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DOUTOR JIVAGO (1965)

28 janeiro, 2013

(Doctor Zhivago)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #156

Dirigido por David Lean.

Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Alec Guinness, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Tom Courtenay, Siobhan McKenna e Ralph Richardson.

Roteiro: Robert Bolt, baseado em romance de Boris Pasternak.

Produção: Carlo Ponti.

Doutor Jivago[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Especialista na arte de conduzir narrativas grandiosas e dono de um talento ímpar na composição de planos memoráveis, David Lean notabilizou-se por dirigir grandes épicos que, mesmo com longas durações, jamais pareciam capazes de entediar o espectador. Infelizmente, este não é o caso de “Doutor Jivago”. Ainda que exiba a abordagem clássica do diretor e conte com inúmeras sequências plasticamente encantadoras, o longa apresenta um desgaste provocado por excessos que resultam num filme visualmente belíssimo, mas cansativo.

Ambientado antes e durante a Revolução Bolchevique na Rússia, o roteiro escrito por Robert Bolt com base em romance de Boris Pasternak nos apresenta a história do “Doutor Jivago” do título (Omar Sharif) através de um longo flashback narrado pelo irmão dele, o general Yevgraf Zhivago (Alec Guinness), que tenta descobrir se a jovem Anna (Siobhan McKenna) é a filha desaparecida de seu irmão e da bela Lara Antipova (Julie Christie), mulher por quem o doutor se apaixonou durante a guerra, mesmo sendo casado com Tonya Gromeko (Geraldine Chaplin) e ela sendo a esposa de Pasha Strelnikoff (Tom Courtenay), um dos homens importantes da Revolução.

Investindo na pretensiosa missão de contar uma marcante história de amor e narrar em detalhes como ocorreu a Revolução Bolchevique, Lean nos transporta do presente para o passado através da misteriosa conversa inicial entre o general Yevgraf e a jovem Anna, nos apresentando lentamente aos personagens centrais da narrativa: o doutor Yuri Zhivago e Lara. A partir daí, compreendemos a origem sofrida do protagonista e a juventude difícil da garota que supostamente será seu par romântico, mas a evolução do romance não acontece da forma como imaginamos. Sofrendo com o assédio do homem que ajudou a criá-la, Lara evidencia muito cedo que está longe de ser apenas uma mocinha indefesa, mostrando-se forte o bastante para enfrentar os tempos de guerra. Sendo assim, a presença imponente de Julie Christie revela-se vital para o sucesso da personagem e, por contraste, ratifica o quanto Omar Sharif parece desinteressado em alguns instantes, empalidecendo diante da presença da atriz.

Misteriosa conversaOrigem sofridaLonge de ser apenas uma mocinha indefesaAinda assim, o ator consegue demonstrar o dilema do médico quando a paixão por Lara ganha força, o que só ocorre após Lean investir grande parte da narrativa nos acontecimentos que levaram a Revolução a estourar no país. Mais do que dividido entre duas mulheres, Jivago se torna um homem dividido entre duas famílias – como fica claro quando a filha de Lara questiona se ele não acompanha o filho na escola – e o ator ilustra este sofrimento muito bem com seu olhar distante e pensativo. Aliás, o destino trágico daquela atração é indicado desde quando Jivago corteja Lara pela primeira vez com seu rosto encoberto pelas sombras, num dos inúmeros instantes em que Lean abusa de simbolismos elegantes que só enriquecem a narrativa. Observe, por exemplo, como quando ela vai embora após passar um longo tempo como ajudante dele, as flores murcham e indicam seu sentimento de perda – e Lean encerra a cena com um plano que destaca justamente o vaso, já que serão justamente as flores que simbolizarão o renascimento de sua paixão futuramente.

Homem dividido entre duas famíliasRosto encoberto pelas sombrasO vasoDa mesma forma, repare como ele se lembra de Lara ao ver a esposa passando roupa, já que foi justamente quando ela passava roupa que ele tentou beijá-la. Em seguida, as flores surgem em seu quintal e confirmam que ele voltou a se interessar por ela. Após consumar a traição, Lean evita mostrar Jivago, preferindo sugerir o sexo ao compor um plano em que precisamos nos esforçar para encontrar o casal deitado do lado esquerdo da tela, como se evitasse mostrar o resultado daquele ato. E serão novamente as flores ao redor da casa que atormentarão Jivago após um beijo de Tonya e farão com que ele decida dizer a Lara que nunca mais quer vê-la.

Esposa passando roupaEla passava roupaFlores surgem em seu quintalConduzindo “Doutor Jivago” com sua costumeira abordagem contemplativa e elegante, Lean abusa da criação de planos belíssimos, auxiliado pela direção de fotografia de Freddie Young, que oscila entre os tons sombrios e as cenas noturnas que predominam boa parte do primeiro e do segundo ato e as sequências branquíssimas que realçam a beleza da gélida Rússia. Repare, por exemplo, como quando Viktor Komarovsky (Rod Steiger) corteja Lara num jantar, o jogo de luz e sombras, as cortinas roxas e o vestido vermelho da garota criam uma atmosfera pesada e sugerem a natureza pecaminosa do ato. Além disso, o diretor acerta nas cenas mais importantes, como o estupro de Lara e a sua violenta vingança. E fugindo um pouco do classicismo, Lean investe até mesmo em virtuosismos interessantes, como quando a câmera acompanha do lado de fora das janelas o desespero de Viktor ao encontrar a mãe de Lara doente na cama até o instante em que ele sai da casa e entrega o bilhete ao mensageiro. Da mesma forma, ele evita mostrar o corpo nu dela na cama até o último instante no atendimento médico, mantendo um suspense sobre o estado em que ela se encontrava. E finalmente, o diretor faz outro movimento marcante quando a câmera sai de Lara, passa por uma vela, atravessa a janela e mostra Jivago passando na rua, indicando a conexão entre eles.

Sequências branquíssimasNatureza pecaminosa do atoDesespero de ViktorMais uma vez confirmando seu talento para comandar centenas de figurantes, Lean cria sequências memoráveis nas cenas que envolvem numerosos exércitos se movimentando pelos gelados terrenos russos, como na volta dos desertores para casa, em que eles encontram outros soldados pelo caminho e assassinam seus líderes, que marca também o reencontro entre Lara e Jivago. E ainda entre os muitos méritos de sua direção, destaca-se a forma sutil com que ele transmite inúmeras sensações sem necessitar de palavras, como quando a expressão no rosto de Jivago indica a intensidade de um massacre.

Volta dos desertoresReencontro entre Lara e JivagoIntensidade de um massacreEste ambiente político opressor é evidente em “Doutor Jivago” e, ironicamente, acaba ganhando tanto espaço na narrativa que chega a deixar o romance em segundo plano. “Homens felizes não se voluntariam”, afirma um personagem em certo momento, e de fato aquelas pessoas raramente parecem felizes naquele cenário. Entretanto, para ambientar o espectador à Moscou do início do século, Lean conta com mais do que o ambiente político, apoiando-se no excelente design de produção de John Box e nos figurinos de Phyllis Dalton, que recriam os uniformes dos soldados e os vestidos das mulheres, caprichando nas casas e ruas que reconstituem Moscou (o longa foi filmado na Espanha, Finlândia e Canadá) e terminando com objetos menores como os talheres que decoram o suntuoso jantar da alta classe que acontece simultaneamente ao protesto pacífico na rua, onde as vestimentas também surgem impecáveis. E se nos sentimos na Rússia ao ver as ruas cobertas de neve, praticamente podemos sentir o incômodo dos personagens e o frio do rigoroso inverno russo durante uma longa viagem de trem para o interior.

Casas e ruas que reconstituem MoscouSuntuoso jantarFrio do rigoroso inverno russoAliás, o clima tem importante função narrativa, indicando a passagem do tempo em diversos momentos de maneira elegante, como quando a casa amanhece coberta de neve no interior da Rússia, revelando o bom trabalho do montador Norman Savage, que cobre vários anos sem jamais tornar a narrativa episódica. Por outro lado, montador e diretor falham ao estender demais algumas subtramas (especialmente envolvendo a revolução), tirando o foco da linha narrativa mais atraente, que é a relação entre Jivago, Tonya e Lara, e tornando o ritmo de “Doutor Jivago” arrastado demais a partir do segundo ato. Mesmo um verdadeiro mestre na condução de filmes contemplativos como David Lean é capaz de perder a mão.

Quem também merece destaque na parte técnica de “Doutor Jivago” é o excepcional design de som. Observe, por exemplo, como o barulho das batidas nos pregos e da terra sendo jogada no caixão é potencializado no enterro da mãe de Yuri, realçando o impacto dramático daquele momento na vida do garoto. Além disso, o som também tem importante função narrativa em outros instantes, como quando o aumento do volume indica a chegada dos manifestantes ao local onde se encontra a polícia russa. Da mesma forma, é através do som e não das imagens que sabemos de antemão que Lara atirou em Viktor na festa, graças à maneira como Lean conduz a sequência e nos prepara para o ataque dela. Já a trilha sonora composta pelo ótimo Maurice Jarre torna-se um pouco repetitiva ao longo das mais de três horas de duração e acaba perdendo o impacto em certos momentos, mas ainda assim confirma-se como um dos pontos altos de “Doutor Jivago” graças à linda melodia do tema de Lara, imortalizada ao longo dos anos.

Casa amanhece coberta de neveTerra sendo jogada no caixãoLara atirou em ViktorAbordando o nascimento do comunismo de maneira maniqueísta, “Doutor Jivago” também se perde em sua conotação política tendenciosa, mostrando os comunistas como meros selvagens sem coração que destroem vilas e assassinam mulheres e crianças pelo “bem maior”. Assim, acompanhamos pessoas invadindo a casa de Jivago para tomar seus objetos pessoais, sua família sendo obrigada a amontoar-se num cômodo da própria casa e seus filhos passando fome, num retrato cruel daquele momento histórico e que talvez tenha uma dose considerável de exagero. E um último pecado cometido por David Lean é justamente não aproveitar melhor o talento de seu costumeiro colaborador Alec Guinness, que, além de participar pouco da narrativa, ainda é responsável pela desnecessária narração nas memórias de seu reencontro com o irmão, em que o voice-over apenas substitui as falas de seu próprio personagem.

Meros selvagens que destroem vilasPessoas invadindo a casa de JivagoMemórias de seu reencontro com o irmãoMesmo após acompanharmos horas de belas imagens e uma história interessante, a sensação que fica ao final de “Doutor Jivago” é que Lean perdeu um pouco o foco e estendeu demais à narrativa. Ainda assim, o resultado foi bom o bastante para arrastar uma legião de fãs ao longo dos anos. Afinal, um filme de David Lean com problemas ainda é melhor do que a maioria dos filmes voltados para o grande público que vemos por aí.

Doutor Jivago foto 2Texto publicado em 28 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

29 agosto, 2011

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO VI: O RETORNO DE JEDI (1983)

14 outubro, 2010

(Star Wars: Episode VI – The Return of the Jedi)

 

Videoteca do Beto #71

Dirigido por Richard Marquand.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Sebastian Shaw, David Prowse, James Earl Jones, Ian McDiarmid, Frank Oz e Michael Pennington.

Roteiro: George Lucas e Lawrence Kasdan, baseado em história de George Lucas.

Produção: Howard G. Kazanjian.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Visivelmente buscando agradar o público mais jovem e apostando alto nos resultados da bilheteria, “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” só não é uma decepção porque consegue finalizar, ainda que sem grande brilho, a maravilhosa saga espacial de George Lucas. Infelizmente, investe numa narrativa leve, que escancara o apelo infanto-juvenil crescente na saga, e por isso jamais explora o potencial que o capítulo final da série realmente oferecia após o excepcional “O Império Contra-Ataca”.

O temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones), supervisionado de perto pelo poderoso Imperador (Ian McDiarmid), acompanha a construção da nova Estrela da Morte, uma estação que será capaz de aniquilar as tropas rebeldes do universo. Enquanto isso, Luke Skywalker (Mark Hamill) parte para libertar Han Solo (Harrison Ford), a princesa Leia (Carrie Fisher), R2D2 (Kenny Baker), 3-CPO (Anthony Daniels) e Chewbacca (Peter Mayhew) das mãos do cruel Jabba. Após a fuga, todos se envolvem numa batalha galáctica contra o império antes que este conclua a construção da Estrela da Morte.

Após o excelente segundo filme da série, que além de explorar com competência o potencial sombrio do universo Star Wars, apresentava ainda uma revelação empolgante, responsável por elevar a níveis insuportáveis a ansiedade dos fãs para o capítulo final, a saga espacial de George Lucas chegava ao seu capítulo final. Infelizmente, porém, todo o excelente trabalho feito no filme anterior não foi explorado em “O Retorno de Jedi”. Nitidamente, a série preferiu seguir pelo caminho mais lucrativo, adotando uma narrativa mais leve na tentativa de atrair o público jovem (responsável pelas grandes bilheterias da época). Sendo assim, não faltam cenas que abusam do bom humor, o que contrasta diretamente com o tom pessimista de “O Império Contra-Ataca”, como podemos perceber na humorada cena do ritual em que 3-CPO é declarado uma divindade e se recusa a salvar seus amigos da fogueira, quando o mesmo 3-CPO diz para R2D2 que “não é hora para heroísmo” na batalha no planeta dos ewoks ou quando Han grita “consegui!” somente para ver a porta se fechar na sua cara em seguida. Além disso, Lucas infantiliza de vez a série ao inserir na narrativa os ewoks, uma espécie de ursinhos de pelúcia sem a menor graça (ele já havia feito algo parecido ao inserir anões peludos em “THX 1138”, seu filme de estréia). Por outro lado, o roteiro, baseado em história de George Lucas e escrito pelo próprio Lucas, auxiliado por Lawrence Kasdan, apresenta interessantes rimas narrativas com os filmes anteriores, como quando Han diz para Leia “eu te amo” e recebe um “eu sei” como resposta e quando Luke corta a mão de Darth Vader na batalha de sabres de luz.

Todos estes problemas de roteiro poderiam ser amenizados nas mãos de um grande diretor. Só que “grande diretor” não é uma definição adequada para Richard Marquand. Apesar de acertar a mão nas cenas que exigem mais ação, como as batalhas no espaço e no planeta dos ewoks, o diretor erra na condução da narrativa ao estender demais o resgate de Han Solo, prejudicando a seqüência mais interessante do longa, que é o ataque à Estrela da Morte e o esperado confronto final entre o império e os rebeldes. Além disso, Marquand também prefere preservar o tom leve da narrativa, evitando nos chocar, por exemplo, quando não mostra o resultado do ataque feroz do monstro criado por Jabba contra uma vítima indefesa que cai em seu covil por acidente, o que por conseqüência, enfraquece este vilão diante do espectador quando Luke o enfrenta no mesmo local. Ainda assim, o diretor tem seus acertos, como quando diminui o comandante em cena, após bronca de Vader por causa do atraso na construção da nova Estrela da Morte, ilustrando sua impotência diante do grande vilão. Marquand também acerta ao nos colocar sob o ponto de vista de Luke e Leia na empolgante seqüência da perseguição em alta velocidade na floresta a bordo das motos voadoras. E finalmente, o diretor merece crédito também pela condução do esperado confronto entre Darth Vader e Luke Skywalker, numa seqüência carregada de tensão, até pelo arco dramático vivido pela dupla.

Mas se apresenta problemas de roteiro e direção, não podemos dizer o mesmo quando falamos dos aspectos técnicos de “O Retorno de Jedi”. Mantendo a tradição da série, os efeitos visuais da Industrial Light & Magic são excelentes, como podemos notar quando as naves sobrevoam o deserto e, principalmente, nas batalhas no espaço. A fotografia de Alan Hume adota cores vivas, refletindo o tom alegre da narrativa, mas acerta no tom sombrio das cenas que se passam dentro da Estrela da Morte e também no palácio de Jabba. Aliás, os diversos monstros do palácio de Jabba, incluindo o próprio vilão, são bastante realistas para a época, o que reforça a qualidade dos aspectos visuais do longa, perceptível também na interessante cidade dos ewoks, com casas e passarelas dispostas nas árvores. Vale notar ainda como a roupa vermelha dos guardas na chegada do Imperador à Estrela da Morte remete ao aspecto demoníaco daquele vilão poderoso. Não é à toa também que Luke está todo de preto no confronto final com seu pai, ilustrando visualmente o conflito interno que o personagem estava vivendo. Estes pequenos detalhes demonstram o bom trabalho de Aggie Guerard Rodgers e Nilo Rodis-Jamero, responsáveis pelos figurinos. Também se destaca a bela direção de arte de Fred Hole e James L. Schoppe, que capricha no visual interno e externo das naves, no palácio de Jabba e, principalmente, no belíssimo visual dos diversos planetas em festa após a derrota do império e a libertação da galáxia. O som e a trilha sonora também são espetaculares. A trilha de John Williams mantém a marcante música tema da série e suas empolgantes variações, enquanto o som se destaca nas cenas no espaço, com as naves cortando a galáxia, e no duelo entre Luke e Vader, onde podemos distinguir perfeitamente o ruído dos sabres de luz e a voz dos personagens. A montagem de Sean Barton, Duwayne Dunham e Marcia Lucas tem papel fundamental no sucesso das cenas de batalha, mantendo a dinâmica entre os planos sem confundir o espectador, além de alternar entre as duas batalhas (no espaço e no planeta) num ritmo dinâmico e que consegue manter as duas seqüências interessantes.

Interessantes também são os icônicos personagens da série Star Wars, novamente interpretados com competência por todo o elenco. E mais uma vez o destaque fica para Harrison Ford na pele de Han Solo. Observe, por exemplo, a reação irônica de Han quando Luke diz que vai salvá-los no deserto ou sua cara de decepção quando Leia diz que sente a presença de Luke após a destruição da Estrela da Morte. Leia, novamente interpretada por Carrie Fisher, que finalmente assume seu amor por Han quando parte para resgatá-lo no planeta Tatooine. E ainda que não tenha o peso da revelação bombástica de “O Império Contra-Ataca”, até por que os momentos que a precedem apontam claramente para esta possibilidade, a revelação de Yoda sobre Leia pode provocar alguma surpresa no espectador. Da mesma forma, a revelação de Luke para Leia não provoca um choque tão grande na moça, que reage com naturalidade, como se já imaginasse tudo aquilo. Em compensação, quando Luke se retira e Han se aproxima, Fisher demonstra com competência o conflito de sentimentos da personagem. Darth Vader está novamente sombrio, muito por causa da poderosa voz de James Earl Jones e do visual caprichado do personagem. Quem também está bastante sombrio é Ian McDiarmid como o Imperador, se destacando na conversa que tem com Luke, com expressões faciais que buscam intimidar o jovem Jedi. E finalmente chegamos ao grande herói da série Star Wars, interpretado com carisma por Mark Hamill. Logo em sua chegada ao palácio de Jabba, Luke demonstra seu poder, agora já treinado como um cavaleiro Jedi, ainda que para se tornar um verdadeiro Jedi ele precisa derrotar Vader. Hamill demonstra bem a confiança de Luke, com o olhar determinado e a voz firme. Em outro momento, quando Yoda confirma que Vader é seu pai, Luke reage com certa decepção e inconformismo, e esta reação é verossímil por causa da boa atuação de Hamill.

Se não entrega um resultado maravilhoso, “O Retorno de Jedi” pelo menos cumpre o que se espera do encerramento da série, ao concluir o arco dramático de Luke Skywalker e Darth Vader, quando o vilão se volta contra o Imperador para proteger seu filho e o mata. Anakin Skywalker estava de volta para o lado bom da “força” e o próprio aspecto visual do ex-vilão, quando Luke retira sua máscara, reflete isto. Seu rosto branco, embora desfigurado, ilustra a paz interior que ele agora sentia. Paz também sente o espectador ao ver o final feliz da série, mas assim como Darth Vader em seu momento final, os mais exigentes podem sentir um gosto amargo, porque após o sensacional segundo filme, este encerramento certamente se revela inferior à expectativa.

Embora entregue aquilo que se propõe a fazer e feche a trilogia de maneira satisfatória, “O Retorno de Jedi” não consegue repetir o excelente resultado de “O Império Contra-Ataca”, limitando-se a encerrar a narrativa de maneira burocrática e voltada para o público jovem. Ainda assim, ganha pontos importantes por representar o encerramento de uma história criativa, interessante e que marcou um momento importante na história do cinema mundial.

Texto publicado em 14 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO V: O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (1980)

12 outubro, 2010

(Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back)

 

Videoteca do Beto #70

Dirigido por Irvin Keshner.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, David Prowse, Peter Mayhew, James Earl Jones (Darth Vader – voz), Frank Oz (Yoda – voz), Jeremy Bulloch e Clive Revill (Imperador Cos Palpatine – voz).

Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseado em história de George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Adotando um tom sensivelmente mais sombrio e desenvolvendo melhor os personagens que em “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança”, George Lucas, que abriu mão até mesmo da direção para assumir a produção executiva e ter maior controle sobre a obra, entrega o melhor filme da trilogia neste maravilhoso “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca”, que além de ter uma narrativa ainda mais interessante, conta com uma revelação bombástica que abalou os alicerces de toda a trilogia e certamente fez muitos fãs saltarem das cadeiras nos cinemas de todo o mundo.

Comandadas pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones), as forças do império atacam impiedosamente os membros da resistência que se encontram refugiados num planeta distante. Após conseguir escapar, os membros partem para o ponto de encontro, mas Luke Skywalker (Mark Hamill) decide alterar sua rota na tentativa de encontrar o mestre jedi Yoda (voz de Frank Oz), que poderá ensiná-lo a dominar “a força” e torná-lo um cavaleiro jedi. Ao mesmo tempo, Darth Vader parte em busca do rapaz com a intenção de convencê-lo a mudar para o lado negro da “força”.

Conforme planejado por George Lucas antes mesmo do início da trilogia, “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta uma narrativa mais elaborada que seu antecessor, ao nos revelar outros aspectos e motivações daqueles interessantes personagens apresentados no primeiro filme. Sendo assim, algumas respostas vagamente respondidas anteriormente agora aparecem de maneira bastante clara, como os motivos do grande interesse de Vader por Skywalker e as razões pelas quais Kenobi (Alec Guinness) praticamente adota o jovem no início da jornada. Este aspecto da narrativa claramente ajuda os atores a explorarem ainda mais o potencial dramático de seus personagens e praticamente todos oferecem um desempenho memorável. Hamill, por exemplo, se sai muito bem na pele de Skywalker, demonstrando com exatidão a determinação daquele jovem na tentativa de se tornar um jedi, mas principalmente, sua obstinação em defender seus parceiros das forças do mal. O ator se destaca ainda nos momentos bem humorados, como quando Luke ganha um beijo de Leia na frente de Han Solo (Harrison Ford) e cruza os braços atrás da cabeça com um ar de satisfação. Já Harrison Ford confirma que é de longe o melhor ator do elenco, interpretando de maneira firme e determinada o simultaneamente durão e carismático Han Solo. Além disso, o ator se destaca naquela que é uma de suas maiores especialidades (o que ficaria claro na série “Indiana Jones”) ao provocar o riso de maneira natural, principalmente durante suas brigas com a princesa Leia. Leia que é novamente interpretada por Carrie Fisher, que demonstra empatia com Ford, apesar de não saber se quer mesmo ficar com Han ou Luke. Mudando para o lado negro da “força”, Darth Vader continua ameaçador, com sua capa preta e sua voz poderosa (voz de James Earl Jones) mantendo sua enorme capacidade de intimidar seus adversários. Sua crueldade aparece, por exemplo, quando mata sem hesitar um comandante que falhou numa missão. A partir dali, o espectador já sabe que pode esperar qualquer coisa deste temível vilão. E fechando os destaques do elenco, Alec Guinness novamente demonstra serenidade nas poucas aparições de Kenobi, Anthony Daniels garante os momentos de alivio cômico com as tiradas do robô C3PO e Frank Oz é o responsável pela marcante voz do mestre Yoda.

No comando de toda esta gente está Irvin Keshner, o homem escolhido por Lucas para tocar seu grande projeto. Felizmente, o diretor dá um verdadeiro show, especialmente nas sensacionais cenas no espaço, onde as naves cortam o universo em alta velocidade com a câmera acompanhando seu trajeto. Keshner nos leva por dentro de asteróides e em volta de planetas com incrível realismo, graças também ao excepcional trabalho de efeitos visuais da Industrial Light & Magic, além da montagem ágil de Paul Hirsch e Marcia Lucas, que aumenta o clima de urgência. Os montadores continuam utilizando os fades e as transições de imagens que remetem aos seriados de TV, mantendo o tom episódico da trilogia, apresentam um interessante raccord através da neve quando Luke e Han estão esperando resgate, mas se destacam mesmo nas cenas de perseguição no espaço, alternando com dinamismo entre os interessantes planos de Keshner. Nestas seqüências, vale prestar atenção também no incrível trabalho de som e efeitos sonoros, que nos permite identificar cada barulho de tiro, cada fala dita pelos personagens e o som das naves cortando o espaço. O som se destaca também na tensa seqüência do congelamento de Han, através do barulho das máquinas trabalhando. Voltando a Keshner, o diretor ainda utiliza a câmera para nos transmitir as sensações dos personagens, por exemplo, na cena em que Han, Leia, os robôs e Chewbacca (Peter Mayhew) sentem um tremor num suposto asteróide e descobrem, minutos depois, que na realidade estão dentro da barriga de um monstro espacial.

E se “O Império Contra-Ataca” nos transporta para lugares fascinantes, é porque a boa direção de Keshner conta também com o excelente apoio de sua equipe técnica. Além dos já citados fabulosos efeitos visuais da Industrial Light & Magic, merece destaque a direção de fotografia de Peter Suschitzky, que realça inicialmente cores frias (com muito gelo e neve na seqüência inicial) que gradualmente são alteradas para tons obscuros (com a predominância do preto), realçando o clima mais sombrio deste segundo filme. Os figurinos de John Mollo, além de criarem o visual marcante de Darth Vader, ajudam na ambientação do espectador ao universo “Star Wars”, através das roupas espaciais dos personagens. Obviamente, a direção de arte (créditos para Leslie Dilley, Harry Lange e Alan Tomkins) também colabora, ao criar o visual arrebatador de cidades incríveis, como aquela em que vive o divertido e ambíguo Lando Calrissian, interpretado com carisma por Billy Dee Williams. Finalmente, a trilha sonora marcante de John Williams está novamente presente, agora com uma variação interessante (e sombria) quando Darth Vader está em cena.

Escrito por Leigh Brackett e Lawrence Kasdan (baseado em história de George Lucas), o roteiro mostra logo na introdução seu tom obscuro, quando informa que as forças do império forçaram a fuga dos membros da resistência de seu planeta, contrariando o final alegre do primeiro filme. Além disso, introduz de maneira correta dois personagens importantes na narrativa. O primeiro (e menos importante deles) é o imperador Cos Palpatine (voz de Clive Revill), que dita às regras para Darth Vader e deixa claro sua importância somente pelo fato do grande vilão temê-lo e respeitá-lo. O segundo é o fascinante Yoda, uma espécie de guru espiritual que não aparenta ter a força que realmente tem. Seu aspecto físico provoca até mesmo um choque no espectador, que esperava, com base nas respeitosas menções anteriores ao seu nome, alguém imponente. Porém Yoda prova que a verdadeira força do ser humano está na mente e encanta o espectador durante o treinamento de Luke. E ao contrário de “Uma Nova Esperança”, desta vez o roteiro desenvolve muito bem os personagens, nos mostrando suas verdadeiras motivações e deixando claro que Vader e Skywalker são os dois lados da mesma força, numa interessante representação do bem e do mal existente no universo. Além disso, o arco dramático de Luke Skywalker finalmente se completa, no momento da bombástica revelação de Darth Vader, que explica uma série de situações insinuadas sutilmente até então. A importância do pai de Luke para Kenobi e para o universo fica clara e o jovem sabe, a partir daquele instante, que passará a viver um intenso conflito interior na busca da defesa do universo (e Hamill demonstra bem este choque na cena, auxiliado também pelo close de Keshner). Vale observar como toda a composição da cena aumenta ainda mais o impacto da revelação. Após um intenso duelo de sabres de luz (repare que até mesmo as cores das armas representam a luta entre o bem e o mal), os dois personagens, à beira de um abismo, discutem até que Vader, filmado em ângulo baixo para aumentar a sensação de poder, diz a famosa frase “Eu sou sei pai!”. Luke está em choque e o espectador também.

“Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta um momento histórico do cinema, parodiado inúmeras vezes desde então, que é capaz até hoje de chocar aqueles que jamais ouviram falar desta revelação. Com sua atmosfera sombria e seu final obscuro que, ao contrário do longa anterior, deixa o terreno preparado para sua continuação, George Lucas arrebatou de vez os corações cinéfilos e os deixou mais que ansiosos para acompanhar o encerramento desta verdadeira saga espacial.

Texto publicado em 12 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO IV: UMA NOVA ESPERANÇA (1977)

10 outubro, 2010

(Star Wars: Episode IV – A New Hope)

 

Videoteca do Beto #69

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, Phil Brown, Shelagh Fraser, Alex McCrindle, Eddie Byrne e James Earl Jones (Darth Vader – Voz).

Roteiro: George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa simples, que serve de introdução ao complexo universo da trilogia Star Wars, efeitos especiais magníficos e personagens que personificam a eterna luta ente as forças do bem e do mal, “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é o marco inicial de um momento histórico do cinema, quando os grandes estúdios perceberam a importância do público jovem e passaram a priorizar produções voltadas para este público. Mas ao contrário da maioria das produções contemporâneas, o longa dirigido por George Lucas exala criatividade, levando o espectador numa viagem inesquecível por cenários e personagens fascinantes.

O jovem Luke Skywalker (Mark Hamill) se vê envolvido numa verdadeira guerra intergaláctica quando seu tio (Phil Brown) compra os robôs C3PO (Anthony Daniels) e R2D2 (Kenny Baker) e encontra com eles uma mensagem da princesa Leia Organa (Carrie Fisher) para Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness), alertando sobre os planos do poderoso império liderado pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones). Luke e Kenobi se juntam então ao mercenário Han Solo (Harrison Ford) e ao feioso Chewbacca (Peter Mayhew) e partem para enfrentar as forças do mal.

“Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é uma grande aventura. Falar sobre ele hoje, mais de trinta anos após o seu lançamento, não é tarefa fácil, principalmente porque não é possível medir o tamanho de seu impacto na cultura cinematográfica com exatidão. Mas para se ter uma pequena idéia da importância do filme, basta dizer que a ópera espacial de George Lucas marca (ao lado de Tubarão, de seu amigo Spielberg) o inicio dos blockbusters, com sua narrativa ágil, voltada para o público jovem, repleta de efeitos especiais e muita ação. Mas ao contrário de muitos dos filmes atuais do gênero, a narrativa de “Uma Nova Esperança” é muito interessante e os efeitos especiais, ainda que impecáveis, não são um fim, mas apenas um meio utilizado para colaborar com o andamento da trama. “Uma Nova Esperança” é também o responsável por nos apresentar aos encantadores personagens do universo “Star Wars”. Alguns deles nos acompanharão por toda a trilogia, enquanto outros ficarão pelo caminho, mas é incrível notar como praticamente todos conseguem deixar sua marca na memória do espectador. Neste primeiro filme da trilogia, estes personagens não são plenamente desenvolvidos e, por isso, nós pouco sabemos sobre seu passado e suas motivações. Sabemos que a princesa Leia se rebela contra o império e que Darth Vader quer destruir determinado planeta, mas não sabemos por que o vilão deseja fazer aquilo. E qual a natureza da relação entre Kenobi e o pai de Skywalker? Algumas respostas até começam a aparecer de maneira sutil, mas o primeiro filme serve mesmo apenas como preparação para o restante da trilogia.

Ainda assim, os personagens de “Uma Nova Esperança” se destacam. A começar pelo vilão da história, provavelmente presente em quase todas as listas de grandes vilões da história do cinema. A caracterização de Darth Vader é perfeita, desde o figurino completamente preto (figurinos de John Mollo), passando pela voz firme e ameaçadora de James Earl Jones e terminando com seu sabre de luz vermelha, numa completa personificação do mal. Já Luke Skywalker é exatamente o oposto do vilão e seu figurino branco ajuda a reforçar esta idéia. Interpretado pelo carismático Mark Hamill, Luke é a força que equilibra o universo na eterna luta do bem contra o mal. Hamill demonstra muito bem a gradual transformação do personagem, inicialmente inocente, no grande herói da narrativa. No entanto, ainda que algumas dicas sejam dadas no primeiro filme, seu arco dramático só se completará mesmo no segundo filme (mas vamos deixar este assunto para a crítica de “O Império Contra-Ataca”). Já a princesa Leia, além de corajosa e determinada, demonstra um interessante conflito de sentimentos ao não saber se gosta mais de Han Solo ou de Luke Skywalker e Carrie Fisher demonstra este dilema com competência. Além disso, suas constantes discussões com Han servem como alívio cômico para a narrativa, desafogando a tensão em diversos momentos (e nestas cenas, Fisher consegue contracenar muito bem com o talentoso Harrison Ford). Ford, aliás, que aparece somente com quase uma hora de projeção, o que é suficiente para que ele roube a cena e demonstre todo seu talento, compondo um Han Solo egoísta, representando com exatidão o estereótipo do malandro, ao buscar sempre uma solução que melhor lhe convenha, independente de prejudicar os outros ou não. E finalmente, Alec Guinness demonstra segurança na pele do jedi Obi-Wan Kenobi, transmitindo muita segurança nos ensinamentos do veterano para o jovem Luke. Seu duelo de sabres de luz com Darth Vader é tenso, porém jamais alcança a intensidade de outro duelo similar que aconteceria no segundo filme da trilogia, não por causa do ator e sim por causa da carga dramática infinitamente maior no segundo duelo. Vale citar ainda os apaixonantes robôs C3PO e R2D2, interpretados por Anthony Daniels e Kenny Baker, além de Chewbacca, vivido por Peter Mayhew, cuja aparência assustadora é inversamente proporcional à bondade de seu coração.

Além dos fascinantes personagens, “Uma Nova Esperança” conta ainda com a empolgante trilha sonora de John Williams, tão marcante que até mesmo quem nunca assistiu ao filme é capaz de reconhecê-la. A fotografia de Gilbert Taylor destaca cores sem vida no planeta Tatooine, conferindo um visual árido, que reflete a vida dura daquelas pessoas constantemente ameaçadas pelo império. Por outro lado, quando a ação se passa na nave de Darth Vader, a fotografia sombria, que destaca o azul escuro e o preto, representa a maldade que paira sobre o local. Todo este cuidado com o aspecto visual é impressionante, desde as inúmeras criaturas que cruzam pela narrativa (como o perigoso Jabba) até as imponentes naves que cortam em alta velocidade o espaço sideral, atestando a qualidade dos sensacionais efeitos visuais da Industrial Light & Magic. E obviamente, as seqüências de perseguição e combate no espaço marcam alguns dos grandes momentos do longa, graças à condução segura e competente de George Lucas.

E chegamos então ao grande idealizador de “Star Wars”. O criativo cineasta pertence à geração que marcou o cinema norte-americano, no movimento que ficou conhecido como “nova Hollywood”. Mas ao contrário de Coppola e Scorsese, que seguiram outro caminho, preferindo filmes sombrios e personagens extremamente complexos, Lucas (assim como o amigo Spielberg) seguiu pelo caminho do chamado “cinema-pipoca”, voltado para o público jovem, mas que nem por isso subestima a inteligência de seu espectador. Neste primeiro episódio da velha trilogia, Lucas nos apresenta um visual esplêndido nas cenas espaciais, graças aos belos planos e enquadramentos do diretor. Repare também como quando Luke e Kenobi chegam numa vila para negociar com Han a utilização de uma nave, o plano geral de Lucas destaca o belo trabalho de direção de arte de Leslie Dilley e Norman Reynolds, que cria uma vila diferente e impressionante, repleta de detalhes em cada uma de suas imponentes construções. Lucas é responsável também pelo bom roteiro de “Uma Nova Esperança”, que além de conter interessantes reviravoltas, como quando Han inesperadamente retorna para ajudar Luke, faz pequenas menções ao pai de Skywalker, deixando claro o peso que sua ausência tem na vida do rapaz. A narrativa é coesa e muito bem conduzida pelo diretor, auxiliado também pela boa montagem do trio Richard Chew, Paul Hirsch e Marcia Lucas, que imprime um ritmo mais lento no primeiro ato, acelerando a partir do segundo e chegando ao clímax no terceiro, já num ritmo de tirar o fôlego bastante coerente com uma aventura. Colabora com esta sensação de urgência a câmera ágil de Lucas, especialmente nas batalhas espaciais, alternando, sem jamais soar confusa, entre os planos abertos que nos mostram as naves e os planos fechados que ilustram a tensão dos pilotos. A montagem utiliza ainda com freqüência o fade e a transição de imagens que se sobrepõem na tela, dando um ar episódico proposital à narrativa. O diretor queria que o filme se parecesse com os seriados norte-americanos e este efeito dá esta sensação. Talvez o único problema de “Uma Nova Esperança” seja o seu final pouco aberto à continuação, que não deixa a sensação de “quero mais” esperada para um primeiro filme de trilogia. Além disso, sua narrativa não consegue desenvolver os personagens completamente, mas este não chega a ser um problema, já que este desenvolvimento seria feito com maestria no segundo filme e foi planejado pelo diretor. Ainda assim, o longa consegue um resultado bastante satisfatório, se estabelecendo como uma aventura capaz de nos transportar para outro universo de maneira mais que eficiente.

Responsável por criar uma verdadeira legião de fãs e preparar o terreno para o maravilhoso “O Império Contra-Ataca”, “Star Wars, uma nova esperança” jamais alcança os níveis de tensão e o aspecto sombrio de sua seqüência, mas ainda assim consegue agradar o espectador ao nos apresentar personagens importantes, cenários magníficos e uma história capaz de prender a atenção com sua narrativa ágil, inteligente e bem conduzida. Assim como o poderoso ataque da estrela da morte, George Lucas deixou sua marca neste importante filme de estréia da trilogia “Star Wars”.

Texto publicado em 10 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

23 setembro, 2009

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira