DURO DE MATAR 2 (1990)

(Die Hard 2)

 

Videoteca do Beto #118

Dirigido por Renny Harlin.

Elenco: Bruce Willis, William Sadler, John Leguizamo, Bonnie Bedelia, William Atherton, Reginald VelJohnson, Franco Nero, John Amos, Dennis Franz, Art Evans, Fred Dalton Thompson, Tom Bower, Sheila McCarthy e Don Harvey.

Roteiro: Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner.

Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois do enorme sucesso de “Duro de Matar”, Bruce Willis estrela esta continuação dirigida por Renny Harlin, que aposta no carisma de seu personagem e em uma nova situação inusitada para criar cenas de forte impacto. Talvez enfraquecido pelos vilões claramente menos assustadores que o inteligente Hans Gruber de Alan Rickman, “Duro de Matar 2”, consegue um resultado inferior ao primeiro filme, mas ainda assim agradável.

Após assumirem o controle do aeroporto de Washington, um grupo liderado pelo coronel Stuart (William Sadler) espera a chegada do coronel Esperanza (Franco Nero), um preso político que está sendo extraditado, e ameaça derrubar aeronaves se a policia não seguir suas exigências. O problema é que Holly (Bonnie Bedelia), a esposa de John McClane (Bruce Willis), se encontra em um dos aviões e ele fará tudo que for possível para salvar a esposa.

Assim como em “Duro de Matar”, a trama de “Duro de Matar 2” se passa no natal e coloca John McClane involuntariamente no meio de uma situação de alto risco. Escrito por de Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner, o roteiro desta vez centraliza as ações no aeroporto de Washington, usando os mesmos elementos que fizeram sucesso no longa anterior, como a esposa Holly em situação de risco, a policia jogando contra McClane e a imprensa sensacionalista e sem escrúpulos que, desta vez, prepara uma transmissão ao vivo do avião, interessada apenas na audiência e sem se importar com as vidas que estão em jogo – não por acaso, quando Holly agride o repórter, o espectador vibra com ela. Acertadamente, o roteiro dispensa a apresentação dos personagens e suas motivações (até porque muitos são conhecidos pelo espectador) e parte para os conflitos, fazendo a narrativa engrenar de vez no momento em que Stuart informa as regras aos controladores do aeroporto. Auxiliado pela montagem de Stuart Baird e Robert A. Ferretti, o diretor Renny Harlin alterna com fluência entre as tramas e permite que o espectador acompanhe o drama de Holly no avião, o trabalho da policia e de McClane e o minucioso monitoramento dos vilões de dentro de uma igreja. Aliás, o momento em que John descobre a igreja de onde Stuart comanda o aeroporto ilustra bem o trabalho dos montadores, alternando entre os planos num ritmo intenso e nunca confuso.Intensa também é a condução de Harlin na direção, que torna a narrativa envolvente e bastante tensa. Grande parte desta tensão se deve também ao fato de “Duro de Matar 2” abordar um medo coletivo ao envolver aviões, já que a maioria das pessoas se identifica com o drama dos passageiros e entra em pânico junto com eles quando os problemas começam a surgir. O diretor se sai bem ainda na condução de grandes cenas, como a impressionante seqüência do pouso e explosão do avião Windsor 114, em que se destacam também os espetaculares efeitos visuais. Após esta cena em que o herói não consegue evitar a tragédia, o espectador passa a temer pelo futuro dos personagens, pois agora os vilões já provaram do que são capazes. Por isso, após o pouso do general Esperanza, a tensão volta a dominar a tela e só é aliviada quando John é ejetado do avião, num momento exagerado e pouco realista que, em compensação, é de uma beleza plástica elogiável que só ilustra o bom trabalho do diretor.

Curiosamente, quando as ações saem do aeroporto nem mesmo as frenéticas seqüências na igreja e na floresta evitam que a alta carga de tensão se dissipe, graças ao fim do sentimento de clausura presente em todo o primeiro filme e em boa parte do segundo, reduzindo o impacto da narrativa. Ainda assim, a seqüência em que John persegue os bandidos na floresta é interessante, deslizando apenas nos momentos em que os vilões erram tiros à queima roupa seguidamente. A narrativa apresenta ainda uma ótima reviravolta quando o exército revela sua parceria com Stuart, mantendo seu ritmo alucinante e devolvendo o pânico ao aeroporto quando os vilões tentam escapar com o general Esperanza.

Desta vez sob a direção de Oliver Wood, a fotografia aposta novamente em tons escuros e cenas noturnas, refletindo a angústia do protagonista, além de ampliar a tensão na platéia através de elementos naturais como a neve e a noite. Por isso, quando as luzes se apagam e todos os controles somem, o caos toma conta do local e o espectador se sente parte daquele ambiente em desespero. Obviamente, os excelentes efeitos sonoros colaboram para esta ambientação, destacando-se especialmente nos tiroteios e explosões, assim como a trilha sonora de Michael Kamen injeta adrenalina com seus acordes altos. E finalmente, o realismo e a violência gráfica de algumas cenas nos fazem acreditar ainda mais no que vemos na tela, como quando um homem tem a garganta cortada e quando um dos vilões é sugado pela turbina de um avião.

Entre os personagens, John McClane continua adoravelmente mal-humorado, mas desta vez surge menos vulnerável que antes, talvez pelo excesso de cenas em que ele literalmente faz o impossível para escapar da morte. Por outro lado, Willis está muito bem nestas cenas, que exigem enorme esforço físico, além de manter o carisma do personagem, essencial para conquistar o espectador e fazer com que este torça por ele. O ator ainda mantém a grande empatia com o policial Powell, interpretado por Reginald VelJohnson, e sua constante preocupação com a esposa ajuda a humanizar o personagem – e Willis tem mérito nisto também, nos fazendo acreditar que ele de fato teme a morte de Holly. Entre os inimigos de McClane, o coronel Stuart de William Sadler é um vilão respeitável, ainda que não tenha a força do Hans de Alan Rickman em “Duro de Matar”. E vale citar também o major Grant, interpretado por John Amos, que inicialmente cria empatia com McClane graças ao seu jeito direto, partindo logo para a ação e deixando a teoria do burocrático capitão Lorenzo (Dennis Franz) de lado, mas esta empatia se revelaria irônica e traiçoeira.

Após ser traído por Grant, John parte numa tentativa desesperada de, em primeiro lugar, salvar sua esposa, o que, conseqüentemente, salvaria também todas as outras aeronaves ameaçadas. Para isto, ele precisa enfrentar os vilões, que já se encontram dentro de um Boeing 747 na pista do aeroporto enquanto ele está preso numa multidão desesperada diante das informações dadas pela imprensa na televisão. A solução? Usar o helicóptero da própria imprensa para alcançar o avião e, após ser largado na asa do Boeing, enfrentar os inimigos. Esta inimaginável situação resulta numa luta entre o herói e Stuart, que inexplicavelmente prefere sair da aeronave em movimento e enfrentá-lo, ao invés de acelerar o avião e levantar vôo, forçando a inevitável queda de McClane. Depois disto, John cai da asa do Boeing em movimento após abrir o tanque de combustível e consegue explodi-lo, numa cena exagerada que fecha a narrativa. E são justamente estes exageros que comprometem parte de “Duro de Matar 2”. Ainda assim, as qualidades do longa compensam estas falhas. Na última cena, um policial faz uma brincadeira com a multa de John que abriu o filme, trazendo alivio cômico no momento certo e encerrando bem a narrativa.

Com cenas mais forçadas e menos realistas que no primeiro filme, “Duro de Matar 2” é um eficiente filme de ação que cumpre seu propósito graças aos momentos de impacto, à trama envolvente e, acima de tudo, ao seu personagem principal cativante, que literalmente carrega a narrativa nas costas.

Texto publicado em 27 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

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DURO DE MATAR (1988)

(Die Hard)

 

Videoteca do Beto #117

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson, Paul Gleason, De’voreaux White, William Atherton, Hart Bochner, James Shigeta, Clarence Gilyard Jr. e Alexander Gordunov.

Roteiro: Jeb Stuart e Steen E. De Souza, baseado em livro de Roderick Thorp.

Produção: Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os heróis dos filmes de ação em geral são homens extremamente inteligentes, fortes e aparentemente infalíveis, capazes de enfrentar exércitos inteiros e tomar decisões em questão de segundos, acertando em praticamente todas elas. Felizmente, este não é o caso de John McClane, o protagonista deste ótimo “Duro de Matar” que, além de ser uma pessoa comum que deseja apenas rever a família distante, toma decisões equivocadas e sofre bastante antes de conseguir salvar sua esposa e a própria pele. E ainda que, no fim das contas, tenha o mesmo sucesso em sua missão que os outros heróis do gênero, a forma como o faz é que torna o personagem mais humano e o aproxima do espectador.

De volta a Los Angeles para se reencontrar com a esposa Holly (Bonnie Bedelia) e os filhos, John McClane (Bruce Willis) se vê numa enroscada quando visita a empresa em que ela trabalha na mesma noite em que poderosos bandidos decidem assaltar o local, liderados pelo cruel Hans Gruber (Alan Rickman).

Apostando corretamente na empatia entre o espectador e seu protagonista, o roteiro de “Duro de Matar”, escrito por Jeb Stuart e Steen E. De Souza a partir do livro de Roderick Thorp, trata de apresentar em poucos minutos os principais personagens da trama e suas motivações, fazendo com que o espectador saiba em pouco tempo que John foi casado com Holly e está de volta para ver a esposa e os filhos no natal. Também fica evidente que os problemas do casal têm muito a ver com a vida profissional da mulher que, em plena ascensão, parece dedicar pouco tempo a família, ao passo em que seu marido, empregado na policia de Nova York, não pode se transferir para Los Angeles. Desta forma, quando os bandidos invadem o prédio, o espectador já tem todas as informações necessárias para se identificar com o drama de John, que terá de lutar para defender a sociedade e cumprir seu dever profissional e, acima de tudo, tentar evitar uma tragédia familiar. Outro aspecto interessante do roteiro é a crítica nada velada a imprensa sensacionalista, preocupada apenas em conseguir audiência, notável quando um repórter pergunta desesperado se o cinegrafista captou as imagens da explosão do prédio. Pior ainda é o momento em que eles descobrem a família de John e vão atrás de seus filhos, na tentativa de gerar uma entrevista “bombástica” – um absurdo que, convenhamos, não está distante da realidade que acompanhamos diariamente nos telejornais.

Com um roteiro simples e eficiente, o diretor John McTiernan acerta ao manter um clima palpável de tensão, quebrado apenas pelas reclamações constantes do mal-humorado protagonista e pelas divertidas aparições do motorista da limusine Theo (Clarence Gilyard Jr.) – este tipo de alivio cômico é sempre bem vindo em filmes de ação, servindo para quebrar um pouco a tensão que domina a platéia. Além disso, o diretor utiliza outros recursos narrativos eficientes, como a menção ao relógio Rolex no início, que terá reflexo no clímax da trama. Auxiliado pela montagem de John F. Link e Frank J. Urioste, o diretor estabelece um ritmo dinâmico que torna a narrativa ainda mais empolgante, engrenando logo aos 23 minutos de filme, quando os bandidos invadem o local, prendendo de vez o espectador. McTiernan conta ainda com a agitada trilha sonora de Michael Kamen, que aumenta a adrenalina da platéia, e com o excelente design de som, que torna tudo mais real, além da fotografia sombria de Jan De Bont (que viria a dirigir “Velocidade Máxima”), que aproveita o ambiente fechado e a trama noturna para criar um visual sufocante, refletindo a angústia do protagonista – repare, por exemplo, como as luzes que vazam as persianas e formam sombras no rosto dos personagens dão uma sensação de clausura.

Obviamente, as cenas de ação não poderiam faltar e, na maior parte do tempo, elas soam orgânicas e verossímeis, como quando McClane explode parte do prédio ou quando ele pula do alto do edifício e escapa por pouco da morte. E com exceção de alguns tiros a queima roupa que os bandidos erram diante do herói, na maior parte do tempo suas proezas são convincentes – também porque Willis nos faz acreditar que tudo aquilo é possível -, e nem mesmo os excelentes efeitos visuais soam exagerados, surgindo sempre de maneira orgânica e apenas quando realmente necessários. Além disso, McTiernan cria ainda momentos de pura tensão, como no plano em que o policial Powell (Reginald VelJohnson) se aproxima no corredor do lado direito da tela e vemos a mão armada de um assaltante atrás da parede do lado esquerdo, apenas aguardando o sargento, que desiste antes de encontrá-lo e vai embora. Vale destacar ainda os elegantes movimentos de câmera, como na chegada de John em que um travelling destaca o prédio aonde irá se passar a narrativa, da mesma maneira que a câmera acompanha a chegada do caminhão que levará os vilões até o prédio antes mesmo que o espectador saiba quem está no veiculo. E finalmente, uma simples fotografia de McClane no gabinete indica que eles já tiveram uma relação enquanto Holly conversa com ele no telefone, assim como quando ela fala sobre “dormir no quarto de hóspedes”, fica claro que eles estão separados.

Como citado, os problemas do casal estão mais relacionados à vida profissional do que a relação afetiva e, por isso, nos envolvemos com o drama de McClane. Além disso, Bruce Willis está muito bem como o policial simultaneamente durão e humano que é John McClane, que se torna ainda mais carismático graças ao seu divertido mau humor. Ao contrário dos tradicionais heróis de Hollywood, McClane é uma pessoa comum, passível de erros, que reclama constantemente e não quer estar naquela situação. Apesar da irritante atitude da policial que atende o chamado de McClane, os empecilhos que surgem em seu caminho são críveis, o que colabora para que o espectador se envolva com a trama. Para John, mais importante do que impedir aquele assalto é conseguir sair vivo e salvar sua esposa – duas aspirações mais do que universais.

E se tememos pelo futuro de McClane é porque, além dele parecer vulnerável, os vilões de “Duro de Matar” surgem bastante ameaçadores desde sua introdução, quando a trilha sombria e a forma como eles invadem o prédio já estabelecem para a platéia o perigo que eles representam. Também colabora a atuação séria e convincente de Alan Rickman, que cria um vilão bastante respeitável com seu olhar direto e seu tom de voz sereno, que denota um autocontrole assustador. Cruel e inteligente, seu Hans Gruber mostra que fará o que for preciso para atingir seu objetivo quando mata a sangue frio o executivo Takagi (James Shigeta), presidente da empresa assaltada pelo grupo, numa cena impressionante e de forte impacto. Outra cena impactante é aquela em que um corpo cai no capô do carro do policial Powell. Interpretado por Reginald VelJohnson, Powell estabelece excelente química com McClane, o que só ressalta o aspecto humano do protagonista, especialmente quando este se comove com a triste história do sargento, que atirou por engano num menino de 13 anos (“Não nos ensinam a conviver com o erro”, relembra Powell).

Entre os grandes momentos de “Duro de Matar”, merece destaque o tenso e até mesmo previsível encontro entre Hans e John, quando o vilão finge ser um dos reféns por saber que John não conhecia seu rosto e quase consegue eliminar seu principal obstáculo do caminho. Ainda que esteja acostumado com os heróis indestrutíveis de Hollywood, o espectador chega a temer pelo personagem, justamente porque McClane jamais soa como um herói indestrutível. Assim como voltaremos a temer por McClane no intenso terceiro ato, que começa quando a imprensa dá a arma que faltava para o astuto Hans, informando que sua esposa está entre os reféns. Toda a eletrizante seqüência final, desde a luta entre John e Karl (Alexander Gordunov), passando pela explosão no teto do prédio, a inesperada ajuda de Theo e culminando no aguardado confronto entre John e Hans (em que o relógio terá importante papel), fecha com perfeição a narrativa.

Ótimo filme de ação que não desrespeita a inteligência do espectador, “Duro de Matar” diverte justamente por apresentar cenas de explosões e tiroteios num contexto em que elas são apenas reflexos das ações dos personagens e não a razão de existir da narrativa. Contando ainda com um protagonista carismático, o longa agrada e, como sabemos, ainda abriu portas para novas e interessantes continuações.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira