THE DOORS (1991)

(The Doors)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #108

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Kathleen Quinlan, Michael Wincott, Michael Madsen, Billy Idol, Sean Stone, Wes Studi, Kelly Hu, Mimi Rogers, Jennifer Rubin e Crispin Glover.

Roteiro: Randall Jahnson e Oliver Stone.

Produção: Bill Graham, Sasha Harari e A. Kitman Ho.

The Doors[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dizem que Val Kilmer precisou de alguns meses para se recuperar psicologicamente após viver o lendário Jim Morrison neste interessante “The Doors”, biografia de um dos maiores frontman da história do rock dirigida pelo polêmico e competente Oliver Stone. Verdade ou não, o fato é que o ator se entregou de corpo e alma numa atuação de encher os olhos, que salta da tela e faz os fãs vibrarem enquanto acompanham a trajetória do ídolo sendo retratada na telona. No entanto, Stone não ousou ir além e entregou um filme que retrata Morrison apenas sob este prisma de ídolo, sem jamais se aprofundar na pessoa existente debaixo daquela capa. O resultado é um filme que agrada em cheio aos fãs de The Doors (como eu), mas que deixa a sensação de que faltou alguma coisa para aqueles que estavam interessados em conhecer um pouco mais do ícone (também como eu).

Trazendo a básica trajetória de ascensão e decadência de um astro do rock, o roteiro de Randall Jahnson e do próprio Oliver Stone narra a vida de Jim Morrison (Val Kilmer) desde a criação da lendária banda The Doors ao lado de Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon), passando pelo enorme sucesso, pelo relacionamento com Pamela Courson (Meg Ryan), pelo uso compulsivo de drogas e álcool e chegando a decadência que levaria o vocalista a morte precoce ainda aos 27 anos de idade.

O tom escolhido por Stone para levar a trajetória da banda às telonas fica evidente logo no início, quando o vocalista pergunta para a plateia se “estão todos aí”, como na abertura de um show. A partir de então, o que temos é um verdadeiro presente para os fãs que, justamente por se preocupar demais em agradá-los, acaba pecando um pouco pela falta de ousadia.

Tecnicamente, “The Doors” tem muitos acertos. A reconstituição dos anos 60, por exemplo, é excelente, graças aos carros antigos, a decoração dos bares e casas de show e as roupas e acessórios típicos da época como os óculos coloridos e as bandanas, o que é mérito do design de produção de Barbara Ling e dos figurinos de Marlene Stewart. Além disso, a câmera inquieta do diretor passeia pelas festas e apresentações com destreza, ilustrando a euforia das pessoas naqueles ambientes. Aliás, o grande mérito da direção de Stone é justamente captar o espírito livre da época e a energia dos shows da banda com incrível precisão, o que é ótimo para sugar o espectador pra dentro da narrativa.

Para isto, o diretor conta também com a ágil montagem de David Brenner e Joe Hutshing, que reflete a personalidade agitada do vocalista, mas peca pelo excesso ao prolongar demais a narrativa em certos momentos, tornando o filme um pouco arrastado e cansativo por alguns instantes. Ainda assim, os montadores merecem elogios por criarem transições elegantes como aquela em que saímos do olho do índio que atormenta Morrison para vê-lo cantando The End ao vivo em Los Angeles. E por falar nos shows, vale citar também o ótimo design de som, que cria a atmosfera perfeita nos permitindo ouvir com clareza os gritos da plateia, as conversas entre a banda e cada instrumento que é tocado no palco.

Como era de se esperar, a trilha sonora obviamente é deliciosa, recheada de clássicos da banda que nos fazem vibrar na poltrona durante a projeção. E não podemos negar que é muito empolgante acompanhar o processo de criação de clássicos eternos do rock como Light my Fire, assim como é muito interessante a maneira como Stone usa a câmera para nos colocar dentro das viagens de ácido deles, como na sequência do deserto, na qual sentimos as mesmas sensações alucinógenas dos integrantes do The Doors. O banquete para os fãs se complementa com as confusões no palco, as prisões por relatar um ataque da polícia e por insinuar mostrar a genitália em um show, as brigas de Morrison com Pam e com a banda e o uso abusivo de drogas e álcool. Neste sentido, não temos do que reclamar, está tudo lá. Até mesmo a origem do nome da banda é explicada, para o deleite dos fãs.

Decoração dos baresViagens de ácidoConfusões no palcoEsta abordagem respeitosa ao ícone se confirma através do visual do longa. Observe como a fotografia de Robert Richardson abusa de tons dourados que destacam cores como amarelo e laranja, realçando a imagem icônica do personagem – algo ainda mais intenso quando Stone emprega planos em ângulo baixo e contra a luz que buscam engrandecê-lo na tela, criando esta aura de ídolo tão desejada pelo diretor. Em outros momentos, Richardson abusa dos tons em vermelho, realçando a aura pecaminosa que normalmente é associada ao rock, especialmente quando acompanhamos os abusos do vocalista. Mas esta abordagem excessivamente respeitosa é também prejudicial (voltaremos a ela em instantes).

Entretanto, o grande destaque do longa é mesmo a atuação visceral de Val Kilmer. Caracterizado com enorme competência, o ator lembra bastante o verdadeiro Jim Morrison em vários momentos através do cabelo, das calças apertadas e de acessórios como os óculos pequenos e arredondados. Mas a força de sua atuação está mais na atitude do que na aparência, já que Kilmer encarna Morrison com muita intensidade, mostrando força no palco (o que é essencial, já que é justamente sua performance hipnótica no palco chama a atenção de uma gravadora e dá início ao sucesso avassalador da banda) e um comportamento excêntrico fora dele, causado pelo excesso de uso de drogas e álcool.

Ousado e criativo, Jim Morrison é uma verdadeira força da natureza, capaz de escrever a mais bela poesia e de estragar um almoço entre amigos com a mesma facilidade, num comportamento imprevisível que Kilmer demonstra muito bem em momentos interessantes como uma entrevista para a imprensa britânica, que evidencia a dualidade de sua mente genial e conturbada. Traumatizado por lembranças da infância que inspiraram a criação da canção Riders on the Storm, Morrison precisa se sentir admirado, como fica evidente nas noites de sexo com Patricia e Pam, mas a origem de seu trauma jamais fica muito clara, o que nos permite interpretar que aqueles índios eram apenas um símbolo dos demônios internos dele.

Vivendo ao seu lado, a carismática Meg Ryan compõe uma Pam alegre e espirituosa, mas que nem por isso deixa de ter suas crises provocadas pelos excessos da vida do casal – que, aliás, são responsáveis pelas brigas homéricas entre eles. Também obrigados a aguentar os excessos de seu frontman, os outros integrantes da banda são interpretados de maneira discreta por MacLachlan, Whaley e Dillon, enquanto Kathleen Quinlan se encarrega de dar vida à jornalista Patricia Kennealy, que rouba a atenção de Morrison por um período, e Michael Madsen diverte-se na pele do amigo do vocalista Tom Baker. Mas o fato é que todos empalidecem diante da presença marcante de Kilmer. Finalmente, vale citar a participação rápida do diretor Oliver Sonte como o professor de cinema da UCLA.

Tons douradosPerformance hipnóticaPam alegre e espirituosaAstro decadente e incapaz de enxergar isto, Jim Morrison para um show para ofender o público, cria o caos ao incitar a plateia contra a polícia e quase é preso novamente, mas ao começar um dos grandes hits da banda, a velha energia está lá, intacta, como acontece com as grandes bandas da história do rock – e Stone capta isto com precisão com sua câmera agitada que nos coloca no meio da multidão que pula ensandecida acompanhando Morrison pelo local. Neste terceiro ato, aliás, é impressionante notar também a transformação física de Val Kilmer, que passa do astro jovem e magro do início para o barrigudo e decadente vocalista do ato final.

Artista de alto nível, Jim Morrison foi um verdadeiro gênio, um dos grandes nomes da história da música, assim como o “The Doors” foi uma das bandas mais respeitáveis do rock, com sua discografia repleta de canções excepcionais. Mas isto todos nós já sabemos. A pergunta que fica ao final de “The Doors” é: e o homem? Quem foi verdadeiramente Jim Morrison? Quais eram seus anseios, suas angústias, suas dúvidas? As respostas que temos após mais de duas horas de projeção são muito poucas, o que deixa a sensação de que o longa foi dirigido por um fã, que não ousou desconstruir o mito e investigar a fundo o lado falho e humano do quase intocável ídolo do rock.

Mesmo assim, sua energia e a sensacional atuação de Val Kilmer são suficientes para agradar. Mas poderíamos ter recebido algo mais. E esta é uma sensação que nós jamais temos ao ouvir as músicas da banda e que, certamente, as pessoas jamais sentiam ao comparecer aos shows deles. Morrison e seus companheiros entregavam tudo no palco. Infelizmente, Stone não fez o mesmo.

The Doors foto 2Texto publicado em 10 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

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FOGO CONTRA FOGO (1995)

(Heat)

 

Videoteca do Beto #130

Dirigido por Michael Mann.

Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Jon Voight, Tom Sizemore, Ashley Judd, Natalie Portman, Danny Trejo, Diane Venora, Amy Brenneman, Mykelti Williamson, Wes Studi, Ted Levine, Dennis Haysbert, William Fichtner, Tom Noonan, Hank Azaria, Kevin Gage e Tone Loc.

Roteiro: Michael Mann.

Produção: Art Linson e Michael Mann.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dois dos maiores atores de sua geração (e, porque não dizer, de todos os tempos), Al Pacino e Robert De Niro se destacaram também pela coragem de escolher projetos audaciosos no auge ao invés de surfar na fama em projetos puramente comerciais. Donos de enorme talento e carisma, eles sempre estiveram entre os atores mais respeitados da indústria, conquistando o respeito de fãs e críticos. Curiosamente, antes de “Fogo contra Fogo” eles jamais tinham dividido um plano sequer, a não ser numa rápida transição de planos em “O Poderoso Chefão – Parte II”. Por isso, você pode imaginar qual era a expectativa para finalmente vê-los atuando juntos no filme dirigido por Michael Mann. E para a alegria geral, o resultado não poderia ser melhor. Ainda que contracenem apenas em duas cenas, eles estrelam um filme de ação não apenas eficiente, mas que apresenta, além de grandes cenas, um excepcional estudo de personagens.

Escrito e dirigido por Michael Mann, “Fogo contra Fogo” começa apresentando rapidamente os personagens centrais da narrativa enquanto acompanhamos a preparação de um assalto. Desta forma, conhecemos em poucos minutos os criminosos Neil (Robert De Niro), Chris (Val Kilmer), Cheritto (Tom Sizemore) e Waingro (Kevin Gage), além do informante do grupo Nate (Jon Voight). Durante a execução do plano, Waingro dispara contra um policial e provoca o assassinato de outros dois, o que força a presença do detetive da Divisão de Homicídios Vincent Hanna (Al Pacino), que assume o caso. Lentamente, ele descobre quem são aqueles criminosos e passa a persegui-los, o que só piora sua relação conturbada com a esposa Justine (Diane Venora) e a enteada Lauren (Natalie Portman).

Desde o início, o impecável roteiro entrelaça de maneira consistente os caminhos de seus diversos personagens, criando uma narrativa sempre envolvente e dinâmica, que jamais soa confusa, graças também ao bom trabalho dos montadores Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoenig e Tom Rolf, que alternam num ritmo interessante entre a investigação de Vincent e as ações do grupo de Neil, acertando ainda nas cenas de ação, como o sensacional tiroteio em plena luz do dia após o assalto ao banco – que abordarei novamente em instantes. Mann também aborda de maneira interessante o meticuloso trabalho da policia, nos envolvendo no processo ao mesmo tempo em que acompanhamos os criminosos planejando seus próximos passos, num jogo de gato e rato sempre interessante. Entretanto, ainda que desenvolva bem a maioria dos personagens, é no profundo estudo da dupla Neil e Vincent que o roteiro se destaca, apresentando dois homens que, mesmo estando em lados opostos da lei, compartilham diversas características marcantes – que também voltarei a abordar em instantes.

Visualmente, “Fogo contra Fogo” se destaca em diversos momentos, como nos lindos planos em que Neil e Eady (Amy Brenneman) olham a cidade iluminada de uma sacada. Aliás, a competente fotografia de Dante Spinotti auxilia bastante no trabalho excepcional de Michael Mann, com suas cores frias e perfeita iluminação nas cenas noturnas (repare o visual esplêndido no vôo dos helicópteros, por exemplo). Também discretos e eficientes são os figurinos de Deborah Lynn Scott, que mantém a coerência ao priorizar cores que não chamam a atenção na maior parte do tempo, assim como a trilha melancólica de Elliot Goldenthal sublinha suavemente os diálogos entre os casais, subindo o tom apenas em algumas cenas de ação, como no assalto ao carro forte.

Empregando closes que realçam cada personagem e os aproximam do espectador, Mann rapidamente revela informações importantes, como os problemas familiares de Vincent e Chris e a solidão de Neil. Já o primeiro assalto serve para introduzir a violência brutal dos criminosos, nos preparando para o que veremos ao longo da narrativa. Ainda mais interessante é a maneira como Mann explora dramaticamente os personagens, nos aproximando de seus problemas e compartilhando suas angústias e dilemas, num processo inteligente que humaniza até mesmo os criminosos. Mas o mais interessante mesmo é como o diretor conduz a marcante cena do tiroteio nas ruas de Los Angeles, nos colocando no meio da cena como se fizéssemos parte da ação, com a câmera se escondendo entre os carros enquanto os tiros passam raspando. O espetáculo, porém, começa antes, desde quando acompanhamos Neil convidando o ex-presidiário Breedan (Dennis Haysbert) para substituir Trejo (Danny Trejo) no assalto, enquanto Vincent, desesperado, sequer sabe onde eles estão. O assalto segue bem sucedido até o instante em que Vincent descobre o local. E então, a tensão toma conta da tela, especialmente pela forma como Mann transita entre os planos até que Chris perceba a presença da polícia e inicie o tiroteio, onde, além do verdadeiro espetáculo de direção e montagem, vale destacar também o excepcional trabalho de design de som que torna tudo mais realista e, junto com os planos subjetivos, praticamente nos coloca dentro do confronto.

Ainda na direção, Mann também conduz com precisão outras cenas bastante tensas, como quando Neil e Chris invadem um local à noite e são observados pela polícia, onde cada plano complementa o outro perfeitamente, criando um clima crescente e quase insuportável de suspense – e repare como em dois planos idênticos, as sombras cobrem metade do rosto de Vincent e Neil, sugerindo que eles se complementam. Outra cena de grande destaque é aquela em que Vincent descobre que Neil está observando a polícia nos contêineres, numa virada interessante na narrativa. Em outro momento tenso, Charlene (Ashley Judd) desiste de entregar o marido Chris, o que confere ainda mais peso dramático à conturbada relação deles e comprova que os personagens de “Fogo contra Fogo” fogem do estereótipo unidimensional típico dos filmes de ação. Aqui não existe o clichê “o bem contra o mal”. Todos têm qualidades e defeitos e, por isso, compreendemos suas motivações, ainda que discordemos delas.

Apoiado num elenco espetacular, Michael Mann extrai ótimas atuações que tornam “Fogo contra Fogo” ainda mais realista, a começar pelos papéis menores dos ótimos Jon Voight e Tom Sizemore, passando por Ted Levine, Amy Brenneman e Ashley Judd, além da na época adolescente Natalie Portman, que interpreta a enteada de Vincent cheia de problemas com o pai biológico. Num papel de maior destaque, Val Kilmer vive o explosivo Chris, que, assim como Vincent, tem problemas com a esposa, mas, diferente do policial e do parceiro Neil, não consegue evitar que eles interfiram em seu “trabalho”. Fechando o elenco secundário, Diane Venora parece sequer expressar os sentimentos de Justine, numa atuação fria coerente com o sofrimento da personagem, já anestesiada diante de tanto desprezo do marido (“O que eu tenho são sobras”, diz ela).

Homens parecidos mesmo em lados opostos da lei, Vincent e Neil são muito competentes naquilo que gostam de fazer, mas não conseguem ter sucesso na vida social e nos relacionamentos amorosos. Se Vincent já está no terceiro casamento fracassado, Neil evita ter um relacionamento sério e, mesmo gostando de Eady, deixa claro que não hesitará em largá-la se assim for preciso. Atores completos e que impõe respeito naturalmente, De Niro e Pacino jamais dão a sensação de que hesitarão antes de partir pra cima de alguém, ainda que seus personagens demonstrem um impressionante autocontrole e saibam como agir de maneira inteligente em cada situação, como fica claro nas conversas de Neil com Charlene e de Vincent com Albert, o irmão do informante Richard, o que é essencial para o sucesso dos personagens. Assim, sabemos que eles não pensaram duas vezes antes de atirar, ainda que do outro lado esteja um “oponente” de respeito – algo vital para a seqüência final, por exemplo.

Policial inteligente e muito respeitado, o Vincent de Al Pacino sabe que sua dedicação ao trabalho atrapalha o relacionamento com a esposa e a enteada, mas não consegue fazer nada a respeito – e talvez nem queira. Por isso, Justine lentamente vai se afastando do marido até consumar a traição – e repare na fotografia obscura e opressora na cena em que eles discutem a relação num restaurante, momentos antes dela resolver agir. Aliás, nem mesmo após a traição ele consegue demonstrar sentimento por ela, utilizando a televisão para descarregar sua raiva. Mas ao ver a enteada quase morta na banheira, Vincent finalmente demonstra afeto e recebe um doloroso abraço de sua esposa – o que não significa uma reaproximação ou revisão de valores.

Do outro lado da moeda, o Neil de Robert De Niro demonstra sua inteligência desde o início, quando se irrita com o assassinato dos motoristas do carro forte por saber que aquilo chamaria ainda mais a atenção da polícia para o caso. Mas sua energia na execução dos crimes é proporcional à sua inércia na vida particular, representada pelo apartamento sem mobília que simboliza uma vida vazia. Simbólico também é o plano em que ele olha para o mar, numa alusão ao sonho de largar tudo pra trás e viver bem longe, escancarado quando convida Eady para deixar o país (obviamente, já contando com a grana que receberia após o assalto ao banco). Mas, assim como Vincent, ele desperdiça a chance que tem de mudar quando Nate avisa o paradeiro do traidor Waingro – e a expressão dele demonstra claramente seu conflito interior, assim como a fotografia indica seu trágico futuro mudando drasticamente do túnel iluminado para as ruas sombrias da cidade. Ele precisava escolher entre a fuga com Eady e a vingança e, mesmo sabendo que perderia um tempo precioso, não resiste ao impulso e desvia o caminho. Neste momento, o espectador já sabe o que esperar. Ainda assim, a melancólica cena em que ele abandona Eady no carro incomoda, mas é coerente com a personalidade dele. Uma cena visualmente belíssima, aliás, com a câmera lenta destacando o momento em que ele decide abandoná-la, exatamente como avisou que faria se fosse necessário.

Estas duas personalidades tão fortes e tão parecidas se cruzam apenas duas vezes durante a narrativa. Num momento histórico para cinéfilos e fãs, Al Pacino e Robert De Niro contracenam pela primeira vez quando o primeiro para o segundo no trânsito e o convida para tomar um café. A conversa direta e cheia de ameaças sutis é um dos grandes momentos do longa (e da atuação de ambos), servindo também para preparar o clima da seqüência final. O segundo encontro acontece exatamente no esperado confronto final, em que a ausência da trilha sonora, os sons diegéticos e a escuridão do aeroporto reforçam a tensão até que finalmente Vincent acerte Neil. O cumprimento deles apenas comprova o respeito mútuo de dois homens inteligentes e obstinados, que não conseguiam fazer outra coisa a não ser o “trabalho” que amavam. Infelizmente, o trabalho de um era atrapalhar o trabalho do outro, e eles jamais permitiriam que alguém atrapalhasse seus caminhos. Mas se o trabalho de um interferia diretamente no do outro, ironicamente este conflito era necessário para que eles pudessem exercer a profissão com tanta paixão – e, além do respeito, este cumprimento final revela esta assombrosa compreensão de ambos do cenário em que estão inseridos.

Com uma rara profundidade dramática e um complexo estudo de personagens pouco comum no gênero, “Fogo contra Fogo” é um excepcional filme de ação, que traz ainda uma das mais sensacionais cenas de tiroteio já vistas no cinema. Ao estudar personalidades tão parecidas em corpos inimigos, Michael Mann entrega mais do que um ótimo filme de ação, trazendo dois homens obstinados por suas profissões, que, numa melancólica ironia, dependiam um do outro para se sentirem completos, mesmo estando em lados opostos da lei.

Texto publicado em 10 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira