TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996)

(Trainspotting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #146

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Ewan McGregor, Pauline Lynch, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Kelly Macdonald e Peter Mullan.

Roteiro: John Hodge, baseado em livro de Irvine Welsh.

Produção: Andrew Macdonald.

Trainspotting - Sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos grandes problemas de filmes que abordam o mundo das drogas é que, na tentativa de deixar uma mensagem que ajude a afastar as pessoas do vício, eles acabam distanciando-se da realidade e, por consequência, perdem a credibilidade junto àqueles que conhecem o tema. Pois o fato é que para o viciado, o mundo das drogas é alegre, divertido e colorido num primeiro momento e, em alguns casos, pode levar anos para se transformar de fato num pesadelo. Por isso, ao exagerar nas consequências do vício, certos filmes acabam soando falsos e trabalham no sentido contrário ao desejado. Não é o que acontece neste interessante “Trainspotting – Sem Limites”, que evita a panfletagem e o moralismo barato ao trazer o mundo sob o olhar dos viciados, ainda que não fuja à responsabilidade de mostrar as graves consequências do uso constante de heroína para alguns personagens do grupo.

Baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, o roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd). Entre pesadas sessões e idas aos bares, o grupo se mete em diversas confusões, ainda mais quando o estourado Begbie (Robert Carlyle) está por perto. Só que a chegada da garota Diane (Kelly Macdonald) fará com que Renton pense em seguir novos caminhos.

Desde os primeiros instantes de “Trainspotting”, Danny Boyle evidencia que tentará simular a euforia de seus personagens através do visual e do ritmo insano de sua narrativa, empregando constantemente a aceleração da imagem num ritmo histriônico que já deixava claro seu estilo inquieto e exagerado de dirigir. Neste caso, porém, este estilo casa perfeitamente com os personagens e funciona muito bem – algo que não acontece, por exemplo, em outros bons filmes como “127 horas” ou “Quem Quer Ser um Milionário?”. Auxiliado pela montagem rápida e empolgante de Masahiro Hirakubo, o diretor cria momentos memoráveis, como a sequência em que todos (ou quase todos) os amigos transam – na qual, aliás, Boyle faz questão de mostrar órgãos genitais em profusão. Além disso, ele filma as baladas com intensidade, utilizando câmeras subjetivas para nos colocar dentro da pista e, com o auxilio de excelentes músicas, fazer com que o espectador se sinta vivo – vale notar também as curiosas legendas utilizadas para reforçar o que está sendo dito pelos personagens devido ao volume da música ambiente.

Todos os amigos transamDentro da pistaCuriosas legendasA trilha sonora, aliás, é um capitulo a parte. Na tentativa de ilustrar a euforia do grupo, Boyle fez uma verdadeira seleção de músicas empolgantes que vão de clássicos do rock britânico como Iggy Pop até sucessos da cena Techno como Underworld, criando inúmeras sequências memoráveis que casam perfeitamente a canção com as imagens, como a cena de abertura em que os jovens surgem correndo pelas ruas. Por sua vez, a fotografia de Brian Tufano contrasta as cores chamativas das viagens de heroína com as tonalidades frias e acinzentadas tão comuns na Escócia que predominam quando os jovens tentam deixar o vício, refletindo a tristeza deles quando estão distantes da droga.

Cena de aberturaViagens de heroínaJovens tentam deixar o vícioPor outro lado, o ambiente escuro e sombrio em que eles se drogam só ganha vida no apertado espaço em que compram heroína, onde o vermelho ganha destaque e realça o aspecto infernal do local. Repleto de objetos espalhados pelo chão, o ambiente é apenas mais um entre os vários que ilustram a degradação do grupo, contrastando diretamente com os apartamentos limpos e claros que Renton vende em Londres e realçando o bom trabalho de design de produção de Kave Quinn. Finalmente, os figurinos de Rachael Fleming auxiliam em nossa imersão naquele ambiente ao utilizar roupas bem joviais como calças jeans e camisetas básicas.

Ambiente escuro e sombrioAspecto infernalApartamentos limpos e clarosMas se por um lado o trabalho técnico é todo voltado para nos proporcionar a mesma euforia de Renton e seu grupo, por outro os personagens nada simpáticos que permeiam a narrativa reequilibram a balança, fazendo com que o espectador reflita um pouco mais a respeito do que vê. Utilizando a narração de Ewan McGregor por todo o filme, Boyle evidencia desde o início que Renton será o personagem central da trama, injetando adrenalina na plateia enquanto acompanhamos o garoto correndo pela cidade. Por isso, o desempenho de McGregor é essencial para o sucesso do longa e, felizmente, o ator consegue carregar a trama com facilidade. Sendo assim, Boyle se sente a vontade para nos colocar na posição dele em diversos instantes, como quando as alucinações chegam ao auge após seu tratamento, numa cena inspirada em que praticamente todos os personagens surgem no quarto enquanto ele sofre com a forte crise de abstinência.

Garoto correndo pela cidadeAlucinações chegam ao augeForte crise de abstinênciaAs alucinações, aliás, trazem alguns dos melhores momentos de “Trainspotting”, como a viagem de Renton pelo banheiro, que é capaz de revirar qualquer estômago, assim como o café da manhã escatológico de Spud. Entretanto, estes momentos de humor negro abrem espaço para a tragédia na chocante morte do bebê de Lizzy, que ilustra perfeitamente os problemas que o vício pode trazer, chegando a provocar náuseas quando o grupo não encontra outra saída para aliviar a dor que não seja usar mais uma vez a heroína – e, neste aspecto, a boa atuação do restante do elenco colabora bastante para o resultado final. É a degradação total.

Viagem de Renton pelo banheiroCafé da manhã escatológicoChocante morte do bebê de LizzyOscilando entre a euforia e a tristeza, a vida de Renton segue indefinida até que Diane surge em sua vida e, sem querer, lhe dá a dica que pode mudar seu destino. Após deixar os amigos para trás e mudar-se para Londres, ele consegue emprego e escapa ileso dos perigos que o cercavam, mas apenas por pouco tempo. Após seu sucesso, era apenas uma questão de tempo para que seus amigos fossem atrás dele. No entanto, aparentemente Renton estava mesmo mudado e, com inteligência, ele consegue se livrar deles outra vez. Só que a morte de Tommy traz todos de volta a Escócia e, desta reunião, surge uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil que eles não irão desperdiçar. Renton é sugado pelos amigos de volta às drogas e, neste instante, o espectador se questiona se este não seria um caminho sem volta.

Consegue emprego e escapa ilesoReuniãoRenton é sugado de volta às drogasMas Boyle não está preocupado em criar rótulos ou em transformar “Trainspotting” num libelo antidrogas e, desta complicada situação, nasce uma sequência tensa e marcante onde acompanhamos a negociação dos jovens com experientes traficantes e, em seguida, a comemoração no bar onde mal podemos prever o que acontecerá somente por causa da troca de olhares e do diálogo dos personagens. Em seguida, a traição de Renton não nos surpreende tanto quanto o sentimento de satisfação parcial que surge ao vê-lo agindo daquela maneira – e este sentimento é reforçado pelo plano final em que Spud é recompensado. Boyle encerra o longa com uma excelente rima narrativa que remete a abertura, nos jogando pra fora da projeção com um estranho sentimento de euforia que, erroneamente, faz com que muitas pessoas acusem o filme de fazer apologia às drogas.

Negociação dos jovensComemoração no barTraição de RentonNa verdade, Boyle fez um excelente estudo sobre o vício, sem se colocar a favor ou contra ele. Somos nós que devemos tirar nossas conclusões após tudo que vimos – e isto é ótimo.

Trainspotting - Sem Limites foto 2Texto publicado em 13 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

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8 Respostas to “TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996)”

  1. Netflix: algumas dicas, parte I – resenhARtes Says:

    […] Resenhas bem desenvolvidas: obviousmag e cinemaedebate […]

  2. Vanessa Sanches Says:

    o filme é ótimo e o livro é melhor ainda!

  3. ganhar seguidores no twitter Says:

    Muy bueno !

  4. ganhar curtidas no facebook Says:

    Demais!

  5. Videoteca do Beto #134 – Pocahontas, #147 – Fantasia, #148 – Dumbo, #149 – Bambi e #150 – O Rei Leão « Cinema & Debate Says:

    […] do Beto #147, #148, #149 e #150” (a última crítica divulgada da Videoteca era #146 “Trainspotting – Sem Limites”) e desloquei os links das críticas para o menu Videoteca do Beto (lado direto, página […]

  6. Janerson Says:

    Trainspotting é um contraponto sobre esse flagelo conhecido como a drogadicção, pois surpreende ao tratar sobre esses vícios de um modo leve e até divertido sobre jovens irresponsáveis, desempregados e sem perspectivas a não ser se drogar, beber, brigar e, eventualmente, transar. Ocorrem tragédias durante algumas passagens como a morte do bebê de uma amiga e a também a de Tommy que entrou nesse submundo por ser abandonado pela sua namorada e “que sairia quando quisesse”. Até mesmo para vislumbrar uma vida melhor foi necessário que Renton novamente se drogasse “pela última vez” para verificar o grau de pureza da heroína. Enfim, um filme bom e que, com suas desgraças explicitamente mostradas, deixa uma mensagem subliminar: não faça isso em casa… e nem fora.
    Abraço

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Janerson.
      Não acho que o filme se posicione de maneira tão firme. Acho que ele mostra os dois lados e deixa que nós espectadores tomemos nossa decisão.
      Abraço e obrigado pelo comentário.

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