PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)

(Perfume: The Story of a Murderer)

5 Estrelas

Filmes em Geral #1

Dirigido por Tom Tykwer.

Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Rachel Hurd-Wood, Ramón Pujol, Corinna Harfouch e a voz de John Hurt.

Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer e Bernd Eichinger, baseado em livro de Patrick Süskind.

Produção: Bernd Eichinger.

Captar em imagens e som o sentido do olfato sempre foi um grande desafio para o cinema e conseguir realizar este feito é apenas um dos diversos pontos positivos deste grande filme, dirigido por Tom Tykwer.

Adaptado do livro homônimo de Patrick Süskind, o roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e do próprio Tom Tykwer narra à estória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whinsaw). Nascido em Paris no período pré-revolução industrial e abandonado pela mãe ainda bebê, descobriu muito jovem que contava com um olfato extremamente aguçado, uma capacidade ímpar de distinguir os mais diversos odores mesmo que estivesse distante deles. Inconformado após não conseguir manter o cheiro que mais lhe atraiu em sua vida, ele decidiu tentar aprender as técnicas para captar e preservar os cheiros que quisesse. Após passar por um período de aprendizado com o decadente perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), parte em busca de experimentar as técnicas que aprendeu na tentativa de manter os mais diversos odores, inclusive de seres humanos.

Logo no inicio somos apresentados ao ambiente hostil em que Grenouille cresceu. Sempre com a câmera próxima, Tykwer nos mostra inicialmente imagens de peixes dilacerados, ratos e toda sujeira da feira livre de Paris, o que faz o espectador imaginar e praticamente sentir o péssimo odor daquele local. Para demonstrar o poder do olfato de Grenouille, ele faz travellings através dos objetos e pessoas, como na cena em que ele sente pela primeira vez o cheiro de uma bela moça. A câmera chega tão próxima das pessoas que praticamente entra dentro delas. A fotografia nesta primeira etapa da vida de Grenouille é suja, sempre com cores tristes como cinza e marrom predominando na tela. Os figurinos sem vida e a atmosfera suja da cidade ajudam a criar este clima triste nesta etapa do filme. Quando ele deixa Paris e parte para cumprir sua missão a fotografia se torna mais alegre, com cores vivas predominando como o verde.

A atuação de Ben Whishaw é bem convincente, demonstrando a obsessão de Grenouille em aprender a explorar melhor o seu talento. Repare como ele repete em tom baixo os nomes até então desconhecidos que o famoso perfumista Baldini pronuncia em seu treinamento, como quem tenta memorizar algo que lhe é novo. Abandonado pela mãe e odiado pelas outras crianças em sua infância, ele se torna um adulto que mal consegue viver em sociedade, vendo o mundo de uma forma totalmente diferente das outras pessoas. Na verdade ele não só vê o mundo, ele sente o mundo através de seu olfato. Quando é vendido a Baldini ele sorri sutilmente no canto da boca, demonstrando satisfação contida por atingir seu objetivo. Este mesmo sorriso aparece na cena em que o cachorro de uma de suas vitimas reconhece o cheiro de sua dona nas mãos de Grenouille, comprovando que sua técnica obteve sucesso. Dustin Hoffman também está bem como o famoso e ultrapassado perfumista Baldini. Ao conseguir a fórmula que procurava através de Grenouille ele dispensa o rapaz sem ao menos experimentar o resultado final, mas quando ele sai, repare na feição do ator demonstrando enorme prazer e satisfação por ter em suas mãos o perfume desejado. Neste momento, o movimento de câmera ao redor de Baldini com flores ao fundo e música nos dá a exata sensação de prazer que ele sente, numa escolha acertada do diretor. Alan Rickman tem uma atuação segura como Antoine Richis, o pai da moça que Grenouille busca para completar sua obra.

Ao deixar Baldini e partir para uma nova etapa de sua vida, Grenouille passa a buscar os 13 componentes que precisa para criar a fórmula perfeita, baseada no cheiro de corpos femininos. Só que para manter o cheiro das belas moças ele precisa matá-las. E assim como John Doe em Se7en, Grenouille acredita que sua obra tem uma importância muito maior do que as pessoas que precisam ser sacrificadas por ela. O filme aqui já apresenta um clima mais próximo do que o título sugere, criando momentos de enorme tensão e expectativa, como na cena que se passa nos jardins do palácio e principalmente no excelente plano onde podemos ver Grenouille à espera da filha de Antoine Richis que se aproxima, em uma das escuras vielas de Paris. Veja como o perfeito enquadramento do plano nos permite acompanhar os lentos passos da moça e observar ao mesmo tempo as reações dele à sua espera.

Mas é o final do filme que o eleva ao status de grande obra, ao abrir uma série de questões e possibilidades (e se você ainda não viu o filme pare por aqui). Seria Grenouille um anjo (ou um salvador), enviado para libertar as pessoas de seus medos e pudores? Repare como todos aqueles que se despedem dele acabam ficando mais tristes, e muitos deles inclusive morrem. Sua presença, e principalmente a presença de sua obra, libertou as pessoas para uma nova realidade de prazer e realização, como na surreal cena de sexo entre milhares de pessoas ao ar livre. Reforça esta tese o fato de Grenouille não possuir cheiro, como ele mesmo nota em certo momento. Além disso, Grenouille tem um comportamento atípico desde o seu nascimento, resistindo a uma séria de ataques de outras crianças de forma incomum. E quando deixa este mundo, o faz de maneira igualmente atípica, simplesmente desaparecendo. Outro ponto de vista é de que Grenouille sequer teria existido, sendo apenas um mito criado em torno dos assassinatos ocorridos na cidade e que acabou ganhando o status de lenda para algumas pessoas daquela comunidade, como apresentado através da voz do narrador (John Hurt, excelente, assim como em Dogville). Desta forma, criam-se duas correntes: uma daqueles que acreditam que Grenouille existiu, fez a fórmula perfeita, inspirou o sexo em massa e desapareceu. E outra daqueles que acham que ele jamais existiu, que nada daquilo realmente aconteceu e que as moças foram assassinadas por outra pessoa, que teria sido justamente enforcada, num paralelo interessante com o que acontece hoje em dia com Jesus Cristo, que também jamais teve cientificamente sua existência comprovada.

Misturando momentos de tensão com metáforas e simbolismos, Perfume é um filme acima da média que abre diversas possibilidades de interpretação de forma inteligente, o que é sempre interessante para aqueles que buscam mais do que apenas entretenimento no cinema.

Perfume

Texto publicado em 22 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

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17 Respostas to “PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)”

  1. cross98 Says:

    E então ai surgiu o melhor critico da net

  2. Filipa Says:

    Ah… e a cena de sexo, meu deus! é fantastica! mostra o poder imediato que o grenouille tem sobre todos! mostra que é implacável, que todos estão subjugados, que ele tem o que sempre desejou! (apesar de se aperceber que afinal continua sem sentir nada, não esta contente, nada)

    este livro, e não falo tanto do filme porque lhe faltam muitos aspectos que só no livro é que tem, é fantástico e tem de ser bem lido e tem de se seguir cada frase e saber o que significa, não é tão óbvio quando se lê pela primeira vez, tem de se voltar a ler e aí começa-se a apanhar os pormenores e tudo fica mais claro.

    Desculpem chatear tanto mas acho que as cenas que mencionaram aqui que estavam “erradas” no livro, ou no filme, são precisamente as cenas que fazem da história uma optima historia. São cenas cruciais.

    • Roberto Siqueira Says:

      Falando especificamente do filme Filipa, a cena funciona muito bem.
      Grande abraço.

  3. Filipa Says:

    Ouçam, o filme nunca poderia ter outro final. Aquele é o final que faria todo o sentido. Ele decide que afinal não lhe interessa ter o poder dos outros porque continua sem se ter encontrado, continua sem ter odor. Não é capaz de sentir, de amar. Daí que ele decida desaparecer exactamente no sitio onde nasceu e sem odor corporal, sem deixar rasto no mundo.

    Não poderia jamais ter outro fim. Esse fim do pai da rapariga ruiva o matar, isso sim, era um final muito mau e sem sentido. Simplesmente não faria sentido com o resto da história e com a essência do filme e do grenouille. Aconselho, na minha opinião, a que leiam o livro com mais atençao 🙂

    • Roberto Siqueira Says:

      Valeu pelo comentário e pela visita ao Cinema & Debate Filipa.
      Eu, particularmente, gostei muito do final. Só discordo quanto a necessidade de ler o livro, pois o filme deve se sustentar sozinho (o que, felizmente, “Perfume” faz muito bem).
      Abraço.

  4. Fábia Mayara Says:

    Concordo Roberto, o fato de Grenouille simplesmente deixar de existir, é o que torna o filme diferente, pq todo mundo ja ta acostumado a ver o assasino preso ou morto no fim.

  5. Anônimo Says:

    Parabens, sua critica me fez ter vontade de ver novamente o filme, seu olhar detalista, empolga a isso !!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Anonimo,
      Seja bem vindo ao Cinema & Debate e muito obrigado pelo seu comentário.
      Volte sempre e sinta-se à vontade para fazer novos comentários.
      Abraço.

  6. Thiago Barrionuevo Says:

    É verdade, Beto… Gostei do filme, mas o final é realmente estranho… Pra mim, o filme é apenas uma representação de um conto, uma lenda… Acho que é um bom filme, que dá possibilidades de várias interpretações… a sua visão sobre ele não existir é interessante e eu concordo… mas, seria ótimo o fim descrito pela Mandinha!

    • Roberto Siqueira Says:

      Eu achei interessante ele simplesmente deixar de existir e não ser assassinado. Desta forma, a possibilidade dele nunca ter existido de verdade ganha força, já que as pessoas sequer notaram que ele sumiu no meio delas, e voltaram a viver a vida delas normalmente.

  7. Mandy Intelecto Says:

    Finalmente assisti…depois de você torrar a paciência…hauhauhauhaua!

    Vamos lá…o filme é muito bom, muito mesmo…a história é bem inteligente e prende demais você…

    Fiquei surpresa com a ‘inteligência’ do Grenouille…nossa, é demais como a mente da maioria dos assassinos funcionam, pq eles tem que tão inteligentes né?!

    Mas enfim, odiei a cena de sexo coletivo em praça pública…acho que o filme perde-se nesse momento…e o final é sem pá nem cabeça, não gostei…Mas um exemplo de bom filme com final xucro na minha opinião…

    Antes que você pergunte: O final ideal, para mim…e para o Thi, mas ele ainda vai cometar é: O pai da ultima menina (esqueci o nome agora), deveria ter algum distúrbio de olfato….não entrar na ‘comoção’ de todos na praça e matá-lo…simples assim, acho que seria um final original, pelo fato do distúrbio…e seria um final lógico, pq de anjo o Grenouille não tem absolutamente nada!!!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Engraçado, eu achei o final justamente a cereja no bolo. Um final em aberto, interessante e diferente, sem muitas explicações e que abre, como eu falei na crítica, um enorme leque de possibilidades de interpretação. Acho que a surreal cena de sexo ao ar livre demonstra o poder da obra dele, uma obra maior que todas as vítimas que ele matou. É como se ele conseguisse captar a essencia da alma e da beleza feminina e criasse um perfume perfeito e impossível de resistir, liberando o amor dentro de cada pessoa.
      Valeu pelo comment!

    • Mandy Intelecto Says:

      Pois é….e eu achei justamente que o final estragou….
      Vai ver que é porque eu não gosto de cereja!!! =)

      Não consegui enxergar dessa maneira…o filme passou para uma ficção que eu não curto…ele estava ótimo até esse ponto…depois…ficou azedo!! Rs*

    • Roberto Siqueira Says:

      E eu achei que justamente o final fez dele um filme diferenciado, acima da média.
      Bj.

  8. Renato (Renis) Says:

    Parei de ler…rs

    Abraço

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