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STAR WARS EPISÓDIO I: A AMEAÇA FANTASMA (1999)

30 setembro, 2016

(Star Wars: Episode I – The Phantom Menace)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #232

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, voz de Ahmed Best, Ian McDiarmid, Oliver Ford Davies, Hugh Quarshie, Keira Knightley, Pernilla August, voz de Anthony Daniels, voz de Kenny Baker, voz de Frank Oz, Samuel L. Jackson, Ray Park, Silas Carson, Terence Stamp, voz de Andy Secombe, voz de Brian Blessed e voz de Lewis Macleod.

Roteiro: George Lucas.

Produção: Rick McCallum.

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o famoso letreiro começou a subir a tela escura dos cinemas 16 anos depois de “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” encerrar a primeira trilogia a empolgação foi inevitável para os milhões de fãs espalhados pelo mundo. Afinal de contas, a saga criada por George Lucas é um dos maiores símbolos do fascínio que a sétima arte pode provocar nas pessoas. No entanto, com o desenrolar do longa a alta expectativa se transforma e, nos casos mais graves, acaba revertendo-se em decepção, ainda que “A Ameaça Fantasma” cumpra seu papel principal e prepare o terreno para os longas seguintes, o que é pouco para transformá-lo num grande filme, mas o suficiente para salvá-lo.

Novamente escrito por George Lucas, que também retornava a direção, “Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma” adota a estrutura de prequel para nos levar ao início da história contada nos três filmes lançados anteriormente, quando a Federação Comercial bloqueia as rotas para o planeta Naboo e os Jedis Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) são enviados pela rainha Amidala (Natalie Portman) para fazer um acordo, mas o plano não sai como previsto e eles acabam se refugiando no distante planeta Tatooine, onde descobrem um garoto especial que parece ser o escolhido para trazer o equilíbrio para a Força. Seu nome é Anakin Skywalker (Jake Lloyd).

Analisando friamente, a missão de “A Ameaça Fantasma” não era nada fácil, já que, por mais inspirada que fosse a abordagem de George Lucas, resgatar uma saga adorada por milhões de pessoas obviamente poderia provocar grandes decepções, tamanha a expectativa criada tantos anos depois. No entanto, inspiração não é exatamente a palavra mais adequada para descrever o roteiro de Lucas, que constrói uma narrativa rasa e aposta todas as fichas na parte visual para ter sucesso. Ainda assim, o longa traz momentos bem interessantes ao nos permitir conhecer a origem de personagens tão queridos como C-3PO (voz de Anthony Daniels), R2D2 (voz de Kenny Baker) e o próprio Obi-Wan, além de pavimentar o caminho da construção do arco dramático de um dos personagens mais icônicos da história do cinema.

Outro aspecto interessante do roteiro (e de toda a saga, aliás) são as articulações políticas e seu impacto na sociedade, que escancaram a alegoria que “Star Wars” claramente representa e que muitos fãs parecem ignorar. Por outro lado, o desnecessário conceito dos midi-chlorians é bem questionável, soando como um recurso de última hora de Lucas para justificar certas escolhas, numa espécie de comprovação científica de algo intangível, como a indicação de que Anakin teria potencial para tornar-se um Jedi mais poderoso até do que Yoda, o que também justificaria a relutância dos Jedis em treiná-lo e desenvolver sua capacidade, percebendo que todo este poder poderia se transformar em algo trágico se canalizado de forma errada.

Para delírio dos fãs, aliás, os Jedis impõem respeito logo na abertura de “A Ameaça Fantasma”, desfilando golpes enquanto fogem do planeta Naboo. Sempre sereno e transmitindo a habitual virilidade, Liam Neeson encarna Qui-Gon com naturalidade e forte presença na tela, o que torna sua morte ainda mais surpreendente, especialmente por representar o fim da linha para um ator de seu calibre na saga, mas ao menos a cena serve para confirmar que Obi-Wan está pronto, o que teria enorme importância nos outros episódios, especialmente por que caberia a ele a missão de treinar o promissor Anakin. E por falar em Obi-Wan, Ewan McGregor também se sai bem como o jovem Jedi, assumindo um papel de grande responsabilidade sem sentir o enorme peso do personagem que vive e criando empatia tanto com Qui-Gon quanto com Anakin.

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Mesmo criança, Anakin já desponta como alguém confiante e destemido, muito também por conta da boa atuação de Jake Lloyd. À vontade no papel de um verdadeiro mito, Lloyd consegue transmitir características importantes na formação da personalidade de Anakin, com suas expressões marcantes e seu jeito questionador aliando-se à coragem e a sua curiosidade e sede de aprender. Obviamente, uma personalidade tão forte poderia ser trabalhada de forma positiva ou negativa e o restante da saga se encarregaria de demonstrar isso. No entanto, sua participação decisiva no confronto espacial no clímax da narrativa realça a importância do personagem e o status de lenda que ele alcançaria muito em breve, para o bem e para o mal. Neste sentido, é louvável que Lloyd consiga transmitir empatia mesmo vivendo uma espécie de embrião de um dos maiores vilões da história. E assim como ocorre em outros momentos da saga, Lucas insere pitadas de conceitos inspirados no cristianismo ao trazer a mãe de Anakin afirmando que ele não tem pai, numa clara alusão ao messias.

Entre os destaques do elenco, vale citar ainda a amável Natalie Portman que empresta doçura e carisma a Padmé, especialmente quando conversa com o menino Anakin, contrastando com suas rígidas expressões na pele da suposta rainha Amidala – e a revelação de que Padmé na realidade é a rainha não surpreende devido a maneira pouco cuidadosa que Lucas trabalha a questão e pela forma que ela se comporta diante de Anakin, indicando a reviravolta através de diálogos e gestos que demonstram sua autoridade e sabedoria. Ian McDiarmid também transmite autoridade em seu olhar e suas expressões faciais na pele de Palpatine, que articula sua indicação para determinado cargo importante e evidencia seu poder de persuasão que seria crucial nos outros episódios – repare também como quando os Jedis comentam que os Siths sempre surgem em dois e questionam se quem teria sido destruído seria o mestre ou o aprendiz a câmera imediatamente foca em Palpatine, sugerindo sua conexão com eles.

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Diante de tantos personagens interessantes é realmente uma pena que Lucas tenha apostado novamente no desnecessário alívio cômico. Assim, logo no início somos apresentados ao personagem que quase arruína toda a experiência de assistir “A Ameaça Fantasma”. Com sua voz irritante e seu comportamento extremamente infantil, Jar Jar Binks (voz de Ahmed Best) não agrega em momento algum do longa, incomodando constantemente o espectador pela quebra de ritmo e de clima que suas intervenções representam. Um exemplo claro ocorre na conversa durante um jantar na casa de Anakin sobre a situação dos escravos e o sonho do jovem garoto de libertar aquele povo, repentinamente interrompida pelo comportamento de Jar Jar Binks, o que supostamente era para ser engraçado, mas acaba soando totalmente deslocado e sem propósito.

No entanto, se a falta de criatividade do roteiro e a presença de Jar Jar Binks não conseguem arruinar a experiência, muito se deve obviamente à força dos personagens e do universo criado por Lucas nos longas anteriores, mas é inegável também que a qualidade visual de “A Ameaça Fantasma” contribui bastante para salvá-lo. Particularmente preocupado em apresentar ao mundo as maravilhas da ILM, Lucas aproveita todo o aparato tecnológico que tem a disposição para explorar os planetas imaginados pelo design de produção de Gavin Bocquet e que ganham vida com os excepcionais efeitos visuais, nos transportando para aqueles locais e criando sequências visualmente marcantes, que chamam a atenção também pelo contraste entre os tons azulados adotados pelo diretor de fotografia David Tattersall no espaço e os tons quentes no senado e no árido planeta Tatooine, que por sua vez destoam do festival de cores que dominam Naboo, graças também aos figurinos escolhidos por Trisha Biggar, que mantém o padrão mais sóbrio na capital, apostando em roupas mais exóticas em Naboo e em roupas mais velhas e desgastadas em Tatooine, demonstrando as diferenças entre eles. Este contraste também se manifesta nas casas simples que dominam o deserto de Tatooine e nos enormes prédios que formam o skyline da capital, refletindo bem as desiguais condições de vida impostas pelo Império e que dão margem para diversas análises sócio-econômicas e políticas da alegoria que “Star Wars” representa.

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Colaborando nesta ambientação, o igualmente competente design de som se destaca tanto nos momentos de forte impacto como explosões e tiroteios quanto pela criatividade e atenção aos detalhes que compõem os pequenos e sensíveis efeitos sonoros criados para equipamentos como os utilizados na corrida e personagens como a dupla Sebulba (voz de Lewis Macleod) e Watto (voz de Andy Secombe) – repare o som da batida das asas dele, por exemplo. Já a trilha sonora do mestre John Williams nos lembra dos longas anteriores ao marcar presença constante, sublinhando diversos momentos com precisão e conferindo uma aura épica a batalha final. Da mesma forma, a montagem da dupla Ben Burtt e Paul Martin Smith homenageia a primeira trilogia ao utilizar fades, sendo muito importante também em momentos chave como a batalha onde alterna entre o espaço, Naboo e o “truelo” de sabres de luz num ritmo sempre interessante ou a empolgante corrida na qual alterna entre os diversos competidores e a plateia, neste que certamente é um dos momentos mais inspirados da direção de Lucas.

Presenteando os fãs com alguns momentos marcantes como o citado “truelo” de sabres de luz entre dois Jedis e o lorde Sith Darth Maul vivido de maneira discreta por Ray Park, Lucas se destaca especialmente na batalha final, nem tanto pelo conflito ocorrido em terra firme, mas especialmente pela enérgica batalha espacial, repleta de movimentos de câmera interessantes que nos jogam pra dentro do confronto – e repare como nem mesmo no momento mais tenso da narrativa Jar Jar Binks dá sossego ao espectador, com suas gags nada inspiradas que só servem para desconcentrar a plateia. Novamente, Lucas encerra a narrativa com uma festa, evidenciando que a estrutura da nova trilogia traria similaridades com a anterior (já que o episódio IV também terminava com uma festa) e realçando sua preocupação em jogar o espectador pra fora da sala de projeção com a sensação de alegria, ainda que neste caso ela possa soar falsa e não resistir ao tempo – e felizmente este desfecho artificialmente alegre não se repetiria, cedendo espaço para um tom mais sombrio que lentamente dominaria a nova trilogia.

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Apesar de ter seus bons momentos, “A Ameaça Fantasma” é claramente prejudicado pelo erro de tom na abordagem de Lucas, especialmente quando Jar Jar Binks entra em cena com seu humor descabido e nada inspirado. A infantilização da série já anunciada em “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” através dos ewoks ainda persistia aqui. Por tudo isso, “A Ameaça Fantasma” até funciona como um filme de preparação para a construção da mitologia. O problema é que em 1999 ela já estava formada no imaginário de muita gente, o que não impediu muitos fãs de se deliciarem ao verem seus queridos personagens na telona – em muitos casos, pela primeira vez. 

star-wars-episodio-i-a-ameaca-fantasma-foto-2Texto publicado em 30 de Setembro de 2016 por Roberto Siqueira

FOGO CONTRA FOGO (1995)

10 junho, 2012

(Heat)

 

Videoteca do Beto #130

Dirigido por Michael Mann.

Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Jon Voight, Tom Sizemore, Ashley Judd, Natalie Portman, Danny Trejo, Diane Venora, Amy Brenneman, Mykelti Williamson, Wes Studi, Ted Levine, Dennis Haysbert, William Fichtner, Tom Noonan, Hank Azaria, Kevin Gage e Tone Loc.

Roteiro: Michael Mann.

Produção: Art Linson e Michael Mann.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dois dos maiores atores de sua geração (e, porque não dizer, de todos os tempos), Al Pacino e Robert De Niro se destacaram também pela coragem de escolher projetos audaciosos no auge ao invés de surfar na fama em projetos puramente comerciais. Donos de enorme talento e carisma, eles sempre estiveram entre os atores mais respeitados da indústria, conquistando o respeito de fãs e críticos. Curiosamente, antes de “Fogo contra Fogo” eles jamais tinham dividido um plano sequer, a não ser numa rápida transição de planos em “O Poderoso Chefão – Parte II”. Por isso, você pode imaginar qual era a expectativa para finalmente vê-los atuando juntos no filme dirigido por Michael Mann. E para a alegria geral, o resultado não poderia ser melhor. Ainda que contracenem apenas em duas cenas, eles estrelam um filme de ação não apenas eficiente, mas que apresenta, além de grandes cenas, um excepcional estudo de personagens.

Escrito e dirigido por Michael Mann, “Fogo contra Fogo” começa apresentando rapidamente os personagens centrais da narrativa enquanto acompanhamos a preparação de um assalto. Desta forma, conhecemos em poucos minutos os criminosos Neil (Robert De Niro), Chris (Val Kilmer), Cheritto (Tom Sizemore) e Waingro (Kevin Gage), além do informante do grupo Nate (Jon Voight). Durante a execução do plano, Waingro dispara contra um policial e provoca o assassinato de outros dois, o que força a presença do detetive da Divisão de Homicídios Vincent Hanna (Al Pacino), que assume o caso. Lentamente, ele descobre quem são aqueles criminosos e passa a persegui-los, o que só piora sua relação conturbada com a esposa Justine (Diane Venora) e a enteada Lauren (Natalie Portman).

Desde o início, o impecável roteiro entrelaça de maneira consistente os caminhos de seus diversos personagens, criando uma narrativa sempre envolvente e dinâmica, que jamais soa confusa, graças também ao bom trabalho dos montadores Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoenig e Tom Rolf, que alternam num ritmo interessante entre a investigação de Vincent e as ações do grupo de Neil, acertando ainda nas cenas de ação, como o sensacional tiroteio em plena luz do dia após o assalto ao banco – que abordarei novamente em instantes. Mann também aborda de maneira interessante o meticuloso trabalho da policia, nos envolvendo no processo ao mesmo tempo em que acompanhamos os criminosos planejando seus próximos passos, num jogo de gato e rato sempre interessante. Entretanto, ainda que desenvolva bem a maioria dos personagens, é no profundo estudo da dupla Neil e Vincent que o roteiro se destaca, apresentando dois homens que, mesmo estando em lados opostos da lei, compartilham diversas características marcantes – que também voltarei a abordar em instantes.

Visualmente, “Fogo contra Fogo” se destaca em diversos momentos, como nos lindos planos em que Neil e Eady (Amy Brenneman) olham a cidade iluminada de uma sacada. Aliás, a competente fotografia de Dante Spinotti auxilia bastante no trabalho excepcional de Michael Mann, com suas cores frias e perfeita iluminação nas cenas noturnas (repare o visual esplêndido no vôo dos helicópteros, por exemplo). Também discretos e eficientes são os figurinos de Deborah Lynn Scott, que mantém a coerência ao priorizar cores que não chamam a atenção na maior parte do tempo, assim como a trilha melancólica de Elliot Goldenthal sublinha suavemente os diálogos entre os casais, subindo o tom apenas em algumas cenas de ação, como no assalto ao carro forte.

Empregando closes que realçam cada personagem e os aproximam do espectador, Mann rapidamente revela informações importantes, como os problemas familiares de Vincent e Chris e a solidão de Neil. Já o primeiro assalto serve para introduzir a violência brutal dos criminosos, nos preparando para o que veremos ao longo da narrativa. Ainda mais interessante é a maneira como Mann explora dramaticamente os personagens, nos aproximando de seus problemas e compartilhando suas angústias e dilemas, num processo inteligente que humaniza até mesmo os criminosos. Mas o mais interessante mesmo é como o diretor conduz a marcante cena do tiroteio nas ruas de Los Angeles, nos colocando no meio da cena como se fizéssemos parte da ação, com a câmera se escondendo entre os carros enquanto os tiros passam raspando. O espetáculo, porém, começa antes, desde quando acompanhamos Neil convidando o ex-presidiário Breedan (Dennis Haysbert) para substituir Trejo (Danny Trejo) no assalto, enquanto Vincent, desesperado, sequer sabe onde eles estão. O assalto segue bem sucedido até o instante em que Vincent descobre o local. E então, a tensão toma conta da tela, especialmente pela forma como Mann transita entre os planos até que Chris perceba a presença da polícia e inicie o tiroteio, onde, além do verdadeiro espetáculo de direção e montagem, vale destacar também o excepcional trabalho de design de som que torna tudo mais realista e, junto com os planos subjetivos, praticamente nos coloca dentro do confronto.

Ainda na direção, Mann também conduz com precisão outras cenas bastante tensas, como quando Neil e Chris invadem um local à noite e são observados pela polícia, onde cada plano complementa o outro perfeitamente, criando um clima crescente e quase insuportável de suspense – e repare como em dois planos idênticos, as sombras cobrem metade do rosto de Vincent e Neil, sugerindo que eles se complementam. Outra cena de grande destaque é aquela em que Vincent descobre que Neil está observando a polícia nos contêineres, numa virada interessante na narrativa. Em outro momento tenso, Charlene (Ashley Judd) desiste de entregar o marido Chris, o que confere ainda mais peso dramático à conturbada relação deles e comprova que os personagens de “Fogo contra Fogo” fogem do estereótipo unidimensional típico dos filmes de ação. Aqui não existe o clichê “o bem contra o mal”. Todos têm qualidades e defeitos e, por isso, compreendemos suas motivações, ainda que discordemos delas.

Apoiado num elenco espetacular, Michael Mann extrai ótimas atuações que tornam “Fogo contra Fogo” ainda mais realista, a começar pelos papéis menores dos ótimos Jon Voight e Tom Sizemore, passando por Ted Levine, Amy Brenneman e Ashley Judd, além da na época adolescente Natalie Portman, que interpreta a enteada de Vincent cheia de problemas com o pai biológico. Num papel de maior destaque, Val Kilmer vive o explosivo Chris, que, assim como Vincent, tem problemas com a esposa, mas, diferente do policial e do parceiro Neil, não consegue evitar que eles interfiram em seu “trabalho”. Fechando o elenco secundário, Diane Venora parece sequer expressar os sentimentos de Justine, numa atuação fria coerente com o sofrimento da personagem, já anestesiada diante de tanto desprezo do marido (“O que eu tenho são sobras”, diz ela).

Homens parecidos mesmo em lados opostos da lei, Vincent e Neil são muito competentes naquilo que gostam de fazer, mas não conseguem ter sucesso na vida social e nos relacionamentos amorosos. Se Vincent já está no terceiro casamento fracassado, Neil evita ter um relacionamento sério e, mesmo gostando de Eady, deixa claro que não hesitará em largá-la se assim for preciso. Atores completos e que impõe respeito naturalmente, De Niro e Pacino jamais dão a sensação de que hesitarão antes de partir pra cima de alguém, ainda que seus personagens demonstrem um impressionante autocontrole e saibam como agir de maneira inteligente em cada situação, como fica claro nas conversas de Neil com Charlene e de Vincent com Albert, o irmão do informante Richard, o que é essencial para o sucesso dos personagens. Assim, sabemos que eles não pensaram duas vezes antes de atirar, ainda que do outro lado esteja um “oponente” de respeito – algo vital para a seqüência final, por exemplo.

Policial inteligente e muito respeitado, o Vincent de Al Pacino sabe que sua dedicação ao trabalho atrapalha o relacionamento com a esposa e a enteada, mas não consegue fazer nada a respeito – e talvez nem queira. Por isso, Justine lentamente vai se afastando do marido até consumar a traição – e repare na fotografia obscura e opressora na cena em que eles discutem a relação num restaurante, momentos antes dela resolver agir. Aliás, nem mesmo após a traição ele consegue demonstrar sentimento por ela, utilizando a televisão para descarregar sua raiva. Mas ao ver a enteada quase morta na banheira, Vincent finalmente demonstra afeto e recebe um doloroso abraço de sua esposa – o que não significa uma reaproximação ou revisão de valores.

Do outro lado da moeda, o Neil de Robert De Niro demonstra sua inteligência desde o início, quando se irrita com o assassinato dos motoristas do carro forte por saber que aquilo chamaria ainda mais a atenção da polícia para o caso. Mas sua energia na execução dos crimes é proporcional à sua inércia na vida particular, representada pelo apartamento sem mobília que simboliza uma vida vazia. Simbólico também é o plano em que ele olha para o mar, numa alusão ao sonho de largar tudo pra trás e viver bem longe, escancarado quando convida Eady para deixar o país (obviamente, já contando com a grana que receberia após o assalto ao banco). Mas, assim como Vincent, ele desperdiça a chance que tem de mudar quando Nate avisa o paradeiro do traidor Waingro – e a expressão dele demonstra claramente seu conflito interior, assim como a fotografia indica seu trágico futuro mudando drasticamente do túnel iluminado para as ruas sombrias da cidade. Ele precisava escolher entre a fuga com Eady e a vingança e, mesmo sabendo que perderia um tempo precioso, não resiste ao impulso e desvia o caminho. Neste momento, o espectador já sabe o que esperar. Ainda assim, a melancólica cena em que ele abandona Eady no carro incomoda, mas é coerente com a personalidade dele. Uma cena visualmente belíssima, aliás, com a câmera lenta destacando o momento em que ele decide abandoná-la, exatamente como avisou que faria se fosse necessário.

Estas duas personalidades tão fortes e tão parecidas se cruzam apenas duas vezes durante a narrativa. Num momento histórico para cinéfilos e fãs, Al Pacino e Robert De Niro contracenam pela primeira vez quando o primeiro para o segundo no trânsito e o convida para tomar um café. A conversa direta e cheia de ameaças sutis é um dos grandes momentos do longa (e da atuação de ambos), servindo também para preparar o clima da seqüência final. O segundo encontro acontece exatamente no esperado confronto final, em que a ausência da trilha sonora, os sons diegéticos e a escuridão do aeroporto reforçam a tensão até que finalmente Vincent acerte Neil. O cumprimento deles apenas comprova o respeito mútuo de dois homens inteligentes e obstinados, que não conseguiam fazer outra coisa a não ser o “trabalho” que amavam. Infelizmente, o trabalho de um era atrapalhar o trabalho do outro, e eles jamais permitiriam que alguém atrapalhasse seus caminhos. Mas se o trabalho de um interferia diretamente no do outro, ironicamente este conflito era necessário para que eles pudessem exercer a profissão com tanta paixão – e, além do respeito, este cumprimento final revela esta assombrosa compreensão de ambos do cenário em que estão inseridos.

Com uma rara profundidade dramática e um complexo estudo de personagens pouco comum no gênero, “Fogo contra Fogo” é um excepcional filme de ação, que traz ainda uma das mais sensacionais cenas de tiroteio já vistas no cinema. Ao estudar personalidades tão parecidas em corpos inimigos, Michael Mann entrega mais do que um ótimo filme de ação, trazendo dois homens obstinados por suas profissões, que, numa melancólica ironia, dependiam um do outro para se sentirem completos, mesmo estando em lados opostos da lei.

Texto publicado em 10 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

CISNE NEGRO (2010)

17 fevereiro, 2012

(Black Swan)

 

Filmes em Geral #82

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder, Barbara Hershey, Toby Hemingway, Janet Montgomery, Kristina Anapau e Ksenia Solo.

Roteiro: Andres Heinz e Mark Heyman, baseado em história de Andres Heinz.

Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer e Brian Oliver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dona de uma das raras carreiras consistentes na infância e adolescência, Natalie Portman chegou à maturidade profissional confirmando o talento que seu início promissor sugeria – algo que ficou evidenciado no ótimo “Closer”. Mas foi sob a direção de Darren Aronofsky neste excepcional “Cisne Negro” que a atriz ofereceu seu melhor desempenho, justamente reconhecido pela academia de Hollywood com o prêmio Oscar. Oferecendo uma atuação nada menos que sensacional, ela transmite com precisão e intensidade o doloroso processo de metamorfose de uma talentosa e recalcada bailarina, profundamente afetada por distúrbios psicológicos.

Adaptado para o cinema por Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz a partir de argumento do próprio Heinz, “Cisne Negro” tem início quando um grupo de bailarinas passa a competir pelo papel principal de uma adaptação de “O Lago dos Cisnes”, após a aposentadoria forçada da estrela Beth MacIntyre (Winona Ryder). Escolhida para o desafiador papel principal, a talentosa Nina (Natalie Portman) passa a ser pressionada pelo exigente diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel), mas enfrenta sérias dificuldades, especialmente após a chegada da sensual Lilly (Mila Kunis). Pra piorar, ela sequer pode contar com o apoio de sua mãe, a ex-bailarina Erica (Barbara Hershey).

Trazendo elementos de suspense e terror, “Cisne Negro” faz um maravilhoso estudo de personagem, explorando os conflitos psicológicos de sua protagonista ao mesmo tempo em que narra sua trajetória dentro da companhia de balé. Não por acaso, a câmera constantemente acompanha Nina por trás dos ombros, já que acompanhamos a narrativa sempre sob o ponto de vista dela, o que faz com que o espectador compartilhe suas angústias e até mesmo suas alucinações – que só descobriremos serem distúrbios psicológicos depois de muito tempo de projeção. Empregando closes que, além de realçar a marcante atuação de Portman, nos aproximam mais da personagem, Aronofsky torna quase palpável o sofrimento da garota através do detalhe de seu pé girando – repare que o ótimo design de som permite escutar até mesmo o estalar dos dedos de seus pés -, de planos fechados de suas unhas sangrando e da exposição crua de seus ferimentos nas costas. Da mesma forma, o diretor praticamente nos coloca dentro dos ensaios de Nina, com a câmera girando e acompanhando seus movimentos, conferindo ainda extremo realismo à narrativa ao nos apresentar a rotina desgastante das bailarinas – o que não deixa de ser também uma bela homenagem ao próprio balé.

Utilizando as músicas diegéticas dos ensaios, de uma caixa de música ou até mesmo do celular de Nina, Clint Mansell emprega variações interessantes do tema do “Lago dos Cisnes”, criando uma trilha sonora fabulosa que aumenta a carga de tensão da narrativa, reforçada pelo ritmo dinâmico da montagem de Andrew Weisblum que, auxiliado pela câmera agitada de Aronofsky, nos transmite a sensação de confusão mental da protagonista. O montador se destaca ainda nas ótimas cenas de balé, especialmente no ato final, quando a troca rápida de imagens empolga sem jamais deixar o espectador perdido na cena, como já havia acontecido no sonho que abre “Cisne Negro”. Aliás, estas duas seqüências realçam também o ótimo trabalho do diretor de fotografia Matthew Libatique, que cria um belo contraste entre o preto e branco, cores predominantes na narrativa que simbolizam a dualidade da protagonista.

Mantendo a unidade visual pretendida por Aronofsky, o design de produção de David Stein mantém o predomínio do preto e branco na decoração dos ambientes (observe o apartamento de Thomas, por exemplo), assim como os figurinos de Amy Westcott também optam por roupas nestes tons na maior parte do tempo. Talvez o único local em que estas cores não predominam, o quarto rosa de Nina funciona quase como um refúgio, mas ainda assim sua mãe surge como um fantasma quando ela resolve seguir um conselho de Thomas, assustando a garota que interrompe a masturbação e se esconde como uma criança embaixo do edredom. Esta infantilização fica mais evidente quando, em pleno processo de transformação, ela decide se livrar da caixa de música e dos bichos de pelúcia, deixando as lembranças da infância para trás.

A explicação para este comportamento talvez esteja na figura superprotetora de sua mãe, que chega a ser autoritária e opressora em diversos momentos, criando um enorme bloqueio psicológico em Nina que a impede de liberar a sexualidade tão necessária no papel de cisne negro (repare como até os desenhos sinistros da mãe dela intimidam a garota). Demonstrando este lado explosivo e temperamental com precisão, por exemplo, na cena em que ameaça jogar um bolo no lixo, Barbara Hershey cria uma figura gradualmente assustadora, que caminha entre a preocupação extrema e uma suspeita crueldade ao falar das dificuldades que Nina enfrentará, num comportamento que reflete a frustração por ter abandonado a carreira de bailarina para ter sua filha. Mas como diz Thomas em certo momento, o maior obstáculo de Nina é ela mesma, algo que Aronofsky faz questão de ressaltar ao utilizar muitos espelhos, ilustrando a dupla personalidade da garota, que vê seu próprio rosto em outras pessoas, como quando sonha com Lilly e quando cruza alguém no túnel de acesso ao metrô. Aliás, na primeira vez que Nina vê Lilly no metrô, os movimentos parecidos e as roupas (branca de Nina e preta de Lilly) indicam que a ameaça representada pela espontânea Lilly será o agente motivador da mudança de Nina, pois a garota simboliza o lado ainda inexplorado de sua personalidade.

Surgindo indefesa com seu rosto meigo e sua sensibilidade extrema, Natalie Portman demonstra com perfeição o medo que Nina demonstra do mundo, assim como seu controle absoluto sobre tudo que faz, num perfeccionismo exagerado que reflete a criação rígida que recebeu e a impede de se soltar (“Eu quero ser perfeita”, diz). Por isso, a garota representa um verdadeiro paradoxo para Thomas: por um lado, sua técnica refinada lhe garante o posto de bailarina ideal para o papel puramente técnico do cisne branco, mas por outro, sua timidez lhe impede de encarnar o incisivo papel do cisne negro. Ainda assim, ela é a escolhida – e chega a ser comovente o momento em que Nina conta chorando para a mãe que foi escolhida para o papel principal. Transmitindo ainda a timidez da personagem através do baixo tom de voz, como quando fala de sexo com Thomas, e ao desviar o olhar, como quando briga com Lilly, Portman oferece um desempenho magnífico que garante a empatia instantânea da platéia, demonstrando ainda enorme dedicação ao papel por não usar dublê nas cenas de balé e, especialmente, pela forma física extremamente magra que demonstra a fragilidade de Nina.

Chegando a soar ameaçador, o Thomas de Vincent Cassel se mostra um líder controverso, que por um lado extrai o melhor de sua estrela, mas por outro utiliza métodos nada convencionais para conseguir isto. Ainda assim, Cassel confere tridimensionalidade ao personagem, transmitindo a sensação de que ele realmente se importa com a garota (“Você pode ser brilhante, mas é covarde!”, diz). Ainda que pareça duro demais em diversos momentos, sua alegria ao ver o sucesso da apresentação de Nina parece genuína, graças ao bom desempenho do ator. Também genuína parece a felicidade de Lilly com o sucesso da colega, o que não deixa de ser intrigante. Bastante solta e sensual no papel, Mila Kunis oferece um desempenho competente, deixando o espectador sempre na dúvida quanto às reais intenções da garota. E fechando o elenco, Winona Ryder aproveita muito bem as poucas cenas em que aparece, demonstrando a amargura de Beth por não aceitar o fim dos dias de glória.

Num momento crucial, Nina se rebela contra a mãe e sai com Lilly, iniciando sua transformação – algo ilustrado de maneira sutil por Aronofsky quando a garota coloca uma roupa preta por cima da roupa branca no banheiro. Após a noitada, Nina volta para casa acompanhada por Lilly (e repare o plano escolhido pelo diretor quando elas entram no apartamento, filmado através do espelho, numa dica sutil da natureza daquele momento). Mais uma vez inspirada, Portman nos convence de que Nina realmente está alcoolizada, o que é essencial para o sucesso da cena. Em seguida, a forte cena de sexo termina com Nina mais uma vez vendo seu rosto no corpo de Lilly, em mais um sinal de sua transformação – e nesta cena vale destacar também os ótimos efeitos visuais, que fazem a tatuagem de Lilly simular as asas do cisne negro. Após a “noitada”, a transformação estaria completa, não fosse o temor que ela ainda tinha de perder o lugar para Lilly, comprovado quando ela chega atrasada ao ensaio e encontra a outra em seu lugar.

Enxergando penas saindo das costas, imaginando seu pé se entortando e vendo os dedos grudados no pé (novamente, mérito dos bons efeitos visuais), Nina passa a encarnar de vez o papel do cisne (e só temos certeza de que tudo aquilo não passa de alucinação quando a vemos dançando com asas negras e olhos vermelhos e, num plano rápido sob o ponto de vista da platéia, ela surge com braços e olhos normais). E então um verdadeiro espetáculo de direção, fotografia e montagem amarra tematicamente a narrativa com perfeição, com a “morte” da velha Nina, ferida com um pedaço de espelho que ela imaginou ter usado para assassinar Lilly, dando lugar à nova Nina – e impressiona a mudança de Portman na pele do cisne negro, exalando confiança com seus olhos arregalados, seus gemidos e seus leves movimentos corporais, deixando para trás o olhar tímido, a respiração ofegante e os movimentos calculados de antes. Quando retorna ao palco novamente na pele do cisne branco, a trilha triunfal indica o desfecho trágico e a conclusão perfeita surge no salto de Nina, que pode ou não ser um salto para a morte regido pelos intensos aplausos da platéia, numa despedida marcante da personagem. Assim como em “O Lutador”, o final em aberto sugere, mas não confirma a morte da protagonista, permitindo que cada espectador interprete à sua maneira.

Ao afirmar que “foi perfeito” após o salto final, Nina poderia muito bem estar se referindo ao pensamento do espectador, que sai extasiado diante da intensidade do que viu. Contando com a atuação fabulosa de Natalie Portman para expor o cruel processo criativo de uma artista, “Cisne Negro” praticamente insere o espectador dentro da mente de sua protagonista, explorando temas complexos como a sexualidade retraída e a dupla personalidade de maneira extremamente sensorial. Assim como a apresentação apaixonada de Nina no “Lago dos Cisnes”, este magnífico estudo psicológico de personagem repleto de simbolismos e com requintes de terror merece os aplausos da platéia.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira