007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)

(Thunderball)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #194

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi, Rik Van Nutter, Guy Doleman, Bernard Lee, Desmond Llewelyn, Molly Peters, Anthony Dawson, Jack Gwillim e Lois Maxwell.

Roteiro: Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história do próprio Whittingham escrita em conjunto com Kevin McClory e Ian Fleming.

Produção: Kevin McClory, Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra a Chantagem Atômica[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após ser substituído por Guy Hamilton no excelente “007 Contra Goldfinger”, Terence Young retornava à série 007, acompanhado de boa parte da equipe técnica responsável pelos três primeiros filmes e ancorado ainda na força de Sean Connery no papel principal. Isto, no entanto, não impediu que “007 Contra a Chantagem Atômica” se transformasse numa verdadeira decepção, representando uma queda gigantesca no nível de qualidade da franquia. Apesar do sucesso de bilheteria e dos bons efeitos visuais, o longa peca em aspectos determinantes para o sucesso narrativo de seus antecessores.

Adaptado a seis mãos por Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história também escrita a seis mãos pelo próprio Whittingham em conjunto com Kevin McClory e o criador do agente Ian Fleming, “007 Contra a Chantagem Atômica” traz o agente James Bond (Sean Connery) na caça ao misterioso criminoso que ameaça explodir uma grande cidade britânica ou norte-americana com uma bomba atômica roubada pela SPECTRE caso não receba 100 milhões de dólares em determinado prazo.

Apostando inicialmente numa abordagem mais leve e bem humorada que infelizmente é prejudicada pelas piadas pouco inspiradas do roteiro e investindo ainda num maior apelo sexual, Terence Young até parece pender para a paródia, talvez buscando disfarçar a trama pouco envolvente que tem em mãos. Mas o fato é que se o roteiro não ajuda, a direção de Young pouco faz para amenizar a situação, conduzindo a narrativa de maneira irregular e errando bastante em muitas escolhas, como ao distorcer a tela na ridícula cena em que, durante um exame, Bond é amarrado a um aparelho que tem sua velocidade acelerada por um invasor.

Constrangedora também é a luta corporal que abre o longa. Totalmente datada, a cena ao menos tem a desculpa de seguir o padrão da maioria dos confrontos físicos da série até então. Por outro lado, o estiloso Aston Martin apresenta mais acessórios criativos na sequência inicial, logo após Bond utilizar um interessante artefato voador que até nos dá a esperança de que “007 Contra a Chantagem Atômica” tenha mais momentos criativos como este. Doce ilusão.

Desta vez explorando o charme de Paris e a beleza dos Bahamas, a fotografia de Ted Moore adota um visual opaco na maior parte das cenas em terra firme, criando um forte contraste com a vivacidade das cenas no mar. Além disso, Moore aposta num visual mais sombrio quase sempre que os vilões entram em cena, como na reunião da SPECTRE em que os tons de preto predominam ou na sequência do roubo das bombas atômicas, numa escolha que reforça a clara divisão entre o bem e o mal.

Interessante artefato voadorVivacidade das cenas no marReunião da SPECTREApesar de constante, a trilha sonora de John Barry inicialmente é mais discreta que o de costume, mas este quadro muda no decorrer da narrativa, infelizmente através de composições péssimas como aquela que embala o confronto final embaixo d’água e a perseguição no carnaval de rua, que, aliás, é uma sequência extremamente mal conduzida pelo diretor, incapaz de criar a mínima tensão na plateia.

Ao menos, o líder da SPECTRE mantém o ar misterioso ao não mostrar o rosto, mantendo também a aura ameaçadora intacta ao eliminar um dos integrantes da equipe após descobrir que ele pegou parte do dinheiro arrecadado em um crime. No entanto, a ameaça termina por aqui, já que Adolfo Celi compõe Largo como um vilão extremamente fraco, não tendo um momento sequer que pareça colocar James Bond em risco real. Talvez em consequência da falta de um antagonista a altura, o próprio Bond é interpretado de maneira mais relaxada por Connery, o que é uma pena. No restante do elenco, somente as bondgirls Patricia (a enfermeira vivida por Molly Peters), Domino (Claudine Auger) e Fiona (Luciana Paluzzi) merecem algum destaque, mantendo inviolada uma das marcantes características da franquia.

Servindo ao menos pela curiosidade de mostrar pela primeira vez uma convenção entre os agentes “00” (repare que James Bond senta exatamente na sétima cadeira da esquerda pra direita), “007 Contra a Chantagem Atômica” acerta também ao trazer pela primeira vez uma bondgirl que não é fisgada pelo charme do protagonista (“Não se pode ganhar todas”, diz Bond). Talvez por isso, Fiona seja sumariamente assassinada no meio da trama, como uma espécie de punição inconsciente dos roteiristas pelo atrevimento da moça.

Numa tentativa desesperada de dar mais ritmo ao longa, Terence Young diminui o número de frames por segundo em diversas cenas de ação, num efeito que de fato acelera a imagem, mas soa deselegante e não provoca o impacto pretendido pelo diretor, já que a falta de grandes cenas e de uma atmosfera de tensão que realmente ofereça perigo ao protagonista é latente e não seria resolvida de maneira tão simples. É na construção das cenas e não na forma como elas são apresentadas que reside o maior problema de “007 Contra a Chantagem Atômica”.

Largo um vilão extremamente fracoBond mais relaxadoLongo e cansativo conflito finalPra piorar, nem mesmo os bons efeitos visuais salvam o longo e cansativo conflito final ocorrido no fundo do mar, que além de durar muito mais do que deveria, não tem um instante sequer que fique guardado na memória do espectador, mais parecendo uma longa tortura que se prolonga enquanto desejamos que o filme acabe logo. Aliás, o montador Ernest Hosler, que substitui Peter Hunt, parece não perceber o momento certo de cortar algumas cenas, estendendo sequências totalmente sem graça como o citado confronto final e a arrastada sequência em que os integrantes da SPECTRE escondem as bombas no oceano.

Escancarando a falta de criatividade do roteiro e a ausência de cenas de impacto, endossado ainda por um vilão totalmente sem carisma e nada ameaçador e pela ausência de personagens marcantes, “007 Contra a Chantagem Atômica” mal parece um filme da franquia 007, pecando em quase todos os aspectos que fizeram a fama mundial do agente secreto britânico. Pra piorar, muitas de suas cenas parecem durar mais do que deveriam, deixando o espectador entediado enquanto aguarda a próxima sequência na esperança de que o ritmo vá melhorar. E tédio é algo que nós jamais deveríamos sentir num filme de James Bond.

007 Contra a Chantagem Atômica foto 2Texto publicado em 15 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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3 Respostas to “007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)”

  1. 007 OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971) | Cinema & Debate Says:

    […] ele ainda voltaria em “007 – Nunca mais outra vez”, mas esta é uma refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica” e não é considerado um filme oficial da série), “007 Os Diamantes são eternos” marca […]

  2. 007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969) | Cinema & Debate Says:

    […] pela montagem de quatro dos cinco filmes anteriores (a exceção foi “007 Contra a Chantagem Atômica”, o pior entre eles) e tendo atuado ainda como diretor de segunda unidade em “Com 007 só se […]

  3. COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (1967) | Cinema & Debate Says:

    […] Clique aqui para acessar a Página Inicial « 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965) […]

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