DIA DE TREINAMENTO (2001)

(Training Day)

 

Videoteca do Beto #245

Dirigido por Antoine Fuqua.

Elenco: Ethan Hawke, Denzel Washington, Eva Mendes, Scott Glenn, Harris Yulin, Tom Berenger, Raymond J. Barry, Snoop Dogg, Dr. Dre, Nick Chinlund, Peter Greene, Jaime Gomez, Cliff Curtis, Noel Gugliemi, Raymond Cruz, Samantha Esteban, Charlotte Ayanna, Macy Gray, Denzel Whitaker e Terry Crews.

Roteiro: David Ayer.

Produção: Robert F. Newmyer e Jeffrey Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A profissão de policial certamente figura entre as mais difíceis e admiráveis do mundo. Responsáveis por manter a ordem e proteger os cidadãos, estes profissionais são preparados (ou deveriam ser) para enfrentar todo tipo de adversidade, seja em funções de menor risco como no controle do trânsito, seja nas divisões mais complicadas como as que tentam enfrentar o crime organizado. No entanto, a proximidade com o mundo do crime, a falta de treinamentos adequados, os complexos problemas sociais a sua volta e diversos outros fatores podem levar alguns destes profissionais a cruzar uma linha tênue e transformá-los naquilo que eles juraram combater. É precisamente neste dilema que “Dia de Treinamento” baseia boa parte de sua narrativa, apresentando dois personagens complexos, distintos e igualmente interessantes, ainda que aqui não reste dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho quando os créditos preenchem a tela no final.

Escrito por David Ayer, “Dia de Treinamento” acompanha Jake Hoyt (Ethan Hawke), um policial recém promovido a divisão de narcóticos que tem 24 horas para decidir se deseja ficar na equipe liderada por Alonzo Harris (Denzel Washington), um veterano que conhece todos os caminhos do crime organizado em Los Angeles e que tem um impressionante currículo de apreensões. No entanto, na medida em que o dia avança, ele descobre que a diferença entre o crime organizado e a polícia pode muitas vezes ser bem menor do que imaginava.

Partindo de uma premissa promissora, o diretor Antoine Fuqua consegue criar uma narrativa instigante e, auxiliado pela montagem de Conrad Buff, intercala entre travellings, muitos close-ups, câmera lenta e câmera agitada para manter um ritmo dinâmico que nos dá a constante sensação de que algo importante irá acontecer a qualquer momento, mantendo a tensão sem permitir que o espectador relaxe. Além disso, o diretor é hábil em criar um ambiente realista e coerente com o universo em que se passa a narrativa, algo reforçado, por exemplo, pela trilha sonora de Mark Mancina, que oscila entre o rap, a música latina e acordes mais pesados, jogando o espectador pra dentro daquela realidade de maneira competente. Da mesma forma, os figurinos de Michele Michel indicam desde o início a dualidade de Alonzo, que surge vestindo o preto típico dos vilões mesmo sendo vendido inicialmente como o tutor experiente e admirado que guiaria Jake.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Mauro Fiore acompanha a evolução natural do dia com o sol surgindo no horizonte no início, preenchendo boa parte do segundo ato e desaparecendo no fim, o que gradualmente torna o longa mais sufocante e nos prepara para o ato final. Vale citar ainda como o jogo de luzes e sombras cobre parcialmente o rosto de Alonzo quando ele pede para Jake executar um traficante, demonstrando visualmente sua faceta criminosa que naquela altura já estava evidente. Tensa, esta cena é crucial para entender o funcionamento daquele submundo e o diálogo que surge a seguir tem igual importância para compreender o questionável código moral de Alonzo.

Abordando diversos problemas sociais dos Estados Unidos, “Dia de Treinamento” falha pela forma caricata que retrata as comunidades e os latinos que cruzam o caminho de Jake, por exemplo, quando ele é abandonado por Alonzo para ser assassinado, numa cena, aliás, que é conduzida de forma muito realista por Fuqua, mas na qual infelizmente a solução para o conflito soa bastante artificial pela maneira simplista como a garota é convencida pelo tio a contar a verdade sobre a tentativa de estupro. Igualmente, quando o enfurecido Jake parte em busca de Alonzo na “Selva”, a comunidade que havia sido retratada como um dos locais mais perigosos da cidade anteriormente, impressiona negativamente como mesmo com os dois brigando, quebrando diversos objetos e atirando para todo lado, os moradores locais demoram uma eternidade para sair de suas casas. Para piorar, o comportamento destes diante do confronto não soa convincente, confirmando como o terceiro ato é de longe o mais fraco segmento do filme.

Felizmente, o realismo de diversas outras cenas compensa estes deslizes, como quando Alonzo utiliza um mandato falso para fazer uma busca numa casa e é obrigado a fugir dali sob os tiros dos moradores locais ou quando Jake sai em disparada para salvar a garota de um estupro e luta sozinho contra seus agressores. Vale citar ainda os diversos diálogos entre os dois policiais que contrapõem visões muito diferentes de mundo e que provocam boas reflexões.

No entanto, é mesmo nas atuações que “Dia de Treinamento” garante seu sucesso. Demonstrando o desconforto de Jake desde o início em sua casa e na primeira conversa com Alonzo num café, Ethan Hawke consegue a difícil tarefa de encarar de frente a excepcional atuação de Denzel Washington sem jamais soar inferior por estar vivendo um novato e, o que é ainda melhor, ampliar o impacto dela ao expor os reflexos das atitudes do veterano em seu personagem com destreza. Com suas expressões minimalistas, Hawke humaniza o personagem, transmitindo seus medos e dúvidas com precisão e, de quebra, saindo-se muito bem em momentos que exigem mais expressividade, como quando surge chapado após consumir as drogas roubadas pelo parceiro. Aliás, a forma como Hawke nos convence de que Jake será capaz de suportar as provações às quais é submetido é crucial para o sucesso da narrativa.

Ameaçador, descolado e já muito à vontade naquele universo, o Alonzo de Washington é o típico policial corrupto que já sabe todos os caminhos que pode percorrer e, mais do que isso, imagina que sabe até mesmo como lidar com jovens idealistas como Jake, apostando na dureza de seu comportamento e no choque como forma de convencer o jovem a aceitar seus métodos controversos, uma vez que, na visão dele, somente assim é possível vencer o crime organizado – e seus números impressionantes reforçam sua visão, já que por mais questionáveis que sejam, estes métodos levaram-no a prender muitos criminosos poderosos ao longo dos anos. Por outro lado, ele parece não dar a mínima para eventos cotidianos que não possam impulsionar sua carreira, o que o leva a pacientemente acender um cigarro e fumar enquanto Jake se engalfinha com dois criminosos numa rua defendendo uma jovem que estava prestes a ser estuprada. O que mais impressiona, no entanto, é como Alonzo acredita de fato no que diz e na forma que age, como fica explícito na conversa em que explica o conceito dos lobos e ovelhas para Jake ou quando, de forma irônica, pede ao jovem que recolha as provas recolhidas ilegalmente do traficante Blue, vivido pelo icônico Snoop Dogg. Para ele, os fins justificam os meios e aquela era a única forma de sobreviver naquele ambiente. A energia de Washington no papel é contagiante, conquistando o espectador mesmo diante de diversas atitudes reprováveis – e seu sorriso quando Jake utiliza um de seus bordões contra ele chega a ser comovente, evidenciando o quanto acreditava em seus próprios métodos.

Insinuando a corrupção policial logo de cara quando Jake diz para a esposa que ela deveria ver as casas que eles têm, referindo-se aos chefes de divisão da Polícia, “Dia de Treinamento” não hesita em questionar os riscos intrínsecos ao poder concedido a estes profissionais nos Estados Unidos, onde, por exemplo, existe o malfadado excludente de ilicitude proposto recentemente em nosso Brasil, que permite um policial matar em serviço, algo escancarado na citada cena do assassinato de um traficante, minuciosamente planejado por Alonzo. “Só por que temos distintivos é diferente?”, questiona Jake após o crime. A conversa a seguir dentro do carro expõe as visões opostas dos personagens, com Jake transtornado pelo que viu enquanto Alonzo demonstra compreensão pela reação dele e, estrategicamente, elogia o parceiro, numa tentativa de elevar a autoestima do rapaz para ganhar sua empatia e atraí-lo para aquele mundo. Só que Fuqua não deixa margem para interpretações e evidencia que reprova o comportamento de Alonzo, punindo o personagem na conclusão da narrativa e ratificando Jake como herói, o que não deixa de ser decepcionante pela forma ambígua que ambos foram desenvolvidos até ali.

De toda forma, os questionamentos levantados em “Dia de Treinamento” são muito válidos e ainda atuais, sendo aplicáveis não somente nos Estados Unidos, mas em outros países como o Brasil. Como deve agir um policial para sobreviver num ambiente em que está sob constante ameaça e no qual criminosos não hesitarão um segundo sequer antes de tirar-lhe a vida? Por outro lado, até onde este mesmo policial pode ir? Certamente não é aceitável roubar suspeitos e utilizar estes objetos roubados em negociações com informantes, atuar como juiz e não apenas condenar suspeitos como assassiná-los por interesses próprios ou consumir as mesmas drogas que busca retirar das ruas – e é relevante refletir sobre isso numa sociedade que muitas vezes confunde a busca por segurança com sede por vingança. Ao mesmo tempo em que é preciso oferecer proteção aos cidadãos e aos próprios policiais, também é preciso refletir sobre os riscos inerentes ao excesso de poder que por vezes é conferido a eles. Esta é a melhor discussão que o filme de Fuqua pode fomentar e é por isso que o terceiro ato decepciona ao transformar Alonzo num monstro unidimensional e afastá-lo do espectador.

Mesmo com estes deslizes, “Dia de Treinamento” funciona bem como um retrato da corrupção policial e da complexa situação vivida por quem é jogado na guerra ao tráfico, sejam policiais, sejam cidadãos comuns. Sedimentado em duas atuações brilhantes, funciona como bom entretenimento sem que por isso deixe de provocar reflexão, ainda que um terceiro ato melhor trabalhado pudesse elevar sua complexidade temática e narrativa. Imperfeito como Alonzo, num primeiro momento o longa de Antoine Fuqua conquista o espectador da mesma forma magnética com que o veterano policial faz com todos ao seu redor e, posteriormente, nos afasta da mesma maneira como Jake se afasta dele.

“Você quer ir para a cadeia ou ir para casa?”. Jake preferiu ir para casa. Sorte dele.

Texto publicado em 09 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

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OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (1995)

(Dead Man Walking)

 

Videoteca do Beto #133

Dirigido por Tim Robbins.

Elenco: Sean Penn, Susan Sarandon, Scott Wilson, Lois Smith, Jack Black, R. Lee Ermey, Celia Weston, Raymond J. Barry, Jon Abrahams, Robert Prosky, Clancy Brown, Kevin Cooney e Peter Sarsgaard.

Roteiro: Tim Robbins.

Produção: Jon Kilik, Tim Robbins e Rudd Simmons.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos temas me deixam mais indeciso do que a pena de morte. Se por um lado entendo que nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de seu semelhante, por outro tenho a plena convicção de que esta visão seria automaticamente deixada de lado caso algo ocorresse com alguém próximo a mim. Por isso, fico sem saber o que responder diante da pergunta: “Você é a favor ou contra a pena de morte?”. Pois o soberbo “Os últimos passos de um homem” nos ajuda a compreender melhor o tema de maneira genial, sem jamais pender para qualquer lado, num trabalho excepcional tanto de Tim Robbins atrás das câmeras quanto de sua dupla de protagonistas diante delas. O resultado de tanto talento junto só poderia ser um: uma obra-prima do cinema.

Escrito pelo próprio Robbins baseado em livro da verdadeira Helen Prejean, “Os últimos passos de um homem” narra a tentativa da freira Helen (Susan Sarandon) de salvar o condenado a morte Matthew Poncelet (Sean Penn), poucos dias antes de sua execução. Logo após receber uma carta do prisioneiro, ela passa a ter dúvidas sobre as provas do crime e tenta recorrer na justiça ao mesmo tempo em que se transforma em sua conselheira espiritual, contrariando a opinião pública, chamando a atenção da imprensa e sendo pressionada pelos pais das vítimas e pela própria família.

Um dos aspectos mais interessantes do excelente roteiro de Robbins reside no fato de que ele nunca condena ou absolve Matthew pelo que fez, deixando esta decisão exclusivamente para o espectador, como se o diretor/roteirista tomasse uma posição neutra, de mediador mesmo, apresentando os dois lados da moeda e deixando que a plateia pense a respeito. Esta discrição se reflete também em sua direção, que evita chamar a atenção na maior parte do tempo, valorizando as atuações do elenco. Aliás, toda a parte técnica do longa segue o mesmo raciocínio, prezando pela elegância e eficiência em detrimento de exibicionismos, como podemos notar nas cores pouco chamativas da fotografia do mestre Roger Deakins e até mesmo na trilha sonora econômica de David Robbins, que pouco interfere na narrativa, deixando o som diegético predominar em momentos chave e surgindo apenas para pontuar uma ou outra cena de impacto.

Mas, apesar de parecer “invisível”, Robbins sabe os momentos exatos de empregar técnicas que transmitam mensagens somente através do visual, como quando a câmera se aproxima de Helen quando o padre avisa sobre a natureza violenta de Matthew, destacando os olhos arregalados da assustada freira. Observe ainda como no primeiro diálogo entre Matthew e Helen, a grade, inicialmente densa, gradualmente nos permite ver o rosto dele graças à mudança de foco da câmera, simbolizando a queda daquela barreira e o início da aproximação deles. Esta lógica visual se repete no segundo ato, quando eles se encontram e a câmera se posiciona lateralmente, eliminando a grade e simbolizando a aproximação total entre eles – e repare que até mesmo no tradicional plano/contraplano a grade já não aparece mais. Nesta cena, aliás, o ótimo roteiro nos brinda com um diálogo sensacional, onde Matthew demonstra seu preconceito contra negros e é questionado de maneira brilhante por Helen.

Interpretada com brilhantismo pela excepcional Susan Sarandon (esposa de Tim Robbins), Helen surge demonstrando desde o início o peso da criação católica na formação de sua personalidade – algo que Robbins ressalta através do close do crucifixo que ela carrega no peito. Alternando entre uma assustadora postura confiante diante de situações nada convencionais e momentos de clara fragilidade e vulnerabilidade, Sarandon cria uma personagem ambígua, humana e extremamente cativante, extremamente fiel àquilo que acredita e com sabedoria suficiente para questionar até mesmo alguns valores pregados por sua própria igreja. Vestindo sempre roupas sóbrias e sem cor (figurinos de Renée Ehrlich Kalfus), sua Helen é compreensiva, inteligente e firme quando necessário, mas também é dona de uma compaixão extrema e genuína, o que é essencial para conquistar a confiança do desconfiado Matthew. Pra completar, a atriz ainda demonstra muito bem os conflitos de Helen, questionando em diversos momentos o que faz ao lado daquele homem, saindo-se bem ainda nos interessantes confrontos verbais propostos pelo roteiro, como aquele em que ela debate versículos bíblicos com o chapelão Farlely (Scott Wilson), mostrando como a Bíblia oferece diversas interpretações divergentes para um mesmo tema – algo que volta a acontecer num diálogo com um policial.

A verdadeira aula de interpretação continua durante as visitas de Helen, primeiro no destruído lar dos Delacroix e depois na casa dos amargurados Percy. Interpretado por Raymond J. Barry, o Sr. Earl Delacroix é responsável por uma das frases mais cruéis de “Os últimos passos de um homem”, quando afirma que “setenta por cento dos pais que perdem um filho se separam” após anunciar que se separaria da esposa, dimensionando o tamanho desta tragédia na vida de uma família. Igualmente comovente é o diálogo com os Percy, que demonstram toda a dor que sentem diante da perda da filha, num momento excelente do ótimo R. Lee Ermey (o sargento Hartman de “Nascido para Matar”) e de Celia Weston. Só que a dor não é um “privilégio” dos pais do jovem casal assassinado, já que a mãe de Matthew também sofre profundamente com a situação do filho, algo que Roberta Maxwell demonstra com grande sensibilidade em diversos momentos, como logo após a confirmação da sentença na junta do perdão. E fechando o elenco, vale citar a participação de Jack Black – ainda nos primeiros anos de carreira – como um dos irmãos de Matthew.

Chegamos então ao grande pivô de toda a situação. Certamente um dos mais talentosos atores de sua geração, Sean Penn oferece um desempenho absolutamente impecável na pele do condenado Matthew Poncelet, criando um personagem amargo, ambíguo e pouco carismático. Demonstrando com precisão a natureza explosiva do personagem, Penn surge constantemente tenso, na defensiva e sempre prestes a esbravejar contra tudo e contra todos. No entanto, o ator consegue a proeza de evitar que a plateia sinta repulsa por Matthew ao demonstrar a vulnerabilidade de um homem que participou de um crime horrível, mas que nem por isso deixou de ser humano. Por isso, mesmo condenando seu crime, o espectador por vezes se sente comovido ao constatar que aquele “monstro” também sente medo, aflição, angústia e dor, como qualquer outra pessoa sentiria.

De maneira inteligente, Robbins (e Penn, obviamente) evita cair na armadilha de transformar Matthew num coitado, mostrando seu lado negativo quando ele tenta “cantar” Helen e quando demonstra simpatia por Hitler, por exemplo. Além disso, os flashes da cena do crime que surgem repentinamente durante a projeção nos lembram do que ele fez, confirmando a perfeita estratégia do diretor e de seus montadores Lisa Zeno Churgin e Ray Hubley. Por outro lado, o sofrimento da mãe e dos irmãos humaniza Matthew Poncelet, proporcionando momentos igualmente comoventes, como a conversa dele com os familiares e a tocante despedida momentos antes da execução. Só que Robbins reequilibra novamente a balança, comprovando que evita a todo custo tomar partido, ao mostrar fotos do assassino e das vítimas quando crianças, o choro da mãe dele e dos pais dos jovens assassinados, entre outros momentos tocantes. Pra finalizar, o próprio Matthew confirma a complexidade da questão ao afirmar que “iria querer matar quem fizesse isso” ao responder como reagiria a um suposto crime contra seus familiares.

O terceiro ato se concentra nas angustiantes horas que antecedem a execução (ressaltadas através de inúmeros planos do relógio), aproximando ainda mais o assassino de Helen e do espectador, especialmente ao vê-lo chorando quando se despede da mãe por telefone. E então, as atuações sensacionais dos dois chegam ao auge na cena em que Matthew confessa o crime diante de Helen, num momento inspiradíssimo de ambos que torna quase impossível a missão de conter as lágrimas. Penn está estupendo, corroído pelo medo e pelo arrependimento, enquanto Susan demonstra toda a compaixão de Helen com perfeição. Mas se momentaneamente nos comovemos com o sofrimento dele, Robbins novamente confirma a genialidade de sua estratégia ao intercalar as fortes imagens de sua morte com as cenas brutais do crime que ele cometeu, lembrando ao espectador o que ele fez e deixando que este decida se a pena capital é valida ou não.

Talvez Robbins deixe escapar levemente sua visão nas últimas palavras de Matthew: “Matar é errado, não importa quem faça, eu, você ou o governo”. A frieza com que ele conduz a cena da execução assusta e o impacto é ainda maior por acompanharmos aquele homem tremendo, chorando como uma criança e com o olhar tomado pelo medo da morte eminente. Após sua morte, dois planos idênticos em plongèe nos mostram os corpos de Matthew e dos jovens namorados, como se representassem a visão divina daqueles dois assassinatos. Um lamento? Talvez.

Tratando este tema polêmico com a seriedade que ele merece e contando com uma direção e duas atuações soberbas, o longa se estabelece como um complexo e profundo estudo não apenas da pena capital, mas também da própria natureza humana. Não posso dizer que “Os últimos passos de um homem” me ajudou a encontrar uma resposta para a pergunta do primeiro parágrafo deste texto, mas certamente a obra-prima de Tim Robbins me fez compreender melhor tanto os que defendem a pena de morte quanto os que são contra ela.

Texto publicado em 09 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira