CIDADE DOS ANJOS (1998)

(City of Angels)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #183

Dirigido por Brad Silberling.

Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Dennis Franz, Andre Braugher, Colm Feore, Rhonda Dotson, Sarah Dampf, Joanna Merlin, Robin Bartlett e Nigel Gibbs.

Roteiro: Dana Stevens, baseado em roteiro de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger para o filme “Asas do Desejo / Der Himmel über Berlin.

Produção: Charles Roven e Dawn Steel.

Cidade dos Anjos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Versão americana inspirada na obra-prima alemã “Asas do Desejo”, “Cidade dos Anjos” não consegue tocar o espectador com a mesma sensibilidade do original. No entanto, avaliar o filme de Brad Silberling sob este prisma seria injusto, já que, mesmo trabalhando dentro do modelo tradicional de Hollywood, o diretor consegue um excelente resultado, conquistando o espectador através da beleza de suas imagens e da força da narrativa. Se não sentimos o drama do protagonista com a mesma intensidade, também não podemos dizer que não somos envolvidos pela trajetória dele.

Como dito, a roteirista Dana Stevens inspirou-se no trabalho de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger em “Asas do Desejo” (“Der Himmel über Berlin”, em alemão) para narrar à história de Seth (Nicolas Cage), um anjo enviado para ajudar aqueles que estão prestes a morrer que acaba se apaixonando por Maggie (Meg Ryan), uma cirurgiã centrada e racional que passa a questionar o próprio trabalho após perder um paciente numa cirurgia. Na medida em que Maggie abre espaço para novas interpretações sobre a vida e a morte, Seth sente que pode se aproximar dela e abre caminho para que um improvável relacionamento se concretize.

Estabelecendo desde o início a natureza angelical de seu protagonista, o diretor Brad Silberling faz questão de nos apresentar também aos benefícios daquela condição especial, trazendo Seth e seu amigo Cassiel (Andre Braugher, em boa atuação) sentados em cima de uma placa admirando o visual e falando sobre as coisas que eles não conseguem sentir. Assim, desde cedo à narrativa já evidencia o dilema que atormentará Seth: manter-se na privilegiada condição de anjo ou entregar-se aos prazeres e perigos da vida humana. Obviamente, nem o protagonista nem o espectador sabem que ele poderá ter esta escolha, já que somente depois que o divertido Nathaniel Messinger entra em cena é que esta alternativa será apresentada ao personagem. Completamente à vontade no papel, Dennis Franz interpreta Messinger com competência, conferindo graça ao anjo glutão que decidiu deixar a eternidade para trás para sentir os encantos e as dores da vida humana, servindo também como uma espécie de guia espiritual de Seth.

Seth e seu amigo CassielDivertido Nathaniel MessingerAnjo glutãoPara ampliar esta experiência sensorial tão desejada por Seth, Silberling insere planos que realçam as atividades corriqueiras que tornam a nossa condição humana tão especial. Assim, prazeres simples como comer uma pera ou sentir o toque de outra pessoa ganham uma nova dimensão na câmera do diretor e tornam-se objetos de desejo para Seth, que revela sua curiosidade num diálogo com o amigo Cassiel e em seu fascínio diante da habilidade do escritor Ernest Hemingway em descrever sensações que ele jamais pôde sentir. Ele queria sentir o vento, sentir o mar, sentir a dor, sentir o calor… Enfim, Seth queria sentir.

Através de lindos travellings que vagam pela cidade acompanhando pessoas indo para o trabalho, passeando e até mesmo a polícia atuando, o diretor realça a vida acontecendo naturalmente enquanto os anjos perambulam pelo local. Auxiliado pela fotografia naturalista de John Seale, o diretor evidencia o contraste entre o realismo do ambiente hospitalar e o encanto de instantes deslumbrantes como quando os anjos se reúnem para acompanhar o pôr do sol e as lindas sequências em que eles sentam em prédios ou objetos altos para olhar a cidade, nos presenteando com planos plasticamente belíssimos. Da mesma forma, o diretor trabalha bem na construção da aura sobrenatural que ronda os anjos, especialmente em planos que trazem todos olhando para o mesmo lugar, como quando Seth e Maggie deixam a Biblioteca juntos pela primeira vez. Esta sensação é reforçada ainda pela ousada escolha da figurinista Shay Cunliffe, que subverte o clichê e traz os anjos vestidos de preto ao invés do clássico branco.

Comer uma peraAnjos se reúnem para acompanhar o pôr do solTodos olhando para o mesmo lugarColaborando no contraste entre o realismo do hospital e a aura mágica que ronda os anjos, a trilha sonora de Gabriel Yared traz composições instrumentais dissonantes, intercaladas com belas canções como a linda “Angel” e o mega sucesso “Iris”, do grupo The Goo Goo Dolls. Assim, Silberling e sua equipe conseguem criar a atmosfera desejada em “Cidade dos Anjos”, fisgando o espectador pra dentro de uma narrativa clássica sobre o amor impossível. Além disso, a evolução lenta do romance ajuda a desenvolver melhor os personagens e seus dilemas, o que é mérito também da montagem de Lynzee Klingman, que investe o tempo necessário na construção do clima que permitirá a aproximação entre Seth e Maggie.

Desta forma, Silberling pode trabalhar na construção dos personagens com calma, nos aproximando mais deles através do uso constante do close-up e criando a empatia necessária para que o espectador torça pelo sucesso do romance. Observe, por exemplo, como a tensão durante o momento crítico da primeira cirurgia, a tristeza da família após Maggie dar a notícia do falecimento do paciente e a reação sensível dela soam extremamente realistas, tocando o espectador e fazendo com que os questionamentos da cirurgiã soem convincentes. Ao ver aquela médica numa posição de fragilidade e angústia, a empatia da plateia é quase imediata. Obviamente, o talento de Meg Ryan é essencial nesta composição da personagem. Cada vez menos confiante e questionando sua visão cética sobre a vida, Maggie lentamente cede espaço para o conflito interno que a atormenta, abrindo espaço também para a aproximação de Seth.

Momento crítico da primeira cirurgiaFragilidade e angústiaExpressão tranquilaAdotando uma expressão tranquila, Nicolas Cage transmite a paz que se espera de um anjo, numa atuação minimalista e bastante contida que foge de seu estilo tradicional e prova sua qualidade como ator. Através da expressão corporal e da voz contida, Cage ilustra muito bem a aflição de Seth diante da impossibilidade de viver aquele amor, assim como sua dúvida após descobrir que pode mudar sua condição. Captando muito bem as expressões dos atores, Silberling aproveita também para rechear a narrativa com planos simbólicos, como quando Maggie beija o namorado em sua casa e o diretor movimenta a câmera em direção a Seth, que se encontra atrás das grades da cozinha dela, num plano que ilustra o instante em que ele percebe que está apaixonado e, portanto, “aprisionado por ela”.

Em certo momento, o dilema de Seth parece simples de ser resolvido, mas basta refletir um pouco a respeito para compreender a complexidade daquela mudança drástica, já que ele deixaria para trás o conforto e a segurança de ser anjo para arriscar-se numa vida completamente nova, desconhecida e, o que é pior, finita. E é justamente neste sacrifício que reside à força do romance de “Cidade dos Anjos”. Quando Seth finalmente cria coragem e revela a verdade pra ela, chegamos ao esperado conflito entre o casal. Embaladas pela trilha melancólica, as cenas seguintes afundam os personagens na noite chuvosa, num visual obscuro que reflete a tristeza de ambos. E então, Maggie afirma que não quer mais ver Seth, concretizando o clichê do conflito e encaminhando a narrativa para o esperado final feliz. A partir daí, já esperamos que Seth desista da vida de anjo e corra atrás dela, o que realmente acontece, numa cena linda visualmente em que ele literalmente “cai” para tornar-se humano.

Atrás das gradesNoite chuvosaEle literalmente caiApós passar pelas esperadas dificuldades de alguém que acaba de ter contato com a sensibilidade humana, Seth finalmente reencontra Maggie e começa a viver o tão idealizado romance – e a empolgação de Cage, agora claramente mais agitado e vibrante, ilustra muito bem a excitação do personagem neste novo cenário. E é justamente aí que “Cidade dos Sonhos” começa a fugir do clichê básico do gênero, apesar da tradicional cena de sexo na frente da lareira. Em um dos elegantes travellings de Silberling, acompanhamos Maggie pedalando sua bicicleta pelas montanhas feliz da vida, acompanhada por uma trilha sonora suave e em seguida pela câmera lenta que torna a sequência ainda mais bela. Só que, de repente, a expressão no rosto dela indica que algo saiu errado e o caminhão que surge à sua frente traz o acidente que levará Maggie à morte e a plateia ao choque. O final feliz está descartado e o plongè que diminui o destruído Seth diante do túmulo dela, a chuva e a trilha triste só realçam a tragédia.

Tradicional cena na frente da lareiraMaggie pedalando pelas montanhasExpressão no rosto dela indica que algo saiu erradoPra terminar de arrancar as últimas gotas de lágrima de parte da plateia, Seth afirma que “preferia tocá-la, beijá-la e senti-la apenas uma vez do que passar a eternidade sem fazê-lo”. E se o espectador concordar com ele, o sucesso de “Cidade dos Anjos” está garantido.

Apesar de seguir clichês básicos dos romances, Silberling tem coragem de fugir do esperado final feliz e apostar num desfecho ironicamente trágico, que nos faz refletir sobre a efemeridade da vida humana e a nossa impotência diante dela. Enriquecido ainda por atuações competentes e por um visual marcante, “Cidade dos Anjos” confirma-se como um romance eficiente e belo.

Cidade dos Anjos foto 2Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

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THE DOORS (1991)

(The Doors)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #108

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Kathleen Quinlan, Michael Wincott, Michael Madsen, Billy Idol, Sean Stone, Wes Studi, Kelly Hu, Mimi Rogers, Jennifer Rubin e Crispin Glover.

Roteiro: Randall Jahnson e Oliver Stone.

Produção: Bill Graham, Sasha Harari e A. Kitman Ho.

The Doors[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dizem que Val Kilmer precisou de alguns meses para se recuperar psicologicamente após viver o lendário Jim Morrison neste interessante “The Doors”, biografia de um dos maiores frontman da história do rock dirigida pelo polêmico e competente Oliver Stone. Verdade ou não, o fato é que o ator se entregou de corpo e alma numa atuação de encher os olhos, que salta da tela e faz os fãs vibrarem enquanto acompanham a trajetória do ídolo sendo retratada na telona. No entanto, Stone não ousou ir além e entregou um filme que retrata Morrison apenas sob este prisma de ídolo, sem jamais se aprofundar na pessoa existente debaixo daquela capa. O resultado é um filme que agrada em cheio aos fãs de The Doors (como eu), mas que deixa a sensação de que faltou alguma coisa para aqueles que estavam interessados em conhecer um pouco mais do ícone (também como eu).

Trazendo a básica trajetória de ascensão e decadência de um astro do rock, o roteiro de Randall Jahnson e do próprio Oliver Stone narra a vida de Jim Morrison (Val Kilmer) desde a criação da lendária banda The Doors ao lado de Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon), passando pelo enorme sucesso, pelo relacionamento com Pamela Courson (Meg Ryan), pelo uso compulsivo de drogas e álcool e chegando a decadência que levaria o vocalista a morte precoce ainda aos 27 anos de idade.

O tom escolhido por Stone para levar a trajetória da banda às telonas fica evidente logo no início, quando o vocalista pergunta para a plateia se “estão todos aí”, como na abertura de um show. A partir de então, o que temos é um verdadeiro presente para os fãs que, justamente por se preocupar demais em agradá-los, acaba pecando um pouco pela falta de ousadia.

Tecnicamente, “The Doors” tem muitos acertos. A reconstituição dos anos 60, por exemplo, é excelente, graças aos carros antigos, a decoração dos bares e casas de show e as roupas e acessórios típicos da época como os óculos coloridos e as bandanas, o que é mérito do design de produção de Barbara Ling e dos figurinos de Marlene Stewart. Além disso, a câmera inquieta do diretor passeia pelas festas e apresentações com destreza, ilustrando a euforia das pessoas naqueles ambientes. Aliás, o grande mérito da direção de Stone é justamente captar o espírito livre da época e a energia dos shows da banda com incrível precisão, o que é ótimo para sugar o espectador pra dentro da narrativa.

Para isto, o diretor conta também com a ágil montagem de David Brenner e Joe Hutshing, que reflete a personalidade agitada do vocalista, mas peca pelo excesso ao prolongar demais a narrativa em certos momentos, tornando o filme um pouco arrastado e cansativo por alguns instantes. Ainda assim, os montadores merecem elogios por criarem transições elegantes como aquela em que saímos do olho do índio que atormenta Morrison para vê-lo cantando The End ao vivo em Los Angeles. E por falar nos shows, vale citar também o ótimo design de som, que cria a atmosfera perfeita nos permitindo ouvir com clareza os gritos da plateia, as conversas entre a banda e cada instrumento que é tocado no palco.

Como era de se esperar, a trilha sonora obviamente é deliciosa, recheada de clássicos da banda que nos fazem vibrar na poltrona durante a projeção. E não podemos negar que é muito empolgante acompanhar o processo de criação de clássicos eternos do rock como Light my Fire, assim como é muito interessante a maneira como Stone usa a câmera para nos colocar dentro das viagens de ácido deles, como na sequência do deserto, na qual sentimos as mesmas sensações alucinógenas dos integrantes do The Doors. O banquete para os fãs se complementa com as confusões no palco, as prisões por relatar um ataque da polícia e por insinuar mostrar a genitália em um show, as brigas de Morrison com Pam e com a banda e o uso abusivo de drogas e álcool. Neste sentido, não temos do que reclamar, está tudo lá. Até mesmo a origem do nome da banda é explicada, para o deleite dos fãs.

Decoração dos baresViagens de ácidoConfusões no palcoEsta abordagem respeitosa ao ícone se confirma através do visual do longa. Observe como a fotografia de Robert Richardson abusa de tons dourados que destacam cores como amarelo e laranja, realçando a imagem icônica do personagem – algo ainda mais intenso quando Stone emprega planos em ângulo baixo e contra a luz que buscam engrandecê-lo na tela, criando esta aura de ídolo tão desejada pelo diretor. Em outros momentos, Richardson abusa dos tons em vermelho, realçando a aura pecaminosa que normalmente é associada ao rock, especialmente quando acompanhamos os abusos do vocalista. Mas esta abordagem excessivamente respeitosa é também prejudicial (voltaremos a ela em instantes).

Entretanto, o grande destaque do longa é mesmo a atuação visceral de Val Kilmer. Caracterizado com enorme competência, o ator lembra bastante o verdadeiro Jim Morrison em vários momentos através do cabelo, das calças apertadas e de acessórios como os óculos pequenos e arredondados. Mas a força de sua atuação está mais na atitude do que na aparência, já que Kilmer encarna Morrison com muita intensidade, mostrando força no palco (o que é essencial, já que é justamente sua performance hipnótica no palco chama a atenção de uma gravadora e dá início ao sucesso avassalador da banda) e um comportamento excêntrico fora dele, causado pelo excesso de uso de drogas e álcool.

Ousado e criativo, Jim Morrison é uma verdadeira força da natureza, capaz de escrever a mais bela poesia e de estragar um almoço entre amigos com a mesma facilidade, num comportamento imprevisível que Kilmer demonstra muito bem em momentos interessantes como uma entrevista para a imprensa britânica, que evidencia a dualidade de sua mente genial e conturbada. Traumatizado por lembranças da infância que inspiraram a criação da canção Riders on the Storm, Morrison precisa se sentir admirado, como fica evidente nas noites de sexo com Patricia e Pam, mas a origem de seu trauma jamais fica muito clara, o que nos permite interpretar que aqueles índios eram apenas um símbolo dos demônios internos dele.

Vivendo ao seu lado, a carismática Meg Ryan compõe uma Pam alegre e espirituosa, mas que nem por isso deixa de ter suas crises provocadas pelos excessos da vida do casal – que, aliás, são responsáveis pelas brigas homéricas entre eles. Também obrigados a aguentar os excessos de seu frontman, os outros integrantes da banda são interpretados de maneira discreta por MacLachlan, Whaley e Dillon, enquanto Kathleen Quinlan se encarrega de dar vida à jornalista Patricia Kennealy, que rouba a atenção de Morrison por um período, e Michael Madsen diverte-se na pele do amigo do vocalista Tom Baker. Mas o fato é que todos empalidecem diante da presença marcante de Kilmer. Finalmente, vale citar a participação rápida do diretor Oliver Sonte como o professor de cinema da UCLA.

Tons douradosPerformance hipnóticaPam alegre e espirituosaAstro decadente e incapaz de enxergar isto, Jim Morrison para um show para ofender o público, cria o caos ao incitar a plateia contra a polícia e quase é preso novamente, mas ao começar um dos grandes hits da banda, a velha energia está lá, intacta, como acontece com as grandes bandas da história do rock – e Stone capta isto com precisão com sua câmera agitada que nos coloca no meio da multidão que pula ensandecida acompanhando Morrison pelo local. Neste terceiro ato, aliás, é impressionante notar também a transformação física de Val Kilmer, que passa do astro jovem e magro do início para o barrigudo e decadente vocalista do ato final.

Artista de alto nível, Jim Morrison foi um verdadeiro gênio, um dos grandes nomes da história da música, assim como o “The Doors” foi uma das bandas mais respeitáveis do rock, com sua discografia repleta de canções excepcionais. Mas isto todos nós já sabemos. A pergunta que fica ao final de “The Doors” é: e o homem? Quem foi verdadeiramente Jim Morrison? Quais eram seus anseios, suas angústias, suas dúvidas? As respostas que temos após mais de duas horas de projeção são muito poucas, o que deixa a sensação de que o longa foi dirigido por um fã, que não ousou desconstruir o mito e investigar a fundo o lado falho e humano do quase intocável ídolo do rock.

Mesmo assim, sua energia e a sensacional atuação de Val Kilmer são suficientes para agradar. Mas poderíamos ter recebido algo mais. E esta é uma sensação que nós jamais temos ao ouvir as músicas da banda e que, certamente, as pessoas jamais sentiam ao comparecer aos shows deles. Morrison e seus companheiros entregavam tudo no palco. Infelizmente, Stone não fez o mesmo.

The Doors foto 2Texto publicado em 10 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira