OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (1995)

(Dead Man Walking)

 

Videoteca do Beto #133

Dirigido por Tim Robbins.

Elenco: Sean Penn, Susan Sarandon, Scott Wilson, Lois Smith, Jack Black, R. Lee Ermey, Celia Weston, Raymond J. Barry, Jon Abrahams, Robert Prosky, Clancy Brown, Kevin Cooney e Peter Sarsgaard.

Roteiro: Tim Robbins.

Produção: Jon Kilik, Tim Robbins e Rudd Simmons.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos temas me deixam mais indeciso do que a pena de morte. Se por um lado entendo que nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de seu semelhante, por outro tenho a plena convicção de que esta visão seria automaticamente deixada de lado caso algo ocorresse com alguém próximo a mim. Por isso, fico sem saber o que responder diante da pergunta: “Você é a favor ou contra a pena de morte?”. Pois o soberbo “Os últimos passos de um homem” nos ajuda a compreender melhor o tema de maneira genial, sem jamais pender para qualquer lado, num trabalho excepcional tanto de Tim Robbins atrás das câmeras quanto de sua dupla de protagonistas diante delas. O resultado de tanto talento junto só poderia ser um: uma obra-prima do cinema.

Escrito pelo próprio Robbins baseado em livro da verdadeira Helen Prejean, “Os últimos passos de um homem” narra a tentativa da freira Helen (Susan Sarandon) de salvar o condenado a morte Matthew Poncelet (Sean Penn), poucos dias antes de sua execução. Logo após receber uma carta do prisioneiro, ela passa a ter dúvidas sobre as provas do crime e tenta recorrer na justiça ao mesmo tempo em que se transforma em sua conselheira espiritual, contrariando a opinião pública, chamando a atenção da imprensa e sendo pressionada pelos pais das vítimas e pela própria família.

Um dos aspectos mais interessantes do excelente roteiro de Robbins reside no fato de que ele nunca condena ou absolve Matthew pelo que fez, deixando esta decisão exclusivamente para o espectador, como se o diretor/roteirista tomasse uma posição neutra, de mediador mesmo, apresentando os dois lados da moeda e deixando que a plateia pense a respeito. Esta discrição se reflete também em sua direção, que evita chamar a atenção na maior parte do tempo, valorizando as atuações do elenco. Aliás, toda a parte técnica do longa segue o mesmo raciocínio, prezando pela elegância e eficiência em detrimento de exibicionismos, como podemos notar nas cores pouco chamativas da fotografia do mestre Roger Deakins e até mesmo na trilha sonora econômica de David Robbins, que pouco interfere na narrativa, deixando o som diegético predominar em momentos chave e surgindo apenas para pontuar uma ou outra cena de impacto.

Mas, apesar de parecer “invisível”, Robbins sabe os momentos exatos de empregar técnicas que transmitam mensagens somente através do visual, como quando a câmera se aproxima de Helen quando o padre avisa sobre a natureza violenta de Matthew, destacando os olhos arregalados da assustada freira. Observe ainda como no primeiro diálogo entre Matthew e Helen, a grade, inicialmente densa, gradualmente nos permite ver o rosto dele graças à mudança de foco da câmera, simbolizando a queda daquela barreira e o início da aproximação deles. Esta lógica visual se repete no segundo ato, quando eles se encontram e a câmera se posiciona lateralmente, eliminando a grade e simbolizando a aproximação total entre eles – e repare que até mesmo no tradicional plano/contraplano a grade já não aparece mais. Nesta cena, aliás, o ótimo roteiro nos brinda com um diálogo sensacional, onde Matthew demonstra seu preconceito contra negros e é questionado de maneira brilhante por Helen.

Interpretada com brilhantismo pela excepcional Susan Sarandon (esposa de Tim Robbins), Helen surge demonstrando desde o início o peso da criação católica na formação de sua personalidade – algo que Robbins ressalta através do close do crucifixo que ela carrega no peito. Alternando entre uma assustadora postura confiante diante de situações nada convencionais e momentos de clara fragilidade e vulnerabilidade, Sarandon cria uma personagem ambígua, humana e extremamente cativante, extremamente fiel àquilo que acredita e com sabedoria suficiente para questionar até mesmo alguns valores pregados por sua própria igreja. Vestindo sempre roupas sóbrias e sem cor (figurinos de Renée Ehrlich Kalfus), sua Helen é compreensiva, inteligente e firme quando necessário, mas também é dona de uma compaixão extrema e genuína, o que é essencial para conquistar a confiança do desconfiado Matthew. Pra completar, a atriz ainda demonstra muito bem os conflitos de Helen, questionando em diversos momentos o que faz ao lado daquele homem, saindo-se bem ainda nos interessantes confrontos verbais propostos pelo roteiro, como aquele em que ela debate versículos bíblicos com o chapelão Farlely (Scott Wilson), mostrando como a Bíblia oferece diversas interpretações divergentes para um mesmo tema – algo que volta a acontecer num diálogo com um policial.

A verdadeira aula de interpretação continua durante as visitas de Helen, primeiro no destruído lar dos Delacroix e depois na casa dos amargurados Percy. Interpretado por Raymond J. Barry, o Sr. Earl Delacroix é responsável por uma das frases mais cruéis de “Os últimos passos de um homem”, quando afirma que “setenta por cento dos pais que perdem um filho se separam” após anunciar que se separaria da esposa, dimensionando o tamanho desta tragédia na vida de uma família. Igualmente comovente é o diálogo com os Percy, que demonstram toda a dor que sentem diante da perda da filha, num momento excelente do ótimo R. Lee Ermey (o sargento Hartman de “Nascido para Matar”) e de Celia Weston. Só que a dor não é um “privilégio” dos pais do jovem casal assassinado, já que a mãe de Matthew também sofre profundamente com a situação do filho, algo que Roberta Maxwell demonstra com grande sensibilidade em diversos momentos, como logo após a confirmação da sentença na junta do perdão. E fechando o elenco, vale citar a participação de Jack Black – ainda nos primeiros anos de carreira – como um dos irmãos de Matthew.

Chegamos então ao grande pivô de toda a situação. Certamente um dos mais talentosos atores de sua geração, Sean Penn oferece um desempenho absolutamente impecável na pele do condenado Matthew Poncelet, criando um personagem amargo, ambíguo e pouco carismático. Demonstrando com precisão a natureza explosiva do personagem, Penn surge constantemente tenso, na defensiva e sempre prestes a esbravejar contra tudo e contra todos. No entanto, o ator consegue a proeza de evitar que a plateia sinta repulsa por Matthew ao demonstrar a vulnerabilidade de um homem que participou de um crime horrível, mas que nem por isso deixou de ser humano. Por isso, mesmo condenando seu crime, o espectador por vezes se sente comovido ao constatar que aquele “monstro” também sente medo, aflição, angústia e dor, como qualquer outra pessoa sentiria.

De maneira inteligente, Robbins (e Penn, obviamente) evita cair na armadilha de transformar Matthew num coitado, mostrando seu lado negativo quando ele tenta “cantar” Helen e quando demonstra simpatia por Hitler, por exemplo. Além disso, os flashes da cena do crime que surgem repentinamente durante a projeção nos lembram do que ele fez, confirmando a perfeita estratégia do diretor e de seus montadores Lisa Zeno Churgin e Ray Hubley. Por outro lado, o sofrimento da mãe e dos irmãos humaniza Matthew Poncelet, proporcionando momentos igualmente comoventes, como a conversa dele com os familiares e a tocante despedida momentos antes da execução. Só que Robbins reequilibra novamente a balança, comprovando que evita a todo custo tomar partido, ao mostrar fotos do assassino e das vítimas quando crianças, o choro da mãe dele e dos pais dos jovens assassinados, entre outros momentos tocantes. Pra finalizar, o próprio Matthew confirma a complexidade da questão ao afirmar que “iria querer matar quem fizesse isso” ao responder como reagiria a um suposto crime contra seus familiares.

O terceiro ato se concentra nas angustiantes horas que antecedem a execução (ressaltadas através de inúmeros planos do relógio), aproximando ainda mais o assassino de Helen e do espectador, especialmente ao vê-lo chorando quando se despede da mãe por telefone. E então, as atuações sensacionais dos dois chegam ao auge na cena em que Matthew confessa o crime diante de Helen, num momento inspiradíssimo de ambos que torna quase impossível a missão de conter as lágrimas. Penn está estupendo, corroído pelo medo e pelo arrependimento, enquanto Susan demonstra toda a compaixão de Helen com perfeição. Mas se momentaneamente nos comovemos com o sofrimento dele, Robbins novamente confirma a genialidade de sua estratégia ao intercalar as fortes imagens de sua morte com as cenas brutais do crime que ele cometeu, lembrando ao espectador o que ele fez e deixando que este decida se a pena capital é valida ou não.

Talvez Robbins deixe escapar levemente sua visão nas últimas palavras de Matthew: “Matar é errado, não importa quem faça, eu, você ou o governo”. A frieza com que ele conduz a cena da execução assusta e o impacto é ainda maior por acompanharmos aquele homem tremendo, chorando como uma criança e com o olhar tomado pelo medo da morte eminente. Após sua morte, dois planos idênticos em plongèe nos mostram os corpos de Matthew e dos jovens namorados, como se representassem a visão divina daqueles dois assassinatos. Um lamento? Talvez.

Tratando este tema polêmico com a seriedade que ele merece e contando com uma direção e duas atuações soberbas, o longa se estabelece como um complexo e profundo estudo não apenas da pena capital, mas também da própria natureza humana. Não posso dizer que “Os últimos passos de um homem” me ajudou a encontrar uma resposta para a pergunta do primeiro parágrafo deste texto, mas certamente a obra-prima de Tim Robbins me fez compreender melhor tanto os que defendem a pena de morte quanto os que são contra ela.

Texto publicado em 09 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira

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O ÓLEO DE LORENZO (1992)

(Lorenzo’s Oil)

 

Videoteca do Beto #86

Dirigido por George Miller.

Elenco: Susan Sarandon, Nick Nolte, Zack O’Malley Greenburg, Peter Ustinov, Kathleen Wilhoite, Gerry Bamman, Margo Martindale, Maduka Steady, James Rebhorn, Ann Hearn e Laura Linney.

Roteiro: George Miller e Nick Enright.

Produção: George Miller e Doug Mitchell.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Algumas histórias são tão poderosas que nem mesmo os mais competentes profissionais conseguem transpor para a tela toda sua essência. Felizmente, não é o caso deste tocante “O Óleo de Lorenzo”, certamente o melhor trabalho da irregular carreira de George Miller. Captando com incrível competência a aura de sofrimento e angústia da família Odone e, ao mesmo tempo, realçando a luta daqueles pais obstinados na busca pela cura de uma cruel doença, o diretor e seu talentoso elenco entregam um filme magnífico, capaz de abalar as estruturas do espectador, especialmente (mas não exclusivamente) daqueles que já têm filhos.

O jovem Lorenzo leva uma vida normal até ser diagnosticada uma rara doença conhecida como ALD, que provoca uma degeneração do cérebro, levando o paciente à inevitável morte em poucos anos. Inconformados com a falta de tratamento, seus pais Augusto (Nick Nolte) e Michaela (Susan Saradon) decidem estudar por conta própria as causas da doença, na esperança de conseguir descobrir alguma forma de deter seu avanço, mas encontram a resistência dos médicos e da Associação dos pais de crianças portadoras da ALD.

Escrito por George Miller e Nick Enright, “O Óleo de Lorenzo” nos conta em detalhes a história real da dolorosa batalha enfrentada pela família Odone na tentativa de salvar seu filho Lorenzo – e independente de suas qualidades cinematográficas, a história já seria suficiente para comover as pessoas que tem filho (s). Mas Miller não se contenta apenas com seu tema forte, imprimindo um bom ritmo à narrativa, que, apesar de ser inevitavelmente episódica, cobre diversos anos da vida dos Odone sem jamais soar cansativa. Contando com a montagem de Marcus D’Arcy e Richard Francis-Bruce, Miller cria alguns momentos em que a passagem do tempo é indicada sutilmente, como quando Michaela, após ter seu pedido de ajuda recusado, diz para uma jornalista que ela deveria conhecer Lorenzo e, no plano seguinte, vemos Augusto agradecendo a doação e uma senhora chegando a casa dizendo que leu o anúncio no jornal. Além disso, o constante uso de fades (quando a tela escurece na transição entre duas cenas) aumenta a sensação de angústia, de perda e de desolamento no espectador, refletindo o sentimento de Augusto e Michaela. Esta atmosfera carregada nos suga pra dentro da narrativa, criando um constante clima de aflição, que ainda assim, jamais permite que os pais abandonem o menino. E o mais curioso é que apesar do início da narrativa na África fazer alusão ao misticismo e à fé (se apegar à fé é algo que poderíamos esperar de qualquer pessoa nesta situação), é na ciência que o casal vai encontrar uma forma de conter a grave doença de seu filho – ainda assim, a amizade de Omouri (Maduka Steady) será fundamental na recuperação do garoto e sua chegada dará ainda mais forças ao bravo Lorenzo.

Ainda na direção, vale destacar alguns inteligentes movimentos de câmera de Miller, como o contra-plongèe que esmaga o casal na igreja enquanto Michaela olha pra cima procurando ajuda divina ou o plano fixo que destaca a reação dos pais enquanto o médico fala sobre a doença. Neste momento, aliás, a espetacular Susan Saradon demonstra com precisão a dor da mãe ao ouvir o implacável diagnóstico do especialista, com os olhos marejados, a voz embargada e um misto de força e fraqueza no rosto incrédulo. Incrédulo também está Nolte, que se contém, até como uma forma de dar mais força para a esposa. Momentos antes, Miller introduz lentamente os elementos que indicam a gravidade da situação, como quando a câmera passa por Michaela, vai até a janela e mostra as crianças correndo em direção a Lorenzo, somente para em seguida uma garota entrar na casa e dizer que “Lorenzo caiu da bicicleta e está sangrando muito”. Após o cruel diagnóstico, o diretor, auxiliado pela fotografia de John Seale, afunda Nolte nas sombras quando Augusto inicia as pesquisas na biblioteca e, em seguida, um close em seus olhos realça seu desespero enquanto lê sobre as terríveis conseqüências da doença, nos levando à forte cena em que o pai, desesperado, grita de dor e despenca pelas escadas, pontuado pela evocativa trilha sonora de Christine Woodruff – que neste instante utiliza a mesma música tema de “Platoon”, mas durante toda a narrativa espalha temas obscuros, repletos de vozes que formam uma espécie de coral cantando música erudita, o que novamente faz referencia à fé. Este visual sombrio predomina boa parte da narrativa, como quando a família se deita na cama, também escondida sob as sombras, e o plano seguinte, com o clima nublado e chuvoso, indica o futuro complicado que eles teriam pela frente, ou quando eles estão olhando para as estrelas da janela, novamente com a escuridão tomando conta da tela.

George Miller confirma sua inteligência ao empregar com freqüência o close, que normalmente serve para realçar as reações dos atores, conseguindo extrair atuações muito fortes e convincentes de todo o elenco. Com a câmera próxima, ele enfatiza o sofrimento daquela família e, além disso, nos passa uma sensação claustrofóbica, criando um forte incomodo enquanto acompanhamos aqueles pais obstinados em busca da cura da rara doença do filho. Interpretada de maneira emocionante por Saradon, Michaela é uma mãe obstinada, que não desiste jamais, chegando ao ponto de entrar em contato com laboratórios, médicos, especialistas e tudo que for preciso para conseguir salvar o filho, ainda que raramente tenha forças para sair do lado dele. Enquanto isto, Nick Nolte apresenta um sotaque acidentado, além dos tradicionais gestos e gritos que compõem o típico personagem de origem italiana, mas cumpre bem o papel do determinado Augusto, demonstrando devoção na luta pela vida de Lorenzo. E se são muitos os momentos de destaque na atuação de Saradon, como a citada reação à notícia da doença ou as explosões de Michaela contra as enfermeiras que “cuidam” de Lorenzo, Nolte se destaca quando recebe a ligação que informa a redução dos níveis de C24 e C26 no sangue do garoto, reagindo de maneira comovente. Já o pequeno Lorenzo é interpretado por diversos atores, mas o grande destaque fica para Zack O’Malley Greenburg, que expressa todo o sofrimento do garoto através de sua dificuldade pra caminhar e falar, de suas tosses e, principalmente, durante as fortíssimas convulsões. E fechando a família, Kathleen Wilhoite se sai bem como Deirdre, especialmente na realista discussão com o casal Odone que resulta em sua saída da casa, logo após o plano em que a vemos conversando com Augusto e Michaela aparece na porta ao fundo. Após esta discussão, Augusto desabafa e culpa a esposa pela doença do filho (algo reprovável, mas compreensível diante de tanto sofrimento), num momento tocante, que expõe o limite daquele homem.

Além destes momentos, podemos destacar a grande atuação coletiva no tenso jantar na casa dos Odone com a família Muscatine (James Rebhorn e Ann Hearn), onde os interesses aparecem, mas também a dor de cada pai e mãe ali presente, apunhalados pelo destino e tendo que enfrentar um terrível sofrimento. A esperança dos Odone se choca diretamente com o ceticismo dos Muscatine, já sem esperança diante de tudo que viveram. Ainda assim, parece que a Associação comandada por eles está mais preocupada com o bem estar dos pais do que com as crianças, pensando inclusive em vender livros de receitas para gerar lucro, algo que fica evidente quando Loretta Muscatine pergunta “Qual é a pressa?”, levando Michaela a parar de mexer a comida (algo evidenciado pelo plano de Miller) e responder com raiva “Acho que nós duas sabemos a resposta para esta pergunta fútil”. Somando tudo isto a sempre comedida reação dos médicos diante das descobertas dos Odone, temos a sensação de que somente Augusto e Michaela estavam interessados em encontrar a cura daquela doença, sem se importar com as enormes barreiras existentes no caminho.

E então chegamos ao comovente momento em que Augusto pergunta à Michaela se ela “já pensou que toda esta luta pode ter sido para ajudar a criança de outrem”, jogando o espectador na lona e inevitavelmente trazendo as lágrimas. E de fato, a luta do casal não conseguiu reverter o quadro de Lorenzo, mas estagnou a doença e lentamente começou a recuperar alguns de seus sentidos. Por isso, quando ele move um dedo, temos a sensação eufórica de que todo aquele esforço não foi em vão – e a recompensa final vem nos créditos do filmes, quando dezenas de garotos curados pelo óleo de Lorenzo justificam toda aquela luta. O último plano do longa, com o pensamento de Lorenzo ganhando voz enquanto ele olha para o alto, nos deixa a sensação de que “O Óleo de Lorenzo” é um filme devastador em praticamente toda sua duração, mas vale a pena aguardar por seu final inspirador.

Com atuações magníficas (especialmente de Susan Saradon) e a segura direção de George Miller, “O Óleo de Lorenzo” comove sem ser melodramático, justamente porque a história que o inspira é suficiente para nos emocionar. E se durante grande parte da narrativa somos esmagados por sua atmosfera triste e devastadora, somos recompensados por seu belo final, que se não chega a ser otimista, pelo menos nos ensina a força que nós temos quando buscamos algo de verdade.

Texto publicado em 06 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira