ALÉM DA LINHA VERMELHA (1998)

(The Thin Red Line)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #181

Dirigido por Terrence Malick.

Elenco: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Ben Chaplin, Jared Leto, Elias Koteas, John Travolta, Nick Nolte, John C. Reilly, Miranda Otto, Nick Stahl, Thomas Jane, Will Wallace, John Savage, Mark Boone Junior, Tim Blake Nelson e Dash Mihok.

Roteiro: Terrence Malick, baseado em livro de James Jones.

Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill e John Roberdeau.

Além da Linha Vermelha[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Como reunir num mesmo elenco em papéis que variam do protagonista com mais tempo de tela a mais rápida das participações nomes na época já estabelecidos como Sean Penn, George Clooney, Woody Harrelson, John Travolta, John Cusack, John C. Reilly e Nick Nolte, incluindo ainda promessas que se confirmariam depois como Adrien Brody e Jim Caviezel, entre outros? A resposta atende pelo nome de Terrence Malick, um dos diretores mais reclusos e low profile da história de Hollywood, mas também dono de uma filmografia muito interessante e de um respeito ímpar no meio cinematográfico. Assim, astros como Clooney e Travolta não pensaram duas vezes antes de abrirem mão de seus cachês milionários para terem pequenas participações neste belíssimo “Além da Linha Vermelha”, um drama que remete a questões existencialistas e filosóficas no meio do caos da guerra.

Aliás, chamar “Além da Linha Vermelha” de um filme de guerra é extremamente reducionista. Estabelecendo o tom poético que acompanhará a narrativa logo na abertura através da fotografia de John Toll que realça os raios solares que vazam pelas árvores e da trilha sonora erudita de Hans Zimmer que acompanha a sequência, Malick utiliza ao longo das quase três horas de filme diversas imagens de animais silvestres, da água dos rios e das árvores espalhadas pela ilha de Guadalcanal onde acontece o combate, numa estratégia que se confirmará até o último plano e que busca estabelecer um paralelo entre o lado selvagem da natureza e o lado selvagem do ser humano que aflora em situações como aquela – e esta opção fica ainda mais clara quando, no meio do conflito, o diretor insere um plano de um filhote de pássaro se arrastando pela lama, simbolizando a luta pela sobrevivência que marca nossa passagem por este mundo desde o dia em que nascemos.

Raios solares vazam pelas árvoresAnimais silvestresPássaro se arrastando pela lamaMas se a fotografia na maior parte do tempo realça o verde da região e aposta em cenas diurnas e bastante ensolaradas, alguns momentos pontuais das batalhas surgem dominados pela fumaça que emana das chamas em meio aquela mistura de lama e sangue, criando um visual acinzentado e melancólico que ilustra o sentimento de aflição dos personagens. Por outro lado, Toll utiliza cores quentes quando Bell (Ben Chaplin) relembra os momentos ao lado da esposa distante (Miranda Otto), simbolizando o conforto que este sentia ao lembrar-se do lar e da companheira – o que torna a carta fria enviada por ela ainda mais impactante, num momento triste em que a câmera distante de Malick respeita o personagem, ao mesmo tempo em que evidencia através do som e das reações dele como cada palavra soa como uma facada naquele homem destroçado.

Fumaça que emana das chamasBell relembra os momentos ao lado da esposaCarta fria enviada por elaEsbanjando elegância, Malick conduz a narrativa sem pressa, priorizando a parte estética sem deixar de trabalhar na dinâmica entre os personagens. Observe, por exemplo, como sua câmera passeia pelos soldados no navio antes do desembarque na ilha, o que ajuda a nos familiarizar com eles – obviamente, a escolha de atores famosos colabora ainda mais neste sentido e permite que o diretor ganhe algum tempo. Para aumentar esta identificação entre o espectador e os personagens, Malick emprega a câmera subjetiva em vários instantes, nos colocando na mesma posição dos soldados, especialmente durante os conflitos com os japoneses em que somos jogados pra dentro da mata que cobre os montes. Da mesma forma, a câmera agitada que acompanha a perseguição dentro do rio já no ato final transmite muito bem o senso de urgência que o momento exige.

Câmera passeia pelos soldados no navioCâmera subjetivaPerseguição dentro do rioNo entanto, Malick não se apoia apenas nas imagens para criar uma narrativa envolvente, explorando também o potencial do som para aumentar o realismo das cenas. Assim, o excepcional design de som nos permite ouvir cada pequeno detalhe, desde as fortes ondas no mar, passando pelo barulho dos barcos que levam os soldados à ilha e, especialmente nos conflitos, nos permite distinguir as bombas explodindo, os tiros e os gritos agonizantes dos combatentes. Ao ver o resultado violento daquelas ações e ouvir os gritos de dor dos soldados que agonizam e morrem, temos o horror da guerra em seu estado mais cru. Repare também como a respiração ofegante deles durante a subida do morro confere imenso realismo à narrativa, demonstrando simultaneamente o cansaço e o medo que sentem. Com o auxilio do design de som, as atuações convincentes que tornam as feridas mais doloridas e sua câmera agitada, Malick torna as sequências de combate extremamente realistas, o que faz cenas como o primeiro embate contra os japoneses e o ataque do pelotão ao bunker soarem ainda mais tensas – e a aflição palpável no rosto do coronel Staros (Elias Koteas) durante sua oração na noite anterior ao ataque na colina já nos alertava para a crueldade do que estava por vir.

Contando ainda com os figurinos de Margot Wilson e o design de produção de Jack Fisk para nos ambientar ao local através dos uniformes dos soldados americanos e japoneses, das poucas roupas e simples cabanas dos nativos, dos pesados armamentos e dos imponentes navios, Malick cria um cenário assustador e realista que confere peso aos pensamentos e reflexões dos personagens. Da mesma forma, o ritmo contemplativo empregado em boa parte do tempo pelos montadores Leslie Jones, Saar Klein e Billy Weber ajuda, por contraste, a estabelecer o perigo eminente que paira sobre um ambiente de guerra através de instantes de interrupção abrupta, como no primeiro ataque dos japoneses. Mas, na maior parte do tempo, os longos planos sem cortes e o ritmo lento reforçam o tom poético pretendido por Malick.

Uniformes dos soldados americanosPoucas roupas e simples cabanas dos nativosImponentes naviosVariando entre papéis de destaque e participações especiais, o fabuloso elenco de “Além da Linha Vermelha” se dá ao luxo de contar com astros como John Travolta (general Quintard) e George Clooney (capitão Charles Bosche) em papéis bem pequenos, relegando ainda atores como o ótimo John C. Reilly (sargento Storm), John Savage (sargento McCrom), Woody Harrelson (soldado Keck), Jared Leto (tenente Whyte) e Adrien Brody (soldado Fife) ao mero papel de coadjuvantes. Assim, quem ganha espaço na narrativa é Jim Caviezel, que com sua expressão quase sempre tranquila dá a sensação de que Witt apenas flutua sobre aquele ambiente hostil, observando e tentando entender tudo aquilo sem jamais se sentir parte daquele universo. Repare, por exemplo, seu sorriso contido após a morte de Keck, como se estivesse aliviado ao ver o parceiro deixando aquele mundo de sofrimento e dor. Através das reflexões dele e do soldado Bell vivido por Ben Chaplin nós podemos captar a essência da narrativa. Ambos buscam refúgio em lugares distantes daquela dura realidade e ambos veem estes refúgios serem destruídos ao longo do tempo, seja na degradação dos habitantes da aldeia melanésia ou na traição da esposa. No fim das contas, estamos todos sozinhos neste mundo.

Expressão quase sempre tranquilaSorriso contido após a morte de KeckDegradação dos habitantes da aldeia melanésiaPor outro lado, Sean Penn demonstra com a precisão costumeira a transformação do tenente Welsh, que inicialmente se posiciona ao lado do exército, mas ao longo da narrativa vai lentamente compreendendo a imbecilidade daquilo (“É tudo sobre propriedade!”, diz questionando a guerra). Ao final da jornada, enquanto o novo tenente Bosche interpretado por Clooney faz seu discurso, Welsh questiona em pensamento tudo que ouve da boca do novo líder, consolidando sua transformação após tudo que viu. Já o autoritário Tenente-coronel Tall interpretado de maneira explosiva por Nick Nolte enxerga no exército a sua chance de obter algum destaque (“Esta é a minha guerra!”), dando ordens e se envolvendo pessoalmente na batalha com tamanha paixão que chega a ser comovente a sua entrega. Ainda que discordemos de seu pensamento, jamais deixamos de acreditar em sua convicção, já que o personagem parece mesmo acreditar nos absurdos que diz.

Transformação do tenente WelshWelsh questiona em pensamento tudo que ouveAutoritário Tenente-coronel TallNem por isso, os outros soldados são obrigados a aceitar suas imposições, ainda que nem todos tenham a coragem do coronel Staros de externar seu pensamento. Conferindo humanidade ao coronel, Elias Koteas demonstra firmeza quando sente que é necessário ao não obedecer à ordem de ataque frontal que poderia dizimar seu pelotão. Já o soldado Gaff interpretado por John Cusack não chega a se pronunciar, mas seu olhar desafiador no diálogo pós conquista do Bunker evidencia que ele não concorda com a ideologia de seu líder.

Estes duelos ideológicos ajudam a construir a principal mensagem de “Além da Linha Vermelha”, quase sempre opondo visões distintas sobre o conflito, como no primeiro diálogo entre Witt e Welsh e na última conversa entre Tall e Staros, que escancara os estilos diferentes de liderança deles. Mas apesar dos diálogos terem importância, são mesmo os pensamentos dos personagens que nos fazem refletir a respeito. Normalmente acompanhadas por uma trilha sonora suave, as reflexões de Witt, Bell, Welsh e outros soldados abordam questões filosóficas e existenciais (De onde vem este demônio interior? De onde vem o amor?), remetendo a um tema central na filmografia de Malick: o questionamento sobre a existência ou não de um ser superior. Existiria uma divindade capaz de controlar tudo que ocorre em nossa natureza implacável ou estamos mesmo solitários neste mundo, jogados a mercê de nossos destinos num lugar hostil em que precisamos lutar constantemente para sobreviver?

Coronel StarosOlhar desafiadorAtaque à aldeia dos soldados japonesesSimultaneamente, Malick realça a reflexão sobre o horror da guerra em momentos como o ataque à aldeia dos soldados japoneses, uma sequência cruel que se transforma em poesia através da câmera lenta do diretor, das reações dos soldados e da belíssima trilha sonora que a embala. Mesmo nos colocando dentro de um cenário terrível de guerra, ele consegue criar poesia. É a degradação do coletivo e do indivíduo. Ainda que lute ao lado de centenas ou milhares de outros semelhantes, o ser humano busca mesmo é sentir-se bem consigo mesmo. Ele busca a sua paz interior.

Apostando numa ousada abordagem contemplativa e introspectiva, Terrence Malick realiza um estudo sensível sobre os efeitos da guerra no ser humano, o que por si só já seria suficiente para tornar este “Além da Linha Vermelha” num filme minimamente interessante. O elenco homogêneo, a excepcional parte técnica e as reflexões que a narrativa propõe, porém, deixam claro que ele queria muito mais do que isto. E conseguiu.

Além da Linha Vermelha foto 2Texto publicado em 19 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

VIDAS EM JOGO (1997)

(The Game)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #180

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Anna Katarina, Armin Mueller-Stahl e Spike Jonze.

Roteiro: John D. Brancato e Michael Ferris.

Produção: Ceán Chaffin e Steve Golin.

Vidas em Jogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Somente um diretor talentoso como David Fincher pode transformar a implausível premissa deste “Vidas em Jogo” num thriller tão interessante. Não concorda? Pois então pare e pense por alguns minutos na complexidade do jogo criado pela empresa CRS e nas inúmeras possibilidades de rumos que a história poderia tomar dependendo das ações do “alvo” e você perceberá que nem o melhor planejamento do mundo poderia evitar colocar em risco toda a empreitada. Mudemos a pergunta então: pode um roteiro com um potencial tão grande para o fracasso se transformar num filme interessante? Nas mãos de um grande diretor a resposta sempre será: “sim”.

Escrito por John D. Brancato e Michael Ferris, “Vidas em Jogo” nos apresenta ao milionário Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um acionista bem sucedido que ganha um inusitado presente de aniversário de seu irmão Conrad (Sean Penn): um cartão com os dados de contato de uma empresa especializada em entretenimento. Desconfiado, ele comparece ao local, preenche todos os formulários e realiza os testes físicos e psíquicos, mas sua inscrição é rejeitada. No entanto, após esbarrar com a garçonete Christine (Deborah Kara Unger) em seu restaurante favorito, coisas estranhas começam a acontecer e ele repentinamente percebe que está sendo envolvido em algo muito maior.

Bastam poucos minutos para que o espectador tenha acesso a algumas informações essenciais a respeito de Nicholas Van Orton. Seu escritório milimetricamente planejado, sua imponente casa (design de produção de Jeffrey Beecroft) e suas roupas finas e elegantes (figurinos de Michael Kaplan) evidenciam que estamos diante de alguém muito rico, enquanto as lembranças de sua infância e uma rápida conversa com a ex-esposa escancaram sua fragilidade emocional. Assim, não demora muito para que o vulnerável protagonista dispa-se da roupa de homem bem sucedido e apresente sua faceta frágil e humana, conquistando a empatia da plateia tão fundamental para o sucesso da narrativa.

Vivendo uma versão menos gananciosa e mais contida de seu personagem mais famoso no cinema, Michael Douglas novamente encarna um acionista bem sucedido, com a diferença de que aqui seu Nicholas Van Orton (ou Nick) é também um personagem claramente afetado por um forte trauma da infância: a perda do pai. Falando quase sempre num tom de voz baixo, Nick lentamente vai perdendo o controle da situação e a oscilação em seu tom de voz indica isto com precisão. Conforme a narrativa avança, o acionista se transforma numa pessoa constantemente tensa, que deixa sua zona de conforto para enfrentar situações inusitadas e extremamente perigosas que o levam ao limite extremo – e o ator demonstra tudo isto muito bem em seu semblante cada vez mais pesado. Irmãos muito diferentes, Nick preza pela discrição e pelo bom senso, enquanto o bon vivant Conrad não hesita em chamar a atenção de um restaurante lotado apenas porque deseja fumar. Mesmo surgindo poucas vezes em cena, Sean Penn tem participação fundamental em “Vidas em Jogo”, soando convincente especialmente quando seu Conrad mostra-se totalmente desesperado numa conversa no carro do irmão, enganando não apenas o protagonista como também o próprio espectador.

Acionista bem sucedidoSemblante cada vez mais pesadoDesesperadoAinda mais importante é a competente participação de Deborah Kara Unger como Christine, a misteriosa garçonete demitida que acompanha boa parte da trajetória do protagonista e que, em diversos momentos, direciona a linha de raciocínio dele e da plateia. Soando simultaneamente convincente e misteriosa, Unger se sai muito bem num papel difícil que poderia arruinar o projeto nas mãos de alguém menos talentosa, já que a dúvida que sua personagem gera no espectador é fundamental para o sucesso da narrativa. Assim, quando ela diz rispidamente para Nick acordar e perceber que foi pego num golpe, nós acreditamos nela – e o chá seguido pela notícia das contas zeradas nos faz cair de vez na armadilha preparada pela CRS. Encarnando um funcionário da CRS de maneira convincente, James Rebhorn é outro que mantém a aura de mistério que ronda a narrativa com precisão.

O engenhoso roteiro envolve praticamente todos os personagens numa aura misteriosa que torna tudo muito suspeito, chegando a pecar pelo excesso de planejamento, o que não prejudica totalmente a qualidade do filme, mas torna alguns momentos bastante implausíveis, como quando um taxi é atirado no rio com o protagonista dentro. E se ele não se lembrasse da maçaneta ou sofresse uma grave lesão na queda? Existiam mergulhadores de plantão, mas valeria o risco? Momentos como este existem em profusão em “Vidas em Jogo”, o que pode irritar espectadores mais céticos. Se pensarmos friamente, seria necessário envolver praticamente a cidade inteira para que o tal jogo funcionasse corretamente; e, o que é ainda mais complicado, seria necessário antever praticamente todos os passos de Nick e preparar-se para eventuais mudanças de rota. Como evitar o desastre então? A resposta está na maneira como a narrativa é conduzida.

Convincente e misteriosaAura de mistérioTaxi é atirado no rioEmpregando seus costumeiros planos simétricos e movimentos elegantes de câmera, David Fincher parece bem mais contido e discreto na maior parte do tempo, o que não impede que ele altere o ritmo drasticamente quando necessário, como na empolgante fuga de Nick e Christine da CRS em que um cachorro quase os alcança e nas eletrizantes perseguições noturnas pelas ruas da cidade. Obviamente, o visual obscuro obtido pela fotografia de Harris Savides colabora bastante para ampliar a tensão nestes instantes. Utilizando imagens desgastadas de arquivo para revelar as trágicas lembranças da infância de Nick, Savides prioriza cores sóbrias durante a maior parte do tempo, destacando-se pelo excelente uso das sombras nas predominantes cenas noturnas para realçar a aura de mistério da narrativa, reforçada ainda pela trilha sonora dissonante de Howard Shore.

Empolgante fuga de Nick e ChristineVisual obscuroTrágicas lembrançasContando ainda com a montagem dinâmica de James Haygood para conferir um ritmo crescente que ilustra a mente cada vez mais conturbada do protagonista, Fincher conduz a narrativa com destreza, construindo um suspense eficiente através de escolhas inteligentes. Observe, por exemplo, como o sorriso discreto de um dos homens no bar indica que Nick havia sido fisgado pelo jogo, funcionando também como uma discreta dica para o espectador. A conversa com o apresentador do telejornal logo em seguida confirma que ele já estava envolvido no jogo – e neste instante, o espectador também já está completamente envolvido pela narrativa. A estratégia é clara. Fincher nos coloca sempre na mesma posição do protagonista. O tempo inteiro, nós temos acesso às mesmas informações que ele e compartilhamos das mesmas dúvidas e angústias do personagem, numa escolha, aliás, que não é comum em suspenses. Normalmente, o suspense é potencializado quando sabemos algo que o personagem não sabe, mas neste caso, nós não temos nenhuma informação além das que Nick já tem. Assim, somos forçados a montar aquele quebra cabeça sob a perspectiva dele, o que é essencial para que “Vidas em Jogo” funcione.

Após cairmos em inúmeras armadilhas e nos envolvermos completamente com o drama de Nick, somos levados a chocante sequência final no prédio da CRS, na qual a tragédia completa parece se configurar, mas uma reviravolta interessante revela o grande truque por trás das cortinas e garante o final feliz. O problema é que este final, apesar de impactante, soa um tanto implausível quando passamos a pensar mais a respeito. Ainda assim, graças ao ótimo trabalho de Fincher e do seu elenco, o longa funciona bem.

Sorriso discretoConversa com o apresentador do telejornalChocante sequência finalConfirmando a teoria de que um bom diretor pode salvar um roteiro por mais falhas que este tenha, David Fincher fez deste “Vidas em Jogo” um thriller empolgante, capaz de manter o espectador tenso na maior parte do tempo, ainda que, quando repensamos a narrativa de uma maneira mais lógica, esta tensão possa se transformar em questionamentos e gerar certa frustração.

Vidas em Jogo foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (1995)

(Dead Man Walking)

 

Videoteca do Beto #133

Dirigido por Tim Robbins.

Elenco: Sean Penn, Susan Sarandon, Scott Wilson, Lois Smith, Jack Black, R. Lee Ermey, Celia Weston, Raymond J. Barry, Jon Abrahams, Robert Prosky, Clancy Brown, Kevin Cooney e Peter Sarsgaard.

Roteiro: Tim Robbins.

Produção: Jon Kilik, Tim Robbins e Rudd Simmons.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos temas me deixam mais indeciso do que a pena de morte. Se por um lado entendo que nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de seu semelhante, por outro tenho a plena convicção de que esta visão seria automaticamente deixada de lado caso algo ocorresse com alguém próximo a mim. Por isso, fico sem saber o que responder diante da pergunta: “Você é a favor ou contra a pena de morte?”. Pois o soberbo “Os últimos passos de um homem” nos ajuda a compreender melhor o tema de maneira genial, sem jamais pender para qualquer lado, num trabalho excepcional tanto de Tim Robbins atrás das câmeras quanto de sua dupla de protagonistas diante delas. O resultado de tanto talento junto só poderia ser um: uma obra-prima do cinema.

Escrito pelo próprio Robbins baseado em livro da verdadeira Helen Prejean, “Os últimos passos de um homem” narra a tentativa da freira Helen (Susan Sarandon) de salvar o condenado a morte Matthew Poncelet (Sean Penn), poucos dias antes de sua execução. Logo após receber uma carta do prisioneiro, ela passa a ter dúvidas sobre as provas do crime e tenta recorrer na justiça ao mesmo tempo em que se transforma em sua conselheira espiritual, contrariando a opinião pública, chamando a atenção da imprensa e sendo pressionada pelos pais das vítimas e pela própria família.

Um dos aspectos mais interessantes do excelente roteiro de Robbins reside no fato de que ele nunca condena ou absolve Matthew pelo que fez, deixando esta decisão exclusivamente para o espectador, como se o diretor/roteirista tomasse uma posição neutra, de mediador mesmo, apresentando os dois lados da moeda e deixando que a plateia pense a respeito. Esta discrição se reflete também em sua direção, que evita chamar a atenção na maior parte do tempo, valorizando as atuações do elenco. Aliás, toda a parte técnica do longa segue o mesmo raciocínio, prezando pela elegância e eficiência em detrimento de exibicionismos, como podemos notar nas cores pouco chamativas da fotografia do mestre Roger Deakins e até mesmo na trilha sonora econômica de David Robbins, que pouco interfere na narrativa, deixando o som diegético predominar em momentos chave e surgindo apenas para pontuar uma ou outra cena de impacto.

Mas, apesar de parecer “invisível”, Robbins sabe os momentos exatos de empregar técnicas que transmitam mensagens somente através do visual, como quando a câmera se aproxima de Helen quando o padre avisa sobre a natureza violenta de Matthew, destacando os olhos arregalados da assustada freira. Observe ainda como no primeiro diálogo entre Matthew e Helen, a grade, inicialmente densa, gradualmente nos permite ver o rosto dele graças à mudança de foco da câmera, simbolizando a queda daquela barreira e o início da aproximação deles. Esta lógica visual se repete no segundo ato, quando eles se encontram e a câmera se posiciona lateralmente, eliminando a grade e simbolizando a aproximação total entre eles – e repare que até mesmo no tradicional plano/contraplano a grade já não aparece mais. Nesta cena, aliás, o ótimo roteiro nos brinda com um diálogo sensacional, onde Matthew demonstra seu preconceito contra negros e é questionado de maneira brilhante por Helen.

Interpretada com brilhantismo pela excepcional Susan Sarandon (esposa de Tim Robbins), Helen surge demonstrando desde o início o peso da criação católica na formação de sua personalidade – algo que Robbins ressalta através do close do crucifixo que ela carrega no peito. Alternando entre uma assustadora postura confiante diante de situações nada convencionais e momentos de clara fragilidade e vulnerabilidade, Sarandon cria uma personagem ambígua, humana e extremamente cativante, extremamente fiel àquilo que acredita e com sabedoria suficiente para questionar até mesmo alguns valores pregados por sua própria igreja. Vestindo sempre roupas sóbrias e sem cor (figurinos de Renée Ehrlich Kalfus), sua Helen é compreensiva, inteligente e firme quando necessário, mas também é dona de uma compaixão extrema e genuína, o que é essencial para conquistar a confiança do desconfiado Matthew. Pra completar, a atriz ainda demonstra muito bem os conflitos de Helen, questionando em diversos momentos o que faz ao lado daquele homem, saindo-se bem ainda nos interessantes confrontos verbais propostos pelo roteiro, como aquele em que ela debate versículos bíblicos com o chapelão Farlely (Scott Wilson), mostrando como a Bíblia oferece diversas interpretações divergentes para um mesmo tema – algo que volta a acontecer num diálogo com um policial.

A verdadeira aula de interpretação continua durante as visitas de Helen, primeiro no destruído lar dos Delacroix e depois na casa dos amargurados Percy. Interpretado por Raymond J. Barry, o Sr. Earl Delacroix é responsável por uma das frases mais cruéis de “Os últimos passos de um homem”, quando afirma que “setenta por cento dos pais que perdem um filho se separam” após anunciar que se separaria da esposa, dimensionando o tamanho desta tragédia na vida de uma família. Igualmente comovente é o diálogo com os Percy, que demonstram toda a dor que sentem diante da perda da filha, num momento excelente do ótimo R. Lee Ermey (o sargento Hartman de “Nascido para Matar”) e de Celia Weston. Só que a dor não é um “privilégio” dos pais do jovem casal assassinado, já que a mãe de Matthew também sofre profundamente com a situação do filho, algo que Roberta Maxwell demonstra com grande sensibilidade em diversos momentos, como logo após a confirmação da sentença na junta do perdão. E fechando o elenco, vale citar a participação de Jack Black – ainda nos primeiros anos de carreira – como um dos irmãos de Matthew.

Chegamos então ao grande pivô de toda a situação. Certamente um dos mais talentosos atores de sua geração, Sean Penn oferece um desempenho absolutamente impecável na pele do condenado Matthew Poncelet, criando um personagem amargo, ambíguo e pouco carismático. Demonstrando com precisão a natureza explosiva do personagem, Penn surge constantemente tenso, na defensiva e sempre prestes a esbravejar contra tudo e contra todos. No entanto, o ator consegue a proeza de evitar que a plateia sinta repulsa por Matthew ao demonstrar a vulnerabilidade de um homem que participou de um crime horrível, mas que nem por isso deixou de ser humano. Por isso, mesmo condenando seu crime, o espectador por vezes se sente comovido ao constatar que aquele “monstro” também sente medo, aflição, angústia e dor, como qualquer outra pessoa sentiria.

De maneira inteligente, Robbins (e Penn, obviamente) evita cair na armadilha de transformar Matthew num coitado, mostrando seu lado negativo quando ele tenta “cantar” Helen e quando demonstra simpatia por Hitler, por exemplo. Além disso, os flashes da cena do crime que surgem repentinamente durante a projeção nos lembram do que ele fez, confirmando a perfeita estratégia do diretor e de seus montadores Lisa Zeno Churgin e Ray Hubley. Por outro lado, o sofrimento da mãe e dos irmãos humaniza Matthew Poncelet, proporcionando momentos igualmente comoventes, como a conversa dele com os familiares e a tocante despedida momentos antes da execução. Só que Robbins reequilibra novamente a balança, comprovando que evita a todo custo tomar partido, ao mostrar fotos do assassino e das vítimas quando crianças, o choro da mãe dele e dos pais dos jovens assassinados, entre outros momentos tocantes. Pra finalizar, o próprio Matthew confirma a complexidade da questão ao afirmar que “iria querer matar quem fizesse isso” ao responder como reagiria a um suposto crime contra seus familiares.

O terceiro ato se concentra nas angustiantes horas que antecedem a execução (ressaltadas através de inúmeros planos do relógio), aproximando ainda mais o assassino de Helen e do espectador, especialmente ao vê-lo chorando quando se despede da mãe por telefone. E então, as atuações sensacionais dos dois chegam ao auge na cena em que Matthew confessa o crime diante de Helen, num momento inspiradíssimo de ambos que torna quase impossível a missão de conter as lágrimas. Penn está estupendo, corroído pelo medo e pelo arrependimento, enquanto Susan demonstra toda a compaixão de Helen com perfeição. Mas se momentaneamente nos comovemos com o sofrimento dele, Robbins novamente confirma a genialidade de sua estratégia ao intercalar as fortes imagens de sua morte com as cenas brutais do crime que ele cometeu, lembrando ao espectador o que ele fez e deixando que este decida se a pena capital é valida ou não.

Talvez Robbins deixe escapar levemente sua visão nas últimas palavras de Matthew: “Matar é errado, não importa quem faça, eu, você ou o governo”. A frieza com que ele conduz a cena da execução assusta e o impacto é ainda maior por acompanharmos aquele homem tremendo, chorando como uma criança e com o olhar tomado pelo medo da morte eminente. Após sua morte, dois planos idênticos em plongèe nos mostram os corpos de Matthew e dos jovens namorados, como se representassem a visão divina daqueles dois assassinatos. Um lamento? Talvez.

Tratando este tema polêmico com a seriedade que ele merece e contando com uma direção e duas atuações soberbas, o longa se estabelece como um complexo e profundo estudo não apenas da pena capital, mas também da própria natureza humana. Não posso dizer que “Os últimos passos de um homem” me ajudou a encontrar uma resposta para a pergunta do primeiro parágrafo deste texto, mas certamente a obra-prima de Tim Robbins me fez compreender melhor tanto os que defendem a pena de morte quanto os que são contra ela.

Texto publicado em 09 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira