CIDADE DOS ANJOS (1998)

(City of Angels)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #183

Dirigido por Brad Silberling.

Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Dennis Franz, Andre Braugher, Colm Feore, Rhonda Dotson, Sarah Dampf, Joanna Merlin, Robin Bartlett e Nigel Gibbs.

Roteiro: Dana Stevens, baseado em roteiro de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger para o filme “Asas do Desejo / Der Himmel über Berlin.

Produção: Charles Roven e Dawn Steel.

Cidade dos Anjos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Versão americana inspirada na obra-prima alemã “Asas do Desejo”, “Cidade dos Anjos” não consegue tocar o espectador com a mesma sensibilidade do original. No entanto, avaliar o filme de Brad Silberling sob este prisma seria injusto, já que, mesmo trabalhando dentro do modelo tradicional de Hollywood, o diretor consegue um excelente resultado, conquistando o espectador através da beleza de suas imagens e da força da narrativa. Se não sentimos o drama do protagonista com a mesma intensidade, também não podemos dizer que não somos envolvidos pela trajetória dele.

Como dito, a roteirista Dana Stevens inspirou-se no trabalho de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger em “Asas do Desejo” (“Der Himmel über Berlin”, em alemão) para narrar à história de Seth (Nicolas Cage), um anjo enviado para ajudar aqueles que estão prestes a morrer que acaba se apaixonando por Maggie (Meg Ryan), uma cirurgiã centrada e racional que passa a questionar o próprio trabalho após perder um paciente numa cirurgia. Na medida em que Maggie abre espaço para novas interpretações sobre a vida e a morte, Seth sente que pode se aproximar dela e abre caminho para que um improvável relacionamento se concretize.

Estabelecendo desde o início a natureza angelical de seu protagonista, o diretor Brad Silberling faz questão de nos apresentar também aos benefícios daquela condição especial, trazendo Seth e seu amigo Cassiel (Andre Braugher, em boa atuação) sentados em cima de uma placa admirando o visual e falando sobre as coisas que eles não conseguem sentir. Assim, desde cedo à narrativa já evidencia o dilema que atormentará Seth: manter-se na privilegiada condição de anjo ou entregar-se aos prazeres e perigos da vida humana. Obviamente, nem o protagonista nem o espectador sabem que ele poderá ter esta escolha, já que somente depois que o divertido Nathaniel Messinger entra em cena é que esta alternativa será apresentada ao personagem. Completamente à vontade no papel, Dennis Franz interpreta Messinger com competência, conferindo graça ao anjo glutão que decidiu deixar a eternidade para trás para sentir os encantos e as dores da vida humana, servindo também como uma espécie de guia espiritual de Seth.

Seth e seu amigo CassielDivertido Nathaniel MessingerAnjo glutãoPara ampliar esta experiência sensorial tão desejada por Seth, Silberling insere planos que realçam as atividades corriqueiras que tornam a nossa condição humana tão especial. Assim, prazeres simples como comer uma pera ou sentir o toque de outra pessoa ganham uma nova dimensão na câmera do diretor e tornam-se objetos de desejo para Seth, que revela sua curiosidade num diálogo com o amigo Cassiel e em seu fascínio diante da habilidade do escritor Ernest Hemingway em descrever sensações que ele jamais pôde sentir. Ele queria sentir o vento, sentir o mar, sentir a dor, sentir o calor… Enfim, Seth queria sentir.

Através de lindos travellings que vagam pela cidade acompanhando pessoas indo para o trabalho, passeando e até mesmo a polícia atuando, o diretor realça a vida acontecendo naturalmente enquanto os anjos perambulam pelo local. Auxiliado pela fotografia naturalista de John Seale, o diretor evidencia o contraste entre o realismo do ambiente hospitalar e o encanto de instantes deslumbrantes como quando os anjos se reúnem para acompanhar o pôr do sol e as lindas sequências em que eles sentam em prédios ou objetos altos para olhar a cidade, nos presenteando com planos plasticamente belíssimos. Da mesma forma, o diretor trabalha bem na construção da aura sobrenatural que ronda os anjos, especialmente em planos que trazem todos olhando para o mesmo lugar, como quando Seth e Maggie deixam a Biblioteca juntos pela primeira vez. Esta sensação é reforçada ainda pela ousada escolha da figurinista Shay Cunliffe, que subverte o clichê e traz os anjos vestidos de preto ao invés do clássico branco.

Comer uma peraAnjos se reúnem para acompanhar o pôr do solTodos olhando para o mesmo lugarColaborando no contraste entre o realismo do hospital e a aura mágica que ronda os anjos, a trilha sonora de Gabriel Yared traz composições instrumentais dissonantes, intercaladas com belas canções como a linda “Angel” e o mega sucesso “Iris”, do grupo The Goo Goo Dolls. Assim, Silberling e sua equipe conseguem criar a atmosfera desejada em “Cidade dos Anjos”, fisgando o espectador pra dentro de uma narrativa clássica sobre o amor impossível. Além disso, a evolução lenta do romance ajuda a desenvolver melhor os personagens e seus dilemas, o que é mérito também da montagem de Lynzee Klingman, que investe o tempo necessário na construção do clima que permitirá a aproximação entre Seth e Maggie.

Desta forma, Silberling pode trabalhar na construção dos personagens com calma, nos aproximando mais deles através do uso constante do close-up e criando a empatia necessária para que o espectador torça pelo sucesso do romance. Observe, por exemplo, como a tensão durante o momento crítico da primeira cirurgia, a tristeza da família após Maggie dar a notícia do falecimento do paciente e a reação sensível dela soam extremamente realistas, tocando o espectador e fazendo com que os questionamentos da cirurgiã soem convincentes. Ao ver aquela médica numa posição de fragilidade e angústia, a empatia da plateia é quase imediata. Obviamente, o talento de Meg Ryan é essencial nesta composição da personagem. Cada vez menos confiante e questionando sua visão cética sobre a vida, Maggie lentamente cede espaço para o conflito interno que a atormenta, abrindo espaço também para a aproximação de Seth.

Momento crítico da primeira cirurgiaFragilidade e angústiaExpressão tranquilaAdotando uma expressão tranquila, Nicolas Cage transmite a paz que se espera de um anjo, numa atuação minimalista e bastante contida que foge de seu estilo tradicional e prova sua qualidade como ator. Através da expressão corporal e da voz contida, Cage ilustra muito bem a aflição de Seth diante da impossibilidade de viver aquele amor, assim como sua dúvida após descobrir que pode mudar sua condição. Captando muito bem as expressões dos atores, Silberling aproveita também para rechear a narrativa com planos simbólicos, como quando Maggie beija o namorado em sua casa e o diretor movimenta a câmera em direção a Seth, que se encontra atrás das grades da cozinha dela, num plano que ilustra o instante em que ele percebe que está apaixonado e, portanto, “aprisionado por ela”.

Em certo momento, o dilema de Seth parece simples de ser resolvido, mas basta refletir um pouco a respeito para compreender a complexidade daquela mudança drástica, já que ele deixaria para trás o conforto e a segurança de ser anjo para arriscar-se numa vida completamente nova, desconhecida e, o que é pior, finita. E é justamente neste sacrifício que reside à força do romance de “Cidade dos Anjos”. Quando Seth finalmente cria coragem e revela a verdade pra ela, chegamos ao esperado conflito entre o casal. Embaladas pela trilha melancólica, as cenas seguintes afundam os personagens na noite chuvosa, num visual obscuro que reflete a tristeza de ambos. E então, Maggie afirma que não quer mais ver Seth, concretizando o clichê do conflito e encaminhando a narrativa para o esperado final feliz. A partir daí, já esperamos que Seth desista da vida de anjo e corra atrás dela, o que realmente acontece, numa cena linda visualmente em que ele literalmente “cai” para tornar-se humano.

Atrás das gradesNoite chuvosaEle literalmente caiApós passar pelas esperadas dificuldades de alguém que acaba de ter contato com a sensibilidade humana, Seth finalmente reencontra Maggie e começa a viver o tão idealizado romance – e a empolgação de Cage, agora claramente mais agitado e vibrante, ilustra muito bem a excitação do personagem neste novo cenário. E é justamente aí que “Cidade dos Sonhos” começa a fugir do clichê básico do gênero, apesar da tradicional cena de sexo na frente da lareira. Em um dos elegantes travellings de Silberling, acompanhamos Maggie pedalando sua bicicleta pelas montanhas feliz da vida, acompanhada por uma trilha sonora suave e em seguida pela câmera lenta que torna a sequência ainda mais bela. Só que, de repente, a expressão no rosto dela indica que algo saiu errado e o caminhão que surge à sua frente traz o acidente que levará Maggie à morte e a plateia ao choque. O final feliz está descartado e o plongè que diminui o destruído Seth diante do túmulo dela, a chuva e a trilha triste só realçam a tragédia.

Tradicional cena na frente da lareiraMaggie pedalando pelas montanhasExpressão no rosto dela indica que algo saiu erradoPra terminar de arrancar as últimas gotas de lágrima de parte da plateia, Seth afirma que “preferia tocá-la, beijá-la e senti-la apenas uma vez do que passar a eternidade sem fazê-lo”. E se o espectador concordar com ele, o sucesso de “Cidade dos Anjos” está garantido.

Apesar de seguir clichês básicos dos romances, Silberling tem coragem de fugir do esperado final feliz e apostar num desfecho ironicamente trágico, que nos faz refletir sobre a efemeridade da vida humana e a nossa impotência diante dela. Enriquecido ainda por atuações competentes e por um visual marcante, “Cidade dos Anjos” confirma-se como um romance eficiente e belo.

Cidade dos Anjos foto 2Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

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DESPEDIDA EM LAS VEGAS (1995)

(Leaving Las Vegas)

 

Videoteca do Beto #126

Dirigido por Mike Figgis.

Elenco: Nicolas Cage, Elisabeth Shue, Julian Sands, Richard Lewis, Steven Weber, Kim Adams, Emily Procter e Valeria Golino.

Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O’Brien.

Produção: Lila Cazès e Annie Stewart.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Desde os primeiros minutos de “Despedida em Las Vegas” o espectador é envolvido por sua atmosfera melancólica, que reflete a triste e crítica situação de seu protagonista, interpretado brilhantemente por Nicolas Cage. Tratando o alcoolismo com seriedade, o longa dirigido por Mike Figgis acerta ao não julgar o viciado, ao mesmo tempo em que não alivia ao mostrar as sérias conseqüências de seu vicio. Completado ainda por uma trilha sonora belíssima e pela ótima atuação de Elisabeth Shue, este filme singelo nos deixa um gosto amargo na boca e uma mensagem forte para reflexão.

Escrito pelo próprio Mike Figgis, o longa esteve perto de sequer ser realizado, porque John O’Brien, o autor do livro em que é baseado, suicidou-se apenas dois meses após o lançamento de sua obra. Esta informação de bastidores é vital para compreender o clima que permeia toda a projeção. Estamos falando da obra de um homem que sabia estar próximo do fim (ou pelo menos tinha esta sensação) e Figgis é extremamente competente na transposição deste sentimento para a tela grande. O resultado é um longa eficiente, tocante e que nos atinge como um soco ao mostrar o viciado como alguém doente, sem qualquer capacidade de controle sobre seu vicio. Ao virarmos as costas para estas pessoas, estamos apenas empurrando-as um pouco mais pra perto do abismo.

Em “Despedida em Las Vegas”, acompanhamos Ben (Nicolas Cage), um roteirista alcoólatra abandonado por esposa e filho que, após ser demitido, decide mudar-se para Las Vegas e beber até morrer. Lá, ele conhece Sera (Elisabeth Shue), uma prostituta que compreende sua situação e lhe abre as portas de sua casa. Juntos, eles viverão momentos marcantes, porém ambos sabem que o processo de deterioração de Ben já é irreversível. “Eu não lembro se comecei a beber porque minha mulher me deixou ou se minha mulher me deixou porque comecei a beber”, ele diz em certo momento. De fato, o roteiro jamais explica porque sua esposa o abandonou, mas a foto de sua família deixada na fogueira antes de sua partida indica um passado feliz. Só que este passado é deixado para trás, queimando na fogueira ou largado dentro de sacos de lixo, enquanto Ben viaja para Las Vegas.

O sucesso do trabalho de Figgis passa por sua direção competente, repleta de closes que realçam as fortes atuações de seus protagonistas. Detalhista, o diretor se preocupou até mesmo em compor a melancólica trilha sonora, repleta de jazz e que traz ainda duas lindas canções interpretadas por Sting, nos mergulhando ainda mais no triste mundo de Ben. O uso constante da câmera lenta e o predomínio de cenas noturnas colaboram na criação desta atmosfera sufocante que, associada ao ritmo corretamente desacelerado da montagem de John Smith, reflete as sensações daquele homem que lentamente se suicida. Além disto, a excelente fotografia de Declan Quinn abusa dos tons de vermelho, refletindo o inferno astral daquelas duas pessoas tristes, aproveitando também as luzes da noite de Las Vegas, que carregam alguma nostalgia e ilustram a melancolia que predomina a narrativa. E novamente Figgis confirma sua competência captando tudo isto com precisão através de sua câmera.

Talvez a imagem que mais apareça em “Despedida em Las Vegas” seja a de Ben com uma garrafa na mão, o que, para quem não conhece a trágica conseqüência do vicio, pode soar exagerado. Não é. Figgis retrata com precisão a necessidade constante que o alcoólatra tem de estar bebendo. Só que todo este cuidado do diretor poderia ser prejudicado caso o ator principal não fosse alguém tão talentoso. Em atuação excepcional, Nicolas Cage retrata um alcoólatra com precisão, através do olhar desfocado, das tremedeiras e das crises constantes que o levam a beber sempre mais e mais, acertando em praticamente tudo, desde os momentos que pedem uma atuação mais forte, como a impressionante crise no cassino, seguida pela tremedeira enquanto ele se arrasta até a geladeira, até os momentos minimalistas, como quando Ben, de costas, tropeça levemente na escada rolante, mostrando a falta de reflexos provocada por seu constante estado alcoolizado. Sua mente conturbada é refletida até mesmo na pilha de papéis em sua mesa de trabalho (direção de arte de Barry Kingston) e ele tem consciência disto, tanto que mal reage à sua demissão – em outro momento comovente da atuação de Cage.

Esta grande atuação encontra o contraponto ideal no excelente desempenho de Elisabeth Shue, que compõe uma Sera igualmente solitária e triste, que parece compreender mais o drama de Ben do que ele compreende o dela. A atriz também entrega uma atuação caprichada, que se preocupa com pequenos detalhes, como quando Sera evita olhar diretamente para a câmera enquanto fala sobre sua performance sexual ou em sua comovente expressão quando pede para Ben mudar pra casa dela. Cage e Shue ilustram a tristeza dos personagens em seus semblantes carregados, algo que Figgis capta muito bem empregando constantemente o citado close-up. Em certo momento, Ben diz que “mais cedo ou mais tarde vamos transar” e Sera responde: “seja lá o que isto quer dizer”. O sexo era o que menos importava naquela relação e isto fica evidente quando Ben pede para Sera parar o sexo oral e apenas conversar, derrubando uma lágrima dos olhos emocionados dela, em outra cena linda, embalada pela excelente trilha. Eles precisavam muito mais de companhia e compreensão do que de prazer.

Esta falta de apetite sexual, entretanto, não quer dizer desinteresse, refletindo apenas o devastado estado emocional dele. Repare, por exemplo, como Ben mal consegue segurar o copo em um jantar, mas se antecipa ao pegar o isqueiro para Sera antes que ela perceba, mostrando que presta atenção nela. Eles se importavam muito um com o outro. Mas este cuidado começa a se transformar em preocupação quando Ben passa a se incomodar com a profissão dela. Sera também já não estava totalmente confortável com a situação dele, apesar de ter aceitado jamais pedir que ele parasse de beber. Também fica claro que Sera deseja Ben, por isso, numa tentativa desesperada, ela derrama Vodka em seu corpo e tenta animá-lo, o que funciona, pelo menos até que ele tropece, quebre uma mesa de vidro, se corte e destrua o clima. Ele não consegue transar com ela, vaga pela casa com uma garrafa na mão e mais parece um fantasma. Por isso, quando ela volta pra casa e o encontra com outra prostituta, a dor é forte. Para ela, esta é a pior traição possível, mas no fundo ela também sabe que Ben é incapaz de perceber a gravidade de sua atitude. Triste, ela sai de casa, aceita fazer programa com alguns garotos e acaba violentada, numa cena de forte impacto. O choque é inevitável e ela o expulsa de casa, mas logo o arrependimento vem.

Caminhamos então para o anunciado final de “Despedida em Las Vegas”. O reencontro do infeliz casal, num quarto escuro e em silencio, é banhado em melancolia e nos leva à morte dele. Cage e Shue novamente dão um show à parte e encerram suas atuações com perfeição. As palavras finais dela resumem bem a mensagem da narrativa: ambos não esperavam que o outro mudasse, pois eles sabiam que não tinham muito tempo e, por isso, aceitavam o outro pelo que era. E assim como Sera, o espectador se sente incapaz durante toda a projeção, vendo aquele homem caminhar para a morte sem poder fazer nada a respeito.

