ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994)

(Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles)

 

Videoteca do Beto #102

Dirigido por Neil Jordan.

Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea, Christian Slater, Kirsten Dunst, Thandie Newton, Virginia McCollam, John McConnell, Mike Seelig e Bellina Logan.

Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice.

Produção: David Geffen e Stephen Wooley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A trajetória da lenda dos vampiros no cinema é curiosa. Após um início mórbido, onde eram retratados como seres malditos e relegados ao papel de senhores das trevas (“Nosferatu, uma Sinfonia de Horrores” é um bom exemplo disto), a figura do vampiro foi ganhando “glamour” e versões cada vez mais romantizadas destes seres (especialmente do Conde Drácula) passaram a predominar as produções, o que talvez explique o pensamento generalizado de que ser um vampiro é algo “legal”. E é justamente este pensamento que “Entrevista com o Vampiro” tenta questionar, através da história de dois vampiros que vivem uma espécie de relação de amor e ódio por séculos.

Num apartamento em São Francisco, o repórter Daniel Malloy (Christian Slater) tenta entrevistar o misterioso Louis (Brad Pitt), que afirma ser um vampiro com mais de duzentos anos de vida. Ao contar sua trajetória, ele revela como conheceu Lestat (Tom Cruise), com quem viveu a maior parte do tempo uma relação instável, principalmente após a chegada da pequena Claudia (Kirsten Dunst).

Escrito por Anne Rice, baseado em seu próprio best-seller, “Entrevista com o Vampiro” aborda a lenda dos vampiros sem maquiá-la, de maneira crua e realista, questionando o glamour que eles conquistaram ao longo dos anos e mostrando que ser um vampiro não é algo tão belo e romântico. A estrutura narrativa se divide entre o presente, onde Malloy entrevista Louis num apartamento, e o passado, que surge através de longos flashbacks, que inteligentemente ocupam mais tempo na narrativa, graças ao bom trabalho dos montadores Mick Audsley e Joke van Wijk, que priorizam a linha mais interessante da história. A dupla de montadores acerta ainda ao cobrir muitos anos (na verdade, séculos) da história de Lestat e Louis sem jamais tornar a narrativa cansativa, realizando saltos no tempo de maneira orgânica, como quando Louis retorna ao local onde mordeu Claudia e diz que evitou aquele lugar por 30 anos (em tempo de projeção, passaram-se apenas alguns minutos). Por outro lado, com a saída momentânea de Lestat após um conflito com Claudia, a narrativa enfraquece, já que ele é o grande personagem da trama. Por isso, praticamente toda a seqüência que se passa na Europa – que aborda a atração entre Armand (Antonio Banderas) e Louis – tem um ritmo inferior ao restante do longa.

Como era de se esperar num filme sério sobre vampiros, a fotografia de Philippe Rousselot é bastante obscura, já que a história se passa quase que exclusivamente à noite. Além disso, Rousselot utiliza pouca iluminação, reforçando a atmosfera “dark” que predomina na maior parte do longa, o que permite ao diretor Neil Jordan criar planos marcantes em cemitérios, vielas e mesmo ao ar livre, normalmente somente sob a luz do luar. Este clima sombrio é ampliado pela trilha sonora de Elliot Goldenthal, que utiliza um coral de vozes para cantar musicas eruditas, sempre acompanhado por um piano clássico dos filmes de terror. Goldenthal acerta ainda ao inserir rápidas batidas que simulam um coração pulsando quando Lestat transforma Louis em vampiro, simbolizando o nascimento de um novo ser – e esta estratégia se confirma no “nascimento” de Claudia, quando as batidas voltam a aparecer. Mas, infelizmente, em diversos momentos a trilha apela para altos acordes tentando assustar o espectador, como quando Lestat ressurge pela primeira vez para assombrar Louis e Claudia, o que funciona, mas soa falso e chama demais a atenção, nos tirando do clima do filme.

Empregando elegantes travellings, como aquele que nos leva pela cidade de São Francisco e se encerra no quarto onde Malloy entrevistará Louis, Neil Jordan apresenta uma direção eficiente na maior parte do tempo, mas perde a mão na condução do segundo ato, não conseguindo amenizar a perda de seu melhor personagem. Ainda assim, Jordan cria uma atmosfera coerente com a proposta da narrativa, com seus planos obscuros e o predomínio das sombras em grande parte do longa. Além disso, o diretor acerta na criação de planos emblemáticos, como aquele que destaca a veia da empregada de Louis, ilustrando a maneira como os vampiros vêem as pessoas quando estão famintos. O diretor acerta ainda ao não economizar na violência gráfica – afinal de contas, numa história sobre seres que se alimentam de sangue, o líquido vital vermelho não poderia faltar -, criando um visual assustador, que pode ser exemplificado na primeira “morte” de Lestat, quando Claudia corta sua garganta e o joga no rio, onde também merece destaque a excelente maquiagem de Michele Burke, que transforma Tom Cruise, mas mantém os traços principais que permitem ao espectador reconhecer o personagem. Aliás, auxiliado pelos ótimos efeitos visuais, o trabalho da equipe comandada por Burke é um dos destaques do longa, tornando os vampiros em seres verossímeis e transformando completamente os personagens durante a narrativa. Finalmente, Jordan acerta na escolha das locações, como o assustador lar dos vampiros embaixo do teatro, que revela o excelente trabalho de direção de arte de Malcolm Middleton. Observe, por exemplo, o cuidado com os detalhes, como as velas espalhadas entre as covas que dão um toque especial ao local, criando uma atmosfera coerente com a vida dos vampiros. E até mesmo a peça que precede a aparição das covas é sinistra, terminando com o assassinato de uma bela moça e nos preparando para a apresentação do local.

E já que citei o excepcional trabalho de direção de arte de Middleton, vale destacar também a perfeita recriação de diversas épocas, começando pela New Orleans do final do século XVIII, com as tavernas e carroças que se espalham a beira mar, passando pela gótica Paris do século XIX e chegando à San Francisco dos dias atuais, com os edifícios modernos e os carros que passam em alta velocidade pelas ruas da cidade. Observe ainda a riqueza de detalhes na mansão onde Lestat e Louis iniciam sua vida, por exemplo, durante a cena do jantar, onde os talheres requintados e as taças imponentes revelam muito sobre o passado de riquezas de Louis – o que nos ajuda a compreender a tristeza do personagem, que provavelmente se sentia solitário naquela enorme mansão. Auxiliado ainda pelos figurinos de Sandy Powell, que também mudam de acordo com a época e reconstituem cada período de maneira impecável, “Entrevista com o Vampiro” ambienta o espectador com competência.

Todo este cenário cria a atmosfera perfeita para que o elenco apresente um bom desempenho na pele destas lendárias criaturas. E quem melhor aproveita a oportunidade é Tom Cruise, que tem um excelente desempenho como Lestat, criando um personagem aterrorizante com seu olhar penetrante e sua risada sarcástica. Inteligente e sedutor, Lestat compreende muito bem sua situação (ou pelo menos a aceita e tenta se adaptar), ao contrário de Louis, que luta contra sua nova realidade desde o momento em que é transformado. Aliás, a introdução de Lestat é rápida demais e, por isso, não cria expectativa no espectador, mas pelo menos provoca um efeito surpresa quando ele surge na tela, evidenciando sua sede de sangue. Mas existe algo que incomoda Lestat: a solidão. E somente por precisar de uma companhia é que ele transforma Louis em vampiro. Já o Louis de Brad Pitt se mostra desconfortável desde o seu “nascimento” no cemitério, quando passa a ver o mundo de outra maneira. Pitt demonstra bem o conflito de Louis através da voz contida e do olhar desconfiado de quem tenta evitar seu instinto assassino ao mesmo tempo em que vê sua sede de sangue crescer, o que faz com que tenha momentos explosivos, principalmente quando provocado por Lestat. Lentamente, Louis compreende o que é ser um vampiro e o perigo que isto representa para aqueles que estão a sua volta, o que o leva a incendiar sua mansão e pedir que seus escravos fujam, num plano marcante em que Louis grita que é o diabo com o reflexo das chamas em seus olhos. Juntos, Cruise e Pitt são responsáveis pelos melhores momentos do longa, como o sensacional duelo verbal na cena em que Lestat tenta convencer Louis a terminar de matar uma jovem, quando o experiente vampiro desafia o novato gritando para que ele aceite o fato de que é um assassino. Louis aceita o fato de maneira inusitada, atacando uma criança e, logo em seguida, afirmando que só sentia paz daquela maneira. A criança, interpretada brilhantemente por Kirsten Dunst, se chama Claudia, e é transformada em vampiro por Lestat, passando a integrar o grupo e a desafiar seu mentor. Demonstrando a mesma sede de sangue de Lestat, Claudia se mostra uma ameaça real ao experiente vampiro, especialmente quando começa a questionar o fato de não envelhecer (o que não lhe permitirá ter um corpo de mulher), iniciando uma série de reflexões que a narrativa propõe a respeito dos vampiros – e Dunst se destaca especialmente nestes momentos em que desafia Lestat, mostrando convicção e soando ameaçadora, por exemplo, quando tenta cortar o próprio cabelo para mudar o visual e corta o rosto do vampiro. Completando o elenco, Antonio Banderas tem uma atuação discreta como Armand, o personagem que evidencia o subtexto homossexual de “Entrevista com o Vampiro” através de sua relação com Louis. Apesar de jamais consumarem a atração fisicamente, fica claro que existe uma química entre eles, o que também acontece, de maneira mais sutil, entre Lestat e Louis – na realidade, a relação entre os dois principais personagens do longa é mais explosiva e menos afetiva. E assim como Claudia, Armand também nos faz refletir sobre alguns aspectos da natureza dos vampiros.

E que reflexões são estas? Tome como exemplo o momento em que Armand afirma que tudo que os vampiros conhecem na vida morre um dia, mas eles sempre continuam vivos. “Esta é a ironia”, afirma ele, resumindo uma das mensagens do filme. Afinal, qual é a graça de viver eternamente, se tudo que amamos ou criamos laços vai embora? Existem ainda outros aspectos melancólicos abordados pela narrativa, como o fato deles não poderem ver a luz do dia e a beleza de um nascer ou pôr-do-sol (“Uma maravilha tecnológica me permitiu ver o sol nascer novamente”, diz Louis, se referindo ao cinema). E até mesmo o citado visual obscuro do filme reflete a infelicidade de Louis, que fica evidente quando o repórter Malloy afirma, no final da entrevista, que gostaria de ser igual a ele, de ter o poder dele, e Louis se irrita profundamente, gritando que falhou novamente em sua missão. Felizmente, “Entrevista com o Vampiro” não falha neste aspecto, desmistificando a imagem romantizada dos vampiros. Se o homem sente fascinação pela vida eterna e pelo poder dos vampiros, eles próprios não enxergam desta maneira.

Antes dos créditos finais, Lestat ainda ressurge para encerrar o filme, pois, afinal de contas, é o grande personagem do longa. E o faz de maneira empolgante, deixando o espectador com uma sensação de alegria momentânea, que contraria o clima pesado da narrativa. Mas em grande parte do tempo, “Entrevista com o Vampiro” cumpre bem o seu propósito, com sua atmosfera pesada, seu visual sombrio e uma narrativa interessante, que nos propõe uma nova linha de raciocínio a respeito destes seres que, com o tempo, ganharam um status que contraria sua concepção original.

Texto publicado em 08 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

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8 Respostas to “ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994)”

  1. Courbet Says:

    Caro Roberto,

    Impressionou-me o fato de você ter atribuído “4 estrelas” para o “entrevista com o vampiro” e “3 estrelas” para o “Drácula de Bram Stoker”, do Copolla. Sinceramente, achei o primeiro decepcionante e bastante inferior ao último. “Entrevista” tem seus pontos fortes com a excelente atuação de Tom Cruise, mas, segundo me parece, fica longe de exercer o fascínio que provoca, p.ex., o filme do Copolla. Li sua crítica sobre ele, e gostaria que você repensasse, qndo possível, a questão. Mais do que o clichê “o amor nunca morre”, acho q a mensagem do filme é também “o terror romantiza”. Isto parece-me indiscutivelmente um brilhantismo do Copolla.

    As cenas iniciais no castelo, o “i’m Dracula”, a navalha com sangue sendo saboreada, o primeiro encontro do prince com Mina… Enfim, acho que merece ser revisto.

    Com o abraço,
    C.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Courbet,
      Acho que “Entrevista com o Vampiro” é um filme mais próximo da imagem que eu imagino ser a mais fiel dos vampiros. Gosto muito do filme. Um filme obscuro, triste até.
      Já “Drácula de Bram Stoker” é um filme lindo visualmente, mas um pouco vazio.
      Assisti ao filme recentemente, por isso não creio que uma revisão irá mudar alguma coisa.
      Um abraço e obrigado pelo comentário.

  2. Adriana Says:

    Oi Roberto! Desde que vi “Entrevista com o Vampiro” pensei: Hum…livremente? inspirado no romance de Simone de Beauvoir, “Todos os homens são mortais”, que é muito bom por sinal. Mas numa coisa Lestat tem razão, Louis é boring…Também o “Sweeney Todd” – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, lembra “Os Miseráveis”. Mas digo isso sem crítica, apenas como comentário, afinal quem nunca sampleou que atire a primeira pedra…
    Abraço!

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Adriana,
      Nunca li este romance, mas fiquei interessado agora. Fiquei apenas com uma dúvida, você gostou ou não do filme “Entrevista com o Vampiro”?
      Abraço, fique à vontade para comentar e volte sempre.

    • Adriana Says:

      Gostei sim, mas concordo com vc: 4 estrelas no máximo!

    • Roberto Siqueira Says:

      Que bom Adriana.
      Abraço.

  3. caioviana Says:

    Roberto, entre em contato comigo para dizer como trocamos os links.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Caio,
      Se tiver interesse, podemos inserir os links direto na página inicial de cada blog, ok?
      Abraço.

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