LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

BEN-HUR (1959)

(Ben-Hur)

 

Videoteca do Beto #39

Vencedores do Oscar #1959

Dirigido por William Wyler.

Elenco: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O’Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph e André Morell.

Roteiro: Karl Tunberg, baseado em livro de Lew Wallace.

Produção: Sam Zimbalist.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandiosidade. Esta é a palavra que resume os números megalomaníacos do épico “Ben-Hur”, superprodução dirigida por William Wyler e estrelada por Charlton Heston, que utilizou milhares de figurantes em aproximadamente trezentas locações, felizmente, para contar uma bela estória de forma bastante competente. Com cores vivas e um visual deslumbrante, o longa narra a trajetória de um jovem judaico que vive uma verdadeira odisséia na Judéia dominada por romanos nos tempos de Jesus Cristo – que, aliás, cruza seu caminho em momentos cruciais de sua vida.

O ano é 26 d.C., a cidade é Jerusalém. Lá vive Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu que reencontra, após muitos anos, seu amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora retornando ao local como o chefe das legiões romanas que comandam a cidade. Após divergirem em questões políticas, nasce um ódio recíproco e Messala condena o judeu a viver como escravo em um navio romano de guerra, mesmo sabendo da inocência do amigo. Muitos anos depois, após sobreviver milagrosamente ao período de escravidão, Ben-Hur voltará para buscar sua vingança, de uma forma que somente o destino poderia lhe proporcionar.

O visual deslumbrante de “Ben-Hur” é resultado de um trabalho técnico em conjunto da mais alta qualidade. A começar pela perfeccionista Direção de Arte da dupla Edward C. Carfagno e William A. Horning, que trabalha detalhadamente em cada uma das muitas locações que o longa utiliza, conferindo bastante realismo e ambientando perfeitamente o espectador à trama. Colaboram também os belíssimos figurinos de Elizabeth Haffenden, que têm ainda função narrativa, por exemplo, durante a corrida de bigas (ou quadrigas, já que eram puxadas por quatro cavalos). Observe como o cavalo de Judah é branco e sua roupa é azul ao passo que Messala utiliza cavalos negros e roupas pretas, claramente simbolizando o lado bom e o lado mau da disputa. Além disso, a biga grega utilizada por Messala reforça ainda mais sua crueldade junto ao espectador. Já a direção de fotografia de Robert Surtees aproveita ao máximo a beleza da região para criar um esplendor visual repleto de cores vivas e intensas. Como podemos perceber na cena crucial para o destino de Judah, o som também é importante, avisando que a telha está solta momentos antes dela cair em cima dos romanos e selar seu destino. Finalmente, a marcante trilha sonora pontua diversos momentos do longa de forma magnífica e é mérito de Miklós Rózca.

Ainda na parte técnica, note como a narrativa dá alguns saltos longos na estória de forma sutil e elegante, graças à boa montagem de John D. Dunning e Ralph E. Winters. Repare, por exemplo, como logo após ser preso, Ben-Hur é questionado por Arrius sobre há quanto tempo ele é um escravo remador. A resposta (três anos) indica a passagem do tempo (no filme passaram-se apenas alguns minutos). Em outro momento, logo após chegar a Roma, Arrius diz que Ben-Hur é o melhor corredor de bigas que ele tem, com cinco vitórias em cinco anos. Por outro lado, a montagem estende demais o terceiro ato. Após o grande clímax (a vitória de Judah contra Messala) o longa leva muito tempo para resolver o conflito derradeiro (a lepra da família Hur). Felizmente, esta resolução acontece de forma arrebatadora, o que ameniza o problema. A narrativa também cruza de forma interessante com diversos acontecimentos bíblicos, utilizando a história de Jesus (o filme inicia com o nascimento dele e termina com sua crucificação) como pano de fundo para contar a estória de vingança de Judah Ben-Hur. Observe como o inteligente roteiro de Karl Tunberg (baseado em livro de Lew Wallace) insere na narrativa diversas cenas que servem para nos situar cronologicamente na estória, como a chegada de José e Maria à Judéia, o sermão de Jesus no monte, a escolha de Pilatos para comandar a região e, finalmente, a crucificação. Num destes momentos, aliás, acontece o tocante primeiro encontro entre Judah e Jesus. Repare como o rosto de Jesus não é mostrado (algo que se repetiria durante toda a narrativa), já que ele, neste caso, é apenas um coadjuvante na estória. Por outro lado, este homem tem profundo impacto na vida de Judah, como o segundo e ainda mais marcante encontro entre eles mostrará. O roteiro escapa ainda do maniqueísmo ao retratar Arrius como um romano bom, evitando assim o pensamento generalista de que todos romanos são pessoas cruéis e sem coração.

E se os dois encontros entre Ben-Hur e Jesus são emocionantes, é porque as atuações são igualmente convincentes. Charlton Heston tem uma atuação bastante enérgica, explorando muito bem sua força física, mas obtendo sucesso também nos momentos dramáticos, como quando revê a mãe e a irmã assoladas pela lepra, e posteriormente, quando as vê curadas, além dos citados encontros com Jesus Cristo. Jack Hawkins cria um Quintus Arrius incrivelmente ambíguo, capaz de enxergar entre os escravos alguém com potencial para suprir a falta que sentia de seu filho, preenchendo este vazio em sua vida. Stephen Boyd mantém o bom nível das atuações como o cruel Messala. Inicialmente amistoso e até mesmo demonstrando sentimentos por Ben-Hur, sua paixão se transforma em ódio de forma proporcional, o que faz dele um inimigo temível. O primeiro diálogo entre os amigos sugere a existência de um romance, que fica ainda mais evidente quando entrelaçam os braços para tomar vinho. Ele não mede esforços para vingar-se de Judah e não perdoa até mesmo a família Hur na primeira chance que tem de prendê-los. Completando o elenco, Hugh Griffith merece destaque como o Xeique Ilderim, que cuida dos cavalos como se fossem suas esposas e garante momentos de bom humor, como quando aposta com Messala que vencerá a corrida.

William Wyler conduz a narrativa com extrema competência, criando seqüências absolutamente inesquecíveis. A batalha naval que culmina com a fuga de Ben-Hur é sensacional. Extremamente realista, flui em um ritmo alucinante, que é mérito também da excelente montagem, e nos brinda com imagens marcantes, como a das centenas de escravos remando e a invasão dos inimigos romanos no navio. Já a incrivelmente bem orquestrada cena da corrida de bigas é o ponto alto do filme, prendendo o espectador de forma única e criando uma série de imagens absolutamente incríveis. Toda a cena é visualmente perfeita, repleta de planos magníficos e carregada de adrenalina. É impossível não se envolver na competição e torcer pelo sucesso de Ben-Hur e a forma como Wyler conduz a corrida é responsável por isso. O diretor alterna entre planos distantes que mostram a grandiosidade do local, com arquibancadas lotadas e a enorme pista de corrida, e planos inacreditavelmente realistas, muito próximos dos cavalos e dos competidores, praticamente nos jogando dentro da arena e nos fazendo sentir a emoção da corrida. Apesar de aparecer apenas por alguns instantes durante a chegada de Judah, a cidade de Roma apresentada em “Ben-Hur” também é incrivelmente imponente e grandiosa, refletindo o poder daquele império na época. Finalmente, Wyler conduz muito bem os momentos mais importantes dramaticamente, como o reencontro entre Ben-Hur e Messala, quando Judah entra no palácio dizendo “Você está errado Messala!” com o rosto encoberto nas sombras e os dois reencontros opostos entre Ben-Hur e sua família (o primeiro carregado de tristeza e de dor, e o segundo repleto de alegria).

A mensagem de paz e amor de Jesus toca o coração de Judah, que finalmente se convence que a violência só gera mais violência. A forma como Jesus reagiu a toda a dor que sofreu causou grande impacto em Ben–Hur e o interessante final, com o sangue dele sendo lavado pela água da chuva, seguido pelo plano que encerra o longa, com um pastor liderando as ovelhas (que claramente simboliza Jesus Cristo), deixa clara a ligação entre a fé no cristianismo e a cura das doenças da família Hur. A vingança não resultou em redenção para o jovem Judah Ben-Hur, que só encontrou realmente a paz quando olhou na face de um homem infinitamente mais bondoso que ele próprio.

Utilizando a história mais famosa de todos os tempos como pano de fundo, “Ben-Hur” brinda o espectador com um espetáculo visual de enorme escala para narrar a vida do jovem que volta à sua terra natal em busca de vingança, e acaba encontrando a verdadeira paz interior. Dirigido magistralmente por William Wyler e contando ainda com ótimas atuações, prova definitivamente que as superproduções podem ter enorme valor, desde que utilizem seus recursos para contar belas histórias.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira