007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)

(Thunderball)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #194

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi, Rik Van Nutter, Guy Doleman, Bernard Lee, Desmond Llewelyn, Molly Peters, Anthony Dawson, Jack Gwillim e Lois Maxwell.

Roteiro: Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história do próprio Whittingham escrita em conjunto com Kevin McClory e Ian Fleming.

Produção: Kevin McClory, Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra a Chantagem Atômica[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após ser substituído por Guy Hamilton no excelente “007 Contra Goldfinger”, Terence Young retornava à série 007, acompanhado de boa parte da equipe técnica responsável pelos três primeiros filmes e ancorado ainda na força de Sean Connery no papel principal. Isto, no entanto, não impediu que “007 Contra a Chantagem Atômica” se transformasse numa verdadeira decepção, representando uma queda gigantesca no nível de qualidade da franquia. Apesar do sucesso de bilheteria e dos bons efeitos visuais, o longa peca em aspectos determinantes para o sucesso narrativo de seus antecessores.

Adaptado a seis mãos por Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história também escrita a seis mãos pelo próprio Whittingham em conjunto com Kevin McClory e o criador do agente Ian Fleming, “007 Contra a Chantagem Atômica” traz o agente James Bond (Sean Connery) na caça ao misterioso criminoso que ameaça explodir uma grande cidade britânica ou norte-americana com uma bomba atômica roubada pela SPECTRE caso não receba 100 milhões de dólares em determinado prazo.

Apostando inicialmente numa abordagem mais leve e bem humorada que infelizmente é prejudicada pelas piadas pouco inspiradas do roteiro e investindo ainda num maior apelo sexual, Terence Young até parece pender para a paródia, talvez buscando disfarçar a trama pouco envolvente que tem em mãos. Mas o fato é que se o roteiro não ajuda, a direção de Young pouco faz para amenizar a situação, conduzindo a narrativa de maneira irregular e errando bastante em muitas escolhas, como ao distorcer a tela na ridícula cena em que, durante um exame, Bond é amarrado a um aparelho que tem sua velocidade acelerada por um invasor.

Constrangedora também é a luta corporal que abre o longa. Totalmente datada, a cena ao menos tem a desculpa de seguir o padrão da maioria dos confrontos físicos da série até então. Por outro lado, o estiloso Aston Martin apresenta mais acessórios criativos na sequência inicial, logo após Bond utilizar um interessante artefato voador que até nos dá a esperança de que “007 Contra a Chantagem Atômica” tenha mais momentos criativos como este. Doce ilusão.

Desta vez explorando o charme de Paris e a beleza dos Bahamas, a fotografia de Ted Moore adota um visual opaco na maior parte das cenas em terra firme, criando um forte contraste com a vivacidade das cenas no mar. Além disso, Moore aposta num visual mais sombrio quase sempre que os vilões entram em cena, como na reunião da SPECTRE em que os tons de preto predominam ou na sequência do roubo das bombas atômicas, numa escolha que reforça a clara divisão entre o bem e o mal.

Interessante artefato voadorVivacidade das cenas no marReunião da SPECTREApesar de constante, a trilha sonora de John Barry inicialmente é mais discreta que o de costume, mas este quadro muda no decorrer da narrativa, infelizmente através de composições péssimas como aquela que embala o confronto final embaixo d’água e a perseguição no carnaval de rua, que, aliás, é uma sequência extremamente mal conduzida pelo diretor, incapaz de criar a mínima tensão na plateia.

Ao menos, o líder da SPECTRE mantém o ar misterioso ao não mostrar o rosto, mantendo também a aura ameaçadora intacta ao eliminar um dos integrantes da equipe após descobrir que ele pegou parte do dinheiro arrecadado em um crime. No entanto, a ameaça termina por aqui, já que Adolfo Celi compõe Largo como um vilão extremamente fraco, não tendo um momento sequer que pareça colocar James Bond em risco real. Talvez em consequência da falta de um antagonista a altura, o próprio Bond é interpretado de maneira mais relaxada por Connery, o que é uma pena. No restante do elenco, somente as bondgirls Patricia (a enfermeira vivida por Molly Peters), Domino (Claudine Auger) e Fiona (Luciana Paluzzi) merecem algum destaque, mantendo inviolada uma das marcantes características da franquia.

Servindo ao menos pela curiosidade de mostrar pela primeira vez uma convenção entre os agentes “00” (repare que James Bond senta exatamente na sétima cadeira da esquerda pra direita), “007 Contra a Chantagem Atômica” acerta também ao trazer pela primeira vez uma bondgirl que não é fisgada pelo charme do protagonista (“Não se pode ganhar todas”, diz Bond). Talvez por isso, Fiona seja sumariamente assassinada no meio da trama, como uma espécie de punição inconsciente dos roteiristas pelo atrevimento da moça.

Numa tentativa desesperada de dar mais ritmo ao longa, Terence Young diminui o número de frames por segundo em diversas cenas de ação, num efeito que de fato acelera a imagem, mas soa deselegante e não provoca o impacto pretendido pelo diretor, já que a falta de grandes cenas e de uma atmosfera de tensão que realmente ofereça perigo ao protagonista é latente e não seria resolvida de maneira tão simples. É na construção das cenas e não na forma como elas são apresentadas que reside o maior problema de “007 Contra a Chantagem Atômica”.

Largo um vilão extremamente fracoBond mais relaxadoLongo e cansativo conflito finalPra piorar, nem mesmo os bons efeitos visuais salvam o longo e cansativo conflito final ocorrido no fundo do mar, que além de durar muito mais do que deveria, não tem um instante sequer que fique guardado na memória do espectador, mais parecendo uma longa tortura que se prolonga enquanto desejamos que o filme acabe logo. Aliás, o montador Ernest Hosler, que substitui Peter Hunt, parece não perceber o momento certo de cortar algumas cenas, estendendo sequências totalmente sem graça como o citado confronto final e a arrastada sequência em que os integrantes da SPECTRE escondem as bombas no oceano.

Escancarando a falta de criatividade do roteiro e a ausência de cenas de impacto, endossado ainda por um vilão totalmente sem carisma e nada ameaçador e pela ausência de personagens marcantes, “007 Contra a Chantagem Atômica” mal parece um filme da franquia 007, pecando em quase todos os aspectos que fizeram a fama mundial do agente secreto britânico. Pra piorar, muitas de suas cenas parecem durar mais do que deveriam, deixando o espectador entediado enquanto aguarda a próxima sequência na esperança de que o ritmo vá melhorar. E tédio é algo que nós jamais deveríamos sentir num filme de James Bond.

007 Contra a Chantagem Atômica foto 2Texto publicado em 15 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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MOSCOU CONTRA 007 (1963)

(From Russia with Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #192

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Daniela Bianchi, Pedro Armendáriz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Eunice Gayson, Walter Gotell, Francis De Wolff, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Anthony Dawson e Eric Pohlmann.

Roteiro: Richard Maibaum e Johanna Harwood, baseado em romance criado por Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Moscou contra 007[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano após estrear com sucesso no cinema, o agente secreto James Bond ganhava seu segundo filme. Novamente dirigido por Terence Young e estrelado por Sean Connery, “Moscou contra 007” aposta em elementos narrativos fundamentais para o sucesso do longa anterior, estabelecendo também novos conceitos que seriam utilizados nos filmes seguintes. A diferença, no entanto, é que este segundo longa claramente apresenta um ritmo mais intenso, numa indicação sutil dos caminhos que a franquia seguiria ao longo das décadas.

Mais uma vez adaptado para a telona por Richard Maibaum e Johanna Harwood com base no romance escrito por Ian Fleming, “Moscou contra 007” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) numa missão em Istambul, onde ele terá que ajudar uma agente russa (Daniela Bianchi) a fugir e, de quebra, ainda poderá capturar uma desejada máquina chamada Lektor. Auxiliado pelo turco Kerim Bey (Pedro Armendáriz), ele se sai bem na missão até descobrir que na verdade está ajudando a executar o plano da temida organização SPECTRE.

Desta vez desfalcados de Berkely Mather, os roteiristas Maibaum e Harwood abusam de um artifício narrativo conhecido como dica e recompensa, com diversas ações e situações refletindo em momentos futuros da projeção, como a explicação sobre como a maleta poderia explodir se aberta incorretamente e a bota envenenada usada pelos agentes da SPECTRE, o que sempre chama a atenção do espectador mais atento, funcionando como uma piscadela que nos faz vibrar ao reconhecermos o artifício em questão. Beneficiado pelo roteiro relativamente mais elaborado, ainda que este desenvolva os personagens apenas superficialmente, desta vez o diretor Terence Young e seu montador Peter Hunt empregam um ritmo mais envolvente e dinâmico do que o adotado em “007 Contra o Satânico Dr. No”, mantendo a narrativa mais focada nos acontecimentos do que nos personagens.

Visualmente, “Moscou contra 007” também é claramente mais obscuro que seu antecessor, já que desta vez o diretor de fotografia Ted Moore aposta no predomínio de cenas noturnas e ambientes fechados para criar uma atmosfera de tensão. Além disso, a escolha de locações internacionais naturalmente belíssimas como Veneza e Istambul torna-se visualmente ainda mais interessante pela maneira como estas cidades são captadas pela fotografia de Moore, realçando em planos gerais a linda geografia local ao mesmo tempo em que nos revela detalhes obscuros, especialmente em Istambul onde acompanhamos a estrutura do subsolo, contrastando com o luxo e a beleza, por exemplo, do quarto de hotel em que Bond está hospedado. As locações internacionais, aliás, também se estabeleceriam como outra marca da franquia.

Vale destacar também a primeira aparição de Desmond Llewelyn como o genial “Q”, introduzindo pela primeira vez na franquia os famosos acessórios usados pelo agente através da maleta com diversas funções concebida pelo design de produção de Syd Cain, que acerta ainda na decoração dos cenários turcos, o que, somado aos caprichados figurinos de Jocelyn Rickards, transporta o espectador para aquele ambiente com precisão. Como curiosidade, observe ainda a máscara de disfarce facial que surge logo no início, que serviria de inspiração para outro famoso artifício usado na franquia “Missão: Impossível” muitos anos depois.

Estrutura do subsoloLuxo e belezaO genial “Q”Presença praticamente constante durante todo o longa, a trilha sonora de John Barry acerta quase sempre que utiliza o tema clássico composto por Monty Norman, pecando apenas pelo exagero que acaba desgastando um pouco a ótima composição e errando também na composição totalmente dissonante que acompanha o datado combate físico entre duas turcas na luta pelo amor de um homem. Quem também exagera é o design de som, que amplia consideravelmente o barulho natural de tapas e tiros numa tentativa de realçar o efeito daquelas ações.

Mas se tecnicamente o longa oscila, estas derrapadas são compensadas pela presença de características determinantes para o sucesso de James Bond como personagem, trazendo novamente sua inteligência e capacidade de prever situações perigosas, a elegância ao falar e andar e, obviamente, a incapacidade de resistir a belas mulheres (desta vez, até os créditos iniciais são apresentados no corpo de uma mulher). Obviamente, o talento e a imponência de Sean Connery são determinantes para que o personagem funcione tão bem, já que o ator escocês tem uma capacidade natural de transmitir segurança através da expressão corporal e da fala.

Criando boa empatia com Bond, a bela Daniela Bianchi transforma Tatiana Romanova numa moça frágil e apaixonada, jamais passando a impressão de que ela estava ali cumprindo uma missão, o que de certa forma é coerente, já que a personagem de fato se apaixona pelo agente britânico, como fica claro no ato final. Até hoje a mais nova dentre todas as bondgirls, a italiana Bianchi tinha apenas 21 anos na época do lançamento do filme e, assim como a suíça Ursula Andress em “007 Contra o Satânico Dr. No”, teve que ser dublada por causa do forte sotaque italiano falando inglês. Ainda entre os destaques do elenco, o carismático Pedro Armendáriz transforma Kerim Bey no verdadeiro braço direito de Bond na Turquia, numa atuação simpática que nos faz lamentar sua morte como se tivéssemos perdido um amigo de longa data.

E finalmente, os vilões de “Moscou contra 007” não representam uma ameaça real até os instantes finais do longa, passando quase desapercebidos não fosse pela caricatural composição de Lotte Lenya como a general russa Rosa Klebb e pela aparição misteriosa do líder da organização SPECTRE, que sequer chega a mostrar o rosto (voz de Ernest Blofeld). E nem mesmo a explosão de uma bomba no meio de um momento íntimo de Kerim Bey chega a ameaçar, provocando apenas um susto repentino no espectador. Mas este cenário muda completamente quando Robert Shaw entra em cena com seu assustador Donald Grant.

Romanova frágil e apaixonadaKerim Bey o verdadeiro braço direitoAssustador Donald GrantNum momento raro até então, a tensa sequência dentro do trem após a morte de Kerim Bey faz o espectador realmente temer pelo destino de Bond (o que é ótimo!), assim como a feroz luta entre ele e o agente da SPECTRE vivido por Shaw é claramente mais intensa e realista do que todas as outras realizadas até então. A partir daí, toda a sequência final mantém um ritmo intenso, com Bond fugindo de um helicóptero e de vários barcos até finalmente chegar a Veneza e, com a esperada ajuda de Romanova, despachar a última inimiga em seu caminho.

Mais empolgante que o longa anterior, “Moscou contra 007” é outra ótima aventura do agente britânico que, logo em seu segundo filme, já dava mostras de que tinha mesmo vindo pra ficar. Sorte nossa.

Moscou contra 007 foto 2Texto publicado em 13 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (1962)

(Dr. No)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #191

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Joseph Wiseman, Ursula Andress, John Kitzmuller, Yvonne Shima, Lois Maxwell, Eunice Gayson, Zena Marshall, Jack Lord, Bernard Lee, Anthony Dawson, Colonel Burton, William Foster-Davis, Marguerite LeWars e Peter Burton.

Roteiro: Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra o Satânico Dr. No[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criado pelo escritor Ian Fleming em 1953, o agente secreto 007 tornou-se febre no Reino Unido e em todo mundo. No entanto, sua primeira aparição nas telas de cinema só aconteceria em 1962, após passagens por séries de televisão e filmes feitos diretamente para a própria TV. O que os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman não sabiam era que, ao decidir levar o sedutor agente britânico para o cinema, estavam criando também uma das mais amadas, duradouras e lucrativas franquias da história da sétima arte. Com Terence Young na direção, a icônica trilha sonora composta por Monty Norman e Sean Connery no papel do astuto agente, nascia à lenda James Bond.

Adaptado para o cinema a seis mãos por Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, “007 Contra o Satânico Dr. No” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) durante a investigação do desaparecimento de um colega do serviço secreto britânico na Jamaica. Com a ajuda do cidadão local Quarrel (John Kitzmuller) e da jovem Honey Ryder (Ursula Andress), ele acaba descobrindo a ilha onde se esconde o temido Dr. No (Joseph Wiseman), um cientista de descendência germânico-chinesa extremamente inteligente que utiliza a radiação da região para desenvolver armas extremamente poderosas.

Estabelecendo o perigo que Dr. No representa através de seus capangas que assassinam friamente duas pessoas logo de cara, “007 Contra o Satânico Dr. No” é um exemplar genuíno do estilo marcante da série que ele próprio inaugurou, ainda que o ritmo empregado pelo montador Peter Hunt seja mais lento do que estamos acostumados nas aventuras contemporâneas. Mas se este ritmo lento jamais chega a incomodar, até porque esta é uma característica da época, as lutas corporais e a perseguição de carro na montanha soam totalmente datadas, cumprindo sua função narrativa sem grande destaque. Por outro lado, Terence Young acerta ao estender ao máximo a cena em que uma aranha anda pelo corpo de Bond, num dos raros momentos em que a tensão realmente toma conta da tela.

Os ambientes luxuosos concebidos pelo design de produção de Ken Adam tanto em Londres como na suntuosa mansão de Dr. No também criam uma atmosfera elegante e coerente com a postura do protagonista. Além disso, “007 Contra o Satânico Dr. No” tem o mérito de estabelecer características básicas da franquia que durariam décadas, começando pelo impactante tema composto por Monty Norman, identificável até mesmo por quem nunca assistiu a um filme sequer de James Bond (existe este ser?) e que se tornou clássico ao longo dos anos.

Aranha anda pelo corpo de BondSuntuosa mansãoHoney Ryder emerge da águaAlém da trilha, marcam presença também as mulheres sensuais que cruzam o caminho do agente e escancaram sua flagrante incapacidade de resistir ao charme delas. Tendo que ser dublada na pós-produção devido ao forte sotaque, a suíça Ursula Andress se destaca entre as primeiras bondgirls, criando empatia com Bond enquanto o auxilia na descoberta do esconderijo do Dr. No – e no momento em que ela conta sua história, juro que cheguei a pensar que ela poderia ser filha do grande vilão, mas descartei esta possibilidade instantes depois. A imagem de sua Honey Ryder emergindo da água é uma das mais icônicas de toda a franquia, sendo até mesmo homenageada décadas depois.

Imaginado por Ian Fleming para ser vivido por Cary Grant, James Bond ganhou vida mesmo na pele de Sean Connery, na época um ilustre desconhecido ator escocês. Alto e com seu porte físico esguio, Connery se saiu tão bem no papel que ainda hoje é o mais reverenciado intérprete de 007 no cinema. Logo em sua primeira aparição, ele surge dizendo a célebre frase “Bond. James Bond”, em outro momento icônico que ficaria marcado na história do cinema. Impondo-se naturalmente com sua postura elegante que combina perfeitamente com o classudo terno que veste, o Bond de Connery é extremamente astuto e inteligente, sendo capaz de farejar o perigo de longe, além de fugir do convencional estereótipo do “herói bonzinho” ao matar a sangue frio o geólogo Dent interpretado por Anthony Dawson.

Postura eleganteMata a sangue frio o geólogo DentMisterioso Dr. NoDiante de um herói tão competente, era necessária também a presença de um vilão que justificasse o temor gerado na plateia. Com seu nome sendo mencionado pela primeira vez já com mais de 30 minutos de projeção, o misterioso Dr. No ganha ares ainda mais ameaçadores na voz de Joseph Wiseman, que só surge em cena já no ato final, com seu rosto gélido e sua postura simultaneamente elegante e agressiva durante o ótimo diálogo no jantar com James Bond. É uma pena, portanto, que o final previsível e sem forte impacto enfraqueça um pouco este ótimo vilão.

Despretensioso e divertido, “007 Contra o Satânico Dr. No” vale muito também pela curiosidade de ser a primeira incursão de James Bond no cinema, tendo importante papel histórico nesta longa trajetória do agente secreto mais amado do planeta. Depois dele, o universo dos filmes de espionagem jamais seria o mesmo, pois agora todos já conheciam Bond. James Bond.

007 Contra o Satânico Dr. No foto 2Texto publicado em 12 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

DISQUE M PARA MATAR (1954)

(Dial M For Murder)

 

Filmes em Geral #57

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Patrick Allen, Leo Britt, George Leigh e Robin Hughes.

Roteiro: Frederick Knott, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock sabia como poucos extrair suspense de maneira simples e eficiente, seja através de uma festa (“Festim Diabólico”), seja através de uma noite num hotel de beira de estrada (“Psicose”) ou, simplesmente, através das observações de um homem parado numa cadeira de rodas (“Janela Indiscreta”). Mais impressionante ainda era sua habilidade de criar momentos tensos através de objetos do cotidiano, como a xícara de café em “Interlúdio” e, no caso deste ótimo “Disque M para Matar”, um aparelho telefônico. Com a costumeira simplicidade narrativa e um bom elenco nas mãos, o mestre nos brindou com outro longa marcante, repleto de suspense e reviravoltas.

O ex-tenista profissional Tony Wendice (Ray Milland) decide matar sua esposa Margot (Grace Kelly), numa tentativa de herdar seu dinheiro e evitar que ela se separe, após descobrir seu caso extraconjugal com o escritor Mark Halliday (Robert Cummings), que, ironicamente, está visitando o casal. Para isto, ele chantageia um colega dos tempos de faculdade, que deveria assassiná-la em troca de uma boa quantia de libras. Só que o plano não sai conforme o planejado e Tony se vê obrigado a contornar a situação, sem jamais perder de vista sua real intenção de tirar a esposa de seu caminho.

“Disque M para Matar” é uma adaptação para o cinema da peça de Frederick Knott, que é também o responsável pelo excelente roteiro, apresentando, além de diálogos marcantes e muito bem elaborados, desconcertantes reviravoltas durante a narrativa. Rodado na maior parte do tempo em um único cenário, o filme jamais se torna cansativo, graças à boa montagem de Rudi Fehr e aos deliciosos diálogos do roteiro, que ficam ainda mais atraentes devido à boa atuação do elenco comandado por Hitchcock. Aliás, o diretor tem grande parcela de responsabilidade pelo ritmo empolgante do longa, graças à firme condução da narrativa, que não perde tempo e busca apresentar logo em sua introdução os conflitos entre os personagens, deixando o espectador ciente dos problemas entre Tony e Margot e do caso dela com Mark. Em poucos minutos, já sabemos do caso extraconjugal, das cartas de amor interceptadas e do sumiço da bolsa numa estação de trem. Nesta mesma cena, o vestido vermelho de Margot faz alusão ao futuro violento que a aguardava (além de destacar a personagem) e a luxuosa casa em que eles vivem nos mostra a boa situação financeira do casal, revelando o bom trabalho de direção de arte de Edward Carrere. Ou seja, numa única cena, Hitchcock nos apresenta elementos vitais para o andamento da trama e que terão reflexo futuro na narrativa.

Um exemplo claro da qualidade dos diálogos de “Disque M para Matar” é a longa conversa entre Tony e Swan (Anthony Dawson), que, num primeiro momento, serve para nos apresentar aquele novo personagem e seu passado, e, em seguida, nos mostrar o poder de persuasão de Tony, que convence o colega a matar sua esposa através da chantagem de maneira convincente. Inteligente, Tony já havia estudado por muito tempo a vida de Swan e sabia que ele não teria como recusar a proposta. A cena se desenrola com incrível naturalidade, graças também a excelente atuação de Milland e Dawson, que se movimentam e falam como se estivessem num verdadeiro jogo de xadrez, onde cada palavra pode significar uma vantagem para o “oponente”. Nesta cena, vale destacar ainda como a câmera acompanha os movimentos de Tony enquanto ele simula como o assassinato acontecerá, preparando o espectador para aquele momento marcante. Após o diálogo, Swan finalmente pega o dinheiro – e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin surge para reforçar que ele aceitou a proposta.

Em outro momento, Hitchcock enquadra Margot, Mark e Tony, que se despede da esposa enquanto coloca a chave disfarçadamente embaixo do tapete. Mark observa tudo, mas não percebe o que está acontecendo. Na despedida, Margot estranha o beijo do marido, como se pressentisse o que estava acontecendo – e Grace Kelly demonstra isto com precisão através de sua feição preocupada. Momentos antes, a conversa sobre o crime perfeito ajuda a criar a atmosfera ideal para o momento da execução do plano, além de ter reflexo na última cena, quando Tony recorda uma frase de Mark. E então, conforme o planejado, os homens vão para a festa e ela fica sozinha, a mercê do cruel destino arquitetado por seu marido. A trilha ainda mais sombria indica a tragédia enquanto Swan se aproxima da casa dos Wendice e até mesmo a fotografia de Robert Burks, que até então apresentava tons mais claros, carrega nas sombras e cria um visual bastante obscuro, que aumenta a aflição e colabora com a atmosfera de suspense. Como de costume, Hitchcock trabalha sua grande cena em cada detalhe, a começar pela diferença de horário entre os relógios de Swan e Tony, percebida antes pelo espectador e só depois pelos personagens. São estes pequenos detalhes que podem atrapalhar todo o planejamento da dupla e que servem para aumentar ainda mais a tensão. Além do relógio, Tony se depara com um homem no telefone, justamente na hora em que ele vai ligar para a esposa. E então, o telefone toca e seu toque parece disparar o coração do espectador. Hitchcock sabia extrair tensão de coisas simples e, neste caso, um objeto comum como o telefone parece capaz de hipnotizar a platéia e deixá-la em frangalhos. Quando ela finalmente atende, não sabemos onde se encontra Swan, que é revelado através de um belo movimento de câmera, girando em todo o cenário até nos mostrar o assassino no local combinado, bem atrás de Margot. Mas ele não consegue estrangular a pobre vítima (e seu olhar hesitante, segundos antes de atacá-la, indica que Swan não era um assassino frio e cruel como Tony esperava) e, após lutar por sua vida, Margot consegue pegar uma tesoura e atingi-lo, matando-o imediatamente. “Disque M para Matar” sofre então uma grande reviravolta. O que Tony faria agora? É justamente a meticulosa e orquestrada ação dele que acompanharemos, durante a tensa investigação que, sem ter uma única cena de ação (além de se passar praticamente num único cenário), consegue deixar o espectador grudado na cadeira o tempo todo.

Além desta grande cena, “Disque M para Matar” apresenta ainda pequenos momentos de pura tensão, como quando Margot procura algo na bolsa e diz “Estou procurando minha… aspirina”. O espectador pensa, por poucos segundos, que ela descobriria que sua chave não estava lá. Repare ainda a lenta condução da cena em que Tony aguarda a chegada da polícia ao mesmo tempo em que “prepara” a cena do crime, buscando incriminar a esposa. Mais uma vez, o mestre do suspense prolonga ao máximo os momentos tensos. Esta aí o segredo do sucesso da narrativa.

Durante a investigação do astuto Inspetor Hubbard (John Williams), Tony faz o jogo correto, não deixando clara sua real intenção de incriminar a esposa – e Ray Milland se sai bem neste aspecto, demonstrando segurança em suas palavras. Repare como sempre que pode, ele procura se mostrar solícito e preocupado em defender Margot, quando, na verdade, sabemos que ele quer mesmo é condená-la. Hitchcock faz com que o espectador saiba mais que muitos personagens em cena, criando, como ele mesmo afirmava, o verdadeiro clima suspense. Enquanto isto, Grace Kelly faz muito bem o papel da esposa indefesa e, com seu jeito dócil e carismático, conquista o espectador, algo essencial para que o público se envolva com a história e torça por seu sucesso. Observe o seu desespero com as insinuações da polícia de que ela teria premeditado o crime e, especialmente, seu rosto de decepção quando finalmente se dá conta de que Tony havia planejado tudo. Pelo menos, para alivio do espectador, ela se salva, graças também ao bom trabalho do Inspetor Hubbard, interpretado com competência por John Williams, que jamais deixa transparecer para os outros personagens suas intenções em cada visita ao local. Repare que em diversos momentos ele espera que um personagem saia de cena para, em seguida, investigar algo suspeito sobre aquela pessoa na casa, como quando compara as chaves no momento em que Tony entra no quarto. Já Robert Cummings dá vida ao seu Mark Halliday justamente por mostrar força na luta por salvar Margot, mostrando-se indignado com a passividade de Tony após a condenação.

Condenada a morte, Margot pouco poderia fazer em sua defesa. Mas a insistência de Mark e, principalmente, o faro do Inspetor trabalham a favor dela, mesmo com o comportamento meticuloso de seu marido, que faz tudo certo, mas se esquece de um pequeno detalhe. A cena final é conduzida novamente com muita habilidade por Hitchcock, que nos coloca do lado de dentro da casa e nos faz, assim como os personagens, torcer fervorosamente para que Tony abra a porta e, quando isto acontece, nada mais precisa ser dito. Ele já sabe que foi pego. Como previsto, um pequeno detalhe é, literalmente, a chave para a solução do caso, levando o Inspetor a soltar Margot e prender Tony.

Com muita criatividade, um bom elenco e um roteiro maravilhoso, Alfred Hitchcock fez de “Disque M para Matar” mais um dos grandes filmes de sua gloriosa carreira. É realmente impressionante a qualidade de sua filmografia e, acima de tudo, a simplicidade com que ele fazia o seu trabalho. Seus filmes parecem fáceis, mas, na realidade, esta facilidade com que somos envolvidos pela narrativa é fruto de seu árduo trabalho e de sua genialidade.

Texto publicado em 03 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira