A MÁSCARA DO ZORRO (1998)

(The Mask of Zorro)

Filmes em Geral #91

Dirigido por Martin Campbell.

Elenco: Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Anthony Hopkins, José María de Tavira, Diego Sieres, William Marquez, Stuart Wilson, Tony Amendola, Joaquim de Almeida e L.Q. Jones.

Roteiro: John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley.

Produção: Doug Claybourne e David Foster.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma abordagem leve e divertida, Martin Campbell trouxe de volta às telonas a história do lendário cavaleiro mascarado neste “A Máscara do Zorro”, uma aventura despretensiosa, mas repleta de energia e personagens interessantes, que conta com um bom elenco e ótimas tiradas do roteiro para cumprir seu propósito e, justamente por não se levar muito a sério, nos divertir bastante.

Escrito por John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley (ufa!), “A Máscara do Zorro” tem início quando o mexicano Don Diego de la Vega, o Zorro (Anthony Hopkins), desafia a tirania do espanhol Don Rafael (Stuart Wilson) durante uma execução pública, mas tem sua verdadeira identidade descoberta numa invasão domiciliar que resulta na morte de sua esposa Esperanza (Julieta Rosen). Pra piorar a situação, ele é obrigado a ver o rival levar sua filha recém-nascida Elena (Catherine Zeta-Jones) e vai parar na prisão. Vinte anos mais tarde, ele consegue escapar e encontra o jovem ladrão Alejandro Murrieta (Antonio Banderas), a quem adota como pupilo e treina para ser o novo Zorro.

Desde sua empolgante sequência de abertura, “A Máscara do Zorro” conquista a atenção do espectador, sugando-o pra dentro da história enquanto apresenta seu personagem principal, num espetáculo circense que culmina no lindo plano em que Zorro se despede do publico em seu cavalo negro com o pôr do sol ao fundo. Aliás, o diretor Martin Campbell demonstra um cuidado especial na composição de diversos planos impressionantes, como no “Z” escrito em fogo no terreno próximo à casa de Don Rafael ou na impressionante explosão da mina em El Dorado. Além disso, o diretor conduz com surpreendente sutileza momentos melancólicos como a morte de Esperanza, introduzindo até mesmo interessantes rimas narrativas, como quando Don Diego segura a filha diante da mira das armas dos guardas exatamente como fizera com sua esposa vinte anos atrás ou na sequência final em que Zorro narra a história para o filho da mesma forma que Don Diego havia feito com Elena, saindo-se bem ainda ao inserir brincadeiras sutis, como, por exemplo, quando Don Diego diz para Alejandro que em breve ele terá seu inimigo Love (Matt Letscher) em seu círculo – se referindo ao momento em que poderá se vingar do sujeito – e, algum tempo depois, o jovem atinge o adversário pela primeira vez justamente num duelo em cima de uma mesa redonda de jantar.

Campbell também balanceia muito bem as cenas de ação com momentos bem humorados, o que é sempre uma mistura eficiente em filmes do gênero, divertindo-se em diversos instantes como no golpe que introduz a gangue de Alejandro Murrieta e no treinamento dele. E apesar de não prezar pela verossimilhança, a sequência do roubo do cavalo também é divertida e muito bem coreografada, mostrando a habilidade do diretor na condução das cenas de ação. Contando com a boa montagem de Thom Noble que confere fluidez a narrativa, ele imprime energia aos importantes duelos de espada (como aquele entre Zorro, Don Rafael e Love na mansão), demonstrando habilidade até mesmo quando a cena exige uma abordagem mais sensual, no divertido duelo entre Elena e Zorro em que a dupla Banderas e Jones se sai muito bem. Aliás, as acrobacias de Zorro nas lutas e cavalgadas impressionam, assim como a condução enérgica de Campbell e seu montador, que alternam entre planos gerais, closes e até planos subjetivos que nos colocam na posição do herói.

Da mesma forma, o diretor conta com a fotografia de Phil Meheux para criar um visual obscuro na prisão e no esconderijo do Zorro que contrasta com a casa iluminada em que ele vive e até mesmo com o visual árido e sem vida das cenas em El Dorado, mas jamais carrega demais o lado sombrio, o que é coerente com a abordagem mais leve da narrativa, reforçada pela trilha sonora do ótimo James Horner, que utiliza elementos da música espanhola como as castanholas e o sapateado para embalar as cenas de ação, pontuando também os momentos românticos com belas variações da música tema. Finalmente, se “A Máscara do Zorro” consegue nos ambientar ao tempo e local em que a narrativa se passa, o mérito deve ser dividido com a figurinista Graciela Mazón, responsável pelas roupas típicas das mulheres e pelos uniformes dos homens que se destacam na festa, além é claro do visual clássico do lendário herói que respeita as tradições. Finalmente, basta observar a detalhada decoração da mesa de jantar na mansão de Don Rafael ou a imponente mina em El Dorado – apresentada num impressionante plano geral – para constatar o bom trabalho de direção de arte de Michael Atwell.

Apresentado como um ladrão andarilho que escapa da morte, o Alejandro de Antonio Banderas é um personagem cativante, o que é mérito do ator que, superando suas limitações, confere carisma ao herói. Criando conexão com a plateia através do plano detalhe de um colar que revela sua ligação emocional com o velho Zorro, o personagem rapidamente conquista a simpatia do espectador, também porque Banderas consegue criar boa empatia com Hopkins e estabelece uma excelente química com Zeta-Jones – algo notável na engraçada conversa entre Elena e Zorro no confessionário e na vibrante dança deles numa festa -, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Aliás, a presença impotente e sensual da atriz como Elena também convence desde sua primeira aparição, chamando a atenção sempre que entra em cena – repare, por exemplo, seu olhar hipnotizante no primeiro encontro com Zorro.

Já o normalmente espetacular Anthony Hopkins dá um show na tocante conversa entre Elena e Don Diego, demonstrando a emoção contida diante da filha há tempos perdida que agora se apresenta diante dele sem que ela saiba que está falando com o verdadeiro pai – e novamente Jones não precisa de muitas palavras, indicando através do olhar confuso que Elena sente estar diante de alguém especial em sua vida, algo que, obviamente, encontra reflexo na cena inicial, quando Esperanza destaca a importância da voz do pai para a filha recém-nascida. E se o Don Rafael de Stuart Wilson e o capitão Love de Matt Letscher soam maniqueístas, este pequeno deslize é diluído pela maneira quase caricatural que os atores interpretam seus personagens – e temos até mesmo um “Don” que questiona as ações de Rafael, o que depõe contra o argumento do maniqueísmo. Fechando o elenco, L.Q. Jones rouba a cena nas poucas vezes que surge com seu Jack “três dedos”.

Apesar de construir o clímax com habilidade, Campbell escorrega ao estender demais o confronto final entre os “Zorros” e seus inimigos, tornando o duplo duelo um pouco cansativo. Em todo caso, é inegável que a morte dos vilões com barras de ouro caindo sobre eles é de um simbolismo nada sutil, porém bem divertido. E apesar da estrutura narrativa formulaica, o desfecho tem charme suficiente para agradar.

Aventura leve e despretensiosa, “A Máscara do Zorro” prova que não é necessário fazer uma analise profunda de um herói para realizar um bom filme – ainda que estes representem excelentes oportunidades para abordagens mais sérias. Existem diversas maneiras de se contar uma boa história. Para isso, basta que o filme cumpra aquilo que se propõe a fazer. E isto o longa de Campbell faz muito bem.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

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ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994)

(Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles)

 

Videoteca do Beto #102

Dirigido por Neil Jordan.

Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea, Christian Slater, Kirsten Dunst, Thandie Newton, Virginia McCollam, John McConnell, Mike Seelig e Bellina Logan.

Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice.

Produção: David Geffen e Stephen Wooley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A trajetória da lenda dos vampiros no cinema é curiosa. Após um início mórbido, onde eram retratados como seres malditos e relegados ao papel de senhores das trevas (“Nosferatu, uma Sinfonia de Horrores” é um bom exemplo disto), a figura do vampiro foi ganhando “glamour” e versões cada vez mais romantizadas destes seres (especialmente do Conde Drácula) passaram a predominar as produções, o que talvez explique o pensamento generalizado de que ser um vampiro é algo “legal”. E é justamente este pensamento que “Entrevista com o Vampiro” tenta questionar, através da história de dois vampiros que vivem uma espécie de relação de amor e ódio por séculos.

Num apartamento em São Francisco, o repórter Daniel Malloy (Christian Slater) tenta entrevistar o misterioso Louis (Brad Pitt), que afirma ser um vampiro com mais de duzentos anos de vida. Ao contar sua trajetória, ele revela como conheceu Lestat (Tom Cruise), com quem viveu a maior parte do tempo uma relação instável, principalmente após a chegada da pequena Claudia (Kirsten Dunst).

Escrito por Anne Rice, baseado em seu próprio best-seller, “Entrevista com o Vampiro” aborda a lenda dos vampiros sem maquiá-la, de maneira crua e realista, questionando o glamour que eles conquistaram ao longo dos anos e mostrando que ser um vampiro não é algo tão belo e romântico. A estrutura narrativa se divide entre o presente, onde Malloy entrevista Louis num apartamento, e o passado, que surge através de longos flashbacks, que inteligentemente ocupam mais tempo na narrativa, graças ao bom trabalho dos montadores Mick Audsley e Joke van Wijk, que priorizam a linha mais interessante da história. A dupla de montadores acerta ainda ao cobrir muitos anos (na verdade, séculos) da história de Lestat e Louis sem jamais tornar a narrativa cansativa, realizando saltos no tempo de maneira orgânica, como quando Louis retorna ao local onde mordeu Claudia e diz que evitou aquele lugar por 30 anos (em tempo de projeção, passaram-se apenas alguns minutos). Por outro lado, com a saída momentânea de Lestat após um conflito com Claudia, a narrativa enfraquece, já que ele é o grande personagem da trama. Por isso, praticamente toda a seqüência que se passa na Europa – que aborda a atração entre Armand (Antonio Banderas) e Louis – tem um ritmo inferior ao restante do longa.

Como era de se esperar num filme sério sobre vampiros, a fotografia de Philippe Rousselot é bastante obscura, já que a história se passa quase que exclusivamente à noite. Além disso, Rousselot utiliza pouca iluminação, reforçando a atmosfera “dark” que predomina na maior parte do longa, o que permite ao diretor Neil Jordan criar planos marcantes em cemitérios, vielas e mesmo ao ar livre, normalmente somente sob a luz do luar. Este clima sombrio é ampliado pela trilha sonora de Elliot Goldenthal, que utiliza um coral de vozes para cantar musicas eruditas, sempre acompanhado por um piano clássico dos filmes de terror. Goldenthal acerta ainda ao inserir rápidas batidas que simulam um coração pulsando quando Lestat transforma Louis em vampiro, simbolizando o nascimento de um novo ser – e esta estratégia se confirma no “nascimento” de Claudia, quando as batidas voltam a aparecer. Mas, infelizmente, em diversos momentos a trilha apela para altos acordes tentando assustar o espectador, como quando Lestat ressurge pela primeira vez para assombrar Louis e Claudia, o que funciona, mas soa falso e chama demais a atenção, nos tirando do clima do filme.

Empregando elegantes travellings, como aquele que nos leva pela cidade de São Francisco e se encerra no quarto onde Malloy entrevistará Louis, Neil Jordan apresenta uma direção eficiente na maior parte do tempo, mas perde a mão na condução do segundo ato, não conseguindo amenizar a perda de seu melhor personagem. Ainda assim, Jordan cria uma atmosfera coerente com a proposta da narrativa, com seus planos obscuros e o predomínio das sombras em grande parte do longa. Além disso, o diretor acerta na criação de planos emblemáticos, como aquele que destaca a veia da empregada de Louis, ilustrando a maneira como os vampiros vêem as pessoas quando estão famintos. O diretor acerta ainda ao não economizar na violência gráfica – afinal de contas, numa história sobre seres que se alimentam de sangue, o líquido vital vermelho não poderia faltar -, criando um visual assustador, que pode ser exemplificado na primeira “morte” de Lestat, quando Claudia corta sua garganta e o joga no rio, onde também merece destaque a excelente maquiagem de Michele Burke, que transforma Tom Cruise, mas mantém os traços principais que permitem ao espectador reconhecer o personagem. Aliás, auxiliado pelos ótimos efeitos visuais, o trabalho da equipe comandada por Burke é um dos destaques do longa, tornando os vampiros em seres verossímeis e transformando completamente os personagens durante a narrativa. Finalmente, Jordan acerta na escolha das locações, como o assustador lar dos vampiros embaixo do teatro, que revela o excelente trabalho de direção de arte de Malcolm Middleton. Observe, por exemplo, o cuidado com os detalhes, como as velas espalhadas entre as covas que dão um toque especial ao local, criando uma atmosfera coerente com a vida dos vampiros. E até mesmo a peça que precede a aparição das covas é sinistra, terminando com o assassinato de uma bela moça e nos preparando para a apresentação do local.

E já que citei o excepcional trabalho de direção de arte de Middleton, vale destacar também a perfeita recriação de diversas épocas, começando pela New Orleans do final do século XVIII, com as tavernas e carroças que se espalham a beira mar, passando pela gótica Paris do século XIX e chegando à San Francisco dos dias atuais, com os edifícios modernos e os carros que passam em alta velocidade pelas ruas da cidade. Observe ainda a riqueza de detalhes na mansão onde Lestat e Louis iniciam sua vida, por exemplo, durante a cena do jantar, onde os talheres requintados e as taças imponentes revelam muito sobre o passado de riquezas de Louis – o que nos ajuda a compreender a tristeza do personagem, que provavelmente se sentia solitário naquela enorme mansão. Auxiliado ainda pelos figurinos de Sandy Powell, que também mudam de acordo com a época e reconstituem cada período de maneira impecável, “Entrevista com o Vampiro” ambienta o espectador com competência.

Todo este cenário cria a atmosfera perfeita para que o elenco apresente um bom desempenho na pele destas lendárias criaturas. E quem melhor aproveita a oportunidade é Tom Cruise, que tem um excelente desempenho como Lestat, criando um personagem aterrorizante com seu olhar penetrante e sua risada sarcástica. Inteligente e sedutor, Lestat compreende muito bem sua situação (ou pelo menos a aceita e tenta se adaptar), ao contrário de Louis, que luta contra sua nova realidade desde o momento em que é transformado. Aliás, a introdução de Lestat é rápida demais e, por isso, não cria expectativa no espectador, mas pelo menos provoca um efeito surpresa quando ele surge na tela, evidenciando sua sede de sangue. Mas existe algo que incomoda Lestat: a solidão. E somente por precisar de uma companhia é que ele transforma Louis em vampiro. Já o Louis de Brad Pitt se mostra desconfortável desde o seu “nascimento” no cemitério, quando passa a ver o mundo de outra maneira. Pitt demonstra bem o conflito de Louis através da voz contida e do olhar desconfiado de quem tenta evitar seu instinto assassino ao mesmo tempo em que vê sua sede de sangue crescer, o que faz com que tenha momentos explosivos, principalmente quando provocado por Lestat. Lentamente, Louis compreende o que é ser um vampiro e o perigo que isto representa para aqueles que estão a sua volta, o que o leva a incendiar sua mansão e pedir que seus escravos fujam, num plano marcante em que Louis grita que é o diabo com o reflexo das chamas em seus olhos. Juntos, Cruise e Pitt são responsáveis pelos melhores momentos do longa, como o sensacional duelo verbal na cena em que Lestat tenta convencer Louis a terminar de matar uma jovem, quando o experiente vampiro desafia o novato gritando para que ele aceite o fato de que é um assassino. Louis aceita o fato de maneira inusitada, atacando uma criança e, logo em seguida, afirmando que só sentia paz daquela maneira. A criança, interpretada brilhantemente por Kirsten Dunst, se chama Claudia, e é transformada em vampiro por Lestat, passando a integrar o grupo e a desafiar seu mentor. Demonstrando a mesma sede de sangue de Lestat, Claudia se mostra uma ameaça real ao experiente vampiro, especialmente quando começa a questionar o fato de não envelhecer (o que não lhe permitirá ter um corpo de mulher), iniciando uma série de reflexões que a narrativa propõe a respeito dos vampiros – e Dunst se destaca especialmente nestes momentos em que desafia Lestat, mostrando convicção e soando ameaçadora, por exemplo, quando tenta cortar o próprio cabelo para mudar o visual e corta o rosto do vampiro. Completando o elenco, Antonio Banderas tem uma atuação discreta como Armand, o personagem que evidencia o subtexto homossexual de “Entrevista com o Vampiro” através de sua relação com Louis. Apesar de jamais consumarem a atração fisicamente, fica claro que existe uma química entre eles, o que também acontece, de maneira mais sutil, entre Lestat e Louis – na realidade, a relação entre os dois principais personagens do longa é mais explosiva e menos afetiva. E assim como Claudia, Armand também nos faz refletir sobre alguns aspectos da natureza dos vampiros.

E que reflexões são estas? Tome como exemplo o momento em que Armand afirma que tudo que os vampiros conhecem na vida morre um dia, mas eles sempre continuam vivos. “Esta é a ironia”, afirma ele, resumindo uma das mensagens do filme. Afinal, qual é a graça de viver eternamente, se tudo que amamos ou criamos laços vai embora? Existem ainda outros aspectos melancólicos abordados pela narrativa, como o fato deles não poderem ver a luz do dia e a beleza de um nascer ou pôr-do-sol (“Uma maravilha tecnológica me permitiu ver o sol nascer novamente”, diz Louis, se referindo ao cinema). E até mesmo o citado visual obscuro do filme reflete a infelicidade de Louis, que fica evidente quando o repórter Malloy afirma, no final da entrevista, que gostaria de ser igual a ele, de ter o poder dele, e Louis se irrita profundamente, gritando que falhou novamente em sua missão. Felizmente, “Entrevista com o Vampiro” não falha neste aspecto, desmistificando a imagem romantizada dos vampiros. Se o homem sente fascinação pela vida eterna e pelo poder dos vampiros, eles próprios não enxergam desta maneira.

Antes dos créditos finais, Lestat ainda ressurge para encerrar o filme, pois, afinal de contas, é o grande personagem do longa. E o faz de maneira empolgante, deixando o espectador com uma sensação de alegria momentânea, que contraria o clima pesado da narrativa. Mas em grande parte do tempo, “Entrevista com o Vampiro” cumpre bem o seu propósito, com sua atmosfera pesada, seu visual sombrio e uma narrativa interessante, que nos propõe uma nova linha de raciocínio a respeito destes seres que, com o tempo, ganharam um status que contraria sua concepção original.

Texto publicado em 08 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

FILADÉLFIA (1993)

(Philadelphia)

 

Videoteca do Beto #93

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Joanne Woodward, Jason Robards, Antonio Banderas, Roberta Maxwell, Karen Finley, Mark Sorensen Jr., Jeffrey Williamson, Charles Glenn, Ron Vawter, Anna Deavere Smith, Stephanie Roth, Lisa Talerico, Robert Ridgely e Buzz Kilman.

Roteiro: Ron Nyswaner.

Produção: Jonathan Demme e Edward Saxon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos primeiros filmes de Hollywood a falar abertamente sobre a AIDS, “Filadélfia” emociona não apenas por tratar com extrema sensibilidade desta terrível doença, mas também por abordar com extrema coragem outro tema bastante complicado, que é o preconceito contra os homossexuais. Através da triste história de seu protagonista e, principalmente, da trajetória do advogado que o defende, o longa dirigido por Jonathan Demme nos mostra como este preconceito é desprezível e que todos podemos mudar, desde que estejamos dispostos a isto.

Escrito por Ron Nyswaner, “Filadélfia” nos conta a história do promissor advogado Andrew Beckett (Tom Hanks), que é despedido de um importante escritório da Filadélfia quando seus superiores, especialmente o renomado Charles Wheeler (Jason Robards), descobrem que ele é portador do vírus da AIDS. Inconformado, ele procura o competente advogado Joe Miller (Denzel Washington), que encontra no caso de Andrew um verdadeiro desafio pessoal, sendo obrigado a lutar contra o seu próprio preconceito.

“Filadélfia” veio ao mundo numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e quando poucos filmes tinham coragem de falar abertamente do assunto. A doença era um verdadeiro tabu e todo tipo de boato circulava entre as pessoas, que não se preocupavam em saber exatamente como o vírus era contraído e quais eram as conseqüências que ele trazia, algo que o longa ilustra muito bem, especialmente através do personagem Joe Miller, interpretado por Denzel Washington. Mas, antes disto, a narrativa nos apresenta o advogado Andrew Beckett, que observa atentamente as pessoas ao seu redor enquanto faz exames de rotina – e seu olhar de compaixão por aqueles homens debilitados fisicamente se revelaria uma trágica ironia do destino. Na vida profissional, Andrew vive um momento especial, sendo escolhido para cuidar do caso de um dos mais importantes clientes do escritório comandado por Charles Wheeler. Mas tudo muda quando algumas manchas começam a aparecer em seu corpo, gerando a desconfiança de seus companheiros de trabalho ainda durante as comemorações de sua nova conquista (e a trilha sonora sombria indica o destino cruel do protagonista neste momento).

Sempre buscando debater o preconceito, o diretor Jonathan Demme procura mostrar com naturalidade o convívio entre os homossexuais, como quando Andrew tenta disfarçar as feridas em seu rosto, brincando com seus amigos sem grandes preocupações. Mas, ao mesmo tempo em que humaniza aquele grupo de pessoas, Demme indica, através de um amigo (aquele com a toca na cabeça), que o vírus já estava presente naquele meio, o que traz preocupação a todos quando “Andy” começa a passar mal, num indício claro de que ele poderia estar infectado, reforçado quando ele aparece careca e com o semblante abatido no escritório de Joe. Repare que Demme evita mostrar o momento em que ele descobre ter o vírus da AIDS, preferindo fazer esta revelação de maneira crua e direta numa conversa com Joe, provocando no espectador o mesmo choque do personagem vivido por Washington. Antes disso, o diretor inteligentemente nos mostra Joe atendendo outro cliente que, por contraste, nos revela seu preconceito, já que ele promete resolver um caso claramente indefensável, o que não faria momentos depois ao atender Andrew. Joe é um homem bem sucedido, que tem uma bela família e demonstra ter uma vida estável, como podemos notar num momento de extrema felicidade, quando acompanha o nascimento da filha. Mas, quando ele ouve Andy dizer “eu tenho AIDS”, seu preconceito vem à tona (e o medo que a doença provoca nas pessoas também), fazendo com que ele se afaste imediatamente (repare como Washington olha rapidamente para sua mão, como quem tem medo de contrair a doença pelo toque). Demme evidencia o distanciamento através de um plano afastado, focando em seguida os objetos que Andrew toca, refletindo a preocupação de Joe, que é percebida por Andy, fazendo-o questionar se o parceiro de profissão não quer ajudá-lo por razões pessoais. A resposta positiva evidencia um pensamento comum numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e normalmente era associada aos homossexuais, como fica claro também em sua conversa com a esposa (“Não gosto de homossexuais”) e nos protestos na porta do tribunal da Filadélfia, que dividem as pessoas em dois grupos: os que demonstram solidariedade pela pessoa infectada pelo vírus e os que condenam sua opção sexual. Só que “Filadélfia” faz questão de ressaltar que o vírus da AIDS não se restringe aos homossexuais, através de uma personagem que contraiu o vírus numa transfusão de sangue, e que nem todo homossexual é aidético, ao espalhar personagens perfeitamente saudáveis como o próprio Miguel (Antonio Banderas).

Sofrendo uma visível transformação física, Tom Hanks tem uma atuação maravilhosa (ele perdeu aproximadamente 20 quilos para interpretar Andy nos estágios finais da doença), ganhando a empatia do espectador com seu jeito simpático (repare como ele sempre pergunta sobre a filha de Joe quando o vê) e nos comovendo com sua luta pela vida e por seus direitos – e neste aspecto, o apoio incondicional de sua família “mente aberta” é muito importante. O contraste entre o Andy contente e saudável do início e o homem abatido do final é chocante, e Hanks colabora muito para isto com seu semblante triste e abatido (destaque também para a excelente maquiagem feita no ator). Além disso, desde a primeira cena, quando se enfrentam num tribunal, Hanks e Washington conseguem criar uma empatia vital para o sucesso da narrativa. E se a transformação de Andrew é física, a de Joe é puramente psicológica e Washington demonstra isto muito bem, defendendo com veemência seu cliente, primeiro por causa da lei, depois porque muda sua postura diante do homossexualismo, chegando a freqüentar uma festa gay com o agora amigo Andy. E para isto, ele não mudou sua opção sexual, apenas passou a respeitar uma opção diferente da sua, o que não o impede de ficar irritado quando um gay lhe passa uma cantada numa farmácia. Esta transformação começa a ocorrer quando Joe resolve ajudar Andy numa biblioteca (após se esconder atrás dos livros para que ele não o veja), interrompendo uma constrangedora conversa entre Andy e um funcionário incomodado por sua presença. O desempenho de Washington melhora ainda mais durante o julgamento, onde ele se solta, dando um show de interpretação e conferindo emoção em seus argumentos ao confrontar a irônica (irritante até) advogada que defende o escritório de Wheeler. Aliás, ela consegue irritar até mesmo o controlado Andrew, como podemos notar quando repete seguidas vezes a palavra “fato” e, no segundo plano, Andy olha fixamente pra ela. Fechando o elenco, Antonio Banderas interpreta Miguel, o parceiro de Andrew, e o veterano Jason Robards vive Charles Wheeler, o poderoso dono do escritório de advocacia.

Como grande parte da narrativa se passa dentro de um tribunal, “Filadélfia” poderia se tornar cansativo, mas felizmente Demme emprega elegantes movimentos de câmera no julgamento, nos fazendo passear pelo local com seus travellings ou com um pequeno plano-seqüência que nos leva do banheiro masculino até o meio do tribunal, além de, por exemplo, nos aproximar de Joe quando ele fala perto do juiz sobre o medo que as pessoas têm dos homossexuais através de um zoom, que serve também para agigantá-lo na tela. Além disso, o diretor conta com a montagem de Craig McKay, que insere flashbacks, como quando alguém cita um momento vivido na sauna entre Charles e Andrew, o que confere um ritmo mais interessante a narrativa. O diretor demonstra ainda sensibilidade na criação de planos simbólicos, como o contra-plongèe que diminui os advogados na biblioteca quando eles lêem sobre o que caracteriza o preconceito contra os aidéticos, refletindo o quão pequeno e desprezível é este sentimento, ou nas primeiras cenas do longa, quando somos levados pelas ruas da cidade, embaladas pela linda música tema de Bruce Springsteen “Streets of Philadelphia”, num passeio que faz “Filadélfia” nascer já nostálgico, apresentando uma espécie de despedida do local em que Andy viveu – e que foi o berço do movimento libertário no país. Aliás, a fotografia sem vida de Tak Fujimoto ilustra bem este sentimento, deixando as ruas acinzentadas e tristes. Finalmente, vale destacar os belos planos aéreos da cidade, outro plano-seqüência que nos leva pelos convidados na festa de Andrew e os constantes closes que destacam as feridas na cabeça do protagonista.

Enquanto acompanharmos os argumentos apresentados no julgamento, a mensagem principal de “Filadélfia” é plantada em nossas mentes. E mesmo pessoas que ainda têm preconceito podem começar a repensar o assunto, especialmente após o comovente momento em que Andy pede para Miguel parar de medicá-lo, claramente desistindo do tratamento e preferindo seguir o seu destino, mas não sem antes organizar uma festa, que serve como uma espécie de despedida das pessoas que ama. Mas, quando a festa acaba, Andy sente que o fim se aproxima – algo que Joe percebe nitidamente – e desiste de ensaiar suas falas para o dia seguinte no tribunal, se entregando à música, numa cena tocante, onde Hanks confere muita emoção cantando ópera com sentimento, deixando Joe perplexo por testemunhar um homem que estava se despedindo da vida naquele momento. Washington demonstra muito bem esta sensação, refletindo o instante em que Joe finalmente se deu conta que de fato Andrew estava morrendo. Repare como a iluminação da cena muda durante a performance apaixonada de Andrew, refletida nos tons avermelhados da fotografia de Fujimoto, assim como as sombras que envolvem Joe simbolizam o vazio de seu coração naquele instante. Após este momento intenso, Joe chega em casa e abraça a filha carinhosamente, dizendo que a ama, enquanto a ópera continua presente em sua memória, como bem reflete a trilha sonora. Ele sequer consegue dormir. Finalmente, Joe estava completamente transformado, como fica evidente no hospital, quando demonstra muito carinho pelos familiares de Andrew, incluindo Miguel. No dia seguinte ao turbilhão de emoções, Andy aparece totalmente debilitado no julgamento, tossindo, falando baixo e bastante magro. E enquanto a advogada faz uma série de questionamentos, ele começa a passar mal, algo ilustrado no plano levemente inclinado e na voz distorcida da advogada, caindo no chão e sendo levado ao hospital. O plano seguinte se inicia mostrando sua cadeira vazia no tribunal e, como ele mesmo tinha previsto, Joe ganha a causa, mas Andy não estava lá pra ver.

A despedida de Andrew no hospital é tocante, com o ângulo baixo da câmera de Demme nos colocando praticamente sob o ponto de vista dele enquanto seus familiares passam um por um. E é difícil segurar as lágrimas ao ver aquelas pessoas que parecem pressentir que aquele momento seria o último com seu ente querido. Após sua morte, a cerimônia de despedida, com o vídeo de Andrew criança, também emociona bastante, e o clipe final, embalado pela triste música “Philadelphia”, de Neil Young, encerra este filme sensível e corajoso, que fala abertamente sobre a AIDS e, principalmente, mostra como o preconceito é algo completamente sem sentido e idiota, pois, afinal de contas, independente de nossas opções sexuais, somos todos seres humanos.

“Filadélfia” aborda a AIDS com seriedade, mas também fala sobre o preconceito contra os homossexuais com coragem, ilustrado no personagem de Washington, que muda completamente durante a narrativa, passando a respeitar as pessoas, independente de sua opção sexual. Ele continua heterossexual, obviamente, mas agora respeita quem não tem a mesma opção que ele. Assim como merece respeito este corajoso filme, que ajudou a abrir caminho para discussões relevantes sobre o assunto.

Texto publicado em 30 de Março de 2011 por Roberto Siqueira