Retratando com fidelidade a vida de um alcoólatra em fase final, “Despedida em Las Vegas” é um filme difícil, triste, mas extremamente competente dentro do que se propõe a fazer. Se você não se sentir tocado e repensar o vício após esta experiência, é melhor procurar um médico, pois talvez não tenha um coração batendo aí dentro. Não devemos tolerar o vício e muito menos subestimá-lo, mas compreender a situação do viciado é o primeiro passo para ajudá-lo.

Texto publicado em 06 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

VIVENDO NO LIMITE (1999)

(Bringing Out the Dead)

 

Filmes em Geral #40

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore, Marc Anthony, Nestor Serrano, Cynthia Roman e Queen Latifah.

Roteiro: Paul Schrader, baseado em livro de Joe Connelly.

Produção: Barbara De Fina e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida noturna da cidade de Nova York, repleta de bêbados, drogados, prostitutas, tiros e todo tipo de situação desagradável, é retratada com fidelidade neste “Vivendo no Limite”, que por mais eficiente que seja, jamais alcança a força e o impacto das grandes obras de Martin Scorsese. Nem por isso, no entanto, podemos afirmar que se trata de um filme ruim, muito pelo contrário. Mas o fato é que o longa não apresenta o nível de excelência de “Taxi Driver” (que também abordava um homem atormentado pelo que via nas ruas de Nova York) ou “Touro Indomável” e marca o início de uma fase menos pungente do diretor, que ainda assim conseguiu realizar grandes filmes como “O Aviador” e “A Ilha do Medo”.

O paramédico Frank Pierce (Nicolas Cage) passa as noites rodando a cidade de Nova York dentro de sua ambulância, cumprindo a estressante rotina dos plantões noturnos, que consiste em tentativas seguidas de salvar os diversos tipos de pessoas que perambulam pela agitada madrugada da cidade norte-americana. Após a frustrada tentativa de salvar uma garota de rua (Cynthia Roman), Frank passa a ter alucinações com os pacientes que não conseguiu salvar e se vê muito perto de sofrer um verdadeiro colapso nervoso diante de sua rotina nada agradável.

Logo nos primeiros minutos de “Vivendo no Limite”, podemos notar o estilo marcante de Martin Scorsese, através do tenso plano-seqüência que nos leva pra dentro de um apartamento, onde Frank encontrará uma vítima de infarto. O desespero da família ao redor daquele homem praticamente pode ser sentido pelo espectador graças à câmera visceral de Scorsese. Entre estes familiares desesperados está Mary Burke (Patricia Arquette), a filha da vítima, que será a responsável pela mudança de comportamento de Frank. Scorsese também volta a apresentar seus tradicionais planos ousados, como o retrovisor, a sirene e o capô da ambulância, entre outros planos nada convencionais. O diretor também acerta a mão na condução dos momentos mais agressivos da narrativa, como o realista acidente sofrido por Frank e um parceiro com a ambulância. Finalmente, vale destacar outra seqüência dirigida com perfeição, quando Frank entra na companhia Daylight em câmera lenta, pisando no sangue esparramado pelo chão até chegar à moça morta e, finalmente, ao traficante preso na grade. As luzes da cidade ao fundo e os fogos de artifício queimando fazem do momento uma espécie de “poesia da cidade grande”, quebrada subitamente pela queda de Frank e do traficante, que ficam pendurados na grade.

O roteiro, escrito por Paul Schrader (baseado em livro de Joe Connelly), é carregado da tensão esperada neste tipo de profissão pouco tranqüila. Mas felizmente, Schrader sabe os momentos corretos de inserir o alivio cômico, através do bêbado que constantemente é atendido por Frank, por exemplo, quebrando a tensão e tornando a experiência mais suportável para o espectador. Schrader toca ainda, de forma curiosa, no complicado tema do conflito entre a fé e a razão, através de uma conversa informal de Frank e seu religioso parceiro Marcus (Ving Rhames) sobre uma jovem irlandesa que tentou o suicídio (“Foi o vento!” alega Frank, somente para ouvir Marcus afirmar que “Foi Jesus!”). A vida dura destes profissionais, que precisam de muita coragem e estômago forte para seguir em suas carreiras, é refletida através da fotografia escura do ótimo Robert Richardson, que em diversos momentos mistura a escuridão das ruas de Nova York com a frenética luz vermelha das sirenes piscando, aumentando a sensação de incomodo no espectador. Richardson e Scorsese utilizam ainda um velho artifício cinematográfico para melhorar a visão noturna, freqüentemente molhando as ruas da cidade, pois a água facilita a filmagem nesta fase do dia. Já a montagem dinâmica da colaboradora tradicional de Scorsese, Thelma Schoonmaker, aumenta o clima de urgência do longa, refletindo o constante estado de alerta daqueles profissionais. Repare como em diversos momentos a imagem é acelerada (uma decisão em conjunto do diretor e da montadora), refletindo a euforia de Frank, provocada pela bebida que ele toma constantemente, na busca de tentar sobreviver a mais uma noite e esquecer os traumas do passado. Scorsese reflete até mesmo nos planos o estado mental do personagem, a beira de um colapso nervoso, como quando enquadra a ambulância em alta velocidade de ponta-cabeça e de lado na tela, sempre embalando a seqüência com a trilha sonora agitada de Elmer Bernstein. Bernstein, aliás, que alterna muito bem entre o tom agitado da frenética profissão de Frank com o som tradicional da noite nova-iorquina, como no inicio do longa onde a trilha soul se mistura ao som da sirene da ambulância.

É evidente, portanto, que Frank é alguém claramente afetado pela vida que leva, sofrendo constantemente com problemas psicológicos, provocados por traumas do passado (em especial a garota Rose, primeira vítima que ele não conseguiu salvar). Nicolas Cage demonstra bem o sofrimento do personagem, através do olhar pesado, sempre baixo e com fortes olheiras, e da oscilação no tom de voz, externando uma instabilidade típica de quem enfrenta problemas e não suporta o peso que tem de carregar. Repare como o ator demonstra bem a revolta de Frank ao saber que não será demitido, socando a mesa e gritando, o que contrasta com a voz tranqüila que ele utiliza em outros momentos da narrativa. “Não salvo vidas. Sou testemunha na hora da morte deles”, diz Frank, refletindo sua descrença, que caminha em direção oposta ao que exige sua complicada profissão. Cage demonstra bem o cansaço de Frank, por exemplo, quando este toma uma pílula para relaxar (e a trilha sonora neste momento leva o espectador junto na viagem), explodindo em seguida devido às alucinações com Rose. Frank parte então com Mary nos braços e, no apartamento dela, se sente muito melhor, algo que se reflete no próprio visual do apartamento, muito mais claro e limpo (direção de arte de Robert Guerra), e na fotografia, menos sombria e destacando a cor branca. Frank diz então que acha que salvou alguém, mas não sabe quem. Podemos entender que ele salvou Mary, mas prefiro pensar que ele salvou a si próprio. Mas o grande momento da atuação de Cage acontece quando Frank, já cheio daquela vida, explode diante de um drogado suicida, dizendo que com tanta gente querendo viver, era um desperdício salvá-lo (“Se mate!”) e provocando a fuga desesperada do cidadão. No restante do elenco, vale destacar a boa atuação de John Goodman como Larry, um dos companheiros de Frank, em especial no momento em que eles atendem o bêbado no meio da rua (repare a cara de enjôo de Goodman), a divertida participação de Ving Rhames na pele do religioso Marcus, principalmente na engraçada cena em que “ressuscita” um jovem (e neste momento, Scorsese o filma por cima, como se fosse a visão divina daquele momento) e a contida participação de Patricia Arquette, bastante coerente com a sofrida Mary Burke.

Obviamente, não faltam momentos tensos em “Vivendo no Limite”, como o marcante atendimento de emergência a uma mulher grávida de gêmeos, que complica ainda mais a situação de Frank quando este, seguindo o seu carma, não consegue salvar um dos bebês, ao passo em que Marcus consegue salvar o outro e se sente renovado por isto. Mas a atitude final de Frank, provocando a morte de um paciente em estado vegetal (e abrindo espaço para discussões intermináveis a respeito da eutanásia), curiosamente o liberta de parte do seu sofrimento. E o plano final, com Frank deitado no colo de Mary até o amanhecer, mostra que finalmente ele encontrou alguma paz, ainda que esta se resuma aqueles minutos de consolo no colo de outra pessoa.

Em certo momento, a mensagem de “Vivendo no Limite” é resumida nas palavras de Frank. “Estamos todos morrendo”, diz ele, e o longa de Scorsese mostra a morte de diversas maneiras. Com algumas das principais marcas do diretor, como a violência, a culpa e um personagem central atormentado, o filme alcança um resultado agradável, mas não consegue ir muito além.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira