RAZÃO & SENSIBILIDADE (1995)

(Sense and Sensibility)

 

Videoteca do Beto #135

Dirigido por Ang Lee.

Elenco: Emma Thompson, Kate Winslet, Alan Rickman, Hugh Grant, James Fleet, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Harriet Walter, Robert Hardy, Hugh Laurie, Imelda Staunton, Elizabeth Spriggs, Greg Wise, Imogen Stubbs e Emilie François.

Roteiro: Emma Thompson, baseado em romance de Jane Austen.

Produção: Lindsay Doran.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Seguramente, “Razão & Sensibilidade” é uma das melhores adaptações para o cinema da obra de Jane Austen, escritora que se caracterizava por abordar a vida sufocante das mulheres na Inglaterra do século XIX e que já inspirou outros bons filmes como “Emma” e “Orgulho e Preconceito”. Entretanto, apesar da elegante direção de Ang Lee e das excelentes atuações de todo o elenco, é no delicioso roteiro escrito por Emma Thompson que reside o maior mérito do longa, que nos diverte com diálogos primorosos e uma narrativa sempre envolvente.

O filme narra à história das irmãs Elinor (Emma Thompson) e Marianne Dashwood (Kate Winslet) quando, após a morte do pai (Tom Wilkinson), elas se veem obrigadas a deixar a casa onde moravam e mudar-se para o campo, acompanhadas da mãe (Gemma Jones) e da irmã mais nova Margaret (Emilie François). Enfrentando grandes dificuldades financeiras, elas buscam encontrar o amor de maneiras bem distintas, numa sociedade onde as posses da família eram determinantes na escolha dos parceiros. Enquanto a reservada Elinor tenta esconder seus sentimentos pelo jovem Edward Ferrars (Hugh Grant) por saber das diferenças sociais entre eles, a espontânea Marianne não esconde sua empolgação quando conhece o jovem John Willoughby (Greg Wise), para a tristeza de Christopher Brandon (Alan Rickman).

Alternando entre planos gerais que valorizam as paisagens e closes que realçam as atuações, Ang Lee aposta numa direção clássica e sem muitos invencionismos para transformar em imagens o excelente roteiro de Emma Thompson. Apesar disto, o diretor emprega interessantes movimentos de câmera que ajudam a transmitir as sensações que deseja, como quando Willoughby parte para Londres, provocando o choro de Marianne, Margaret e da Sra. Dashwood, que se trancam no quarto e abandonam Elinor sentada na escada, numa cena filmada em plongèe para realçar a tristeza daquele instante. Além disso, o diretor sabe conduzir momentos interessantes, como quando Edward visita Elinor e, após os comentários de Marianne, os olhares desconfiados de Lucy (Imogen Stubbs) colocam o rapaz numa situação bem delicada, ou quando Lucy prepara-se para revelar seu segredo à Fanny e um zoom lentamente nos aproxima das duas, aumentando o impacto da estridente reação da personagem de Harriet Walter.

Lee demonstra ainda sua preocupação com os pequenos detalhes, extraindo um excelente trabalho de toda sua equipe técnica, a começar pela detalhada direção de arte de Philip Elton e Andrew Sanders, que dá vida aos ambientes internos através da realista decoração, assim como os impecáveis figurinos de Jenny Beavan e John Bright ambientam o espectador à época e ao local da narrativa com perfeição com os longos vestidos das mulheres e os engomados fraques dos homens. Já a direção de fotografia de Michael Coulter colabora na criação de planos belíssimos nas tomadas externas, que captam com precisão a beleza dos campos ingleses, auxiliando também na iluminação à luz de velas das cenas noturnas que conferem um visual interessante aos ambientes internos, enquanto a trilha sonora solene de Patrick Doyle reforça o tom épico do longa.

Para conduzir a narrativa de maneira envolvente, Lee conta com a montagem discreta de Tim Squyres e, mais uma vez, apoia-se nos diversos diálogos elegantes e recheados pelo típico humor britânico do roteiro de Thompson, que ainda apresenta interessantes pontos de virada na trama, como a pequena reviravolta provocada pela revelação de um noivado secreto que abala uma das irmãs Dashwood. E para dar vida a estes diálogos, Ang Lee formou um elenco de primeira, que, além do sotaque britânico marcante, demonstra enorme talento mesmo nos papéis secundários.

Empregando um tom de voz baixo e controlado, o ótimo Alan Rickman faz de seu Brandon um personagem cativante, que conquista a torcida da plateia através de sua paciência e bondade, deixando claro que tem plena consciência de que sua idade atrapalha suas intenções com a sonhadora Marianne. Enquanto isso, Hugh Grant faz o tipo tímido, porém educado e simpático (que é a cara dele), conquistando o coração da família Dashwood ao brincar alegremente com a irmã mais nova, Margaret, por exemplo. A atração entre ele e Elinor é quase imediata, mas ambos são “racionais” demais para viver aquela paixão e enfrentar as convenções sociais, superando os problemas financeiros dela que claramente atrapalham a concretização do romance. Quem também merece destaque é Harriet Walter, que dá vida a irritante Sra. Fanny Dashwood, fazendo a cabeça do irmão John (James Fleet) para não ajudar as meias-irmãs e importunando toda e qualquer pretendente sem posses que se aproxime dos irmãos solteiros. E finalmente, vale citar o divertido Sr. John Middleton vivido por Robert Hardy, a falastrona Sra. Jennings de Elizabeth Spriggs e a pequena participação de Tom Wilkinson como o moribundo Sr. Dashwood.

Apesar de abordar muito bem estas características da sociedade inglesa na época, “Razão & Sensibilidade” recorre mesmo à velha formula dos amores impossíveis para conquistar de vez a plateia, focando desde o início nas dificuldades financeiras das irmãs Dashwood, o que, somado ao carisma de Thompson e Winslet, conquista quase que imediatamente a empatia do espectador. Demonstrando seus sentimentos de maneira contida, Thompson oferece um desempenho marcante e repleto de momentos tocantes, como quando chora sozinha na cama após descobrir o noivado de Edward, deixando claro desde o início que sua Elinor é a mais séria e racional das irmãs (portanto, “a razão”), enquanto Marianne é pura paixão (portanto, “a sensibilidade”). Entre tantos momentos marcantes, vale destacar sua reação à acusação da irmã de ser fria, logo após a descoberta do noivado de Edward, quando ela afirma que não é nada fácil sofrer calada e esconder os sentimentos. Já Kate Winslet demonstrava todo seu talento logo em seu segundo papel no cinema, explodindo com facilidade para demonstrar o turbilhão de emoções de sua Marianne em diversos momentos, com quando ela recebe a carta de Willoughby em Londres.

O caso John Willoughby realça ainda mais as diferenças entre as irmãs. Enquanto Winslet demonstra claramente a empolgação de Marianne logo após conhecer o rapaz, com sua fala ofegante e trejeitos escandalosos, Thompson transmite o ciúme e o a forma reticente de agir de Elinor com precisão, com seu olhar reservado e tom de voz baixo. Aliás, os duelos verbais entre elas confirmam o talento das atrizes, que tornam cada embate num momento realista e doloroso. Contudo, ainda que discutam e sejam muito diferentes, é inegável que ambas nutrem um sentimento de respeito e admiração uma pela outra. Por isso, se a chuva realça o sofrimento de Marianne na colina enquanto ela contempla a casa de Willoughby, o quarto escuro e o plano plongèe ilustram o sofrimento de Elinor ao ver a irmã doente logo em seguida. Mas, quando tudo parece se encaminhar para um triste final, o roteiro ainda nos reserva uma empolgante reviravolta. Após ouvirem a confirmação do casamento do “Sr. Ferrars”, as Dashwood recebem a visita inesperada de Edward e descobrem que, na verdade, quem casou foi o irmão dele, numa linda cena que provoca o choro espontâneo da controlada Elinor, em outro momento marcante de Thompson que inicia o inesperado final feliz.

Por tudo isso, “Razão & Sensibilidade” é um filme belo, bem escrito, dirigido e atuado, onde cada nota está em seu devido lugar. Não importa se você é mais racional ou emocional, pois o longa de Ang Lee é capaz de satisfazer todo tipo de espectador. Jane Austen estaria orgulhosa.

Texto publicado em 22 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

(Four Weddings and a Funeral)

 

Videoteca do Beto #106

Dirigido por Mike Newell.

Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, Kristin Scott Thomas, Rowan Atkinson, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, David Bower, Charlotte Coleman, Timothy Walker, Sara Crowe, Ronald Herdman, Elspet Gray e Philip Voss.

Roteiro: Richard Curtis.

Produção: Duncan Kenworthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando com inteligência e bom humor as semelhanças e diferenças culturais que atrapalham um homem e uma mulher apaixonados, o diretor Mike Newell entrega uma comédia leve, com boas atuações e diálogos divertidos, recheados pelo típico humor ácido inglês. Nem mesmo o previsível final compromete o bom resultado do longa, que está longe de figurar entre os cinco melhores do ano (como apontou a Academia de Hollywood), mas que certamente é um entretenimento agradável (especialmente para casais).

Charles (Hugh Grant) é um solteirão que evita de todas as formas um compromisso sério com alguma mulher. Só que no casamento de um amigo, ele conhece Carrie (Andie MacDowell), uma mulher capaz de abalar suas convicções e fazê-lo questionar tudo que defendeu até então.

Escrito por Richard Curtis (que viria a escrever “Um lugar chamado Notting Hill” e dirigir “Simplesmente Amor”), o roteiro de “Quatro casamentos e um funeral” é repleto de diálogos interessantes e boas tiradas, que aproveitam situações costumeiras em casamentos (e funerais) para nos fazer rir, como no ácido discurso de Charles no primeiro casamento, que fica ainda melhor graças à boa interpretação de Grant (repare também no close em Carrie quando ele fala que não teria coragem de casar, indicando a atração dela pelo rapaz). E apesar dos clichês costumeiros do gênero (o primeiro encontro inesquecível, os obstáculos que separam o mocinho e a mocinha antes deles ficarem juntos no final), o longa consegue prender nossa atenção, muito por causa das situações divertidas e inusitadas que envolvem os personagens, ainda que algumas soem artificiais. Além disso, a fotografia viva de Michael Coulter e as roupas coloridas (figurinos de Lindy Hemming) conferem uma atmosfera alegre ao filme, assim como as igrejas muito bem decoradas garantem a ambientação do espectador nos principais cenários – Coulter ainda acerta ao utilizar a chuva no casamento de Carrie e no enterro de Gareth, acentuando a tristeza dos personagens. E finalmente, a trilha sonora de Richard Rodney Bennett surge apenas em momentos pontuais, como na primeira conversa entre Charles e Carrie e no funeral de Gareth, enquanto nos casamentos e festas ela é diegética, surgindo nos cantos na igreja, na marcha nupcial e nas tradicionais músicas tocadas em festas de casamento.

Neste clima leve, Mike Newell conduz a narrativa de maneira solta, empregando muitos closes e planos americanos que valorizam as atuações (o que é correto num filme que depende bastante do desempenho dos atores). O diretor também cria belos planos nas igrejas, explorando o visual rico destes locais, e extrai o riso através de rimas narrativas, como quando Charles se atrasa no segundo casamento, da mesma maneira que fez no primeiro (e o plano dele desligando o despertador faz o espectador pressentir o atraso antes mesmo de vê-lo acordando desesperado). Finalmente, o diretor emprega movimentos de câmera corretos, como quando Charles descobre que Carrie está noiva e o zoom realça a tristeza dele. Essencial numa comédia romântica, a montagem de Jon Gregory imprime um ritmo delicioso ao longa, dividindo a narrativa entre os cinco eventos principais de forma correta, além de ser fundamental em algumas cenas, como quando Carrie diz “Você não é tão bonito” e um corte nos leva à imagem da janela do hotel, indicando que eles dormiram juntos novamente. Em seguida, Carrie dorme no hotel e outro raccord nos mostra Charles dormindo na mesma posição que ela, numa elegante rima visual que indica que eles estão conectados.

E apesar do correto trabalho técnico, é na condução do elenco que Newell tem seu maior mérito. A começar por Hugh Grant, que cai muito bem no papel do atrapalhado Charles, como podemos notar logo na primeira cerimônia, quando sua reação engraçada a uma pergunta indica que ele esqueceu as alianças. Outro momento divertido envolvendo o ator (e suas reações desesperadas) acontece quando Charles senta-se à mesa com muitas ex-namoradas, numa seqüência hilária de revelações comprometedoras do passado. Esta cena também escancara a paixão dele por Carrie, pois sua timidez diante dela contradiz totalmente sua fama de namorador, revelando um nervosismo incomum naquele rapaz. Aliás, o encontro entre Charles e Carrie no bar “Boatman” começa engraçado e termina bastante sensual, e o envolvimento do casal só é crível graças à empatia entre Grant e MacDowell, que parecem de fato estarem apaixonados. A troca de olhares, a forma como se comportam e principalmente a química do casal nos convence. Por isso, quando Charles começa a sentir a falta de Carrie, sabemos que ele foi fisgado – o que leva a atrapalhada declaração dele, no único momento em que a narrativa se passa fora das cerimônias que dão nome ao filme. Obviamente, Andie MacDowell também tem méritos, conferindo sensualidade a norte-americana Carrie, além da notável simpatia, essencial para que o espectador torça pelo casal. E mesmo noiva, ela continua vivendo bons momentos com ele, como na conversa sobre as transas do passado, logo após experimentar vestidos de noiva, numa cena que escancara as diferenças culturais de ambos em relação ao sexo – e é curioso notar também a dica do roteiro, quando Carrie experimenta um vestido na frente dele e diz “Este não. Talvez na próxima vez?”.

Esta afinidade serve também para provocar tristeza nas inúmeras pretendentes de Charles. E uma delas em especial chama a atenção. Trata-se de Fiona, interpretada pela sempre ótima Kristin Scott Thomas, que exala sarcasmo ao mesmo tempo em que parece fina e bela. Vestida sempre de preto, a moça parece ilustrar através das roupas a tristeza de uma garota que há tanto tempo sofre por amar alguém que não a ama (novamente, ponto para os figurinos de Lindy Hemming). Antes mesmo que a platéia confirme o interesse dela pelo protagonista, Fiona indica que é apaixonada por alguém, e o espectador mais ligado sente que é Charles, até pela forma que ela olha pra ele e, principalmente, pela forma como ela se refere à Carrie quando ele demonstra interesse. E mesmo num papel secundário e sem grande destaque, é impressionante notar como Kristin Scott Thomas consegue dar peso à confissão de Fiona, fazendo a cena soar comovente sem ser melodramática. Já Simon Callow faz de seu Gareth um personagem amável, amigo de todos, o que explica a enorme tristeza após sua morte. Além disso, é interessante o momento da revelação sutil de seu caso com Matthew, através do discurso emocionado do rapaz em seu enterro, citando o poema de W.H. Alden, “Funeral Blues” – num bom momento de John Hannah. E finalmente, vale destacar a presença de Rowan Atkinson (hoje famoso pelo papel de “Mr. Bean”) na pele do Padre Gerald, protagonizando uma das cenas engraçadas do segundo casamento.

Ainda durante o funeral, notam-se claramente as semelhanças entre as duas cerimônias centrais da trama, o casamento e o próprio funeral. Ambos são eventos que unem a família e os amigos, sempre com roupas elegantes e dentro da igreja. Nos dois casos, as pessoas choram e sorriem, alguém faz um discurso e alguém é o centro das atenções. Obviamente, as diferenças também aparecem, já que no primeiro caso “quase” todos estão alegres, e no segundo, a tristeza impera. Vale destacar ainda como no funeral, Newell emprega muitos closes e alterna bastante entre os planos, destacando a reação emocionada das pessoas. Após este momento melancólico, a alegria volta a dominar a narrativa e chegamos ao esperado dia em que Charles se entregará ao compromisso do casamento. Só que, inteligentemente, o nome da noiva no convite é escondido por uma flor, mantendo um suspense interessante, que, infelizmente, é quebrado já na cena seguinte. Ao vermos Fiona no carro, percebemos que ela não será a noiva e, pouco tempo depois, ela mesma revela o nome da escolhida. E ao descobrir que a noiva não é Fiona e nem Carrie, o espectador se desanima. Mas, quando Carrie chega e revela que está separada, começamos a torcer pelo politicamente incorreto “não” de Charles na cerimônia. E apesar de ser totalmente previsível, o espectador fica feliz quando ele diz que ama outra no altar – e o plano dele angustiado enquanto a noiva entra na igreja diz mais que qualquer palavra. É clichê? É. Previsível? Sim. Mas funciona muito bem.

Apesar de ser totalmente previsível, o final de “Quatro Casamentos e um Funeral” é coerente com a proposta do filme, que é proporcionar uma sensação de bem estar ao espectador. Além disso, o longa tem o mérito de fazer boas piadas com situações corriqueiras nestas cerimônias, fazendo com que o espectador se identifique com o que vê e, por isso, sinta empatia pelo filme. Pra quem já é casado (como eu), fica a sensação de que, por mais que alguns casamentos não dêem certo, arriscar viver o amor verdadeiro sempre vale à pena.

Texto publicado em 18 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira