Posts Tagged ‘Anthony Hopkins’

MISSÃO: IMPOSSÍVEL 2 (2000)

30 maio, 2018

(Mission: Impossible II)

 

 

Videoteca do Beto #239

Dirigido por John Woo.

Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Rade Serbedzija, William Mapother, Dominic Purcell, Anthony Hopkins, Daniel Roberts e Patrick Marber.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos após o enorme sucesso de “Missão: Impossível”, a franquia de Tom Cruise inspirada na série de TV criada por Bruce Geller estava de volta aos cinemas. Após iniciar a trajetória do agente Ethan Hunt sob a direção do autoral Brian de Palma, desta vez o astro resolveu apostar no chinês John Woo, já estabelecido em Hollywood como um bem sucedido diretor de filmes de ação. Ainda que a característica peculiar e o talento de Woo na direção das sequências de ação sejam notáveis, o resultado é claramente inferior ao seu antecessor, mas eficiente o bastante para garantir a continuidade da franquia e a alegria dos fãs.

Mais uma vez escrito por Robert Towne, desta vez sem a colaboração de David Koepp, “Missão: Impossível 2” nos traz o agente secreto Ethan Hunt (Tom Cruise) sendo resgatado durante suas férias com a missão de recuperar e destruir um vírus letal desenvolvido para impulsionar as vendas do remédio capaz de curá-lo fabricado pela empresa de John C. McCloy (Brendan Gleeson), chamando a atenção do ex-agente Sean Ambrose (Dougray Scott), que enxerga no vírus uma grande oportunidade de fazer fortuna. Hunt é então convocado a montar sua equipe com uma única condição: encontrar e recrutar a ladra profissional Nyah (Thandie Newton), que é também ex-namorada de Sean.

Apostando num relacionamento amoroso que visa complicar o sempre interessante trabalho de investigação dos agentes secretos, o roteiro do experiente Towne ao menos sabe que o que o espectador busca de fato ao assistir “Missão: Impossível 2” são as mirabolantes estratégias da equipe da IMF, os aparatos tecnológicos envolvidos no processo e as coreografadas cenas de ação, investindo pouco tempo no citado caso de Ethan e em conflitos sentimentais. Por outro lado, talvez preocupado com as críticas sobre os furos do primeiro filme, o roteirista insere diversos diálogos expositivos que visam explicar as absurdas tecnologias utilizadas e as estratégias dos espiões, como se quisesse certificar-se de que o espectador está compreendendo a trama.

Ainda assim, sobra espaço suficiente para Woo se preocupar em fazer o que sabe melhor, comandando sequências de tirar o fôlego desde a eficiente abertura que já prende o espectador enquanto narra o roubo do vírus Quimera durante um voo de Sidney a Atlanta. Em seguida, reencontramos Ethan em outra pequena sequência simples e eficiente na qual acompanhamos o agente escalando uma montanha, recheada com uma dose de tensão que é minimizada pelo fato de sabermos que Ethan sobreviverá (mas admirável por sabermos que Tom Cruise dispensou o uso de dublês). Auxiliado pelos montadores Steven Kemper e Christian Wagner, o diretor mantém a narrativa sempre dinâmica, permitindo poucos momentos de relaxamento, como no primeiro encontro amoroso de Ethan e Nyah em Sevilha – e aqui vale notar como a trilha sonora de Hans Zimmer encontra espaço para composições inspiradas na música espanhola, que contrastam com as enérgicas variações baseadas na música-tema criada por Lalo Schifrin.

Abusando do uso da câmera lenta e dos movimentos circulares característicos de sua direção, Woo nos brinda com cenas eletrizantes como a perseguição de carros na montanha na qual Ethan convence Nyah a entrar para o grupo, nos colocando dentro dos carros em alta velocidade em planos que se alternam sem jamais soarem confusos, assim como ocorre na longa perseguição de motos que culmina num coreografado embate braçal entre Ethan e Sean que remete as lutas marciais. Outra sequência carregada de tensão é a que se passa no jóquei, onde o jogo de câmeras e a narração diegética da equipe de Ethan criam uma escala de suspense crescente quase palpável, assim como vale destacar a absurda e divertida entrada no prédio da Biocyte, que encontra espaço até mesmo para homenagear o primeiro filme com a clássica parada de Ethan pendurado pelo cabo há centímetros do chão.

Repare ainda como a bela fotografia de Jeffrey L. Kimball alterna entre as cores quentes na Espanha e na Austrália e as cores frias dentro da empresa farmacêutica, quebrando a regra apenas nos tons de vermelho que dominam a tela instantes antes da chegada de Sean ao local, sinalizando o perigo que Ethan corre antes do tiroteio dentro da Biocyte que termina no ato heroico e inteligente de Nyah. E se normalmente o design de som chama a atenção pelo volume dos tiros e o ronco dos motores nas cenas de ação, aqui sua importância é realçada por contraste na sequência em que Ethan invade o local da negociação entre Sean e McCloy, na qual o agente utiliza as pombas (também características do cinema de Woo) para abafar seus próprios movimentos.

Outra vez criando empatia com o espectador ao nos colocar dentro da equipe de Ethan, nos fazendo sentir-se parte do grupo durante todo o processo de investigação, “Missão: Impossível 2” acerta também ao trazer uma nova gama de aparatos tecnológicos curiosos e as instalações modernas concebidas pelo design de produção de Tom Sanders tanto na casa de Sean quanto na sede da Biocyte. No entanto, o maior destaque vai mesmo para a introdução do absurdamente divertido conceito das máscaras que transformam os espiões em outra pessoa, abrindo um enorme leque de possibilidades, mas infelizmente perdendo a força ao longo da narrativa pelo uso excessivo do recurso, o que quase estraga o melhor momento do filme, num plot twist inteligente conduzido com calma por Woo, que revela a artimanha através de um simples dedo ferido – e que espectadores mais atentos podem antecipar justamente pelo uso abusivo das máscaras até ali.

Os personagens continuam rasos, ainda que a boa química entre Ethan e Nyah, a convincente discussão em Sevilha que de certa forma humaniza ambos e a inédita vulnerabilidade do agente que coloca em risco sua missão consigam ao menos conferir um pouco mais de densidade aos dois, por mais que a forma em que ele a convence a aceitar a missão seja pouco crível. Mais uma vez encarnando Ethan com uma intensidade alucinante, Tom Cruise carrega com facilidade a narrativa, apesar do excesso de sorrisos que chega a motivar uma piada do interessante vilão composto por Dougray Scott, que torna-se ainda mais perigoso justamente por ser um ex-agente e conhecer muito sobre a IMF. Thandie Newton também consegue sucesso ao balancear a sensualidade latente de sua Nyah com a faceta humana já citada e Brendan Gleeson completa os destaques do elenco vivendo o inescrupuloso dono da Biocyte.

Divertido e recheado de ótimas cenas de ação, “Missão: Impossível 2” curiosamente escorrega ao tentar conferir mais humanidade e tridimensionalidade ao seu protagonista, quebrando levemente o ritmo da narrativa e enfraquecendo-o como agente secreto ao inserir uma história de amor que o torna mais vulnerável. Nada que atrapalhe a diversão.

Texto publicado em 30 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

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A MÁSCARA DO ZORRO (1998)

18 outubro, 2012

(The Mask of Zorro)

Filmes em Geral #91

Dirigido por Martin Campbell.

Elenco: Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Anthony Hopkins, José María de Tavira, Diego Sieres, William Marquez, Stuart Wilson, Tony Amendola, Joaquim de Almeida e L.Q. Jones.

Roteiro: John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley.

Produção: Doug Claybourne e David Foster.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma abordagem leve e divertida, Martin Campbell trouxe de volta às telonas a história do lendário cavaleiro mascarado neste “A Máscara do Zorro”, uma aventura despretensiosa, mas repleta de energia e personagens interessantes, que conta com um bom elenco e ótimas tiradas do roteiro para cumprir seu propósito e, justamente por não se levar muito a sério, nos divertir bastante.

Escrito por John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley (ufa!), “A Máscara do Zorro” tem início quando o mexicano Don Diego de la Vega, o Zorro (Anthony Hopkins), desafia a tirania do espanhol Don Rafael (Stuart Wilson) durante uma execução pública, mas tem sua verdadeira identidade descoberta numa invasão domiciliar que resulta na morte de sua esposa Esperanza (Julieta Rosen). Pra piorar a situação, ele é obrigado a ver o rival levar sua filha recém-nascida Elena (Catherine Zeta-Jones) e vai parar na prisão. Vinte anos mais tarde, ele consegue escapar e encontra o jovem ladrão Alejandro Murrieta (Antonio Banderas), a quem adota como pupilo e treina para ser o novo Zorro.

Desde sua empolgante sequência de abertura, “A Máscara do Zorro” conquista a atenção do espectador, sugando-o pra dentro da história enquanto apresenta seu personagem principal, num espetáculo circense que culmina no lindo plano em que Zorro se despede do publico em seu cavalo negro com o pôr do sol ao fundo. Aliás, o diretor Martin Campbell demonstra um cuidado especial na composição de diversos planos impressionantes, como no “Z” escrito em fogo no terreno próximo à casa de Don Rafael ou na impressionante explosão da mina em El Dorado. Além disso, o diretor conduz com surpreendente sutileza momentos melancólicos como a morte de Esperanza, introduzindo até mesmo interessantes rimas narrativas, como quando Don Diego segura a filha diante da mira das armas dos guardas exatamente como fizera com sua esposa vinte anos atrás ou na sequência final em que Zorro narra a história para o filho da mesma forma que Don Diego havia feito com Elena, saindo-se bem ainda ao inserir brincadeiras sutis, como, por exemplo, quando Don Diego diz para Alejandro que em breve ele terá seu inimigo Love (Matt Letscher) em seu círculo – se referindo ao momento em que poderá se vingar do sujeito – e, algum tempo depois, o jovem atinge o adversário pela primeira vez justamente num duelo em cima de uma mesa redonda de jantar.

Campbell também balanceia muito bem as cenas de ação com momentos bem humorados, o que é sempre uma mistura eficiente em filmes do gênero, divertindo-se em diversos instantes como no golpe que introduz a gangue de Alejandro Murrieta e no treinamento dele. E apesar de não prezar pela verossimilhança, a sequência do roubo do cavalo também é divertida e muito bem coreografada, mostrando a habilidade do diretor na condução das cenas de ação. Contando com a boa montagem de Thom Noble que confere fluidez a narrativa, ele imprime energia aos importantes duelos de espada (como aquele entre Zorro, Don Rafael e Love na mansão), demonstrando habilidade até mesmo quando a cena exige uma abordagem mais sensual, no divertido duelo entre Elena e Zorro em que a dupla Banderas e Jones se sai muito bem. Aliás, as acrobacias de Zorro nas lutas e cavalgadas impressionam, assim como a condução enérgica de Campbell e seu montador, que alternam entre planos gerais, closes e até planos subjetivos que nos colocam na posição do herói.

Da mesma forma, o diretor conta com a fotografia de Phil Meheux para criar um visual obscuro na prisão e no esconderijo do Zorro que contrasta com a casa iluminada em que ele vive e até mesmo com o visual árido e sem vida das cenas em El Dorado, mas jamais carrega demais o lado sombrio, o que é coerente com a abordagem mais leve da narrativa, reforçada pela trilha sonora do ótimo James Horner, que utiliza elementos da música espanhola como as castanholas e o sapateado para embalar as cenas de ação, pontuando também os momentos românticos com belas variações da música tema. Finalmente, se “A Máscara do Zorro” consegue nos ambientar ao tempo e local em que a narrativa se passa, o mérito deve ser dividido com a figurinista Graciela Mazón, responsável pelas roupas típicas das mulheres e pelos uniformes dos homens que se destacam na festa, além é claro do visual clássico do lendário herói que respeita as tradições. Finalmente, basta observar a detalhada decoração da mesa de jantar na mansão de Don Rafael ou a imponente mina em El Dorado – apresentada num impressionante plano geral – para constatar o bom trabalho de direção de arte de Michael Atwell.

Apresentado como um ladrão andarilho que escapa da morte, o Alejandro de Antonio Banderas é um personagem cativante, o que é mérito do ator que, superando suas limitações, confere carisma ao herói. Criando conexão com a plateia através do plano detalhe de um colar que revela sua ligação emocional com o velho Zorro, o personagem rapidamente conquista a simpatia do espectador, também porque Banderas consegue criar boa empatia com Hopkins e estabelece uma excelente química com Zeta-Jones – algo notável na engraçada conversa entre Elena e Zorro no confessionário e na vibrante dança deles numa festa -, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Aliás, a presença impotente e sensual da atriz como Elena também convence desde sua primeira aparição, chamando a atenção sempre que entra em cena – repare, por exemplo, seu olhar hipnotizante no primeiro encontro com Zorro.

Já o normalmente espetacular Anthony Hopkins dá um show na tocante conversa entre Elena e Don Diego, demonstrando a emoção contida diante da filha há tempos perdida que agora se apresenta diante dele sem que ela saiba que está falando com o verdadeiro pai – e novamente Jones não precisa de muitas palavras, indicando através do olhar confuso que Elena sente estar diante de alguém especial em sua vida, algo que, obviamente, encontra reflexo na cena inicial, quando Esperanza destaca a importância da voz do pai para a filha recém-nascida. E se o Don Rafael de Stuart Wilson e o capitão Love de Matt Letscher soam maniqueístas, este pequeno deslize é diluído pela maneira quase caricatural que os atores interpretam seus personagens – e temos até mesmo um “Don” que questiona as ações de Rafael, o que depõe contra o argumento do maniqueísmo. Fechando o elenco, L.Q. Jones rouba a cena nas poucas vezes que surge com seu Jack “três dedos”.

Apesar de construir o clímax com habilidade, Campbell escorrega ao estender demais o confronto final entre os “Zorros” e seus inimigos, tornando o duplo duelo um pouco cansativo. Em todo caso, é inegável que a morte dos vilões com barras de ouro caindo sobre eles é de um simbolismo nada sutil, porém bem divertido. E apesar da estrutura narrativa formulaica, o desfecho tem charme suficiente para agradar.

Aventura leve e despretensiosa, “A Máscara do Zorro” prova que não é necessário fazer uma analise profunda de um herói para realizar um bom filme – ainda que estes representem excelentes oportunidades para abordagens mais sérias. Existem diversas maneiras de se contar uma boa história. Para isso, basta que o filme cumpra aquilo que se propõe a fazer. E isto o longa de Campbell faz muito bem.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992)

16 outubro, 2012

(Dracula)

Filmes em Geral #89

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Tom Waits, Monica Bellucci e Jay Robinson.

Roteiro: James V. Hart, baseado em romance de Bram Stoker.

Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs e Charles Mulvehill.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mínimo que podemos esperar de um filme dirigido por Francis Ford Coppola é o cuidado com os detalhes que ajudam a criar um visual marcante. Seja em filmes de época com grandes orçamentos como “O Poderoso Chefão” ou em filmes menores (mas nem por isso menos qualificados) como a pérola “A Conversação”, o cuidado com o aspecto visual sempre foi uma marca do diretor. O problema é que na maioria das vezes Coppola também se preocupava com a composição dos personagens e a condução da narrativa, algo que, infelizmente, não ocorre de maneira tão eficiente neste “Drácula de Bram Stoker”, um filme visualmente belo, mas emocionalmente vazio.

Baseado no mítico romance de Bram Stoker, o roteiro escrito por James V. Hart é bastante fiel à obra que o inspirou (o que certamente agradou aos fãs), narrando a história desde os tempos em que o guerreiro Drácula (Gary Oldman) se revolta contra Deus após o suicídio de sua esposa até quando o advogado Jonathan Harker (Keanu Reeves) fica aprisionado em seu imponente castelo, enquanto ele parte para Londres em busca de Mina (Winona Ryder), a noiva de Harker que Drácula acredita ser a reencarnação de sua amada.

Historicamente, a lenda do Drácula costuma provocar fascínio, misturando elementos díspares com o terror, a sensualidade e o amor. Ciente disso, Coppola investe nestes elementos clássicos, deixando clara sua preferência pelo “amor”, numa estratégia que busca romantizar o vampiro e justificar suas ações diante do espectador. Só que desta vez ele comete um erro raro em sua carreira e perde a mão, exagerando na abordagem romântica e enfraquecendo o lado sombrio da narrativa. Além disso, a caracterização do Drácula soa exagerada, com sua maquiagem carregada passando do ponto ideal, mas felizmente a boa atuação do excelente Gary Oldman compensa esta falha. Inicialmente limitado ao papel de vampiro assustador, lentamente Oldman transforma o Drácula num personagem carismático, conseguindo a proeza de fazer o espectador torcer por ele em alguns momentos e fazendo jus a fama de sedutor do personagem.

Enquanto isso, o quase sempre inexpressivo Keanu Reeves até que se sai bem inicialmente, mas é totalmente ofuscado diante da presença de Anthony Hopkins do segundo ato em diante, que assume muito bem a função de herói e rouba a cena com seu Van Helsing. Pra piorar, mesmo com cabelo grisalho e tudo mais, o envelhecimento de Reeves não convence graças ao seu rosto juvenil. O ator também não consegue estabelecer boa química com a bela Winona Ryder, que exala a delicadeza necessária no papel e se sai bem melhor ao lado de Gary Oldman. Fechando o elenco, vale citar a caricata atuação de Tom Waits como o lunático Renfield e o desempenho selvagem de Sadie Frost como Lucy, que cai muito bem no papel.

Mas “Drácula de Bram Stoker” também tem suas qualidades. A começar pela competente direção de arte de Andrew Precht e pelos figurinos impecáveis de Eiko Ishioka que reforçam a ambientação do espectador e colaboram na criação de um visual marcante. Apoiando-se neste bom trabalho e na fotografia repleta de tons avermelhados de Michael Ballhaus, Coppola cria diversos planos estilizados, abusando também de recursos como a aceleração da imagem, criando um visual sombrio, normalmente reforçado pela chuva e pelo vento, que se torna ainda mais expressivo pelo uso constante da sensualidade feminina numa trama que naturalmente já é carregada de conotação sexual. Aliás, vale reparar também como a fotografia colorida das cenas que envolvem Mina contrasta bastante com os tons obscuros na Transilvânia, onde até mesmo as sombras ganham vida. Finalmente, o diretor não se esquece de homenagear os filmes antigos do famoso vampiro, fazendo referência ao clássico “Nosferatu”, de 1922, e a outros filmes clássicos, por exemplo, na aula do professor Van Helsing e ao utilizar uma paleta granulada na chegada de Drácula em Londres, numa alusão aos tempos da moviola.

A estilização visual continua através da montagem de Anne Goursaud, Glen Scantlebury e Nicholas C. Smith, que abusa de transições interessantes, como quando a pluma de um pavão se transforma no túnel de um trem ou quando os furos no pescoço de Lucy dão lugar aos olhos de um lobo. E ainda que possam parecer datados atualmente, os efeitos especiais funcionam na verdade como outra grande homenagem ao cinema antigo, com trucagens, maquetes e pinturas de fundo que tornam o aspecto visual de “Drácula de Bram Stoker” ainda mais impressionante. Fechando a parte técnica, a trilha sonora de Wojciech Kilar alterna bem entre os tons macabros, como quando o navio que traz Drácula chega a Londres, e os momentos melódicos, como no belo encontro entre Mina e Drácula num quarto.

Voltamos então ao problema central de “Drácula de Bram Stoker”. Talvez pela boa química existente nas cenas que envolvem Ryder e Oldman, Coppola acaba investindo demasiadamente neste lado romântico, enfraquecendo outro aspecto muito importante da narrativa, que é o lado sombrio do vampiro. Até mesmo a frase que promoveu o filme denuncia esta abordagem excessivamente melódica (“O amor nunca morre”), mas estes momentos adocicados demais acabam esvaziando o longa, ainda que em certos momentos Coppola consiga sucesso em sua abordagem, como quando Drácula diz para Mina que a ama demais para condená-la. Reequilibrando a conta, o decepcionante terceiro ato traz uma perseguição que jamais empolga e um final seco demais, impedindo que Coppola entregue um trabalho a altura de sua brilhante carreira. Ainda assim, trata-se de um bom filme.

Grandioso e operístico como um filme de Coppola deve ser, “Drácula de Bram Stoker” é um deleite para os olhos, mas funciona exatamente como aquela moça bonita que perde seu encanto após meia hora de conversa. Infelizmente, beleza não é tudo.

Texto publicado em 16 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991)

21 dezembro, 2010

(The Silence of the Lambs)

 

Videoteca do Beto #79

Vencedores do Oscar #1991

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Lawrence A. Bonney, Kasi Lemmons, Lawrence T. Wrentz, Scott Glenn, Anthony Heald, Frankie Faison, Stuart Rudin, Leib Lensky, Brooke Smith, Ted Levine, Pat McNamara, Kenneth Utt, Diane Baker, Don Butlen e Masha Skorobogatov.

Roteiro: Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris.

Produção: Kristi Zea.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na cerimônia do Oscar de 1992, um filme surpreendeu a todos e levou os cinco principais prêmios da noite. Era “O Silêncio dos Inocentes”, excelente terror psicológico dirigido pelo versátil Jonathan Demme e estrelado com brilhantismo por Jodie Foster e Anthony Hopkins, que com sua atmosfera tensa, suga o espectador de maneira intensa e entrega uma narrativa maravilhosa, capaz de provocar frio na espinha de qualquer um, sem jamais apelar para imagens chocantes ou altos acordes da trilha sonora. É a história e, principalmente, os personagens que constroem o clima perfeito de suspense.

Clarice Starling (Jodie Foster) é escolhida para investigar uma série de assassinatos cometidos por um criminoso conhecido como “Buffalo Bill” (Ted Levine), que costuma arrancar a pele de suas vítimas – normalmente, mulheres acima do peso. Para entender sua conturbada mente, Clarice procura conversar com um perigoso psicopata conhecido como Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), que está preso sob a acusação de canibalismo.

Um dos aspectos marcantes de “O Silêncio dos Inocentes” é, sem dúvida alguma, a sua atmosfera sombria, repleta de tensão em cada minuto de projeção. Na maior parte do tempo o espectador se sente aflito, ameaçado e incomodado, como se algo de ruim estivesse sempre prestes a acontecer. Mas ao contrário da maioria dos suspenses, o longa não apela para sustos artificiais, conseguindo criar seu clima aterrorizante somente através da excelente narrativa, recheada de grandes atuações, além é claro do bom trabalho técnico. A começar pela fotografia sombria de Colleen Atwood, que utiliza cores frias e pouca iluminação em diversos ambientes para criar, com o auxilio da igualmente sombria trilha sonora de Howard Shore, toda esta atmosfera carregada. Obviamente, o intrigante roteiro escrito por Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris, é o principal responsável pela construção deste clima, fazendo com que o espectador se sinta completamente envolvido pela investigação comandada por Clarice. Além disso, Tally foge de clichês básicos dos filmes de “serial killer”, por exemplo, ao revelar o assassino com apenas 30 minutos de filme, mostrando que a narrativa não se concentrará na descoberta do criminoso. É a dinâmica entre Clarice e Lecter que conduzirá a trama, muito mais do que a própria caçada ao assassino. Outro segredo do excelente roteiro é a simplicidade aliada à eficiência, ou seja, a ausência de explicações mirabolantes para os assassinatos. Bill age naturalmente, começando sua coleção de vítimas com uma vizinha – nas palavras de Clarice, “alguém que ele conhecia”. Finalmente, a narrativa apresenta ainda uma série de simbolismos interessantes, como a inteligente explicação para o nome do filme, revelando o trauma de infância de Clarice ao fugir do local onde os cordeiros (“lambs”, em inglês) eram sacrificados – ela mal podia dormir com os gritos dos cordeiros. Outro simbolismo evidente e interessante é a utilização das mariposas, que representam a tão desejada transformação de Bill numa mulher. Note como este pequeno detalhe é vital para a narrativa, pois será justamente uma mariposa voando pela casa que confirmará para Clarice que ele é o assassino, até porque aquelas mariposas não existem nos Estados Unidos (elas eram importadas).

Além das notáveis qualidades do roteiro, “O Silêncio dos Inocentes” conta também com excelentes atuações. Na realidade, o longa é um legítimo “filme de atores”, praticamente carregado pelo magnetismo da performance de sua dupla principal. Como citado, a dinâmica entre Clarice e Lecter é o fio condutor da narrativa, e felizmente, Foster e Hopkins oferecem atuações espetaculares. A atriz, sempre expressiva e com olhar penetrante, transmite segurança nos momentos necessários, como quando se mostra durona ao abrir uma porta emperrada sozinha e entrar num galpão abandonado, mostrando que era capacitada para conduzir aquela perigosa investigação. Mas é nas conversas com Lecter que Foster se destaca, estabelecendo uma conexão impressionante com Hopkins, algo reforçado até mesmo pelos constantes closes de Jonathan Demme. A atriz é competente ainda ao demonstrar com sensibilidade o trauma que perturba Clarice quando fala sobre a morte de seu pai, num diálogo eletrizante que lhe garante algumas dicas a respeito de Buffalo Bill. Finalmente, Foster demonstra bem o choque e o incômodo de Clarice ao ver o estrago na moça encontrada no rio, transmitindo também angústia e pena através do olhar. Criando o contraponto ideal para a excelente atuação de Foster, Anthony Hopkins está sensacional como Hannibal Lecter, praticamente hipnotizando o espectador com seu olhar penetrante, sua voz calma e sua inteligência. Lecter é praticamente um “gentleman”, mostrando-se educado e gentil, por exemplo, quando oferece uma toalha para Clarice se secar após chegar molhada pela chuva e, em seguida, ao perguntar sobre a ferida dela. Quando Miggs (Stuart Rudin) diz algo ofensivo para a agente, ele se mostra claramente incomodado, o que servirá para que Lecter revele sua faceta extremamente letal, ao provocar a morte do presidiário somente através de palavras sussurradas durante a noite. Personagem fantástico e fascinante, Lecter consegue conquistar a platéia, ainda que seja um assassino cruel, muito por causa da excepcional atuação de Hopkins. Entretanto, por mais educado e polido que seja, é inegável que a imagem de Hannibal com a focinheira é simplesmente aterrorizante. Aterrorizante também está Ted Levine como Buffalo Bill, compondo um homem imprevisível e assustador, capaz de “cuidar” durante semanas de suas vítimas, até que elas percam peso suficiente para que ele lhes retire a pele. Sua personalidade conturbada é ilustrada através de sua casa, repleta de objetos espalhados por todas as partes. Por outro lado, sua natureza meticulosa fica evidente somente pelo fato de criar mariposas, certamente uma atividade que exige paciência e tempo. Assassino frio e calculista, Bill era capaz de esperar o tempo que fosse necessário para conseguir o que queria de suas vítimas. Finalmente, Scott Glenn tem uma atuação discreta como o chefe de Clarice, Jack Crawford, e Brooke Smith está ótima como Catherine, a filha da senadora seqüestrada por Bill, com destaque para a cena em que vê as marcas de unhas e sangue na parede do poço e se desespera.

Extraindo o melhor do elenco afinado que tinha nas mãos, Jonathan Demme é competente também na composição de planos simbólicos, como o primeiro plano do longa, quando Clarice surge pequena em meio às árvores e se agiganta na tela, numa alusão interessante à própria história que será narrada, em que a estagiária se agigantará durante a investigação. Em seguida, o diretor emprega um plano-seqüência que acompanha desde o treinamento de Clarice até sua entrada na sala de Crawford, nos levando junto com a agente e começando a estabelecer empatia entre ela e o espectador. E apesar de evitar abusar de imagens chocantes, o diretor apresenta o resultado nada agradável dos ataques de Bill através de fotos coladas nas paredes com as vítimas de “Bill Skin”, estabelecendo desde então o perigo daquela investigação. Mas é na chegada de Clarice ao local onde Lecter está preso que o excelente trabalho do diretor fica evidente. Após nos levar por um extenso e intimidante caminho, repleto de grades que impedem o acesso ao local, finalmente chegamos ao corredor onde os piores criminosos imagináveis se encontram. Mas para nossa surpresa, Demme contraria todas as nossas expectativas ao apresentar um verdadeiro “gentleman” ao invés do animal que estávamos esperando. Auxiliado pela excepcional direção de arte de Tim Galvin, o diretor cria o contraste perfeito entre as celas asquerosas dos outros presos e o ambiente limpo do “doutor” Lecter. Por outro lado, o vidro que garante este visual mais “requintado” também serve para demonstrar o perigo que aquele homem representa, num sistema de proteção ainda mais eficiente que as tradicionais grades. Durante a primeira conversa da dupla, Demme utiliza constantemente o close nos olhos de Foster e Hopkins, criando uma conexão entre eles, que será vital para o futuro da narrativa. O close voltaria a ser utilizado com freqüência posteriormente, fazendo com que o espectador se sinta próximos dos personagens e praticamente entre em seus pensamentos.

Como em todo bom suspense, “O Silêncio dos Inocentes” tem uma coleção de cenas arrepiantes. Mas a principal delas certamente é a extraordinária revelação do truque de Hannibal Lecter, após a tensa seqüência em que os policiais aguardam a descida de um elevador. Quando o psicopata se levanta e tira a pele do rosto, atacando o enfermeiro que o acompanhava na ambulância, o choque é inevitável. Demme conduz a cena com perfeição, auxiliado pela montagem de Craig McKay, que alterna entre o tenso momento em que os policiais cercam o elevador por todos os lados e a surpreendente seqüência na ambulância. A montagem de McKay, aliás, é outro aspecto relevante do longa, destacando-se especialmente na invasão da casa de Bill, quando somos completamente enganados somente por causa da decupagem da cena. Observe como a alternância entre os planos que mostram a preparação dos policiais e aquele com a campainha tocando nos dá a sensação de que o FBI estava invadindo a casa correta, quando na realidade era Clarice quem estava certa. Momentos antes, Demme indica sutilmente que isto irá acontecer através de um travelling que vai do rio até a casa de “Bill”, indicando o local onde a primeira vítima (encontrada por último, por causa dos pesos que ele amarrou nela) foi jogada, bem perto da casa dele. Novamente a simplicidade é a chave do sucesso da narrativa. O tenso final é a cereja do bolo, em outra cena bem conduzida pelo diretor, que utiliza uma câmera subjetiva para nos colocar sob a visão de Clarice e depois, já no escuro, nos coloca sob o ponto de vista de Buffalo Bill, com seu aparelho de visão noturna. O som do gatilho salva a agente do FBI e finalmente silencia os cordeiros, respondendo a brilhante pergunta de Hannibal Lecter, feita por telefone nos segundos finais do filme.

Com um roteiro sensacional, um elenco competente e muita habilidade na condução da narrativa, “O Silêncio dos Inocentes” se estabelece como um suspense acima de média, intenso e eletrizante. Além disso, apresentou ao mundo um dos mais icônicos personagens do cinema, o psicopata brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins, que inspirou novos filmes e marcou toda uma geração. Se os cordeiros de Clarice silenciaram, os nossos estavam apenas começando a gritar.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira