a ser deportado e ficar distante da amada, ao mesmo tempo em que Sadie se irrita com Jo-Jo durante um show e logo após Lucy ser presa durante uma manifestação – numa cena, aliás, excessivamente melodramática, conduzida em câmera lenta pela diretora. No entanto, quando o clímax finalmente chega, nem mesmo a previsível reconciliação coletiva e situações batidas como o desencontro do casal conseguem estragar a sequência, que encerra o longa de maneira agradável e com ótimas canções.

Criativo e belo, “Across the Universe” funciona como uma maravilhosa homenagem a uma das maiores bandas da história da música. Mesmo escorregando aqui e ali, sua narrativa simples ganha ares épicos ao conseguir encaixar com precisão muitas das icônicas canções imortalizadas pelos Fab4, emocionando a plateia (e os fãs) de maneira inventiva, inspirada e (acredite!) bem real.

Across the Universe foto 2Texto publicado em 18 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

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