Vídeo: Um Sonho de Liberdade (Crítica ilustrada)

Vídeo publicado em 23 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

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A VIAGEM DE CHIHIRO (2001)

(Sen to Chihiro no Kamikakushi)

 

 

Videoteca do Beto #243

Dirigido por Hayao Miyazaki.

Elenco: Vozes de Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Yumi Tamai, Mari Natsuki, Bunta Sugawara, Ryunosuke Kamiki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi, Akio Nakamura, Koba Hayashi, Tatsuya Gashuin, Yo Oizumi, Tsunehiko Kamijô, Takehiko Ono, Ken Yasuda, Michiko Yamamoto, Kaori Yamagata, Shirô Saitô, Shigeyuki Totsugi e Yayoi Kazuki.

Roteiro: Hayao Miyazaki.

Produção: Toshio Suzuki.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso de “Princesa Mononoke”, o talentoso diretor japonês Hayao Miyazaki chegou a anunciar sua aposentadoria, tamanho era seu esgotamento físico e mental, mas felizmente ele desistiu da ideia. Ironicamente, seu filme seguinte se tornaria seu maior sucesso comercial, angariando grande bilheteria ao redor do mundo e conquistando prêmios de prestígio internacional como o Oscar de Melhor Animação e o Urso de Ouro em Berlim. Mas tamanho hype em torno do filme se justifica? A resposta é sim. Nos transportando para um universo fantástico repleto de figuras estranhas e imagens belíssimas, “A Viagem de Chihiro” aborda em suas diversas camadas temas muito interessantes como a família, o relacionamento entre os seres humanos e o sempre doloroso processo de amadurecimento de uma criança.

Como de costume em sua carreira, Miyazaki acumula as funções de diretor e roteirista para narrar a história de Chihiro (voz de Rumi Hiiragi), uma garota de 10 anos que muda de cidade com seus pais. Ao se aproximarem da nova casa, eles descobrem um parque aparentemente abandonado, mas a existência de um enorme banquete indica que ainda existia atividade ali. Seus pais então resolvem comer e, ao cair da noite, são transformados em porcos, levando a garota a se aventurar por um mundo desconhecido e, com a ajuda de Haku (voz de Miyu Irino), encontrar uma forma de reverter o ocorrido, mas para isso ela terá de trabalhar na casa de banho de Yubaba (voz de Mari Natsuki) onde deuses vão para relaxar.

Com suas linhas simples e belas no tradicional formado em 2D, “A Viagem de Chihiro” traz todas as características clássicas do Anime, como os olhos grandes que conferem mais expressão aos personagens, misturadas aos elementos fantasiosos que permeiam praticamente toda a carreira de Miyazaki. Hábil em nos provocar simultaneamente desconforto e fascínio, o diretor sabe exatamente onde quer nos levar desde os primeiros planos em que acompanhamos a garota entediada discutindo com os pais a caminho da nova casa. A hesitação da tímida garota antes de acompanha-los quando param o carro e a forma como ela é sempre deixada para trás indicam que aparentemente eles não dão muita atenção à ela, que parece assustada com tamanha mudança. Indícios de solidão? Talvez, mas o fato é que aquele comportamento nos deixa desconfortáveis e isso é crucial para a sequência que virá a seguir.

Assim, quando os pais dela passeiam pelo parque e sentam-se para desfrutar do banquete deixado no balcão do restaurante, as reações de Chihiro rapidamente nos levam a desconfiar que algo estava errado ali e, neste momento, a trilha sonora de Joe Hisaishi indica que algo ruim iria acontecer – e de fato acontece, para desespero da garota, agora largada a própria sorte após a transformação dos pais. O belo visual do parque dá lugar então às imagens assustadoramente fantasmagóricas e aos tons sombrios que chegam com a noite, indicando o caminho que a narrativa seguiria dali em diante e dando início ao festival de personagens sobrenaturais, como fantasmas, bruxas, espíritos divinos e animais que caminham como humanoides, entre outros.

Passamos então a viajar pelos ambientes extremamente bem detalhados e criativos da mente de Miyazaki – e do seu designer de produção Norobu Yoshida – sob a ótica assustada da garota e, assim como ela, sentimos segurança apenas quando Haku surge para ajudá-la a sobreviver naquele mundo bizarro. Misturando ambientes caóticos com outros formados por linhas retas características da arquitetura japonesa, como o quarto onde Chihiro dorme, o diretor nos leva por cenários ameaçadores como a longa escada que Chihiro desce cuidadosamente até cair e provocar um susto no espectador, amplificado pela trilha sonora que sobe o tom neste instante. A fotografia sombria de Atsushi Okui realça a tensão do momento enquanto ela se dirige as caldeiras onde encontrará o enigmático Kamaji (Bunta Sugawara) e o visual seguirá assim até que ela se adapte ao lugar e finalmente tenha a oportunidade de visitar os pais num chiqueiro, quando finalmente temos cores vibrantes através das flores do campo que ela cruza e das luzes do sol que preenchem a tela, ilustrando o sentimento de empolgação da garota por finalmente poder ver onde eles estavam.

Conduzindo a narrativa com tranquilidade e diversos momentos contemplativos, Miyazaki e seu montador Takeshi Seyama também sabem a hora de acelerar e de provocar medo, criando uma verdadeira obra-prima do terror infantil que funciona também para adultos, ainda que fugindo das convenções do cinema ocidental. Assim, não são poucos os momentos que causam desconforto. Seja pelos cenários assustadores, pelas pessoas transformadas em animais, pelas cabeças que andam sozinhas ou pelo bebê gigante, a sensação que temos é de estar viajando por um universo completamente desconhecido. Seria tudo fruto da imaginação de Chihiro ou de fato ela foi transportada para um exótico plano espiritual como indica o título em inglês e o laço em seu cabelo no final? Não sabemos e nem precisamos saber, pois neste caso o mais importante é a jornada que esta fábula nos proporciona.

Existem diversas camadas de apreciação em “A Viagem de Chihiro”, que funciona tanto como uma aventura sombria quanto como uma narrativa repleta de reflexões interessantes. Não são poucos os momentos em que Miyazaki questiona, por exemplo, a nossa cultura consumista, como quando os pais de Chihiro se entregam ao banquete disponível na cidade abandonada e são punidos por isso ou quando os funcionários da casa de banho se aglomeram e oferecem comida em troca do ouro de Sem Rosto (voz de Akio Nakamura). A busca por aceitação é outro tema muito presente no longa, evidenciado pelo próprio Sem Rosto que busca desesperadamente chamar a atenção de Chihiro enquanto ela, ao contrário de tantos outros, não se vende ao seu ouro. Da mesma forma, o bebê gigante de Yubaba queria apenas a atenção da mãe, que parece entender que amor e carinho podem ser substituídos por presentes e luxo, assim como a jornada de Chihiro em busca dos pais não se restringe ao plano fantasioso, já que no mundo real nós sabemos que a relação entre eles era distante.

E já que mencionei Yubaba, é importante ressaltar como apesar do visual assustador dela e de sua irmã Zeniba (voz de Mari Natsuki), Miyazaki evita vilanizar as personagens e acaba fazendo com que o espectador compreenda o universo delas e suas motivações, assim como Kamaji e seus vários braços que remetem a uma aranha provocam mais estranheza do que medo, servindo também para ilustrar como ele era explorado por ser o mais dedicado funcionário do local. Existem ainda muitos momentos escatológicos, como quando Sem Rosto vomita os seres que havia engolido ou quando o nojento espírito do mau cheiro entra na casa de banho – repare como a fotografia amplia nossa sensação de angústia com seus tons marrons para então dar lugar ao verde das ervas, que não apenas simboliza a esperança agora que o rio estava limpo, como confere uma sensação de alívio ao espectador ao ver toda aquela sujeira ir embora. A mensagem contra a destruição causada pela poluição dos rios é assimilada com facilidade por crianças e adultos nesta passagem que liberta o espírito do rio (voz de Koba Hayashi), reforçando a visão ambientalista tão presente nos filmes de Miyazaki.

As belas imagens durante a viagem de trem até a casa de Zeniba são marcadas pelo silêncio dos personagens que nos permite contemplar o visual e assimilar o que assistimos até então. Estas pequenas pausas eram muito valorizadas pelo diretor, que entendia que o espectador, assim como os personagens, precisava de tempo para respirar (se quiser saber mais sobre o tema, sugiro o excepcional vídeo de Max Valarezo no canal “Entre Planos”). Instantes depois, Haku, que havia adotado a forma de um dragão com rosto de cachorro que surge do mar, volta para ajudar Chihiro e protagonizar a linda cena do voo – outra marca da carreira de Miyazaki –, que traz uma importante revelação sobre a conexão entre eles no passado. A aceitação procurada por ambos finalmente se concretizava e Chihiro estava pronta para deixar aquele mundo e voltar ao seu lar.

Existe ainda uma teoria que defende um subtexto muito mais pesado em “A Viagem de Chihiro”, que seria facilmente identificado pelos japoneses e não tanto por pessoas da cultura ocidental. Segundo esta leitura, o letreiro da casa de banho (que significa “água quente”) remete aos locais onde jovens japonesas ajudavam nos banhos dos homens e também se prostituíam durante o período Edo da história do Japão. Da mesma forma, as mulheres que dirigiam estes locais eram chamadas de Yubaba (algo como “velha da água quente”), exatamente como a personagem que comanda a casa de banho no filme. Some a isso o fato de Chihiro mudar de nome quando chega lá, a forma como Yubaba pede para que ela atenda bem seu cliente e a insistência de Sem Rosto em oferecer dinheiro à ela e temos uma interpretação incrivelmente mais densa da fábula de Miyazaki, que inclusive teria confirmado em entrevistas que de fato era uma crítica à indústria do sexo e a prostituição infantil tão forte na cultura japonesa (procurei estas entrevistas e não encontrei, mas fica o registro do que li e ouvi em fontes confiáveis como o Podcast do Cinema em Cena alguns anos atrás).

Através de imagens poderosas e seres fascinantes, “A Viagem de Chihiro” nos transporta pela jornada de amadurecimento de uma garota tímida e assustada diante de uma fase de transição em sua vida de maneira mágica, nos permitindo desfrutar de um mundo fantástico e de quebra provocando reflexões. Passando ainda por críticas ao consumismo exagerado e a tradicional defesa do meio ambiente que caracteriza sua obra, Miyazaki justificava brilhantemente o retorno da aposentadoria e construía uma ponte com o ocidente que permitiria a muitos cinéfilos terem acesso à sua maravilhosa obra – o que não deixa de ser mais uma jornada bem sucedida de aceitação.

Texto publicado em 12 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

 

VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Vingadores: Ultimato

Vídeo publicado em 04 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

X-MEN: O FILME (2000)

(X-Men)

 

Videoteca do Beto #242

Dirigido por Bryan Singer.

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shawn Ashmore, Shawn Roberts e Aron Tager.

Roteiro: David Hayter.

Produção: Lauren Shuler Donner e Ralph Winter.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É verdade que o cinema já tinha exportado dos quadrinhos para a telona a história de personagens como o Superman ou o Batman quando “X-Men: O Filme” foi lançado, ainda na virada do século, mas o fato é que o longa dirigido por Bryan Singer representa um marco na história dos filmes baseados em HQ’s. Até então, a relação entre filmes e HQ’s era marcada por altos e baixos, atingindo o fundo do poço no terrível “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, que quase sepultou as chances dos grandes estúdios voltarem seus olhos para personagens dos quadrinhos novamente. Foram precisos 3 anos para que um grande estúdio abrisse as portas outra vez para uma adaptação. Felizmente, o excelente trabalho de Singer não apenas restaurou a imagem arranhada das adaptações de HQ’s diante da crítica e do público como ainda marcou o início de uma era de enorme sucesso para filmes do gênero que dura até hoje.

Escrito por David Hayter, “X-Men: O Filme” tem início quando um grupo de mutantes se vê ameaçado pelo projeto de lei do senador conservador Kelly (Bruce Davison) que, caso aprovado, obrigaria todos a revelarem suas identidades. Liderados pelo professor Xavier (Patrick Stewart), parte deles busca pacificamente manter sua dignidade diante de uma sociedade que tem enorme dificuldade em aceitá-los, supostamente por conta de seus poderes especiais e os riscos que eles poderiam representar. Outra parte, liderada por Magneto (Ian McKellen), entende que a única forma de sobreviver é através do confronto com os seres humanos, o que leva o primeiro grupo a defender os mesmos que tanto preconceito demonstram por eles.

Investindo mais tempo nos dilemas dos personagens do que nas cenas de ação em si, Singer e seus montadores Steven Rosenblum, Kevin Stitt e John Wright acertam ao focar naquilo que o longa realmente traz como diferencial, explorando questões políticas e sociais universais como a perseguição as minorias por uma maioria autoritária e influente – substitua os mutantes por judeus, negros, gays ou mulheres e a discussão será a mesma. Ao inserir um subtexto político contemporâneo, “X-Men: O Filme” consegue não apenas a empatia de muitos espectadores como deixa claro que a abordagem será bem diferente do que era usual em filmes baseados em HQ’s, demonstrando ambição temática sem por isso deixar de funcionar como filme de ação.

Esta opção fica clara já nos minutos iniciais quando acompanhamos a traumática infância de Magneto num campo de concentração nazista, numa sequência que torna-se ainda mais pesada pela escolha da paleta acinzentada da fotografia de Newton Thomas Sigel, que contrasta com as cores mais quentes que dominarão o filme posteriormente. Em seguida, somos apresentados aos temas centrais da narrativa, como o preconceito gerado pelo medo do que é diferente, a intolerância, os temores da raça humana diante dos poderes dos mutantes e os dilemas dos próprios mutantes, que temem serem segregados por conta de seu DNA evoluído. Pois sim, “X-Men: O Filme” claramente trata o conceito de mutação como uma evolução da espécie através de frases como “Nós somos o futuro”, ao mesmo tempo que escancara sua crítica ao preconceito em frases como “Não somos todos assim” ou diálogos entre os próprios mutantes como:

– “Você odeia os humanos?”

– “Sim.”

– “Por que?”

– “Acho que tenho medo deles.”

É interessante notar também como os poderes dos mutantes são apresentados não como algo divertido, mas como um fardo que traz dilemas para muitos deles. Assim, ao contrário de muitos filmes de super-heróis em que simplesmente acompanhamos os personagens utilizando seus poderes para vencer a clássica luta entre o bem e o mal, aqui o que temos são reflexões sobre como de fato seria caso existissem seres tão poderosos em nosso meio e como eles próprios se sentiriam diante de tanto poder e da desconfiança dos seres humanos em relação a isso.

A apresentação do universo dos X-Men e dos personagens em si também é muito bem conduzida pelo diretor, que não precisa de muitos minutos para estabelecer questões importantes como a incapacidade de Vampira (Anna Paquin, muito bem por sinal) de ter contato físico e o efeito psicológico que isso gera nela, além de trabalhar bem a expectativa dos fãs em momentos como a apresentação de Wolverine (Hugh Jackman), que surge inicialmente de costas, para somente depois demonstrar sua força através da expressão raivosa, do olhar compenetrado e, claro, da potência de seus golpes – e Jackman se sai muito bem na tarefa de encarnar um dos mais icônicos ex-humanos. A lamentar, apenas a forma infantil como ele e Ciclope (James Marsden) passam o tempo todo se alfinetando.

Outros mutantes não demoram a surgir e, de maneira eficiente e econômica, Singer introduz um a um na narrativa, estabelecendo rapidamente a divisão entre os que buscam conviver pacificamente com os humanos e os que buscam o conflito, numa abordagem unidimensional que, acredito eu, segue a tradição dos quadrinhos (e aqui deixo claro que não sou grande conhecedor de HQ’s), mas que não prejudica o desenvolvimento dos personagens centrais. Um dos grandes méritos, aliás, reside justamente no desenvolvimento de um vilão que não apenas tem um passado trágico como ainda apresenta motivações bastante plausíveis. Afinal de contas, como podemos julgar o temor de alguém que já sofreu na pele os horrores da segregação racial? Assim, Ian McKellen compõe um personagem que rivaliza em inteligência com o centrado professor Xavier vivido com serenidade por Patrick Stewart, ganhando o respeito do espectador e de quebra protagonizando uma das cenas mais emblemáticas do longa, quando controla os carros e armas da polícia e demonstra todo seu poder.

Com tantos personagens interessantes e um subtexto dramático mais profundo, “X-Men: O Filme” nem precisaria, mas até que funciona bem nas sequências de ação, ainda que não traga lutas tão bem coreografadas e que seus efeitos visuais hoje soem datados, com exceção daqueles que demonstram como funciona o localizador cerebral de Xavier. Datada também é a trilha sonora de Michael Kamen, com notas rápidas que destoam da composição principal em boa parte do tempo. Por sua vez, o design de produção de John Myhre e os figurinos de Louise Mingenbach conseguem dar vida aquele universo, apesar do exagero no aspecto visual de personagens como Dentes-de-Sabre (Tyler Mane), Groxo (Ray Park) e principalmente Mística (Rebecca Romijn). Vale destacar ainda a empolgante escola dos mutantes administrada pelo professor Xavier e explorada com calma por Singer, permitindo ao espectador se familiarizar com os personagens e acompanhar o interessante processo de aprendizagem deles.

Encerrando a narrativa com um simbólico jogo de xadrez entre os dois amigos e rivais Xavier e Magneto, “X-Men: O Filme” cumpre muito bem a missão de estabelecer um universo que serviria como base para os próximos filmes da série sem por isso deixar de amarrar suas pontas e ter uma conclusão satisfatória para sua própria narrativa. Mais do que isso, conseguiu resgatar a confiança de Hollywood num gênero até então subestimado, elevando o patamar das produções sobre super-heróis e estabelecendo um padrão que seria seguido desde então. Os inúmeros grandes filmes que surgiram nestas quase duas décadas seguintes devem muito a Wolverine e companhia.

Texto publicado em 01 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (2019)

(How to Train Your Dragon: The Hidden World)

 

Lançamentos #1

Dirigido por Dean DeBlois.

Elenco: Vozes de Cate Blanchett, T.J. Miller, Kristen Wiig, Kit Harington, Jonah Hill, Jay Baruchel, America Ferrera, Djimon Hounsou, Christopher Mintz-Plasse, F. Murray Abraham, Craig Ferguson e AJ Kane.

Roteiro: Dean DeBlois.

Produção: Bonnie Arnold e Brad Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quase uma década após o lançamento de “Como treinar o seu Dragão”, longa responsável por elevar a Dreamworks a outro patamar em termos de ambição narrativa, finalmente chegamos a conclusão da trilogia que acompanha a amizade entre um garoto e seu dragão de estimação. E se não atinge o nível de excelência do primeiro filme, “Como treinar o seu Dragão 3” cumpre bem seu papel e encerra dignamente a trajetória dos personagens, colocando um ponto final naquele ciclo sem impedir que novos filmes surjam futuramente e garantam mais alguns milhões de dólares para o estúdio.

Mais uma vez escrito pelo próprio Dean DeBlois, o roteiro nos leva de volta ao vilarejo onde dragões e humanos convivem em harmonia, conforme sonhado por Soluço (voz de Jay Baruchel). No entanto, o agora líder de Berk decide ir em busca do mundo secreto citado por seu pai, enquanto Banguela conhece uma companheira de espécie que recebe o nome de Fúria da Luz. Só que o caçador de dragões Grimmel (voz de F. Murray Abraham) surge para estragar os planos da dupla e obriga ambos a tomares decisões complexas em busca da salvação de suas espécies.

Seguindo o padrão estético dos outros filmes e, o que é melhor, demonstrando evolução, “Como treinar o seu Dragão 3” é um deleite visual, a começar pela direção de fotografia de Gil Zimmerman que além de dar vida aos cenários imaginados pelo excelente design de produção de Pierre-Olivier Vincent, ainda tem função narrativa ao, por exemplo, contrastar as cores sombrias que predominam as cenas envolvendo os vilões com o visual colorido e agradável das cenas que envolvem os vikings, o que reforça a sensação de bem estar e a empatia do espectador com os personagens. Além disso, o capricho da animação nos presenteia com momentos visualmente belíssimos como quando somos apresentados a ilha que serve de abrigo para a nova Berk ou a arrebatadora caverna abaixo de uma cascata que nos leva ao deslumbrante mundo secreto do subtítulo onde vivem os dragões.

Este capricho é perceptível também nos pequenos detalhes como a barba por fazer do Soluço e os movimentos naturais dos personagens e do próprio Fúria da Noite, que em diversos momentos remetem a gestos de cães e gatos, ganhando a simpatia do público infantil ao fazê-lo parecer um animal domesticado. Observe também como durante o encontro dos dragões apaixonados, DeBlois destaca os olhos de ambos, reforçando a empatia do público e demonstrando que aprendeu a lição que Spielberg já tinha ensinado em “E.T.”. A sequência do namoro, aliás, diverte com gags engraçadinhas que colocam o poderoso Fúria da Noite na posição de bobo apaixonado que não sabe o que fazer para conquistar a amada que domina completamente as ações, o que torna o personagem vulnerável e ainda mais interessante, em especial se considerarmos que momentos depois ele seria reverenciado como o rei dos dragões, em outra bela cena.

Reforçando a aura épica pretendida pelos realizadores desde o primeiro filme, a trilha sonora de John Powell sublinha os momentos grandiosos do longa, como quando Soluço fala sobre o sonho de encontrar o mundo secreto, enquanto o design de som se destaca em cenas como o namoro dos dragões, quando estes cruzam nuvens carregadas e mergulham nas águas para finalmente consolidar a relação, algo indicado pelos trovões que transmitem a tensão natural pré-conquista. O relacionamento dos casais, aliás, é outro ponto positivo de “Como treinar o seu Dragão 3”. Tanto Soluço e Astrid (voz de America Ferrera) quanto o casal de dragões demonstram entrosamento e agradam, assim como boa parte dos personagens coadjuvantes que continuam interessantes e cumprem bem seu papel, funcionando ainda como alívio cômico com piadas que funcionam razoavelmente bem na maior parte do tempo, como a rima narrativa com o primeiro filme (“Tem mesmo um plano?”) ou a minha favorita em que um personagem afirma que o mundo é redondo, provocando risos de seus colegas – e cutucando a bobagem contemporânea dos terraplanistas.

Letal diante dos dragões, como fica evidente na cena em que vislumbramos pela primeira vez com clareza a Fúria da Luz, Grimmel é mencionado como uma ameaça e já na cena seguinte aparece em Berk e ataca os vikings, o que prejudica um pouco a construção do personagem e reduz o impacto que sua aparição no vilarejo poderia causar. Vivendo uma história distinta de Soluço ao tomar uma decisão contrária a dele no passado diante de um Fúria da Noite, o vilão inicialmente parece mais ameaçador do que é de fato, ainda que tenha bons momentos como quando liberta uma prisioneira, apenas para segui-la e encontrar Berk – infelizmente, sua real intenção é revelada de maneira nada sutil.

Sutis, no entanto, são os flashbacks que, se por um lado exploram o velho clichê da conversa entre pai e filho diante do horizonte, por outro funcionam ao reforçar a nostalgia que domina o capítulo derradeiro da trilogia e trazem ainda momentos elegantes como a transição da conversa entre eles para o momento em que Soluço admira a cidade de Berk repleta de dragões. A propósito, a montagem de John K. Carr merece destaque por saltar bem entre as diferentes linhas narrativas que envolvem o namoro dos dragões, a busca pelo mundo secreto, a jornada de Soluço rumo a liderança de Berk e a perseguição de Grimmel sem jamais tornar o longa confuso.

Reafirmando o amadurecimento da própria Dreamworks, a temática mais adulta completa a jornada de Soluço rumo a maturidade lidando com questões importantes como a liderança de seu povo, o casamento e o futuro de sua amizade com Banguela e é precisamente neste aspecto que reside boa parte do sucesso da trilogia, pois muitos fãs se identificam com os dilemas do protagonista justamente por estarem em fase similar na vida, assim como ocorria no primeiro filme lançado há nove anos. A evolução de Soluço é também a evolução deles como seres humanos, o que torna a identificação com o personagem inevitável.

O ato final tem início logo após a solução do conflito sentimental dos personagens e a decisão de separarem-se, mas a batalha, apesar de muito bem coreografada, tem solução fácil demais, jamais levando o espectador a temer de fato pelos personagens, trazendo momentos até mesmo embaraçosos como quando Banguela se solta sozinho do nada e ataca Grimmel. Ainda assim, por alguns instantes “Como treinar o seu Dragão 3” ensaia um final trágico que teria um peso dramático infinitamente maior e bem acima do tom adotado pela trilogia até então – e que parecia ser construído durante a narrativa através de frases como “Um dia você irá entrar numa luta que não poderá vencer”. Seria, no entanto, um drama excessivo.

Chegamos então ao tocante momento da emancipação do Fúria da Noite e a inevitável separação dos amigos, que traz reflexões muito interessantes sobre o conceito de amizade e até mesmo sobre o sentimento de posse, ensinando como o desapego e a preocupação genuína com a felicidade do outro podem ser recompensadores. Pena que, assim como o casamento de Soluço e Astrid, a cena do reencontro dele com o Fúria da Noite soe desnecessária e feita apenas para aliviar o tom dramático da separação ocorrida instantes antes, mas nada que prejudique demais o belo trabalho feito até ali.

Flertando com um final bem mais pesado dramaticamente, “Como treinar o seu Dragão 3” encerra bem uma trilogia coesa, visualmente belíssima e que traz uma convincente jornada de amadurecimento de seu herói. Pois o fato é que a amizade verdadeira seguirá viva em nossas memórias e em nossos corações independente dos caminhos que a vida nos leve. Afinal de contas, a separação física não pode apagar os momentos que compartilhamos com seres que por um curto ou longo período tanto amamos e tão importantes foram em nossas vidas.

Texto publicado em 27 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

Vídeo: Como treinar o seu Dragão 3

Vídeo publicado em 06 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

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 Texto publicado em 31 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

TRAFFIC (2000)

(Traffic)

 

 

Videoteca do Beto #241

Dirigido por Steven Soderbergh.

Elenco: Benicio Del Toro, Jacob Vargas, Tomas Milian, Clifton Collins Jr., Don Cheadle, Luis Guzmán, Miguel Ferrer, Catherine Zeta-Jones, Steven Bauer, Dennis Quaid, Michael Douglas, Amy Irving, Erika Christensen, Topher Grace, James Brolin, Albert Finney, Benjamin Bratt, Yul Vazquez, Salma Hayek e Peter Riegert.

Roteiro: Stephen Gaghan.

Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz e Edward Zwick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entrelaçar várias linhas narrativas não era exatamente uma novidade quando “Traffic” chegou aos cinemas na virada do milênio. Vários cineastas de peso já haviam feito algo parecido até então. Também não tinha nada de novo em abordar o tráfico de drogas e seus trágicos efeitos sociais. Diversos filmes tentaram, sob diferentes pontos de vista e com maior ou menor sucesso, fazer isso. No entanto, a razão do sucesso do longa dirigido com maestria por Steven Soderbergh reside exatamente na mistura das duas coisas. Dando vida a um roteiro ambicioso que trazia nada menos que 110 personagens, o diretor conseguiu traçar um complexo painel sobre o tema, fugindo de estereótipos e maniqueísmos e deixando claro que trata-se de uma questão muito mais ampla, profunda e difícil do que sugerem as soluções prontas e simplistas que ainda hoje ouvimos por aí.

Escrito por Stephen Gaghan, “Traffic” nos apresenta ao juiz Robert Wakefield (Michael Douglas) quando este se prepara para assumir o cargo de chefe da luta contra o tráfico de drogas em Washington enquanto sua filha Caroline (Erika Christensen) se aprofunda no vício, algo que sua esposa Barbara (Amy Irving) já sabia há algum tempo. Em San Diego, o figurão do tráfico Carlos Ayala (Steven Bauer) é preso, para surpresa de sua esposa Helena (Catherine Zeta-Jones) que se sente obrigada a inteirar-se dos negócios do marido e acaba envolvendo-se em busca da manutenção do padrão de vida que tinha, sem saber que está sendo monitorada pelos policiais Ray (Luis Guzmán) e Montel (Don Cheadle), que também têm a missão de manter o pequeno traficante Eduardo Ruiz (Miguel Ferrer) sob custódia, pois ele é parte chave da investigação contra Ayala. Enquanto isso, o policial mexicano Javier Rodriguez (Benicio Del Toro) acompanha o trabalho do general Salazar (Tomas Milian), que supostamente tenta desmontar o cartel de Tijuana.

Como fica evidente no parágrafo anterior, “Traffic” se propõe a analisar a questão das drogas em suas várias camadas de maneira contundente, abordando desde a dificuldade de controlar as fronteiras e de rastrear os poderosos que controlam o tráfico até a forma como as drogas estão disseminadas em todas as classes sociais. Neste sentido, é interessante como o longa jamais cai na tentação de colar rótulos, mostrando como um traficante de armas como Francisco Flores (Clifton Collins Jr.) pode perfeitamente morar em San Diego nos Estados Unidos e, ainda assim, ter influência no tráfico do outro lado da fronteira. Da mesma forma, podemos acompanhar jovens ricos que abusam das drogas enquanto discutem um tema qualquer, ao passo em que nas periferias muitas vezes a venda ilegal dos narcóticos representa uma oportunidade que muitos dali raramente teriam de obter lucros altíssimos, algo que boa parte da fatia rica da população certamente faria se estivesse naquela situação, como fica evidente no excelente diálogo entre Seth (Topher Grace) e Robert num carro sobre a realidade do tráfico de drogas que provoca esta reflexão.

Conduzindo esta intricada narrativa de maneira firme, Soderbergh nos brinda com momentos de alta tensão como a negociação entre Ray, Montel e Ruiz logo no início que desencadeia um tiroteio e uma perseguição pelas ruas de San Diego. Abusando da câmera de mão, o diretor confere um ar documental ao longa que se encaixa muito bem no tom proposto e aumenta a sensação de realismo e a imersão do espectador naquele universo. Também é muito interessante a forma como os personagens se cruzam fisicamente em vários instantes de maneira orgânica e natural, evidenciando com sutileza como todos estão de alguma forma interligados. Obviamente, a montagem de Stephen Mirrione é crucial neste processo, mantendo o espectador igualmente interessado nas três linhas narrativas através da forma que alterna entre elas, sem jamais parecer se estender demais em alguma delas.

Ainda mais impactante é a fotografia do próprio Steven Soderbergh (que usa o pseudônimo Peter Andrews), que além de ajudar o espectador a se situar através dos diferentes filtros, de quebra traz também funções narrativas. Assim, enquanto o visual amarelado reforça o calor e o clima seco do México, fazendo com que o espectador sinta-se sufocado naquele ambiente hostil, os tons azulados em Washington servem não apenas para realçar a frieza do universo político onde decisões que custarão milhares de vidas são tomadas, mas também para transmitir o desconforto crescente de Robert ali. Já em San Diego, as cores naturais simbolizam o ponto de equilíbrio entre os tons predominantes daqueles dois universos distantes, já que naquele ambiente os efeitos das ações de ambos se cruzam, como fica evidente quando dois agentes norte-americanos se encontram com Javier numa piscina, onde o brilho do sol mistura-se ao azul da piscina. Fechando a parte técnica, vale destacar também a trilha sonora de Cliff Martinez, que com suas notas longas e uso de sintetizadores, amplia a tensão em diversos momentos.

O outro grande mérito de Soderbergh reside nas excelentes atuações que ele consegue extrair de seu vasto elenco, a começar por Tomas Milian, que confere dualidade ao general Salazar em momentos como quando ele se aproxima de Flores, dando a entender que iria protegê-lo das desumanas torturas apenas para, em seguida, obter a informação que precisava. Ainda no México, Benicio Del Toro oferece uma atuação estupenda como Javier, um personagem complexo que precisa se adaptar e sobreviver num ambiente extremamente hostil, algo que faz com maestria graças a sua habilidade de ler o cenário em que está inserido e agir de acordo com o que cada situação exige.

Catherine Zeta-Jones também está muito bem como Helena, vivendo um arco dramático interessante na pele da esposa que não sabia (ou não queria saber) a natureza real dos negócios do marido e que acaba assumindo as rédeas, chegando a viajar para o México para negociar diretamente com os fornecedores. Esta mudança começa a ficar evidente, por exemplo, durante o julgamento de Carlos, quando a câmera que foca constantemente nela ao invés do marido realça a importância daquela ocasião para a personagem. Em certo momento, ela diz que seu filho não irá viver na pobreza que ela viveu, evidenciando que seria capaz de fazer qualquer coisa para manter o status que tinha atingido. Ciente desta característica de Helena, Arnie (Dennis Quaid) se aproveita da situação e se envolve com a esposa de seu sócio, reforçando como não existem inocentes neste verdadeiro jogo de interesses. Do lado de fora da mansão, Luis Guzmán e Don Cheadle nos divertem com os diálogos entre Ray e Montel, como aquele em que falam sobre o vício de um deles no cigarro e quando Ray afirma que sonhava com o momento em que pegaria figurões, ricos e brancos cometendo um crime.

Núcleo dramaticamente mais pesado da narrativa, a família Wakefield simboliza perfeitamente a hipocrisia da chamada guerra ao tráfico, como fica evidente quando a Barbara de Amy Irving menciona a própria juventude para contrapor os argumentos do marido e lembrá-lo que ela também já usou drogas ou quando joga na cara dele o seu vício em bebidas – e repare como ele reage negativamente afirmando que não pode ser considerado alcóolatra, como se o vício dele fosse diferente dos demais. Por sua vez, Erika Christensen rouba a cena com sua ótima atuação na pele da viciada Caroline, destacando-se em diversos momentos, como quando demonstra sua resignação no primeiro encontro com outros viciados, deixando evidente que não estava preparada para aquilo, mas principalmente nas crises provocadas pelas drogas, quando surge com olhar arregalado e a boca entreaberta, praticamente nos fazendo sentir o prazer e a dor da personagem com suas expressões. E finalmente, Michael Douglas compõe com sutileza e sensibilidade um homem que, entre um copo e outro de uísque, tenta conciliar a árdua tarefa profissional que lhe foi atribuída com a ainda mais difícil missão de compreender o universo da filha viciada, completando seu arco dramático em dois momentos comoventes, primeiro num quarto de hotel e depois quando interrompe um discurso pré-fabricado para dizer o que realmente pensa, abandonar o cargo e escancarar a posição antiguerra às drogas do filme.

Instantes antes de seu personagem ser envenenado, Miguel Ferrer tem seu grande momento na pele de Ruiz ao oferecer uma visão muito interessante sobre a inutilidade do trabalho daqueles policiais que, digamos, estão apenas enxugando gelo, num dos inúmeros instantes em que “Traffic” critica abertamente a falida guerra às drogas – e a cena do envenenamento, aliás, também é muito bem conduzida pelo diretor, fazendo com que o previsível desfecho soe verossímil. A belíssima sequência final em que crianças mexicanas jogam basebol sob as luzes que iluminam o campo exatamente como sonhado por Javier, que contempla tudo aquilo embalado pela bela trilha sonora, evoca uma certa esperança sem soar como uma solução fácil para um problema extremamente complexo. Afinal, não custa sonhar com um futuro onde jovens de periferia possam passar suas noites divertindo-se e praticando esportes ao invés de lutarem para sobreviver diante do medo provocado por políticas míopes criadas por pessoas distantes daquela realidade.

Ambicioso e extremamente bem conduzido, “Traffic” é um libelo contra a inútil guerra ao tráfico, traçando um amplo painel político e social sobre um tema tantas vezes tratado de maneira simplista. Ao contrário do que pregam pessoas com pensamento binário e, pior ainda, poderosos que vivem de frases de efeito para ganhar projeção, a questão das drogas não tem solução fácil e, como fica evidente no longa, atinge todas as camadas da sociedade em maior ou menor grau, com resultados trágicos para muitas delas – sejam os que sofrem os efeitos do vício, sejam aqueles que são diretamente afetados não pelas drogas em si, mas pela imbecil guerra que traz o conflito para dentro das periferias, enquanto os que realmente faturam com aquilo dormem tranquilos em seus bairros de elite em países como os Estados Unidos ou o Brasil.

Texto publicado em 22 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

SABOR DA PAIXÃO (2000)

(Woman on Top)

 

 

Videoteca do Beto #240

Dirigido por Fina Torres.

Elenco: Penélope Cruz, Murilo Benício, Harold Perrineau, Mark Feuerstein, John de Lancie, Anne Ramsay, Ana Gasteyer, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Carlos Gregório, Daniele Suzuki, Cléa Simões e Otávio Martins.

Roteiro: Vera Blasi.

Produção: Alan Poul e Nancy Paloian-Breznikar.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Uma das coisas que sempre evito fazer ao assistir um filme é criar expectativas, pois, como sabemos, a expectativa é a mãe da decepção. Sendo assim, o fato de “Sabor da Paixão” ter Penélope Cruz, Murilo Benício, Lázaro Ramos e Wagner Moura em seu elenco não interferiu na avaliação que fiz do longa – se assim fosse, teríamos o primeiro caso de nota negativa da história do Cinema & Debate. Pois o fato é que o filme dirigido pela venezuelana Fina Torres é tão fraco, mas tão fraco, que para ser ruim teria que melhorar bastante.

Escrito pela brasileira Vera Blasi, “Sabor da Paixão” conta a trajetória de Isabella (Penélope Cruz), a dona de um restaurante em Salvador que, após descobrir a traição de seu marido Toninho (Murilo Benício), decide abandonar o país e tentar uma nova vida em San Francisco. Já nos Estados Unidos, ela é convidada a assumir o comando de um programa televisivo sobre culinária, apoiada pelo amigo travesti Monica Jones (Harold Perrineau), enquanto no Brasil Toninho busca encontrar formas de reconquistar sua esposa, com a ajuda dos amigos Rafi (Wagner Moura) e Max (Lázaro Ramos).

Não chega a surpreender que uma produção norte-americana sobre o Brasil seja repleta de clichês e estereótipos, ainda que a direção de uma venezuelana e o roteiro escrito por uma paulistana pudessem trazer pontos de vista diferentes e tornar a narrativa mais rica, o que infelizmente não é o caso. Dentre o festival de estereótipos sobre o Brasil que desfilam ininterruptamente durante os quase insuportáveis 92 minutos de projeção, ao menos a trilha sonora de Luis Bacalov traz alguns bons momentos recheados de bossa nova antes de tornar-se enjoativa pela falta de variação e excessiva repetição. E não é exagero dizer que os pontos positivos do longa param por aí. Com muito boa vontade, podemos dizer que a fotografia de Thierry Arbogast consegue estabelecer alguma diferença entre os tons coloridos da nova vida da protagonista nos EUA e o tom pasteurizado na Bahia, que remetem ao estado de espírito dela, assim como a montadora Leslie Jones (que incrivelmente trabalhou em ótimos filmes como “Além da Linha Vermelha” e “Embriagado de Amor”) demonstra alguma inspiração através de elipses que utilizam o céu e um outdoor de Isabella. Os efeitos visuais ruins, notáveis nas sequências exotéricas, completam a parte técnica do longa.

Errando em praticamente todas as decisões, a diretora Fina Torres jamais consegue manter o espectador interessado na narrativa, o que é ainda mais grave se levarmos em conta o talentoso elenco que ela tinha em mãos. Para começar, a decisão de trazer atores brasileiros falando em inglês mesmo no Brasil, obviamente visando agradar ao público norte-americano, nos tira completamente do ambiente e torna tudo muito artificial e pasteurizado. Esta intenção é reforçada pela transmissão da ideia de um Brasil que vive de sol, sexo e água de coco, imagem esta que muitos estrangeiros ainda tem do país. No entanto, para o papel principal, Torres aposta na espanhola Penélope Cruz, na época uma estrela em ascensão, mas inegavelmente uma escolha bastante duvidosa que tenta se passar por brasileira sem pronunciar uma palavra em português, o que poderia ser amenizado se ao menos sua personagem fosse interessante.

Apostando em sua inegável sensualidade, Cruz não consegue contornar os graves problemas do roteiro, vivendo uma Isabella sem personalidade, que abandona sua cidade, sua profissão e seu restaurante e, mesmo assim, ainda corta o dedo durante uma aula pensando no marido que a traiu. Chega a ser vergonhosa, por exemplo, a sequência em que ela o aceita em seu programa com enorme facilidade, como se nada tivesse ocorrido até então. Da mesma forma, soa completamente artificial a maneira como ela rapidamente se transforma de talentosa cozinheira em âncora de um programa de TV, surgindo de repente com plena desenvoltura na frente da tela, como se fizesse isso há décadas. Por sua vez, Murilo Benício não fica atrás, criando um Toninho histérico e sem carisma, que representa o verdadeiro mala e jamais justifica a atração que a protagonista sente por ele, protagonizando ainda cenas pavorosas como aquela em que canta na cadeia acompanhado de um som não diegético que torna tudo ainda mais artificial. Ao menos, Harold Perrineau nos diverte com sua simpática atuação na pele do travesti Monica, enquanto Mark Feuerstein quase salva o tímido produtor Cliff, mas acaba sendo demonizado pelo roteiro.

Chega a ser curioso como um longa com tantas mulheres no processo produtivo pode ser tão machista. Vejamos: Toninho trai a mulher por que, acredite se quiser, ele não consegue dominar a relação sexual – o que explica o título original do filme. Poderia ser mais ridículo? Calma que tem mais. Frases carregadas de machismo como “Homem que ama sua mulher não se deixa ser pego com outra” e o famoso “Mas eles são homens” que tenta justificar o injustificável surgem a todo momento, o que já seria imperdoável num roteiro escrito por um homem, mas torna-se ainda mais embaraçoso vindo de uma mulher. Para piorar, o roteiro estereotipa completamente a mulher brasileira e o Brasil em geral, vendendo uma imagem feita sob medida para agradar estrangeiros que nunca tiveram o trabalho de buscar se informar sobre o país – e, justiça seja feita, até mesmo brasileiros costumeiramente criam imagens totalmente desconexas da realidade de outras regiões que, normalmente, nunca conheceram. Praticamente todos os clichês brasileiros estão presentes no péssimo roteiro de Blasi, que traz ainda um final exotérico, previsível e nada original.

Nem mesmo como comédia romântica “Sabor da Paixão” funciona, trazendo momentos embaraçosos como quando o produtor de TV é convencido pelo aroma de um alimento a mudar de ideia, quando obviamente o aroma não consegue ultrapassar a tela. Em resumo, o longa não tem momentos engraçados – nem mesmo Wagner Moura e Lázaro Ramos salvam -, os personagens não são carismáticos e o casal não tem química.

Ironicamente, uma cena de “Sabor da Paixão” exemplifica perfeitamente muitos de seus graves problemas. Em certo momento, os produtores estragam o programa de culinária de Isabella ao retirar a liberdade criativa de sua âncora e pasteurizá-lo para a grande massa, retirando sua espontaneidade da mesma forma como ocorre no próprio longa, que vende um Brasil totalmente pasteurizado e repleto de clichês, feito sob medida para agradar a parcela do público norte-americano que enxerga o país como um paraíso exótico e fonte de turismo sexual.

Texto publicado em 13 de Março de 2019 por Roberto Siqueira