TEMPOS MODERNOS (1936)

(Modern Times) 

 

 

Filmes em Geral #20

Filmes Comentados #11 (Comentários transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann, Stanley Blystone, Al Ernest Garcia, Cecil Reynolds, Mira McKinney, Murdock McQuarrie e Richard Alexander. 

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Tempos Modernos” é uma fábula maravilhosa sobre a dificuldade de adaptação de uma pessoa racional e genial ao mundo mecânico e engessado das indústrias. Certamente é a crítica mais ácida de Chaplin ao capitalismo, feita de forma inteligente e bem humorada, mas sempre buscando demonstrar a visão de seu realizador a respeito da industrialização.

Um operário de uma linha de produção (Chaplin) é levado à loucura pela rotina frenética de seu trabalho, sendo internado num sanatório após uma crise nervosa. Desempregado, ela passa a tentar sobreviver num mundo caótico, onde uma crise generalizada, provocada pela falta de empregos, o leva a ser preso equivocadamente ao se misturar com um grupo que protestava nas ruas. Ao mesmo tempo, a jovem Ellen (Paulette Goddard), que roubava comida para matar a fome, tem seu pai assassinado e passa a viver vagando pela cidade, onde se encontrará com o operário. Juntos, eles tentarão encontrar um novo caminho para suas vidas.

Quando realizou “Tempos Modernos”, Chaplin ainda resistia à idéia de utilizar a fala, mas já abria espaço para o uso do som, ainda que em boa parte do filme este esteja restrito às máquinas e objetos, como uma tela onde podemos ouvir a voz do presidente, a porta que serve para atingir os bandidos ou o rádio da delegacia. Somente no final do longa é que Chaplin dá voz pela primeira vez ao seu querido vagabundo, o que indicava o caminho que ele seguiria dali em diante e, em contrapartida, apontava para o fim, cada vez mais próximo, deste marcante personagem em sua carreira. Com roteiro escrito pelo próprio Chaplin, o filme mostra de forma competente os problemas causados pelo desemprego, com grupos se formando para protestar e multidões na porta das empresas à procura de uma oportunidade. A importância de ter um trabalho para sobreviver no feroz mundo capitalista aparece novamente na cena em que um homem sai para trabalhar e sua esposa vem se despedir com um largo sorriso no rosto, contrastando com a pobreza do vagabundo e da órfã que estão sentados na grama em frente a casa. Outro problema causado pelo desemprego é a fome, que levou Ellen a roubar e ser presa, assim como levou o ex-companheiro de fábrica de Carlitos a roubar uma loja. Como podemos perceber, Chaplin não hesita em criticar duramente o capitalismo e à industrialização, que em nada valoriza o ser humano e visa somente o lucro para as grandes empresas. Finalmente, o roteiro não deixa de incluir os problemas com guardas e as cenas em que Carlitos mata sua fome, dois temas que sempre estiveram presentes nos filmes dele. Vale destacar também o curioso momento em que o presidente da empresa aparece montando um quebra cabeça e lendo jornal, enquanto os empregados trabalham arduamente o dia inteiro, confirmando as sutilezas com subtexto crítico costumeiras de Chaplin.

Responsável até mesmo pela alegre trilha sonora, Chaplin conduz a narrativa com segurança, mantendo um ritmo ágil através de sua direção e da montagem dinâmica, fazendo com que o espectador esteja sempre atento ao que se passa na tela. Sua tradicional montagem semântica aparece novamente aqui, intercalando imagens de ovelhas entrando aglomeradas no curral e de trabalhadores se amontoando na entrada da fábrica, ilustrando que o empregado não é tão diferente dos animais, tendo que seguir ordens e rotinas. Observe ainda como uma ovelha negra se destaca no meio das outras, simbolizando o personagem do vagabundo, que simplesmente não aceita o modo de vida imposto pela urbanização e industrialização e, portanto, é diferente dos demais. Chaplin faz ainda uma bela transição quando Ellen dança na rua e, em seguida, aparece vestida para dançar no salão.

Como dito, o vagabundo (assim como Chaplin) não se adapta facilmente ao mundo moderno e industrializado em que vive, o que o leva a se sentir melhor na prisão do que no mundo lá fora, onde as oportunidades eram escassas. Por isso, quando tem a chance, Carlitos aproveita para tirar uma casquinha dos policiais e matar sua fome sem pagar um centavo pela comida, o que resulta em seu retorno imediato para a prisão. É como se ele dissesse: “Eu quero comer, mas não tenho dinheiro, pois não me deram emprego. Portanto, pague você pra mim”. Os trabalhos de ajudante de mecânico e de auxiliar na construção de um navio servem para confirmar que o vagabundo, por mais que se esforce, não consegue se adaptar a nova realidade – e de quebra, ainda rendem duas cenas muito engraçadas. Em sua derradeira tentativa, ele tenta se ajeitar como garçom, mas sua atrapalhada (e engraçadíssima!) entrega de um pato assado para um cliente mostra que definitivamente ele não funciona como empregado. E se todas estas frustradas tentativas de se adaptar soam reais, é porque mais uma vez Chaplin confirma o seu talento como ator, provocando o riso e a emoção simplesmente através de suas expressões, sem necessitar das palavras. Já Paulette Goddard tem uma atuação bastante exagerada, algo justificável pela época em que o filme foi lançado e por ser um filme mudo, onde as expressões faciais têm um peso maior na representação.

Como é de se esperar num filme de Chaplin, o longa é repleto de gags visuais sensacionais, como a cena na linha de produção, em que Carlitos claramente satiriza a “revolucionária” forma de trabalhar que consagrou Taylor e Ford ao mostrar como uma simples coceira ou mosquito eram suficientes para atrapalhar todo o processo, ou quando ele sai na rua para apertar os botões da roupa de uma senhora que passava em frente à fábrica. Outro momento memorável é a engraçada cena da curiosa máquina auto-alimentadora, que também serve como crítica à produção em série, mostrando que por mais que inventem novas tecnologias, isto sempre se refletirá em mais trabalho para o homem comum. E é curioso notar como até hoje este raciocínio continua perfeito, já que por mais que tenham surgido diversas tecnologias capazes de acelerar nossa comunicação e até mesmo nossos métodos de produção, jamais o tempo de trabalho foi reduzido, resultando somente em pessoas cada vez mais atarefadas e conectadas o tempo inteiro ao seu ambiente de trabalho, seja através de celulares, de computadores ou de aparelhos como o Blackberry. Além da citada cena na linha de produção, outras duas merecem grande destaque. Aquela em que o vagabundo entra pela primeira vez na prisão, come o “pó proibido” e fica doido, culminando com o momento em que salva os guardas da cadeia de bandidos que vieram resgatar um preso. A outra cena é a casa imaginada por Chaplin e a Ellen, onde eles tiram o leite da vaca para beber, numa clara crítica à industrialização. É como se Chaplin quisesse dizer que ele não precisa de nada que estas fábricas produzem, apanhando frutas no pé e tirando leite da vaca para sobreviver. Já a famosa cena em que o vagabundo se move por dentro da máquina representa visualmente a integração homem-máquina, servindo também para ilustrar como o homem poderia ser engolido pelas máquinas neste ambicioso mundo das indústrias. Mas Carlitos não se entregaria fácil ao capitalismo e o surto de loucura do vagabundo serve também para que Chaplin se vingue das máquinas, destruindo-as e atacando a todos com seu óleo lubrificante. Finalmente, merece destaque a seqüência do conserto da máquina em que Carlitos auxilia o mecânico e a casa que Ellen consegue para viver com o vagabundo, que, como ela diz, não era exatamente o “palácio de Buckingham”.

Chegamos então ao momento histórico em que pela primeira vez foi possível ouvir a voz de um dos personagens mais icônicos da sétima arte. A dança final do vagabundo de Chaplin, improvisando a letra da música (inventando literalmente as palavras), é sensacional e confirma o enorme talento deste gênio da história do cinema. Comprova também que seu personagem se adaptava somente num único lugar neste novo mundo da industrialização: o palco. Ou seja, somente onde a imaginação e a criatividade são valorizadas é que ele era feliz, e não onde as pessoas são apenas peças de uma engrenagem maior que serve para dar lucro a alguns poucos escolhidos.

Divertido e inteligente, “Tempos Modernos” utiliza o humor para mostrar a visão de Chaplin sobre uma mudança na sociedade que resultou no mundo complicado que temos hoje. Percebe-se que desde aquela época alguém já alertava como a ganância, a luta por um lucro sempre crescente e a produção em série sem responsabilidade social e ambiental poderiam resultar num mundo pior. E resultou mesmo.

PS: Comentários divulgados em 23 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 22 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

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19 Respostas to “TEMPOS MODERNOS (1936)”

  1. Joseph Says:

    Realmente, o capitalismo é desumano. Humano é o comunismo, né? Cuba é o melhor exemplo atualmente. Até camareiras de hotel têm curso superior e… nada! Não há como reverter isso em benefício para o país. As greves de fome até a morte de alguns presos políticos. Que a figura grotesca do Lulla comparou a presos comuns aqui no Brasil.
    E a URSS no seu “auge” era o maior poluidor da natureza.
    Vivemos a 300ª crise do sistema e ele vai se aguentando, dois passos pra frente e um pra trás.
    O comunismo em sua 1ª crise sistêmica se desfez. Que pena!
    E o Chaplin realmente era brilhante. Só que um unha de fome daqueles. Em um dos seus filmes, os funcionários pediram aumento de salário e ele negou. Precisaram interromper as filmagens pra que ele cedesse.
    A natureza não priva o homem de gênio das fraquezas em dobro do homem comum.
    Nasceu miserável, filho de uma mãe louca e morreu podre de rico na Suíça. Gostava de garotinhas, quanto mais jovens, melhor.
    Um humanista, não resta dúvida, mas um indivíduo com todas as falhas humanas – algumas excerbadas – que caracterizam nossa espécie.

    • Roberto Siqueira Says:

      Criticar o capitalismo não significa defender o comunismo Joseph. O fato é que eu, particularmente, não gosto deste sistema, mas também não gosto do comunismo. O meio termo seria o ideal.
      Sobre o Chaplin, com certeza ele tinha inúmeros defeitos, assim como qualquer ser humano tem, mas isto não diminui a importância da sua obra.
      Abraço.

  2. erika Says:

    amei esse filme

  3. Cross98 Says:

    Genio o Chaplin

  4. LUANA Says:

    O FILME E OTIMO E COMPROVO PORQUE E MUITO , MANEIRO TODOS NOS DA SALA DE AULA ASSISTIMOS E TOTALMENTE ENCRIVEL. BEIJOS DE LUANA CA.

  5. Tempos Modernos « Cinema & Debate Says:

    […] Dando seqüência à semana Chaplin, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre a obra-prima “Tempos Modernos”. Para ler, basta clicar aqui. […]

  6. O CIRCO (1928) « Cinema & Debate Says:

    […] que não tenha o poder de emocionar de “Luzes da Cidade” e o mesmo subtexto crítico de “Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”, “O Circo” é uma comédia eficiente, que conta com muitas das […]

  7. O GAROTO (1921) « Cinema & Debate Says:

    […] sentido da cena anterior ou seguinte, como quando ele intercala os trabalhadores e as ovelhas em “Tempos Modernos”. Em outro momento, após a frase “uma mulher cujo pecado foi a maternidade”, Chaplin corta […]

  8. antônio Says:

    o.O
    ate na faculdade pede esse filme…
    massa!!!!

    no achei engraçado de mais!!
    vi na escola.. e tenho um trabalho … achei legal de mais!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Antônio. É um filme engraçado, mas acima de tudo, com uma bela mensagem.
      Obrigado pelo comentário e volte sempre.
      Abraço.

  9. Says:

    Nossa, você me lembrou a aula do Hélio, hahahaha!

  10. Mandy Intelecto Says:

    Realmente o filme é muito bom…
    Acho que já assiti umas duas vezes…
    Ele é bem usado em aulas … na faculdade…

    É bem o retrato do homem como extensão da maquina…
    Muito bom mesmo.

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