PSICOSE (1960)

(Psycho)

5 Estrelas 

Obra-Prima

 

Filmes em Geral #4

Videoteca do Beto #23 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #22; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Martin Balsam, John Gavin, Vera Miles, Simon Oakland, Vaughn Taylor e John McIntire. 

Roteiro: Joseph Stefano, baseado em livro de Robert Bloch. 

Produção: Alfred Hitchcock. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o extremamente talentoso diretor Alfred Hitchcock resolveu filmar o livro Psicose de Roberto Bloch, ele sabia exatamente o que queria: chocar a platéia. E o resultado final não poderia ter sido melhor. Ao terminar de assistir pela primeira vez este clássico do mestre do suspense, fiquei imaginando como teria sido a reação das pessoas na época de seu lançamento, há quase 50 anos atrás. Porque se em pleno ano de 2009 eu tive nada menos do que três choques de arrebentar com a espinha de qualquer um, imagina o que sentiram as pessoas que presenciaram esta maravilha do cinema na tela grande?

É praticamente impossível fazer uma crítica de Psicose sem escrever sobre trechos essenciais da narrativa. Por esta razão, peço educadamente que só leiam esta crítica se já tiverem assistido ao filme. Caso ainda não tenha visto o filme, sugiro parar a leitura por aqui e voltar somente depois de vê-lo. Ver o filme sem saber o que acontece é essencial para viver uma experiência inesquecível.

Marion Crane (Janet Leigh) é apaixonada por Sam Loomis (John Gavin), um homem que, apesar de muito trabalhador, não tem boas condições financeiras. Apesar de hesitar, ela não perde a chance de roubar 40 mil dólares de um velho rico quando esta se oferece, e foge de carro para a cidade de seu amor. Devido a uma forte chuva no caminho, ela decide parar em um Hotel para descansar. É onde conhece Norman Bates, um jovem simpático que parece ter sérios problemas com sua velha mãe. 

A narrativa de Psicose inicia focando o relacionamento amoroso de Marion e Sam, um casal apaixonado e que aparentemente enfrenta problemas para poder viver seu romance. Ele é separado e sofre com os problemas financeiros causados pela pensão. Ela sonha em casar-se, mas sabe que não poderá viver somente de amor, e precisa ajudar Sam a conquistar sua liberdade financeira. É quando a vida oferece uma chance para Marion. Mesmo sendo uma atitude perigosa e totalmente fora dos padrões morais e éticos, ela resolve arriscar e rouba 40 mil dólares que lhe foram confiados para um deposito. No caminho da fuga, ela despista um policial desconfiado e termina sua trajetória em um Hotel escondido na beira da estrada. E termina mesmo! Aqui está um dos primeiros choques que Psicose causa no espectador. Até a primeira metade da narrativa, somos levados a acreditar que a história que será contada é sobre Marion. Só que antes de uma hora de filme ela é brutalmente assassinada, naquela que se tornaria uma das cenas mais famosas do cinema, o assassinato na banheira com a trilha sonora arrepiante de Bernard Herrmann. Auxiliado pelo ótimo roteiro de Joseph Stefano, Hitchcock quebra o eixo da narrativa com brilhantismo, chocando o espectador. Uma confusão se estabelece em nossas mentes neste momento. Qual seria o rumo da história agora? A estrutura convencional dos filmes é quebrada, alterando todo o foco da narrativa. A brilhante fotografia de John L. Russel ajuda a criar um truque essencial para o suspense da trama. Observe como na famosa cena o jogo de luz e sombras esconde os traços principais do rosto da senhora Bates e a revelação de seu rosto só acontece no último ato. Desta forma, temos a dica, mas não a solução para o caso. A excelente montagem de George Tomasini também é essencial na construção do suspense. A rápida troca de imagens aumenta ainda mais o impacto da cena na banheira. Seu talento também pode ser observado na cena final, que sincroniza perfeitamente as diversas ações paralelas que culminam na monumental cena em que a identidade da assassina é revelada. Outros dois momentos são essenciais para que o espectador não descubra a solução da trama antes da hora. O primeiro deles é quando o detetive Arbogast vê a senhora Bates na janela da casa e em seguida é abordado por Norman Bates na frente do Hotel. O segundo acontece quando o xerife Chambers (John McIntire) conta para Sam e Lila (Vera Miles) que a Sra. Bates morreu há dez anos. No plano seguinte, podemos ver a porta do quarto da Sra. Bates e ouvir ela e Norman dialogando. Em seguida, vemos Norman carregando sua mãe para o porão. Apesar de jamais mostrar o rosto dela, Hicthcock praticamente anula em nossas mentes a possibilidade de Norman e sua mãe serem a mesma pessoa. O diretor cria ainda seqüências visualmente interessantes, como o corte seco do plano do ralo para o plano do olho de Marion morta. Através de um travelling, ele sai do olho da moça, passa pelo dinheiro na cômoda e termina a cena com um plano distante da casa. Este movimento não é feito à toa. O diretor quer mostrar todo o cenário do crime, para nos ambientar e relembrar tudo que está envolvido naquele assassinato.

O elenco de Psicose colabora muito para o sucesso do longa. O grande destaque fica para Anthony Perkins, que cria um Norman Bates simpático inicialmente e enigmático no final do filme. Seu olhar para baixo, as mãos cruzadas e seu gaguejar ao falar, além do sorriso contido quando conversa com Marion, demonstram a aparente timidez do rapaz e nos causa simpatia pelo personagem. É perfeitamente aceitável que um rapaz isolado do mundo fique extremamente ansioso ao se deparar com uma jovem bonita como Marion. Sentimos pena dele ao ser maltratado pela mãe e entendemos ser um rapaz muito bom quando ele oferece comida para a moça. Sua transformação ao longo da trama é gradual, mas ele nos dá dicas do que poderá acontecer. Sua reação nervosa diante da insinuação de Marion sobre uma possível internação de sua mãe e a forma com que ele responde as perguntas do detetive Arbogast (Martin Balsam) são indícios da personalidade do rapaz. É claro que são dicas praticamente imperceptíveis em um primeiro momento, já que Hitchcock jamais entregaria o segredo da trama assim de bandeja. Quando a revelação final é feita, o espanto é tão grande que o espectador se sente traído (no bom sentido é claro, já que o roteiro propositalmente nos leva a isso), já que todos os bons sentimentos que pensava ter em relação a Norman são atirados de volta contra ele. Janet Leigh também está muito bem. Observe como ela demonstra toda ambigüidade de Marion na cena do roubo, quando hesita em pegar o dinheiro por diversas vezes enquanto arruma a mala. Ela olha para o dinheiro, respira fundo, coloca roupas na mala, olha novamente, pensa mais um pouco, até que finalmente decide colocar o dinheiro na bolsa. O Sam Loomis de John Gavin é um homem sério, honesto e muito determinado. Sua reação quando o detetive pergunta se Marion está com ele e lhe conta que ela roubou o dinheiro ilustra muito bem a seriedade do personagem. Martin Balsam demonstra firmeza e determinação na busca do que aconteceu no papel do detetive Arbogast. Também se mostra alguém desconfiado nos diálogos que tem com Sam e Lila, e posteriormente com Norman, como é de se esperar na profissão dele. Podemos destacar ainda Vera Miles como Lila Crane, a determinada irmã de Marion, e Simon Oakland, como o didático (mas essencial na época) doutor Fred Richmond.

Como se o primeiro grande choque ocorrido na morte de Marion não fosse suficiente, Psicose conta ainda com mais dois momentos espetaculares que podem servir tranquilamente como inspiração para qualquer filme do gênero (e com certeza serviram ao longo dos anos). O segundo assassinato, ocorrido dentro da casa dos Bates, é um exemplo de como dirigir com perfeição uma cena de suspense. Observe como Hitchcock nos ambienta na casa primeiramente e depois nos leva lentamente através dos passos do detetive pelas escadas, aumentando a tensão nos espectadores. O silencio é a chave para o clima quase palpável de suspense. Quando ele se aproxima do quarto, a câmera muda de posição, filmando por cima e simultaneamente a escada, o detetive e a porta entreaberta do quarto da Sra. Bates. Testemunhamos em poucos segundos a porta se abrir, o reflexo da luz do quarto invadir o corredor e a assassina sair como um raio de dentro do quarto para esfaquear a vítima, ao som da trilha sonora aterrorizante. O choque é inevitável e inesquecível.

A trama caminha com consistência para o terceiro ato, onde o último choque encerrará com perfeição a obra-prima do mestre Hitchcock. As investigações levam a dupla Sam e Lila para o Hotel de Norman, onde supostamente Marion e Arbogast teriam sumido. O espectador sabe que a razão dos assassinatos não era o dinheiro, mas eles não sabem. Ao se apresentarem como um casal e hospedar-se no Hotel, a trama cria a situação ideal para o final mais que perfeito. Somos levados a imaginar que os dois vão ser as últimas vitimas da velha maluca. Até que Lila invade a casa sozinha para tentar falar com a mãe de Norman e, ameaçada pela chegada do rapaz, se esconde na escada que leva aos porões. Ela decide entrar e é exatamente ali que será revelada a grande surpresa da trama e o verdadeiro significado do nome do filme (e do livro) em uma cena absolutamente genial. O conjunto de fatos que levam à cena antológica nos causa um choque atordoante no momento em que descobrimos a verdadeira identidade da assassina. A didática explicação sobre a dupla personalidade de Norman que precede o genial encerramento do filme com ele vestido na camisa de força, era mais do que necessária na época para que as pessoas entendessem a personalidade perturbada do personagem. Talvez hoje não fosse necessária, mas retirar esta cena não tornaria de forma alguma o filme melhor.

Psicose é o cinema em seu estado puro. É a manipulação das emoções da platéia feita com competência e genialidade. É a prova real de que para ser assustador, um filme não precisa necessariamente de acordes altíssimos ou monstros aparecendo repentinamente na tela. É claro que a trilha tem participação importante no longa, mas o que nos causa medo (e não susto) é a situação em que os personagens estão envolvidos. E isto é resultado do trabalho de uma equipe competente, de atores capacitados e de um diretor genial. Não é preciso mais nada.

Texto publicado em 29 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

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23 Respostas to “PSICOSE (1960)”

  1. Cross98 Says:

    Não curto muito o Hitchcock

  2. A MARCA DA MALDADE (1958) « Cinema & Debate Says:

    […] de lado sua esposa, a charmosa Susan interpretada por Janet Leigh (a garota do chuveiro de “Psicose”, que certamente passou a detestar hotéis após estes dois filmes). Infelizmente, o elenco […]

  3. INTRIGA INTERNACIONAL (1959) « Cinema & Debate Says:

    […] que inferior às obras-primas lançadas um ano antes (“Um Corpo que Cai”) e um ano depois (“Psicose”) pelo mestre do […]

  4. UM CORPO QUE CAI (1958) « Cinema & Debate Says:

    […] Cai”, que marca o ponto alto de sua carreira, confirmado dois anos depois em outra obra-prima, “Psicose”. Curiosamente, por apostar numa faceta espiritualista, o longa estrelado por James Stewart e Kim […]

  5. DISQUE M PARA MATAR (1954) « Cinema & Debate Says:

    […] uma festa (“Festim Diabólico”), seja através de uma noite num hotel de beira de estrada (“Psicose”) ou, simplesmente, através das observações de um homem parado numa cadeira de rodas […]

  6. Especial Hitchcock « Cinema & Debate Says:

    […] ressaltar ainda que “Psicose”, um dos meus Hitchcock’s favoritos, já teve sua crítica divulgada no site e por isso não […]

  7. Imagens: Psicose (1960) « Cinema & Debate Says:

    […] com o projeto de atualização das críticas com imagens, desta vez com a crítica do clássico “Psicose” (1960), agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de […]

  8. Alemão Says:

    Dormiu vendo Psicose ? Impossível ! “Crássico”

  9. Sérgio Sampaio Says:

    nossa…como é possível dormir em Psicose? =P

  10. Mandy Intelecto Says:

    Aff…esse blog é louco….

    Ahhhhhh….comecei a assistir e adivinha?!
    Dormiiii!!!

    Huahuahauhauahu….

    Já falei que odeio filme preto e branco?

    • Roberto Siqueira Says:

      A cor (ou a falta de) é só um detalhe… Se assistir até o final vai ver que o filme é bom.

    • carlos Says:

      esse eh o problema dessa geração, muito apegados a efeitos especiais, games e outras porcarias, não se importam com o conteúdo, que diferença faz se eh colorido ou não, a historia, o enredo isso sim , os atores, a direção e por ai vai,tantos filmes magníficos em preto e branco, que ver um que eh bem atual , A lista de Schindler, de Steven Spielberg,em preto e branco, pra dar mais realismo aos nãos 40 , agora que acho e Roberto Siqueira eh muito simpático em responder a certos comentários sarcásticos de gente que na verdade não entende nada de cinema …

  11. Videoteca do Beto #23 « Cinema & Debate Says:

    […] Se quiser ler a crítica do filme Videoteca do Beto #23 (Psicose), basta clicar aqui. […]

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