CONTATO (1997)

(Contact)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #171

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Jena Malone, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, Angela Bassett, Rob Lowe, Jake Busey, William Fichtner, Sami Chester e Geoffrey Blake.

Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg, baseado em romance de Carl Sagan e argumento de Ann Druyan.

Produção: Steve Starkey e Robert Zemeckis.

Contato[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Completamente esquecida com o passar dos anos, a obra-prima “Contato” é um dos pontos altos da excepcional carreira de Robert Zemeckis, abordando em sua narrativa envolvente temas complexos que podem render debates acalorados entre cientistas e religiosos. Sem jamais pender claramente para um lado ou para o outro, o longa estrelado por Jodie Foster tampouco foge de polêmicas e, apoiando-se no raciocínio lógico, espalha frases de efeito capazes de provocar reflexão nos dois lados, justamente por tratar o assunto com a seriedade e, o que é mais importante, a serenidade que ele merece. Como se não bastasse, ainda nos oferece uma protagonista tão complexa e fascinante quanto às próprias questões que levanta.

Baseado no livro homônimo de Carl Sagan e roteirizado com extrema competência por James V. Hart e Michael Goldenberg, “Contato” narra a história de Eleanor Arroway (Jodie Foster), uma astrônoma que descobre um sinal vindo do espaço com instruções para a construção de uma enorme máquina, que poderia possibilitar o contato com vida inteligente fora do planeta Terra. Disputando espaço com o também cientista David Drumlin (Tom Skerritt) e despertando o interesse amoroso do pastor Palmer Joss (Matthew McConaughey), Eleanor (ou Ellie) terá ainda que superar diversas barreiras políticas para conseguir realizar seu sonho e ser enviada na arriscada missão.

Introduzindo seus costumeiros movimentos de câmera estilizados desde a interessante abertura do filme, quando acompanhamos o som viajando pelo espaço (e pela história) através de um lento zoom out que dá a exata noção da nossa insignificância diante da magnitude do universo e ainda insere um conceito essencial para a compreensão de um momento chave da narrativa, Robert Zemeckis encontra em “Contato” a oportunidade ideal para comprovar sua habilidade não apenas na condução de narrativas envolventes, mas também na construção de uma atmosfera fascinante e na composição de cenas plasticamente belíssimas. Assim, não são raros os momentos capazes de encher nossos olhos, seja pela beleza da imagem, seja pelo apuro técnico, como no plano-sequência que acompanha Ellie chegando ao centro de controle após ouvir os sinais captados no espaço – que reflete com precisão a excitação dela e a urgência do momento – ou na triste sequência da morte do pai dela, captada com grande sensibilidade pela câmera lenta e pelos movimentos suaves do diretor, demonstrando respeito pela dor da personagem ao mesmo tempo em que frisa na mente do espectador uma passagem impactante que terá reflexos diretos no comportamento dela no futuro.

Som viajando pelo espaçoEllie chegando ao centro de controleMorte do pai delaObviamente, Zemeckis conta com sua equipe técnica neste processo, a começar pelo notável trabalho do diretor de fotografia Don Burgess, que investe num visual mais “clean”, quase asséptico em alguns momentos, mas que nem por isso deixa de abusar das luzes e cores quando necessário, como na psicodélica sequência da viagem da protagonista (voltaremos a ela em instantes). Da mesma forma, a montagem de Arthur Schmidt é crucial para que “Contato” mantenha um ritmo fluído, estabelecendo uma atmosfera tensa capaz de manter-nos interessados o tempo todo. Por sua vez, os aparatos científicos criativos e realistas concebidos pelo design de produção de Ed Verreaux e as roupas espaciais desenvolvidas pela figurinista Joanna Johnston ajudam na imersão do espectador na narrativa, enquanto a trilha sonora econômica de Alan Silvestri surge apenas em momentos especiais, como quando amplia a tensão no primeiro teste da máquina construída com base nas mensagens vindas do espaço.

Visual cleanPsicodélica sequência da viagemAparatos científicosE se o trabalho técnico é formidável, o elenco de “Contato” não fica atrás, apresentando um desempenho homogêneo e muito competente desde os primeiros minutos, quando acompanhamos o relacionamento da pequena Ellie vivida por Jena Malone com seu afável pai interpretado por David Morse. Na fase adulta, é Jodie Foster quem assume o papel da obstinada Ellie, comportando-se de maneira sempre racional, é verdade, mas sem ofuscar sua natureza agitada e questionadora, demonstrando em seu olhar a determinação da personagem na busca por evidências da existência de vida em outro planeta. Além de sua curiosidade natural como cientista, este comportamento encontra base também na trágica infância dela, já que é natural que alguém que perdeu a mãe no próprio parto e o pai aos nove anos de idade não queira estar só, ainda mais se considerarmos sua descrença na existência de um ser superior, um caminho sempre mais fácil e reconfortante para o ser humano.

Pequena EllieAfável paiObstinada EllieParadoxalmente, esta luta para provar que não estamos sozinhos no universo (“Seria um grande desperdício de espaço”, diz o pai dela) não significa, por exemplo, que ela queira constituir família – e o fato de não ter filhos nem marido só facilita sua decisão de largar tudo e correr atrás de seu sonho, o que não impede que ela se sinta apreensiva momentos antes de embarcar na jornada. Personagem intrigante e ambígua, Ellie destaca-se dos demais até mesmo nas roupas que veste, surgindo muitas vezes vestida de vermelho num ambiente dominado por cores sóbrias como azul e cinza. Inteligente e dona de um raciocínio lógico inabalável, ela mantém-se fiel (com o perdão do trocadilho) às suas convicções mesmo quando isto pode atrapalhar a realização de seu maior sonho.

ApreensivaMuitas vezes vestida de vermelhoRaciocínio lógico inabalávelQuem destoa do tom sério da maioria dos personagens é o religioso Joss, que surge como alguém mais relaxado e tranquilo na pele de Matthew McConaughey, mas que nem por isso deixa de se posicionar com firmeza quando necessário, como quando questiona David logo no primeiro contato numa festa. Ao contrário de Ellie, ele acredita em Deus, mas diferentemente de alguns fanáticos religiosos que cruzam a narrativa, mantém uma postura equilibrada na maioria das vezes, mostrando que é possível conviver pacificamente, mesmo com visões distintas de um tema tão misterioso. Inteligente, Joss tenta proteger Ellie dos riscos da missão, mas respeita a decisão dela por boa parte do tempo; e o fato de eles ficarem juntos logo de cara revela-se um grande acerto do roteiro, por permitir que o lado mais interessante da narrativa seja desenvolvido com tranquilidade ao invés de investir muito tempo no desenvolvimento do romance deles.

Religioso JossQuestiona David logo no primeiro contatoJuntos logo de caraFuncionando como um rival direto na luta de Ellie pela realização do sonho de ir para o espaço, o antagonista David Drumlin interpretado com sarcasmo por Tom Skerritt chega a nos irritar em certos instantes, como quando fala no lugar dela numa importante conferência para a imprensa – e a decepção no rosto de Foster neste instante é impactante, assim como chama à atenção a inteligência de Zemeckis na composição do plano que contrapõe os dois cientistas. No entanto, David revela alguma humanidade quando demonstra ter ciência do quanto sua escolha havia sido injusta, ainda que isto não amenize sua desgastada imagem diante dela. Quem também oferece um desempenho enérgico que cumpre seu papel mesmo distanciando o personagem da plateia é James Woods, que cria um Kitz ameaçador ao ponto de levar a protagonista as lágrimas no interrogatório final.

Antagonista DavidDecepção no rostoKitz ameaçadorMas nem só de inimigos vive Ellie e, entre seus amigos cientistas, vale destacar o simpático Kent de William Fichtner, que ilustra muito bem as dificuldades provocadas pela cegueira e, curiosamente, o quanto sua deficiência permitiu que ele desenvolvesse uma audição aguçada que, por sua vez, o auxilia muito no trabalho. E finalmente, vale mencionar a presença marcante de John Hurt como o excêntrico bilionário S.R.Hadden, que tem participação fundamental na narrativa e, como de costume, rouba a cena sempre que surge para salvar a protagonista (numa curiosa representação física do artifício narrativo conhecido como deus-ex-machina).

Sem se limitar ao aspecto visual e ao desenvolvimento dos personagens, Zemeckis extrai todo o potencial do excelente roteiro de “Contato”, narrando uma história fascinante tanto estruturalmente quanto tematicamente. Abusando da criatividade (o método empregado para decifrar a mensagem é sensacional), “Contato” traz ainda interessantes elementos para discussão. Observe, por exemplo, como os militares só pensam na possibilidade de conflito com os extraterrestres, assim como os políticos só pensam nas consequências que o vazamento de informações pode provocar em seus governos, esquecendo-se da importância daquelas descobertas na vida das pessoas em geral. No entanto, o debate central está no embate entre ciência e religião, notável ao longo de toda a narrativa.

Simpático KentExcêntrico bilionário S.R.HaddenMétodo empregado para decifrar a mensagemApós a descoberta de um sinal que poderia mudar os rumos da humanidade, multidões se dirigem ao local para explorar a descoberta de todas as formas, demonstrando o impacto daquela descoberta na sociedade e levantando diversos pontos interessantes para discussão e reflexão. Até que ponto nós queremos realmente saber a verdade? Caso seja religioso, você gostaria de saber, repentinamente, que tudo que ouviu desde a infância não passa de uma invenção? Não surpreende, portanto, o comportamento irracional de alguns fanáticos religiosos, assim como é compreensível (ainda que imperdoável) a atitude trágica de um líder religioso (Jake Busey) que quer impedir o progresso daquele experimento cientifico apenas para manter o controle de sua igreja sobre a sociedade.

Sociedade esta que, num país dominado pelo cristianismo como os EUA, demonstra um preconceito escancarado contra o ateísmo (o Brasil católico também), como fica evidente na avaliação de Ellie pela comissão, num dos raros momentos em que Joss deixa sua fé falar mais alto que a razão – e, na verdade, podemos interpretar a desprezível pergunta dele como uma tentativa, ainda que desesperada, de segurá-la, jogando-a contra a comissão e frustrando seu sonho, mas é mais provável que ele de fato quisesse se certificar da falta de fé dela no Divino, já que para os religiosos, não acreditar em Deus é praticamente um crime e não apenas uma questão de cunho pessoal.

Multidões se dirigem ao localAtitude trágica de um líder religiosoAvaliação de Ellie pela comissãoAssim, chegamos ao tenso momento em que o citado líder religioso tenta impedir a evolução dos testes, provocando a impressionante explosão da primeira máquina, na qual ficam evidentes os espetaculares trabalhos de design de som e efeitos visuais. Essencial no trabalho de Ellie e no filme em geral, o som destaca-se também em outros instantes, como quando a máquina começa a funcionar e podemos ouvir claramente cada parte daquela enorme estrutura se movimentando. Mas o grande momento de “Contato” é mesmo a espetacular viagem de Ellie pelo tempo/espaço, repleta de planos belíssimos que se apoiam nos efeitos visuais de tirar o fôlego para encantar a protagonista e a plateia (“Eles deveriam ter enviado um poeta”, diz ela). Nesta longa sequência, o olhar encantado dela reflete o nosso próprio olhar diante da magnitude do que vemos – e se Foster transmite muito bem a emoção da personagem em sua expressão tocante, Zemeckis confirma novamente sua capacidade de conduzir sequências visualmente complexas com uma facilidade assustadora.

Impressionante explosão da primeira máquinaViagem de Ellie pelo tempo espaçoPlanos belíssimosApós seu retorno, “Contato” traz ainda uma genial inversão de papéis, com a cientista tendo que provar algo sem ter nenhuma evidencia e a comissão formada majoritariamente por pessoas religiosas (ou, ao menos, que afirmam crer em Deus) assumindo o papel dos céticos, tão ligado aos cientistas. E com exceção de um único instante em que uma integrante do governo afirma que as gravações estáticas duraram 18 horas (talvez o único pecadilho do impecável roteiro), na maior parte do tempo o próprio espectador se questiona se ela realmente passou por aquela experiência ou se ela imaginou tudo aquilo. A resposta, como em quase tudo na vida, está dentro de cada um de nós. E justamente por isso é que não devemos assumir as nossas crenças como verdades universais.

Empolgante em todos os aspectos – narrativa, temática e visualmente -, “Contato” é competente tanto como entretenimento quanto pela capacidade de provocar profundas reflexões filosóficas e existenciais. No fim das contas, esta obra-prima de Robert Zemeckis mostra que é possível conviver pacificamente mesmo com visões tão distintas sobre o mesmo tema; e que cada um, à sua maneira, continuará buscando a verdade sobre os mistérios do universo.

Contato foto 2Texto publicado em 14 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

M*A*S*H (1970)

(M*A*S*H)

 

Filmes em Geral #26

Dirigido por Robert Altman.

Elenco: Donald Sutherland, Elliott Gould, Tom Skerritt, Sally Kellerman, Robert Duvall, Roger Bowen, Rene Auberjonois, David Arkin, Jo Ann Pflug, John Schuck, Gary Burghoff, Fred Williamson, Michael Murphy, Indus Arthur, Kim Atwood, Carl Gottlieb e G. Wood.

Roteiro: Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker.

Produção: Ingo Preminger.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “M*A*S*H”, um homem se aproxima de seus companheiros de exército e anuncia sua intenção cometer suicídio. Só que ao invés de provocar o choque naqueles que ouvem seu plano, ele ouve instruções sobre os métodos mais seguros e higiênicos para cometer tal ato, e em seguida, se vê num verdadeiro ritual, com direito à presença de um padre, criado para permitir que ele coloque em prática aquilo que planejou. Este tipo de humor negro refinado é o fio condutor deste excelente filme dirigido por Robert Altman, que critica o horror da guerra através de situações extremas, nos alertando para a proximidade entre aqueles absurdos e a insanidade dos conflitos armados.

Dois jovens e competentes cirurgiões conhecidos como Hawkeye (Donald Sutherland) e Trapper John (Elliott Gould) transformam a horrorosa rotina de sangue e pânico de uma unidade médica do exército americano durante a guerra da Coréia em algo extremamente divertido. Com seu jeito descontraído, eles conseguem evitar os traumas provocados pela chocante rotina de cirurgias e mortes, mas encontrarão a resistência de pessoas ainda presas aos rígidos métodos tradicionais do exército.

A leveza da narrativa contrasta diretamente com o visual cru e realista de “M*A*S*H”, chamando a atenção do espectador através do exagero e do choque para os absurdos da guerra. Escrito por Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker, o roteiro é repleto de piadas que fogem do politicamente correto, seja através do racismo, seja através do sexo ou até mesmo da ridicularização da fé, como quando um jovem troca a bíblia por uma revista masculina ou quando o Major Burns (Robert Duvall) tenta fazer sua oração enquanto os outros médicos zombam dele. Apostando em diálogos ágeis e sarcásticos, que provocam o riso no espectador através do exagero das situações, Hooker aproveita ainda para criticar duramente as tradições do exército e o autoritarismo, como quando Burns é retirado numa camisa de força e um soldado pergunta se para voltar pra casa tudo que ele precisava fazer era transar com Hot Lips (Sally Kellerman) e bater em Hawkeye. Finalmente, até mesmo as drogas são abordadas pelo bom roteiro de Hooker quando o alto-falante anuncia que a maconha passou a ser considerada perigosa pelo governo, “ainda que os médicos afirmem que ela não é mais perigosa que o álcool”.

Com um bom roteiro nas mãos e liberdade para conduzir a narrativa à sua maneira (a Fox estava mais preocupada na época com outras duas produções sobre guerra, “Patton – Rebelde ou Herói?” e “Tora! Tora! Tora!”), Robert Altman não perdeu a oportunidade e colocou em prática a sua maneira de ver cinema, apresentando uma narrativa fragmentada, recheada de diversos personagens que se cruzam em histórias paralelas. Fã do zoom, Altman utilizou o recurso diversas vezes em “M*A*S*H” (como durante algumas cirurgias, por exemplo), sem jamais informar aos atores quando faria isto, o que obrigava todo o elenco a estar o tempo todo ligado, pois a qualquer momento a câmera poderia destacar alguém no plano. Além disso, o diretor conduz perfeitamente algumas das cenas mais engraçadas do filme, como a divertida seqüência em que os soldados descobrem se Hot Lips (algo como “Lábios Quentes”) é loira falsa ou não. A câmera acompanha a moça até o chuveiro, volta para nos mostrar a platéia que se forma e, após o sinal de um dos soldados, nos revela subitamente a imagem da mulher se jogando ao chão, desesperada. Outro momento que merece destaque é a citada seqüência do suicídio de Painless (John Schuck), iniciando no hilário diálogo entre o ele e Hawkeye, seguido pela discussão sobre os melhores métodos de suicídio e finalizando no debate com o padre sobre a absolvição de Painless. Nesta cena, aliás, o simbólico plano dos médicos sentados à mesa remete ao quadro “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci – e repare como Painless está na posição de Cristo no plano e como a frase “ninguém pediu para que ele fizesse isso” pode ser interpretada como uma referencia ao sacrifício de Cristo. Altman aproveita também para inovar no uso do som, através da grande quantidade de cenas em que os diálogos se cruzam, com diversos personagens falando ao mesmo tempo, e diálogos que são até mesmo interrompidos, algo completamente diferente do padrão estético de Hollywood até então. Repare ainda como em algumas cenas o som que ouvimos já não tem mais ligação com a imagem que aparece na tela, como quando continuamos escutando uma conversa entre Hawkeye e Hot Lips enquanto vemos as imagens do pré-operatório (sem a presença deles) na tela. E por falar em pré-operatório, as cenas de cirurgia são extremamente realistas, ilustrando bem o resultado nada agradável dos conflitos naqueles jovens soldados. Finalmente, Altman também fez questão de não ter atores muito conhecidos, com exceção de Elliott Gould, que havia acabado de ser indicado ao Oscar por “Bob & Carol & Ted & Alice”.

O elenco desconhecido, no entanto, não prejudica em nada o resultado final de “M*A*S*H”. Na realidade, Altman se sentiu mais à vontade para extrair do elenco atuações coerentes com a leveza da narrativa, começando por Donald Sutherland, que encarna bem o típico malandro, reagindo com naturalidade aos absurdos que vê. É como se toda aquela gente ferida já não mais causasse impacto nele. Seu Hawkeye é também o estereótipo do cara-de-pau, como podemos notar na cena em que pergunta cinicamente ao Major Burns sobre a performance sexual de Hot Lips. Já Sally Kellerman está caricata na pele da enfermeira-chefe Margaret O’Houlihan, a famosa Hot Lips, o que acaba funcionando bem graças ao aspecto propositalmente caricato do longa. A pequena participação de Robert Duvall é mais que suficiente para que ele demonstre seu talento, ao compor um fanático religioso com exatidão. Repare seu desespero quando sua transa com Hot Lips é anunciada nos alto-falantes, gritando e colocando a roupa desesperadamente. Esta divertida cena, aliás, serve também para criticar o falso puritanismo típico dos religiosos extremistas. Após se sentir ofendida diante das insinuações de Trapper, Hot Lips se retira e, acompanhada do Major Burns, prepara uma carta denunciando os abusos daquela unidade em “defesa da moral do exército”. Em seguida, Hot Lips e Burns, atraídos um pelo outro, dizem que só vão transar porque “Deus os uniu” e que estavam “fazendo a vontade Dele”. Começa então uma barulhenta sessão de amassos e beijos que, com a ajuda de alguns soldados, seria captada pelos microfones e espalhada por todo o local através dos alto-falantes. É comum ver pessoas criticando o comportamento sexual dos outros diante da sociedade e entre quatro paredes agindo da mesma forma que criticam. Voltando ao elenco, G. Wood está muito divertido como o general Hammond, principalmente quando assume o posto de treinador do time do exército, e Tom Skerritt se sai bem na pele do capitão Bedford, o “Duke”. Mas o grande destaque mesmo é Elliot Gould (o pai de Monica e Ross no seriado “Friends”), que está excepcional como o sarcástico Trapper, arrancando o riso do espectador em praticamente todas as suas aparições.

Tecnicamente, merece destaque a bela trilha sonora de Mike Altman e Johnny Mandel, liderada pela melódica “Suicide is painless”. Quando uma enfermeira é convencida a “salvar” Painless, a trilha evocativa reforça a “ressurreição sexual” do rapaz, ilustrada também no óbvio plano em que o lençol se levanta. A montagem de Danford B. Greene ajuda a conduzir a narrativa com leveza, jamais estendendo demasiadamente um esquete, além de colaborar nas citadas seqüências em que o som e a imagem não têm sincronia. Vale destacar ainda a direção de fotografia de Harold E. Stine, que destaca o verde nas cenas exteriores e o o vermelho nas cirurgias, criando um contraste interessante e colaborando com o choque que estas imagens sangrentas provocam no espectador, auxiliado também pela direção de arte de Arthur Lonergan e Jack Martin Smith que capricha nos pequenos detalhes, como os instrumentos utilizados nas cirurgias. A fotografia participa decisivamente ainda em outra cena, quando os tons escuros, atenuados pela névoa, criam uma atmosfera triste na cena em que os médicos levam Painless no caixão.

O sensacional final metalingüístico de “M*A*S*H” é totalmente coerente com a linguagem despojada do longa dirigido por Altman, que trata o horror da guerra com muito bom humor, mas não deixa de criticar duramente a insanidade dos conflitos. Apesar da narrativa se passar na Coréia, Robert Altman fez questão de evitar qualquer referencia ao local, mostrando claramente sua intenção de criticar a participação norte-americana na guerra do Vietnã. Com humor refinado e um elenco afiado ele conseguiu mais do que isto, realizando um filme leve, delicioso e memorável.

Texto publicado em 12 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira