RAZÃO & SENSIBILIDADE (1995)

(Sense and Sensibility)

 

Videoteca do Beto #135

Dirigido por Ang Lee.

Elenco: Emma Thompson, Kate Winslet, Alan Rickman, Hugh Grant, James Fleet, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Harriet Walter, Robert Hardy, Hugh Laurie, Imelda Staunton, Elizabeth Spriggs, Greg Wise, Imogen Stubbs e Emilie François.

Roteiro: Emma Thompson, baseado em romance de Jane Austen.

Produção: Lindsay Doran.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Seguramente, “Razão & Sensibilidade” é uma das melhores adaptações para o cinema da obra de Jane Austen, escritora que se caracterizava por abordar a vida sufocante das mulheres na Inglaterra do século XIX e que já inspirou outros bons filmes como “Emma” e “Orgulho e Preconceito”. Entretanto, apesar da elegante direção de Ang Lee e das excelentes atuações de todo o elenco, é no delicioso roteiro escrito por Emma Thompson que reside o maior mérito do longa, que nos diverte com diálogos primorosos e uma narrativa sempre envolvente.

O filme narra à história das irmãs Elinor (Emma Thompson) e Marianne Dashwood (Kate Winslet) quando, após a morte do pai (Tom Wilkinson), elas se veem obrigadas a deixar a casa onde moravam e mudar-se para o campo, acompanhadas da mãe (Gemma Jones) e da irmã mais nova Margaret (Emilie François). Enfrentando grandes dificuldades financeiras, elas buscam encontrar o amor de maneiras bem distintas, numa sociedade onde as posses da família eram determinantes na escolha dos parceiros. Enquanto a reservada Elinor tenta esconder seus sentimentos pelo jovem Edward Ferrars (Hugh Grant) por saber das diferenças sociais entre eles, a espontânea Marianne não esconde sua empolgação quando conhece o jovem John Willoughby (Greg Wise), para a tristeza de Christopher Brandon (Alan Rickman).

Alternando entre planos gerais que valorizam as paisagens e closes que realçam as atuações, Ang Lee aposta numa direção clássica e sem muitos invencionismos para transformar em imagens o excelente roteiro de Emma Thompson. Apesar disto, o diretor emprega interessantes movimentos de câmera que ajudam a transmitir as sensações que deseja, como quando Willoughby parte para Londres, provocando o choro de Marianne, Margaret e da Sra. Dashwood, que se trancam no quarto e abandonam Elinor sentada na escada, numa cena filmada em plongèe para realçar a tristeza daquele instante. Além disso, o diretor sabe conduzir momentos interessantes, como quando Edward visita Elinor e, após os comentários de Marianne, os olhares desconfiados de Lucy (Imogen Stubbs) colocam o rapaz numa situação bem delicada, ou quando Lucy prepara-se para revelar seu segredo à Fanny e um zoom lentamente nos aproxima das duas, aumentando o impacto da estridente reação da personagem de Harriet Walter.

Lee demonstra ainda sua preocupação com os pequenos detalhes, extraindo um excelente trabalho de toda sua equipe técnica, a começar pela detalhada direção de arte de Philip Elton e Andrew Sanders, que dá vida aos ambientes internos através da realista decoração, assim como os impecáveis figurinos de Jenny Beavan e John Bright ambientam o espectador à época e ao local da narrativa com perfeição com os longos vestidos das mulheres e os engomados fraques dos homens. Já a direção de fotografia de Michael Coulter colabora na criação de planos belíssimos nas tomadas externas, que captam com precisão a beleza dos campos ingleses, auxiliando também na iluminação à luz de velas das cenas noturnas que conferem um visual interessante aos ambientes internos, enquanto a trilha sonora solene de Patrick Doyle reforça o tom épico do longa.

Para conduzir a narrativa de maneira envolvente, Lee conta com a montagem discreta de Tim Squyres e, mais uma vez, apoia-se nos diversos diálogos elegantes e recheados pelo típico humor britânico do roteiro de Thompson, que ainda apresenta interessantes pontos de virada na trama, como a pequena reviravolta provocada pela revelação de um noivado secreto que abala uma das irmãs Dashwood. E para dar vida a estes diálogos, Ang Lee formou um elenco de primeira, que, além do sotaque britânico marcante, demonstra enorme talento mesmo nos papéis secundários.

Empregando um tom de voz baixo e controlado, o ótimo Alan Rickman faz de seu Brandon um personagem cativante, que conquista a torcida da plateia através de sua paciência e bondade, deixando claro que tem plena consciência de que sua idade atrapalha suas intenções com a sonhadora Marianne. Enquanto isso, Hugh Grant faz o tipo tímido, porém educado e simpático (que é a cara dele), conquistando o coração da família Dashwood ao brincar alegremente com a irmã mais nova, Margaret, por exemplo. A atração entre ele e Elinor é quase imediata, mas ambos são “racionais” demais para viver aquela paixão e enfrentar as convenções sociais, superando os problemas financeiros dela que claramente atrapalham a concretização do romance. Quem também merece destaque é Harriet Walter, que dá vida a irritante Sra. Fanny Dashwood, fazendo a cabeça do irmão John (James Fleet) para não ajudar as meias-irmãs e importunando toda e qualquer pretendente sem posses que se aproxime dos irmãos solteiros. E finalmente, vale citar o divertido Sr. John Middleton vivido por Robert Hardy, a falastrona Sra. Jennings de Elizabeth Spriggs e a pequena participação de Tom Wilkinson como o moribundo Sr. Dashwood.

Apesar de abordar muito bem estas características da sociedade inglesa na época, “Razão & Sensibilidade” recorre mesmo à velha formula dos amores impossíveis para conquistar de vez a plateia, focando desde o início nas dificuldades financeiras das irmãs Dashwood, o que, somado ao carisma de Thompson e Winslet, conquista quase que imediatamente a empatia do espectador. Demonstrando seus sentimentos de maneira contida, Thompson oferece um desempenho marcante e repleto de momentos tocantes, como quando chora sozinha na cama após descobrir o noivado de Edward, deixando claro desde o início que sua Elinor é a mais séria e racional das irmãs (portanto, “a razão”), enquanto Marianne é pura paixão (portanto, “a sensibilidade”). Entre tantos momentos marcantes, vale destacar sua reação à acusação da irmã de ser fria, logo após a descoberta do noivado de Edward, quando ela afirma que não é nada fácil sofrer calada e esconder os sentimentos. Já Kate Winslet demonstrava todo seu talento logo em seu segundo papel no cinema, explodindo com facilidade para demonstrar o turbilhão de emoções de sua Marianne em diversos momentos, com quando ela recebe a carta de Willoughby em Londres.

O caso John Willoughby realça ainda mais as diferenças entre as irmãs. Enquanto Winslet demonstra claramente a empolgação de Marianne logo após conhecer o rapaz, com sua fala ofegante e trejeitos escandalosos, Thompson transmite o ciúme e o a forma reticente de agir de Elinor com precisão, com seu olhar reservado e tom de voz baixo. Aliás, os duelos verbais entre elas confirmam o talento das atrizes, que tornam cada embate num momento realista e doloroso. Contudo, ainda que discutam e sejam muito diferentes, é inegável que ambas nutrem um sentimento de respeito e admiração uma pela outra. Por isso, se a chuva realça o sofrimento de Marianne na colina enquanto ela contempla a casa de Willoughby, o quarto escuro e o plano plongèe ilustram o sofrimento de Elinor ao ver a irmã doente logo em seguida. Mas, quando tudo parece se encaminhar para um triste final, o roteiro ainda nos reserva uma empolgante reviravolta. Após ouvirem a confirmação do casamento do “Sr. Ferrars”, as Dashwood recebem a visita inesperada de Edward e descobrem que, na verdade, quem casou foi o irmão dele, numa linda cena que provoca o choro espontâneo da controlada Elinor, em outro momento marcante de Thompson que inicia o inesperado final feliz.

Por tudo isso, “Razão & Sensibilidade” é um filme belo, bem escrito, dirigido e atuado, onde cada nota está em seu devido lugar. Não importa se você é mais racional ou emocional, pois o longa de Ang Lee é capaz de satisfazer todo tipo de espectador. Jane Austen estaria orgulhosa.

Texto publicado em 22 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira

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DURO DE MATAR (1988)

(Die Hard)

 

Videoteca do Beto #117

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson, Paul Gleason, De’voreaux White, William Atherton, Hart Bochner, James Shigeta, Clarence Gilyard Jr. e Alexander Gordunov.

Roteiro: Jeb Stuart e Steen E. De Souza, baseado em livro de Roderick Thorp.

Produção: Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os heróis dos filmes de ação em geral são homens extremamente inteligentes, fortes e aparentemente infalíveis, capazes de enfrentar exércitos inteiros e tomar decisões em questão de segundos, acertando em praticamente todas elas. Felizmente, este não é o caso de John McClane, o protagonista deste ótimo “Duro de Matar” que, além de ser uma pessoa comum que deseja apenas rever a família distante, toma decisões equivocadas e sofre bastante antes de conseguir salvar sua esposa e a própria pele. E ainda que, no fim das contas, tenha o mesmo sucesso em sua missão que os outros heróis do gênero, a forma como o faz é que torna o personagem mais humano e o aproxima do espectador.

De volta a Los Angeles para se reencontrar com a esposa Holly (Bonnie Bedelia) e os filhos, John McClane (Bruce Willis) se vê numa enroscada quando visita a empresa em que ela trabalha na mesma noite em que poderosos bandidos decidem assaltar o local, liderados pelo cruel Hans Gruber (Alan Rickman).

Apostando corretamente na empatia entre o espectador e seu protagonista, o roteiro de “Duro de Matar”, escrito por Jeb Stuart e Steen E. De Souza a partir do livro de Roderick Thorp, trata de apresentar em poucos minutos os principais personagens da trama e suas motivações, fazendo com que o espectador saiba em pouco tempo que John foi casado com Holly e está de volta para ver a esposa e os filhos no natal. Também fica evidente que os problemas do casal têm muito a ver com a vida profissional da mulher que, em plena ascensão, parece dedicar pouco tempo a família, ao passo em que seu marido, empregado na policia de Nova York, não pode se transferir para Los Angeles. Desta forma, quando os bandidos invadem o prédio, o espectador já tem todas as informações necessárias para se identificar com o drama de John, que terá de lutar para defender a sociedade e cumprir seu dever profissional e, acima de tudo, tentar evitar uma tragédia familiar. Outro aspecto interessante do roteiro é a crítica nada velada a imprensa sensacionalista, preocupada apenas em conseguir audiência, notável quando um repórter pergunta desesperado se o cinegrafista captou as imagens da explosão do prédio. Pior ainda é o momento em que eles descobrem a família de John e vão atrás de seus filhos, na tentativa de gerar uma entrevista “bombástica” – um absurdo que, convenhamos, não está distante da realidade que acompanhamos diariamente nos telejornais.

Com um roteiro simples e eficiente, o diretor John McTiernan acerta ao manter um clima palpável de tensão, quebrado apenas pelas reclamações constantes do mal-humorado protagonista e pelas divertidas aparições do motorista da limusine Theo (Clarence Gilyard Jr.) – este tipo de alivio cômico é sempre bem vindo em filmes de ação, servindo para quebrar um pouco a tensão que domina a platéia. Além disso, o diretor utiliza outros recursos narrativos eficientes, como a menção ao relógio Rolex no início, que terá reflexo no clímax da trama. Auxiliado pela montagem de John F. Link e Frank J. Urioste, o diretor estabelece um ritmo dinâmico que torna a narrativa ainda mais empolgante, engrenando logo aos 23 minutos de filme, quando os bandidos invadem o local, prendendo de vez o espectador. McTiernan conta ainda com a agitada trilha sonora de Michael Kamen, que aumenta a adrenalina da platéia, e com o excelente design de som, que torna tudo mais real, além da fotografia sombria de Jan De Bont (que viria a dirigir “Velocidade Máxima”), que aproveita o ambiente fechado e a trama noturna para criar um visual sufocante, refletindo a angústia do protagonista – repare, por exemplo, como as luzes que vazam as persianas e formam sombras no rosto dos personagens dão uma sensação de clausura.

Obviamente, as cenas de ação não poderiam faltar e, na maior parte do tempo, elas soam orgânicas e verossímeis, como quando McClane explode parte do prédio ou quando ele pula do alto do edifício e escapa por pouco da morte. E com exceção de alguns tiros a queima roupa que os bandidos erram diante do herói, na maior parte do tempo suas proezas são convincentes – também porque Willis nos faz acreditar que tudo aquilo é possível -, e nem mesmo os excelentes efeitos visuais soam exagerados, surgindo sempre de maneira orgânica e apenas quando realmente necessários. Além disso, McTiernan cria ainda momentos de pura tensão, como no plano em que o policial Powell (Reginald VelJohnson) se aproxima no corredor do lado direito da tela e vemos a mão armada de um assaltante atrás da parede do lado esquerdo, apenas aguardando o sargento, que desiste antes de encontrá-lo e vai embora. Vale destacar ainda os elegantes movimentos de câmera, como na chegada de John em que um travelling destaca o prédio aonde irá se passar a narrativa, da mesma maneira que a câmera acompanha a chegada do caminhão que levará os vilões até o prédio antes mesmo que o espectador saiba quem está no veiculo. E finalmente, uma simples fotografia de McClane no gabinete indica que eles já tiveram uma relação enquanto Holly conversa com ele no telefone, assim como quando ela fala sobre “dormir no quarto de hóspedes”, fica claro que eles estão separados.

Como citado, os problemas do casal estão mais relacionados à vida profissional do que a relação afetiva e, por isso, nos envolvemos com o drama de McClane. Além disso, Bruce Willis está muito bem como o policial simultaneamente durão e humano que é John McClane, que se torna ainda mais carismático graças ao seu divertido mau humor. Ao contrário dos tradicionais heróis de Hollywood, McClane é uma pessoa comum, passível de erros, que reclama constantemente e não quer estar naquela situação. Apesar da irritante atitude da policial que atende o chamado de McClane, os empecilhos que surgem em seu caminho são críveis, o que colabora para que o espectador se envolva com a trama. Para John, mais importante do que impedir aquele assalto é conseguir sair vivo e salvar sua esposa – duas aspirações mais do que universais.

E se tememos pelo futuro de McClane é porque, além dele parecer vulnerável, os vilões de “Duro de Matar” surgem bastante ameaçadores desde sua introdução, quando a trilha sombria e a forma como eles invadem o prédio já estabelecem para a platéia o perigo que eles representam. Também colabora a atuação séria e convincente de Alan Rickman, que cria um vilão bastante respeitável com seu olhar direto e seu tom de voz sereno, que denota um autocontrole assustador. Cruel e inteligente, seu Hans Gruber mostra que fará o que for preciso para atingir seu objetivo quando mata a sangue frio o executivo Takagi (James Shigeta), presidente da empresa assaltada pelo grupo, numa cena impressionante e de forte impacto. Outra cena impactante é aquela em que um corpo cai no capô do carro do policial Powell. Interpretado por Reginald VelJohnson, Powell estabelece excelente química com McClane, o que só ressalta o aspecto humano do protagonista, especialmente quando este se comove com a triste história do sargento, que atirou por engano num menino de 13 anos (“Não nos ensinam a conviver com o erro”, relembra Powell).

Entre os grandes momentos de “Duro de Matar”, merece destaque o tenso e até mesmo previsível encontro entre Hans e John, quando o vilão finge ser um dos reféns por saber que John não conhecia seu rosto e quase consegue eliminar seu principal obstáculo do caminho. Ainda que esteja acostumado com os heróis indestrutíveis de Hollywood, o espectador chega a temer pelo personagem, justamente porque McClane jamais soa como um herói indestrutível. Assim como voltaremos a temer por McClane no intenso terceiro ato, que começa quando a imprensa dá a arma que faltava para o astuto Hans, informando que sua esposa está entre os reféns. Toda a eletrizante seqüência final, desde a luta entre John e Karl (Alexander Gordunov), passando pela explosão no teto do prédio, a inesperada ajuda de Theo e culminando no aguardado confronto entre John e Hans (em que o relógio terá importante papel), fecha com perfeição a narrativa.

Ótimo filme de ação que não desrespeita a inteligência do espectador, “Duro de Matar” diverte justamente por apresentar cenas de explosões e tiroteios num contexto em que elas são apenas reflexos das ações dos personagens e não a razão de existir da narrativa. Contando ainda com um protagonista carismático, o longa agrada e, como sabemos, ainda abriu portas para novas e interessantes continuações.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)

(Robin Hood: Prince of Thieves)

 

Videoteca do Beto #80

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio, Christian Slater, Alan Rickman, Sean Connery, Geraldine McEwan, Brian Blessed, Nick Brimble, Soo Drouet, Daniel Newman, Daniel Peacock, Walter Sparrow, Michael Wincott e Michael McShane.

Roteiro: Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham.

Produção: Pen Densham, Richard Barton Lewis e John Watson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aproveitando o embalo do sucesso do belo “Dança com Lobos”, Kevin Costner embarcou nesta aventura inspirada no mais famoso dos ladrões, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que o longa dirigido por Kevin Reynolds jamais apresenta um resultado próximo dos filmes que alçaram o ator/diretor à fama. Apesar de entreter, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” apresenta falhas que comprometem seu resultado, se escorando na força de seu personagem principal, no carisma de seu elenco e nas boas cenas de ação que sustentam esta despretensiosa aventura.

Após ser capturado nas cruzadas, Robin de Locksley (Kevin Costner) foge ao lado de Azeem (Morgan Freeman) e volta para a Inglaterra, onde encontra seu pai (Brian Blessed) morto e descobre os planos do xerife de Nottingham (Alan Rickman), que fará de tudo para que o rei Ricardo (Sean Connery) não volte ao trono. Após visitar sua amiga de infância Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio), ele foge dos soldados do xerife liderados por Guy de Gisborne (Michael Wincott) e vai parar na temida floresta de Sherwood, onde encontrará João Pequeno (Nick Brimble), Will Scarlett (Christian Slater) e todos os foras-da-lei que serão liderados por ele na luta contra o xerife.

Apesar de seu início promissor, com a fuga de Robin e Azeem após serem capturados nas cruzadas, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” é um filme leve e despretensioso, que não deixa grandes reflexões e jamais faz um estudo mais profundo a respeito do homem que o inspirou, limitando-se a apresentar as aventuras de Robin e seu grupo nas florestas de Sherwood, balanceadas pelo tradicional romance com Lady Marian. Mas ainda que o tom leve domine a maior parte da narrativa, seu inicio é bastante sombrio e violento, com mãos de prisioneiros ingleses sendo arrancadas numa obscura prisão que reflete a dureza daquela vida. O forte contraste é notável já na chegada de Robin à Inglaterra, quando o visual agradável dá o tom leve e coerente com a lenda. Ainda assim, há espaço para o embate entre religiões que motivou a luta pela terra santa, um tema recorrente e interessante da narrativa, notável quando Robin diz que seu pai achava uma idiotice lutar nas cruzadas para impor sua crença à força ou quando Duncan (Walter Sparrow), após insultar os mouros, pergunta à Azeem a origem do nome dele. Escrito por Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham, o roteiro de “Robin Hood” jamais se define como drama, comédia ou aventura, transitando entre os gêneros freqüentemente, mas, curiosamente, este “escorregão” acaba conferindo charme à narrativa (justamente por se tratar da encantadora lenda de Robin Hood), ao balancear os excelentes momentos de ação, como quando Robin e Azeem fogem para a floresta de Sherwood, com momentos bem humorados, como a chegada à casa de Lady Marian ou o próprio encontro entre Robin e aqueles que ele iria liderar num rio. Por outro lado, o maniqueísmo do longa é evidente, algo ilustrado até mesmo na direção de fotografia de Douglas Milsome, que busca apresentar a floresta de Sherwood constantemente iluminada, com os raios solares vazando as folhas das árvores, ao passo em que o castelo de Nottingham é freqüentemente filmado com pouca iluminação e predomínio das sombras, induzindo o espectador a simpatizar pelo “príncipe dos ladrões”. Mas nem tudo é perdido no roteiro de Densham e Watson, que apresenta, por exemplo, interessantes rimas narrativas, como a pergunta “ela vale a pena?” feita por Robin para Azeem, que refletirá no clímax da narrativa (e que inspirou parte da música tema do filme), ou quando Robin sai do banho e diz para Marian que “estava seguindo o conselho de uma donzela”. Finalmente, vale citar a referência a “O Feitiço de Áquila”, de Richard Donner, quando o frei entra no castelo e fala algo sobre as bebidas.

E se “Robin Hood” apresenta uma narrativa leve, Kevin Reynolds emprega uma direção enérgica, imprimindo um ritmo interessante à aventura, graças também à montagem ágil de Peter Boyle, que se destaca na seqüência final dentro do castelo de Nottingham e também na batalha de Sherwood, além da pequena seqüência de roubos na floresta, que mostra em poucos minutos o crescimento da lenda “Robin Hood”, e de um interessante raccord (corte), quando Mortianna fala para o xerife sobre uma aliança com sangue real e em seguida vemos Lady Marian. Mas este ritmo intenso da aventura não impede que o diretor indique com sutileza, por exemplo, que Will é irmão de Robin, ao focar rapidamente seu rosto após o irmão dizer pela primeira vez seu nome para os donos da floresta, assim como é sutil o momento em que as sombras na parede indicam que os soldados seguirão Duncan. Mas são nas curiosas câmeras que acompanham as flechas que o diretor consegue causar impacto, criando seqüências empolgantes nos treinamentos e um plano belíssimo em câmera lenta, quando Robin atira uma flecha de fogo e salva o irmão. Obviamente, o diretor não perde a oportunidade de explorar o potencial do então astro Kevin Costner para alavancar a bilheteria, abusando de closes e explorando os belos momentos vividos pelo herói e sua amada Marian, como quando o casal desce de uma árvore preso numa corda. Reynolds, no entanto, conduz com irregularidade a batalha na floresta, intercalando bons e maus momentos que culminam no suspense barato sobre a morte de Robin (todos sabem que ele não morreria daquela forma). Por outro lado, o longa apresenta um bom trabalho técnico, com destaque para a direção de arte de Fred Carter, que capricha nas armas dos soldados e nos castelos de Nottingham e Locksley, nos transportando para aquela época. Também colaboram os ótimos figurinos de John Bloomfield, a começar pela caracterização de Robin Hood (o visual foge ao tradicional, mas mantém o charme do “bom ladrão”) e Azeem, passando pelos camponeses e suas roupas rasgadas e chegando aos soldados de Nottingham, com suas impecáveis armaduras. E certamente o maior destaque da parte técnica é a sensacional trilha sonora de Michael Kamen, que alterna entre trechos empolgantes e melódicos, como a despedida de Robin e Marian à beira de um rio (num admirável plano de Reynolds) em que a trilha se funde à melodia da bela música tema “Everything I do (I do it for you)”, de Bryan Adams.

Infelizmente, o que deveria ser uma das grandes forças de “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” acaba se revelando uma decepção, pois o talentoso elenco liderado por Kevin Costner e Morgan Freeman entrega atuações discretas, inferiores à capacidade da maioria deles. A começar por Costner, que escorrega ao falar o inglês norte-americano, obviamente contrariando a origem britânica do herói. Além disso, o ator não demonstra com realismo o sofrimento pela perda do pai, parecendo estar conformado quando deveria estar indignado. Por outro lado, confere um carisma enorme ao ladrão romântico, especialmente nos momentos de humor, como quando pergunta ao pequeno Wulf (Daniel Newman) se João Pequeno era o pai dele, imitando o sorriso sem graça do garoto em seguida, ou quando arranca um anel e um sorriso de uma bela princesa. Estabelecendo boa química com Freeman e Mastrantonio, principalmente nas seqüências vividas na floresta, Costner salva sua atuação em pequenos momentos dramáticos, como o discurso na floresta, quando Robin se proclama o líder dos “foras-da-lei”, ou quando demonstra o quanto ele está arrasado após a batalha de Sherwood – numa das poucas cenas onde o grande talento de Freeman também aparece, com a marcante frase “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”. Mas apesar da atuação apenas discreta, Morgan Freeman demonstra sua qualidade ao compor com cuidado o personagem, por exemplo, falando um inglês sofrível e coerente com a origem moura de Azeem, alguém mais tolerante à diversidade que todos os ingleses, como notamos quando frei Tuck (Michael McShane) se revolta ao vê-lo fazer um parto, que curiosamente serviria para aproximar os dois. Já Mary Elizabeth Mastrantonio tem um começo discreto como Lady Marian, se soltando durante a narrativa e conseguindo empatia com Costner, o que é vital para o sucesso da seqüência final, quando Robin luta por ela. Enquanto isso, o Will de Slater parece sempre tenso, um verdadeiro rebelde sem causa (e o ator tem culpa nisso, por causa de sua atuação exagerada), mas o ator se redime parcialmente no momento em que revela seu parentesco com Robin, conferindo emoção à cena – ainda assim, esta revelação soa forçada e dispensável. E fechando o lado do “bem”, quem também se destaca é Michael McShane como frei Tuck, personificando o tom leve que Reynolds emprega a narrativa através de suas constantes piadas. No lado obscuro da trama, a Mortianna de Geraldine McEwan é a típica bruxa asquerosa – e seu visual horrível é reforçado por ratos, sapos, cobras e tudo que é repugnante, provocando a antipatia do espectador. Sempre que está em cena, Mortianna é envolvida por um visual obscuro, reforçando a tendência de apresentá-la como o “mau” a ser enfrentado, o que reflete também no personagem de Alan Rickman, o terrível xerife de Nottingham. Por outro lado, Rickman, com sua atuação exagerada, confere uma graça ao personagem que trabalha a favor do clima descontraído do longa, mas claramente enfraquece o vilão diante do espectador, apesar do chocante momento em que mata o próprio primo Guy no castelo. Aliás, com sua voz rouca e olhar firme, Michael Wincott faz de seu Guy de Gisborne um vilão até mesmo mais aterrorizante que o xerife de Nottingham.

Após a humilhante derrota sofrida em seu próprio território, Robin e seus amigos decidem evitar a tragédia completa e impedir o enforcamento de seus companheiros no castelo de Nottingham. Tem início então a melhor seqüência do filme, a sensacional cena do enforcamento, conduzida num ritmo intenso por Reynolds. Quando rufam os tambores e o carrasco escolhe Wulf para iniciar a cerimônia, o espectador, agoniado, conta com a mira de Robin, que tenta cortar a corda e acerta na segunda tentativa – e após ver as diversas proezas do herói com o arco e flecha, é normal que o espectador conte com seu sucesso na cena. Vale notar ainda como momentos antes a câmera focaliza duas vezes o barril, indicando sua importância na estratégia de Robin e sua equipe. Mas nem mesmo esta cena é perfeita, pois é totalmente incompreensível a provocação de Will quando Wulf é levado à forca – seria mais coerente ele ficar na dele, sem chamar a atenção. Após esta empolgante seqüência, o esperado duelo final entre o vilão e o mocinho resulta na morte do xerife, atingido pela faca que ele deu de presente para Marian (olha a rima narrativa aí), só que Rickman novamente exagera, se contorcendo e fazendo caretas até finalmente agonizar. O final feliz, com a chegada do rei Ricardo (Connery, em participação descartável), agrada ao espectador, mas deixa a sensação de que “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” tinha potencial para oferecer mais.

Em resumo, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” diverte, mas não vai além. Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, Kevin Costner confere charme ao herói, Freeman e Mastrantonio estabelecem boa química com o astro, mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)

(Perfume: The Story of a Murderer)

5 Estrelas

Filmes em Geral #1

Dirigido por Tom Tykwer.

Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Rachel Hurd-Wood, Ramón Pujol, Corinna Harfouch e a voz de John Hurt.

Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer e Bernd Eichinger, baseado em livro de Patrick Süskind.

Produção: Bernd Eichinger.

Captar em imagens e som o sentido do olfato sempre foi um grande desafio para o cinema e conseguir realizar este feito é apenas um dos diversos pontos positivos deste grande filme, dirigido por Tom Tykwer.

Adaptado do livro homônimo de Patrick Süskind, o roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e do próprio Tom Tykwer narra à estória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whinsaw). Nascido em Paris no período pré-revolução industrial e abandonado pela mãe ainda bebê, descobriu muito jovem que contava com um olfato extremamente aguçado, uma capacidade ímpar de distinguir os mais diversos odores mesmo que estivesse distante deles. Inconformado após não conseguir manter o cheiro que mais lhe atraiu em sua vida, ele decidiu tentar aprender as técnicas para captar e preservar os cheiros que quisesse. Após passar por um período de aprendizado com o decadente perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), parte em busca de experimentar as técnicas que aprendeu na tentativa de manter os mais diversos odores, inclusive de seres humanos.

Logo no inicio somos apresentados ao ambiente hostil em que Grenouille cresceu. Sempre com a câmera próxima, Tykwer nos mostra inicialmente imagens de peixes dilacerados, ratos e toda sujeira da feira livre de Paris, o que faz o espectador imaginar e praticamente sentir o péssimo odor daquele local. Para demonstrar o poder do olfato de Grenouille, ele faz travellings através dos objetos e pessoas, como na cena em que ele sente pela primeira vez o cheiro de uma bela moça. A câmera chega tão próxima das pessoas que praticamente entra dentro delas. A fotografia nesta primeira etapa da vida de Grenouille é suja, sempre com cores tristes como cinza e marrom predominando na tela. Os figurinos sem vida e a atmosfera suja da cidade ajudam a criar este clima triste nesta etapa do filme. Quando ele deixa Paris e parte para cumprir sua missão a fotografia se torna mais alegre, com cores vivas predominando como o verde.

A atuação de Ben Whishaw é bem convincente, demonstrando a obsessão de Grenouille em aprender a explorar melhor o seu talento. Repare como ele repete em tom baixo os nomes até então desconhecidos que o famoso perfumista Baldini pronuncia em seu treinamento, como quem tenta memorizar algo que lhe é novo. Abandonado pela mãe e odiado pelas outras crianças em sua infância, ele se torna um adulto que mal consegue viver em sociedade, vendo o mundo de uma forma totalmente diferente das outras pessoas. Na verdade ele não só vê o mundo, ele sente o mundo através de seu olfato. Quando é vendido a Baldini ele sorri sutilmente no canto da boca, demonstrando satisfação contida por atingir seu objetivo. Este mesmo sorriso aparece na cena em que o cachorro de uma de suas vitimas reconhece o cheiro de sua dona nas mãos de Grenouille, comprovando que sua técnica obteve sucesso. Dustin Hoffman também está bem como o famoso e ultrapassado perfumista Baldini. Ao conseguir a fórmula que procurava através de Grenouille ele dispensa o rapaz sem ao menos experimentar o resultado final, mas quando ele sai, repare na feição do ator demonstrando enorme prazer e satisfação por ter em suas mãos o perfume desejado. Neste momento, o movimento de câmera ao redor de Baldini com flores ao fundo e música nos dá a exata sensação de prazer que ele sente, numa escolha acertada do diretor. Alan Rickman tem uma atuação segura como Antoine Richis, o pai da moça que Grenouille busca para completar sua obra.

Ao deixar Baldini e partir para uma nova etapa de sua vida, Grenouille passa a buscar os 13 componentes que precisa para criar a fórmula perfeita, baseada no cheiro de corpos femininos. Só que para manter o cheiro das belas moças ele precisa matá-las. E assim como John Doe em Se7en, Grenouille acredita que sua obra tem uma importância muito maior do que as pessoas que precisam ser sacrificadas por ela. O filme aqui já apresenta um clima mais próximo do que o título sugere, criando momentos de enorme tensão e expectativa, como na cena que se passa nos jardins do palácio e principalmente no excelente plano onde podemos ver Grenouille à espera da filha de Antoine Richis que se aproxima, em uma das escuras vielas de Paris. Veja como o perfeito enquadramento do plano nos permite acompanhar os lentos passos da moça e observar ao mesmo tempo as reações dele à sua espera.

Mas é o final do filme que o eleva ao status de grande obra, ao abrir uma série de questões e possibilidades (e se você ainda não viu o filme pare por aqui). Seria Grenouille um anjo (ou um salvador), enviado para libertar as pessoas de seus medos e pudores? Repare como todos aqueles que se despedem dele acabam ficando mais tristes, e muitos deles inclusive morrem. Sua presença, e principalmente a presença de sua obra, libertou as pessoas para uma nova realidade de prazer e realização, como na surreal cena de sexo entre milhares de pessoas ao ar livre. Reforça esta tese o fato de Grenouille não possuir cheiro, como ele mesmo nota em certo momento. Além disso, Grenouille tem um comportamento atípico desde o seu nascimento, resistindo a uma séria de ataques de outras crianças de forma incomum. E quando deixa este mundo, o faz de maneira igualmente atípica, simplesmente desaparecendo. Outro ponto de vista é de que Grenouille sequer teria existido, sendo apenas um mito criado em torno dos assassinatos ocorridos na cidade e que acabou ganhando o status de lenda para algumas pessoas daquela comunidade, como apresentado através da voz do narrador (John Hurt, excelente, assim como em Dogville). Desta forma, criam-se duas correntes: uma daqueles que acreditam que Grenouille existiu, fez a fórmula perfeita, inspirou o sexo em massa e desapareceu. E outra daqueles que acham que ele jamais existiu, que nada daquilo realmente aconteceu e que as moças foram assassinadas por outra pessoa, que teria sido justamente enforcada, num paralelo interessante com o que acontece hoje em dia com Jesus Cristo, que também jamais teve cientificamente sua existência comprovada.

Misturando momentos de tensão com metáforas e simbolismos, Perfume é um filme acima da média que abre diversas possibilidades de interpretação de forma inteligente, o que é sempre interessante para aqueles que buscam mais do que apenas entretenimento no cinema.

Perfume

Texto publicado em 22 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira