CONTATO (1997)

(Contact)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #171

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Jena Malone, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, Angela Bassett, Rob Lowe, Jake Busey, William Fichtner, Sami Chester e Geoffrey Blake.

Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg, baseado em romance de Carl Sagan e argumento de Ann Druyan.

Produção: Steve Starkey e Robert Zemeckis.

Contato[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Completamente esquecida com o passar dos anos, a obra-prima “Contato” é um dos pontos altos da excepcional carreira de Robert Zemeckis, abordando em sua narrativa envolvente temas complexos que podem render debates acalorados entre cientistas e religiosos. Sem jamais pender claramente para um lado ou para o outro, o longa estrelado por Jodie Foster tampouco foge de polêmicas e, apoiando-se no raciocínio lógico, espalha frases de efeito capazes de provocar reflexão nos dois lados, justamente por tratar o assunto com a seriedade e, o que é mais importante, a serenidade que ele merece. Como se não bastasse, ainda nos oferece uma protagonista tão complexa e fascinante quanto às próprias questões que levanta.

Baseado no livro homônimo de Carl Sagan e roteirizado com extrema competência por James V. Hart e Michael Goldenberg, “Contato” narra a história de Eleanor Arroway (Jodie Foster), uma astrônoma que descobre um sinal vindo do espaço com instruções para a construção de uma enorme máquina, que poderia possibilitar o contato com vida inteligente fora do planeta Terra. Disputando espaço com o também cientista David Drumlin (Tom Skerritt) e despertando o interesse amoroso do pastor Palmer Joss (Matthew McConaughey), Eleanor (ou Ellie) terá ainda que superar diversas barreiras políticas para conseguir realizar seu sonho e ser enviada na arriscada missão.

Introduzindo seus costumeiros movimentos de câmera estilizados desde a interessante abertura do filme, quando acompanhamos o som viajando pelo espaço (e pela história) através de um lento zoom out que dá a exata noção da nossa insignificância diante da magnitude do universo e ainda insere um conceito essencial para a compreensão de um momento chave da narrativa, Robert Zemeckis encontra em “Contato” a oportunidade ideal para comprovar sua habilidade não apenas na condução de narrativas envolventes, mas também na construção de uma atmosfera fascinante e na composição de cenas plasticamente belíssimas. Assim, não são raros os momentos capazes de encher nossos olhos, seja pela beleza da imagem, seja pelo apuro técnico, como no plano-sequência que acompanha Ellie chegando ao centro de controle após ouvir os sinais captados no espaço – que reflete com precisão a excitação dela e a urgência do momento – ou na triste sequência da morte do pai dela, captada com grande sensibilidade pela câmera lenta e pelos movimentos suaves do diretor, demonstrando respeito pela dor da personagem ao mesmo tempo em que frisa na mente do espectador uma passagem impactante que terá reflexos diretos no comportamento dela no futuro.

Som viajando pelo espaçoEllie chegando ao centro de controleMorte do pai delaObviamente, Zemeckis conta com sua equipe técnica neste processo, a começar pelo notável trabalho do diretor de fotografia Don Burgess, que investe num visual mais “clean”, quase asséptico em alguns momentos, mas que nem por isso deixa de abusar das luzes e cores quando necessário, como na psicodélica sequência da viagem da protagonista (voltaremos a ela em instantes). Da mesma forma, a montagem de Arthur Schmidt é crucial para que “Contato” mantenha um ritmo fluído, estabelecendo uma atmosfera tensa capaz de manter-nos interessados o tempo todo. Por sua vez, os aparatos científicos criativos e realistas concebidos pelo design de produção de Ed Verreaux e as roupas espaciais desenvolvidas pela figurinista Joanna Johnston ajudam na imersão do espectador na narrativa, enquanto a trilha sonora econômica de Alan Silvestri surge apenas em momentos especiais, como quando amplia a tensão no primeiro teste da máquina construída com base nas mensagens vindas do espaço.

Visual cleanPsicodélica sequência da viagemAparatos científicosE se o trabalho técnico é formidável, o elenco de “Contato” não fica atrás, apresentando um desempenho homogêneo e muito competente desde os primeiros minutos, quando acompanhamos o relacionamento da pequena Ellie vivida por Jena Malone com seu afável pai interpretado por David Morse. Na fase adulta, é Jodie Foster quem assume o papel da obstinada Ellie, comportando-se de maneira sempre racional, é verdade, mas sem ofuscar sua natureza agitada e questionadora, demonstrando em seu olhar a determinação da personagem na busca por evidências da existência de vida em outro planeta. Além de sua curiosidade natural como cientista, este comportamento encontra base também na trágica infância dela, já que é natural que alguém que perdeu a mãe no próprio parto e o pai aos nove anos de idade não queira estar só, ainda mais se considerarmos sua descrença na existência de um ser superior, um caminho sempre mais fácil e reconfortante para o ser humano.

Pequena EllieAfável paiObstinada EllieParadoxalmente, esta luta para provar que não estamos sozinhos no universo (“Seria um grande desperdício de espaço”, diz o pai dela) não significa, por exemplo, que ela queira constituir família – e o fato de não ter filhos nem marido só facilita sua decisão de largar tudo e correr atrás de seu sonho, o que não impede que ela se sinta apreensiva momentos antes de embarcar na jornada. Personagem intrigante e ambígua, Ellie destaca-se dos demais até mesmo nas roupas que veste, surgindo muitas vezes vestida de vermelho num ambiente dominado por cores sóbrias como azul e cinza. Inteligente e dona de um raciocínio lógico inabalável, ela mantém-se fiel (com o perdão do trocadilho) às suas convicções mesmo quando isto pode atrapalhar a realização de seu maior sonho.

ApreensivaMuitas vezes vestida de vermelhoRaciocínio lógico inabalávelQuem destoa do tom sério da maioria dos personagens é o religioso Joss, que surge como alguém mais relaxado e tranquilo na pele de Matthew McConaughey, mas que nem por isso deixa de se posicionar com firmeza quando necessário, como quando questiona David logo no primeiro contato numa festa. Ao contrário de Ellie, ele acredita em Deus, mas diferentemente de alguns fanáticos religiosos que cruzam a narrativa, mantém uma postura equilibrada na maioria das vezes, mostrando que é possível conviver pacificamente, mesmo com visões distintas de um tema tão misterioso. Inteligente, Joss tenta proteger Ellie dos riscos da missão, mas respeita a decisão dela por boa parte do tempo; e o fato de eles ficarem juntos logo de cara revela-se um grande acerto do roteiro, por permitir que o lado mais interessante da narrativa seja desenvolvido com tranquilidade ao invés de investir muito tempo no desenvolvimento do romance deles.

Religioso JossQuestiona David logo no primeiro contatoJuntos logo de caraFuncionando como um rival direto na luta de Ellie pela realização do sonho de ir para o espaço, o antagonista David Drumlin interpretado com sarcasmo por Tom Skerritt chega a nos irritar em certos instantes, como quando fala no lugar dela numa importante conferência para a imprensa – e a decepção no rosto de Foster neste instante é impactante, assim como chama à atenção a inteligência de Zemeckis na composição do plano que contrapõe os dois cientistas. No entanto, David revela alguma humanidade quando demonstra ter ciência do quanto sua escolha havia sido injusta, ainda que isto não amenize sua desgastada imagem diante dela. Quem também oferece um desempenho enérgico que cumpre seu papel mesmo distanciando o personagem da plateia é James Woods, que cria um Kitz ameaçador ao ponto de levar a protagonista as lágrimas no interrogatório final.

Antagonista DavidDecepção no rostoKitz ameaçadorMas nem só de inimigos vive Ellie e, entre seus amigos cientistas, vale destacar o simpático Kent de William Fichtner, que ilustra muito bem as dificuldades provocadas pela cegueira e, curiosamente, o quanto sua deficiência permitiu que ele desenvolvesse uma audição aguçada que, por sua vez, o auxilia muito no trabalho. E finalmente, vale mencionar a presença marcante de John Hurt como o excêntrico bilionário S.R.Hadden, que tem participação fundamental na narrativa e, como de costume, rouba a cena sempre que surge para salvar a protagonista (numa curiosa representação física do artifício narrativo conhecido como deus-ex-machina).

Sem se limitar ao aspecto visual e ao desenvolvimento dos personagens, Zemeckis extrai todo o potencial do excelente roteiro de “Contato”, narrando uma história fascinante tanto estruturalmente quanto tematicamente. Abusando da criatividade (o método empregado para decifrar a mensagem é sensacional), “Contato” traz ainda interessantes elementos para discussão. Observe, por exemplo, como os militares só pensam na possibilidade de conflito com os extraterrestres, assim como os políticos só pensam nas consequências que o vazamento de informações pode provocar em seus governos, esquecendo-se da importância daquelas descobertas na vida das pessoas em geral. No entanto, o debate central está no embate entre ciência e religião, notável ao longo de toda a narrativa.

Simpático KentExcêntrico bilionário S.R.HaddenMétodo empregado para decifrar a mensagemApós a descoberta de um sinal que poderia mudar os rumos da humanidade, multidões se dirigem ao local para explorar a descoberta de todas as formas, demonstrando o impacto daquela descoberta na sociedade e levantando diversos pontos interessantes para discussão e reflexão. Até que ponto nós queremos realmente saber a verdade? Caso seja religioso, você gostaria de saber, repentinamente, que tudo que ouviu desde a infância não passa de uma invenção? Não surpreende, portanto, o comportamento irracional de alguns fanáticos religiosos, assim como é compreensível (ainda que imperdoável) a atitude trágica de um líder religioso (Jake Busey) que quer impedir o progresso daquele experimento cientifico apenas para manter o controle de sua igreja sobre a sociedade.

Sociedade esta que, num país dominado pelo cristianismo como os EUA, demonstra um preconceito escancarado contra o ateísmo (o Brasil católico também), como fica evidente na avaliação de Ellie pela comissão, num dos raros momentos em que Joss deixa sua fé falar mais alto que a razão – e, na verdade, podemos interpretar a desprezível pergunta dele como uma tentativa, ainda que desesperada, de segurá-la, jogando-a contra a comissão e frustrando seu sonho, mas é mais provável que ele de fato quisesse se certificar da falta de fé dela no Divino, já que para os religiosos, não acreditar em Deus é praticamente um crime e não apenas uma questão de cunho pessoal.

Multidões se dirigem ao localAtitude trágica de um líder religiosoAvaliação de Ellie pela comissãoAssim, chegamos ao tenso momento em que o citado líder religioso tenta impedir a evolução dos testes, provocando a impressionante explosão da primeira máquina, na qual ficam evidentes os espetaculares trabalhos de design de som e efeitos visuais. Essencial no trabalho de Ellie e no filme em geral, o som destaca-se também em outros instantes, como quando a máquina começa a funcionar e podemos ouvir claramente cada parte daquela enorme estrutura se movimentando. Mas o grande momento de “Contato” é mesmo a espetacular viagem de Ellie pelo tempo/espaço, repleta de planos belíssimos que se apoiam nos efeitos visuais de tirar o fôlego para encantar a protagonista e a plateia (“Eles deveriam ter enviado um poeta”, diz ela). Nesta longa sequência, o olhar encantado dela reflete o nosso próprio olhar diante da magnitude do que vemos – e se Foster transmite muito bem a emoção da personagem em sua expressão tocante, Zemeckis confirma novamente sua capacidade de conduzir sequências visualmente complexas com uma facilidade assustadora.

Impressionante explosão da primeira máquinaViagem de Ellie pelo tempo espaçoPlanos belíssimosApós seu retorno, “Contato” traz ainda uma genial inversão de papéis, com a cientista tendo que provar algo sem ter nenhuma evidencia e a comissão formada majoritariamente por pessoas religiosas (ou, ao menos, que afirmam crer em Deus) assumindo o papel dos céticos, tão ligado aos cientistas. E com exceção de um único instante em que uma integrante do governo afirma que as gravações estáticas duraram 18 horas (talvez o único pecadilho do impecável roteiro), na maior parte do tempo o próprio espectador se questiona se ela realmente passou por aquela experiência ou se ela imaginou tudo aquilo. A resposta, como em quase tudo na vida, está dentro de cada um de nós. E justamente por isso é que não devemos assumir as nossas crenças como verdades universais.

Empolgante em todos os aspectos – narrativa, temática e visualmente -, “Contato” é competente tanto como entretenimento quanto pela capacidade de provocar profundas reflexões filosóficas e existenciais. No fim das contas, esta obra-prima de Robert Zemeckis mostra que é possível conviver pacificamente mesmo com visões tão distintas sobre o mesmo tema; e que cada um, à sua maneira, continuará buscando a verdade sobre os mistérios do universo.

Contato foto 2Texto publicado em 14 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984)

(Once Upon a Time in America)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #159

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams, Burt Young, Danny Aiello, Jennifer Connelly, Joe Pesci, James Hayden, William Forsythe, Larry Rapp, Amy Ryder, Scott Tiler, Rusty Jacobs, Brian Bloom, Adrian Curran, Mike Monetti, Noah Moazezi, James Russo, Julie Cohen e Sergio Leone.

Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini e Sergio Leone, baseado em novela de Harry Grey.

Produção: Arnon Milchan.

Era uma vez na América[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hoje reconhecido como um dos grandes mestres da história do cinema, Sergio Leone notabilizou-se na direção dos chamados western spaghetti, realizando obras de grande destaque e importância como a famosa “Trilogia dos Dólares” e “Era uma vez no Oeste”. No entanto, talvez o maior desafio de toda a carreira do diretor italiano tenha sido este ambicioso “Era uma vez na América”, justamente por representar sua incursão num ambiente diferente daquele em que estava habituado. Massacrado por público e crítica na época de seu lançamento devido à decisão do estúdio de lançar uma versão extremamente reduzida nos cinemas, o projeto da vida de Leone levou anos para ser realizado e só foi reconhecido quando a versão imaginada pelo diretor foi lançada tempos depois. E justiça seja feita, o verdadeiro “Era uma vez na América” é um filme belíssimo que justifica em cada momento a ambição de seu diretor.

Escrito por seis pessoas (inclusive o próprio Leone), “Era uma vez na América” narra à trajetória de ascensão e queda de um grupo de gângsteres de descendência judaica durante o período da lei seca em Nova York. A partir das memórias de Noodles (Robert De Niro), que resolve voltar ao local 35 anos após sua saída, conhecemos a história dele e de seus amigos Max (James Woods), Pasty (James Hayden) e Cockeye (William Forsythe), percorrendo desde a infância sofrida nas ruas do Lower East Side até o incidente trágico que destruiu o grupo.

Grandiloquente e recheado pelo tom operístico que caracteriza quase toda a filmografia de Sergio Leone, “Era uma vez na América” aposta numa estrutura narrativa complexa, que busca manter a atenção do espectador durante suas quase quatro horas de duração – o que, convenhamos, é um enorme desafio. Para conduzi-la com segurança e evitar que se torne enfadonha, Leone conta com o ótimo trabalho do montador Nino Baragli, que salta no tempo diversas vezes (tanto para o passado como para o futuro), mas sempre de maneira elegante e fluída; e o que é ainda mais interessante, demonstrando enorme confiança na inteligência do espectador ao jamais apelar para letreiros ou diálogos expositivos que indiquem a passagem do tempo – sempre que temos este tipo de informação, ela surge de maneira orgânica. Assim, temos uma verdadeira coleção de transições elegantes, como aquela em que Noodles olha para uma lamparina e a chama se transforma numa lâmpada, já debaixo de chuva e no cenário da morte de seus amigos – e é interessante notar também o excepcional design de som, que mantém o barulho do telefone tocando até que Noodles faça uma ligação, nos levando de volta ao teatro chinês onde toda a sequência se iniciou (voltaremos a este toque de telefone em instantes).

Noodles olha para uma lamparinaChama se transforma numa lâmpadaCenário da morte de seus amigosUtilizar o som diegético para provocar tensão, aliás, é outra característica marcante do diretor que aqui surge com força total, como na cena da descida de um elevador, momentos antes de Noodles surpreender seu perseguidor com um tiro na cabeça, numa cena graficamente impressionante que evidencia a violência que permeará a narrativa. Apesar do sangue exageradamente vermelho que busca ampliar o choque, a violência de “Era uma vez na América” é convincente e perfeitamente justificável naquele ambiente, surgindo em diversos momentos como na entrega dos diamantes ao amigo do mafioso Frankie (Joe Pesci, em participação pequena), na surra de Bugsy (James Russo) em Noodles e Max e na morte do pequeno Dominic (Noah Moazezi), além da violência sexual cometida por Noodles em dois momentos impactantes.

Descida de um elevadorEntrega dos diamantesMorte do pequeno DominicEstabelecendo a natureza violenta dos personagens desde os primeiros minutos de projeção, “Era uma vez na América” nos joga pra dentro daquele ambiente hostil de maneira impressionante, numa imersão que se dá também graças ao excepcional design de produção de Carlo Simi, que nos transporta para os Estados Unidos do início do século XX através dos carros, das casas e até mesmo da decoração do bar de Moe (Larry Rapp), além é claro dos impecáveis figurinos de Gabriella Pescucci, que recriam as roupas dos gângsteres e dos judeus com precisão, seguindo o padrão instituído no imaginário popular por “O Poderoso Chefão”. Nesta mesma linha, a fotografia de Tonino Delli Colli abusa do uso das sombras nos ambientes internos para ilustrar a natureza obscura daquele submundo, mas adota tons pastéis que realçam o tom nostálgico do longa, se destacando também na iluminação de cenas noturnas impressionantes – como aquela que revela a morte dos amigos de Noodles ainda no primeiro ato – e no uso da fumaça para conferir uma atmosfera onírica a certas lembranças do protagonista.

Estados Unidos do início do século XXRoupas dos gângsteres e judeusAtmosfera oníricaEmpregando seus tradicionais closes, zooms e travellings (o superclose surge em raras ocasiões), Leone desfila por estes cenários e personagens com elegância, criando um visual impactante e repleto de cenas belíssimas que, enriquecidas pela trilha sonora sempre marcante do mestre Ennio Morricone, conferem um tom épico ao filme, destacando-se em alguns momentos especiais, como quando Noodles liga para o velho amigo Moe da porta do bar, onde somente a música e as imagens já são suficientes para demonstrar o saudosismo daquele reencontro. Leone não precisa de palavras para nos emocionar, seu cinema é pura magia. E se a trilha sonora de Morricone realça a nostalgia do protagonista, destacando-se especialmente no lindo tema principal e nas composições que envolvem um coral de vozes, as longas sequências em silêncio tão características do diretor surgem como um contraponto interessante, criando cenas extremamente tensas como quando Noodles, após a decepção do encontro com Deborah (Elizabeth McGovern), mexe o café numa xícara por longos segundos antes de se manifestar, exalando uma eletricidade palpável que evidencia sem uma única palavra a possibilidade de uma briga entre ele e o amigo Max.

Noodles liga para o velho amigo MoeXícara de caféPossibilidade de uma brigaLeone mostra talento também na direção dos atores mirins através de pequenos momentos, como aquele em que Dominic volta para conferir se o bagageiro onde eles esconderam a maleta cheia de dinheiro estava mesmo trancado. Cobrindo a vida daqueles amigos desde a infância, quando surgem ateando fogo numa banca de jornal por falta de pagamento do dono, o diretor faz questão de investir muito tempo na construção meticulosa daqueles personagens e da relação entre eles. Assim, toda a fase da infância serve para nos familiarizar com cada um deles, apresentando seus medos, ansiedades e motivações, trazendo ainda cenas belíssimas como aquela em que Noodles observa Deborah dançando, o lindo primeiro beijo deles ou o tocante momento em que Pasty decide entre comer um bolo ou transar com Peggy – e a atuação do jovem Brian Bloom neste instante é primorosa, transmitindo a indecisão do garoto com precisão e ilustrando como ele ainda não estava pronto para aquele salto de maturidade. Ainda na infância, vale citar a curiosa e marcante participação de Jennifer Connelly, ainda criança, como a linda e expressiva Deborah, que rouba o coração de Noodles com seu jeito meigo e insinuante de agir.

Dominic volta para conferirDeborah dançandoComer um bolo ou transarDurante todo este tempo, a amizade genuína daqueles jovens nos convence. Também por isso, é doloroso acompanhar esta relação sendo lentamente destruída na fase adulta por causa da ganância da maioria deles. No entanto, esta mudança já pode ser notada logo após a volta de Noodles da prisão, quando os abraços calorosos não conseguem esconder o distanciamento entre o grupo e o jovem regresso. Compondo Noodles com um ar misterioso que nem por isso esconde sua expressão naturalmente ameaçadora, De Niro transmite com precisão toda a melancolia daquele personagem deslocado, que parece sempre preso às memórias do passado e torna quase palpável seu incômodo por ter provocado a morte dos amigos, o que acaba aproximando um pouco aquele homem sofrido do espectador, por mais cruéis que sejam algumas de suas atitudes.

DistanciamentoPersonagem deslocadoPreso às memórias do passadoÉ interessante notar ainda como Noodles parece seguir um curioso e indecifrável código de ética, irritando-se com certas atitudes dos amigos – como o envolvimento com o perigoso Frankie – ao mesmo tempo em que tolera outras ainda piores. Mas talvez a sequência que melhor sintetize sua instável personalidade seja o jantar romântico com Deborah, onde ele consegue ser ao mesmo tempo encantador (durante o jantar) e repugnante (no chocante estupro no carro). Esta relação dolorosamente conturbada ecoa até na velhice, quando tanto De Niro quanto McGovern demonstram com competência a dor dos personagens ao constatarem a impossibilidade de ficarem juntos – e aqui vale destacar a ótima maquiagem que transforma De Niro de maneira convincente, assim como acontece com Woods e outros nomes importantes do elenco.

Jantar românticoChocante estuproMaquiagemJames Woods também está bem seguro e ameaçador como o adulto Max, demonstrando a evolução da ganância de seu personagem em seu olhar cada vez mais confiante, chegando ao auge na cena em que se orgulha de ter comprado um trono – e a reação de Noodles neste instante é sensacional por dizer muito sem precisar de palavras. Talvez por isso, Noodles não demonstra raiva e não aceita atirar nele quando descobre sua traição, demonstrando em seu semblante apenas um sentimento: decepção. “É o meu jeito de ver as coisas”, diz, antes de afirmar que, de qualquer forma, ele perdeu um grande amigo naquela trágica noite. Chega a doer. E finalmente, a citada Elizabeth McGovern confere charme e mistério à bela Deborah, enquanto Tuesday Weld se destaca especialmente na cena em que Carol tenta convencer Noodles a tirar a ideia do assalto ao banco da cabeça de Max, ciente de que esta atitude poderia levar ao fim do grupo.

Seguro e ameaçadorTronoCarol tenta convencer NoodlesNo fim das contas, “Era uma vez na América” é muito mais do que um filme sobre gângsteres. É um filme sobre memórias, que traz em cada fotograma um retrato perfeito da nostalgia, personificado no rosto sofrido e emblemático do personagem vivido por Robert De Niro. Seu sorriso no plano derradeiro levanta até mesmo a curiosa possibilidade de ele ter sonhado em certas passagens (não à toa ele surge fumando ópio no início), reforçada pela atmosfera onírica de algumas cenas e pelo som do telefone tocando durante toda a cena do crime, que transmite com exatidão sua sensação de desorientação. Amargurado por ter provocado a morte dos amigos de infância, ele teria imaginado certos acontecimentos (como o suposto romance entre Max e Deborah e o misterioso destino do amigo na famosa cena do caminhão de lixo), talvez buscando amenizar sua dor. Mas Leone jamais deixa claro se estas passagens são sonhos ou memórias, o que torna tudo ainda mais interessante.

Sorriso no plano derradeiroFumando ópioCena do caminhão de lixoApresentando as lembranças de um homem consumido pela culpa de maneira tocante, Leone mergulha em sentimentos profundamente humanos ao mesmo tempo em que nos apresenta parte da construção da história norte-americana, que viria a se tornar a nação economicamente mais poderosa do mundo durante o período em que a narrativa se passa. Por isso, a versão completa de “Era uma vez na América” é um filme memorável, repleto de imagens belíssimas e cenas marcantes, que justifica cada minuto investido pelo espectador nesta verdadeira experiência cinematográfica.

Era uma vez na América foto 2Texto publicado em 12 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

CASSINO (1995)

(Casino)

 

Videoteca do Beto #124

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak, Don Rickles, Alan King, L.Q. Jones, Dick Smothers, Frank Vincent, John I. Bloom, Pasquale Cajano, Melissa Prophet, Catherine Scorsese e Catherine T. Scorsese.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Barbara De Fina.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Injustamente ignorado pela crítica no ano de seu lançamento, “Cassino” apresenta muito do que o cinema de Martin Scorsese tem de melhor, com seu visual deslumbrante, cenas memoráveis e atuações inspiradas. Talvez a alta expectativa criada explique a má recepção, afinal, estavam reunidos novamente Scorsese, o roteirista Nicholas Pileggi e os astros De Niro e Joe Pesci, peças fundamentais no sucesso de “Os Bons Companheiros”, lançado cinco anos antes e que também apresentava o ambiente hostil de mafiosos e gângsteres. Mas, ainda que não seja um trabalho tão estupendo quanto “Os Bons Companheiros”, “Cassino” é um belo filme, feito sob medida para agradar aos fãs do gênero.

Escrito por Pileggi, “Cassino” narra a história de Sam “Ace” Rothstein (Robert De Niro), um diretor de cassino em Las Vegas com passado comprometedor que se envolve com Ginger (Sharon Stone), uma prostituta de alta classe que dominava a todos, menos o seu cafetão Lester (James Woods). A combinação explosiva se completa quando o gângster Nicky (Joe Pesci) chega ao local para vigiar Ace, a pedido dos mafiosos que comandavam a cidade.

Auxiliado por Scorsese e baseado em seu próprio livro, Pileggi revela em “Cassino” como funcionava o esquema comandado pela máfia em Las Vegas, criando um painel complexo da cidade na época que precedeu o domínio das grandes corporações. Detalhando cada processo, quem e como cada um participava do esquema, ele explica como eles conseguiam se livrar das autoridades e até mesmo recuperar as “perdas” quando alguém ganhava muito dinheiro nas apostas. Além disso, a excelente estrutura narrativa se preocupa em apresentar pacientemente cada personagem, o que é essencial para que o espectador saiba o que esperar de cada um deles nas diversas situações que surgem ao longo da narrativa.

Logo de cara, temos uma revelação literalmente bombástica e vemos a suposta morte do protagonista, deixando claro em poucos minutos que estamos num filme de Scorsese, através da câmera lenta, da música erudita, da explosão, do personagem misturando-se ao vermelho infernal e da narração que nos leva ao longo flashback. Este recurso, aliás, é utilizado com exaustão em “Cassino”, normalmente na voz de Ace, mas também com Nicky e até mesmo Frank (Frank Vincent), que ganha um “voice-over” num momento de puro exercício estilístico, em que a imagem é congelada enquanto acompanhamos seu raciocínio antes dele responder a pergunta de um dos chefões da máfia. E o estilismo continua, por exemplo, através das legendas superiores que decifram o código na conversa telefônica entre Ace e Nicky (recurso já utilizado, por exemplo, por Woody Allen em “Annie Hall”).

Estilo, aliás, é uma palavra que descreve bem Martin Scorsese. Com seu estilo inconfundível, ele desfila seu arsenal de técnicas de direção, nos presenteando com planos memoráveis, travellings e até mesmo a câmera lenta em diversos momentos, como quando os dados caem na mesa ou uma luz se acende. Este visual elegante conta também com a fotografia de Robert Richardson, que abusa das cores e luzes e transforma “Cassino” numa verdadeira festa para os sentidos, além dos extravagantes figurinos de John A. Dunn e Rita Ryack, que tornam este visual ainda mais rico, tendo também função narrativa ao externar o estado de espírito dos personagens – repare como Ace vai mudando do tom sóbrio de seus ternos no inicio para cores mais vivas no final, refletindo sua empolgação com o império que tem nas mãos, assim como Ginger muda dos tons leves para roupas mais sufocantes, que refletem seu desconforto.

Utilizando um cassino de verdade como locação, o diretor de arte Jack G. Taylor Jr. capricha nos pequenos detalhes, desde os dados e cartas que são jogados nas mesas, passando pela imponente decoração da casa dos Rothstein e terminando na construção de sets impressionantes, como o escritório de Ace. Este excelente trabalho técnico praticamente nos coloca dentro de Las Vegas, captando o clima festeiro da cidade e, ao mesmo tempo, criando uma atmosfera tensa através dos locais obscuros em que os mafiosos se reúnem para tomar decisões em meio a jogatinas e bebidas. Completando esta ambientação, a espetacular trilha sonora mistura de tudo, passando por clássicos do rock, blues e até mesmo músicas dançantes dos anos 70, criando uma atmosfera única típica dos filmes dirigidos por Scorsese.

E ele não para por aí. Observe, por exemplo, o belíssimo travelling que sai das nuvens e nos mostra Las Vegas à noite, passando pela cidade e se perdendo na escuridão do deserto – que, aliás, surge em seguida enquanto a narração nos informa o que é feito no local, num raccord elegante e eficiente. Entre os cuidados enquadramentos e movimentos de câmera que caracterizam o diretor, não poderiam faltar os planos-seqüência, como aquele que acompanha um homem entrando no cassino, passeando por todo local, retirando o dinheiro no restrito setor de contagem, saindo e entrando num carro. E até planos estáticos são belos, como aquele que diminui Ace no deserto após uma discussão com Nicky, simbolizando sua perda gradual de poderes.

Além da beleza plástica, a direção de Scorsese é competente também na condução firme da narrativa. Para isto, ele conta com sua parceira de costume, a montadora Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo quase frenético em certos momentos, como quando acompanhamos quem observa quem no cassino, criando ainda elipses marcantes e/ou bem humoradas, como quando vemos um chefe da máfia pedindo que Ace seja discreto e, em seguida, vemos o anúncio de seu programa de televisão. Além disso, a estrutura narrativa coesa e a fluência na transição entre as cenas resultante da ótima decupagem tornam a longa duração quase imperceptível.

Finalmente, o diretor mostra que é completo ao extrair também excelentes atuações de todo o elenco, dentre as quais merece destaque a de Sharon Stone, que nunca foi considerada uma atriz de alto nível (eu, particularmente, adorei seu trabalho em “Instinto Selvagem”). Nas mãos de Scorsese, entretanto, Stone tem a atuação de sua vida – e a própria Sharon admite a importância do diretor neste aspecto -, transformando Ginger, a sensual e perigosa prostituta que conquista o coração de Ace, numa personagem tridimensional e complexa. Carismática, a atriz está solta no papel e cumpre bem a difícil tarefa de duelar com De Niro e Pesci, sobressaindo-se em discussões calorosas (normalmente bêbada, como no restaurante de Nicky) e até mesmo em momentos mais intimistas, como na conversa telefônica com Ace em que praticamente implora para voltar pra casa. Em outro momento, quando Ace expulsa Ginger de casa, a atriz dá um show ao lado de Robert De Niro, explodindo em cena de maneira convincente.

Além dos duelos verbais envolvendo a atriz, as próprias discussões entre Ace e Nicky merecem destaque, mostrando o enorme talento de Pesci e De Niro, por exemplo, no embate na casa dos Rothstein. Atores que naturalmente impõem respeito (cinéfilos ainda trazem na memória marcantes personagens da carreira deles, como os mafiosos de “Os Bons Companheiros”), a dupla demonstra muita afinidade na tela e cria personagens realmente capazes de intimidar. Inteligente e hábil com números, é no coração que reside o ponto fraco de Ace, que se deixa levar por um sentimento que sabia ser perigoso e acaba dando a chave de sua vida (literalmente) para Ginger. Detalhista, ele toca o cassino como se fosse a sua própria casa, se preocupando com pequenos detalhes como o peso dos dados e a quantidade de recheio nos muffins, mas é incapaz de ter o mesmo cuidado em sua vida pessoal e enxergar o risco que corria. Capaz de quase matar um homem com uma caneta (na cena do bar, a primeira em que a violência gráfica típica dos filmes de Scorsese dá as caras), Nicky é um homem agressivo, que não pensa duas vezes antes de partir pra cima de alguém, por maior e mais forte que seja, mas é também inteligente o bastante para saber quando cruzou o limite do aceitável dentro do “código de moral e ética” dos mafiosos – e Pesci está ótimo na cena em que Nicky confessa para Frank que sabe disto.

Além dos golpes com uma caneta que jorram sangue de um pobre homem, marteladas nas mãos de trapaceiros, tiros a queima roupa e até mesmo golpes com taco de beisebol completam o festival de cenas violentas de “Cassino”, que conta ainda com um elenco de apoio muito bom, com James Woods vivendo o malandro Lester Diamond, Frank Vincent como Frank, Don Rickles interpretando um dos capangas de Ace e L. Q. Jones na pele do cidadão local que avisa Ace do risco que ele corria ao demitir determinado funcionário. Como curiosidade, vale dizer ainda que a mãe de Scorsese, a Sra. Catherine, interpreta a Sra. Piscano, a dona de uma venda que reclama dos palavrões de um personagem chave na trama.

Ao contrário do que imaginamos no inicio de “Cassino”, Ace escapa milagrosamente da morte e sobrevive para narrar o triste fim de Nicky, morto violentamente por Frank e uns comparsas no meio de um milharal. A moral da história? A própria máfia destruiu seu império de sonhos na Las Vegas dos anos 70, abrindo espaço para as grandes corporações que dominaram o local nas décadas seguintes e transformaram a cidade no grande parque de diversões que é hoje.

Com a digital de Scorsese impressa em cada fotograma, “Cassino” é um legítimo representante do tipo de filme que fez a fama deste excepcional diretor, capaz de transitar entre diversos gêneros e, ainda assim, retornar ao seu favorito com inventividade suficiente para não se tornar repetitivo. As atuações inspiradas e o visual de encher os olhos complementam a qualidade deste filme esquecido em meio a tantas pérolas de uma das mais respeitáveis filmografias de Hollywood.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira