007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

(Goldfinger)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #193

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Sean Connery, Gert Fröbe, Honor Blackman, Martin Benson, Harold Sakata, Tania Mallet, Shirley Eaton, Desmond Llewelyn, Bernard Lee e Victor Brooks.

Roteiro: Richard Maibaum e Paul Dehn, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra Goldfinger[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Terceiro filme da franquia, “007 Contra Goldfinger” preserva até hoje um lugar de destaque em qualquer lista dos melhores longas estrelados pelo agente secreto britânico, o que não é pouco, considerando a quantidade de bons filmes produzidos desde então. Recheado de personagens carismáticos, balanceando momentos divertidos com outros de alta tensão e engrandecido ainda por um bom vilão, o longa dirigido por Guy Hamilton conseguiu superar seus ótimos antecessores, conquistando lugar cativo no coração dos fãs da franquia.

Novamente baseado em romance de Ian Fleming, o roteiro escrito por Richard Maibaum e Paul Dehn traz James Bond (Sean Connery) sendo incumbido de investigar um excêntrico milionário conhecido como Goldfinger (Gert Fröbe), mas o seu envolvimento com a namorada do alvo acaba colocando-o em rota de colisão com o poderoso homem. Após ser capturado e preso, Bond descobre que os planos de Goldfinger são bem mais ousados do que ele imaginava anteriormente.

Seguindo a já clássica abertura em que um tiro é disparado em direção à tela, um travelling nos apresenta a bela locação da vez e nos transporta por Miami até encontrarmos James Bond recebendo uma massagem, obviamente, acompanhado de uma linda moça. No entanto, instantes depois o criativo roteiro de “007 Contra Goldfinger” já estabelece o caminho que vai seguir, apresentando o grande vilão logo de cara e sem mistério, numa quebra da estrutura adotada antes que funciona muito bem. Assim, fica evidente que os roteiristas se equilibrarão entre momentos que respeitam o padrão pré-estabelecido e outros que buscam novidades que injetem energia à franquia.

Entre as novidades, talvez a que mais chame a atenção seja a primeira aparição do Aston Martin DB-V repleto de acessórios interessantes criados pelo genial “Q”, novamente interpretado por Desmond Llewelyn. Concebidos de maneira engenhosa pelo design de produção de Ken Adam, os aparatos tecnológicos do veículo são muito criativos e permanecem atraentes ainda hoje. O inventivo roteiro traz ainda a primeira menção ao agente 008, além da célebre frase de James Bond sobre seu gosto refinado para bebidas (“Martini batido, não mexido”).

Recheado pelo típico humor irônico britânico, “007 Contra Goldfinger” não deixa de lado o que vinha funcionando até então, como as conversas cada vez mais divertidas e sarcásticas entre Bond e a secretária Moneypenny (Lois Maxwell), mantendo-se também fiel à composição do personagem através de sua paixão irresistível pelas mulheres e de sua preferência, por exemplo, pelo champanhe Dom Perignon 53. Assim, ao mesmo tempo em que delicia as novidades, o espectador aprecia as características marcantes de James Bond, jamais tendo a sensação de estar vendo outro personagem na tela. Esta sensação é reforçada pelo uso constante da trilha sonora de John Barry, que emprega variações da excelente música tema “Goldfinger”, de Shirley Bassey, para pontuar as cenas e, assim como nos filmes anteriores, inserindo esporadicamente o tema clássico composto por Monty Norman.

Também mantendo a coerência, a fotografia de Ted Moore mantém o padrão adotado até então, apostando num visual naturalista e predominantemente diurno, ainda que algumas cenas marcantes ocorram à noite, como o assassinato de Tilly (Tania Mallet) e a dinâmica perseguição de carros que a antecede. É interessante notar também como em diversos momentos temos a presença de objetos dourados em cena, como na decoração do avião que leva Bond para os EUA, no qual também as aeromoças usam roupas com tons que remetem ao vilão do longa. Estes pequenos detalhes do design de produção realçados pela fotografia servem para fixar inconscientemente na mente do espectador o perigo que ronda constantemente o protagonista.

Aston Martin repleto de acessóriosObjetos douradosHerói de carne e ossoCada vez mais a vontade na pele de James Bond, Sean Connery encarna o sujeito com a costumeira imponência, demonstrando também sagacidade, por exemplo, ao pensar rápido após ver um inimigo se aproximando através do reflexo na retina da moça que tenta beijar (!) – e é curioso notar como exageros como este jamais soam ofensivos e se tornam até mesmos charmosos pela maneira como são conduzidos pelo diretor e interpretados pelo ator. Conferindo humanidade ao personagem ao demonstrar seu conflito interno após ver a bela Tilly passar por ele de carro, equilibrando-se entre a atitude racional (continuar perseguindo Goldfinger) e a passional (ir atrás da moça), Connery evidencia também que estamos diante de um herói de carne e osso ao demonstrar medo diante da morte iminente quando Goldfinger ameaça cortar Bond com laser, numa cena muito tensa conduzida lentamente por Guy Hamilton na qual, assim como o apreensivo agente, o espectador praticamente gruda na cadeira até a conclusão da sequência.

Entre as bondgirls, o destaque fica mesmo para Honor Blackman, que compõe a bela e independente Pussy Galore com muito charme e firmeza, demorando a render-se ao charme de Bond e, justamente por isso, conquistando o galanteador agente com seu jeito descolado e a inteligência necessária para alguém que convive naquele meio repleto de homens poderosos e, ainda por cima, pilota aviões. Comandando a própria companhia aérea que, para a alegria de Bond, é composta somente por garotas, Pussy só cede quando é pega por Bond à força, num momento que foge do politicamente correto sem soar ofensivo, exatamente pela maneira como é conduzido pelo diretor e pela forma descontraída que é interpretado por Connery e Blackman.

Já as outras duas garotas de “007 Contra Goldfinger” não tiveram tanta sorte. Vivendo a primeira das irmãs que se apaixonam por Bond e são assassinadas, Shirley Eaton mal tem tempo de mostrar algo como Jill, mas ainda assim protagoniza uma boa cena quando revela a razão das vitórias seguidas de Goldfinger nas cartas, sendo dela ainda a icônica imagem da garota nua coberta pela tinta dourada. Já sua misteriosa e determinada irmã Tilly é interpretada por Tania Mallet de maneira obstinada, justificando sua postura após revelar que busca vingar a morte de Jill. No entanto, sua triste morte não apenas surpreende o espectador, como também evidencia que desta vez James Bond se encontra diante de um vilão realmente perigoso e ameaçador.

Soando inicialmente tão inofensivo inicialmente que chega a ser patético, o Goldfinger de Gert Fröbe se transforma ao longo da narrativa e se consolida como o melhor vilão da franquia até então, representando uma ameaça real ao protagonista. Poderoso, ele domina diversos negócios espalhados pelo mundo, mantendo até mesmo a máfia sob controle, como fica evidente quando ele elimina friamente alguns gângsteres de seu caminho. O mais curioso, no entanto, é que Goldfinger jamais se parece com os vilões caricatos que parecem acordar e esfregar as mãos pensando na próxima maldade que farão, soando até mesmo simpático em diversos momentos nos inúmeros diálogos que tem com Bond, que também servem para comprovar a inteligência do personagem. Observe, por exemplo, seu sorriso de canto de boca após ser elogiado por Bond, num momento sutil e muito interessante da composição de Fröbe, que, curiosamente, teve que ser dublado na versão final devido ao forte sotaque germânico. Fechando o elenco, o capanga Oddjob vivido por Harold Sakata representa outra séria ameaça, ainda que sua atuação seja extremamente caricata e destoe bastante.

Bela e independente Pussy GaloreMisteriosa e determinada TillyMelhor vilão da franquiaApós estabelecer o perigo que 007 corre e explicar detalhadamente o plano do grande vilão, o empolgante ato final começa com os aviões de Pussy Galore despejando o gás letal no forte que contém toda a reserva de ouro dos EUA. Fazendo questão de ressaltar o rosto dos parceiros de Bond no meio das vítimas, Guy Hamilton cria um plano que será essencial logo depois, quando ao ver os corpos se levantando e descobrir que eles estavam fingindo, a plateia se questiona como aquilo era possível, tendo a deliciosa tarefa de ligar os pontos e entender como James Bond havia contornado aquela complicada situação e derrotado Goldfinger. Momentos tensos como o confronto entre o exército e os comandados por Goldfinger, o duelo entre Bond e o forte Oddjob, a bomba desativada a sete segundos da explosão e a luta final entre herói e vilão no avião concluem este excelente filme de maneira empolgante.

Contando com um roteiro criativo, o carisma de seu protagonista e um vilão realmente ameaçador, além é claro de cenas marcantes e sequências empolgantes de ação, Guy Hamilton fez deste um filme superior aos anteriores, estabelecendo um padrão que seria seguido dali em diante. Aliás, justiça seja feita: “007 Contra Goldfinger” não é somente o melhor filme da franquia até então, como também é ainda hoje um dos melhores filmes do agente em seus mais de 50 anos de existência.

007 Contra Goldfinger foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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4 Respostas to “007 CONTRA GOLDFINGER (1964)”

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  3. 007 OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971) | Cinema & Debate Says:

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