TOURO INDOMÁVEL (1980)

(Raging Bull) 

 

 

Videoteca do Beto #22

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, Mario Gallo, Frank Adonis, Joseph Bono, Frank Topham, Lori Anne Flax, Charles Scorsese e Michael Badalucco.

Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake LaMotta, Joseph Carter e Peter Savage.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes um sentimento foi captado de forma tão brilhante na tela do cinema como em “Touro Indomável”, obra-prima de Martin Scorsese que marcou os anos oitenta e mostrou como o ciúme e o descontrole emocional pode levar qualquer pessoa a total degradação, por mais sucesso que ela tenha na vida. Magnífico em todos os aspectos, o filme é uma aula de cinema de primeira grandeza, alcançando o mais alto nível de excelência técnica e narrativa, além de contar com uma atuação monumental de um dos grandes atores da história do cinema.

“Touro Indomável” conta a história da ascensão meteórica do pugilista peso-médio Jake La Motta (Robert De Niro), conhecido como o “touro do Bronx”, assim como seu incrível processo de decadência, graças ao temperamento explosivo e ao ciúme doentio.

Extremamente realista e ao mesmo tempo sensível, o filme conta com a direção impecável de Martin Scorsese, que como de costume utiliza planos muito criativos, principalmente durante as lutas, através de closes em La Motta, planos da lona e das cordas pingando sangue e até mesmo do uso da câmera lenta para acentuar o efeito de alguns golpes. Incrivelmente realista, a direção de Scorsese permite ao espectador praticamente sentir o peso das luvas, a emoção do combate e a vibração da platéia. O estilo inconfundível do diretor aparece também em um espetacular plano-sequência, que vai desde o vestiário até o ringue, nos mostrando a preparação de Jake e nos levando junto com ele até o local do combate. Podemos sentir o clima, o público, as luzes e o ringue, como se estivéssemos ali dentro da luta válida pelo titulo mundial dos pesos-médios entre La Motta e Cerdan, em 1949. É claro que a firmeza na condução da narrativa e a excelente direção de atores, duas características fortes do diretor, estão presentes também.

O roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake La Motta, Joseph Carter e Peter Savage, utiliza a linguagem de rua (verborrágica e repleta de palavrões) tradicional nos filmes de Scorsese para mostrar em detalhes como o temperamento explosivo de Jake o levou ao topo e ao fundo do poço, cobrindo muitos anos da vida do pugilista sem jamais soar cansativo. Mérito também da excelente montagem de Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo interessante ao longo de toda a narrativa, utilizando diferentes estilos visuais para demonstrar a passagem do tempo. Observe, por exemplo, o arquivo de fotos e imagens em câmera lenta das lutas de Jake, seguido por um divertido video colorido que resume os acontecimentos na família La Motta (como os casamentos dos irmãos), sublinhado por uma trilha sonora nostálgica, e que finaliza com imagens desgastadas em um video envelhecido, que lembra imagens de jornal. Esta seqüência dura apenas alguns minutos, mas cobre um período de mais de três anos da vida dele.

Tecnicamente impecável, o longa conta também com a excelente direção de fotografia de Michael Chapman. O lindo contraste entre o preto e o branco cria imagens belíssimas, evita um banho de sangue no espectador e ainda pode ser interpretado como o ponto de vista de Jake, já que teoricamente os “touros” também enxergam o mundo em preto e branco. O magnífico trabalho de som funciona perfeitamente, captando cada golpe desferido pelos boxeadores com um realismo incrível, misturado à veloz narração da luta e a intensa vibração da platéia. E por último, mas não menos importante, a belíssima música tema da linda trilha sonora de Robbie Robertson (Cavalleria Rusticana: Intermezzo, composta por Pietro Mascagni) reflete muito bem o estado de espírito nostálgico de La Motta, que jogou fora tudo que conquistou em sua vida.

Dito tudo isto, chegamos finalmente ao personagem que inspirou toda esta produção. Jake La Motta é um ser humano simples, inocente até, mas explosivo ao extremo, como podemos notar logo em sua primeira aparição fora do ringue, quando reclama do jantar e vira a mesa. Esta cena simboliza perfeitamente a estupenda atuação de Robert De Niro, quando ao ouvir o vizinho gritando na janela (um técnico da equipe colocado de propósito por Scorsese sem ele saber), improvisa um diálogo que não estava no roteiro. Ao invés de parar a gravação da cena, ele entrou no espírito da coisa e mandou ver palavrões no vizinho intrometido. Coisas de quem sabe. Além das inúmeras cenas em que seu talento salta aos olhos da platéia (o choro sentido de Jake após entregar uma luta é uma delas) sua transformação física também é notável logo na primeira transição de 1964 para 1941. Por muitas vezes ingênuo, Jake era dono de um talento enorme e de uma força brutal, capaz de assustar os amigos do irmão Joey (Joe Pesci) quando os dois praticam boxe. Deslocado socialmente, seu jeito direto é também responsável por conquistar a mulher de seus sonhos, a jovem Vickie (Cathy Moriarty). A paixão por Vickie, porém, seria a responsável por expor o quanto ele era possessivo e ciumento, gerando reações extremas. Desconfiado além do limite, como fica evidente em um jantar com os amigos do irmão, Jake começa a demonstrar seu ciúme doentio quando reage de forma grosseira a uma simples frase de sua esposa sobre um adversário que era “jovem e bonito”. Jake passa dias pensando naquilo, chegando a conversar com Vickie sobre o assunto e refletindo seriamente sobre ele, revelando o quanto aquilo lhe perturbava e machucava. O resultado desta frase de Vickie foi o massacre de Janiro, o “jovem bonito”, a ponto de um espectador na platéia dizer que “este aí não vai mais poder ser chamado de bonito”.

Por outro lado, sua grosseria não significava que ele não a amasse ou se preocupasse com ela. Da mesma forma que a ofendia, e até mesmo agredia, ele demonstrava preocupação e carinho, como quando pede para o irmão levá-la pra casa e cuidar dela. Os irmãos, aliás, também se tratavam de forma agressiva, mas tinham profundo respeito e admiração um pelo outro. Nesta mesma discussão na casa de Jake, o próprio Joey é grosseiro com sua esposa, mas trata de aconselhar o irmão a cuidar de Vickie, o que gera a reconciliação dos dois logo em seguida. Joe Pesci, aliás, oferece outra excelente atuação na pele do irmão que cuida da carreira de Jake e é capaz de surrar o amigo Salvy (Frank Vincent) para defendê-lo. Vickie, por sua vez, jamais deixa de conviver com seu ciclo de amizades, por mais que amasse o marido. Por muitas vezes solitária, devido à constante rotina de lutas e viagens dele, procura amenizar a solidão se divertindo, o que só colabora para aumentar a paranóia do pugilista. Interpretada com muita sensualidade por Cathy Moriarty, ela ultrapassa o limite quando beija o empresário Tommy (Nicholas Colasanto) na frente do marido, provocando sua violenta reação. Fica claro então que Jake, por mais que amasse o irmão e a esposa, não media as conseqüências de seus atos, agindo instintivamente. Totalmente emocional e nada racional, era capaz de desconfiar do próprio irmão, como deixa claro na conversa em que, completamente fora de forma e irritado com a televisão, questiona a razão de sua briga com Salvy e chega ao ponto de perguntar se Joey já tinha transado com Vickie. Neste momento, Joey demonstra o quanto conhecia o irmão, pois sabia que se falasse o que tinha acontecido no bar ele explodiria de uma forma que ninguém conseguiria segurar. Vickie, por outro lado, não teve a mesma sabedoria, e talvez até como uma forma de provocar o marido, afirmou que já tinha transado com Joey e todos os amigos dele, provocando a ira do touro que, indomável, sai em fúria para socar o irmão e a mulher na frente da família de Joey, numa cena incrivelmente realista. Ele não pensa, só age, como um verdadeiro animal.

A enorme transformação de De Niro na entrevista de La Motta com a família em casa, seguida por sua assombrosa performance na boate, confirma todo o talento deste incrível ator. Observe como ele, na frente das câmeras, tenta ser mais educado com a esposa, chegando a perguntar se ela já terminou de falar. O final deprimente de La Motta, como um dono de bar gordo e babaca, faz com que sua esposa finalmente consiga deixá-lo. Para piorar ainda mais, ele é preso por permitir a entrada de menores de idade em seu bar, e sequer consegue pagar a fiança, mesmo vendendo as jóias do cinturão de campeão. O plano em que Jake esmurra a parede da cela, afundado nas sombras (refletindo seu estado emocional) e gritando que é um idiota é comovente. Ele repete que “não é mau, não é um animal e não é este cara”, numa performance brilhante e emocionante de Robert De Niro. Ao sair da cadeia, se transforma num apresentador de boteco decadente e deplorável. Porém, sua última frase dentro dos ringues (“Você nunca me derrubou!”) demonstra o outro lado desta fúria interior que carregava, responsável por criar um mito nos ringues. Mesmo derrotado, o gigante nunca caiu.

A conversa de Jake com o espelho, citando Marlon Brando em “Sindicato dos Ladrões”, contém a grande mensagem do filme. Ele podia ter sido alguém muito melhor, mas não foi protegido, caindo repentinamente do topo (céu) para o chão (inferno). No perigoso jogo da fama, não se deslumbrar com o presente e planejar o futuro é essencial para evitar um final decadente como este. Quando a linda trilha sonora, acompanhada de uma passagem bíblica, encerra esta emocionante obra-prima de Scorsese, estamos ainda em estado de transe, completamente hipnotizados pela maravilhosa obra que acabamos de testemunhar. Deslumbrante visualmente e profundo em sua temática, o pungente, vibrante e incrivelmente realista “Touro Indomável” nocauteia o espectador da mesma forma que Jake La Motta destroçava adversários. E de quebra, deixa uma importante reflexão a respeito do estrago que a falta de controle emocional pode causar em nossas vidas.

 

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

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20 Respostas to “TOURO INDOMÁVEL (1980)”

  1. BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997) | Cinema & Debate Says:

    […] da pele. E finalmente, a conversa de Dirk com o espelho exatamente como fez Jake La Motta em “Touro Indomável” faz uma referência óbvia à outra trajetória de ascensão e […]

  2. GENTE COMO A GENTE (1980) | Cinema & Debate Says:

    […] por Robert Redford ao menos é bastante competente, ainda que seja inferior à obra-prima “Touro Indomável”, que realmente deveria vencer o premio daquele ano. Nem por isso, é justo desmerecer o bom […]

  3. Curso De Citologia Preventivo Do Colo Do Utero Says:

    “Extremamente realista e ao mesmo tempo sensível… Incrivelmente realista, a direção de Scorsese permite ao espectador praticamente sentir o peso das luvas, a emoção do combate e a vibração da plateia”…

    …”A enorme transformação de De Niro na entrevista de La Motta com a família em casa, seguida por sua assombrosa performance na boate, confirma todo o talento deste incrível ator”…

    …“Touro Indomável nocauteia o espectador da mesma forma que Jake La Motta destroçava adversários. E de quebra, deixa uma IMPORTANTE REFLEXÃO a respeito do estrago que a falta de controle emocional pode causar em nossas vidas”…

    NB:
    Ambos, Filme e Comentários EXCELENTES!
    Lucia

  4. wellington Says:

    grande filme uma excelente atuação de robert de niro para min a cena que mais me chamou atenção foi quando ele foi preso e começou a qusetionar se a si proprio dizendo o quanto idiota foste que não era um animal comovente realistico intepretado de forma magistral oscar mais do que merecido para robert de niro

    • Roberto Siqueira Says:

      É verdade, uma cena marcante demais. De Niro em atuação sublime.
      Abraço e obrigado pelo comentário.

  5. Cross98 Says:

    deixa rocky no chinelo

    • Roberto Siqueira Says:

      Não sei se deixa no chinelo, mas é melhor sim. Uma obra-prima, de fato.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      É melhor que Rocky um Lutador sim (que é um ótimo filme), mas eu acho Touro Indomavel inferior à Menina de Ouro e à Clube da Luta tambem

    • Roberto Siqueira Says:

      Não acho.
      Abraço.

    • Mateus Aquino Says:

      Explico o motivo : Acho Touro Indomável um excelente filme, mas não muito criativo, assim como Rocky um Lutador, filmes de superação no esporte (só que Touro Indomavel é mais realista e infinitamente mais bem atuado). Clube da Luta é extremamente criativo, surpreendente e bem atuado, com personagens bem carismaticos (acho que mereceu o óscar, mas não posso afirmar, pois não assisti Magnolia). Ja Menina de Ouro é triste , mais bem atuado que Touro Indomavel (na minha opnião) e ainda mais realista, meu filme favorito da década de 2000, junto com Na Natureza Selvagem e Gladiador. 3 grandes filmes, 3 grandes Obras – Primas

    • Roberto Siqueira Says:

      “Touro Indomável” pode ser tudo, menos um filme de superação no esporte. É um estudo de personagem fantástico, repleto de cenas belíssimas e atuações memoráveis.

  6. Touro Indomável (1980) « Brasil Inteligente Says:

    […] baseado no livro de Jake LaMotta, Joseph Carter e Peter Savage. Crítica e maiores informações no Cinema e Debate Sinopse: “O pugilista peso-médio Jake LaMotta (Robert De Niro), chamado de “o touro do […]

  7. Brasil Inteligente Says:

    Ótimo filme com um roteiro muito simples mas muito bem definido. Apesar disso, o destaque vai para Robert De Niro, que com uma das melhores atuações que eu já vi, rouba qualquer brilho de roteirista e diretor. Não preciso nem ver outro filme do ano pra saber que ele mereceu o Oscar… Engordar 30kg? Improvisar diversas falas? Chorar daquele jeito? Virei fã do De Niro depois de ver esse filme…. Espetáculo de atuação…
    Ah, e essa crítica, uma das melhores suas que eu já li…. simples e objetiva…

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado pelo elogio Thi.
      Fiquei extremamente feliz por você gostar do filme, que é realmente fantástico. Também sou fã do De Niro. Praticamente todos os filmes dele nos anos 70 e 80 são muito bons, mas aqui ele atingiu a perfeição. Um grande ator numa atuação inesquecível.
      Abraço.

  8. VIVENDO NO LIMITE (1999) « Cinema & Debate Says:

    […] Driver” (que também abordava um homem atormentado pelo que via nas ruas de Nova York) ou “Touro Indomável” e marca o início de uma fase menos pungente do diretor, que ainda assim conseguiu realizar […]

  9. Janaina Sabino Says:

    Olá!

    Excelente resenha! Este filme é maravilhoso e acho que duas coisas são decisivas: a escolha do preto e branco (eu só achei que um clássico conseguiu ficar mais clássico por isso, mas achei super legais as suas considerações sobre isso) e a trilha sonora. Quando você coloca o DVD e aparece o menu com o Jake se aquecendo e a Cavalleria Rusticana ao fundo… já fica claro que você assistirá um belíssimo e inesquecível filme.

    Um abraço

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Janaina. Obrigado pelos comentários e pelo elogio.
      Realmente, já no menu do DVD temos a sensação de estar prestes a acompanhar um belo filme, um verdadeiro clássico.
      Seja bem vinda ao Cinema & Debate e volte sempre.
      Abraços.

  10. Igor Cavalcanti Says:

    Sou fã de Martin Scorsese e De Niro faz tempo! Quando os dois estão juntos, são como um terremoto de talento e perfeição cinematográfica! Este filme, sem dúvida nenhuma, é um dos melhores filmes que já vi!

    • Roberto Siqueira Says:

      Com certeza Igor, esta dupla é extremamente talentosa e contribuiu muito para a história do cinema.
      Obrigado pelo comentário, seja bem-vindo ao Cinema & Debate e volte sempre.

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