UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981)

(An American Werewolf in London)

Filmes em Geral #88

Dirigido por John Landis.

Elenco: David Naughton, Jenny Agutter, Griffin Dunne, John Woodvine, Lila Kaye, Joe Belcher, Brian Glover e Frank Oz.

Roteiro: John Landis.

Produção: George Folsey Jr.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar da boa direção do esquecido John Landis e de resgatar o lobisomem para o cinema, o divertido “Um Lobisomem Americano em Londres” ficou marcado mesmo pelo excepcional trabalho do genial Rick Baker, responsável pela sensacional maquiagem que fez a transformação do protagonista em licantropo se tornar uma das mais marcantes da história. Mas chega a ser injusto lembrar o filme apenas por este importante detalhe, já que o longa, mesmo com cenas hoje datadas, ainda mantém o frescor e diverte, muito por causa da boa mistura de gêneros empregada pelo diretor com bastante habilidade.

Escrito pelo próprio Landis (que dirigiu o videoclipe “Thriller”, de Michael Jackson) quando tinha apenas 19 anos, “Um Lobisomem Americano em Londres” narra a história dos jovens turistas americanos David Kessler (David Naughton) e Jack (Griffin Dunne), que partem numa excursão pela Europa e acabam conhecendo um estranho e pouco acolhedor vilarejo na zona rural da Inglaterra. Ao serem praticamente expulsos do local, eles acabam se perdendo num pântano, onde são atacados por uma criatura aterrorizante, que mata Jack e fere David gravemente. Desde então, David passa a sofrer estranhas alucinações e parece sofrer com uma espécie de maldição.

Criando uma mistura interessante de gêneros, o diretor John Landis conduz a narrativa de maneira simples e direta, intercalando momentos cômicos – como os supostos devaneios do protagonista – e cenas de suspense de maneira eficiente. Fugindo dos clichês do gênero, ele aposta no humor negro em diversos momentos, algo evidenciado até mesmo pela trilha sonora divertida e repleta de músicas que fazem referencia à lua de Elmer Bernstein. Por outro lado, o diretor abre o filme com imagens do deserto embaladas por uma trilha melancólica, talvez indicando a solidão que o protagonista será condenado a enfrentar diante de sua nova condição. Landis é hábil ainda ao indicar visualmente para o espectador o resultado de algumas ações dos personagens, como quando Jack pergunta sobre o pentagrama desenhado na parede do pub (ou taberna) “Cordeiro Estraçalhado” e, em seguida, vemos um dardo sendo atirado fora do alvo, simbolizando a pergunta errada na hora e no local errados. Finalmente, Landis consegue criar alguma tensão no bosque antes do ataque do lobisomem, escorregando apenas ao abusar de estereótipos ingleses através dos punks no metrô e do povo pouco acolhedor no norte da Inglaterra. Por outro lado, Landis demonstra habilidade ao seguir a cartilha de Spielberg, segurando ao máximo antes de mostrar pela primeira vez o lobisomem, o que só aumenta a expectativa pela aparição do monstro.

Adotando uma postura leve e até mesmo cômica, David Naughton consegue carregar a narrativa com certa facilidade, até mesmo pela proposta imposta pelo diretor. Além disso, o ator nos diverte com as estranhas alucinações e os sonhos confusos de David, chegando até mesmo a nos deixar tão confusos quanto o personagem durante boa parte da narrativa. Entretanto, a dúvida começa a se desfazer quando o Dr. Hirsch (John Woodvine) visita o pub onde tudo começou. A partir de então, passamos a compartilhar a angústia do protagonista, que não sabe o que fazer para evitar a transformação que certamente sofrerá. E se nos importamos com David, é também porque a bela Jenny Agutter confere enorme carisma à enfermeira Alex Price, tornando o romance entre eles ainda mais convincente e aproximando o casal do espectador.

Mas apesar da interessante mistura de gêneros, “Um Lobisomem Americano em Londres” ficou marcado mesmo pela impressionante maquiagem de Rick Baker, que se destaca logo na primeira conversa entre David e o morto-vivo Jack. Surgindo sempre que algum morto-vivo dá as caras, a qualidade da maquiagem impressiona pela riqueza de detalhes, mostrando as vítimas dilaceradas pelo monstro de maneira bastante convincente para a época. E se alguns momentos hoje podem soar datados, pelo menos ainda conseguem nos divertir bastante. Já a melhor cena do filme continua impressionante, iniciando quando a câmera que acompanha uma conversa entre Alex e um garoto se movimenta até a lua cheia e, ao embalo de “Blue Moon”, nos mostra a dolorosa transformação do protagonista em lobisomem, que utiliza apenas maquiagem e alguns efeitos especiais, o que a torna mais convincente. Obviamente, esta cena conta também com a abordagem original e divertida de Landis, que foge dos clichês empregando boa dose de humor negro num momento potencialmente tenso. Vale destacar ainda os ótimos efeitos sonoros, que tornam a transformação e os ataques ainda mais reais.

Mesmo com tantas qualidades, “Um Lobisomem Americano em Londres” falha justamente quando precisa criar tensão na plateia. Adotando uma câmera subjetiva que dribla a falta de recursos técnicos, o diretor nos coloca na posição do licantropo nas raras vezes em que ele aparece, numa tentativa de aumentar o suspense que realça o desespero das vítimas, claramente apavoradas com o que veem. Ainda assim, apesar de demonstrar criatividade, ele raramente consegue criar um plano realmente marcante ou um momento de extrema tensão, pendendo sempre para uma narrativa mais leve e recheada de humor negro. De maneira geral, funciona bem, mesmo que raramente consiga fazer o espectador sentir medo de verdade.

No ataque final dentro de um cinema, o curioso comportamento das pessoas reflete como o ser humano não consegue conter sua curiosidade, mesmo diante de uma situação extremamente perigosa. E então o acuado David, ainda na pele de lobisomem, reconhece Alex, num raro instante de delicadeza. O problema é que nós praticamente podemos pressentir que este breve momento não durará por muito tempo e a confirmação vem na tentativa de ataque do monstro, interrompida pelos tiros dos policiais, num final coerente, porém previsível.

Ainda que raramente consiga provocar calafrios, “Um Lobisomem Americano em Londres” é bem sucedido naquilo que se propõe a fazer, que é reviver a lenda de maneira mais leve e divertida, provocando impacto através das poderosas imagens da transformação do protagonista. Se não é uma obra-prima, ainda diverte e certamente está entre os melhores filmes já feitos sobre a maldição do homem que se transforma em lobo.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981)”

  1. JUCY DE JEOVAH Says:

    [comentário removido pelo conteúdo ofensivo]

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