FARRAPO HUMANO (1945)

(The Lost Weekend)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #99

Vencedores do Oscar #1945

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard Da Silva, Frank Faylen, Doris Dowling e Mary Young.

Roteiro: Billy Wilder e Charles Brackett, baseado em novela de Charles R. Jackson.

Produção: Charles Brackett.

Farrapo Humano[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Billy Wilder já era um cineasta reconhecido e respeitado em Hollywood quando finalmente venceu seu primeiro Oscar de direção por este “Farrapo Humano”, um estudo sufocante sobre o alcoolismo que, além de contar com o enorme talento do diretor, traz ainda uma atuação simplesmente estupenda de Ray Milland na pele do protagonista viciado. Incrivelmente atual, o longa está longe de ser um mero libelo antialcoolismo, trazendo um complexo estudo de seu personagem e, mesmo numa época em que os estúdios costumavam interferir muito nas produções, entregando um resultado admiravelmente corajoso.

O longa inicia quando Don Birnam (Ray Milland) se prepara para viajar com o irmão Wick (Phillip Terry) e a namorada Helen (Jane Wyman) para o campo, onde ficaria distante das bebidas e poderia tentar se livrar do alcoolismo. Só que, após convencê-los a alterar o horário da viagem para assistir uma peça, Birnam sai para beber e desencadeia uma série de acontecimentos que só o afundam cada vez mais no vício, deixando-o mais distante de realizar seu sonho de se tornar um escritor.

Como é característico em sua filmografia, o roteiro escrito pelo próprio Wilder ao lado de Charles Brackett é recheado de diálogos ágeis, que se tornam ainda mais velozes pela maneira como são pronunciados pelos atores, numa estratégia que inteligentemente confere ritmo a narrativa. Ainda assim, existe espaço para que a marcante trilha sonora de Miklos Rozsa pontue os momentos mais dramáticos, aumentando o volume dos acordes e ajudando a criar a atmosfera pretendida pelo diretor. Exibindo movimentos de câmera mais estilizados que de costume, Wilder cria sequências muito interessantes, como no zoom que nos aproxima do rosto de Birnam antes do primeiro flashback, que, por sua vez, serve para aliviar um pouco uma narrativa até então sufocante, numa escolha acertada do diretor e seu montador Doane Harrison, que também se destaca pela maneira elegante que realiza as transições do dia para a noite e da noite para o dia, ilustrando como Birnam perde a noção do tempo quando começa a beber.

Ainda na direção, Wilder abre “Farrapo Humano” com um travelling que nos leva até a janela do protagonista, revelando uma garrafa pendurada do lado de fora e, ao mesmo tempo, ilustrando nossa condição de meros observadores daquela trajetória de autodestruição – e repare como um simples plano rápido de um cigarro na janela já permite que o espectador antecipe que Wick descobrirá a garrafa pendurada. E o mais curioso é que desde o início fica evidente a condição peculiar de Birnam, que até tenta deixar o alcoolismo de lado quando conhece Helen, mas nunca chega a realmente desejar parar. As pessoas que o cercam querem que ele pare, o espectador quer que ele pare, mas ele mesmo não quer. Também por isso, vale destacar o plano em que Birnam liga para Helen de dentro de uma cabine no hotel segundos antes de voltar a se afundar no vício, num simbolismo perfeito da verdadeira prisão que o alcoolismo representa para ele.

Garrafa pendurada do lado de foraVerdadeira prisãoRosto suadoProfundo conhecedor da linguagem cinematográfica, Wilder utiliza a câmera para fazer com que o espectador praticamente sinta o desespero de Birnam para beber, empregando closes em seu rosto suado e realçando as expressões marcantes de Milland. Assim, “Farrapo Humano” obtém sucesso absoluto na tarefa de demonstrar com clareza como funciona o alcoolismo. Em certo momento, Birnam diz para o barman Nat (Howard Da Silva) que durante a noite a bebida é um aperitivo, mas de manhã ela funciona como remédio (“Qualquer marca serve, é tudo igual”, diz). Por isso, ele se desespera quando não encontra uma bebida sequer em seu apartamento, demonstrando grande alívio quando acha uma garrafa perdida, após um interessante plano que revela o paradeiro dela. Aliás, observe como na maioria das vezes em que Birnam entra no apartamento portando garrafas, a fotografia de John F. Seitz se torna mais sombria, simbolizando mais um passo do personagem em direção ao fundo do poço.

O visual se torna ainda mais obscuro e sufocante a partir do momento em que ele é internado num hospital, abrindo espaço para os impressionantes delírios de um paciente. Estes delírios também atormentam o próprio protagonista em dois momentos que, mesmo soando um pouco datados visualmente, ainda mantém a capacidade de nos atormentar, especialmente no segundo caso, quando ele imagina o ataque de um morcego em seu apartamento.

Demonstrando que o alcoolismo comanda sua vida desde os primeiros instantes, Birnam mal consegue organizar seus pensamentos, encontrando a felicidade somente quando segura um copo ou uma garrafa – e até mesmo seu apartamento bagunçado e suas roupas amassadas ilustram este descaso com a vida, realçando o bom trabalho de direção de arte de Hans Dreier e Earl Hedrick e da ótima figurinista Edith Head. Assumindo este difícil papel com personalidade e talento, Ray Milland surge agressivo, gritando em diversos momentos e reagindo de maneira visceral a qualquer manifestação que o contrarie. No entanto, o grande mérito do ator é evitar que o personagem se torne uma caricatura e se afaste completamente da plateia, algo que seria muito fácil se nos baseássemos somente em suas atitudes. Afinal, ele rouba dinheiro do irmão, não se importa com o sofrimento da namorada e muito menos com os sentimentos de uma pretendente. Além disso, perambula pela cidade com sua máquina de escrever, na esperança de conseguir uns trocados para poder comprar mais bebidas.

Ataque do morcegoApartamento bagunçadoPerambula pela cidadeEntretanto, ainda que muito sutilmente, podemos perceber que algo de bom existe dentro daquele homem amargurado, seja quando passeia pela cidade e cumprimenta as pessoas (“Este é o moço gentil que bebe”, diz uma mulher), seja quando assume sua condição sufocante, como no sensacional monólogo no bar em que afirma se sentir como Shakespeare quando bebe, num dos inúmeros grandes momentos da atuação de Milland. Em outro instante, chega a ser comovente a maneira como ele admite seu vício diante de Helen e revela seu desejo frustrado de ser escritor; e são justamente estes momentos, além é claro do carisma de Milland, que permitem que o personagem crie empatia com a plateia, o que é essencial para não nos distanciar da narrativa. Mesmo com todos seus problemas, nós torcemos pelo sucesso do deplorável Birnam.

Quem também se preocupa muito com ele é batalhadora e apaixonada Helen, interpretada com carisma por Jane Wyman e que se torna responsável pelos raros momentos em que ele considera a possibilidade de parar, além é claro de seu irmão Wick, vivido por Phillip Terry e que, após muito tempo lutando, acaba se irritando com a situação e decide deixá-lo para trás, talvez por entender que jamais Birnam conseguiria se livrar do alcoolismo.

E esta é basicamente a mensagem de “Farrapo Humano”, evidenciada ao longo de toda a narrativa através da metáfora dos círculos, “a forma geométrica perfeita, sem começo e sem fim”. Wilder faz questão de utilizar constantemente este simbolismo, seja através do close nos círculos formados pelo copo no balcão do bar ou pela própria estrutura da narrativa, que inicia e termina com o mesmo movimento de câmera, ilustrando que, apesar do tom levemente otimista do final (talvez alguma imposição do estúdio na época), o diretor quer ressaltar que o alcoolismo é uma doença praticamente sem cura, como o próprio personagem afirma em diversos momentos. Ou seja, independente do que aconteça, basta um simples gole para que o alcoólatra volte ao seu círculo de autodestruição.

O longa tem ainda sua porção de cenas capazes de nos deixar apreensivos, como quando Birnam rouba a bolsa de uma mulher e é expulso de um bar ou toda a sequência final em que ele se prepara para o suicídio, na qual o espectador realmente teme pelo futuro do personagem. Só que o grande mérito de “Farrapo Humano” reside mesmo no fato de abordar o alcoolismo com tamanha seriedade numa época em que isto representava uma ousadia temática notável. Mais do que isto, o longa de Wilder consegue humanizar aquele personagem que poderia ser detestável, servindo como um belo estudo não apenas daquele homem, mas do próprio alcoolismo, uma doença complexa e mal compreendida por muitos até hoje.

Farrapo Humano foto 2Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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2 Respostas to “FARRAPO HUMANO (1945)”

  1. Francisco Says:

    Olá roberto, mais uma excelente análise para um excelente filme. Billy Wilder foi muito feliz em levar à tela de cinema já naquela época e de forma tão sensível, corajosa e competente um tema tão complexo, humano e ‘desagradável’ que é o alcoolismo, mazela social que afeta as pessoas e familias de qualquer lugar do mundo e de qualquer nível intelectual ou profissional. De todos os filmes que abordaram este problema tão delicado, creio que Farrapo Humano é o ‘the best’ na história do cinema. Grande abraço!

    • Roberto Siqueira Says:

      Certamente é o melhor sobre o tema que eu já assisti.
      Um abraço e obrigado pelo comentário Francisco.

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