DIA DE TREINAMENTO (2001)

(Training Day)

 

Videoteca do Beto #245

Dirigido por Antoine Fuqua.

Elenco: Ethan Hawke, Denzel Washington, Eva Mendes, Scott Glenn, Harris Yulin, Tom Berenger, Raymond J. Barry, Snoop Dogg, Dr. Dre, Nick Chinlund, Peter Greene, Jaime Gomez, Cliff Curtis, Noel Gugliemi, Raymond Cruz, Samantha Esteban, Charlotte Ayanna, Macy Gray, Denzel Whitaker e Terry Crews.

Roteiro: David Ayer.

Produção: Robert F. Newmyer e Jeffrey Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A profissão de policial certamente figura entre as mais difíceis e admiráveis do mundo. Responsáveis por manter a ordem e proteger os cidadãos, estes profissionais são preparados (ou deveriam ser) para enfrentar todo tipo de adversidade, seja em funções de menor risco como no controle do trânsito, seja nas divisões mais complicadas como as que tentam enfrentar o crime organizado. No entanto, a proximidade com o mundo do crime, a falta de treinamentos adequados, os complexos problemas sociais a sua volta e diversos outros fatores podem levar alguns destes profissionais a cruzar uma linha tênue e transformá-los naquilo que eles juraram combater. É precisamente neste dilema que “Dia de Treinamento” baseia boa parte de sua narrativa, apresentando dois personagens complexos, distintos e igualmente interessantes, ainda que aqui não reste dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho quando os créditos preenchem a tela no final.

Escrito por David Ayer, “Dia de Treinamento” acompanha Jake Hoyt (Ethan Hawke), um policial recém promovido a divisão de narcóticos que tem 24 horas para decidir se deseja ficar na equipe liderada por Alonzo Harris (Denzel Washington), um veterano que conhece todos os caminhos do crime organizado em Los Angeles e que tem um impressionante currículo de apreensões. No entanto, na medida em que o dia avança, ele descobre que a diferença entre o crime organizado e a polícia pode muitas vezes ser bem menor do que imaginava.

Partindo de uma premissa promissora, o diretor Antoine Fuqua consegue criar uma narrativa instigante e, auxiliado pela montagem de Conrad Buff, intercala entre travellings, muitos close-ups, câmera lenta e câmera agitada para manter um ritmo dinâmico que nos dá a constante sensação de que algo importante irá acontecer a qualquer momento, mantendo a tensão sem permitir que o espectador relaxe. Além disso, o diretor é hábil em criar um ambiente realista e coerente com o universo em que se passa a narrativa, algo reforçado, por exemplo, pela trilha sonora de Mark Mancina, que oscila entre o rap, a música latina e acordes mais pesados, jogando o espectador pra dentro daquela realidade de maneira competente. Da mesma forma, os figurinos de Michele Michel indicam desde o início a dualidade de Alonzo, que surge vestindo o preto típico dos vilões mesmo sendo vendido inicialmente como o tutor experiente e admirado que guiaria Jake.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Mauro Fiore acompanha a evolução natural do dia com o sol surgindo no horizonte no início, preenchendo boa parte do segundo ato e desaparecendo no fim, o que gradualmente torna o longa mais sufocante e nos prepara para o ato final. Vale citar ainda como o jogo de luzes e sombras cobre parcialmente o rosto de Alonzo quando ele pede para Jake executar um traficante, demonstrando visualmente sua faceta criminosa que naquela altura já estava evidente. Tensa, esta cena é crucial para entender o funcionamento daquele submundo e o diálogo que surge a seguir tem igual importância para compreender o questionável código moral de Alonzo.

Abordando diversos problemas sociais dos Estados Unidos, “Dia de Treinamento” falha pela forma caricata que retrata as comunidades e os latinos que cruzam o caminho de Jake, por exemplo, quando ele é abandonado por Alonzo para ser assassinado, numa cena, aliás, que é conduzida de forma muito realista por Fuqua, mas na qual infelizmente a solução para o conflito soa bastante artificial pela maneira simplista como a garota é convencida pelo tio a contar a verdade sobre a tentativa de estupro. Igualmente, quando o enfurecido Jake parte em busca de Alonzo na “Selva”, a comunidade que havia sido retratada como um dos locais mais perigosos da cidade anteriormente, impressiona negativamente como mesmo com os dois brigando, quebrando diversos objetos e atirando para todo lado, os moradores locais demoram uma eternidade para sair de suas casas. Para piorar, o comportamento destes diante do confronto não soa convincente, confirmando como o terceiro ato é de longe o mais fraco segmento do filme.

Felizmente, o realismo de diversas outras cenas compensa estes deslizes, como quando Alonzo utiliza um mandato falso para fazer uma busca numa casa e é obrigado a fugir dali sob os tiros dos moradores locais ou quando Jake sai em disparada para salvar a garota de um estupro e luta sozinho contra seus agressores. Vale citar ainda os diversos diálogos entre os dois policiais que contrapõem visões muito diferentes de mundo e que provocam boas reflexões.

No entanto, é mesmo nas atuações que “Dia de Treinamento” garante seu sucesso. Demonstrando o desconforto de Jake desde o início em sua casa e na primeira conversa com Alonzo num café, Ethan Hawke consegue a difícil tarefa de encarar de frente a excepcional atuação de Denzel Washington sem jamais soar inferior por estar vivendo um novato e, o que é ainda melhor, ampliar o impacto dela ao expor os reflexos das atitudes do veterano em seu personagem com destreza. Com suas expressões minimalistas, Hawke humaniza o personagem, transmitindo seus medos e dúvidas com precisão e, de quebra, saindo-se muito bem em momentos que exigem mais expressividade, como quando surge chapado após consumir as drogas roubadas pelo parceiro. Aliás, a forma como Hawke nos convence de que Jake será capaz de suportar as provações às quais é submetido é crucial para o sucesso da narrativa.

Ameaçador, descolado e já muito à vontade naquele universo, o Alonzo de Washington é o típico policial corrupto que já sabe todos os caminhos que pode percorrer e, mais do que isso, imagina que sabe até mesmo como lidar com jovens idealistas como Jake, apostando na dureza de seu comportamento e no choque como forma de convencer o jovem a aceitar seus métodos controversos, uma vez que, na visão dele, somente assim é possível vencer o crime organizado – e seus números impressionantes reforçam sua visão, já que por mais questionáveis que sejam, estes métodos levaram-no a prender muitos criminosos poderosos ao longo dos anos. Por outro lado, ele parece não dar a mínima para eventos cotidianos que não possam impulsionar sua carreira, o que o leva a pacientemente acender um cigarro e fumar enquanto Jake se engalfinha com dois criminosos numa rua defendendo uma jovem que estava prestes a ser estuprada. O que mais impressiona, no entanto, é como Alonzo acredita de fato no que diz e na forma que age, como fica explícito na conversa em que explica o conceito dos lobos e ovelhas para Jake ou quando, de forma irônica, pede ao jovem que recolha as provas recolhidas ilegalmente do traficante Blue, vivido pelo icônico Snoop Dogg. Para ele, os fins justificam os meios e aquela era a única forma de sobreviver naquele ambiente. A energia de Washington no papel é contagiante, conquistando o espectador mesmo diante de diversas atitudes reprováveis – e seu sorriso quando Jake utiliza um de seus bordões contra ele chega a ser comovente, evidenciando o quanto acreditava em seus próprios métodos.

Insinuando a corrupção policial logo de cara quando Jake diz para a esposa que ela deveria ver as casas que eles têm, referindo-se aos chefes de divisão da Polícia, “Dia de Treinamento” não hesita em questionar os riscos intrínsecos ao poder concedido a estes profissionais nos Estados Unidos, onde, por exemplo, existe o malfadado excludente de ilicitude proposto recentemente em nosso Brasil, que permite um policial matar em serviço, algo escancarado na citada cena do assassinato de um traficante, minuciosamente planejado por Alonzo. “Só por que temos distintivos é diferente?”, questiona Jake após o crime. A conversa a seguir dentro do carro expõe as visões opostas dos personagens, com Jake transtornado pelo que viu enquanto Alonzo demonstra compreensão pela reação dele e, estrategicamente, elogia o parceiro, numa tentativa de elevar a autoestima do rapaz para ganhar sua empatia e atraí-lo para aquele mundo. Só que Fuqua não deixa margem para interpretações e evidencia que reprova o comportamento de Alonzo, punindo o personagem na conclusão da narrativa e ratificando Jake como herói, o que não deixa de ser decepcionante pela forma ambígua que ambos foram desenvolvidos até ali.

De toda forma, os questionamentos levantados em “Dia de Treinamento” são muito válidos e ainda atuais, sendo aplicáveis não somente nos Estados Unidos, mas em outros países como o Brasil. Como deve agir um policial para sobreviver num ambiente em que está sob constante ameaça e no qual criminosos não hesitarão um segundo sequer antes de tirar-lhe a vida? Por outro lado, até onde este mesmo policial pode ir? Certamente não é aceitável roubar suspeitos e utilizar estes objetos roubados em negociações com informantes, atuar como juiz e não apenas condenar suspeitos como assassiná-los por interesses próprios ou consumir as mesmas drogas que busca retirar das ruas – e é relevante refletir sobre isso numa sociedade que muitas vezes confunde a busca por segurança com sede por vingança. Ao mesmo tempo em que é preciso oferecer proteção aos cidadãos e aos próprios policiais, também é preciso refletir sobre os riscos inerentes ao excesso de poder que por vezes é conferido a eles. Esta é a melhor discussão que o filme de Fuqua pode fomentar e é por isso que o terceiro ato decepciona ao transformar Alonzo num monstro unidimensional e afastá-lo do espectador.

Mesmo com estes deslizes, “Dia de Treinamento” funciona bem como um retrato da corrupção policial e da complexa situação vivida por quem é jogado na guerra ao tráfico, sejam policiais, sejam cidadãos comuns. Sedimentado em duas atuações brilhantes, funciona como bom entretenimento sem que por isso deixe de provocar reflexão, ainda que um terceiro ato melhor trabalhado pudesse elevar sua complexidade temática e narrativa. Imperfeito como Alonzo, num primeiro momento o longa de Antoine Fuqua conquista o espectador da mesma forma magnética com que o veterano policial faz com todos ao seu redor e, posteriormente, nos afasta da mesma maneira como Jake se afasta dele.

“Você quer ir para a cadeia ou ir para casa?”. Jake preferiu ir para casa. Sorte dele.

Texto publicado em 09 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

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CIDADE DOS SONHOS (2001)

(Mulholland Dr.)

 

 

Videoteca do Beto #244

Dirigido por David Lynch.

Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Ann Miller, Lee Grant, Melissa George, Robert Forster, Brent Briscoe, Dan Hedaya, Monty Montgomery, Katharine Towne, Lori Heuring, Billy Ray Cyrus, James Karen, Chad Everett, Geno Silva, Jeanne Bates, Mark Pellegrino, Patrick Fischler e Michael Cooke.

Roteiro: David Lynch.

Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde e Mary Sweeney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Famoso por construir narrativas surrealistas povoadas por personagens bizarros envoltos numa atmosfera sufocante, David Lynch já tinha pavimentado uma carreira de sucesso através de filmes como “O Homem Elefante”, “Veludo Azul” e “Coração Selvagem” quando a obra-prima “Cidade dos Sonhos” chegou aos cinemas. Aclamado pela crítica, o longa ganhou status de cult ao longo dos anos, chegando a liderar a lista dos melhores filmes do século da BBC de Londres e sendo alvo durante anos de minuciosos debates entre cinéfilos na internet em busca de desvendar as pistas deixadas na narrativa para embasar suas interpretações. Ciente disso, Lynch jamais caiu na tentação de explicar maiores detalhes sobre seu filme, deixando aos fãs a deliciosa missão de interpretar tudo aquilo segundo suas próprias visões e experiências.

Como de costume escrito pelo próprio Lynch, “Cidade dos Sonhos” acompanha a trajetória de Betty (Naomi Watts), que deixa o Canadá e parte para Los Angeles em busca de realizar o sonho de ser atriz. Ao chegar na casa de sua tia, ela depara-se com outra jovem garota (Laura Harring) que acaba de sobreviver a um acidente de carro e está totalmente desorientada, incapaz de lembrar o próprio nome. Comovida com a situação, Betty tenta ajudá-la a recordar sua própria história enquanto tenta emplacar na concorrida indústria cinematográfica de Hollywood. Enquanto isso, o diretor de cinema Adam Kesher (Justin Theroux) é coagido pela máfia a contratar a atriz Camilla Rhodes (Melissa George) para estrelar seu próximo filme.

Logo após a pequena introdução que antecede o letreiro da rua Mulholland Drive que inspira o nome original do filme, Lynch mergulha sua câmera em um travesseiro, num movimento chave para que, mais cedo ou mais tarde, o espectador compreenda um pouco melhor o universo onírico para o qual será sugado durante quase toda a projeção. Apoiado em um roteiro bastante complexo que bebe diretamente na fonte noir, “Cidade dos Sonhos” nos transporta pelo pesadelo de uma jovem angustiada pelo que fez e que parece condenada a não mais acordar (aliás, existe alguma “tradução” mais spoiler que essa?). Assim, em diversos instantes nos deparamos com personagens que parecem impotentes, paralisados diante de algo sem saber como reagir, exatamente como nos sentimos nos sonhos. Repare também como logo após o cowboy ordenar que a protagonista acorde, diversos personagens surgem em papéis diferentes do que tínhamos até então, evidenciando uma confusão também comum quando sonhamos. Da mesma forma, as cenas noturnas trazem constantemente os faróis dos carros e as luzes da cidade com intensidade maior que o normal, num uso do flare que reforça a atmosfera onírica pretendida pelo diretor, ampliada pelas misteriosas composições da trilha sonora de Angelo Badalamenti (que faz uma ponta no filme) e pelos momentos surreais como o assassinato de três pessoas num escritório envolvendo um aspirador de pó.

Repleto de diálogos estranhos, como aquele entre Adam e o cowboy (Monty Montgomery) sobre a escolha de uma atriz, o longa é repleto de momentos desconfortáveis para o espectador, tornando a experiência mais inquietante e confirmando que “Cidade dos Sonhos” é muito mais um filme para sentir do que propriamente para entender, ainda que uma coisa não exclua a outra. Apostando em movimentos de câmera cheios de estilo como o travelling pelo letreiro famoso de Hollywood que nos leva a mansão onde Betty encontraria Rita e que nos permite contemplar o local onde se passaria a narrativa, além de realçar a importância da cidade na interpretação daquilo tudo – afinal, estamos falando de uma terra onde as pessoas vão em busca de sonhos –, Lynch utiliza muitas vezes o close-up para realçar as reações dos personagens diante do universo perturbador que cria, repleto de imagens assustadoras como aquelas que acompanham a visita a casa número 17 onde a jovem Diane surge imóvel numa cama ou na sequência fantasmagórica que se passa no clube “Silêncio”, passando ainda pela pesada cena em que Betty se masturba com muito mais dor que prazer, já próximo à conclusão do filme.

Apostando num visual dominado pela noite no primeiro ato, a fotografia de Peter Deming realça o vermelho em diversos instantes (a toalha que cobre Rita e a cor de seu batom, diversas roupas de Rita e de outros personagens como Coco, etc.), o que não apenas simboliza a paixão que motivaria o crime cometido pela protagonista como também reflete o intenso sentimento de culpa dela. E se as cores sem vida do apartamento de Diane refletem seu estado de espírito após descobrirmos a razão de seu sofrimento, os figurinos de Amy Stofsky também ilustram a evolução da personagem durante a narrativa, refletindo a falta de brilho de sua vida no ato final, quando ela abandona de vez a blusa rosa e passa a usar cores opacas. Além disso, repare como Rita surge vestida de preto na cena em que abre a caixa azul e é sugada por ela, num claro simbolismo de sua morte.

Inicialmente imprimindo um ritmo mais lento e contemplativo, Lynch acelera a narrativa progressivamente até que, com o auxílio de sua montadora Mary Sweeney, construa uma sequência final que nos transporta por lugares aparentemente desconexos, mas já conhecidos pelo espectador e que ganham significados completamente diferentes na segunda ou terceira aparição, assim como ocorre com vários diálogos que ganham novos significados quando repetidos em outro contexto, como o teste de Betty para um papel, que começa numa brincadeira da montagem que simula uma discussão entre ela e Rita somente para, segundos depois, revelar que era apenas um ensaio e que torna-se infinitamente mais dramático e pesado quando ela contracena com outro ator em busca de conseguir o papel. Finalmente, vale destacar as diversas transições interessantes como o raccord sonoro que nos leva de um jantar para uma negociação numa mesa de um restaurante através de pratos que quebram.

Aliás, vale destacar como o design de som é vital para o funcionamento da narrativa justamente pela ausência do som, por exemplo, quando acompanhamos Betty andando pela casa da tia e mal conseguimos ouvir seus passos ou quando o diretor traído briga com a esposa e, enquanto ela grita e esbraveja, ele apenas age sem pronunciar palavra alguma. O silêncio, que surge no nome do clube e que é a palavra que encerra a narrativa, preenche boa parte do longa de maneira proposital, o que também remete aos mais terríveis pesadelos, quando por vezes somos incapazes de gritar ou chamar alguém próximo para nos socorrer.

Por tudo isso, “Cidade dos Sonhos” é um filme em que a sensação de estranhamento tem presença constante, fazendo com que o espectador não se sinta como alguém que pertence aquele universo (e como poderia?), o que é amplificado pelas atuações propositalmente exageradas em muitas cenas, especialmente na primeira metade do filme, quando temos reações quase caricatas de personagens como a sinistra senhora Louise (Lee Grant). No entanto, Lynch é sábio o suficiente para não permitir que seus atores passem do ponto e estraguem a experiência que ele pretende nos proporcionar, balanceando estes instantes de maneira eficiente com outros em que o realismo das atuações impressiona, especialmente nos minutos finais da projeção.

Em atuação impactante, Naomi Watts conclui a brutal transição da alegre e entusiasmada Betty para a transtornada e agressiva Diane com muita competência, convencendo em ambos os casos. A atriz transmite com precisão, por exemplo, o deslumbramento de Betty ao chegar em Los Angeles (“Agora estou neste local de sonhos”, diz ela), mostrando-se feliz por estar ali e empolgada com as portas que poderiam se abrir naquela cidade, agindo quase que de maneira infantil em boa parte do tempo, mas crescendo bastante quando necessário, como no citado teste para um desejado papel. Assim, o contraste entre a ingênua Betty e a devastada Diane do ato final chama bastante a atenção, quando Watts encarna a angústia de uma personagem atormentada pelo que fez de maneira visceral.

Com menor intensidade, Laura Harring convence tanto como a mulher que escapa de um acidente e parte em busca da identidade perdida quanto como a atriz bem sucedida que curte a fama e parece ter certo prazer em desprezar a amiga e ex-amante que faz questão de manter próxima, alternando do olhar perdido e distante de Rita para o olhar penetrante e levemente arrogante de Camilla, assim como transita de uma postura corporal assustada e defensiva para uma atitude muito mais confiante e desenvolta, que faz jus a alguém que chegou ao sucesso profissional. Obviamente, não podemos deixar de citar o bom desempenho das duas atrizes ao exalar a tensão sexual latente desde o início entre as personagens até finalmente se concretizar num ato físico quando Betty convida Rita para dormir com ela.

Espalhando pistas por toda o longa, como o close-up no nome dos funcionários do restaurante Winkle’s, Lynch constrói uma narrativa envolvente e totalmente aberta a interpretações, que estimula o espectador a formular suas próprias teorias e alimenta uma vontade quase imediata de rever o filme logo após sua conclusão, o que é sempre um bom sinal. Teria o pesadelo que inicia no travesseiro de fato se encerrado nas palavras do cowboy ou estaríamos diante de um pesadelo sem fim, viajando pela mente perturbada de uma alma condenada? Diane realmente se suicidou ou seria apenas mais um devaneio da mente perturbada da garota? A reviravolta abre diversas possibilidades e permite que cada espectador construa sua própria visão daquele universo, o que geralmente está muito mais relacionado a sua experiência de vida, as suas memorias afetivas e aos estímulos sensoriais que sentiu durante o longa do que a alguma lógica inquestionável que amarre todas as pontas do roteiro. Não é exatamente o que acontece quando tentamos compreender um sonho ao despertar? A minha visão segue a leitura mais comum entre cinéfilos, de que Diane, corroída pelo ciúme, encomenda o assassinato da ex-namorada Camilla após esta anunciar seu casamento com o diretor Adam Kesher numa festa, dorme, tem um pesadelo (que no caso domina boa parte da narrativa e embaralha diversas pessoas e acontecimentos da vida real de Diane), acorda atormentada pela culpa e comete suicídio, mas é claro que esta é apenas uma entre as inúmeras possibilidades de leitura desta obra-prima.

Sendo assim, o espectador não precisa se martirizar caso não consiga encaixar todas as peças do complexo quebra-cabeças e compreender totalmente aquele universo onírico. Nem era isso que Lynch pretendia, aliás. O diretor não é destes que gostam de entregar explicações fáceis e mastigadas, preferindo deixar o espectador livre para permitir-se levar pelas sensações e criar suas próprias interpretações. Nada daquilo precisa obrigatoriamente fazer sentido. O importante é que a experiência vivida represente alguma forma de absorção e aprendizado, ainda que deixe nossas mentes fervilhando, confusas e envolvidas num longo processo de assimilação que geralmente vem acompanhado dele…

O silêncio.

Texto publicado em 03 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Um Sonho de Liberdade (Crítica ilustrada)

Vídeo publicado em 23 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

A VIAGEM DE CHIHIRO (2001)

(Sen to Chihiro no Kamikakushi)

 

 

Videoteca do Beto #243

Dirigido por Hayao Miyazaki.

Elenco: Vozes de Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Yumi Tamai, Mari Natsuki, Bunta Sugawara, Ryunosuke Kamiki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi, Akio Nakamura, Koba Hayashi, Tatsuya Gashuin, Yo Oizumi, Tsunehiko Kamijô, Takehiko Ono, Ken Yasuda, Michiko Yamamoto, Kaori Yamagata, Shirô Saitô, Shigeyuki Totsugi e Yayoi Kazuki.

Roteiro: Hayao Miyazaki.

Produção: Toshio Suzuki.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso de “Princesa Mononoke”, o talentoso diretor japonês Hayao Miyazaki chegou a anunciar sua aposentadoria, tamanho era seu esgotamento físico e mental, mas felizmente ele desistiu da ideia. Ironicamente, seu filme seguinte se tornaria seu maior sucesso comercial, angariando grande bilheteria ao redor do mundo e conquistando prêmios de prestígio internacional como o Oscar de Melhor Animação e o Urso de Ouro em Berlim. Mas tamanho hype em torno do filme se justifica? A resposta é sim. Nos transportando para um universo fantástico repleto de figuras estranhas e imagens belíssimas, “A Viagem de Chihiro” aborda em suas diversas camadas temas muito interessantes como a família, o relacionamento entre os seres humanos e o sempre doloroso processo de amadurecimento de uma criança.

Como de costume em sua carreira, Miyazaki acumula as funções de diretor e roteirista para narrar a história de Chihiro (voz de Rumi Hiiragi), uma garota de 10 anos que muda de cidade com seus pais. Ao se aproximarem da nova casa, eles descobrem um parque aparentemente abandonado, mas a existência de um enorme banquete indica que ainda existia atividade ali. Seus pais então resolvem comer e, ao cair da noite, são transformados em porcos, levando a garota a se aventurar por um mundo desconhecido e, com a ajuda de Haku (voz de Miyu Irino), encontrar uma forma de reverter o ocorrido, mas para isso ela terá de trabalhar na casa de banho de Yubaba (voz de Mari Natsuki) onde deuses vão para relaxar.

Com suas linhas simples e belas no tradicional formado em 2D, “A Viagem de Chihiro” traz todas as características clássicas do Anime, como os olhos grandes que conferem mais expressão aos personagens, misturadas aos elementos fantasiosos que permeiam praticamente toda a carreira de Miyazaki. Hábil em nos provocar simultaneamente desconforto e fascínio, o diretor sabe exatamente onde quer nos levar desde os primeiros planos em que acompanhamos a garota entediada discutindo com os pais a caminho da nova casa. A hesitação da tímida garota antes de acompanha-los quando param o carro e a forma como ela é sempre deixada para trás indicam que aparentemente eles não dão muita atenção à ela, que parece assustada com tamanha mudança. Indícios de solidão? Talvez, mas o fato é que aquele comportamento nos deixa desconfortáveis e isso é crucial para a sequência que virá a seguir.

Assim, quando os pais dela passeiam pelo parque e sentam-se para desfrutar do banquete deixado no balcão do restaurante, as reações de Chihiro rapidamente nos levam a desconfiar que algo estava errado ali e, neste momento, a trilha sonora de Joe Hisaishi indica que algo ruim iria acontecer – e de fato acontece, para desespero da garota, agora largada a própria sorte após a transformação dos pais. O belo visual do parque dá lugar então às imagens assustadoramente fantasmagóricas e aos tons sombrios que chegam com a noite, indicando o caminho que a narrativa seguiria dali em diante e dando início ao festival de personagens sobrenaturais, como fantasmas, bruxas, espíritos divinos e animais que caminham como humanoides, entre outros.

Passamos então a viajar pelos ambientes extremamente bem detalhados e criativos da mente de Miyazaki – e do seu designer de produção Norobu Yoshida – sob a ótica assustada da garota e, assim como ela, sentimos segurança apenas quando Haku surge para ajudá-la a sobreviver naquele mundo bizarro. Misturando ambientes caóticos com outros formados por linhas retas características da arquitetura japonesa, como o quarto onde Chihiro dorme, o diretor nos leva por cenários ameaçadores como a longa escada que Chihiro desce cuidadosamente até cair e provocar um susto no espectador, amplificado pela trilha sonora que sobe o tom neste instante. A fotografia sombria de Atsushi Okui realça a tensão do momento enquanto ela se dirige as caldeiras onde encontrará o enigmático Kamaji (Bunta Sugawara) e o visual seguirá assim até que ela se adapte ao lugar e finalmente tenha a oportunidade de visitar os pais num chiqueiro, quando finalmente temos cores vibrantes através das flores do campo que ela cruza e das luzes do sol que preenchem a tela, ilustrando o sentimento de empolgação da garota por finalmente poder ver onde eles estavam.

Conduzindo a narrativa com tranquilidade e diversos momentos contemplativos, Miyazaki e seu montador Takeshi Seyama também sabem a hora de acelerar e de provocar medo, criando uma verdadeira obra-prima do terror infantil que funciona também para adultos, ainda que fugindo das convenções do cinema ocidental. Assim, não são poucos os momentos que causam desconforto. Seja pelos cenários assustadores, pelas pessoas transformadas em animais, pelas cabeças que andam sozinhas ou pelo bebê gigante, a sensação que temos é de estar viajando por um universo completamente desconhecido. Seria tudo fruto da imaginação de Chihiro ou de fato ela foi transportada para um exótico plano espiritual como indica o título em inglês e o laço em seu cabelo no final? Não sabemos e nem precisamos saber, pois neste caso o mais importante é a jornada que esta fábula nos proporciona.

Existem diversas camadas de apreciação em “A Viagem de Chihiro”, que funciona tanto como uma aventura sombria quanto como uma narrativa repleta de reflexões interessantes. Não são poucos os momentos em que Miyazaki questiona, por exemplo, a nossa cultura consumista, como quando os pais de Chihiro se entregam ao banquete disponível na cidade abandonada e são punidos por isso ou quando os funcionários da casa de banho se aglomeram e oferecem comida em troca do ouro de Sem Rosto (voz de Akio Nakamura). A busca por aceitação é outro tema muito presente no longa, evidenciado pelo próprio Sem Rosto que busca desesperadamente chamar a atenção de Chihiro enquanto ela, ao contrário de tantos outros, não se vende ao seu ouro. Da mesma forma, o bebê gigante de Yubaba queria apenas a atenção da mãe, que parece entender que amor e carinho podem ser substituídos por presentes e luxo, assim como a jornada de Chihiro em busca dos pais não se restringe ao plano fantasioso, já que no mundo real nós sabemos que a relação entre eles era distante.

E já que mencionei Yubaba, é importante ressaltar como apesar do visual assustador dela e de sua irmã Zeniba (voz de Mari Natsuki), Miyazaki evita vilanizar as personagens e acaba fazendo com que o espectador compreenda o universo delas e suas motivações, assim como Kamaji e seus vários braços que remetem a uma aranha provocam mais estranheza do que medo, servindo também para ilustrar como ele era explorado por ser o mais dedicado funcionário do local. Existem ainda muitos momentos escatológicos, como quando Sem Rosto vomita os seres que havia engolido ou quando o nojento espírito do mau cheiro entra na casa de banho – repare como a fotografia amplia nossa sensação de angústia com seus tons marrons para então dar lugar ao verde das ervas, que não apenas simboliza a esperança agora que o rio estava limpo, como confere uma sensação de alívio ao espectador ao ver toda aquela sujeira ir embora. A mensagem contra a destruição causada pela poluição dos rios é assimilada com facilidade por crianças e adultos nesta passagem que liberta o espírito do rio (voz de Koba Hayashi), reforçando a visão ambientalista tão presente nos filmes de Miyazaki.

As belas imagens durante a viagem de trem até a casa de Zeniba são marcadas pelo silêncio dos personagens que nos permite contemplar o visual e assimilar o que assistimos até então. Estas pequenas pausas eram muito valorizadas pelo diretor, que entendia que o espectador, assim como os personagens, precisava de tempo para respirar (se quiser saber mais sobre o tema, sugiro o excepcional vídeo de Max Valarezo no canal “Entre Planos”). Instantes depois, Haku, que havia adotado a forma de um dragão com rosto de cachorro que surge do mar, volta para ajudar Chihiro e protagonizar a linda cena do voo – outra marca da carreira de Miyazaki –, que traz uma importante revelação sobre a conexão entre eles no passado. A aceitação procurada por ambos finalmente se concretizava e Chihiro estava pronta para deixar aquele mundo e voltar ao seu lar.

Existe ainda uma teoria que defende um subtexto muito mais pesado em “A Viagem de Chihiro”, que seria facilmente identificado pelos japoneses e não tanto por pessoas da cultura ocidental. Segundo esta leitura, o letreiro da casa de banho (que significa “água quente”) remete aos locais onde jovens japonesas ajudavam nos banhos dos homens e também se prostituíam durante o período Edo da história do Japão. Da mesma forma, as mulheres que dirigiam estes locais eram chamadas de Yubaba (algo como “velha da água quente”), exatamente como a personagem que comanda a casa de banho no filme. Some a isso o fato de Chihiro mudar de nome quando chega lá, a forma como Yubaba pede para que ela atenda bem seu cliente e a insistência de Sem Rosto em oferecer dinheiro à ela e temos uma interpretação incrivelmente mais densa da fábula de Miyazaki, que inclusive teria confirmado em entrevistas que de fato era uma crítica à indústria do sexo e a prostituição infantil tão forte na cultura japonesa (procurei estas entrevistas e não encontrei, mas fica o registro do que li e ouvi em fontes confiáveis como o Podcast do Cinema em Cena alguns anos atrás).

Através de imagens poderosas e seres fascinantes, “A Viagem de Chihiro” nos transporta pela jornada de amadurecimento de uma garota tímida e assustada diante de uma fase de transição em sua vida de maneira mágica, nos permitindo desfrutar de um mundo fantástico e de quebra provocando reflexões. Passando ainda por críticas ao consumismo exagerado e a tradicional defesa do meio ambiente que caracteriza sua obra, Miyazaki justificava brilhantemente o retorno da aposentadoria e construía uma ponte com o ocidente que permitiria a muitos cinéfilos terem acesso à sua maravilhosa obra – o que não deixa de ser mais uma jornada bem sucedida de aceitação.

Texto publicado em 12 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

 

VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Vingadores: Ultimato

Vídeo publicado em 04 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

X-MEN: O FILME (2000)

(X-Men)

 

Videoteca do Beto #242

Dirigido por Bryan Singer.

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shawn Ashmore, Shawn Roberts e Aron Tager.

Roteiro: David Hayter.

Produção: Lauren Shuler Donner e Ralph Winter.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É verdade que o cinema já tinha exportado dos quadrinhos para a telona a história de personagens como o Superman ou o Batman quando “X-Men: O Filme” foi lançado, ainda na virada do século, mas o fato é que o longa dirigido por Bryan Singer representa um marco na história dos filmes baseados em HQ’s. Até então, a relação entre filmes e HQ’s era marcada por altos e baixos, atingindo o fundo do poço no terrível “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, que quase sepultou as chances dos grandes estúdios voltarem seus olhos para personagens dos quadrinhos novamente. Foram precisos 3 anos para que um grande estúdio abrisse as portas outra vez para uma adaptação. Felizmente, o excelente trabalho de Singer não apenas restaurou a imagem arranhada das adaptações de HQ’s diante da crítica e do público como ainda marcou o início de uma era de enorme sucesso para filmes do gênero que dura até hoje.

Escrito por David Hayter, “X-Men: O Filme” tem início quando um grupo de mutantes se vê ameaçado pelo projeto de lei do senador conservador Kelly (Bruce Davison) que, caso aprovado, obrigaria todos a revelarem suas identidades. Liderados pelo professor Xavier (Patrick Stewart), parte deles busca pacificamente manter sua dignidade diante de uma sociedade que tem enorme dificuldade em aceitá-los, supostamente por conta de seus poderes especiais e os riscos que eles poderiam representar. Outra parte, liderada por Magneto (Ian McKellen), entende que a única forma de sobreviver é através do confronto com os seres humanos, o que leva o primeiro grupo a defender os mesmos que tanto preconceito demonstram por eles.

Investindo mais tempo nos dilemas dos personagens do que nas cenas de ação em si, Singer e seus montadores Steven Rosenblum, Kevin Stitt e John Wright acertam ao focar naquilo que o longa realmente traz como diferencial, explorando questões políticas e sociais universais como a perseguição as minorias por uma maioria autoritária e influente – substitua os mutantes por judeus, negros, gays ou mulheres e a discussão será a mesma. Ao inserir um subtexto político contemporâneo, “X-Men: O Filme” consegue não apenas a empatia de muitos espectadores como deixa claro que a abordagem será bem diferente do que era usual em filmes baseados em HQ’s, demonstrando ambição temática sem por isso deixar de funcionar como filme de ação.

Esta opção fica clara já nos minutos iniciais quando acompanhamos a traumática infância de Magneto num campo de concentração nazista, numa sequência que torna-se ainda mais pesada pela escolha da paleta acinzentada da fotografia de Newton Thomas Sigel, que contrasta com as cores mais quentes que dominarão o filme posteriormente. Em seguida, somos apresentados aos temas centrais da narrativa, como o preconceito gerado pelo medo do que é diferente, a intolerância, os temores da raça humana diante dos poderes dos mutantes e os dilemas dos próprios mutantes, que temem serem segregados por conta de seu DNA evoluído. Pois sim, “X-Men: O Filme” claramente trata o conceito de mutação como uma evolução da espécie através de frases como “Nós somos o futuro”, ao mesmo tempo que escancara sua crítica ao preconceito em frases como “Não somos todos assim” ou diálogos entre os próprios mutantes como:

– “Você odeia os humanos?”

– “Sim.”

– “Por que?”

– “Acho que tenho medo deles.”

É interessante notar também como os poderes dos mutantes são apresentados não como algo divertido, mas como um fardo que traz dilemas para muitos deles. Assim, ao contrário de muitos filmes de super-heróis em que simplesmente acompanhamos os personagens utilizando seus poderes para vencer a clássica luta entre o bem e o mal, aqui o que temos são reflexões sobre como de fato seria caso existissem seres tão poderosos em nosso meio e como eles próprios se sentiriam diante de tanto poder e da desconfiança dos seres humanos em relação a isso.

A apresentação do universo dos X-Men e dos personagens em si também é muito bem conduzida pelo diretor, que não precisa de muitos minutos para estabelecer questões importantes como a incapacidade de Vampira (Anna Paquin, muito bem por sinal) de ter contato físico e o efeito psicológico que isso gera nela, além de trabalhar bem a expectativa dos fãs em momentos como a apresentação de Wolverine (Hugh Jackman), que surge inicialmente de costas, para somente depois demonstrar sua força através da expressão raivosa, do olhar compenetrado e, claro, da potência de seus golpes – e Jackman se sai muito bem na tarefa de encarnar um dos mais icônicos ex-humanos. A lamentar, apenas a forma infantil como ele e Ciclope (James Marsden) passam o tempo todo se alfinetando.

Outros mutantes não demoram a surgir e, de maneira eficiente e econômica, Singer introduz um a um na narrativa, estabelecendo rapidamente a divisão entre os que buscam conviver pacificamente com os humanos e os que buscam o conflito, numa abordagem unidimensional que, acredito eu, segue a tradição dos quadrinhos (e aqui deixo claro que não sou grande conhecedor de HQ’s), mas que não prejudica o desenvolvimento dos personagens centrais. Um dos grandes méritos, aliás, reside justamente no desenvolvimento de um vilão que não apenas tem um passado trágico como ainda apresenta motivações bastante plausíveis. Afinal de contas, como podemos julgar o temor de alguém que já sofreu na pele os horrores da segregação racial? Assim, Ian McKellen compõe um personagem que rivaliza em inteligência com o centrado professor Xavier vivido com serenidade por Patrick Stewart, ganhando o respeito do espectador e de quebra protagonizando uma das cenas mais emblemáticas do longa, quando controla os carros e armas da polícia e demonstra todo seu poder.

Com tantos personagens interessantes e um subtexto dramático mais profundo, “X-Men: O Filme” nem precisaria, mas até que funciona bem nas sequências de ação, ainda que não traga lutas tão bem coreografadas e que seus efeitos visuais hoje soem datados, com exceção daqueles que demonstram como funciona o localizador cerebral de Xavier. Datada também é a trilha sonora de Michael Kamen, com notas rápidas que destoam da composição principal em boa parte do tempo. Por sua vez, o design de produção de John Myhre e os figurinos de Louise Mingenbach conseguem dar vida aquele universo, apesar do exagero no aspecto visual de personagens como Dentes-de-Sabre (Tyler Mane), Groxo (Ray Park) e principalmente Mística (Rebecca Romijn). Vale destacar ainda a empolgante escola dos mutantes administrada pelo professor Xavier e explorada com calma por Singer, permitindo ao espectador se familiarizar com os personagens e acompanhar o interessante processo de aprendizagem deles.

Encerrando a narrativa com um simbólico jogo de xadrez entre os dois amigos e rivais Xavier e Magneto, “X-Men: O Filme” cumpre muito bem a missão de estabelecer um universo que serviria como base para os próximos filmes da série sem por isso deixar de amarrar suas pontas e ter uma conclusão satisfatória para sua própria narrativa. Mais do que isso, conseguiu resgatar a confiança de Hollywood num gênero até então subestimado, elevando o patamar das produções sobre super-heróis e estabelecendo um padrão que seria seguido desde então. Os inúmeros grandes filmes que surgiram nestas quase duas décadas seguintes devem muito a Wolverine e companhia.

Texto publicado em 01 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (2019)

(How to Train Your Dragon: The Hidden World)

 

Lançamentos #1

Dirigido por Dean DeBlois.

Elenco: Vozes de Cate Blanchett, T.J. Miller, Kristen Wiig, Kit Harington, Jonah Hill, Jay Baruchel, America Ferrera, Djimon Hounsou, Christopher Mintz-Plasse, F. Murray Abraham, Craig Ferguson e AJ Kane.

Roteiro: Dean DeBlois.

Produção: Bonnie Arnold e Brad Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quase uma década após o lançamento de “Como treinar o seu Dragão”, longa responsável por elevar a Dreamworks a outro patamar em termos de ambição narrativa, finalmente chegamos a conclusão da trilogia que acompanha a amizade entre um garoto e seu dragão de estimação. E se não atinge o nível de excelência do primeiro filme, “Como treinar o seu Dragão 3” cumpre bem seu papel e encerra dignamente a trajetória dos personagens, colocando um ponto final naquele ciclo sem impedir que novos filmes surjam futuramente e garantam mais alguns milhões de dólares para o estúdio.

Mais uma vez escrito pelo próprio Dean DeBlois, o roteiro nos leva de volta ao vilarejo onde dragões e humanos convivem em harmonia, conforme sonhado por Soluço (voz de Jay Baruchel). No entanto, o agora líder de Berk decide ir em busca do mundo secreto citado por seu pai, enquanto Banguela conhece uma companheira de espécie que recebe o nome de Fúria da Luz. Só que o caçador de dragões Grimmel (voz de F. Murray Abraham) surge para estragar os planos da dupla e obriga ambos a tomares decisões complexas em busca da salvação de suas espécies.

Seguindo o padrão estético dos outros filmes e, o que é melhor, demonstrando evolução, “Como treinar o seu Dragão 3” é um deleite visual, a começar pela direção de fotografia de Gil Zimmerman que além de dar vida aos cenários imaginados pelo excelente design de produção de Pierre-Olivier Vincent, ainda tem função narrativa ao, por exemplo, contrastar as cores sombrias que predominam as cenas envolvendo os vilões com o visual colorido e agradável das cenas que envolvem os vikings, o que reforça a sensação de bem estar e a empatia do espectador com os personagens. Além disso, o capricho da animação nos presenteia com momentos visualmente belíssimos como quando somos apresentados a ilha que serve de abrigo para a nova Berk ou a arrebatadora caverna abaixo de uma cascata que nos leva ao deslumbrante mundo secreto do subtítulo onde vivem os dragões.

Este capricho é perceptível também nos pequenos detalhes como a barba por fazer do Soluço e os movimentos naturais dos personagens e do próprio Fúria da Noite, que em diversos momentos remetem a gestos de cães e gatos, ganhando a simpatia do público infantil ao fazê-lo parecer um animal domesticado. Observe também como durante o encontro dos dragões apaixonados, DeBlois destaca os olhos de ambos, reforçando a empatia do público e demonstrando que aprendeu a lição que Spielberg já tinha ensinado em “E.T.”. A sequência do namoro, aliás, diverte com gags engraçadinhas que colocam o poderoso Fúria da Noite na posição de bobo apaixonado que não sabe o que fazer para conquistar a amada que domina completamente as ações, o que torna o personagem vulnerável e ainda mais interessante, em especial se considerarmos que momentos depois ele seria reverenciado como o rei dos dragões, em outra bela cena.

Reforçando a aura épica pretendida pelos realizadores desde o primeiro filme, a trilha sonora de John Powell sublinha os momentos grandiosos do longa, como quando Soluço fala sobre o sonho de encontrar o mundo secreto, enquanto o design de som se destaca em cenas como o namoro dos dragões, quando estes cruzam nuvens carregadas e mergulham nas águas para finalmente consolidar a relação, algo indicado pelos trovões que transmitem a tensão natural pré-conquista. O relacionamento dos casais, aliás, é outro ponto positivo de “Como treinar o seu Dragão 3”. Tanto Soluço e Astrid (voz de America Ferrera) quanto o casal de dragões demonstram entrosamento e agradam, assim como boa parte dos personagens coadjuvantes que continuam interessantes e cumprem bem seu papel, funcionando ainda como alívio cômico com piadas que funcionam razoavelmente bem na maior parte do tempo, como a rima narrativa com o primeiro filme (“Tem mesmo um plano?”) ou a minha favorita em que um personagem afirma que o mundo é redondo, provocando risos de seus colegas – e cutucando a bobagem contemporânea dos terraplanistas.

Letal diante dos dragões, como fica evidente na cena em que vislumbramos pela primeira vez com clareza a Fúria da Luz, Grimmel é mencionado como uma ameaça e já na cena seguinte aparece em Berk e ataca os vikings, o que prejudica um pouco a construção do personagem e reduz o impacto que sua aparição no vilarejo poderia causar. Vivendo uma história distinta de Soluço ao tomar uma decisão contrária a dele no passado diante de um Fúria da Noite, o vilão inicialmente parece mais ameaçador do que é de fato, ainda que tenha bons momentos como quando liberta uma prisioneira, apenas para segui-la e encontrar Berk – infelizmente, sua real intenção é revelada de maneira nada sutil.

Sutis, no entanto, são os flashbacks que, se por um lado exploram o velho clichê da conversa entre pai e filho diante do horizonte, por outro funcionam ao reforçar a nostalgia que domina o capítulo derradeiro da trilogia e trazem ainda momentos elegantes como a transição da conversa entre eles para o momento em que Soluço admira a cidade de Berk repleta de dragões. A propósito, a montagem de John K. Carr merece destaque por saltar bem entre as diferentes linhas narrativas que envolvem o namoro dos dragões, a busca pelo mundo secreto, a jornada de Soluço rumo a liderança de Berk e a perseguição de Grimmel sem jamais tornar o longa confuso.

Reafirmando o amadurecimento da própria Dreamworks, a temática mais adulta completa a jornada de Soluço rumo a maturidade lidando com questões importantes como a liderança de seu povo, o casamento e o futuro de sua amizade com Banguela e é precisamente neste aspecto que reside boa parte do sucesso da trilogia, pois muitos fãs se identificam com os dilemas do protagonista justamente por estarem em fase similar na vida, assim como ocorria no primeiro filme lançado há nove anos. A evolução de Soluço é também a evolução deles como seres humanos, o que torna a identificação com o personagem inevitável.

O ato final tem início logo após a solução do conflito sentimental dos personagens e a decisão de separarem-se, mas a batalha, apesar de muito bem coreografada, tem solução fácil demais, jamais levando o espectador a temer de fato pelos personagens, trazendo momentos até mesmo embaraçosos como quando Banguela se solta sozinho do nada e ataca Grimmel. Ainda assim, por alguns instantes “Como treinar o seu Dragão 3” ensaia um final trágico que teria um peso dramático infinitamente maior e bem acima do tom adotado pela trilogia até então – e que parecia ser construído durante a narrativa através de frases como “Um dia você irá entrar numa luta que não poderá vencer”. Seria, no entanto, um drama excessivo.

Chegamos então ao tocante momento da emancipação do Fúria da Noite e a inevitável separação dos amigos, que traz reflexões muito interessantes sobre o conceito de amizade e até mesmo sobre o sentimento de posse, ensinando como o desapego e a preocupação genuína com a felicidade do outro podem ser recompensadores. Pena que, assim como o casamento de Soluço e Astrid, a cena do reencontro dele com o Fúria da Noite soe desnecessária e feita apenas para aliviar o tom dramático da separação ocorrida instantes antes, mas nada que prejudique demais o belo trabalho feito até ali.

Flertando com um final bem mais pesado dramaticamente, “Como treinar o seu Dragão 3” encerra bem uma trilogia coesa, visualmente belíssima e que traz uma convincente jornada de amadurecimento de seu herói. Pois o fato é que a amizade verdadeira seguirá viva em nossas memórias e em nossos corações independente dos caminhos que a vida nos leve. Afinal de contas, a separação física não pode apagar os momentos que compartilhamos com seres que por um curto ou longo período tanto amamos e tão importantes foram em nossas vidas.

Texto publicado em 27 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Como treinar o seu Dragão 3

Vídeo publicado em 06 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

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Queridos leitores,

Chegou a hora de finalmente darmos passos maiores. Estreia hoje nosso canal no YouTube e logo no vídeo inicial anunciamos outra novidade.

Assistam, comentem e inscrevam-se no canal!

Um grande abraço a todos.

 Texto publicado em 31 de Março de 2019 por Roberto Siqueira