GENTE COMO A GENTE (1980)

(Ordinary People)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #103

Vencedores do Oscar #1980

Dirigido por Robert Redford.

Elenco: Donald Sutherland, Timothy Hutton, Mary Tyler Moore, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch e Dinah Manoff.

Roteiro: Judith Guest e Alvin Sargent.

Produção: Ronald L. Schwary.

Gente como a Gente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como aconteceu com “Como era verde meu vale”, “Gente como a Gente” ficou marcado por vencer um filme melhor na cerimônia do Oscar, ganhando a antipatia de muitos cinéfilos com o passar dos anos. Só que, enquanto o longa dirigido por John Ford está longe de ser um grande filme, o drama dirigido por Robert Redford ao menos é bastante competente, ainda que seja inferior à obra-prima “Touro Indomável”, que realmente deveria vencer o premio daquele ano. Nem por isso, é justo desmerecer o bom trabalho realizado neste filme humano, recheado com ótimas atuações e dirigido com tanta simplicidade e talento.

Escrito por Judith Guest e Alvin Sargent, “Gente como a Gente” nos apresenta o triste cotidiano da família Jarrett após a morte do filho mais velho do casal Calvin (Donald Sutherland) e Beth (Mary Tyler Moore) afetar profundamente a vida deles, especialmente a do caçula Conrad (Timothy Hutton), que presenciou o acidente fatal do irmão e, sentindo-se culpado, chegou a tentar o suicídio. Convencido pelo pai a procurar tratamento psicológico com o Dr. Berger (Judd Hirsch), o jovem tenta superar os traumas do passado, mas o processo acaba sendo doloroso não apenas para ele, mas para toda sua família.

Repleto de diálogos carregados de mágoa, “Gente como a Gente” já inicia num tom melancólico, expressado pelas ruas cobertas de folhas secas numa típica tarde de Outono que surgem embaladas pela bela trilha sonora instrumental orquestrada por Jack Hayes e composta por Marvin Hamlisch. Desde então, Robert Redford deixa evidente que apostará numa abordagem discreta, evitando chamar mais a atenção para si do que para a alta carga dramática da narrativa. Seguro atrás das câmeras como costuma ser na frente delas, o diretor conduz o filme com simplicidade e elegância, apostando em planos médios e closes que realçam as atuações, evitando invencionismos desnecessários para o desenvolvimento de uma narrativa baseada nos diálogos. Nem por isso, Redford deixa de imprimir um estilo próprio, que curiosamente remete ao seu estilo sutil e minimalista de atuar. Observe, por exemplo, como durante uma festa dos amigos de Beth, Redford conta com seu montador Jeff Kanew para alternar entre os planos, empregando closes que demonstram o teor artificial das conversas e ainda criam a atmosfera maçante pretendida pelo diretor.

Visualmente, Redford também sabe explorar o bom trabalho de sua equipe técnica, a começar pela fotografia de John Bailey, que começa “Gente como a Gente” apostando numa paleta dessaturada que, por sua vez, realça as cores sem vida dos figurinos de Bernie Pollack como o bege e o azul marinho. Com a evolução da narrativa e dos problemas de Conrad, as sombras e as cenas noturnas passam a predominar (especialmente nas sessões no psiquiatra), ilustrando a agonia do garoto, representada também no escritório sufocante e bagunçado do Dr. Berger – o que é mérito do design de produção de Phillip Bennett e J. Michael Riva. Observe, por exemplo, como quando ele fala sobre a mãe, a fotografia investe pesado nas sombras e torna o escritório num local obscuro – num momento, aliás, em que o leve movimento de câmera de Redford nos aproxima com elegância do rosto de Conrad e evidencia sua tristeza.

Mas se evita exibicionismos na movimentação de sua câmera, Redford demonstra muita habilidade na direção de atores, extraindo atuações que evitam transformar aqueles personagens em caricaturas unidimensionais. Inicialmente, somos apresentados ao cotidiano daquela família comum e, com o passar do tempo, percebemos que existe um conflito ali. Só que estas descobertas acontecem lentamente. Primeiro, fica evidente que Conrad tem problemas, principalmente pela forma como é tratado por seu preocupado pai. Contudo, a razão desta preocupação surge apenas quando o garoto aceita procurar um psiquiatra e decide falar abertamente sobre sua tentativa de suicídio, motivada pela traumatizante morte do irmão que o atormenta todos os dias. Em seguida, percebemos um atrito na relação dele com a mãe, que pouco a pouco vai sendo escancarado, conforme ele toma coragem para enfrentar a situação. Por vezes, Beth e Conrad mais parecem estranhos, tamanha a frieza com que se relacionam.

Demonstrando mais dificuldade para aceitar a perda de um filho e compreender o outro, Beth por vezes chega a irritar com seu jeito egoísta de lidar com os problemas – e a composição cuidadosa de Mary Tyler Moore transmite a sensação de que ela preferia que o filho mais velho tivesse sobrevivido sem que ela jamais diga isto claramente. Mas, nos momentos em que explode e escancara seu sofrimento pela perda do primogênito, Beth se torna mais humana e se aproxima um pouco mais da plateia, o que é ótimo justamente por evitar que ela se torne uma personagem rasa e unidimensional, que poderia facilmente afastar o espectador, ainda mais diante da postura pacificadora do marido dela. Compondo Calvin com uma estranha mistura de carisma e apatia, Donald Sutherland se sai bem como o pai protetor e preocupado que não sabe o que fazer para manter o equilíbrio emocional de uma família afetada por uma tragédia, algo que fica ainda mais evidente pela maneira confusa e nervosa que ele se comporta diante do Dr. Berger.

Sofrimento pela perda do primogênitoMistura de carisma e apatiaJovem amarguradoA razão de tanta preocupação é Conrad. Assumindo o papel mais difícil de “Gente como a Gente”, Timothy Hutton transmite muito bem a insegurança e a ansiedade daquele jovem amargurado, movimentando-se constantemente, evitando olhar diretamente para as pessoas e alterando o tom de voz sempre que se sente intimidado. Bastante instável emocionalmente – como atesta a cena no McDonald´s -, Conrad raramente consegue encontrar a paz e nem mesmo a pratica de um esporte como a natação serve para aliviar a pressão psicológica que ele mesmo se impôs. Inseguro ao ponto de treinar antes de ligar para uma garota, Conrad transmite a constante sensação de que está prestes a desistir da vida, o que é mérito da cuidadosa composição do ator. Hutton se destaca ainda na tocante conversa com o Dr. Berger após a morte da amiga Karen (Dinah Manoff), que ilustra o quanto Conrad se culpa pela morte do irmão.

Firme e direto, Judd Hirsch cria um Dr. Berger bastante seguro, que sabe tratar Conrad como adulto e evita a todo custo fazer com que ele se sinta vítima, mesmo que, para isso, precise recorrer a uma frieza desconcertante que por vezes parece até carregada com requintes de crueldade. Por outro lado, a doçura é representada pela simpática e bela Jeannine, interpretada por Elizabeth McGovern como uma garota simultaneamente atirada e compreensiva, que consegue alegrar e acalmar a vida de Conrad sempre que aparece. No entanto, a chave para compreender melhor a mente do rapaz está na outra moça que surge em seu caminho.

Conversa com o Dr. BergerDr. Berger bastante seguroSimpática e bela JeannineApresentada durante a dolorida conversa ocorrida dentro de um restaurante, a Karen de Dinah Manoff representa um ponto de apoio psicológico para Conrad, um exemplo vivo de que é possível superar o trauma e viver bem, ainda que a garota eventualmente deixe transparecer alguma tristeza – e o diálogo entre eles deixa claro que estamos acompanhando duas pessoas muito sofridas que tentam disfarçar a dor da melhor maneira possível. Mesmo distante, Karen faz com que Conrad se sinta melhor somente por saber que ela está bem e isto é essencial para que o espectador compreenda porque o garoto perde totalmente o equilíbrio quando, já no terceiro ato, ouve a trágica notícia do suicídio da garota.

A dificuldade para compreender o outro é justamente a razão pela qual a família Jarrett tanto sofre. Por isso, os diálogos entre eles escondem sob aquela carcaça polida e formal uma alta carga de tensão e parecem sempre prestes a provocar uma discussão, ainda que seja por um motivo aparentemente fútil, como na emblemática cena da foto de família que escancara os problemas entre mãe e filho ou na pesada discussão também entre eles na véspera do Natal. Estes duelos verbais são o ponto alto de “Gente como a Gente”. Mas existem outros diálogos marcantes, como aquele em que um amigo diz para Calvin que “cedo ou tarde eles se vão”, relembrando a dura realidade que qualquer pai tem dificuldade para encarar.

A perda de um filho é certamente um trauma quase impossível de superar. Assim, quando Calvin, mergulhado nas leves sombras do alvorecer, decide expor para Beth sua insatisfação diante da postura fria dela com seu filho, sabemos que aquela atitude pode jogar a última pá de cal naquela relação já deteriorada. No entanto, a saída dela de casa nos leva a sensível conversa entre pai e filho que, mesmo num tom agridoce, encerra bem este drama humano e belo.

Comandando uma história pesada que poderia facilmente cair no melodrama barato, Robert Redford demonstrou maturidade e competência suficientes para extrair grandes atuações de seu elenco e fazer deste “Gente como a Gente” um filme bastante respeitável.

Gente como a Gente foto 2Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984)

(Once Upon a Time in America)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #159

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams, Burt Young, Danny Aiello, Jennifer Connelly, Joe Pesci, James Hayden, William Forsythe, Larry Rapp, Amy Ryder, Scott Tiler, Rusty Jacobs, Brian Bloom, Adrian Curran, Mike Monetti, Noah Moazezi, James Russo, Julie Cohen e Sergio Leone.

Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini e Sergio Leone, baseado em novela de Harry Grey.

Produção: Arnon Milchan.

Era uma vez na América[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hoje reconhecido como um dos grandes mestres da história do cinema, Sergio Leone notabilizou-se na direção dos chamados western spaghetti, realizando obras de grande destaque e importância como a famosa “Trilogia dos Dólares” e “Era uma vez no Oeste”. No entanto, talvez o maior desafio de toda a carreira do diretor italiano tenha sido este ambicioso “Era uma vez na América”, justamente por representar sua incursão num ambiente diferente daquele em que estava habituado. Massacrado por público e crítica na época de seu lançamento devido à decisão do estúdio de lançar uma versão extremamente reduzida nos cinemas, o projeto da vida de Leone levou anos para ser realizado e só foi reconhecido quando a versão imaginada pelo diretor foi lançada tempos depois. E justiça seja feita, o verdadeiro “Era uma vez na América” é um filme belíssimo que justifica em cada momento a ambição de seu diretor.

Escrito por seis pessoas (inclusive o próprio Leone), “Era uma vez na América” narra à trajetória de ascensão e queda de um grupo de gângsteres de descendência judaica durante o período da lei seca em Nova York. A partir das memórias de Noodles (Robert De Niro), que resolve voltar ao local 35 anos após sua saída, conhecemos a história dele e de seus amigos Max (James Woods), Pasty (James Hayden) e Cockeye (William Forsythe), percorrendo desde a infância sofrida nas ruas do Lower East Side até o incidente trágico que destruiu o grupo.

Grandiloquente e recheado pelo tom operístico que caracteriza quase toda a filmografia de Sergio Leone, “Era uma vez na América” aposta numa estrutura narrativa complexa, que busca manter a atenção do espectador durante suas quase quatro horas de duração – o que, convenhamos, é um enorme desafio. Para conduzi-la com segurança e evitar que se torne enfadonha, Leone conta com o ótimo trabalho do montador Nino Baragli, que salta no tempo diversas vezes (tanto para o passado como para o futuro), mas sempre de maneira elegante e fluída; e o que é ainda mais interessante, demonstrando enorme confiança na inteligência do espectador ao jamais apelar para letreiros ou diálogos expositivos que indiquem a passagem do tempo – sempre que temos este tipo de informação, ela surge de maneira orgânica. Assim, temos uma verdadeira coleção de transições elegantes, como aquela em que Noodles olha para uma lamparina e a chama se transforma numa lâmpada, já debaixo de chuva e no cenário da morte de seus amigos – e é interessante notar também o excepcional design de som, que mantém o barulho do telefone tocando até que Noodles faça uma ligação, nos levando de volta ao teatro chinês onde toda a sequência se iniciou (voltaremos a este toque de telefone em instantes).

Noodles olha para uma lamparinaChama se transforma numa lâmpadaCenário da morte de seus amigosUtilizar o som diegético para provocar tensão, aliás, é outra característica marcante do diretor que aqui surge com força total, como na cena da descida de um elevador, momentos antes de Noodles surpreender seu perseguidor com um tiro na cabeça, numa cena graficamente impressionante que evidencia a violência que permeará a narrativa. Apesar do sangue exageradamente vermelho que busca ampliar o choque, a violência de “Era uma vez na América” é convincente e perfeitamente justificável naquele ambiente, surgindo em diversos momentos como na entrega dos diamantes ao amigo do mafioso Frankie (Joe Pesci, em participação pequena), na surra de Bugsy (James Russo) em Noodles e Max e na morte do pequeno Dominic (Noah Moazezi), além da violência sexual cometida por Noodles em dois momentos impactantes.

Descida de um elevadorEntrega dos diamantesMorte do pequeno DominicEstabelecendo a natureza violenta dos personagens desde os primeiros minutos de projeção, “Era uma vez na América” nos joga pra dentro daquele ambiente hostil de maneira impressionante, numa imersão que se dá também graças ao excepcional design de produção de Carlo Simi, que nos transporta para os Estados Unidos do início do século XX através dos carros, das casas e até mesmo da decoração do bar de Moe (Larry Rapp), além é claro dos impecáveis figurinos de Gabriella Pescucci, que recriam as roupas dos gângsteres e dos judeus com precisão, seguindo o padrão instituído no imaginário popular por “O Poderoso Chefão”. Nesta mesma linha, a fotografia de Tonino Delli Colli abusa do uso das sombras nos ambientes internos para ilustrar a natureza obscura daquele submundo, mas adota tons pastéis que realçam o tom nostálgico do longa, se destacando também na iluminação de cenas noturnas impressionantes – como aquela que revela a morte dos amigos de Noodles ainda no primeiro ato – e no uso da fumaça para conferir uma atmosfera onírica a certas lembranças do protagonista.

Estados Unidos do início do século XXRoupas dos gângsteres e judeusAtmosfera oníricaEmpregando seus tradicionais closes, zooms e travellings (o superclose surge em raras ocasiões), Leone desfila por estes cenários e personagens com elegância, criando um visual impactante e repleto de cenas belíssimas que, enriquecidas pela trilha sonora sempre marcante do mestre Ennio Morricone, conferem um tom épico ao filme, destacando-se em alguns momentos especiais, como quando Noodles liga para o velho amigo Moe da porta do bar, onde somente a música e as imagens já são suficientes para demonstrar o saudosismo daquele reencontro. Leone não precisa de palavras para nos emocionar, seu cinema é pura magia. E se a trilha sonora de Morricone realça a nostalgia do protagonista, destacando-se especialmente no lindo tema principal e nas composições que envolvem um coral de vozes, as longas sequências em silêncio tão características do diretor surgem como um contraponto interessante, criando cenas extremamente tensas como quando Noodles, após a decepção do encontro com Deborah (Elizabeth McGovern), mexe o café numa xícara por longos segundos antes de se manifestar, exalando uma eletricidade palpável que evidencia sem uma única palavra a possibilidade de uma briga entre ele e o amigo Max.

Noodles liga para o velho amigo MoeXícara de caféPossibilidade de uma brigaLeone mostra talento também na direção dos atores mirins através de pequenos momentos, como aquele em que Dominic volta para conferir se o bagageiro onde eles esconderam a maleta cheia de dinheiro estava mesmo trancado. Cobrindo a vida daqueles amigos desde a infância, quando surgem ateando fogo numa banca de jornal por falta de pagamento do dono, o diretor faz questão de investir muito tempo na construção meticulosa daqueles personagens e da relação entre eles. Assim, toda a fase da infância serve para nos familiarizar com cada um deles, apresentando seus medos, ansiedades e motivações, trazendo ainda cenas belíssimas como aquela em que Noodles observa Deborah dançando, o lindo primeiro beijo deles ou o tocante momento em que Pasty decide entre comer um bolo ou transar com Peggy – e a atuação do jovem Brian Bloom neste instante é primorosa, transmitindo a indecisão do garoto com precisão e ilustrando como ele ainda não estava pronto para aquele salto de maturidade. Ainda na infância, vale citar a curiosa e marcante participação de Jennifer Connelly, ainda criança, como a linda e expressiva Deborah, que rouba o coração de Noodles com seu jeito meigo e insinuante de agir.

Dominic volta para conferirDeborah dançandoComer um bolo ou transarDurante todo este tempo, a amizade genuína daqueles jovens nos convence. Também por isso, é doloroso acompanhar esta relação sendo lentamente destruída na fase adulta por causa da ganância da maioria deles. No entanto, esta mudança já pode ser notada logo após a volta de Noodles da prisão, quando os abraços calorosos não conseguem esconder o distanciamento entre o grupo e o jovem regresso. Compondo Noodles com um ar misterioso que nem por isso esconde sua expressão naturalmente ameaçadora, De Niro transmite com precisão toda a melancolia daquele personagem deslocado, que parece sempre preso às memórias do passado e torna quase palpável seu incômodo por ter provocado a morte dos amigos, o que acaba aproximando um pouco aquele homem sofrido do espectador, por mais cruéis que sejam algumas de suas atitudes.

DistanciamentoPersonagem deslocadoPreso às memórias do passadoÉ interessante notar ainda como Noodles parece seguir um curioso e indecifrável código de ética, irritando-se com certas atitudes dos amigos – como o envolvimento com o perigoso Frankie – ao mesmo tempo em que tolera outras ainda piores. Mas talvez a sequência que melhor sintetize sua instável personalidade seja o jantar romântico com Deborah, onde ele consegue ser ao mesmo tempo encantador (durante o jantar) e repugnante (no chocante estupro no carro). Esta relação dolorosamente conturbada ecoa até na velhice, quando tanto De Niro quanto McGovern demonstram com competência a dor dos personagens ao constatarem a impossibilidade de ficarem juntos – e aqui vale destacar a ótima maquiagem que transforma De Niro de maneira convincente, assim como acontece com Woods e outros nomes importantes do elenco.

Jantar românticoChocante estuproMaquiagemJames Woods também está bem seguro e ameaçador como o adulto Max, demonstrando a evolução da ganância de seu personagem em seu olhar cada vez mais confiante, chegando ao auge na cena em que se orgulha de ter comprado um trono – e a reação de Noodles neste instante é sensacional por dizer muito sem precisar de palavras. Talvez por isso, Noodles não demonstra raiva e não aceita atirar nele quando descobre sua traição, demonstrando em seu semblante apenas um sentimento: decepção. “É o meu jeito de ver as coisas”, diz, antes de afirmar que, de qualquer forma, ele perdeu um grande amigo naquela trágica noite. Chega a doer. E finalmente, a citada Elizabeth McGovern confere charme e mistério à bela Deborah, enquanto Tuesday Weld se destaca especialmente na cena em que Carol tenta convencer Noodles a tirar a ideia do assalto ao banco da cabeça de Max, ciente de que esta atitude poderia levar ao fim do grupo.

Seguro e ameaçadorTronoCarol tenta convencer NoodlesNo fim das contas, “Era uma vez na América” é muito mais do que um filme sobre gângsteres. É um filme sobre memórias, que traz em cada fotograma um retrato perfeito da nostalgia, personificado no rosto sofrido e emblemático do personagem vivido por Robert De Niro. Seu sorriso no plano derradeiro levanta até mesmo a curiosa possibilidade de ele ter sonhado em certas passagens (não à toa ele surge fumando ópio no início), reforçada pela atmosfera onírica de algumas cenas e pelo som do telefone tocando durante toda a cena do crime, que transmite com exatidão sua sensação de desorientação. Amargurado por ter provocado a morte dos amigos de infância, ele teria imaginado certos acontecimentos (como o suposto romance entre Max e Deborah e o misterioso destino do amigo na famosa cena do caminhão de lixo), talvez buscando amenizar sua dor. Mas Leone jamais deixa claro se estas passagens são sonhos ou memórias, o que torna tudo ainda mais interessante.

Sorriso no plano derradeiroFumando ópioCena do caminhão de lixoApresentando as lembranças de um homem consumido pela culpa de maneira tocante, Leone mergulha em sentimentos profundamente humanos ao mesmo tempo em que nos apresenta parte da construção da história norte-americana, que viria a se tornar a nação economicamente mais poderosa do mundo durante o período em que a narrativa se passa. Por isso, a versão completa de “Era uma vez na América” é um filme memorável, repleto de imagens belíssimas e cenas marcantes, que justifica cada minuto investido pelo espectador nesta verdadeira experiência cinematográfica.

Era uma vez na América foto 2Texto publicado em 12 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira