DOUTOR JIVAGO (1965)

(Doctor Zhivago)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #156

Dirigido por David Lean.

Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Alec Guinness, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Tom Courtenay, Siobhan McKenna e Ralph Richardson.

Roteiro: Robert Bolt, baseado em romance de Boris Pasternak.

Produção: Carlo Ponti.

Doutor Jivago[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Especialista na arte de conduzir narrativas grandiosas e dono de um talento ímpar na composição de planos memoráveis, David Lean notabilizou-se por dirigir grandes épicos que, mesmo com longas durações, jamais pareciam capazes de entediar o espectador. Infelizmente, este não é o caso de “Doutor Jivago”. Ainda que exiba a abordagem clássica do diretor e conte com inúmeras sequências plasticamente encantadoras, o longa apresenta um desgaste provocado por excessos que resultam num filme visualmente belíssimo, mas cansativo.

Ambientado antes e durante a Revolução Bolchevique na Rússia, o roteiro escrito por Robert Bolt com base em romance de Boris Pasternak nos apresenta a história do “Doutor Jivago” do título (Omar Sharif) através de um longo flashback narrado pelo irmão dele, o general Yevgraf Zhivago (Alec Guinness), que tenta descobrir se a jovem Anna (Siobhan McKenna) é a filha desaparecida de seu irmão e da bela Lara Antipova (Julie Christie), mulher por quem o doutor se apaixonou durante a guerra, mesmo sendo casado com Tonya Gromeko (Geraldine Chaplin) e ela sendo a esposa de Pasha Strelnikoff (Tom Courtenay), um dos homens importantes da Revolução.

Investindo na pretensiosa missão de contar uma marcante história de amor e narrar em detalhes como ocorreu a Revolução Bolchevique, Lean nos transporta do presente para o passado através da misteriosa conversa inicial entre o general Yevgraf e a jovem Anna, nos apresentando lentamente aos personagens centrais da narrativa: o doutor Yuri Zhivago e Lara. A partir daí, compreendemos a origem sofrida do protagonista e a juventude difícil da garota que supostamente será seu par romântico, mas a evolução do romance não acontece da forma como imaginamos. Sofrendo com o assédio do homem que ajudou a criá-la, Lara evidencia muito cedo que está longe de ser apenas uma mocinha indefesa, mostrando-se forte o bastante para enfrentar os tempos de guerra. Sendo assim, a presença imponente de Julie Christie revela-se vital para o sucesso da personagem e, por contraste, ratifica o quanto Omar Sharif parece desinteressado em alguns instantes, empalidecendo diante da presença da atriz.

Misteriosa conversaOrigem sofridaLonge de ser apenas uma mocinha indefesaAinda assim, o ator consegue demonstrar o dilema do médico quando a paixão por Lara ganha força, o que só ocorre após Lean investir grande parte da narrativa nos acontecimentos que levaram a Revolução a estourar no país. Mais do que dividido entre duas mulheres, Jivago se torna um homem dividido entre duas famílias – como fica claro quando a filha de Lara questiona se ele não acompanha o filho na escola – e o ator ilustra este sofrimento muito bem com seu olhar distante e pensativo. Aliás, o destino trágico daquela atração é indicado desde quando Jivago corteja Lara pela primeira vez com seu rosto encoberto pelas sombras, num dos inúmeros instantes em que Lean abusa de simbolismos elegantes que só enriquecem a narrativa. Observe, por exemplo, como quando ela vai embora após passar um longo tempo como ajudante dele, as flores murcham e indicam seu sentimento de perda – e Lean encerra a cena com um plano que destaca justamente o vaso, já que serão justamente as flores que simbolizarão o renascimento de sua paixão futuramente.

Homem dividido entre duas famíliasRosto encoberto pelas sombrasO vasoDa mesma forma, repare como ele se lembra de Lara ao ver a esposa passando roupa, já que foi justamente quando ela passava roupa que ele tentou beijá-la. Em seguida, as flores surgem em seu quintal e confirmam que ele voltou a se interessar por ela. Após consumar a traição, Lean evita mostrar Jivago, preferindo sugerir o sexo ao compor um plano em que precisamos nos esforçar para encontrar o casal deitado do lado esquerdo da tela, como se evitasse mostrar o resultado daquele ato. E serão novamente as flores ao redor da casa que atormentarão Jivago após um beijo de Tonya e farão com que ele decida dizer a Lara que nunca mais quer vê-la.

Esposa passando roupaEla passava roupaFlores surgem em seu quintalConduzindo “Doutor Jivago” com sua costumeira abordagem contemplativa e elegante, Lean abusa da criação de planos belíssimos, auxiliado pela direção de fotografia de Freddie Young, que oscila entre os tons sombrios e as cenas noturnas que predominam boa parte do primeiro e do segundo ato e as sequências branquíssimas que realçam a beleza da gélida Rússia. Repare, por exemplo, como quando Viktor Komarovsky (Rod Steiger) corteja Lara num jantar, o jogo de luz e sombras, as cortinas roxas e o vestido vermelho da garota criam uma atmosfera pesada e sugerem a natureza pecaminosa do ato. Além disso, o diretor acerta nas cenas mais importantes, como o estupro de Lara e a sua violenta vingança. E fugindo um pouco do classicismo, Lean investe até mesmo em virtuosismos interessantes, como quando a câmera acompanha do lado de fora das janelas o desespero de Viktor ao encontrar a mãe de Lara doente na cama até o instante em que ele sai da casa e entrega o bilhete ao mensageiro. Da mesma forma, ele evita mostrar o corpo nu dela na cama até o último instante no atendimento médico, mantendo um suspense sobre o estado em que ela se encontrava. E finalmente, o diretor faz outro movimento marcante quando a câmera sai de Lara, passa por uma vela, atravessa a janela e mostra Jivago passando na rua, indicando a conexão entre eles.

Sequências branquíssimasNatureza pecaminosa do atoDesespero de ViktorMais uma vez confirmando seu talento para comandar centenas de figurantes, Lean cria sequências memoráveis nas cenas que envolvem numerosos exércitos se movimentando pelos gelados terrenos russos, como na volta dos desertores para casa, em que eles encontram outros soldados pelo caminho e assassinam seus líderes, que marca também o reencontro entre Lara e Jivago. E ainda entre os muitos méritos de sua direção, destaca-se a forma sutil com que ele transmite inúmeras sensações sem necessitar de palavras, como quando a expressão no rosto de Jivago indica a intensidade de um massacre.

Volta dos desertoresReencontro entre Lara e JivagoIntensidade de um massacreEste ambiente político opressor é evidente em “Doutor Jivago” e, ironicamente, acaba ganhando tanto espaço na narrativa que chega a deixar o romance em segundo plano. “Homens felizes não se voluntariam”, afirma um personagem em certo momento, e de fato aquelas pessoas raramente parecem felizes naquele cenário. Entretanto, para ambientar o espectador à Moscou do início do século, Lean conta com mais do que o ambiente político, apoiando-se no excelente design de produção de John Box e nos figurinos de Phyllis Dalton, que recriam os uniformes dos soldados e os vestidos das mulheres, caprichando nas casas e ruas que reconstituem Moscou (o longa foi filmado na Espanha, Finlândia e Canadá) e terminando com objetos menores como os talheres que decoram o suntuoso jantar da alta classe que acontece simultaneamente ao protesto pacífico na rua, onde as vestimentas também surgem impecáveis. E se nos sentimos na Rússia ao ver as ruas cobertas de neve, praticamente podemos sentir o incômodo dos personagens e o frio do rigoroso inverno russo durante uma longa viagem de trem para o interior.

Casas e ruas que reconstituem MoscouSuntuoso jantarFrio do rigoroso inverno russoAliás, o clima tem importante função narrativa, indicando a passagem do tempo em diversos momentos de maneira elegante, como quando a casa amanhece coberta de neve no interior da Rússia, revelando o bom trabalho do montador Norman Savage, que cobre vários anos sem jamais tornar a narrativa episódica. Por outro lado, montador e diretor falham ao estender demais algumas subtramas (especialmente envolvendo a revolução), tirando o foco da linha narrativa mais atraente, que é a relação entre Jivago, Tonya e Lara, e tornando o ritmo de “Doutor Jivago” arrastado demais a partir do segundo ato. Mesmo um verdadeiro mestre na condução de filmes contemplativos como David Lean é capaz de perder a mão.

Quem também merece destaque na parte técnica de “Doutor Jivago” é o excepcional design de som. Observe, por exemplo, como o barulho das batidas nos pregos e da terra sendo jogada no caixão é potencializado no enterro da mãe de Yuri, realçando o impacto dramático daquele momento na vida do garoto. Além disso, o som também tem importante função narrativa em outros instantes, como quando o aumento do volume indica a chegada dos manifestantes ao local onde se encontra a polícia russa. Da mesma forma, é através do som e não das imagens que sabemos de antemão que Lara atirou em Viktor na festa, graças à maneira como Lean conduz a sequência e nos prepara para o ataque dela. Já a trilha sonora composta pelo ótimo Maurice Jarre torna-se um pouco repetitiva ao longo das mais de três horas de duração e acaba perdendo o impacto em certos momentos, mas ainda assim confirma-se como um dos pontos altos de “Doutor Jivago” graças à linda melodia do tema de Lara, imortalizada ao longo dos anos.

Casa amanhece coberta de neveTerra sendo jogada no caixãoLara atirou em ViktorAbordando o nascimento do comunismo de maneira maniqueísta, “Doutor Jivago” também se perde em sua conotação política tendenciosa, mostrando os comunistas como meros selvagens sem coração que destroem vilas e assassinam mulheres e crianças pelo “bem maior”. Assim, acompanhamos pessoas invadindo a casa de Jivago para tomar seus objetos pessoais, sua família sendo obrigada a amontoar-se num cômodo da própria casa e seus filhos passando fome, num retrato cruel daquele momento histórico e que talvez tenha uma dose considerável de exagero. E um último pecado cometido por David Lean é justamente não aproveitar melhor o talento de seu costumeiro colaborador Alec Guinness, que, além de participar pouco da narrativa, ainda é responsável pela desnecessária narração nas memórias de seu reencontro com o irmão, em que o voice-over apenas substitui as falas de seu próprio personagem.

Meros selvagens que destroem vilasPessoas invadindo a casa de JivagoMemórias de seu reencontro com o irmãoMesmo após acompanharmos horas de belas imagens e uma história interessante, a sensação que fica ao final de “Doutor Jivago” é que Lean perdeu um pouco o foco e estendeu demais à narrativa. Ainda assim, o resultado foi bom o bastante para arrastar uma legião de fãs ao longo dos anos. Afinal, um filme de David Lean com problemas ainda é melhor do que a maioria dos filmes voltados para o grande público que vemos por aí.

Doutor Jivago foto 2Texto publicado em 28 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira