POCAHONTAS (1995)

(Pocahontas)

 

Videoteca do Beto #134

Dirigido por Mike Gabriel e Eric Goldberg.

Elenco: Irene Bedard, Mel Gibson, Christian Bale, David Ogden Stiers, Judy Kuhn, John Kassir e Russell Means.

Roteiro: Carl Binder, Susannah Grant e Philip LaZebnik, baseado em história de Glen Keane, Joe Grant, Ralph Zondag, Ed Gombert, Burny Mattinson, Kaan Kalyon, Rob Gibbs, Francis Glebas, Todd Kurosawa, Duncan Marjoribanks, Chris Buck e Bruce Morris.

Produção: James Pentecost.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando o inevitável conflito cultural que a arrogância do homem branco trouxe para as Américas na época das grandes embarcações, “Pocahontas” certamente poderia ser considerado um grande filme se tivesse sido lançado algumas décadas antes. No entanto, lançado um ano depois de “O Rei Leão” e no mesmo ano de “Toy Story”, o longa dirigido por Mike Gabriel e Eric Goldberg claramente soa ultrapassado. Apesar de divertir, seu visual fascinante não consegue eliminar a fraqueza de uma narrativa inocente demais para os padrões de sua época.

Adaptado por Carl Binder, Susannah Grant e Philip LaZebnik com base em história de diversos autores, “Pocahontas” traz a história do encontro da personagem título (voz de Irene Bedard) e de seu povo indígena com os conquistadores britânicos, que chegam ao “novo mundo” liderados pelo governador Ratcliffe (voz de David Ogden Stiers) e pelo capitão John Smith (voz de Mel Gibson), trazendo na bagagem o interesse pela exploração da terra local. Obviamente, este interesse se choca diretamente com os interesses dos nativos, criando um ambiente instável que pode levar à guerra, para a tristeza dos apaixonados Pocahontas e Smith.

Apostando no mais que batido tema das diferenças culturais entre homens brancos e índios, “Pocahontas” ao menos acerta ao questionar a imbecilidade da guerra, mas sua fórmula desgastada fica evidente em diversos momentos da projeção. Pra piorar, quando comparado ao excepcional resultado alcançado pela Disney um ano antes na obra-prima “O Rei Leão”, o projeto soa ultrapassado tanto tematicamente quanto em sua estrutura narrativa, empalidecendo ainda mais diante da renovação que o gênero sofreria no mesmo ano de 1995 com o revolucionário “Toy Story” (da própria Disney, em parceria com os estúdios Pixar). Abordando o conflito entre conquistadores e nativos da maneira mais direta possível, “Pocahontas” não hesita em caracterizar os europeus como cruéis exploradores da terra, que surgem entoando canções sobre como matarão os “selvagens” – o que não está tão distante da realidade apresentada em filmes como o ótimo “A Missão”. E apesar de jamais mostrar o resultado das ações violentas dos personagens (poupando o público infantil), “Pocahontas” pelo menos apresenta estes inevitáveis confrontos, ainda que no primeiro deles apenas um índio seja ferido. Neste sentido, a morte de Kocoum é bem mais realista e essencial para que o espectador entenda o risco daquela situação, trazendo peso dramático num momento crucial da narrativa.

O roteiro peca ainda ao trazer os índios falando em inglês, mas esta é uma escolha compreensível, pois seria comercialmente inviável numa produção voltada para o público infantil misturar dois idiomas e intercalar trechos dublados e legendados, apesar da verossimilhança que esta escolha traria para a narrativa. Por outro lado, os roteiristas acertam ao respeitar características marcantes da cultura indígena, como as reuniões coletivas em que eles debatem assuntos relevantes, o que ajuda na ambientação do espectador, além de inserir na cabeça das crianças, ainda que de maneira inocente, esta visão mais profunda e despida de preconceitos sobre as diferenças entre os povos, reforçada nas conversas entre Smith e Pocahontas. E se – talvez pela falta de carisma de alguns personagens – a narrativa jamais consegue envolver o espectador completamente, por outro lado apresenta personagens interessantes, como a adorável árvore falante que rouba a cena sempre que aparece.

Repleto de canções desde sua abertura, na seqüência visualmente belíssima em que os britânicos deixam o porto em direção ao novo mundo, “Pocahontas” emprega a estrutura narrativa tradicional da Disney – em menos de 20 minutos de projeção, temos quatro números musicais. Com seu trabalho facilitado pela curta duração do filme, o montador H. Lee Peterson não encontra problemas para dar dinamismo a narrativa, esbarrando apenas nestas sequências musicais que quebram o ritmo constantemente. Por outro lado, Peterson acerta em transições interessantes, como aquela em que vemos os índios dizendo que torcem para que os europeus não tenham vindo pra ficar e, no plano seguinte, vemos a bandeira britânica sendo fincada na terra deles. Mas se esta estrutura narrativa claramente estava ultrapassada, pelo menos as músicas do competente Alan Menken têm função narrativa e dão seqüência na história, ainda que não cheguem a empolgar ou tenham a beleza das canções que ele criou para “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera” – nem mesmo “Colors of the Wind” me agradou tanto.

Explorando mais uma vez com competência a oportunidade de criar paisagens lindas, os animadores da Disney entregam um universo colorido e impressionante, que ganha vida nos movimentos de câmera e planos gerais dos diretores Mike Gabriel e Eric Goldberg, além dos planos simbólicos como o que Pocahontas se depara diante de dois caminhos no rio, escolhendo o mais tortuoso e indicando sua escolha na vida amorosa. Além disso, os diretores acertam em cheio no esperado primeiro encontro entre Pocahontas e Smith, numa cena conduzida lentamente, sob a névoa da cachoeira e praticamente sem diálogos, embalada apenas pela trilha sonora. O visual ganha destaque também quando Pocahontas visita Smith na sombria prisão e, especialmente, na seqüência predominada por tons avermelhados que realçam a natureza violenta das canções entoadas antes da batalha, quando os dois lados gritam que seus adversários são “bárbaros”.

Apesar do requintado visual, “Pocahontas” não apresenta muitos personagens cativantes, falhando também quando tenta ser engraçado, com piadas desinteressantes que normalmente envolvem os animais da protagonista – como sabemos, os momentos de alívio cômico costumam funcionar muito bem em animações. Por outro lado, os personagens centrais da trama não comprometem e compensam esta falha. Surgindo como um grande herói logo em sua introdução, quando salva um homem que caiu no mar, Smith é o típico “príncipe Disney”, de cabelos compridos e olhos claros, e que conta ainda com a voz imponente de Mel Gibson, que confere carisma ao personagem, ainda que lhe falte o sotaque britânico ideal no papel. Já David Ogden Stiers empresta sua voz ameaçadora ao comandante Ratcliffe, um vilão egoísta que não pensa duas vezes antes de prejudicar alguém em benefício próprio, mas que pelo menos garante raros momentos de diversão graças as suas expressões caricaturais. Vale destacar também que Christian Bale empresta sua voz ao dedicado Thomas. E finalmente, Pocahontas se apresenta como uma heroína destemida e corajosa, que carrega a narrativa com facilidade e conquista a empatia do espectador, o que é fundamental para salvar o projeto do fracasso. E se seu romance com Smith não chega a empolgar, pelo menos não compromete em nada o resultado final.

Construído numa escala dramática crescente, o esperado confronto entre conquistadores e nativos é impedido pela coragem de Pocahontas, num final previsível e até mesmo irreal, mas que funciona ao concluir o arco dramático da protagonista, transformando-a na grande heroína. Em seguida, o tema do amor proibido ganha ecos ainda mais dramáticos na despedida de Smith, quando Pocahontas sobe num monte para ver o navio distante (num lindo plano, aliás), perdendo-se no horizonte enquanto leva seu amado de volta para o velho mundo. Apesar do tom melancólico, este sim é um final coerente com a história narrada.

Coerente também é dizer que “Pocahontas” é um apenas bom filme, que diverte o espectador, mas jamais deixa sua marca. Empalidecido diante do cenário em que foi lançado, tampouco ganhou relevância com o passar dos anos, sendo relegado ao esquecimento de parte do grande público, ainda que sobreviva na memória de cinéfilos e apaixonados por animações. Em todo caso, assim como sua protagonista, o longa tem sua beleza.

Texto publicado em 15 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “POCAHONTAS (1995)”

  1. Videoteca do Beto #134 – Pocahontas, #147 – Fantasia, #148 – Dumbo, #149 – Bambi e #150 – O Rei Leão « Cinema & Debate Says:

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